| MINUTO DE COVARDIA |
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Tem dias em que tudo o que desejo é sumir. Para bem longe fugir. Ser anônima, livre dos risos falsos e contidos, dos gestos dissimulados.
Tem dias em que o sol brilha mais embaçado e o arrepio causado pelo vento torna-se um afago grosseiro. Então, quero gritar, romper o silêncio incômodo. Fico pensando, o que mudou? O que me era tão familiar tornou-se estranho, irreconhecível, constrangendo-me ao afastamento daqueles que me fitam nos olhos e cobram uma atitude, não qualquer uma, mas aquela que é a esperada. Meus olhares já são outros, em detrimento dos de outrora e eu quero a nudez honesta, da inspiração dos poetas. Não quero ter que ser, não quero ter que fazer, não quero ficar. Só quero adormecer, fugir, me esconder. Encolher-me como em útero materno, quente e acolhedor. Mas nem isso... Minha garganta prepara um grito inaudível, jamais proferido por meus lábios. Proporciono-me um momento de covardia... Caia por terra a falsa fortaleza. Icem a bandeira da fragilidade humana! A dor de viver. Gemidos agora audíveis. Clamores agônicos, angustiados, por quê não? O que corre em minhas veias é o mais puro e quente sangue, com todas as imperfeições que me são atribuídas. Negro sol, que não brilha. Gavetas sujas, empilhadas de velhas lembranças. Segredos, restos, sobras, nada... O nada é mais concreto do que a ilusão criada. A metáfora da vida reinventada.
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