Lágrimas de Prata - O fim da Comissão de Guerra Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Brunno, em 30-09-2008 21:34
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Em Londres a Cúpula de Guerra separou-se da Comissão. Os ataques haviam cessado e os comandantes das nações teriam algum descanso em palácios que ainda estavam em pé e antigas mansões em Stanfordshire. A Comissão de Guerra foi transferida para um prédio em Sutton, centro da cidade.

Junto à Comissão estavam generais ingleses, franceses, canadenses e americanos, estes últimos a grande maioria. De Gaulle havia solicitado a Liv que fizesse um relatório pessoal sobre o dossiê Manhattan e que assim que terminado, ele teria de preparar os termos franceses para uma reunião importante.

Sentada sozinha num canto da sala de reuniões da Comissão, ela batia a uma máquina como se catasse milho sobre as teclas, sua estenografa morrera no último ataque. O general Boffey veio trazendo um café para os dois e sentou-se diante dela.

__É impressão minha ou está com a mesma roupa há dias, menina? - perguntou o general, tentando distraí-la.

Ela sorriu, estava envergonhada, não tomava um banho há dias e seque pensara nisso.

__Não se acanhe - disse o velho general - Eu também não estou na minha melhor forma - passou a mão pelo rosto indicando a barba rala - Estou preocupado com você, Liv.

Ela tomou o café e jogou os olhos para cima. O teto não tinha as respostas que ela queria. Perguntou ao general o que o estava afligindo.

__Está guerra não está fazendo bem a ninguém, isso é obvio. Mas você tem tomado decisões difíceis para alguém tão jovem e bonita.

O general se referia à contra-ordem que fora de autoria dela. Quando mandou que arrancassem o que fosse necessário do traidor preso na Thames House, fez com que os soldados o torturassem até que ele dissesse como estava passando as informações para os alemães.

"Façam o que for necessário" ela disse. Os homens obedeceram. Liv ainda não havia aceitado o fato de ver o traidor caído na cadeira com o rosto desfigurado, mas sentia-se triunfante por passar a mensagem falsa aos alemães.

__Foi o que os fez avançar com força total sobre Ardenes - respondeu friamente - foi um milagre nossos rapazes terem conseguido manter a linha de defesa até a chegada do reforço americano - continuava bonita, mas já não era tão mais jovem.

__Não me preocupa o resultado da ação, Liv. O que me está tirando o sono é sua idade e responsabilidade nessa guerra. Não acho que uma jovem de vinte e poucos anos esteja pronta para assumir os riscos de passar anos remoendo essas lembranças, e definitivamente, não precisa disso.

__Não posso simplesmente ir embora, general. - ela ajeitou a camisa que um dia foi branca e tentou se concentrar na máquina.

__Soube que deu ordens aos assessores para não mais tocar no assunto do SAS. - ela manteve os olhos baixos e mordeu os lábios - Quero que saiba que se quiser conversar sobre isso, estarei à disposição a qualquer hora. Alguém com minha experiência pode ajudar - gentil, pousou a mão sobre a dela.

Ela agradeceu sorrindo e continuou trabalhando. Assim que o general deixou a sala, Liv começou a chorar. Aquilo tinha que acabar. Suspirou e tentou manter a calma, havia pessoas ali que precisavam dela trabalhando. Chamou um de seus funcionários e pediu um aparelho de rádio.

__Senhorita Duncan - chamou um dos ajudantes-de-ordens - sua presença é requerida junto à Cúpula de Guerra, no prédio do Parlamento, imediatamente.

Ela deixou o rádio de lado e concentrou-se. Pediu às moças que trabalhavam na sessão que lhe arrumassem uma roupa nova, o apartamento que lhe fora designado estava destruído. Tomou um banho de água gelada que caída de um cano estourado em um banheiro velho e vestiu as melhores roupas que pôde.

