person_outline



search

família

  • "Senta aqui, vamos tomar um café"

    Senta aqui, vamos tomar um café?! Jogar conversa fora? Rir pra caramba, quem sabe chorar em algum momento. Senta aqui, vamos falar sobre nós! Como você está? Seus planos? Suas conquistas... Conta mais.

    Senta aqui, vamos matar a saudade de nós, vamos aproveitar um tempinho livre pra descansar a cabeça, o corpo! Senta aqui, vamos falar sobre sonhos, até mesmo daqueles mais cabulosos, quase impossíveis! Senta aqui, vamos olhar dentro do olho, ver como estão brilhando. Senta aqui, me deixa ver como você está bem, como você está feliz!

    Quero sentir seu abraço por alguns instantes. Ouvir sua voz, sua risada. Senta aqui, deixa eu te contar como eu estou como me sinto. Senta aqui, quero te contar uma ideia maluca que tive. Senta aqui, lembra aquela viagem que eu queria fazer, deu certo! Senta aqui, me ajuda a fazer uma lista de prioridades! 

    Preciso ir... Obrigada pela companhia, pelo café, pelo abraço, pela voz doce e suave, pelos conselhos impagáveis, pela companhia maravilhosa, pelas gargalhadas que demos, pelas bobagens que falamos e pela saudade que matamos!
  • (RE)FABULOSO

    Dedicado a Ivys Danillo e Breno Fonseca.
        Esta história não é tão velha que vos pareça um fato desconhecido, mas atentem-se as nuances do relato para que essas linhas más traçadas, não venham a parecer uma extensão mal elaborada do mesmo.
        Bem, agora vejamos, ela ocorreu na década de 60. O mundo todo já tinha visto as maiores guerras do mundo depois da Guerra de Troia e do Mahabharata, centenas de revoluções e muitos conflitos.
        Mas abaixo da Linha do Equador, no Trópico de Capricórnio, numa cidade litorânea do país conhecido como Brasil, haveria um conflito entre as tecelãs do Destino. Qual sina para qual garoto na sala?
        O mais velho parecia espirituoso, educado e gentil. Vestia um terno e uma calça social. Esmerado como um diamante. Os cabelos negros tinham um brilho ofuscante, a pele evidencia sua origem bastarda.
        O jovem tinha petulância, teimosia e cinismo. O gênio ruim só era mais limpo do que as mãos traquinas. A roupa galante já não constituía beleza alguma, tudo nele era um problema. A boca então!
        O médico chamou dos dois meninos na sala de estar e os dois se apressaram a entrar no quarto. O velho estava moribundo, desenganado pelo médico há muito tempo que viveria bem pouquinho.
        O braço pelancudo se agitou no ar e procurou abraçar os garotos, o mais velho retribuiu, o mais novo ficou de canto, assistindo a cena com nenhum entusiasmo. O velho pigarreou e disse aos dois:
         — Escutem meus filhos, pois tenho dois e não um como minha velha esposa acreditava. Vivi muito nesse mundo para lhes dizer o que a Vida espera de um Homem, e o que ela não quer ver em um Homem: Não faça do orgulho estandarte para que em teus ombros ele não se torne um fardo. Esqueceu-se de sorrir, não te lembres de chorar. A lamúria e o regozijo só aumentam o sofrimento. O maior de todos os pobres é o que só tem dinheiro para comprar a infelicidade. Os que comem a mesa da mentira, depois só vomitam asneiras. Os sábios são loucos aos olhos dos perversos. Se conselho fosse vendido, não serviria, pois o remédio para os males de um é veneno para o corpo de outro.
        Depois de dizer tudo isso ele entrou numa crise de tosse convulsionante e faleceu. O irmão mais velho chorou e imprimiu tudo no seu coração. O mais novo correu assustado do quarto do pai.
        Brincando de carrinho antes do velório, ele esqueceu tudo o que o pai disse. O Testamento foi lido no jardim. O senhor de calças coronhas e terno de ombreiras subiu em um caixote e fez a leitura.
        O falecido exigiu como tutor o seu amigo mais próximo, que cuidaria dos seus filhos. O pai queria que os filhos tivessem igualmente os mesmos cuidados, Educação, Saúde, Lazer, Segurança e Paz.
        Enterrado às três horas da tarde no cemitério da cidade, o resto da família que se resumia aos dois garotos, o tutor e os empregados, retornaram para a mansão que ficava bem localizada em bairro nobre.
        As coisas por um momento pareceram estranhas ao filho mais velho, não teria mais o pai ali para lhe repreender e lhe ensinar sobre as coisas do mundo. Havia muito que gostaria ainda de saber.
        O filho mais novo por sua vez sentiu um que a mais de liberdade. Não teria mais o pai para vigiar os seus passos ou brigar com ele quando cometesse um falta. Já se acostumara à nova situação.
        Como odiava o seu irmão, maltratava-o com todos os artifícios que podia, queria maltratá-lo, xingava o irmão, imitava um macaco e depois quebrava as coisas culpando o irmão mais velho por tudo.
        Quando se queixava com seu tutor, recebia a culpa ou um safanão. Seu irmão era o centro das atenções nas reuniões de família e ganhava os melhores presentes. O outro era segregado na cozinha.
        Acalentado pelas empregadas da mansão por ser bonzinho e de mesma cor, comia o bufê antes de todo mundo. Com o motorista aprendia a consertar carros. Com as empregadas aprendeu a cozinhar.
        Antes dos doze anos já tinha mais autonomia que muitas meninas da sua mesma idade. Suas notas na escola eram diferentes da de seu irmão mais novo, mas o outro comprava melhores boletins.
        Com o passar dos anos, um o irmão mais velho já tinha acelerado uma série devido à aplicação nos estudos, o caçula aumentou os gastos do tutor com a propina na escola e abafar o seu mau comportamento.
        Nada lhe punha rédea, e quando contrariado, usava o dinheiro de seu pai e pronto!
        Quando os dois se formaram no ginasial, o bastardo procurou o nível superior e o outro a boêmia. Enquanto as denúncias de assédio cresciam contra seu irmão, ele estudava mais ainda.
        Tentando ajudar, ele procurou o seu irmão caçula para uma conversa e disse-lhe:
        — Veja meu irmão, nosso pai faleceu e estamos sós no mundo, nosso tutor só não torrou toda a nossa porque depende dela para manter o seu padrão de vida. Olha para tudo isso e repara que é nosso por direito. Desde o portão até a poeira que se instale nos móveis. Não sei quais tuas queixas contra mim, mas que te falta para usufruir disto com mais saúde e respeito ao esforço de nosso pai?
        — Começa por ser bastardo, depois por sabichão e tenta parecer o que não é, quando na verdade o é em vice-versa. Não sei quem te disse que não gozo nem usufruo com saúde daquilo que o “meu pai” deixou para mim. O único mal que o meu pai deixou na Terra para minha desgraça e vergonha foi a ti. Não sei por que nasceste nesse berço, quando dele não tinha direito nenhum!
        E como um peixe a dar rabanadas nas fuças do desavisado pescador, o caçula, pois fim aquela conversa sem pé nem cabeça que tinha tido. O outro não se ofendeu, ele não se ofendia mais com nada.
        Enquanto enfiava a cara nos livros seu irmão enfiava a mão no violão e chegava em casa as tantas da noite. Acordava o tutor, bulinava as empregadas mais jovens e deitava na cama roncando feito um porco.
        Pela manhã acordava aborrecido gritando e ordenando quem aparecesse pela sua frente. Seu irmão mais velho já estava na primeira condução para a escola de nível superior. Era homem incansável.
        O irmão mais novo tomava café bocejando como um leão cansado de correr atrás da presa. Lia o jornal gaguejando as palavras e sempre perguntava ao motorista como se soletrava tal e qual palavra.
        Quando não berrava, gritava. Ai de quem não fizesse o que ele mandava. Como o reizinho mandão, ele apontava para um objeto e logo estava em suas mãos, ordenava e acontecia num passe de mágica.
        Mas como tinha preguiça até de mandar, saia logo para se encontrar com os amigos. As mulheres de vida fácil o conheciam sua lábia e as pobres que não conheciam logo se sentiam amarguradas com a gravidez.
         Tantos foram os bastardos que largou pelo mundo que já tinha quebrado record do pai e de seu tutor fanfarrão juntos. Eram muito parecidos por sinal.
        Os dias e as noites passavam iguais para ele. O tutor querendo lhe fazer bem e aumentar a fortuna da família, arrumou um casamento com uma bela moça. O irmão mais velho saiu de casa para fazer faculdade.
        O irmão mais novo considerou o caminho livre e arquitetou uma maneira de garantir a fortuna da moça e se livrar do tutor. Depois do noivado apressou o casamento com a sua pobre e ingênua esposa.
        Os sogros lhe abriram sociedade com o genro na sua empresa para unir os capitais das famílias. Envenenou o tutor com uma taça de vinho, entregue através pelas mãos da esposa na festa de núpcias.
        Um mês depois a perícia chegou com o laudo incriminatório: morte por intoxicação. Tudo de que ele precisava, esperou a condenação. Depois arrumou uma bela amante e desfilava com ela num cadilac.
        O sogro morreu num assalto seguido de latrocínio dois meses após a prisão da filha. A sogra não aguentando a pressão dos fatos suicidou-se meses depois. O caçula tornou-se sócio majoritário da empresa do sogro.
        O irmão mais velho seguiu na faculdade sofrendo todo tipo de tortura, física, psicológica e sentimental. Assim como em sua própria casa ele foi segregado como se fosse um animal selvagem qualquer.
        Sua inteligência ofendia seus colegas que acreditavam que ou ela vinha de berço ou era coisa de cor. Nem uma nem outra, ele concluiu a faculdade engenharia e ganhou uma oportunidade no Chile.
        Ele trabalhou durante quatro anos, os dois primeiros meses como minerador, depois como operador de máquina e concluiu o ano como engenheiro adjunto. Casou-se com a filha de um fazendeiro chileno.
        Com ganhava em dólares, chegou rico ao Brasil. Montou o seu próprio escritório de engenharia, quando os clientes sabiam do seu nome iam lá, mas quando sabiam quem realmente era davam-lhe as costas.
        Mas sempre voltavam a contragosto. Não havia outro com tanta qualidade e experiência no mercado brasileiro da época, os seus clientes acabaram deixando a necessidade passar por cima do ego.
        Ao saber como andava as coisas na mansão, resolveu nem pisar os pés lá. Seu irmão mais velho tinha perdido metade da fortuna com as safas que o seduziam e com jogos de azar que o rapinavam.
        Os ex-colegas procuraram emprego, mas ele negou, não sabiam fazer nada mesmo.
        O primeiro filho veio após a construção do segundo escritório. Em todo o Brasil sua firma prosperava, o petróleo aumentou seus rendimentos, fosse o preço do barril alto ou baixo, precisavam de engenheiros.
        O irmão mais novo um dia catou um jornal no lixo debaixo da marquise em eu tinha se enfiado como se fosse o Rei Rato e sentiu o cheiro de oportunidade no ar. Só precisaria de uma roupa mais “apresentável”.
        Quebrou a vidraça de uma loja de ternos e surrupiou as que conseguiu catar. Banhou-se no córrego onde as mulheres costumavam lavar roupa de ganho. Pôs sua melhor máscara e foi até a mansão do bastardo.
        Durante uma semana inteira tentou uma entrevista, e só conseguiu porque a filha mais nova percebeu sua presença e contou para o pai sobre o bisbilhoteiro. Ao se apresentar, o irmão mais velho o recebeu.
        Os dois subiram até o escritório e depois de comer umas fatias de bolo e tomar umas xícaras de café, não disfarçou, estava varado de fome. Depois da morte do seu tutor, as coisas haviam mudado.
        Casara pela segunda vez com uma bela mulher que gastava os mundos e os fundos. Perdeu o resto da fortuna no pôquer e foi preso por poligamia depois que a primeira mulher conseguiu sair da cadeia.
        Os empregados antes disso tinham-no abandonado um a um, ele sempre os considerou um tanto preguiçosos. Na verdade os que não iam embora morriam por maus tratos. O bastardo ouvia em silêncio.
        Depois de uma longa reticência, o irmão mais velho chamou seu segurança e mandou jogar aquele salafrário mal cheiroso no primeiro bueiro que encontrasse. O irmão mais novo ficou pasmo.
        Foi arrastado do escritório até o portão de entrada e antes que fosse colocado no porta-malas do seu carro, o irmão mais velho encarou o seu rosto perplexo do seu irmãozinho e disse em alta voz:
        — Faço minha as últimas palavras do meu pai.
        O porta-malas foi fechado com violência.
  • [Roteiros] ETERNO

    […]

    Estive refletindo todo esse portfólio. O nosso amor. Sabe no que tanto andei pensando? Que a gente deveria casar. E ter uma família, cachorro. Temos uma conexão surreal, gostamos muito um do outro. Não há desculpas ou o que se questionar. Já sei que a resposta é um sim, não precisa responder. Agora só falta marcar o dia… Pode ser hoje mesmo, ao anoitecer, no Recanto, assim que eu sair do trabalho. Fechou então, marcado.

    Vamos mesmo casar hoje, viu? Uma cerimônia a dois, simples e singela, vamos eternizar cada segundo entre o luar e o alvorecer.

    Está será a noite mais incrível dos nossos dias.

    Olha, juro para o Universo que não estou brincando. Você diz que eu sou louco, mas ainda não sabe o quanto. Te amo, meu Jacarandá.

    […]

    Está falando sério? Adorei o seu falar cheio de convicção. Convicto quanto a mim. Exatamente assim, não há que se ter dúvidas.

    Eu trocaria a eternidade por esta noite, como em “Relicário — Nando Reis”. Caso com você quando e onde quiser.

    Assim que te vi, topei uma vida com você e todos os frenesis que há de vir. Estamos entrelaçados. Ligados por todo o sempre.

    O destino me mostrou isso ainda no principio. Te contei, cedo, nas entrelinhas e você não se deu conta.

    Lembra quando nos conhecemos? A primeira vez que nos encontramos?

    Recordo fervorosamente cada detalhe. A primeira vez que senti o seu toque, o teu cheiro, o teu olhar… A primeira vez que ouvi o teu timbre. O nosso abraço sob a densa chuva.

    As águas de março fechavam o verão e naquele dia eu tomei o banho de chuva mais gostoso da minha vida. Sobretudo, me vi no envolto corporal que estranhamente me arrepiou dos pés à cabeça.

    Somente quando diante do seu olhar eu compreendi tudo. Se tratava daquilo… a chuva.

    Quando do nosso primeiro beijo, a chuva também estava lá. Marcando o principio do relicário imenso desse amor.

    Em algum lugar no tempo ouvi dizer, e acredito com veemência, que as coisas que se iniciam com a chuva são eternas. Nos transformam. Mudam a nós mesmos radicalmente. É um sinal de que estamos alinhados ao nosso destino. São instantes atemporal.

    Sabe, tenho essa sensação… de que o “eu e você”, de algum modo, sempre esteve escrito. Não sei explicar, só sinto.

    […]

    Mulher, você é fantástica. Confesso, tive receio de que julgasse bobo, precipitado e mal desse ouvidos. As estações correm e nós permanecermos a agir como no principio. Não há que se esperar nada se tratando de nós dois. Não passamos vontade. Não importa como, quando ou onde. Gosto disso na gente.

    […]

    Óbvio que foi inesperado. Sem mais nem menos, de um instante a outro. Aliás, diante de tudo isso aqui, inequívoco que eu seria incapaz de dizer um “não”.

    Se trata de você, meu bem. O homem que tem nas mãos o meu choro de mulher, que tem o meu ver, o meu olhar e o que quiser.

    Eu toparia casar com você até mesmo se a proposta for fazendo juras de mindinho. O casamento, ao meu ver, não é institucional e sim simbólico.

