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Topázio

Lincoln estava sentado no sofá da sala enquanto a TV exibia um programa de auditório sobre perguntas e respostas. Ao menos ele achava que fosse isso. Não que importasse. Não estava nem um pouco interessado no que passava ali e não tirava os olhos do teto. A cabeça doía. Olhou pro lado e a visão bateu na cadeira onde havia jogado o uniforme. Olhou pro teto outra vez. Estava ali desde que havia chegado em casa e de acordo com o relógio da cozinha já faziam mais de três horas. Então quase que sem se dar conta ele se levantou, pôs a camisa e saiu de casa pro ar da noite. Não fazia sentido ficar trancado e sozinho. "Nada fazia muito sentido agora", pensou.
A demissão surpreendeu Lincoln como um mal súbito. A Fábrica ia bem e ele sempre fez um bom trabalho, ou ao menos pensava assim. Sinto muito, Lincoln, mas é assim que as coisas são. "Essa crise pegou todo mundo de jeito", disse o gerente da fábrica ao entregar a carta de demissão a ele.
Lincoln era um homem prático e metódico, e nunca foi dado a crenças ou superstições. Tinha tudo organizado e planejava cada tarefa com seus horários e formas específicas. Detestava qualquer coisa fora da rotina e sentia orgulho disso. A demissão "abalou todo o sistema", como ele gostava de dizer.
Decidiu andar a esmo pelas ruas que não conhecia da cidade pra tentar pôr a cabeça no lugar. Passou por casas com as luzes apagadas de uma rua que só não estava deserta pela sua própria presença e a de eventuais veículos que passavam por lá. Percebeu o quão mal iluminada era aquela parte da cidade embora conseguisse enxergar bem. Estava se aproximando do centro e sentiu as ruas estranhamente silenciosas, mas não deu muita atenção a isso. A cabeça ainda latejando por conta dos seus problemas.
Virando em mais uma rua, passou entre muros pichados, latas de lixo sujas e diversas lojas fechadas, caminhando sem rumo e tentando apreciar a tranquilidade silenciosa da noite. "Porcaria de cidade suja e ar fedido", ele diz pra si mesmo, com raiva crescente.
Numa distraída olhada para o céu ele se dá conta de porque conseguia enxergar tão bem na iluminação precária. Ao redor de um véu de escuridão estava a maior lua cheia que ele já havia visto. O vislumbre daquele enorme globo prateado fez com que ele interrompesse sua caminhada e o tirou de seus pensamentos. Naquele momento, nada mais importou; só existia o grande satélite acima em todo seu esplendor.
Tão claro quanto a lua, Lincoln agora vê o lobo. Loba, corrige a si mesmo. Bem à sua frente, na rua, estava uma bela figura canina que ele não sabia bem como, mas sabia se tratar de uma fêmea. Seu pelo era de um tom cinza claro, e ela exibia movimentos graciosos. Ele podia sentir um odor estranho vindo da loba, algo que lembrava o almíscar. Esse odor o atraía.  Ela abanava a cauda devagar e não tirava os olhos dele. E que olhos. Ele olhou diretamente até não restar mais nada além daqueles olhos grandes e tão vivos. Topázio, ele pensou. Esses olhos tem cor de topázio.
O som de uma moto em alta velocidade em alguma rua próxima o despertou daquele transe hipnótico e, como se estivesse abrindo os olhos ao despertar para a realidade após um sonho nítido, a loba não estava mais lá. Ele procura pelo animal ao redor. Nada. Pensa no que aconteceu e decide que foi sua mente sobrecarregada somada ao ar noturno lhe pregando uma peça. Estou mesmo transtornado, acabei tendo uma alucinação bem bizarra, diz a si mesmo. Mas não tinha tanta certeza disso. Então, se havia mesmo visto uma loba, onde ela estava agora? Começou a achar que havia sofrido um apagão e quis saber quanto tempo havia se passado, e foi quando se deu conta de que não pegou o relógio ao sair de casa.
Enquanto tentava encontrar lógica no que havia acontecido, voltou a andar e começou a se sentir incomodado com as ruas tão desertas. Pôs a mão no bolso e percebeu que também não trouxe o celular. "Onde eu estava com a cabeça quando saí? No mundo da lua?" Ele pensa, tentando achar graça da ironia e logo em seguida achando a própria piada idiota.