Fez bem em se arrumar. Assim que chegou ao carro que a levaria, notou que havia outros e que todos estavam transportando os generais e oficiais franceses para o mesmo lugar. O prédio do Parlamento Britânico tem sua fachada de frente para o Tamisa. No momento em que a comitiva chegou, as luzes estavam se acendendo e aquilo trouxe um sorriso no rosto da moça.

Todos foram conduzidos pelo Mestre de Cerimônias e aquela pompa estava estranha demais. Era chamados à mesma sala em que reuniam-se naquele momento, o General David Dwight Eisenhower, o Presidente dos Estados Unidos da América Franklin Delano Roosevelt, o Primeiro-Ministro britânico Winston Churchill, o General de Exército Bernard Montgomery, o Presidente em exercício e comandante da França Livre, General Charles de Gaulle e o novo Ministro da Guerra da França Livre, General de Divisão Antoine Clarioux Boffey.

Estava-se iniciando mais uma reunião dos franceses em solo inglês e seguindo-se a isso, nos idos de fevereiro, a Conferência de Yalta, na Criméria, iria decidir o que fazer com o mapa do mundo no período pós-guerra.

Já se falava em pós-guerra. Hitler esbravejava em Berlim ao saber da derrota e retirada ou captura das tropas alemãs em Ardenes. A informação que recebera de Londres era falsa e sua fonte fora contaminada pela esperteza Aliada.

Sentaram-se todos ao redor da grande tabula e contavam com uma amazona jovem que fora parabenizada pelos generais. Ainda tinha uma cicatriz discreta no rosto devido ao último ataque alemão e o sangue de todos ainda fervia de raiva.

__Quanto ao dossiê que foi apresentado aos senhores - começou o presidente americano - Acredito que todos são da opinião da necessidade dessa atitude. Não é raro ver que a vendeta trata de justificar as ações humanas as mais espúrias, o que, lhes asseguro, não se encaixa no contexto. Hoje esta Cúpula de Guerra, assessorada por sua laureada Comissão de notáveis, deve expor de livre pensamento seu voto quanto ao que deverá acontecer nos próximos meses.

Todos imaginavam, mas não tinham como saber exatamente do que tratava o dossiê intitulado "Projeto Manhattan". O grande inimigo no momento eram os japoneses. Ainda que com sua frota dizimada, era grande o número de divisões em combate. Os americanos preparavam o desembarque em Iwo Jima para os próximos dias e Okinawa seria o passo seguinte, em março, contando com os soviéticos que haviam alertado a Cúpula que de que sua ajuda era iminente.

Neste momento entrou na sala um grupo de militares trajando casacos cinza que cobriam até os tornozelos. Dez ao todo, os homens grandes e sérios ficaram em pé atrás de uma cadeira reservada. O último homem era grande como os demais, só que mais velho. Usava um bigode farto, tinha o rosto quadrado e duro, expressão fechada, vestia-se com o casaco cinza e tinha sobre os ombros abetas vermelhas assim como na pala do quepe.

Decorando as abetas e o restante do uniforme, a inconfundível estrela vermelha fazia flanco com a foice entrecortada pelo martelo.

__Comissão de Guerra - disse o Primeiro Ministro - Quero lhes apresentar o Secretário Geral do Partido Comunista da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, General Joseph Stalin.

Parecia que um som grave e gutural vinha de algum lugar da sala. Liv achou aquele homem sombrio e limitou-se a menear a cabeça discretamente enquanto os demais se levantavam para saudar o homem. O russo chamou um de seus homens e perguntou alguma coisa que ninguém entendeu.

Queria saber quem era a jovem e o que estava fazendo ali. Já que a reunião não teria ata e não seria transcrita em documento, não era necessária a presença de uma secretária. Isso ele disse em inglês alto e claro.

__Está é a senhorita Liv Marie Duncan, General - disse Eisenhower - Dela partiu a iniciativa que levou à prisão o traidor dentro da Thames House e como último ato, emitiu a contra-ordem que deu base para Adolf Hitler atacar as Ardenas com tudo o que tinha. Se não me engano é exatamente de posse dessa informação que o senhor ordenou marcha à Berlim.