    […]

    Você tem um potencial para me dizer coisas tão lindas que eu fico perdido sem saber o que responder. Como se nada do que eu dissesse fosse capaz de expressar tudo o que eu sinto.

    […]

    Não precisa me dizer nada. O seu olhar, o seu toque, me diz o Universo e o mundo. A sua linguagem do amor é diferente da minha. Eu não preciso de palavras de afirmação para reconhecer o que você sente.

    Você não precisa usar comparações, canções ou palavras bonitas para me fazer sentir amada. Basta palavras sinceras. Apenas.

    Gosto dessas nossas conversas. São lindas. Parece até mesmo que estamos seguindo uma espécie de roteiro, escrito por um alucinado que idealiza o amor.

    […]

    Eu jamais havia imaginado estar vivendo isso aqui. Esse “agora”, com você. Quando te conheci, não imaginei que seria a mulher com quem dividiria a minha vida. Na realidade, sempre te achei tão dona de si que parecia loucura cogitar qualquer envolvimento contigo. Você é um Universo de qualidades.

    Não sei o que em mim tanto te cativa.

    […]

    Sinto em dizer que não sei te responder. É um mistério. Eu mesma me questiono isso. O que faz você, ser você. Há algo, sei que há. Algo imenso.

    Posso apontar a dedo cada detalhe seu, pinta, marca, riso, jeitos e andados. É um conglomerado de coisas que te faz único. Fico imersa nos seus detalhes.

    Não precisa de muito. É justamente por ser tratar de você.

    Não sei explicar, desde o início, ainda que você e qualquer outro alguém agisssem exatamente da mesmíssima forma, eu sempre fui atingida ao máximo por você.

    O sorriso que enaltece o meu dia. O colo que eu deito e descanso. O olhar que despertar o meu lado devasso.

    Não percebe? Eu amo você. Você. Todo o conjunto do seu eu, cada partezinha.

    […]

    O que eu sinto por ti é desmedido a ponto de ser misterioso. Até mesmo mais que o céu, o luar e as estrelas. Eu sei exatamente o que torna você, você. Cada uma das coisas que me faz transbordar.

    […]

    Sabia que sou fascinada nessa coisa? Planetas, estrelas, anéis… Gostei dessa comparação com os astros. Pode ter certeza que irá encontrá-la em algum dos meus textos. Eles são cheios de você.

    […]

    Então, escolhi a noite certa. Um evento celestial para marcar mais um epílogo. A noite de glória para Vênus, seu ápice. Iremos contemplar o extremo de seu brilho sobrecarregar as Plêiades, da constelação de Touro.

    Aliás, por falar em astros, recorda a primeira música que cantei para ti? “Mecânica Celeste Aplicada — Yoñlu”. Tudo quanto a nós está repleto de pequenas coincidências. Sempre estamos diante da “sincronicidade” que você tanto fala.

    […]

    Espero não estar sonhando, delirando ou em devaneios. Você sempre me surpreende e cada vez de uma forma mais esplêndida. Se eu pudesse, nos fazia eternos.

    […]

    Vamos estagnar o tempo. Eu te farei eterna, em mim. Exatamente como em “As Coisas Tão Mais Lindas — Nando Reis”. Dias, semanas, meses, anos décadas e séculos, milênios vão passar e viveremos por todo o sempre, eternamente, no templo que construímos um no outro.

    […]

    Me sinto grata por você ser o alvo de toda a minha doação e entrega. É um prazer ser você a ter nas mãos o meu sentir e cada fresta do meu corpo. Eu amo a forma como me tem, como me toca (em sentido amplo).

    […]

    O prazer é mútuo. Sei o quanto adora ser chamada de “Vênus”. Mas, você não se dá conta que ser uma deusa, se tratando de ti, ainda é pouco. Você é um Universo inteiro. Aliás, o mais lindo que poderia existir. Tanta força, beleza e intensidade em uma única mulher. Você é expansão.

    […]

    Obrigada, meu bem.

    […]

    Eu quem sou grato. Terei a honra de casar com você. Aliás, venho matutando isso há dias consideráveis. Te comprei um vestido bem antes disso, por de imediato memorar você.

    Fica tranquila, não é branco e muito menos “de casamento”. Sei o que pensa a respeito. Sabe, Ele é do tecido e com os tipos de detalhes que você gosta. Quanto a cor, estampa e tudo mais, não sei dizer. Ele é a linha tênue entre o luar e o alvorecer.

    […]

    Perfeito.

    […]

    Sabe, adoro isso na gente… como nos tratamos. O imenso respeito. A cautela, cuidado e zelo um com o outro. O nosso amor puro. Nesta noite, vamos materializar não apenas simbolicamente. Te fiz algo. Também te escrevi outra música. Bom, seria surpresa, mas eu fico nervoso nesses instantes.

    […]

    Tenho certeza que irei amar.

    Está aí mais uma coincidência. Finalmente finalizei aquele capitulo. Eu escrevi todo o nosso enredo. Cada texto é pautado em um momento. São escritos repleto de frases, cores e falas dos nossos dias. Pormenorizei os nosso detalhes. Espero que goste da minha dedicatória, o primeiro exemplar será seu. Bom, seria surpresa, mas não me contive.

    […]

    Nas ultimas semanas, reconheci o seu jeito e andando diferente. A mudança do seu semblante. Acredito que se tratava disso. Eu tenho convicção que irei me desmanchar com cada palavra.

    […]

    Se trata não somente, mas também disso…

    […]

    Olha, a semana corria e muitos momentos pensei em “arrancar” algo de você, mas não tentei. Você pode ser boa em muitas coisas, mas não sabe disfarçar. Dissimular não é uma característica sua. Eu sinto que tem algo mais.

    […]

    Confesso que já fui melhor nisso. Te mostrei cada uma das minhas versões. No inicio de tudo isso, sobretudo, naquele 29 de fevereiro, eu te era um enigma. Hoje, me conhece tão profundamente que facilmente me decifra.

    […]

    Dona do meu pensamento, cogito algo. Aliás, que eu desejo fervorosamente que seja. Me diz, por favor, que não estou equivocado. Fala de boca cheia e com todas as letras que o nosso vinculo eterno já foi materializado.

    […]

    Se trata disso. Carrego o nosso vínculo eterno em meu ventre.

    Janaina Couto ©
    [Publicado — 2020]

    @janacoutoj

  • 1- Aidan - TEOMAKIA

    Seis anos atrás ele apareceu na porta da nossa casa. Lembro-me que naquela época já faziam alguns anos que minha mãe estava casada com Antonino, na época em que ele já maltratava ela. Eu tinha 10 anos e, como não tinha muitas companhias, vivia brincando de imaginar histórias nas estradas e nos campos próximos de casa. Sempre sonhei alto, e até falava em voz alta quando não tinha ninguém por perto. Imaginava histórias de príncipes e princesas, como se eu fosse uma. Mesmo sendo menina e nova, Antonino já me mandava fazer trabalhos como se eu fosse um rapaz. Eu buscava lenha, conduzia as vacas para o curral antes do amanhecer e para o pasto depois da ordenha, carpia e arava a roça e dava milho para as aves. Além disso, ele me ensinava a ordenhar e a cortar lenha. Era muito exaustivo, tomava a maior parte do meu dia e me deixava com calos nas mãos e dores pelas pernas e costas. Dentro de casa, minha mãe fazia de tudo, lavava roupas no açude, cozinhava, limpava, arrumava e também não tinha tempo livre.

    Somente meu padrasto, por ser dono da chácara, ficava tranquilo e com tempo de sobra. Quando não estava bebendo e jogando cartas num bar na vila, estava na rede, entre as árvores do quintal, mascando fumo de corda. Por vezes, especialmente quando virava a noite fora, chegava em casa no meio da tarde, completamente bêbado e xingando muito a nós duas. Cansei de prometer a mim mesma que um dia nós iríamos sair de lá, ter nossa própria terra e viver felizes. Não que trabalhar fosse o problema, mas as duas trabalhar por três enquanto Antonino, saudável como um cavalo e largo como um boi, vivia as custas do esforço de uma mulher e uma criança, não parecia ser muito justo.

    Claro que não era assim tão simples. Comprar um pedaço de terra era caro, além de muito difícil. Para ganhar uma, dependia de um título de nobreza, coisa que só reis ou o Imperador podiam dar, ao que eu sabia. A opção seria morar na cidade, mas mesmo isso seria muito complicado. Uma casa na cidade também era cara de comprar e difícil de alugar. E eu não fazia ideia do que fazer numa cidade. Precisaríamos trabalhar por dinheiro, e tudo que sabíamos fazer eram serviços de casa, plantar e cuidar de animais. Fora que, embora eu não soubesse na época, quem chegava na cidade sem posses acabava vivendo uma vida muito mais difícil do que no campo, podendo passar fome ou adoecer com muito mais frequência do que na roça. Minha mãe sempre dizia que, na verdade, elas tinham sorte de ter o Antonino. Eu nunca aceitei isso. E foi nessa época que um rapaz misterioso apareceu na porta de nossa casa.

    Numa daquelas noites em que o Antonino desaparecia, eu tinha acordado antes do nascer do sol para tocar as vacas para dentro do curral. Quando percebi que ele não tinha voltado quase voltei para a cama, mas senti algo diferente lá fora. Tive uma sensação de que deveria abrir a porta para ver, de que era algo ou alguém quente, muito convidativo naquela manhã tão fria de inverno. É, eu sei que é estranho sentir que há alguém quente mesmo sem sentir calor e estando longe, mas era esse sentimento vago que eu tive naquele dia.

    Ao abrir a porta vi, através da névoa e dos primeiros raios de sol, um cavalo preto muito bonito, daqueles dos desertos do leste, muito grande e muito forte. Ele estava vindo em direção à casa, num trote lento e pesado. Quando foi se aproximando eu pude perceber que tinha um homem desacordado no lombo. O homem era jovem, estava bem vestido e não parecia ferido.

    Assim que o cavalo chegou bem perto de mim, parou. Ele deu um relincho baixo e o homem acordou. Eu não podia acreditar que ele estava simplesmente dormindo sobre um cavalo trotando. Mas estava. O rapaz me olhou, pestanejou por alguns segundos e sorriu. Que olhos diferentes! As íris dos olhos dele eram de um vermelho tão profundamente brilhante! Tinha cabelos longos, barba por fazer e parecia ter uns vinte anos. Ele, após alguns longos segundos, finalmente começou a falar.
    - Bom dia, pequena. Como'stai? Seus pais estão? - disse com uma voz grossa e rouca, provavelmente pelo sono. Esse "como'stai" era estranho. Nunca tinha ouvido falar, mas parecia significar "como está".
    - Bom dia, senhor. Bem. Só minha mãe está agora. Quer algo? Quem é voc... o senhor? - tentei falar da forma mais educada que sabia. O jeito dele falar era muito claro, com as palavras completas, mesmo com um sotaque um pouco diferente. Será que era um nobre? Príncipe não era, já que o cavalo era preto e ele era moreno. Mas, pensando bem, eu nunca tinha visto um príncipe fora dos sonhos acordada.
    - Chamo-me Aidan. A Quem pertence esta propriedade? Ou melhor, poderia chamar tua mãe?

    Resumindo, chamei e eles conversaram por mais ou menos uma hora. Oferecemos café, queijo e cuscuz com manteiga. Ele aceitou. Não conhecia cuscuz, mas disse que gostou muito. Apesar disso, comeu bem pouco. Sobre a conversa, ele perguntou sobre o Antonino, sobre o casamento da minha mãe e sobre como ele nos tratava. Perguntou muitas coisas, sobre nossas vidas, como vivíamos antes e sobre as coisas que gostávamos de fazer. Minha mãe não quis dizer nada sobre os maus tratos e nem sobre meu padrasto ser um preguiçoso. E por incrível que pareça, ele parecia bastante interessado em tudo que dizíamos. Quando falava dele, contava sobre a vida na cidade e sobre a infância. Contou que perdeu o pai ainda jovem, que trabalhava bastante desde muito jovem, por que o pai não gostava da ideia de ter escravos, e a mãe acabou seguindo pelo mesmo caminho. Parecia ser uma pessoa muito justa e boa. E também falou que queria aprender a fazer cuscuz. Depois disso, ao saber que o Antonino provavelmente não chegaria tão cedo, se ofereceu para ordenhar as vacas e buscar e cortar lenha. Como retribuição, queria minha companhia. Aceitamos.

    Quando estávamos no curral e depois na mata coletando lenha, ele me perguntou de novo sobre todas aquelas coisas. Longe de minha mãe eu falei sobre as coisas que ela não tinha falado. Porém, agora Aidan não mostrava mais aquela cara de interessado. Fazia todos os trabalhos com o rosto imóvel, parecendo não ter nenhuma impressão do que eu dizia, a não ser quando falei das agressões, quando ele travou por um segundo. Bom, depois eu percebi que esse era só o jeito dele mesmo. Que por dentro ele reagia. E aquela sensação calorosa continuava firme e forte. Depois de tudo falado, uma coisa que falamos não saiu mais da minha cabeça:
    - Mereces mais. As duas merecem, sim, entretanto tu... tu tens tudo para um dia ser quem sou. Sou um Dragão do Império¹.
    - Um Dragão??? - eu tinha certeza de que não conseguia esconder minha surpresa. Meus olhos certamente estavam saltados. Ele riu disso. - Mas os Dragões não são apenas homens nobres?
    - Sim. Eu sou um homem e sou barão².
    - É. Mas eu sou mulher, cabocla e plebeia. Eles não me aceitariam nunca! - não sabia quem exatamente seriam "eles", mas tinha certeza de que não aceitariam.
    - Sim, eu sei. - o sorriso dele mudou. Parecia estar se divertindo com aquilo. - Mais um excelente motivo. Eu tenho só mais uma pergunta, mas essa é sobre sua mãe. - voltou ao tom sério. - Ela ama o senhor Antonino? Ela deseja continuar vivendo com ele?

    Nessa hora eu exitei. Eu não tinha certeza, mas achava que ela não o amava mais. Ele era arrogante, muitas vezes cruel e violento. Eu queria muito dizer pro Aidan que nós só queríamos ser livres, mas o que ele podia fazer? Barão era um título mais baixo, não tinha como fazer nada por nós. Mas um Dragão do Império com certeza tinha contato com nobres maiores. Antes que eu pudesse responder, ele continuou.
    - Entendi. Acho que ele está perto de chegar. Vamos recebê-lo em casa.

    Não entendi como ele percebeu, mas realmente Antonino estava chegando no exato momento que nós voltamos para frente de casa. Minha mãe, que estava lá fora, ficou branca como papel. O homem veio atacado, de cara feia, como se fosse agredir alguém. E eu percebi que ele ia agredir o barão. Aidan, por outro lado, estava com uma postura dócil, de pé perto da porta, com um sorriso convidativo no rosto.
    - Seja bem-vindo, senhor Antonino. Como'stai? É um prazer conhecê-lo!
    - O que faz na minha casa, maldito? - meu padrasto era um palmo mais alto do que o rapaz, e tinha mais que o dobro da largura, a maior parte disso em músculos, mas também era um tanto gordo. - Não te conheço. Suma ou eu te mato.

    O sorriso continuou no rosto do Dragão. Ele se despediu de nós duas, parecendo ignorar Antonino. Estávamos assustadas. Até que se virou, deu três passos até ele, colocou a mão em seu ombro e disse, ainda de maneira educada:
    - Sou Aidan, Dragão Imperial e Catedrático³ do Fogo. Sabes por que um homem é mais forte que uma mulher? Para protegê-la. Pois bem. Se eu descobrir que o senhor agrediu fisicamente uma das duas eu voltarei, o levarei a um passeio atado ao meu cavalo, o arrastarei por muitas léguas nas estradas do nosso Império, até o Paço Imperial onde, caso chegue vivo, será julgado e condenado a morte. Eu mesmo cortarei sua cabeça com um serrote. Tenha um excelente dia, senhor Antonino!