Andando agora um pouco mais rápido, atravessou um cruzamento na diagonal depois de um carro passar, se adiantando pra seguir na próxima esquina e então entra numa pequena travessa que divide dois prédios, passando por uma grade quebrada. Deu de frente com uma praça dentro de uma rua rotatória e pela primeira vez naquela noite avista pessoas, numa área comercial e com as luzes devidamente funcionando. Já estou no centro, ele se dá conta. Se não encontrasse gente aqui, começaria a achar que a Peste havia retornado e ninguém se lembrou de me contar.
Seguiu atravessando a praça onde um grupo de garotos jogava basquete na quadra e outro grupo do lado oposto dividia uma bituca que ele desconfiava não ser de tabaco. Andou com naturalidade pelos arbustos bem cortados e bancos cheios de casais apaixonados. Próximo ao mastro do centro, viu um homem maltrapilho andando em círculos e repetindo uma frase que não conseguiu ouvir muito bem, mas acreditava que fosse algo como “O safado do prefeito roubou meu cavalo!”.
Sentiu seus pés acelerando o passo quase que involuntariamente enquanto andava entre as diversas pessoas na praça. Passou por uma barraca de cachorro-quente e o cheiro de salsichas e molho de tomate era muito convidativo pra um homem que não comia a umas boas horas, mas preferiu ignorar a fome. De alguma forma, ele sentia que precisava continuar. Algo nele sabia onde estava indo.
Logo que se afastou do carrinho e o cheiro da comida ficou pra trás, teve a impressão de sentir aquele mesmo odor da loba, porém fraco e distante, e então desapareceu tão rápido quanto surgiu. Lincoln começou a procurar ao redor quem poderia estar usando aquele perfume, mas logo teve certeza de que o odor vinha da direção pra onde ele seguia. Olhou novamente pro céu e percebeu, como uma surpresa irônica, que estava indo na direção da lua.
Uma súbita apreensão tomou conta dele ao passar pela praça e entrar numa nova rua sem ao menos pensar. Alguma coisa está me conduzindo. Eu sei disso e mesmo assim continuo andando. Mas nem mesmo essa descoberta o impediu de prosseguir. Mais forte do que o medo, havia um genuíno interesse no que iria encontrar, e seus pés continuaram se movendo como se no tapete vermelho que levava ao espetáculo.
Deu-se conta de que estava na parte boêmia da cidade. Após passar por alguns bares, avistou na esquina seguinte três mulheres com roupas curtas e chamativas. Quando o perceberam, começaram a se exibir de forma provocante.
- Procurando diversão, gato? Faço o que você quiser - diz a mais próxima a ele, com uma piscada de olho. Ela cheirava a uma combinação de perfume doce e cigarro. Havia uma maquiagem pesada sobre um rosto muito bonito.
- Não, obrigado. Tenho um compromisso – responde ele, e ela lhe lança um sorriso simpático em resposta. Lincoln achava – e se sente um tanto culpado por isso – que ela responderia no mínimo com o do dedo do meio erguido.
Mas cada passo que dava fortalecia essa ideia, por mais absurda que pudesse ser. Ele tinha mesmo um compromisso. Não sabia onde ou com quem, mas sabia que logo encontraria o que quer que estivesse à sua espera.
As ruas agora eram bem mais barulhentas e cheias do que quando ele iniciou a caminhada, apinhadas de gente bebendo e se divertindo nos bares e restaurantes. As luzes do alto letreiro luminoso de uma casa de festas chamaram sua atenção e ao olhar pra cima, novamente reparou na lua. A mesma lua de sempre, mas ainda assim tão diferente nessa noite de uma forma que Lincoln não sabia explicar.
E tão rápido quanto o disparo de uma arma, o odor de antes volta a preencher as narinas dele pra sumir de novo. No mesmo instante ele se volta na direção contrária da casa de festas, e do outro lado da rua havia um bar com uma porta de madeira bem grande e um homem de terno preto quase tão grande quanto. Na placa acima, pintada num tom de vermelho vivo, estava a palavra “LACUNA”. É aqui, diz ele a si mesmo. Tenho certeza de que é aqui.
Ele prontamente se adianta em direção à porta e o homem alto põe a mão na sua frente, bloqueando a passagem. Chamava ainda mais atenção de perto, por ostentar dreads ruivos que estavam presos e elevados acima da cabeça, mas que Lincoln acreditou que soltos deveriam ficar na altura dos ombros. A barba também era ruiva e havia um piercing na sobrancelha esquerda.
- Documento – diz o homem, secamente.
