| Lágrimas de Prata - A Caserne de Mortier |
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Um dia terrível na concepção de certas pessoas, é um dia ensolarado e quente. Normalmente os ingleses estão acostumados a ver o sol poucos meses do ano. Enquanto os governantes de seus países estavam fazendo as malas para seguir para Criméia, e enquanto o Colegia Fabrorum - instituição criada para reconstruir os prédios destruídos na guerra - reerguia Londres, os ingleses em Bastogne agradeciam aquele dia de chuva.
Haviam lutado na Alemanha, África, Itália, Suíça, França, e agora haviam lutado na fronteira belga. As casas dos civis que haviam sido destruídas pelo bombardeio alemão teriam de esperar para ficar novamente em pé, mas eram excelentes abrigos naquele tempo. O SAS fora alocado num sobrado de vários quartos, o que deveria ter sido uma pensão ou hotel barato antes da guerra. Estavam em cinco quartos no último andar e recebiam visitas de americanos, franceses, ingleses, canadenses e belgas. Todos costumavam se visitar. Era interessante conhecer gente nova. Os hambúrgueres que os americanos teimavam em fazer eram bons. A cerveja belga era forte e saborosa. Os canadenses eram simpáticos e os franceses eram divertidos. Gascoin e Demot encontraram amigos naquela guerra. Henri não tinha ninguém em Paris que pudesse chamar de amigo, então ficou conhecendo o pessoal que trabalhava com Pierre. Eram gente boa, de boa conversa. Haviam lutado muito menos do que eles porque faziam parte do exército de apoio no coração da Europa. Designados para cuidar que os alemães não recuperassem territórios ou não fossem reabastecidos, o exército de apoio funcionou como coadjuvante, agindo em combate efetivo poucas vezes, então, eles adoravam saber das histórias dos compatriotas Marquis que haviam lutado pela defesa da linha Maginot. O grupo não estava no mesmo local de anos atrás, ao contrário, Bastogne fica longe do campo onde estão, ainda hoje, as ruínas do hospital Saint Bernard. O pessoal americano era especialista em fazer festa e bater papo. Quando não estavam lutando estavam ouvindo músicas e tirando sarro uns dos outros, para tentar amenizar o clima. E com a graça de Deus o clima estava amenizado. Era o terceiro dia depois da retirada alemã e nenhum tiro sequer fora ouvido nos últimos dias, algo que para os homens escalados para as operações Cobra e Anvil não acontecia há tempos. Ainda assim mantinham as armas carregadas e à mão. __Pra onde será que vamos agora? - perguntou um dos americanos a esmo no grupo em que conversavam. __Ora, Marvin, tanto faz! - respondeu um colega - Agora esses alemães não podem mais fazer nada! Os Nazis estão correndo pra casa! - e riam todos. __Soube que há um grupo de brasileiros dando trabalho aos italianos em Monte Castelo - disse outro. __Eu queria conhecer os brasileiros! Carmem Miranda! - bradou um dos mais empolgados e em pé, começou a imitar os trejeitos da cantora, gargalhadas dos demais. __E vocês ingleses? Para onde acham que serão mandados agora? Sabemos que perderam seu comandante e sentimos muito por isso, caras... __Eu não ligaria se o velho Sargento Bourne batesse as botas - interrompeu outro arrancando mais risadas. __É, mas esses caras enterraram o comandante deles com toda pompa e circunstância. Devia ter um sido um homem e tanto - levantou a garrafa de cerveja convidando o SAS para um brinde, ao que foi correspondido por todos. __Ele era sim. Um bom comandante - respondeu Lions - Mas não sabemos para onde vamos. Nossa comunicação com Londres estava a cargo do coronel, que falava diretamente a alguém na... Não me lembro - arqueou a sobrancelhas para Demot. __Comissão de guerra. Era isso! O coronel falava alguma coisa com uma tal de comissão de guerra. Eram eles quem determinavam para onde nós íamos. - disse o francês. Um dos americanos levantou e deu uma boa olhada em volta. A cidade estava em ruínas, toda destruída. Ajeitou o cinto e olhou o pessoal. Mais divisões belgas saíam das tocas, o tráfego aéreo estava ficando mais intenso. __Eu tenho um primo que trabalha como radio-man na terceira divisão de caçadores da Easy Company. Ele disse que ouviu umas conversas sobre mais desembarques aliados no Japão. Os homens se olharam e digeriram a idéia por um tempo. __Achei que os japas estavam derrotados. Não foram os australianos que afundaram os navios deles no sul do Pacífico? __Pois eu daria tudo para pegar alguns deles - disse outro dos ianques, com raiva - meu irmão era oficial de dia em Pearl Harbor e deixou uma esposa e duas filhinhas... O sentimento de revanchismo dos americanos teve de ser contido visto que o tamanho do exército de Hitler era maior que a ameaça nipônica. Os filhos e parentes de todos os gêneros dos envolvidos no ataque ao Arquipélago das Pérolas agora eram irmãos de armas na mesma guerra e queriam lavar a alma. __Nós não sabemos o que fazer - disse Gascoin ao grupo - soubemos ontem que até os russos estão entrando na Alemanha. Imaginam o tamanho do exército deles! __Considerando o tamanho do país, tenho pena dos... - todos olharam Demot-... Desculpem, eu retiro o que ia dizer. __Mas você tem razão. Não estamos nessa guerra para matar civis. Se os russos forem com tudo para cima de Berlim, muita gente vai morrer e não se esqueçam que crianças, mulheres e alguns homens não estão lutando, apenas tentando ficar vivos. __Meu Deus! Imagine ser pai nessa guerra desgraçada... - os demais afastaram o fantasma e concentraram-se nos passos firmes do Capitão Ross, novo comandantes da Easy em Bastogne após a morte de