| Distância |
|
|
|
O mundo não posso te dar, então nem cogito isso.
Mas muita coisa poderia, se não fosse a distância. Dar-te-ia uma tarde de riso, uma noite de sonho, uma manhã de dengo. E depois, se você gostasse, daria tudo de novo. Dava um banho gostoso. Massagem no corpo todo. Cafuné até você dormir. Café na cama não levo. Ia sim fazer você madrugar pra juntos irmos a um mirante esperar o sol nascer. E enquanto o astro rei encenasse o espetáculo da aurora conversaríamos sobre tudo e sobre coisa alguma. Sobre ser e sentir. Sobre querer e ter. Conversaríamos sobre o antes e o agora. Riríamos das nossas desventuras e choraríamos de rir das nossas travessuras de adultos. Quanto custa um sorriso teu? Da pra comprar com cócegas? Faria um ataque de cócegas até você perder o fôlego de tanto rir. Vamos brincar de pega? Eu corro e você vem atrás. Pulo os degraus da escada, subo em árvore, corro pelo jardim e você nem me pega, nem me pega, nem me pega... Você vai perder o fôlego antes de conseguir me conter e eu vou rir muito de você ter deixado os anos fazerem isso com você. Mas você também vai rir. Vai rir por ter-se deixado levar por uma quase quarentona que pensa e age como se ainda fosse criança. Riremos juntos. Eu sei que você também não cresceu. Não posso, penso eu, resolver teus problemas. Mas por algumas horas eu poderia te fazer esquecer deles. O mundo não posso te dar, já disse. Mas por algumas horas poderia mudar um pouco o teu mundo. Se nessas horas estivesse escuro, falaríamos de luas e estrelas. Se o sol castigasse, falaríamos das borboletas e da sua capacidade de evoluir. Se estivesse chovendo, brincaríamos na chuva. Tempo ruim não haveria, ao menos por algumas horas, se não fosse a distância. Mas ela existe, e sendo assim, só resta a mim apelar pra fantasia e te dizer: Se estiver chovendo, vou ser as gotas que dançam no teu telhado e te convidam pra rir um pouco. Seja louco e dance na chuva comigo. Se o sol estiver nascendo, serei a borboleta que passeia pelo jardim. Esqueça os compromissos e corra atrás de mim, tente me pegar. Se for noite serei o vento, com cheiro de jasmim, querendo te fazer cócegas. E se uma luz qualquer brilhar no teu céu serei eu esperando você vir pro sereno pra gente conversar sobre tudo e sobre coisa alguma, sobre ser e ter, sobre querer... Se você pensar em mim eu estarei pensando em você, e entre um pensamento e outro a gente se encontra. Quem sabe assim a gente não engana a distância e faz ela sumir, nem que seja só por algumas horas.
|
| < Anterior | Próximo > |
|---|