Lincoln imediatamente põe a mão no bolso de trás e se dá conta de que também não pegou a carteira antes de sair. Mas olhe só que coisa engraçada - Pensou com raiva incontida. -, já não bastasse toda a loucura dessa noite, se algo me acontecer aqui eu ainda seria um indigente.
- Amigo, eu não trouxe. Não trouxe nada, na verdade – ele diz isso e bate nos bolsos da frente -, mas preciso entrar aí.
- Então te manda, cara – diz o segurança com uma voz distante e desinteressada. – Vá pedir esmola em outro lugar.
"Porra, o que faço agora?" Pensa ele. "Forço a entrada? O cara me põe pra dormir com um soco só. Quer saber? Melhor voltar pra casa e esquecer essa história. É, é o que vou fazer".
Mas duvidava que conseguisse, mesmo que quisesse tentar resistir ao impulso que já era quase animalesco dentro de si. Duvidava até de conseguir achar facilmente o caminho de volta pra casa. Pôs-se então a pensar numa forma de entrar.
A agonia já começava a tomar conta dele quando se lembra da nota de 50 que sempre deixava no bolsinho do jeans, pro caso de emergências. Ele mostra a nota ao segurança.
- Olha aqui. É sua se me deixar entrar.
O grande homem o encara por um tempo, pega a nota e libera o acesso dele, sem dizer mais nada. A porta se abre e Lincoln sente o coração acelerar, e ele prontamente cruza o umbral de madeira pintada num tom de preto fosco e que já havia visto dias melhores.
Por dentro, o bar não parecia grande coisa embora estivesse cheio pra seu tamanho modesto. O chão também era de madeira. À esquerda, ficava o balcão com um jukebox ao lado e uma grande mesa de sinuca ao centro e um ventilador rodando lentamente no teto acima dela. Um espelho se estendia na totalidade da parede à direita, conduzindo aos banheiros e passando por algumas mesas, que iam até a lateral ao outro lado do bar. Acima das paredes, duas pequenas janelas. Lincoln duvidava muito de que o lugar passasse numa inspeção dos bombeiros.
O jukebox tocava ao fundo uma música que ele não conhecia, mas ouviu uma mulher de voz agradável perguntar se ele estava “vivendo por amor” algumas vezes e depois não deu mais atenção. Tentou captar o odor de antes, mas sem sucesso. Só o que sentia era o cheiro de fumaça de cigarros, bebidas e colônias baratas. Perguntou-se de forma não muito interessada quando foi que seu olfato havia ficado tão aguçado, e também se deu conta de que não tinha mais nenhum centavo nos bolsos e nem cartões pro que tivesse que pagar por ali.
- Lincoln?! - ele sente o coração pular do peito ao ouvir seu nome e ao se virar pra ver de onde veio o chamado, sua visão reconhece Vicky. – Oi! Tudo bem? Não sabia que curtia esse tipo de bar.
- Vicky?! – ele responde perplexo ao ver a amiga se aproximar num beijo de cumprimento. – Você... eh... eu...
Vicky era uma amiga de tempos atrás que Lincoln conheceu através de outros amigos. O cabelo loiro tal qual ele se lembrava caia em ondas que guiavam a um corpo esbelto de baixa estatura que sempre o instigou. E o que é que ela está fazendo justo nesse bar? – Ele se indagou - Será que ela tem algo a ver com isso?
- Eu fui demitido hoje – disse Lincoln, sem saber por que estava dizendo aquilo de repente.
- Poxa, que chato. Então veio esquecer na noitada? Veio com alguém?
- Eu... eu preciso ir ao banheiro.
E antes que ela pudesse responder, Lincoln já estava praticamente correndo em direção ao banheiro masculino. Quase arrancou da porta o homem que estava saindo na ânsia de entrar. Enquanto a porta se fechava chegou a ouvir o homem dizer algo que ele não entendeu por conta da música alta, mas não importava. Abriu a torneira e jogou água no rosto com as mãos em forma de concha.
 A certeza caiu sobre Lincoln como um raio. Não era ela. Seja lá o que o tenha trazido até aquele bar, a presença de Vicky não tinha nada a ver com isso. Até porque ela não tinha aquele..
Como se trazido por uma brisa, Lincoln sente novamente o odor, só que agora de forma diferente. Estava em alguém, alguém que estava do outro lado da porta, entre as pessoas no bar!  Subitamente, ele congela por uns instantes num misto de medo e incompreensão, com uma das mãos na maçaneta, incapaz de girá-la. Depois de morder o próprio lábio até sentir o gosto metálico do sangue, consegue reunir coragem pra abrir a porta e seguir o odor que se transformou no perfume mais inebriante que ele já sentira.