Kinard. __De pé, sacos de sangue! - gritou o capitão. Somente os americanos levantaram - Amanhã estarão sendo levados para a Alemanha. Sob as ordens do tenente Gore vocês farão parte do grupo que deverá encontrar os soviéticos em Hannover. O Exército Vermelho - como estão sendo chamados os russos - já capturaram Varsóvia e os japoneses deixaram a costa chinesa. O Eixo está correndo pra casa e vamos garantir que não seja uma viagem tranqüila. O SAS voltou para frente do "hotel" em que estava "hospedado", seu novo comandante vinha em direção a eles. Em onze de Fevereiro de 1945 uma foto histórica foi feita. Vê-se o Primeiro-Ministro britânico sentado descontraído conversando com o Presidente Roosevelt e ao lado deles, na outra ponte do banco o General Stalin, duro, olhando pra frente, condizente com o futuro das relações dos três países. O que foi divulgado para a imprensa sobre a Conferência de Yalta era de que se tratava de uma reunião para determinar o fim imediato do confronto e o mantenimento das nações pós-guerra. O General De Gaulle, não sendo líder de um país unido, ainda, não participou da foto, mas foi quem mais lucrou com o encontro. Ao contrário de De Gaulle, esquerdista absoluto e pouco afeito às relações com os americanos, o General Henri Giraud estava naquela foto, imediatamente atrás de Roosevelt, e sorridente. Secretamente a reunião serviu para determinar a divisão dos blocos de influência comunista e capitalista no mundo pós-guerra e especialmente no centro e leste europeus. Charles de Gaulle recebeu o comando geral das forças de guerra da França, e governo provisório que duraria até 1946. Foi a formação de sua base política para o estadismo que viria em 58. __Nós temos duas escolhas... - disse o novo comandante do SAS ao grupo, sentado sobre os capacetes Neste momento o Constelation de Liv assentava as rodas sobre a pista do aeroporto internacional de Paris. O coração da morena estava disparado. Soltou o sinto de segurança e começou a caminhar pelo corredor. __...Londres me disse que a Comissão de Guerra foi desfeita. Então nós podemos simplesmente deixar tudo isso... A porta se abriu e a primeira brisa parisiense invadiu a aeronave. Liv desceu e não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Enquanto dezenas de pessoas vinham correndo de braços abertos para os que chegavam, ela ajoelhou e tocou o concreto da pista. Cerrou os dentes, foi arrastando as unhas pelo cimento como se quisesse arrancar parte do pavimento e chorou. Ergueu os olhos e se morresse naquele momento, estaria feliz. Estava novamente em casa. __... Ou podemos nos engajar em combate e acompanhar os americanos na tomada de Berlim. Pelo que conversei com os comandantes deles, os russos estão em marcha e próximos à ponte de Remagen, portanto, às portas da capital alemã... - continuou o comandante. Havia deixado a decisão para eles. Sua opinião era de que, em memória a De Bruce, tinham de fazer aquilo direito, eram o SAS. Estavam naquele confronto desde o início e sentiam que terminar aquilo era obrigatório. Um Renault preto parou diante de Liv no aeroporto. Ela não trazia grandes malas, apenas algumas coisas pessoais que usava em Londres. Deixando o motorista com o motor rodando, um senhor de pouco mais de quarenta anos veio até ela. __Deve ser a senhorita Liv Marie Duncan? - ele estendeu a mão para cumprimentá-la - Sou Marcel Mondego, membro do governo provisório da França, estou imediatamente sob as ordens do General Bouffey. Liv cumprimentou o sorridente homem e foi com ele no carro pelas ruas de Paris. A cidade estava reconstruída em boa parte de sua estrutura básica. Os alemães haviam posto em pé os hospitais, escolas, delegacias, bairros haviam sido restaurados e havia segurança nas ruas. As casas afastadas do centro estavam em reformas financiadas em sua maioria com o dinheiro do terceiro reich. __Devo dizer, senhorita, que é um prazer conhecê-la. Ouvimos muitas histórias da tal comissão da qual fez parte e estamos ansiosos para trabalhar com a senhorita. __E para onde estamos indo exatamente, monsieur Mondego? __Para a Caserne de Mortier, fica na Rua Tourelles. Ainda lembra-se desses locais? - irônico. __Claro que sim! - Liv estava empolgada por estar de volta à sua amada Paris. Queria saber se o pensionato em que vivia ainda estava de pé e pensou onde iria passar a primeira noite - Mas o que tem lá agora? Lembro-me vagamente de um prédio imponente. O homem riu e esperou. Finalmente chegaram à fachada da construção secular onde funcionava a Caserne de Mortier, ou o Quartel General do Ministério de Guerra da França. __França Livre, o senhor que dizer... - completou Liv. __Não exista mais a França Livre, mademoiselle - o homem estava triunfante nas palavras - Agora somos novamente, a França! __Tenente Ross! - gritou o comandante do SAS - Este é o grupo restante do Serviço Aéreo Especial da Casa Ocre, Hereford, Inglaterra, contanto com a ajuda de dois oficiais franceses sob nossos auspícios. Estamos nos apresentando para auxiliá-los na tomada de Berlim. Meus homens e eu vamos com vocês. E os homens estavam lá. Eram apenas cinco. Nada se comparados com o gigantesco destacamento americano embarcando nos B-29 a caminho de Berlim. Mas toda ajuda era sempre bem vinda naquela porcaria de guerra. O tenente reconheceu a patente e perguntou como deveria chamar o comandante deles. Ora, como Londres, na pessoa do General de Exército Bernard Montgomery havia determinado. __Tenente-Coronel Tyson Grills, pronto pro combate.
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