O DOUTOR manda me chamar e pelo corredor vou pensando que raios ele quer comigo.
Venho uma vez por mês e nunca o vi. Será que fiz alguma coisa errada?
Intriga da oposição, maldita inveja! Soube que andaram me elogiando e a fonte é fidedigna (dona Lazinha ouviu e comentou no exato instante que um indivíduo estava no corredor e ele falou pra fulana que arrendou a cantina que segredou para o porteiro Zequiel) e nos mês passado ele me reportou tudinho e uns e outros não conseguem engolir o sucesso alheio.
Terão que tomar muita água, para não engasgar e descer goela abaixo porque, juro que vou continuar dando o melhor de mim.
O DOUTOR está ocupado e espero, quando vejo sair um senhor muito bem vestido.
Reflito que se soubesse da distinção de ser chamado pelo DOUTOR teria pedido para a Terê ir fazer mais um crediário (que é uma ferida a mais pra quem está leproso?) e me ajambrava na maior estica.
O DOUTOR em pessoa abre a porta, estende a mão e pergunta como estou.
Fico vermelho e alegre - ele me chama pelo meu apelido: Tomate (somos íntimos agora).
Explica-me que fui designado pelo HOMEM para desempenhar uma tarefa, coisa de importância: entregar nas mãos, veja bem, ele frisa, só e unicamente nas mãos do CHEFE.
Chama seu assessor e determina que "aquele" material seja trazido.
De canto de olho vejo-o tirar de um cofre e colocar em cima da mesa um embrulho.
DOUTOR, sem delongas ordena que carregue a encomenda e a leve imediatamente, recomendando que não a balance, não a deixe cair e, em hipótese alguma, abra-a.
Despacha-me acenando a cabeça, demonstrando urgência.
Caminho até a rodoviária, pensando com meus botões: Será que o HOMEM me conhece?
Vê lá. Te manca, Tomate.
Compro o bilhete de volta pra casa e ainda bem que o próximo ônibus sai em meia hora. Meia hora é o tempo de ir ao mictório, necessidade urgente, urgentíssima.
Minha santa como faço para segurar a encomenda e ao mesmo tempo tirar o instrumento fora?
O DOUTOR não disse, mas de certeza, ele não iria achar recomendável que alguém (além de mim) segure (a encomenda), afinal sou o escolhido, de confiança, para transportar o precioso bem.
No mictório um moço vestindo um casaco de couro lava as mãos.
Aproximo-me e peço (com toda educação) se ele pode me ajudar tirando o meu instrumento e o segurando pra que eu possa realizar minha necessidade fisiológica.
Nossa, que sujeito sem educação.
Corro e afasto-me tentando me esconder no meio da multidão que desembarca de um carro.
Uma moça me assusta ao ver o estado em que me encontra e pergunta se estou bem.
Respondo sim, mas queria poder contar que sou quase um super agente, de confiança do HOMEM, que o DOUTOR chama pelo apelido e estou em uma missão secretíssima. De tão secreta que é nem eu sei.
Como não havia pensando antes? Encontrei a explicação.
O HOMEM tem relações com os chineses e vai ver que estou levando algum tipo de arma biológica que, em caso de emergência como uma invasão de extras terrestres, ataque terrorista ou uma epidemia de virótica poderá ser acionado.
Que responsa (sic), Lauro (Lauro é meu nome, prazer). De repente vejo a seriedade dos meus préstimos.
Minha mãe, que Deus a tenha, ao saber ficaria tão orgulhosa e seria um tapa na cara do pai. O velho me queria com os manos mais velhos trabalhando com na enxada, enquanto que eu preferia estudar e o carcamano me chamava de Maricas.
Velho cretino e agora? Tá vendo? Cá estou em incumbência de uma envergadura tal e qual do James Bond
Chega o busão (sic), tomo acento do lado da janela e uma velha metida a Barbie senta ao lado.
Uma Barbie anciã usando roupa de justa; pulseirinha no tornozelo; uns trecos no cabelo oxigenado (a raiz preta aparecendo); a pele esticada além da conta (se ela abrir muito a boca ou os olhos trinca tudo) e o furo no queixo deve ter sido originalmente o umbigo olha-me e se insinua.
Pouco me importo...Ostento a encomenda no colo e sinto como se ela fosse um troféu.
Um homem fardado entra e fico esperando que ele bata continência. Ele não deu importância.
Deixa estar...Desconhece que sou portador de algo de valor imensurável para a Nação. Nação nada, para a própria HUMANIDADE.
Cai a ficha e vejo que posso ter meu no colo uma bomba.
C*! Não! Decididamente não.
O HOMEM é um indivíduo com relacionamento até em Brasília e não iria estar mancomunado com terroristas.
Mas e se ele tivesse sido forçado? Se a mãe dele foi raptada, feita refém e ele para tê-la em liberdade submeteu-se às exigências dos terroristas?
Jesus, Maria Santíssima! Valha-me meu Deus!
Sou ainda novo pra morrer e quase choro.
A Barbie véia não fica quieta e propositalmente encostada no meu braço e me encolho.
Descarada, sem vergonha, vê se te enxerga - penso e ela capta se levantando (obrigado Santo Expedito) e indo sentar noutro lugar.
Vai aumentando a vontade de esvaziar a bexiga e quando não agüento mais vou me equilibrando de banco em banco até o fim do ônibus, com a encomenda em uma das mãos.
Chego ao banheiro; com o pé chuto a porta e além do barulho que faz ao bater ouço um grito. Eu só não, todo mundo.
Assusto e quase vai pro chão a encomenda.
Olho, pisco forte, não querendo crer que a cena possa ser real: a Barbie está sentada na privada, de saia levantada e a calcinha vermelha arriada.