 Como um cão policial, ele segue seu olfato em meio ao bar que parecia ainda mais cheio agora, se desvencilhando das pessoas cada vez mais rápido e ansioso.
- Ei, Lincoln! O que acont...
- Com licença.
Vicky foi ignorada quase como se não existisse. Quem era mesmo essa? E o que isso importava?
Cada passo é mais impaciente e agressivo que o anterior e Lincoln literalmente empurra a todos pelo bar enquanto avança. Quando passa entre um casal como se fossem uma porta de vai-e-vem dos filmes de faroeste, Lincoln finalmente encontra o que o levou àquele lugar.
Sentada sozinha em uma mesa à sua frente estava uma mulher que olhava diretamente pra ele com expressão impassível. Os cabelos eram uma cascata de cachos negra como a noite que ia até a cintura. A pele cor de jambo brilhava nas poucas partes que a roupa deixava visíveis e em seu pescoço há um pingente com uma pedra que o guiou ao decote e prosseguiu até os calcanhares. As pernas de Lincoln tremeram.
- Você devia se sentar antes que caia no chão – disse a mulher, e o som de sua voz somado ao resto quase fazem com que ele caísse antes que pudesse apoiar as mãos na cadeira mais próxima e desabar sobre ela.
Lincoln suava frio. Não conseguia falar, nem mesmo ter algum pensamento coerente. Estava simplesmente boquiaberto, inebriado e admirando cada centímetro do corpo da mulher, e o cheiro continuava ali, junto com uma onda de calor que ele não tinha certeza se era devido ao local pouco arejado, mas não acreditava muito nisso.
- Tem sangue na sua boca – ela diz, a expressão inalterada.
A frase trouxe Lincoln de volta à terra. Ele fecha a boca um tanto constrangido, pega um guardanapo na mesa e o passa no lábio inferior. O pequeno incômodo causado pelo gesto o deixa mais alerta.
- Quem é você? - Ele consegue perguntar antes de olhar em seus olhos e sentir o calor se intensificar, junto com um arrepio que sobe por sua espinha.
- hmm... qual sua cor preferida?
- Topázio – ele responde sem hesitar e ao mesmo tempo sem entender. Era a cor daqueles olhos.
- Perfeito. É mesmo minha cor e minha pedra. Pode me chamar assim – ela diz, com um meio sorriso.
- Tinha alguma coisa na lua – Lincoln diz baixinho, os olhos fixos nos dela – Uma coisa que falou comigo.
- É mesmo?
- E uma loba. Na cidade, no meio da rua.
- Nossa!
- E esse seu cheiro. Eu senti... antes.
- Sim.
- Foi você?
- O que?
- Não brinque comigo! – grita ele, batendo na mesa. Ela permanece imperturbável e o coração de Lincoln começa a palpitar.
- Vou pegar uma bebida pra você – diz ela, e antes que Lincoln pudesse responder, a mulher já estava passando por entre as pessoas em direção ao bar onde dois homens de porte atlético fazem malabares com garrafas e servem bebidas.
Uma parte dele dizia pra sair de lá enquanto podia. Seria a atitude mais sensata, Ele pensa. De repente ele se lembra de ter lido há muito tempo uma lenda sobre um tipo de demônio feminino que seduzia os homens e sugava sua energia vital. "Súcubo", era esse o nome. É uma possibilidade bem razoável depois de tudo que aconteceu. Não cabe mais nenhuma gota de ceticismo agora.
Mas havia outra parte, a parte dominante, a que realmente importava, queimava de desejo pela mulher e irresistível vontade de descobrir aonde aquilo o levaria, essa parte prevaleceu e o fez ficar e quando ele a viu se aproximar novamente sentiu se dissolver dentro dele um medo de que ela não voltasse.
 Ela pousa na mesa um copo cheio até pouco mais de um terço com um líquido de cor amadeirada e uma pedra de gelo dentro, e volta a se sentar. Seus olhos estão fixos nele. Lincoln olha com desconfiança da bebida pra ela e de volta pra bebida.
- O que é isso? – pergunta ele.
- Uísque.