    Sem ter retirado o sorriso do rosto em momento algum, o Dragão montou seu cavalo e foi embora. Desde o momento que ouviu o nome de Aidan, Antonino mudou o semblante, parecia temeroso. Depois disso, sem falar nada e com a cabeça baixa, ele entrou e foi direto para o quarto, onde ficou por horas trancado. Daquele dia em diante, por muitos meses, ele não mais nos tratou mal.Por alguns anos eu não pude compreender o terror que meu padrasto viveu naquele dia.

    ¹ Dragões do Império: a ordem de elite, guarda pessoal da família imperial em tempos de paz, unidade de operações especiais em tempo de guerra. Tem um número limitado de indivíduos, cavaleiros cuja lenda diz terem poderes sobre-humanos.

    ² Barão: título mais baixo da nobreza do Imperio. Tem direito a uma terra e alguns escravos.

    ³ Catedrático: detentor de uma cátedra (cadeira), neste caso, uma das quatro lideranças do exército imperial. Seria o mesmo que um general.

  • A beleza original **

    Eu sou mãe de dois
    E os dois são meus filhos

    Na primeira vez que eu
    Tive a honra de os perceber
    No meu universo
    Recuperei minha inocência
    E falei a língua dos anjos
    Eu me fiz macia
    Água, fogo, terra e ar
    Sussurrantes
    Delicada criatura por dentro

    Mas por fora fui fortaleza
    Para os proteger

    Eles chegaram
    E toda a beleza de meu coração
    Cercou suas presenças puras
    Nesse mundo de Deus

    E essa história se repete
    A todo instante
    Eu sou mãe
    Eles são filhos

    __
    ** tudo que permanece
  • A Bruxa da Arruda e o Sagrado de Tudo

    A manhã estava carinhosamente refrescante em um dia de verão calmo, que precedia o calor do seco e ensolarado tempo impermanente. Acordou às cinco horas da manhã como de costume, e já não tinha mais a necessidade do despertador do seu smartphone para tal feito. Simplesmente os olhos automaticamente em uma só expressão se abriram, o corpo em um só impulso na cama se sentou, e mergulhado nos seus pensamentos do que fazer com o novo dia de quarentena que auto se apresentava, meditava… claro! Aqueles dias eram por demais incomuns, de um lado tinha o dia todo pela frente sem a rotina acinzentada do levantar, correr e trabalhar, e, por outro lado, teria que ser criativo ao esforço máximo, em táticas incomuns e altruístas para não deixar que o tédio com toda sua improdutividade o arrebatasse, sequestrando a sua proposital impulsionada momentânea e intencionada alegria.
    Essa intencional alegria era a Poderosa Presença do Sagrado em sua vida. E apenas se baseava, por incrível que pareça, as coisas e recordações mais simples e singelas da sua tenra infância. Principalmente as lembranças delicadas e afetuosas de sua bisa, a Bruxa da Arruda, D. Darluz. Pelo qual, todas as manhãs, dedicava em um cantinho do seu oratório (em culto aos antepassados) uma vela sentada em um pires repleto de azeite de oliva misturado a sal grosso e mel, um pote de água que diariamente derramava seu líquido em uma específica planta de Arruda (Ruta graveolens), trocando a água do recipiente todas as manhãs, além de oferendas de flores silvestres, como: Cenoura-brava (Daucus carota subsp. Maximus); Centaurea Nigra (Centaurea nigra subsp. rivularis); flor Leopardo (Belamcanda chinensis); flor de Laranjeira (Citrus × sinensis); flores de Onze-horas (Portulaca grandiflora) e Calêndulas (Calendula officinalis). Tudo isso para se manter em conexão permanente com o espírito de sua querida bisavó. Sendo esta, em vida, sua sacerdotisa. E em morte carnal sua guia espiritual. Pelo que lhe prometera em vida terrena, que ao desencarnar nunca o abandonaria e o vigiaria de cima. Dando-lhe inúmeros conselhos e severas instruções ritualísticas de como manter o contato espiritual com sua alma e coração depois de sua partida.
    Para a Bruxa da Arruda, sua bisa, tudo era Sagrado…
    E do Sagrado… e unicamente, pertencendo ao Sagrado!
    Tudo era vivo! E tinha em si um grande e puro significado.
    Tudo era mágico!
    Tudo era místico!
    Tudo era encantado!
    Tudo era rico!
    Sua constante alegria não se baseava em emotivos momentos.
    Era como o constante balançar das árvores que bailavam se animando, apenas, com o tocar dos ventos.
    O seu grande sorriso em sua face iluminada, transmitia a qualquer um que olhava um manancial inesgotável de pleno contentamento.
    As pessoas que iam ao seu encontro de amor se preenchiam, automaticamente renovando esse sublime sentimento.
    Sua bisa lhe dizia que o Sagrado é um estado a ser sustentado constantemente. Um estado de bons hábitos e boas disciplinas que você mesmo se coloca a praticar. Um estado de Amor, de estar amando e de se sentir amado a toda hora e em todo momento, independente das circunstâncias, posses, pessoas, relacionamentos e virtudes materiais ou espirituais. Um estado de simplicidade e humildade, e cumplicidade no serviço devocional, na prática da caridade e solidariedade. Vivendo em perfeita gratidão e sendo gentil não só com as pessoas, mas a tudo em que os nossos sentidos intentar, aplicar e perceber. Lhe dizia que o segredo para vivenciar o Sagrado na prática, estava na gratidão e valorização da vida em todas as suas formas, não diferenciando uma pepita de ouro de uma simples pedra do rio, um ser-humano de uma formiga, a mais iluminada estrela do céu noturno de um singelo grão de areia das praias do mar. E essa valorização é ver a beleza oculta no amago de todas as coisas, sua Energia Divina e Intenção Criativa. Dizia-lhe que para realização de tal feito era preciso se livrar das amarras da má educação de si mesmo, que degenerou os nossos sentidos na elaboração de conceitos e preconceitos, a partir das inúmeras errôneas percepções externas a nossa Linhagem Sagrada, deteriorando e adulterando o nosso pensar, o nosso sentir, o nosso olhar, o nosso ouvir e o nosso falar. E explicou-lhe, que devido a tudo isso, o porquê das manifestações artísticas, arquitetônicas, filosóficas e religiosas de hoje estarem tão feias, rudes, cinzentas, frias, quadradas, embaraçadas e amontoadas, repetitivas e sem coração.
    D. Darluz dizia que por nos desconectarmos das sabedorias dos nossos ancestrais, o nosso sentido do novo e a capacidade do espanto e da novidade assombrosa de olhar tudo de maneira nova, no sublime estado de encantamento e percepção de alerta alegria, se perdeu no mundo. Dizia que o mal das futuras gerações estava na comparação e associação de capturar as impressões, sem a capacidade madura de traduzi-las, sendo essa maneira uma errônea tentativa de interpretar o novo sem a compreensão do velho, desassociando as consequências presentes e futuras das ações passadas. Daí, como ensinava a Bruxa da Arruda, eis a importância de se cultuar os antepassados, pois, uma árvore não pode florir e gerar bons frutos sem o bom cuidado para com suas raízes.
    Voltando ao momento presente, e na cama em que se encontrava sentado, vira como era difícil traduzir a vivência de infância que tivera com sua bisa para o moderno, virtual, tecnológico e competitivo dias de hoje. Sabia que as redes sociais virtuais, ao contrário do que se pensava, alimentava mais as más ações do ego do que o conhecimento (pelo qual era a sua proposta inicial). E que esse contato virtual se tornou uma máquina alimentadora dos nossos mais animalescos instintos, provocando mediante as imagens, sons, cores e palavras as mais variadas sensações emocionais para a satisfação dos nossos mais carnais e individuais desejos de ter ou ser. Não medindo as consequências de um super ego (‘eu’ pluralizado), que busca sempre aquelas ilusórias sensações que lhe possam dar a tão almejada satisfação momentânea, em uma falsa privacidade de no ato de estar solitário cometermos as maiores torpezas, em que julgamos erroneamente não impactar o nosso mundo externo. Vira que a internet, ao contrário do que fora a sua proposta de unir as pessoas, se tornou um luxurioso baile de máscaras, em que as redes sociais eram essas enfeitadas e coloridas máscaras.
    Assim, contudo, preferia estar no seu jardim. Na companhia das lembranças de sua bisa, a Bruxa da Arruda, D. Darluz. Que o lembrava que o mundo ainda era envolvido por uma aura de Novidade Mística, Alegria Mágica e Amor Divino. E que só poderia vivenciar o Sagrado da Vida observando, compactuando, comungando e se relacionando com o Mundo Natural em toda sua essência ecológica. O seu pequeno jardim era totalmente dedicado ao Sagrado e a memória de sua bisavó. Ali… dedicando-se a colocar as mãos e os joelhos na terra, se sentia uma Pessoa Superior em toda sua humildade, dividindo-se entre o observador e o observado, conhecendo a si mesmo na observação dos pequenos seres vegetais, minerais e animais. Se perdendo em um mundo desconhecido de encanto e nostalgia, que o elevava e fazia distante das miseráveis catastróficas vivências de traumas e barbaridades da bestialidade e ignorância humana.
    Ao regar suas plantas em pleno final de tarde, se via quando pequeno sentado no colo de sua bisa em uma balança pendurada a um tronco da árvore de Tipuana (Tipuana tipu (Benth.) Kuntze), em que juntos no crepúsculo vespertino se divertiam olhando as inúmeras nuvens no céu a tomar formas inusitadas de rostos, silhuetas, animais e objetos. E sua bisa, também, instigava a sua imaginação a ver essas formas nas plantas, flores, objetos e coisas. Dizendo que as mensagens dos seres naturais (Elementais) vêm a nós nas formas que a nossa consciência pode reconhecer, por eles falarem uma linguagem desconhecida aos nossos sentidos e dimensão.
    E, lembrou-se das manhãs ensolaradas ao correr pelo terreno da Chácara Celeste (que na verdade era um pedaço do céu na terra) logo ao acordar, indo de encontro a sua querida bisa nos campos abertos, vendo-a colher flores para o seu ritualístico culto matinal. E chegando ofegante até ela, gritava: “Bisaaaaa!”. E D. Darluz respondia com a mesma intensidade: “Meu Miúdo!”. E ela o carregando, abraçava forte e o cobria de beijos, até ele dizer basta. E, D. Darluz lhe dizia: “Olha meu Miúdo, não existe nada neste mundo que é mais adorável que uma flor, nem nada mais essencial que uma árvore e planta, sem elas não conheceríamos o belo, não poderíamos respirar e nem comer, nem nos curar. E, ocultamente a esses benefícios que elas nos trazem ao nosso corpo de carne e seus sentidos, tem ainda a sua função mística, que é a mais relevante, algo divino em que as pessoas comuns e materialistas não têm a capacidade de ver. Uma força mágica e espiritual, eterna e imutável.”
    A Bruxa da Arruda sempre o alertara a valorizar todas as coisas… de uma simples pedra a um pequeno objeto. Como um brinquedo, um utensílio ou algo do tipo. Dizia que tudo tem um propósito e que nada é obra do acaso. Alertara que todas as coisas por serem criações foram pensadas e intencionadas a se manifestarem. Tudo tinha um espírito, mesmo as coisas inanimadas. Pois, sempre afirmará: “O que tem corpo, tem espírito. Tudo é vivo! Toda criação é fragmento do seu Criador, contendo em si uma determinada energia que por mais pequena e singular que seja, é viva em si mesma, presa e magneticamente sustentada nesse corpo, é consciente especificamente para executar tal função, e depois de executada por si só se decompõe e desaparece”. E afirmava que a evolução desses corpos inanimados tinha a ver com a evolução humana, de acordo com seu grau evolutivo. Assim, o inorgânico Elemental podia se manifestar numa pedra, numa mesa, em um relógio de pulso, nos objetos que mais amamos e desejamos, e ainda mais nos brinquedos das crianças, por serem carregados de sentimentos. E que por isso, para seus Rituais da Magia Elemental necessitava dos objetos e minerais… das pedras… das cascas de árvores… dos restos de corpos dos seres vivos e seus derivados, onde se continha ainda preservada a energia Elemental necessária para tal e específica magia.
    Assim, Maria da Piedade…, moradora e proprietária da Chácara Celeste, que se localizava em algum lugar escondido na região nordeste do Brasil…, a Bruxa da Arruda: agricultora, queijeira, azeiteira, parteira, rezadeira, curandeira, e feiticeira portuguesa…, de origem dos antigos povos celtas das terras europeias mediterrâneas da Península Ibérica…, apelidada como D. Darluz…, afirmava que quando nos damos conta da existência do Poder Criativo em tudo que existe ao nosso redor e no nosso viver, quando descobrimos que tudo tem coração e inteligência, que tudo é intenção, e que a toda intenção foi aplicada uma específica atenção, e que a tudo que damos atenção doamos uma determinada fração de nossa energia vital, que se torna um fragmento de vida em si, independente por si próprio e evolutiva em si mesma… Tudo se torna Divino! Tudo se torna Sagrado! A ordem da Grande Espiral do Eterno e Permanente Contínuo.
  • A Carta Gelada

