| O AMOR, A MORTE, A ESPIRITUALIDADE, SEGUNDO RUBEM ALVES |
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Ao rever alguns livros do cronista, professor, psicanalista, Rubens Alves, encontrei-me frente à frente com três obras, reunidas num pequeno estojo (Mosaico de Pensamentos), que foram lançadas em 2000.
A forma do volume não condicionou o conteúdo. Surpresas saltaram mais uma vez. O passeio, por sinal instigante, em torno de suas idéias sobre o Amor, a Morte e a Espiritualidade, de novo provocou-me cogitações, numa viagem na qual descortinaram-se pontes entre o refletir, o meditar e o cuidar. Eclético, o pensamento de RA vai ao encontro de uma gama diversificada de pessoas, possibilitando o exercício do direito de caminhar através de amplas e diferentes culturas, desfrutando de uma visão de mundo mais humana e sonhadora, vital para os campos objetivo e subjetivo da vida psicossocial e cósmica. Sobretudo, no momento atual, em qualquer parte do mundo, de graves dramas/conflitos - tragicomédias - gerados pelos já rotulados "seres humanos". Questionador, o autor estabelece desafios face a idéias que, não raras vezes, contrapõem-se ao senso comum, sem perder, contudo, a beleza intrínseca das palavras (re)veladoras de contingências, de virtudes, de idiossincrasias e de virtualidades do gênero humano. Sem receio, discorda de Gibran Khalil Gibran quando este exprimiu seu sentimento ao dizer que os filhos são como flechas que, disparadas, não mais pertencem aos pais. Para muitos, desde antanho, uma belíssima imagem! Entretanto, RA apresenta outra metáfora brilhante: "os filhos são flechas que, uma vez disparadas. se transformam em pássaros... " (1º livro - Amor). Em ambos os casos, um jogo poético-filosófico faz-se presente. A flecha, agora, pássaro, alcançará vôos ilimitados sem perder de vista a sua origem. Desvendando uma questão no plano do relacionamento interpessoal, o professor faz um alerta quando afirma: "Há pessoas muito velhas que continuam virgens de ouvido. Só sabem falar. Só querem penetrar”. (op.cit.). Assim, desequilibram o processo de comunicação, possibilitando o fortalecimento de interferências perniciosas no entendimento humano. Se ouvissem mais do que falassem, certamente, "ruídos" desapareceriam, ou seriam mais escassos. Em contínuos lances poéticos, ele deslumbra/anima/encoraja as pessoas ao afirmar: "Sob a luz do amor que ilumina modesta e pacientemente o escuro já não assusta tanto”.(idem). Conviver com o escuro ciente de que há uma chama vigilante, interna, por menor que seja, e que deve ser alimentada. Uma sabedoria. Quanto à Morte (2º livro), enfrenta-a com entendimentos sobre a vida, valorizando-a, buscando relações entre esses opostos: "As velas choram enquanto iluminam". [...] "Choram por saber que para brilhar é preciso morrer”. E declara, saudosamente: "Quero mesmo é voltar para os lugares e os tempos que amei e perdi”. Pelos caminhos da religião RA descarta posições sectárias. Mesmo defendendo seus pontos de vista, a que tem direito, não fecha as portas para outras possibilidades. E diz: "Suponha que existe uma ‘fome de Deus’. As religiões seriam as diferentes culinárias que preparam comidas para matar essa fome". (3º livro – Espiritualidade). Há uma magia que transcorre pelas palavras do teólogo, enquanto, também, êxtase poético perante a humanidade, diante das vicissitudes do Ser, num permanente desafio existencial. Suas reflexões denotam perspectivas de transcendência, passando-se a olhar o efêmero/eterno, o concreto/abstrato, o superficial/profundo, os pólos opostos, como circunstâncias/elementos da trajetória terrena, na qual o homem é sujeito/ator de sua própria história. Sem dúvida, o mosaico de concepções de Rubem Alves, em torno do Amor, da Morte e da Espiritualidade, aqui mostrado, é mais uma contribuição em favor de uma emergente (re)construção da criatura humana, tendo em vista o bem-estar físico/psíquico/espiritual de cada vivente neste belo e sofrido planeta e, no particular, nesta antiga cidade, cognominada “Princesa do Sertão”, hoje, com tantos transtornos, já “integrados”, infelizmente, à vida comunitária feirense. Urgentemente, os “plenos” poderes, com/para o povo, necessitam retomar o sabor, o sal e o mel da terra. “É preciso gozar a vida como uma criança”, afirma, carinhosamente, Rubem Alves.
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