Lincoln não bebia. Quando alguém lhe perguntava a razão, sempre dizia que não curtia o sabor do álcool, mas ficar longe da bebida era uma precaução adotada por ele. Não correr o risco de prejudicar a ordem do sistema.
- Eu passo – ele diz sem olhar pra ela, ainda encarando o copo. A pedra de gelo balançava sobriamente enquanto começava a derreter naquele líquido que ainda lhe lembrava madeira. Não, madeira não. Isso lembra topázio.
Essa súbita percepção faz Lincoln levantar o olhar e se deparar com a visão daqueles olhos que o encaravam sem ao menos piscar, imperturbáveis com a negativa dele. Topázio. Sentiu o calor aumentar, e uma gota de suor desceu por suas costas causando um calafrio intenso. Ele pega o copo num rápido movimento e bebe um gole, e um segundo depois o inferno atravessava sua garganta e descia por dentro do peito. Lincoln apertou os olhos e os dentes, sentindo a cabeça girar enquanto imaginava que sua garganta entraria em erupção a qualquer momento. Ele pega outro guardanapo e cobre a boca durante um breve acesso de tosse.
As mãos entrelaçadas apoiavam o queixo dela quando Lincoln consegue se recompor e olhar novamente. Um sorriso de divertimento estava em seu rosto e os olhos continuavam a encará-lo.
- Você é uma súcubo? - Ele pergunta finalmente.
- Não sou. Mas foi um bom palpite.
- Bem, se você diz – a voz de Lincoln sai num tom sarcástico, mas algo dentro dele acreditava nela com todas as forças – então o que é você?
- Já não disse? Topázio.
- Isso não significa nada. Quero saber o que é você e como me atraiu pra cá.
- Você tem medo de mim?
Lincoln abre a boca pra responder, mas não emite som algum. Aqueles olhos. Os olhos não se desviam dele, como se não quisessem deixa-lo sumir de vista. Ele respira fundo e o cheiro dela é pungente em seu nariz. Ele toma mais uma dose do uísque e sente novamente a queimação invadir garganta e peito, mas não como antes. Quase poderia dizer que foi agradável desta vez.
- Digamos que eu seja alguém querendo fazer uma coisa boa por você e ao mesmo tempo me divertir um pouco. – Ela diz, olhando do copo para ele.
- E se eu não estiver interessado?
Lincoln viu aquela expressão indiferente se transformar em um sorriso largo com dentes em perfeita ordem entre os lábios volumosos de um tom vermelho vivo. Ela baixou os braços e se inclinou levemente pra frente. Lincoln nota algo estranho e perturbador naquele rosto; Os olhos continuam vidrados nele, mas com uma intensidade diferente. Por um momento, aquele sorriso se pareceu mais com um animal selvagem exibindo as presas, pronto pra investir sobre sua caça.
- Então por que não vai embora? – Ela diz com desdém.
Ela então levanta da cadeira e se inclina ainda mais em direção a ele, os braços agora retos sobre a mesa. Seus rostos estão a poucos centímetros de distância, com o copo abaixo, bem entre os dois. Lincoln sente um suor frio brotar em sua pele ao mesmo tempo em que percebe uma ereção começando. Ele se afasta um pouco, pega o copo e toma tudo que consegue num único gole. Sobra menos de um dedo no copo quando ele o põe de volta.
- Eu quero você – Ele se ouve dizer – preciso de você, ou então eu... – a frase se perde na mente dele. Ele recomeça:
- Não quero ir embora. Você me chamou e eu vim, vim pra você. Agora dá pra mim tudo que você tem. Fui pego e não consigo me livrar, e gosto disso. A loba pegou o coelho.
Ela emite um sibilar de satisfação e, mais rápido do que ele pode acompanhar, sua mão se levanta e toca o rosto dele com força moderada. Era a primeira vez que se tocavam, e Lincoln sente o tremor recomeçar e a ereção aumentar.
- Quer o que eu tenho? – Sussurra ela.
- Eu quero.
Ela puxou a cabeça dele com delicadeza e seus lábios se chocaram, num beijo firme e quente. Um leve murmúrio sai da boca dela. O cheiro se tornou ainda mais pujante e ele fica entorpecido, cada sentido de seu corpo reagindo com aquele ato. A mão desliza pela nuca dele que sente a dor quando o beijo dela se converte numa mordida, reabrindo a ferida do lábio. Ela solta o aperto e se afasta, e ambos tornam a se olhar. Lincoln agora sente a visão desfocada e tem a sensação de que tudo está girando.