    Às oito e meia da noite, em um sábado, eu estava sentado no sofá, assistindo a um filme, e com um tigela de cereal ao leite sobreposta ao meu colo. O estado de profunda concentração me pungia naquele momento, e meus olhos acompanhava inflexivelmente os movimentos surreais de um serial killer prestes a desligar mais uma vida. Nesse momento, eu ouço um batuque que não fora oriundo da TV, e que aos poucos se repetia ritmadamente. Após alguns segundos guiando a minha audição, percebo que era alguém batendo na minha porta. Confesso que senti um arrepio nas espinhas, e que quando percebi do que se tratava, acabei derrubando a tigela e molhando o tapete. Desdenhei o meu deslize e fui apressadamente até a porta. Receoso em falar algo, olhei pelo olho-mágico, só que esse estava quebrado. Não encontrei palavras no momento, e minha tensão estava aumentando feneticamente. O batuque não parava de se repetir. E eu resolvi interrogar: 
    —Quem é ? 
    O barulho cessou, e o silêncio reinou. Senti um choque profundo, um sensação de taquicardia apertada, um gosto de sangue. Era a sensação de temor misturada com perplexidade. Eu resolvi, perguntar novamente: 
    — Quem é que está aí? 
    E nada a não ser o grito melancólico do silêncio, um som abafado e chiado ao meu ouvi. Neste momento, inquirições estavam se chocando contra minha pisque. Quem será que está uma hora dessa batucando a minha porta? Se fosse algum conhecido, certamente, me ligaria ou então, falaria. Posto isso, resolvi dar de ombros, aliviando a minha mente com a ideia de alguém ter errado de localidade devido à embriaguez ou algo do tipo. 
    Fui até a geladeira, pensei em pegar um suco, mas achei melhor uma cerveja para aliviar a tensão. O chão da sala estava todo lambuzado, e minha janta já não me pertencia mais. Perdi a fome, por mais que o fastidioso despejamento de adrenalina no meu sangue tivesse gastado energia, o medo incutido momentaneamente perfez-me a omitir o desejo por comida. Eu não tive a menor intensão de limpar a sujeira. Perdi a vontade de terminar o filme. Na verdade, não perdi a vontade, apenas, cenas de suspense e insanidades são iriam acalmar meus ânimos. 
    Liguei o toca disco, coloquei uma música animada, repousei meus ossos sobre o sofá e, assim, resolvi abrir a cerveja. 
    —TOC. TOC. TOC... 
    O batuque voltou e desta vez mais agressivo. Nem sequer abri a cerveja. Tive um susto mais avassalador do que antes. E desta vez, senti que algo ruim iria acontecer. Preconizei-me a ligar para polícia. Pedi urgência na ocorrência, e fui aconselhado de evitar ficar perto da porta. Subi apressadamente às escadas e, assim sendo, resolvi me trancar no quarto, e ocupar-me a atentar aos batuques. Cada batuque, cada segundo, estava exaurindo a minha sanidade. Eu não estava aguentando mais. Era uma pressão aterradoramente cruel. Estava com a visão vertiginosa, e uma tontura me eivou. Senti calafrios. Não era mais nervosismo, era o medo que me possuíra. Eu escutei um estrondo, e ademais, seguiu-se apenas o som da música de vinil que tocava lá em baixo. Presumi que entraram na casa. Não sabia o que fazer. Pensei que era melhor pular da janela. Forcejei sem resultados, a embotada ferragem, que impedia a minha fuga. Maldita hora em que troquei o ar fresco pelo ar condicionado. 
    Passei um tempo, procurando algo para quebrar a janela. Nada. Essa palavra resumiu meus esforços. Peguei meu sapato, e agredi impiedosamente a janela, e essa parecia rir da minha cara. Nem um arranhão. Foi quando eu tomei a decisão mais tresloucada da minha vida: choquei-me com toda a angústia e frustração do momento contra a estorva. Uma certeza eu tinha: ou eu acabo com ela, ou ela me acaba. Contudo, sai vitorioso entre aspas, pois, embora eu tivesse fragmentado o vidro em imensuráveis cacos, os cacos dilaceram-me em cortes excruciantes. E ainda, uma queda do primeiro andar me fez sentir como a gravidade me ama. 
    Quando eu caí lá fora, me escondi em umas árvores. A penumbra dava arrepios. A única luz que tinha era a luz de um poste próximo a minha casa. Eu estava às espreitas tentando vislumbrar quem batia na minha porta. Ninguém? fiquei sem entender. Ninguém estava batendo na minha porta. Eu me levantei e fiquei surpreso. Circundei a minha visão em trezentos e sessenta graus e não avistei nada. Apenas uma coruja crocitava em um rododendro ao lado da minha casa. Senti uma gélida friagem acariciando a minha face. Resolvi sair dos arbustos e encaminhar até minha casa. Por garantia resolvi caminhar em derredor a casa para se certificar de que ninguém além de mim estava ali. Quando fui até a porta, eu me perguntei: cadê a chave? Realmente me lasquei. Pensei em forcejar a porta. E nada. A porta por mais velha que fosse, era bastante resistente. Tentei subir pela fachada na frente. Só que não obtive sucesso. Quando retornei a pontapear a porta, a polícia acaba de chegar. Eu pensei, até que fim. A polícia mandou eu colocar a mão na cabeça. Eu clamei dizendo eu sou o dono da casa. Não sou criminoso! Os agentes insistiram com a arma apontada. Eu disse eu me recuso a ser preso. Levei um choque e acabei sendo prezo. 
    No caminho até a delegacia, eu expliquei todo o ocorrido e eles não comentaram nada. Na delegacia, fui questionado várias vezes. Estava exausto, abatido, machucado e, dessa vez, faminto. Contei até onde pude. Disse que foi um tremendo engano. E no dia seguinte fui liberado, realmente constava no sistema o meu nome como proprietário. 
    Caminhei desconsoladamente, fixando meu olhar no chão. Mergulhei num estado de profunda introspecção. Estava com raiva e deveras frustrado. Pensei, será que sou doido? Será que estou vendo coisas? Essas reflexões infindáveis foram vertidas em remorso ao ver a porta da minha casa aberta. Roubaram minha televisão, meu toca disco, minhas cervejas, vários pertences. E eu estava fumegando de raiva. Não só tinha perdido a noite, como também várias coisas; até a minha dignidade. 
    Tentei acalmar meus ânimos. Esforço em vão. Então achei melhor arrumar a bagunça, pois só o tempo iria mudar meu humor. Vasculhei na geladeira algo para comer e, misteriosamente, encontrei uma carta dentro do congelador. Estava petrificada, parecia que estava ali a muito tempo. Caramba, que maneira fria de me entregar uma carta. Abri a carta, e tive a maior surpresa da minha vida: 
    "Feliz aniversário." 
    Era o que estava escrito. Foi quando eu me dei conta de que era o dia do meu aniversário. Um dia que começava bastante angustiante. E essa carta só me trouxe raiva. Que se dane o aniversário. Estava muito mais preocupado com minhas coisas perdidas do que com essa carta infame. 
    À tarde, comemorei meu aniversário comendo um sanduíche com suco, e depois, fiquei sem fazer nada. Sem TV, sem música, sem cerveja, e, acima de tudo, com as feridas latejando. Sem dúvidas, o pior aniversário da minha vida. Às seis horas da noite, estava quase dormindo, quando alguém bate em minha porta. Eu me levantei exasperado e fui até a cozinha, peguei uma faca e um bastão de massas, e resolvi abrir a porta sem delongas. Tive um grande choque. Quem batia na minha porta não era criminoso, nem era ladrão. Era simplesmente um bêbado que errou de casa e me pediu desculpas. Não sabia se ria ou se chorava. 
    No dia seguinte, às noves da manhã, decidi ir ao mercado. Quando abri a porta para sair, e ia saindo, acabei pisando em alguma coisa. Foi então que vi que era uma flor, só que abaixo dela tinha uma carta. Olhei de um lado para o outro, não avistei ninguém. Peguei a flor e a cheirei. Que aroma inigualável. Olhei a carta, muito velha a princípio, e a abri. Li recitando-a em voz alta. 
    Meu Deus! Comecei a chorar e não acreditei no que via e no que escutava. Senti um arrepio profundo. A carta datava 4 anos atrás e dizia: 
    " Hoje, meu filho, é o dia em que você completa mais um ano de vida e eu quero lhe dizer que mesmo antes de você nascer eu já o amava. Quando você nasceu foi uma alegria imensa, tanto para mim como para todos os que o rodeavam. Você cresceu, e se tornou este grande homem que és. Nunca deixe que os problemas da vida afetem seu vigor. Viva a vida. Seja feliz! E nunca se esqueça da sua mãe. Venha me visitar quando puder. Eu estou com saudades. 
    Te amo filho. 
    Da sua Mãe, Regina! 
    09/11/1984 " 
    Eu fiquei muito perplexo. Minha mãe morreu exatamente a quatro anos atrás. E esta carta estava datada no dia do meu aniversário. Quem será que me enviou esta carta? Pensei que foi o correio que tinha enviado em virtude de atrasos. Mas que atraso! 
    Fui até o correio procurar saber se entregaram algum lote de cartas extraviadas ou algo do tipo. A minha busca confirmou a minha hipótese. Realmente teve um lote fora extraviado a muito tempo. Depois de anos de investigação e processos judiciais, o correio teve que reentregar o máximo possível do lote. Eu fiquei extasiado. Quanta consciência! Ainda estava com dúvidas, se realmente foi o correio que me enviou ou foi outra pessoa que me enviara. Talvez alguém da família. Mas que família? Não tive contato a anos, embora soubesse algumas localidades. Eu acho que ninguém iria ligar para o meu aniversário. Mas e a flor? como foi parar lá? 
    Alguns questionamentos foram levados fixamente durante o percurso de volta a casa. Quando eu cheguei, pela primeira vez, vi uma coisa tão obvia, que de tão obvia acabava não sendo vista. Ao lado da porta tinha uma roseira florida e que nunca me dei conta de apreciar a sua beleza. E assim deduzi que provavelmente a carta, pelo fato de não ter caixa de correio, até porque nunca precisei, fora colocada por baixo da minha porta, e logo, o vento poderia ter puxado a carta para baixo e, inusitadamente, derrubado uma flor da roseira. Que vento! Uma explicação racional mas com pitadas surreais. Ironia do destino ou obra do acaso? Fiquei muito intrigado, até porque, quem colocara aquela outra carta no congelador. Talvez em um aniversário atrás, eu estivesse recebido uma carta e em virtude de embriaguez ou cansaço, acabei fazendo algo sem consciência do ato. Mas tudo como se desmembrou foi algo inacreditável para mim. E, portanto, pesou profundamente nos conselhos que minha mãe me deu. Decidi reavaliar meus atos. Prestar mais atenção nas coisas simples. 
    Eu vivia uma ironia curiosa, quanto mais detestava a vida, mais temia a morte. Desde que eu perdi minha mãe, solidão foi sempre companheira. Eu estava em uma ilusão profunda. Eu via o dia e não a luz sol. Eu via a noite e não o luar. Eu via a terra, mas não via as flores. Eu via os frutos, mas não via os sabores. 
    Pode não ter sido o melhor aniversário que tive, mas sem dúvidas será o aniversário mais inescurecível. Eu sempre fui medíocre, conformista e sem virtudes. Sempre receei a loucura. Mas estava muito enganado, ser louco é uma virtude que poucos alcançam e muitos temem. Decidi então, viver como ninguém viveu, sonhar como ninguém sonhou, ser o que ninguém foi: simplesmente, ser alguém original.
  • À espera dela

    Ela demora mais quanto tempo para chegar? Saiu toda atrapalhada hoje. Resmungou como de costume no banheiro, mas parecia mais apreensiva que o normal. O seu cheiro era mais forte do que de outras vezes. Os pés usavam um tipo estranho de calçado. Fazia barulho quando se mexia pelo chão da casa. Falou algo, olhou naquela "pulseira" das horas e saiu ofegante. Passos rápidos e não se despediu de mim. Fiquei a olhar uma última vez pelo vidro da janela quando entrava no bólido. Eu não tenho a noção do tempo que passou e de quanto ainda falta para ela voltar para mim. Cedo ou tarde eu sei que ela irá voltar. Ela sempre volta. E quando isso acontecer eu vou pular nela como nunca antes. Resta-me deitar no tapetinho e ficar olhando para a porta.
     