O rosto do homem mantinha-se duro. As mãos estavam pousadas nos braços da cadeira. Lentamente o russo levantou e caminhou até ela. Pediu que ela ficasse de pé. O rosto de Liv batia no diafragma de Stalin.

Ele apertou a mão dela sem sorrir. Ainda assim ela não gostou nada daquele homem. Sentia que ainda teria problemas com ele.

Continuando a reunião ficou decidido que iriam seguir em frente com o projeto assim que os dirigentes, na pessoa do doutor Robert Oppenheimer, dessem sinal verde. O único que realmente estava preocupado com o que aconteceria era exatamente o presidente Roosevelt.

Combalido por uma série de moléstias que o havia acometido nos últimos meses o governante americano, sempre preocupado com sua imagem, não queria deixar aquele tipo de legado de seu mandato. Honestamente preferia não tomar aquela decisão. Sua ida a Londres tinha como principal objetivo a Conferência de Yalta, mas não havia outro jeito.

Mesmo tendo reconhecido a presença e autoridade de Liv na reunião, Stalin não estava confortável com o voto dela. Terminados os tópicos da discussão a palavra foi dada a quem dela quisesse fazer uso. Ninguém o fez, queriam tomar a decisão logo.

Consultando os dirigentes e tendo ficado certo de que estava tudo de acordo, iniciou-se a votação. Um a um todos disseram "sim". Aprovado por unanimidade. O Projeto Manhattan que lançaria o primeiro artefato nuclear sobre uma cidade estava oficialmente na pauta de guerra, aguardando apenas a liberação de Oak Rigde.

Tão rápido quanto começara, a reunião terminara. Liv e a comitiva francesa preparavam-se para voltar ao prédio em Sutton, quando Boffey veio falar com ela.

__Essa conferência na Criméia reunirá apenas os envolvidos em decisões políticas, você não tomará parte nela. - ele disse firme, como se fosse uma sentença.

__Imagino que como novo Ministro da Guerra, o senhor estará com o General De Gaulle. - ela cruzou os braços e encarou o general - tenho certeza de que é o homem certo para assumir essa função.

Ele sorriu porque sabia que ela receberia outra notícia importante.

__Esta guerra mudou você, não foi? Lembra-se da menina que saiu em passeata em Paris? Onde ela está?

__Procurando o covarde mais nobre que já viu. Agradeço suas palavras de carinho comigo esta tarde, general, mas acho que não estou com cabeça para pensar em...

Boffey levantou um dedo para fazê-la calar. Firmou os olhos verdes, meio apagados depois de mais uma decisão difícil e enxergou no fundo, a menina de boina que saiu cantando a Marseillaise pela Champs Elysées em 1939.

__Como Ministro da Guerra da França Livre tomei uma decisão acima da sua ordem - tirou um papel de impressão de rádio do bolso da farda de gala - Dentre os sobreviventes da batalha de Ardenes, do que restou dos homens do SAS, cinco ao todo, estão os soldados franceses Pierre Demolet e Henri Gascoin. Quem informou foi o novo comandante deles, já que perderam o tenente-coronel De Bruce.

Ela não queria chorar. Pegou aquele papel e agradeceu ao general. Pretendia ler com mais calma assim que retornasse ao centro de comando em Sutton e quando ia saindo ele a deteve no corredor.

__Não vai participar da Conferência de Yalta, Senhorita Duncan, porque neste momento começa sua viagem da volta à Paris. Conhecerá seu novo posto assim que retornar a solo francês. - abriu um sorriso paternal porque sabia que era o que ela queria ouvir.

Era difícil ajoelhar com uma saia justa até os tornozelos, então, ela desabou no chão, agora sim, chorando, agarrada ao papel.

Na manhã seguinte uma Liv sorridente despedia-se de seus colegas dos últimos anos na Comissão de Guerra e embarcava num Constelation da British Airways, cruzando a recém libertada via Londres-Paris.


Publicado em : Literatura - Contos, Policial
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