- O uísque – diz ele. – Acho que eu...
- Shh... Só relaxe. E aproveite.
Ele sente a tontura aumentar e a visão ficar cada vez mais escura. O medo começa a crescer novamente até que, antes de tudo se apagar, ele percebe aqueles olhos de encontro aos seus e a inebriante tranquilidade que só os loucamente apaixonados conseguem sentir ao confiar na pessoa amada domina os seus últimos instantes de consciência.
Quando voltou a si, Lincoln achou que o céu da noite havia desabado. A primeira coisa que viu foi um véu negro disforme sobre sua cabeça, que se movia em ondulações. Sentiu leves toques abaixo da orelha e respirou fundo, e quando aquele cheiro inconfundível foi finalmente assimilado, ele entendeu. Sobre seu rosto estavam os cachos da mulher que o tinha posto sob seu domínio. Ela beijava seu pescoço enquanto uma mão deslizava sobre o peito dele. A respiração de Lincoln ficou mais forte. Ele ergueu uma das mãos e envolveu a mulher pela cintura, gesto que ela respondeu com um leve gemido e um beijo intenso, apertando a pele.
Com a outra mão ele a tocou na parte interna da coxa, e subiu. O som que ouviu sair dela lhe pareceu um rosnado, e num rápido movimento com força inesperada ela puxa as mãos de Lincoln pra cima de sua cabeça e entrelaça seus dedos com os dele. Ela se levanta e fica montada sobre ele, então percebe com surpresa que ambos estão completamente nus. A visão de seus seios era inebriante, e quando ela se inclina, a cascata de cabelos negros cai novamente sobre ele como o manto de Morfeu. Ela sobe os quadris, posicionando com o movimento do corpo até que ele a penetrasse, e então começa a se mover lentamente, ondulando sobre seu corpo, a intensidade aumentando conforme ela dançava. Lincoln sentiu o suor brotar de cada poro e a consciência oscilar outra vez, até que as unhas dela se cravam em seu ombro. Ele grita, ofegante, e ela grita com ele. O som que ela emite se estendeu e por um momento pareceu se transformar em um uivo. As mãos dele descem pros quadris dela, como se coordenando força e velocidade da ação. Lincoln sente o clímax a caminho.
- Eu vou...
- Deixa rolar – ela o interrompe, gemendo enquanto fala - Dá o que você tem pra mim...
Ele sente o toque suave dos seios dela no seu peito nu conforme ela se inclina. Seu corpo treme no espasmo que antecede o momento crucial e ele ouve novamente o rosnado animalesco dela, e junto com o orgasmo chega a dor aguda de uma mordida desferida dessa vez em seu pescoço, e num misto extremo de prazer e dor, Lincoln estava de volta à escuridão.
***
A luz voltou incômoda. Queimava desagradável sobre o rosto quando ele torna a abrir os olhos e se vê deitado no sofá da sala, com o sol batendo da janela em sua direção. Seus músculos reclamam a cada movimento, indicando as horas passadas na mesma posição.
Um sonho – ele começa a divagar - Só um sonho. Que mais poderia ser? Cabeça cheia, sono acumulado das noites mal dormidas... Imagine com o que eu não sonharia se fumasse um de vez em quando...
Ao olhar pro lado ele se depara novamente com o antigo uniforme. "Dane-se", pensou. "Não preciso daquela perda de tempo, arrumo outra coisa logo. Mas acho que vou dar um tempo, talvez um mês. Relaxar e conhecer os bares da cidade vai ser bom, tomar umas bebidas também. Acho que vou chamar a Vicky pra sair".
Lincoln ri da ironia e se levanta, os ossos estalando em várias partes do corpo. Ele caminha até o banheiro e vai direto pro chuveiro, a água fria o faz pular e achar a situação toda divertida. Ele ri outra vez.
Ao sair do banho e se olhar no espelho, Lincoln é tomado pelo terror. Em seu pescoço há um hematoma disforme, algo que lembra muito uma mordida. Ele fica paralisado, sem saber no que acreditar, e então, súbito como foi o momento de agonia, veio a calma. No fundo de seu ser, ele sabia, e olhar pra lua nunca mais seria o mesmo. O cheiro do almíscar também não. Aquela noite trouxe um novo horizonte pra vida dele, e ele amou aquela mulher.
- Topázio – ele diz em voz alta – onde quer que você esteja, obrigado. Espero que tenha se divertido.
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Atualizado em: Qui 17 Ago 2017
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