  • A Mudança

                                                                                                                    I
    Carlos desde que se lembrava, não gostava da ideia de ter de se mudar, gostava de sua casa anterior, gostava da vizinhança, dos amigos que lá tinha e do clima quente. A maioria das pessoas viviam reclamando sobre o calor matador que lá fazia sem parar, dia após dia, mas Carlos gostava, estava acostumado com o calor e com toda a agitação do seu antigo bairro.
    Ele gostava de ver as crianças brincando na rua a tarde toda, correndo de um lado para outro, com toda a sua inocência e desconhecimento de mundo. Gostava do céu, que era sempre de um azul limpo e aberto, e de como era hipnotizante, fácil de se perder em pensamentos quando se ficava sentado olhando a magnitude daquele azul. Lembrava-se de uma dessas vezes, estava deitado num chão morno cimentado, olhando para o céu, não se recordava o que se passava pela sua cabeça naquele momento, mas se lembrava de se sentir sonolento naquele chão duro que estava tão acolhedor, e afogado em sua própria mente, vidrado naquela imensidão azul, ele adormeceu.
    E agora estava acordado dentro daquele carro velho, colado na janela observando sua nova casa. Havia dormido durante toda a viagem, só foi acordar quando seu pai já estacionava o carro em frente a casa, e sua mãe já os esperava do lado de fora, em frente ao portão de madeira envelhecido. O terreno possuía uma cerca de madeira, que aparentava ser da mesma idade do portão, tinha aproximadamente um metro de altura e uns dez centímetros de espaçamento entre as madeiras. Imediatamente Carlos a achou completamente desnecessária, já que não havia nenhuma outra casa por perto. Bem no meio do terreno havia a casa de dois andares construida em madeira, na frente instalava-se a varanda que continha uma porta simples que dava entrada para a casa, acima havia uma janela de madeira retangular, que se abria para fora em duas partes, ou pelo menos deveria, pois acreditava que não seria possível devido ao pútrido estado da janela. Toda a construção externa da casa era de madeira com uma pintura branca, com a madeira e a tintura disputando quem detinha o pior aspecto depois de aparentes cinco décadas de abandono.
    Na época da construção, ela provavelmente seria a casa dos sonhos para quem queria criar uma família numa região pacata, com bastante espaço e contato com a natureza, uma vida simples e proveitosa sem todo o estresse de uma cidade populosa. Quando nova, a construção simples e de visual limpo, devia passar uma tranquilidade invejável, como viver naquelas pinturas genéricas de casas campais. Mas agora o branco era sujo e a casa tinha evidentes manchas de mofo, rachaduras e lascas em todo lugar. Sua decadência era decepcionante quando se imagina como deve ter sido quando construída, porém era compreensível, já que ninguém parecia ter encostado na casa nas últimas décadas. A tranquilidade e a beleza da simplicidade que devia se encontrar aqui a cinquenta anos, dava lugar a monotonia e a depressão que se instalava cada metro quadrado do lugar.
    – É pai... você conseguiu, é de fato uma bela aquisição - disse Carlos aborrecido. Não conseguia se imaginar vivendo ali dentro, nesse lugar isolado e morto, sem nada para fazer e com ninguém conhecido para se entreter.
    – Tudo o que precisa fazer é aceitá-la, depois de um tempo ela se tornará um lugar aconchegante para você. Disse seu pai enquanto o olhava pelo retrovisor com um pequeno sorriso.
    – Vamos antes que sua mãe comece a nos gritar, ela já parece bem ansiosa por termos chegado.
    – Anda Carlos, quero lhe mostrar a casa logo. Chamou-lhe sua mãe.
    Assim que saiu do carro, Carlos notou uma brusca queda de temperatura, mesmo o sol do fim da manhã não era suficiente para afastar o frio úmido que se debruçava sobre eles, sem qualquer sinal de vento ou movimento produzido pela natureza. O silêncio era ainda pior, se sentia estranho como se o silêncio que pressionava suas orelhas fosse tão alto que cobria todos os outros sons, e só era interrompido quando um deles falava, causando-lhe um sobressalto todas vezes, como se uma taça de vidro quebrasse a cada início de frase.
    A espessa neblina que se apoderara dos arredores do terreno talvez fosse a responsável, bloqueava a vista de tudo que estivesse fora do raio de uns oitenta metros, era como se estivessem dentro de uma domo cercado por uma gorda e branca nuvem.
    Atravessou o portão seguindo sua mãe em silêncio pela propriedade, observando o devastado chão do terreno, era uma mistura de grama morta, completamente irregular e esburacada com chão arenoso escuro. Diversas plantas invasoras também estavam por lá espalhadas, haviam carrapichos, capim, ervas daninhas e outras que não conhecia, tudo em completa desordem. – Acho que não teremos uma horta como papai queria. Disse à sua mãe.
    – Você pode ajudá-lo a limpar e a plantar. Contato com a natureza é importante para um garoto urbano como você – respondeu sua mãe.
    – Tudo bem, sei que ele imploraria por isso mesmo.
    Passando pelo deque da varanda em frente a porta de entrada, sua mãe se segurou e lhe deu um olhar penetrante enquanto abria a porta. – A casa é velha, mas tem muita história e vida, dê uma chance e ela se mostrará mágica para você assim como foi para seu pai.
    – Bem, velha e histórica com certeza ela é - retrucou Carlos.
    A entrada da casa dava direto numa sala de estar ampla com um sofá velho e uma poltrona de couro marrom totalmente poído, ainda nela haviam uma alta estante de livros empoeirados, uma televisão quadrada antiga e um pequeno bar com garrafas de bebidas tão empoeiradas quanto os livros. Seguindo pela sala à esquerda tinha uma cozinha coberta do chão ao teto de pisos brancos encardidos, com uma janela na lateral dando vista para o lado esquerdo do terreno, e no centro da cozinha uma mesa retangular de madeira antiga que conseguia acomodar de maneira apertada cinco pessoas. Próximo ao fim da sala à direita se encontrava uma escada que levava ao corredor do segundo andar, onde haviam os dois quartos e o banheiro que ficava ao término da escada. O quarto de seus pais era uma suíte no final do corredor e possuía vista para a frente do quintal, enquanto o seu quarto ficava na outra extremidade do corredor, dando vista para os fundos do terreno. 
    Depois de mostrar a casa, sua mãe lhe entregou as chaves do quarto e desceu, iria preparar o almoço com seu pai, que seria servido na varanda que havia na parte de trás do quintal.
    Ao entrar no quarto se deparou com um cómodo quadrado de cor bege escuro, havia enormes manchas de mofo que desciam dos cantos das quatro paredes numa espécie de degradê de negro absoluto ao verde musgo, algumas iam do teto até quase tocar no chão madeirado, eram grandes e gordas como grandes hematomas numa pele clara e enrugada. Havia também um guarda roupa de madeira de quatro portas, cada uma com um espelho empoeirado e manchado nas bordas devido ao tempo. E por fim, uma cama de solteiro de madeira maciça, a madeira ainda que velha parecia ainda muito forte e resistente a um grande peso, e ao lado da cama uma janela de abertura ampla que dava vista para o quintal dos fundos e para uma grande área de mata esparsa.
    Pela janela ele pôde ver que a área possuía uma relva verde bonita, com bastante espaço entre as árvores que eram grandes e bem verdes, e mais próximo do seu quintal havia um estreito riacho pedregoso, a água seguia seu curso fraca, com todas as pedras a mostra, só filetes da água escura e densa corriam ao redor das pedras, como lágrimas que escorriam de um rosto muito sujo. Era um riacho que tinha seus dias contados, em contraste das árvores e da relva que pareciam lhe roubar toda a vida para brilhar nos seus dias verdes. Assim, o riacho sedia cada vez mais vida, e a cada gota que corria, levava embora a memória de seus dias límpidos.
    Carlos voltou sua atenção ao quarto ao ouvir o chamado de sua mãe para o almoço, temia que ela fosse servi-lo no quintal dos fundos, no momento que viu mesas e cadeiras lá postadas. Porém, ao se encaminhar para saída, algo à sua esquerda lhe chamou atenção, a parede defronte a sua cama possuía agora um círculo escuro no centro, parecia-lhe um mofo, talvez não o tivesse notado ao entrar. Mesmo assim, sua curiosidade o levou a se aproximar da parede, fixado por aquele círculo chegou tão perto quanto um palmo de mão e pode ouvir quase inaudível, um silvo arrastado e debilitado, como os últimos segundos de uma morte lenta, o mofo respirara.
                                                                                                                       II
     Demorou todo o restante do dia e boa parte da noite adentro para terminarem de limpar a casa, e em especial Carlos que passou horas tentando de toda forma retirar aquelas manchas bolorentas de seu quarto, sem obter nenhum sucesso. Frustrado e exausto, Carlos decidiu que deveria dormir e mesmo assim demorou mais algumas horas para conseguir, sua mente voltava sempre com a imagem do mofo respirando, e como ele se postava logo na parede a sua frente, foi difícil tirá-lo da cabeça.
     Enfim, quando os primeiros raios de sol começaram a rasgar o azul escuro do céu, trazendo maior claridade e calor, Carlos se sentiu mais seguro e assim pode cair em seu sono. Porém, mesmo em seu sono não tinha tempo para descanso, assim que dormiu se viu numa escuridão total sufocante, nada podia ver e tentava em vão esticar suas mão para apalpar algo. A seus pés passava um curso de água que ia até acima de seu tornozelo, a água gelada lhe dava calafrios e os tremores se intensificavam gradativamente até serem quase cãibras. Seus lábios gelados tremiam tão rápidos quanto milissegundos, e toda tentativa de fechar a boca era patética e inútil, e nesse estado, foi quando voltou a ouvir.
     A mesma respiração daquela encontrada no bolor em sua parede estava de volta, débil e fraca ela lhe chegava e foi acelerando, crescendo. Ao mesmo tempo o nível da água alcançou a metade de suas canelas, trazendo objetos pesados e macios que acertavam suas pernas, fazendo com o que manter o equilíbrio fosse quase impossível. Olhava para baixo  procurando ver a água ou as coisas que o acertavam, mas o breu era tão forte quanto uma venda em seus olhos, nada enxergava e nem dimensão de distância ele possuía.
     Não sabia a quanto tempo estava lá parado, fechou os olhos com força e rezava para que acabasse, seus ouvidos eram pressionados pela respiração forte e abrupta que estava agora sintonizada com seu coração, cada batimento no ritmo acelerado de seu nervosismo era acompanhado por uma lufada de ar expelida em seu ouvido, lhe deixando mais nervoso, criando assim um círculo vicioso do terror. Quando achou que não mais suportaria, algo passou por seu tornozelo e o agarrou, cravando garras adentro de sua pele e músculos. Sentiu aquele aperto tanto no tornozelo quanto em seu coração, o medo cravou-se em seu peito com as mesmas garras que se prendiam em seus pés e o apertaram até explodir. E assim, acordou de sobressalto com as mãos no peito e com o sol queimando seu rosto.
     Ficou sentado imóvel na cama tentando acalmar-se, respirava fundo seguidamente por mais de um minuto, suas mãos tremiam e seu peito vivia para buscar o ar e jorrar para dentro de seus pulmões a certeza de que tudo fora um sonho e nada mais. Sua mente foi aos poucos se tranquilizando, porém não esperava que ao levantar a cabeça e olhar adiante, bem a frente da sua cama, a parede que detinha a mancha que lhe dava calafrios fosse novamente levá-lo ao terror.
    A parede, na qual jazia a pequena mancha escura de mofo, já não se fazia visível, toda sua extensão fora engolida pelo mofo, que expelia pequenas partículas no ar a cada ciclo respiratório. Levantou de um salto, todo o pesadelo voltava a sua cabeça, e o sufocamento trespassava agora o tecido do sonho para a realidade, a respiração forte e acelerada retornou aos seus ouvidos junto com o medo que teimava em agarrar-se ao peito. Passou pela porta e desceu as escadas sem olhar para trás, parou apenas ao pé da escada e olhou para o andar de cima na tentativa de achar algo que podia estar lhe seguindo, mas nada encontrou.
    Seguindo as vozes de seus pais que saíam de outro cômodo, Carlos se dirigiu a cozinha a procura de se acalmar na segurança de seus pais. Ao passar pela entrada, os encontrou sentados na mesa com a cabeça totalmente afundadas sobre pesadas páginas de jornal, que se ergueram para vê-lo chegar.
    No momento que atravessou o batente, Carlos ficou preso ao chão ao olhar os rostos de seus pais, ou no caso a ausência deles, sua mãe possuía a face afundada como se por diversas vezes um objeto de imenso peso havia lhe caído sobre o rosto, sua boca era um rasgo contorcido que exibiam num sorriso nenhum dente, apenas um vão escuro tão profundo quando o abismo de sua cavidade ocular exposta. Já seu pai, tinha a metade de cima do rosto tão liso quanto uma máscara, não possuía olhos, ouvidos e nem nariz. Enquanto a metade de baixo era ocupada por uma imensa boca que ligava as extremidades laterais da sua cabeça, amplamente repleta de dentes afiados que ficavam a mostra devido ao sorriso congelado e aterrorizador que se fazia em sua face.
    – O que houve Carlos ? Ouvimos você gritar agora a pouco - disse sua mãe
     Carlos não podia responder, lutava para prender um grito em sua garganta, e se esforçava o máximo para não sair correndo novamente. Devia estar enlouquecendo, a mancha, o sonho e agora isso. Fechou os olhos e disse à sua mãe – Não é nada, acho que não estou me sentindo bem. Vou lá fora tomar um pouco de ar, ver se melhoro.
     Nesse mesmo instante, seu pai veio em sua direção de forma lenta, como se observando cada aspecto de Carlos – Têm certeza que não quer sentar conosco um pouco, meu filho ? Você realmente parece muito abatido, dessa forma você nos deixa preocupado - E assim que terminou sua frase, seu pai segurou a cabeça de Carlos próxima a sua, examinando-o, seus dentes afiados com mais de quatro centímetros davam-lhe a aparência de um tubarão. O bafo pútrido que trespassava entres os dentes trincados, combinado com as salivas que escorriam pelos cantos da boca, descendo por toda a extremidade do rosto até cair pesadamente no chão, contradizia toda a fala de seu pai, que para os ouvidos de Carlos parecia preocupado com a aparência do filho, enquanto que para seus olhos parecia faminto e levemente desapontado pelo abatimento de sua presa preferida que talvez para ele diminuísse o sabor da sua futura refeição.
    – Sim...pai, eu só preciso de um pouco de ar livre - Disse Carlos travado, com uma enorme dificuldade. E no momento em que seu pai retirou-lhe as mãos do rosto, Carlos saiu apressadamente para a sala principal e de la para a porta de entrada.
     A atmosfera do lado de fora era a mesma do dia em que havia chegado, era fria, silenciosa e com uma pesada sensação de morbidez. Mas o silêncio, nesse momento o ajudava a se acalmar, longe de seus pais e do terror do sonho que o perseguia, Carlos pode respirar tranquilamente por alguns minutos. Por isso, decidiu andar, se afastar da casa e de seus problemas.
     Após descer da varanda e andar pelo finado jardim, Carlos percebeu que a neblina estava ainda maior hoje, aumentando o cerco à casa, e tornando o silêncio ainda mais poderoso. Nem quando passou descuidadamente por sobre a morta grama e entre as diversas plantas invasoras, foi produzido algum som. Entretanto, se deu conta de que no meio da rua, parado onde se iniciava a neblina, havia um homem que olhava para o chão de maneira fixa.
     Carlos espantou-se ao ver alguém novamente, havia pensado que não havia nenhuma outra alma viva ao redor de sua casa, e foi até a rua para encontrar esse homem. Porém, ao chegar mais perto o homem se virou e adentrou a neblina, na qual Carlos foi em seguida, chamava o estranho seguidas vezes na tentativa de o homem parar.
     Mas quando adentrou a neblina soube que não mais precisava chamar, o som que o estranho fazia ao pisar no chão era como um tambor ritmado, que parecia ecoar, preso dentro da neblina sem espaço para fuga. Os passos e os ecos se misturavam, tornando impossível saber qual era o real, o passado e o presente era um naquele passo, que só foi abafado quando um estrondoso som o encobriu, pareceu um tiro que reverberou sobre si diversas vezes, multiplicando seu volume.
     Assustado, Carlos se virou para voltar pelo caminho de sua casa, mas por mais que andasse a neblina ainda ficava à sua volta, em todas as direções era única coisa que via, não sabia mais em qual direção devia ir, podia andar para qualquer uma que ainda pareceria que estava no mesmo lugar, a névoa densa agarrava-se a sua volta, o cercando naquele mundo.
     Cansado, Carlos teve que parar e dessa vez voltou a ouvir. Vindo em sua direção, cada vez mais alto e fácil de identificar, vinha uma bicicleta que quando se tornou visível, era levemente familiar. Uma bicicleta de médio porte, azul e preta andava em sua direção, devagar fazendo o som da corrente ser o único som existente daquele lugar, onde reinava absoluto. A bicicleta não trazia ninguém pedalando, veio sozinha e por uns três metros andou até Carlos, parando ao seu lado e se sustentando por uns cinco segundos, quando enfim pareceu se dar conta da impossibilidade daquele acontecimento, ela desistiu e tombou para o lado sem produzir nenhum som, como se caísse em nuvens.
     Logo após a queda da bicicleta, outro som se fez reinar novamente, de novo um estrondoso barulho de disparo foi produzido dentro da névoa, e como o primeiro, assustou Carlos até o fundo de sua alma, o fazendo correr às cegas por minutos, não sabia para onde ia, ou por onde, a direção não trazia importância a Carlos, apenas a distância era relevante e era isso que buscava. Quando abriu os olhos, depois de minutos correndo e tropeçando, Carlos se deu conta que havia chegado novamente no portão de casa.
                           