Ela fala, grita alto, chora e chama a atenção dos companheiros de viagem.
Acusa-me de ter a molestado desde que a viagem começou, bolinando-a e que minha tara deve ser transar em um veículo em movimento.
Faz uma pausa esperando para ver o efeito de suas palavras e depois diz que sou maníaco por sexo e os passageiros, perplexos dão as mais estapafúrdias das idéias.
O motorista diz que vai parar no primeiro posto policial para que o monstro (no caso, eu) e a vítima se entendam com as autoridades.
O cara fardado sugere que pare ali mesmo e que ele vai dar o corretivo que mereço, pois onde já se viu um homem assim abusar de uma jovem mulher?
Jovem? A p*! Se ela for jovem eu sou mico de circo, grito para ele.
A anosa chora e se não fosse pela encomenda iria matá-la com requintes de crueldade.
Uma loira levanta-se pedindo silêncio (os passageiros falam todos ao mesmo tempo) e é atendida.
Argumenta que a dama ofendida passaria por grande constrangimento perante a polícia e que talvez ela tenha interpretado de forma errada.
Já sei! Deve ser uma aliada, que o HOMEM, plantou para acompanhar minha missão. É tipo assim, uma Mata Hari tupiniquim.
Ufa. Vencemos, querida, digo telepaticamente a ela.
O bom censo prevaleceu e estou indo sentar, mas ao passar pela minha parceira trocamos um olhar significativo, de cumplicidade mesmo, rolou química, muita.
A vontade de urinar até passou e durante restante do percurso atento para não cochilar e a encomenda cair, mas quando percebo é noite e chegamos.
Desço e mal posso esperar pela minha parceira, mas o da farda avisa que se vou ficar parado na plataforma ele mesmo vai mostrar o método que ele usa com homens que xumbregam as damas.
Ando e a encomenda comunica-se comigo. Pasmo, sinto que ela toma vida, pulsa e informa que foi trazida de um planeta cuja civilização que detém um elevado grau de sabedoria.
A tecnologia avançada dele irá ajudar para que muitas doenças sejam curadas; o programa de recuperação moral vai reformular a vida dos humanóides (nós) e vai haver muita prosperidade e EU, questiono.
Será reconhecido tanto lá (no outro planeta) como aqui.
Já em casa (ufano) chamo a mulher e os filhos. Digo-lhes o pai não pode contar os detalhes da missão, mas, por favor, ou melhor, pelamordedeus (sic), não façam barulho, não tentem pegar e não comentem com quem quer que seja que eu a trouxe.
Demonstrando desinteresse saem e a Terê pergunta se quero comer.
- Tola! Acha que alguém a quem foi confiado um trabalho como o meu iria ter fome?
Vou ao banheiro e levo a encomenda.
Afetivamente a deposito em cima da tampa do vaso sanitário e com dor, tento acertar o jato no bidê.
Quando a Terê constatar como se encontra o chão do banheiro vai comer meu fígado, mas a causa é humanitária e ela vai ter que, forçosamente, reconhecer que sou um predestinado.
Na sala coloco a encomenda na mesinha de centro que por sua vez, encosto ao sofá. Deito-me, abraço-a e com sua habitual gentileza me agradece por estar se sentindo aconchegada.
Dou um beijo de boa noite e asseguro que a velarei.
Fecho um olho apenas e o outro faço esforça para não fechar e ...
- Lauro, cê (sic) tá perdendo hora, grita Terê do quarto.
-Psiu, fale baixo, mulher. Ela é sensível e Deus nos livre se ocorrer por conta dos seus berros uma mutação genética.
Tomo em meus braços (a encomenda e não a Terê) e coloco-me à caminho do trampo.
Conversamos telepaticamente e fico sabendo que recompensado por tudo que serei. Senti rolar química entre nós, te juro.
Espero pela chegada do CHEFE por mais de horas e quando a dona Malu faz a sugestão de deixar o pacote com ela e ir trabalhar seguro-me para não a mandar às favas.
O CHEFE chega e vendo-me, com cordialidade convida-me a entrar.
Demonstra saber do que se trata e sem delongas toma o precioso e estimado bem das minhas mãos.
Rasga o papel pardo (oh, insano, cuidado!).
Mentalmente rogo a Deus que faça com que o CHEFE não se demore em me mostrar o conteúdo.
Agora é lentamente que ele vai abrindo e estou prestes a ficar de joelhos diante da entidade que terei à frente, a quem já chamo de amor.
Glória, louros, fama e reconhecimento - terei.
O próprio Papa vai beijar minhas mãos em sinal de gratidão e o tal Bush vai me convocar para ir lá aos estaites (sic) ensinar a turminha dele.
Ensinar o quê? Sei lá, tanto faz... Certeza só tenho a de que nunca mais serei o mesmo.
O CHEFE dá um grito de satisfação, mas se posiciona de forma de não consigo ver o que existe na encomenda.
Corro, mudo de lugar, passo por trás da mesa e finalmente vejo e nada entendo.
- Tijolos, CHEFE?
- Sim, são, mas não se trata de meros tijolos, meu caro. O HOMEM, que é muito meu amigo (grande coisa, é meu também) sabendo que sou colecionador de raridades ao ver que esses 3 possuem o escudo da família imperial comprou-os e está me presenteando. Vou mandar abonar seu cartão de ponto, mas repõe no sábado as horas, ok?
A miopia que ele mostra deixa-me atônito e sorrindo estou deixando o aposento.
Recebo telepaticamente o comunicado que nunca ninguém poderá ver a sola do pé esquerdo e que nem todos estão no mesmo patamar.
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