                                                                                                                  III
     Carlos atravessou o portão com lentidão, sentia-se exausto e pela escuridão noturna do céu, podia deduzir que se passou horas dentro da névoa. Não sabia exatamente quanto tempo, se fora horas ou dias, sentiu como se fossem minutos, mas agora sabia que não poderia ter sido.
     Juntou forças para chegar até a casa, queria descansar mas acreditava que não seria possível. Não seria capaz de vivenciar novamente o horror de estar no mesmo lugar que seus pais, ele ainda tentava retirar da cabeça a imagem profana deles, que hora ou outra voltava a sua mente. A mais simples imagem mental deles lhe dava calafrios, tremia durante todo o caminho, temendo encontrar novamente seus pais com aquelas faces, e imaginar que ambos estariam preocupados pelo sumiço do filho e que isso seria uma ótima oportunidade para seu pai o analisar a centímetros de distância, como da última vez.
    Na metade do caminho, um barulho constante surgiu e foi crescendo a cada passo dado em direção a casa. Logo pôde identifica-lo, o som parecia de água corrente, e a distância e o volume indicavam que corria forte e veloz. Só podia imaginar que a fonte fosse o rio atrás da casa, o que lhe parecia impossível já que ainda ontem o rio definhava em seu leito.
     Entrou em casa sorrateiramente e esperou em silêncio na expectativa de perceber se alguém o havia notado. A sala e a cozinha se encontravam vazias, e do andar superior caiam minúsculas partículas negras que se espalhavam pela sala, o que logo foi desvendado ao perceber-se que a escada e a parede que levavam para o segundo andar estavam cobertas por um negror bolorento. Assim, quando enfim notou que a porta que dava para o fundo do quintal estava entreaberta, se apressou para atravessá-la se encaminhando para os fundos, onde viu a figura de seus pais, ambos de costas para a casa, a poucos metros do rio, olhavam fixamente para o curso da água como se estivessem presos a ele.
     Apreensivo, Carlos ficou parado durante segundos em hesitação. Não sabia se ia em direção a seus pais na esperança de que toda aquela transfiguração que eles sofreram fosse apenas uma construção de sua mente exausta, ou se voltasse e fosse para qualquer outro lugar que conseguisse. Porém, antes de sua decisão, sua hesitação lhe custou um preço, seu pai voltara sua face ainda transfigurada para Carlos e o olhou como se estivesse a menos de um metro e não os vinte atuais.
    Sob o olhar inquisidor de seu pai, Carlos congelou, não conseguia se mover, tomar uma decisão. Ficou parado olhando aquela face aterrorizadora, totalmente entregue e submisso. Quando seu pai numa voz gelada e afiada como uma navalha o chamou com um “Venha!”. O som da palavra atravessou os vinte metros e chegou aos seus ouvidos como um segredo sussurrado às escondidas, cravou-se em seu coração e o rasgou como uma faca de gume enferrujado, na qual Carlos só pôde obedecer.
    Quando chegara na metade do caminho, Carlos já tinha a imagem clara. O rio de fato estava mais do que vivo, corria veloz como um cavalo, carregando o que parecia troncos de árvores rio abaixo, e fundo o suficiente para cobrir as patas de tal animal, sua largura era de no mínimo seis metros, escondendo todas as pedras fixas em seu leito e nas suas margens. Por outro lado, a mata verde parecia presa num domo outonal, com o verde substituído pelo marrom seco das folhas e da relva que poderia se quebrar ao menor sinal de vento.
     Chegando até seus pais Carlos parou abruptamente. Seu pai com as mãos firmes pôs Carlos a sua frente, e percebendo a sua perplexidade ao notar o que de fato o rio carregava, seu pai lhe deu um sorriso demoníaco. – Olha Carlos, o rio está novamente vivo. E ao lhe dizer isso, seu pai segurou -lhe a cabeça e a manteve presa direcionada ao rio.
     A essa distância Carlos pôde ver que não eram troncos de árvores que estavam sendo levados pelo rio, mas sim corpos. Corpos em estados de decomposição eram carregados aos montes pela água, de homens e mulheres de todas as idades, desde crianças até idosos. Suas peles enrugadas tinham tons esverdeados, roxos e pálidos, alguns tinham partes de seus corpos faltando, outros tinham ausência parcial de pele, e assim eram carregados numa profusão de água turva de cor marrom.
     Estava agora a menos de dois metros do rio, sua mãe ainda impassível, parecia presa a um transe na qual lhe permitia apenas ficar de pé, olhava para o rio e ignorava tudo o que acontecia a sua volta, enquanto que seu pai posicionado atrás de Carlos, segurando-lhe sua cabeça, se aproximou do seu ouvido e com sua recente voz cortante e fria, que apenas pode ser produzida por algo que a décadas deixou de existir, disse a Carlos – Está na hora de se juntar a eles. E logo após, o empurrou com extraordinária força para dentro do rio.
     Carlos caiu afundando em meio aos corpos, fracassou a tentar se levantar, suas pernas pareciam fracas e sua força ia em direção oposta ao seu desespero, os corpos pesados e de pele macia acertavam os seus membros a todo momento, a falta de ar foi crescendo a medida do seu medo até atingir seu ápice, quando Carlos não mais se encontrava no rio.
     Estava numa rua asfaltada num início de tarde, crianças jogavam bola na rua enquanto ele passava montado em sua bicicleta azul e preta pela lateral da rua. Havia pessoas sentadas em frente as suas casas, conversando amigavelmente com seus vizinhos. O som vindo da rua era barulhento, somado com o calor emanado por um sol alto e amarelo num céu limpo, podia essa combinação ser insuportável para alguns, mas para ele era acolhedor, estava próximo a sua casa, e todos ali o conheciam.   Acenavam e lhe dirigiam saudações enquanto passava lentamente por elas na sua bicicleta. Quando uma correria se fez em toda a rua, disparos estrondosos começaram atrás de Carlos, as crianças foram rapidamente resgatadas por qualquer adulto mais próximo, os que estavam sentados em frente de suas casas se trancaram de imediato, os bares e estabelecimentos familiares desceram suas portas. E nessa confusão, Carlos acabou perdendo o equilíbrio, caindo de sua bicicleta. Tentou se levantar mas suas costas doíam e ardiam incessantemente a qualquer sinal de esforço feito por ele.
     Virou de barriga para cima na tentativa de ver o que acontecia, garotos passavam a toda velocidade por ele seguidos de homens fardados que tentavam alcançá-los e disparavam às suas costas, logo se deu conta do que havia acontecido.
     Deitado naquele duro chão que emanava um calor acolhedor que o abraçava por trás, enquanto o sol queimava levemente seu rosto como uma carícia de dedos em chamas. Sua respiração ficava cada vez mais lenta ao passo que Carlos nadava naquele oceano claro que era o azul límpido do céu, se perdia naquela imensidão, se afastando e afogando aos poucos ele se distanciava de seu mundo até que apagou.
     Estava agora de volta submergido no rio, com água entrando por sua boca, podia sentir os resíduos dos corpos humanos que lhe invadiam junto a água, conseguiu enfim firmar seus pés no fundo contra as pedras e se erguer com imensa dificuldade. Seus pais, de volta ao transe com o olhar perdido no rio, nada expressaram.
     Tentava se esticar para alcançar a margem direita do rio, seus dedos riscando finas linhas na terra não conseguiam proporcionar firmeza suficiente para o seu corpo, quando com sua mão direita, conseguiu cravar todos os seus dedos dentro da margem do rio, rebentando-lhe as unhas de seus dedos, causando uma dor estonteante, Carlos aos poucos foi se aproximando da margem. Quando, como uma unidade, todos os corpos do rio começaram a se debater e a tentar agarrar qualquer parte exposta do corpo de Carlos.
     Um corpo de um idoso cravou todas as unhas pútridas de sua mão no braço esquerdo de Carlos, causando um enorme puxão para o fluxo da água, mas Carlos segurou tão firme a margem que o braço do idoso se soltou de seu corpo e ficou pendendo junto ao braço de Carlos. Suas costas exibiam rasgos em todas as direções, devido aos fracassos dos corpos de se agarrarem a ele.
     Estava com a parte superior do corpo já fora da água, quando sentiu mãos agarrarem seus tornozelos. Duas mulheres mortas, uma sem mandíbula e a outra sem toda a parte inferior do corpo, seguravam seu tornozelo esquerdo, enquanto o seu pé direito era segurado por três corpos tão necrosados que era impossível identificar o que haviam sido em suas vidas passadas. Com esse atraso, mais corpos conseguiram se segurar em Carlos, escalavam suas pernas e cravaram-se em suas costas, mordiam e arranhavam onde podiam.
     Sua mão não aguentando tal peso, foi cedendo e escorregando. Ao mesmo tempo, um corpo conseguiu escalar toda as costas de Carlos, e lhe chegou a cabeça. Mordeu-lhe com os dentes marrons a lateral da face, enquanto que, com a mão cravou todas as unhas, de mais de três centímetros, na mão direita de Carlos que num impulso soltou a margem, sendo tragado de imediato para o rio, afundando com mais de sete corpos agarrados a sua volta. Tentou gritar, mas submerso a água invadia sua boca, carregando a seus pulmões toda impureza do rio. Se rebatendo e lutando contra todos os corpos a sua volta, a alma de Carlos foi levada pelo rio para completar sua morte.
  • A paixão como eterno crime culposo

    Poucos livros conseguiram abordar as relações conflituosas no casamento como A Guerra Conjugal, do escritor curitibano Dalton Trevisan. Os contos reproduzem os papéis e o psicológico de muitos casais. Com objetividade, humor negro e uso de metáforas, seus textos transmitem uma valoração naturalista da união entre homem e mulher.
                Em todos os contos, dois personagens se fazem presentes, João e Maria, por si só uma ironia do autor, pois nos remetem a famosa história dos Irmãos Grimms. Lembrando o Star System usado em obras de mangá, como as de Osamu Tezuka. Assim a visão do leitor se volta para as ações dos personagens e a influência do meio em que vivem. Isso foi essencial para que sua narração direta não ficasse vaga durante a leitura.
                Sua narrativa sintética não impediu a construção de personagens redondos, algo bastante difícil numa narrativa tão árida. O casal onipresente, ao longo dos diversos contos apresenta inúmeras facetas. Em algumas histórias João é um homem passivo com os atos de Maria, seja na infidelidade ou sendo violentado pela mesma. Em outras ele é o carrasco, trata Maria com indiferença, torturando-a ou a trai com um amante.
                Maria por sua vez, vai de uma dominadora até uma escrava sexual. Muitas vezes a esposa usa dos seus dotes físicos para obter do marido ganhos materiais, ou exceder na lascívia e ser perdoada. Em alguns contos, no entanto, Maria sofre horrores ao se casar com João. Os fetiches do cônjuge ferem não apenas o corpo de Maria, mas também o seu orgulho, ao ponto de em uma das histórias, João colocar o amante para viver sobre o mesmo teto.
                Outros personagens constantes em todo o livro são os filhos. Apresentam-se sempre como vítimas do malfadado casamento entre João e Maria. As famílias crescem desestruturadas. Se o casal ganha em algum aspecto, os filhos saem perdendo, tanto na saúde, paz, lazer etc.
                João e Maria constituem o arquétipo de casamento feliz que inexiste por vários motivos apresentados no livro: As paixões e o instinto sempre acabam interferindo na união conjugal, o casamento formado por interesses materiais impedem qualquer desenvolvimento sentimental, a idealização do casamento encobre as motivações dos conjugues, o casamento também é feito de conflitos. Muitos outros motivos são apresentados no decorrer do livro, o que acaba tornando as situações absurdas, porém reais.
                Sua experiência como advogado deve ter ajudado a formar os cenários dos contos, muitos deles lembram o gênero policial, os finais sempre imprevisíveis e abruptos deixam o leitor desconcertado. A escrita rica de Dalton Trevisan impressiona pelos artifícios que usa nos seus textos, por exemplo, o gore em alguns contos deixam as suas histórias bastante sombrias. A dependência física de alguns personagens sejam eles João ou Maria, dá o parecer de que a paixão é uma droga, e o casamento um ritual para o seu uso.
                Com a falta de descrição dos personagens, pois são tão comuns que mesmo o leitor (a) poderia ser um deles (as), o que nos resta é nos atentar ao cenário. Por vezes a imundície dos antros, e mesmo nos personagens, é o que mais impressiona. Ficamos sem entender porque homens tão asquerosos acabam seduzindo as belas Marias? E horrorosas mulheres os valorosos João? Talvez a resposta esteja na imposição do casamento pela moral vigente.
                Algo notável nos escritos de A Guerra Conjugal é o uso de metáforas seja para encobrir ou codificar conteúdo erótico, tornando as passagens por vezes fantasiosas e em outras até poéticas. Vide o seguinte trecho do conto Quarto de Horrores: “Em pé na cama, inteiramente despido, João soprava a flautinha de bamba... Olhos vidrados, descobertas as vergonhas, girava à sua roda, ora aos pulos, ora de cócoras...”; outro conto com uma bela metáfora é A Normalista: “Sobre a cabeceira a imagem da santa e ali na cômoda a manada de elefantes vermelhos do bem grande ao menor, sempre de trombas para a parede...”. O foco da narrativa é o psicológico dos personagens que são transmitidos através das suas ações nem sempre louváveis. A um clima de demência nas relações “afetuosas” dos personagens que lembram o filme Psicose.
                Outra consideração a sua precisa narrativa é o uso de elementos sensoriais. Chegam a se tornar sensitiva as coisas simples do dia a dia como o amargo do café, o frio do sereno, o penacho de um cardeal ganha não apenas forma, mas total sensibilidade através das palavras de Dalton. Para histórias tão conflituosas, esse uso de elementos sensoriais acaba por diminuir o clima pesado da narrativa.
                A Guerra Conjugal mostrou que o casamento não passa de uma idealização extravagante de uma moral piegas. Nos contos do livro ninguém consegue se realizar na instituição falida que se tornou o casamento, seja ele civil, no religioso ou as uniões estáveis. Muito disso devido à interferência de outrem, e do que cada João e Maria espera receber, e não doar em prol do outro.
  • A porta entreaberta

    Uma mãe em seu quarto olha para o espelho enquanto se maquia, passa base, escolhe a cor do batom, retoca os olhos e cílios. Faz isso de forma mecânica para sair com seu marido que espera na sala assistindo um jogo de futebol. Enquanto isso o filho do casal que em instantes será cuidado por uma babá, passa pelo corredor e direciona seu olhar para a fresta da porta, onde ele consegue enxergar uma parte do corpo e do rosto da mãe em frente ao espelho, imagina ela no restaurante comendo e sua beleza sendo observada por alguns mais próximos, o perfume de loção cara usada para momentos especiais é sentido pelo filho, parece a que as colegas de escola usam só que melhor, lembra da professora de inglês, alta e sorridente, a caixa do supermercado também surge em suas lembranças de sorrisos e perfumes, nada é mais perturbador e confuso do que associar a própria mãe a outras mulheres. Mas nesse instante escuta a voz do pai ecoando da sala alertando sobre o atraso e imediatamente desvia o olhar e caminha em direção à sala, pensando como aqueles pensamentos chegaram em sua mente e constatou o perigo daquilo e de como era estranho pensar aquilo. Daquele dia em diante ele nunca mais olhou para frestas, e assim concluiu que portas entreabertas são a coisa mais perigosa do mundo.
  • A primeira ação quando a quarentena acabar será...

    As vezes o pensamento flutua em retrospectiva, olho para trás e questiono minha caminhada até aqui. Estou beirando os quarenta, alguns sonhos, poucas oportunidades mas firme, desistir jamais! A vida era normal regada de esperança por dias melhores.

    Inimaginável colapso, mundo às avessas, sofrimento e agonia. Uma pandemia fortuita trazendo destruição. Sendo emergentes o óbvio, governança pífia, brecha para espoliação de verbas e desrespeito, pois há sempre incrédulos não querendo entender a real complexidade. Em meio a reveses como sonhar? Tendo esposa, filha, a missão seria garantir renda e orar por luz no fim do túnel. A trajetória não se mostrava fácil, isolamento, reaprender a conviver, trabalhar enfim inúmeros detalhes.

    Sou do Rio de Janeiro, cidade maravilhosa, estado praticamente falido, décadas de corrupção, violência urbana expandindo e as chances menores. O tempo passava, não me iludi achando ser imediata a resolução. Diferente de outros estimando um, talvez dois meses para voltar ao normal. Imaginava no encerrar da quarentena o que faria ? Qual a prioridade ? Para muitos curtir aquela noitada, boteco, temos os viajantes, cinéfilos, etc. No entanto a meu ver projetar o simples bastaria.

    O recorde negativo país a fora seguia avassalador. Mais uma vez os cariocas eram destaque. Parte da população ignorava a doença sendo alheia as medidas protetivas e indignava aqueles buscando agir corretamente. Acreditei estar fazendo papel de bobo cumprindo a reclusão, mas buscava ter equilíbrio emocional para disseminar bons fluídos. Pensava nos entes queridos, estar longe simbolizava cuidado, respeito e acima de tudo amor.

    Todos os dias quando colocava minha filha para dormir sem hipocrisia rezava agradecido. Uma menina saudável, linda e forte. Por ter dois anos, ainda não estudar e conviver socialmente facilitou alguns pontos. Lembram da retrospectiva ? Valeu a pena estar aqui nesse exato momento! Deus vem sendo generoso proporcionando estar empregado para garantir o conforto da família. Não posso reclamar e me fazer de infeliz, seria injusto. Os sonhos vão retornando gradativamente e na hora certa se tiverem que acontecer estarei pronto. Até lá, sigo trabalhando firme. Ah! Faltou dizer, após a quarentena desejo levar minha filhota em um lugar para correr bastante! A garota adora! Ser pai trouxe outro sonho vê-la crescer.

    Estou ciente das adversidades, turbulências e desafios pós pandemia. Mas estamos vivos e ainda há tempo. Muito obrigado SENHOR por essa vida! E benção para todos vocês.

    LUTE E NÃO DESISTA!
  • À procura da felicidade

    Respira, inspira, ele vai chegar, ele vai chegar...
    Era o que Karen repetia em pensamento várias vezes. Ela havia marcado um encontro pela internet, apesar de nunca ter imaginado que chegaria a este ponto, fazia tanto tempo que ela não saia com alguém que não lhe restou muita escolha. Afinal, ela tinha uma filha, que ela amava mais do que tudo e mesmo muito nova essa menininha sempre perguntava pelo pai e a mãe não aguentava mais não poder lhe dar uma resposta que não fosse magoá-la. Karen queria recomeçar e dar à sua filha a família completa que ela sempre mereceu mesmo que essa não fosse composta por seu pai de sangue.
    Enquanto olhava ao redor, algo lhe chamou a atenção, era um vaso repleto de lindas rosas vermelhas, e isso logo lhe trouxe a tona o seu passado. Ela lembrou de seu primeiro amor e pai de sua filha, um amigo de infância que depois de afastado por muito tempo, havia voltado a cidade. Karen lembrava perfeitamente, ela tinha 18 anos de idade e ele 20 anos. Era inevitável não rolar alguma coisa entre eles, "o destino quis que fosse assim", era o que todos diziam. Ficaram, e até partiram para algo mais, Karen pensou que este seria o seu amado, o seu verdadeiro amor, pobrezinha. Isso durou até a sua gravidez, que assim do momento que ficou sabendo, o seu amado, pegou suas coisas e fugiu, sem dar explicações, nem noticias.
    Mesmo arrasada, Karen estava disposta a enfrentar tudo e todos pelo seu bebê, procurou casa, procurou emprego e sozinha ela conseguiu criar sua filha, que hoje tinha 7 anos e era uma menina inocente e doce, com um coração de ouro.
    Ao pensar na filha Karen instantaneamente sorriu e aos poucos sua ficha foi caindo... Todos esses anos ela estava procurando a felicidade, buscando se sentir completa, o que achava que somente encontraria em um homem. Mas o que ela pôde perceber somente agora, nesse momento de reflexão e lembrança, era que ela já havia encontrado a felicidade e que ela sempre foi completa, porém nunca havia notado. E aquele encontro, aquele lugar, aquelas rosas á despertaram para a realidade, e ela seria eternamente grata por isso.
    Sem mais delongas, Karen se levantou da mesa onde estava sentada, e saiu, mas saiu diferente, iluminada e com um sorriso no rosto. Confiante ela seguiu em frente atrás do verdadeiro motivo da sua felicidade: sua FILHA.
    E o cara do encontro.... Bom ele não encontrou Karen, mas encontrou a sua futura esposa e a futura mãe dos seus filhos. As coisas nem sempre são como queremos, elas são como precisam ser, e cabe a mim e a você virar a situação a nosso favor...
  • A Promessa

    Altas horas da madrugada. Jogo a mochila nas costas, faço o sinal da cruz, peço a Nossa Senhora a proteção, ajoelho-me diante dela e agradeço. Preciso pagar algo. Na mochila carrego algumas peças de roupa: uma blusa para caso faça frio, uma calça, um par de chinelos novos, meias e algumas cuecas. Claro sem esquecer-me de toalha e sabonete, estou indo viajar.
    Não vou de carro, avião, e muito menos de ônibus. Serei guiado pelas minhas pernas e pelo amor que tenho por Jesus Cristo, o nosso santo salvador. Tranco a porta de casa com a chave, enfio ela no bolso da calça e dou inicio a minha caminhada.
    O céu de cor escura e estrelada é acompanhado por uma lua cheia gigantesca, tão grande que até dá para tocá-la com a ponta dos dedos, mas eu não quero. Ao meu redor poucas casas, árvores, e silêncio. Estou nessa jornada sozinho, só eu e Deus; em minha humilde opinião, melhor companheiro não há.
    O dia amanhece. O sol aparece e eu resolvo sentar-me. Sem alternativas escolho o chão, forrado de capim seco. De dentro da mochila eu tiro pão e água, como lenta e vagarosamente, saboreando cada pedaço, cada gole, cada momento. Vejo carros passando apressados do meu lado, mas não enxergo o tempo passar.
    Prossigo minha jornada que será longa, mas que terá uma justa recompensa em sua chegada. No trajeto muitos param e ofertam-me carona, eu agradeço, mas recuso, pois promessa feita deve ser cumprida.
    Quase um dia inteiro de caminhada e o cansaço começa a tomar conta. Suor escorre do meu corpo e lágrimas descem dos meus olhos, eu venci. A igreja está lá, imponente diante de mim.
    Coloco-me de joelhos sobre o asfalto fervente. Cruzo os dedos numa prece e dou glórias aos céus e agradeço Jesus e a Nossa Senhora por ter me dado saúde para atingir o objetivo dessa jornada. Agradeço a Deus por ter salvado minha mulher e meu filho.
    Foram meses de sofrimento. Minha esposa teve diversas complicações durante a gestação. Meu filho nasceu prematuro, com apenas seis meses de gravidez. Ela quase faleceu, meu pequeno também, mas prometi a Deus e a Nossa Senhora se os salvasse eu iria a pé para a igreja e esse seria o meu agradecimento.
    Pacientemente esperei. Com amor e devoção rezei e pedi com todas as minhas forças um milagre. Foram dias difíceis. Dias em que eu pensei em desistir, principalmente quando os médicos diziam-me que já não havia mais esperança. Noites em claro em que eu trocava meu sono só para ficar ao lado dos grandes amores da minha vida, minha mulher e meu filho.
    Não desisti, insisti e venci. Estava sentado na sala de espera do hospital, o rosto cansado e o olhar triste; o coração batendo num esforço incomum, ele pedia para parar. Foi quando uma enfermeira veio em minha direção e com lágrimas nos olhos me falou:
    - Venha, o doutor deseja lhe ver.
    Sem entender nada eu fui. O lugar onde eles estavam era há poucos metros dali, mas para mim parecia ser uma distância incalculável. O médico de cabelos brancos e jaleco da mesma cor me aguardava de costas para mim. Ao virar-se para olhar-me vi um brilho em seus olhos, em seguida um sorriso grande, largo e bonito. Foi então que ele me disse:
    - Um milagre aconteceu! Sua esposa e seu menino despertaram. Não terão nenhum tipo de sequela, e amanhã mesmo você poderá leva-los para a casa.
    Desabei. Ajoelhei-me no chão cercado pelo médico e mais três enfermeiras. De longe vi meu filho ainda na incubadora, de olhinhos abertos e com cara de sono. Também vi minha amada esposa, de cabelos cacheados e aspecto cansado; se não tinha sido fácil para mim imagina como foi para ela ter suportado tamanha penitência.
    E então estou aqui. Diante da imagem de Nossa Senhora, de joelhos. Pagando aquilo que prometi. Nesse instante minha esposa troca meu filho, ele já tem quatro anos e hoje é seu primeiro dia de aula. Obrigado Senhor. Obrigado Deus. Obrigado Nossa Senhora. Minha vida e a minha família agora é toda sua.
  • A vida de uma Pimenta

    Comer a mais no café se tornou rotina. É uma maneira de evitar o contato prolongado com quem eu mais amava: meu pai.
      Depois do meu pedido de ajuda, a vida se virou de ponta cabeça. Depois do meu suicídio mal sucedido, minha cabeça começou a trabalhar num escritório e ter que ler vários artigos por dia.
      Bom, vamos ao ponto. A verdade é que sou depressiva bipolar e fóbica social. Mas a vida não tão difícil quanto pode ter passado em sua mente. Sou bem aberta à recepcionar pessoas e ouví-las. Só entro em pânico quando tenho que ir ao shopping. A vida só ficou complicada mesmo quando meus pais decidiram que eu não podia mais ficar sozinha. Isso mesmo. 24 horas por dia, vigiada. Além disso, comecei a ter o senso de que meu pai estava se aproveitando de nós, minhas irmãs e eu, para fazer tudo na casa, enquanto ele se sentava ao sofá. Sabe aquela VELHA história de que o homem trabalha fora de casa e a mulher dentro? Pois é, acontece aqui. E foi assim que as brigas começaram; que a distância se tornou refúgio e que eu comecei a perder o senso.
      Quero contar essa história do início. Mas é uma LON______GA história. Então, se você quiser/puder ficar, conto tudo direitinho....
  • A vida é boa!

    Eu acordo.
    Tenho água para beber, 
    tenho roupas para vestir,
    tenho comida para comer 
    e até um sol para olhar e admirar todas as manhãs. 
    A vida é boa!
    Gratidão.
  • Abandonados

    O sol estava quase se pondo, e começava a esfriar. Era hora de juntar as ferramentas e ir pra casa. Já havia refeito a cerca e checado o propulsor, não havia perigo essa noite. Papai instalara esse mecanismo há alguns anos, custou quase dez meses de trabalho, mas valeu a pena. Nessa época do ano os ataques de radús aumentavam. Talvez por causa do frio, que congelava as partes mais distantes da floresta, e fazia os outros animais fugirem. Eles gostavam de atacar em bando, e quando estavam reunidos representavam perigo a todos, inclusive a nós. Mas agora estávamos seguros, por enquanto...
    _Will... onde está seu irmão?
    Os arus já começavam a cantar, anunciando a chegada da noite. Minha mãe estava trancando a gaiola dos macucos quando me viu chegando. Carregava apenas algumas ferramentas, as outras deixei no caminho, apesar de meu pai sempre reclamar, dizendo que isso as oxidava. Estava ficando frio.
    _Não sei... pensei que tivesse voltado. Me deixou sozinho fazendo a cerca e sumiu.
    O olhar de preocupação ficou estampado no rosto dela. Não era seguro para uma criança andar durante a noite pela estância. Sabia onde poderia encontrá- lo, e não tardei em ir. Queria chegar antes do anoitecer e a tempo de ouvir músicas com meu pai.
    _Ele deve estar na represa. Vou lá buscar ele, já volto...
    _Cuidado Will! Não se esqueça de ligar o propulsor quando voltar.
    A porta da gaiola estava emperrando há alguns dias, por isso mãe custara a trancá-la. Era um trabalho para a próxima semana. Saí em disparada pela trilha que levava á represa. O lugar ficava extremamente frio á noite, e os gralhos cantavam em conjunto, causando um som horrível.
    Nadic estava jogando pedaços de rochas queimadas na água. Provavelmente nem se deu conta do quão tarde havia ficado. Ele era o caçula da casa, o protegido, meu irmão. Nunca me importei de zelar por ele, afinal era minha responsabilidade.
    "Irmãos tem que ser unidos"
    1
    Meu pai disse isso quando Nadic nasceu, e dizia algumas vezes mais. Sabia o quanto era importante ter um amigo ao lado, e ninguém seria mais amigo que um irmão.
    Gritei Nadic, e acenei com o braço para que viesse. Atirou sua última pedra na água e veio, num leve galope. Já havia escurecido, e não era bom ficar fora da cerca durante a noite. Tratei de apertar o passo, mas Nadic não acompanhava. Então joguei a isca que funcionaria.
    _Quem chegar por último tem que dar banho no Solomon amanhã.
    Ninguém gosta de se molhar enquanto tenta dar banho num animal de quase dois metros. Era de longe o pior trabalho a se fazer, para crianças. Os adultos tinham coisas um pouco mais difíceis.
    _Não vale, Will... você estava na frente quando falou. Espera!
    Não parei de correr. Não pela fuga do serviço, que no final das contas seria meu de qualquer forma. Nadic era muito pequeno e fraco para dar conta do Solomon. Queria apenas chegar rápido em casa, e assim ouvir a rádio com papai, como fazíamos todas as noites.
    _Ei, Will... espera! Will, tem alguém aqui.
    Estava bem á frente quando Nadic parou. Podia ser um truque, parando para esquecermos o desafio, mas não era o que parecia. Ele estava parado, e olhava fixamente a lavoura de linhais. Dizia insistentemente que havia algo ou alguém ali. Não conseguia ver nada, mas seus olhos estavam estáticos, buscando e agonizando por algo.
    Um barulho...
    Seja o que for que Nadic tenha visto, certamente não estaria ali amanhã. Um grupo de radús descia o bosque, emitindo sons enlouquecidos. Estavam famintos, e se não corrêssemos muito seríamos devorados naquela noite.
    Nadic continuava olhando o linharal, sem sequer perceber os gritos e uivos atrás de nós. Ele estava em outro lugar, parecia dormir e sonhar profundamente, acordado e de pé.
    Peguei-lhe pelas pernas e joguei nas costas. Logo saí da trilha, pegando o caminho mais rápido até a proteção da cerca. Conseguia ouvir as batidas dos dentes ferozes atrás de nós. Não daria tempo. Um deles estava muito perto, quase chegando...
    Corre Will! Corre!
    2
    Minhas pernas doíam e estavam rígidas no frio. Não conseguiria correr muito além daquilo, iríamos morrer ali, devorados por um bando de radús de dentes afiados.
    Mudei meu curso outra vez e agora corria rumo ao poço dos cânions. Se conseguisse pular em seu interior estaria livre dos radús. Eles não suportavam o contato com a água durante a noite. As nascentes se congelavam e liberavam gases de alta densidade, mantendo o solo coberto por uma nuvem branca e tóxica.
    Sabia. Não tinha outra escolha, não uma melhor.
    Eu poderia tentar a fragmentação, mas era quase impossível; não a dominava plenamente, e Nadic menos ainda. O máximo que já tínhamos conseguido metamorfosear fora uma mão, ou meio braço, nunca mais do que isso. O grande problema não era fazer, mas refazer; e o que fazer depois de mudar. Isso poderia nos matar tão rápido quanto os radús.
    Não iríamos conseguir, eles estavam atrás de nós, e Nadic pesava muito. Num último impulso joguei-me com Nadic no poço, sem me atentar que ele poderia estar congelado. Batemos forte na superfície coberta por uma fina camada de nitrogênio. A camada rompeu e afundamos...
    3
    _Onde estão os meninos? Will me falou sobre ouvirmos...
    As palavras de Moorse perderam-se quando se deu conta do que estava acontecendo. As crianças não haviam voltado, estavam lá fora, no frio, e talvez fora da proteção do propulsor.
    _Will foi buscar Nadic. Já deviam ter voltado, ele falou que iria rápido, mas até agora...
    _Calma, vou lá. Eles devem estar dentro da cerca, não há perigo.
    Moorse soltou Solomon e com o caminho clareado pelo farol da fazenda partiu em busca dos filhos... ou de seus corpos.
    A cerca estava reerguida, como havia pedido para Will fazer pela manhã, mas o propulsor estava desligado. Acionou outro feixe de luz, clareando o caminho além da cerca. Não via nada, nem as feras.
    Deixou Solomon seguir o rastro, farejando e deixando saliva por onde passava. O que quer que fosse, levaria Moorse a algum lugar. Talvez rastreasse os radús, ou os meninos, e quem sabe ambos.
    4
    O caminho farejado saía da trilha e seguia pelo campo, dirigindo-se ás antigas estalagens da estância, onde estavam o velho moinho e o poço abandonado. Nenhum funcionava, e tampouco eram acessados. Radús subiam o morro correndo, e então Moorse soube que Solomon havia os seguido. O animal parara de farejar, parecia ter chegado no fim do rastro, e agora estava sentado com as orelhas erguidas e atendo, olhando para o alto do casebre, já caindo aos pedaços. Demonstrava haver algo ali, mas Moorse não deu atenção.
    Seguiu caminhando até o poço, e viu a superfície se reconstituindo no meio. Parecia ter sido quebrada ou rompida por alguma coisa.
    Aproximando-se não pôde ver nada. Então ouviu uma pancada, de dentro para fora, vinda do poço. Havia algo ou alguém ali. Moorse não se moveu, apenas observou. Foi então que viu parte do rosto de Will comprimido contra o nitrogênio congelado, gritando desesperado.
    Moorse olhou para o poço, aproximando-se. Ficou despido, sem se importar com o frio ou com o vento em volta. Solomon observava, apenas grunhindo, lambendo o focinho e se deitando. O que outrora fora um ser corpulento e pesado, desfizera-se gradativamente, e agora feito líquido escorria lentamente para o poço.
    A camada de nitrogênio começara a gasificar, e a superfície do poço voltava a ficar líquida. Will e Nadic boiavam e eram levados para fora do poço, agora puxados por Solomon. Quando a fumaça se desfez, havia água escorrendo. Moorse agora surgia deitado no canto. Seu corpo voltara a ser o mesmo, num incrível processo de materialização.
    Nadic estava desacordado, tremendo, e enrugado. Will conseguiu se manter desperto, mas não totalmente. Moorse sentiu-se feliz ao ver o filho mais velho dormir a tempo de não ver o quanto a tentativa de fragmentação lhe havia custado.
    Seguiram pela trilha desta vez, sob a luz dos faróis. Nadic nas costas de Solomon; Will nas costas de Moorse, o braço estava pela metade, enrolado na camisa do pai, e a parte esquerda do rosto estava coberta.
    Fechou-se a cerca e o propulsor foi acionado.
    Seguiram rumo á casa.
  • Abstração de vida

       Dois meninos, deitados no capim que parece mais uma grama. Mesmo em cima da camisa, volta e meia o capim pinica as costas. Estão bem em frente para a estrada de asfalto, que trouxe o “progresso” a comunidade rural.
        Nenhum deles liga pro asfalto quente. Mas os carros que passam sobre ele sim. A escola era pela manha. Já tinham feito suas obrigações na roça e agora estavam ali a contar as três horas da tarde, quantos subiam e quantos desciam.
       Os que desciam eram de um, os que subiam do outro. Quando um carro dava marcha ré, não discutiam, negociavam ate chegar a uma conclusão. Alguém lembra que tem carros demais e diz “não, fica já tenho muitos da cor vermelha”, e o amigo respondia “não eu tenho muitos chevetes”. Doa o carro e fim de papo. Ambos possuem tantos carros que poderiam abrir ate uma concessionária
        Mas e as motos? As motos também, as bicicletas e ate os carros de mão. Estavam ali tão despreocupados. Não tem filhos para alimentar, educar, mulheres para cobrar nada deles. Por isso viviam assim, como diria o poeta “Êta vida besta meu Deus”.
       Um deles esboça um sorriso, o outro senti pena daquelas pessoas a descer e subir no asfalto, a passarela do progresso. Eles pouco se importavam com ele, queriam mesmo era sonhar que eram donos do que passava por ela.                                                              
  • Alma Perdida

    Ela era uma prostituta. Mas não era uma prostituta qualquer, nela havia algo especial. Cercada de tristeza e dor, seu corpo possuía tons curiosos.
    Carmen, filha de João e Maria, cresceu ouvindo que o mundo era vazio, um lugar sem esperança. Quando criança, tentava de todas as formas agradar os pais que trabalhavam dia e noite para poder colocar o pão na mesa, chegavam cansados e só verificavam se Carmen estava viva, não prestando atenção acima da mesa: ‘’Papai,Mamãe. Eu não sei muito sobre vocês, contudo isso é uma das consequências da vida que fomos destinados a ter, porém amo vocês do mesmo jeito que qualquer outra filha amaria.”
    Aos 16 anos, os pais de Carmen morreram e a adolescente foi morar com o único parente que tinha, seu tio. Era uma casa fria, sem cor. Todas as noites, ela chorava baixinho, no canto do quarto, implorando para sentir alguma coisa: felicidade, tristeza, raiva... Algo que mostrasse que ela ainda estava viva e não somente sobrevivendo. Seu tio, uma pessoa amarga, chegava bêbado em casa todos os dias e, naquela noite, ele escutou um murmúrio vindo do quarto. Alguém chorava. Uma alma perdida pedindo socorro. ‘’Eu vou te dar um motivo para sentir algo.’’, disse, puxando a cinta e espancando a jovem Carmen.
    E naquela madrugada, ela de fato sentiu algo: repulsa. De si mesma. Olhava para os hematomas e as lágrimas não faziam seu caminho pela bochecha mais, era uma dor mais profunda. Julgou que a melhor forma de acabar com aquilo era fugir e assim fez, saindo sem rumo. Vagou pelas ruas, somente o tempo conseguiria cura-lá.
    Passaram- se anos, Carmen se encontrava no banheiro do posto, enquanto passava o batom tão vermelho quanto seu próprio sangue, um sorriso falho no canto dos lábios. No relógio marcava 00:00, deu um passo para o lado de fora, sentindo o vento frio contra sua pele pálida. Mais uma noite de trabalho.
    Uma mulher diferente de todas as outras, parada no ponto, vendendo aquilo que sempre desejou ter, o puro amor.
  • ANELO, minutas de um desventurado

    PRÓLOGO
         Lembro-me de um gosto semelhante ao cheiro associado à ferrugem, de não poder levantar meu braço ao lado da porta do motorista e sentir um formigamento muito bem vindo em minha perna após notar estar com algo atravessado pela parte interior de minha coxa esquerda e prender-se firmemente ao meu banco. Algo, um ferro desmembrado do outro veículo talvez, também pressionava o pé desta mesma perna em sentido contrário e talvez fosse essa a causa da sensação anestésica.
         Ewan McGregor bradava a plenos pulmões que Satine o perdoasse pelo equívoco dele à seus olhos serem verdes ou azuis. Eu já estava tão acostumado com aquela adaptação de Moulin Rouge que a versão da canção Your Song, original de Elton John, me parecia esta ser a original. E além de ser um dos musicais favoritas de Elena, a cada vez que a música tocara no carro ou em qualquer que fosse o lugar que estivéssemos, sempre me deparava com a mesma imagem de mio amore...como era gratificante admirá-la em seus momentos de fantasia. Era como se a personagem a quem era dedicada a música fosse ela, e seu rosto se enchia de um sentimento de realização e ruborizava suas maçãs do rosto perfeitamente desenhadas deixando a face mais amável como uma criança não sabendo lidar com um elogio. Tão logo, os dois amantes dançariam sobre um elefante escarlate aplumado metodicamente para uma noite ao gosto não de um poeta que ama e venera a simplicidade do amor genuíno, mas sim um marajá não tão hostil, porém metódico. Coisa que nem de longe o desafortunado Christian poderia vir a ser. Mas tão apaixonado –me questionava entre um desagradável zumbido crescente e luzes que bruxuleavam à minha frente. –, como  poderia ele esquecer a cor dos adorados olhos de sua bella? De um azul tão reluzente quão eram, em sua lembrança, as águas eloquentes de Calábria. O mesmo azul do vestido que Elena vestira esta mesma manhã.
        –Elena... –tentei em vão gritar, mas minha voz não poderia ser comparada a um mero sussurro. –Dio, cosa è sucesso...? Lena... – eu ainda podia ouvir os versos cantados enquanto o mundo se desdobrava  e esticava tão rápido e sem avisos enquanto eu dava ordem aos fatos, “Um carro na contramão...eram dois? Acho que capotamos...Elena. Elena, desliga il radio.”. Enquanto recuperava parte da consciência já estava sendo tirado do emaranhado de ferro e peças do painel do carro, e tal era a confusão de formas avulsas e amassados que seria difícil dizer que um dia fora parte efetiva de um Pajero.
        Mais tarde, no hospital, enquanto um zumbido abafado tomara o lugar da melodia em minha cabeça, alguém me dizia que eu estava bem, que tudo iria ficar bem e eu não precisava me preocupar pois as coisas iam bem. Eu tentei por vezes abrir os olhos mas parecia que pesavam boas toneladas. Eu precisava saber como Elena estava. Só assim justificaria o pleonasmo irritante quando nem tudo estava realmente bem. 
         Dois dias depois eu já andava sem auxílio de alguém ou de corrimãos, mas eu ainda me sentia completamente apoiado por olhos melancólicos e cheios de incredulidade. Ora, quem sequer consideraria o destino preparar na calada da noite uma emboscada vil e calculista, onde uma jovem á flor da idade seria massageada com os gélidos dedos da morte por um evento coadjuvante?
         Aos vinte e nove anos de idade, Elena já morrera duas vezes. A primeira tinha cerca de dois anos àquele dia, quando o corpo já não aguentara mais medicação e seu coração decidiu não mais trabalhar em sua função apenas de viver por quimioterapia, ela teve de ser submetida à ressuscitação, e pela grazia di Santa Catarina teve sua breve segunda chance. Mas não posso reclamar quanto a nossa vida. Apesar de um breve casamento, foram, como de costume dizem por aqui no Brasil: anos dourados.
         Nos conhecemos no verão seguinte a mudança dela para Carpi; estávamos eu e meu velho pai, il signor Montanari, pescando como de costume em Lago di Garda que ficara a duas horas e meia de casa, aproximadamente. Nos feriados e dias comuns que meu pai se declarava de folga do trabalho, arrumávamos a mala de nossa antiga caminhonete, eu gazeteava uma ou duas aulas no colégio e partíamos bem cedo para o lago em busca de um boníssimo e ensolarado dia com o tão italiano prazer de não fazer “nada”.
         Tínhamos uma floricultura. Era o nosso orgulho, pois aquela pequena loja pouco maior que a nossa cozinha na época, pertenceu a um sonho quase imaculado de minha mãe. E quando finalmente conseguiu guardar dinheiro de produtos em conserva que era de costume fazer-se em casa, juntou com as economias de seu marido, meu pai, e materializaram o negócio. Mas não foram apenas flores no início. Parecia algo pouco, mas precisava de investimento não só monetário como também físico, contínuo. E como ainda não tínhamos dinheiro para pagar funcionários que fizessem parte do trabalho, pelo menos o pesado, meu pai resolveu largar o emprego no banco no centro da cidade e trabalhar no negócio da família.
         E bem...por sorte, talvez, deu muitíssimo certo. Depois de muito trabalho duro e abdicação, expandimos o sonho de mamãe e contratamos pessoas para ajudar. Simultaneamente abrimos outras duas lojas; uma ao sul de Carpi e outra no centro. Papai tomava conta de gastos e toda a parte burocrática que demanda um comércio razoavelmente grande, enquanto mamãe transitava entre as lojas e tomava nota de como vinha sendo o tipo de atendimento, a qualidade de nossas flores, procurava novos fornecedores e mais tarde até trabalhar com entrega. Que foi onde eu entrei efetivamente. Logo tirei minha carta e virei o mais novo entregador da Allma d’Orcia, nossa floricultura.
         Meus pais sempre foram um ícone de respeito e companheirismo para mim. Em meus 47 anos, nunca vi na vida, casal tão apaixonado e ativo de todas as formas que a idade lhes permite. Claro que as vezes haviam pequenas discussões, como quando meu pai inventava de sair de madrugada para pegar um bom pico em Garda. Dio santo! Era um verdadeiro caos em casa. Enquanto eu ficava no meio de meus pais sem poder argumentar qualquer que fosse meu ponto de vista, e sempre acabava indo com meu pai também, logo, era inútil remediar a discussão.
         Papai sempre fora um homem bom, um pouco impulsivo talvez, mas um signor direito. Nós passávamos no armazém perto de casa, que além de vender compotas de doces excepcionais, tinha uma variedade boa de artigos para pesca. E o dono era um velho amigo de meu pai, o que fazia de nossa passada lá antes das pescarias, quase obrigatória. Comprávamos alguns tipos de isca e um vinho barato para meu pai. Eu separava alguns refrigerantes e mini conservas caseiras de damasco e ameixa que eram o ponto alto das nossas pescarias, para mim ao menos. Ah, e vez ou outra inventava jogos que desafiavam a mim mesmo contra o humor de il signor Alessio, amigo de papai, dono da loja. O homem era parrudo como um touro, e tinha traços marcantes como a linha do maxilar intimidador. Eu sendo um adolescente na época, esperava um dia ter a barba tão densa como a dele, mas não compreendia como alguém de feições tão brutas era tão extrovertido e sempre de excelente humor. Até uma notícia do falecimento de um bom amigo ou a criminalidade crescente da região eu desconfiara não fazer grandes mudanças em seu humor. Sua voz era quase que cantada; rouca e firme, porém contagiante a ponto de fazer você gostar de falar até sobre as antigas histórias de rinchas entre as contradas ao norte.
         A cada dia de pescaria, eram coisa de três minutos de carro até o armazém. Três preciosos minutos que me lançava os desafios como: “se hoje finalmente estiver de pá virada ou com um ar não tão caloroso como de custume, eu conto a papai sobre minhas notas vermelhas. Do contrário, se o velho estiver como de fato sempre está, eu espero o conselho chama-lo para uma reunião”.
         Era de se esperar que um rapaz de dezesseis ou dezessete anos lançasse ao destino tais desafios bobos, e de fato eu me divertira.
         Não me lembro ao certo se havia acontecido algo, mas naquele mês recebi algumas ligações de mamãe pedindo para que eu arrumasse um tempo e fosse vê-los. Dissera que meu pai não estava em um tempo muito bom da cabeça, então numa quinta-feira –quando o movimento no trabalho era normalmente baixo.–pedi folga a meu chefe e saí três horas mais cedo e fui até a casa nova de meus pais no centro, e propor uma pescaria de última hora naquela mesma tarde. Eu trabalhava com um antigo professor do meu curso de gastronomia num badalado ristorante lá mesmo onde crescera desde que nasci. Era um lugar muito movimentado pelos jovens, mas com um requinte indiscutível. Passei em minha antiga casa, onde morava sozinho agora, tomei uma ducha e troquei minhas roupas por algo mais confortável. Deixei meu carro em casa, afinal, meu pai não sairia para pescar num carro menos vazado que nossa antiga caminhonete, e peguei um táxi. Quase chegando no centro, comecei a refletir sobre quanto tempo não fazíamos isso. As nossas pescarias estavam cada vez mais perdidas; eu trabalhava demais e meu pai já não era mais um signor a todo gás. Mas ainda assim, quando eu conseguia me dar folga, era meu primeiro plano. E nesta tarde, quase noite, passamos no costumeiro armazém e no balcão um menino ruivo com seus quinze anos, ainda perdia a guerra brutalmente para a acne.
         –Mais alguma coisa signor? –por mais que fosse estranho ser chamado assim, não me atentei com as palavras do rapaz. Estava tentando identificar o sujeito com quem meu pai papeava.
         Já estávamos com tudo o que precisávamos e enquanto eu pagava nossas compras, ainda não reconhecera o senhor com quem meu pai conversava todo o tempo praticamente desde que entramos na loja. Ele estivera sentado num banco no fim do corredor à esquerda da entrada de funcionários, lendo um jornal que eu reconhecera por ter visto cedo na banca em frente ao meu trabalho, dizendo que o preço de um vinho que meu pai não gostava muito iria despencar contra o mais barato que ela tanto gosta e bem, logo estaria mais caro.
        –Que amargura não toleramos por boa economia? – comentou meu velho pai, com o senhor. Ele quase sempre teve essa compulsão por economizar o que desse e como pudesse, não que sua condição financeira o fizesse necessário, mas por que é um verdadeiro “mão de vaca”, como dizem aqui. Repelindo este pensamento, voltei a concentrar minha atenção ao senhor que conversava tão descontraidamente com papai. Já havia pego as sacolas e fui na direção deles. Ainda tínhamos uma boa estrada pela frente e nunca gostei de dirigir durante a noite.
         –Oh,– a arquejou com uma surpresa triunfante o velho Alessio. – buonasera! Se non è il nostro piccolo coniglio! – me saudou. Uma onda nostálgica percorreu meu corpo de forma sutil quando o apelido foi dito. Eu o ganhara num dia engraçado, visto de hoje! Em uma das feiras artesanais anuais no centro de Carpi, eu deveria ter uns 12 anos. Meu pai havia me presenteado com uma bicicleta azul marinho com sino e cesto adaptável. Foi uma conquista para mim, e dores de cabeça para meu pai.
         Naquela tarde, colocando mais uma coisa na lista de vergonhas que o fiz passar, estava descendo o beco que desembocava na rua onde acontecia a festividade quando um maldito cachorro saiu ladrando de dentro da varanda com cerca viva da senhora que morava em uma das casas do meio. Meu susto foi tão grande que eu ao invés de reduzir a marcha da bicicletta e pedalar na direção da outra rua vazia, me embolei ao descer dela e a soltei pelo chão no largo lá em baixo, antes de me enfiar por entre as barracas e o aglomerado de gente participando de todas as formas oferecidas da feira.
         Eu tenho uma cicatriz na parte esquerda de minha testa, perto do olho, deste mesmo dia. Enquanto eu corria e me contorcia pra passar por toda aquela gente, estava tão assustado que nem passou pela minha cabeça olhar pra trás e ver onde o cachorro estava. Se eu o tivesse feito, veria que ele já não me seguia a certo tempo, mas em compensação, muitos amigos e conhecidos de papai me viram correr feito louco sem aparentemente nenhum motivo. Foi então que cheguei na piazza onde expunham animais para a venda e tantos cestos de palha com variados tamanhos, que cheguei a pensar momentaneamente se conseguiria me enroscar ali. Agora, você acreditaria se eu lhe dissesse que o bendito cachorro estava ali à minha espera?
         Se alguém me contasse eu sem dúvidas não levaria fé. Mas lá estava ele. Bem, eu não sei se era o mesmo cachorro na verdade, mas na hora eu nem pensei. O meu susto que já era quase palpável conseguiu ficar sete vezes mais intenso! Então eu corri pro outro lado dando meia volta, quando bati com a cabeça em alguma coisa que pendia de uma daquelas barracas. A esposa de il signor Alessio me diz que era um vaso com plantas de uma varanda onde ao lado posicionaram estrategicamente uma barraca para que não acontecesse algo do tipo, mas, como estava tomando muito cuidado e tendo muita atenção com o mundo a minha volta –para não dizer o contrário.–, fiz justamente o que foi calculado com tanta cautela para não acontecer.
         Levei uns pontos, ganhei um sorvete acho que de pêssego, se não me falha a memória. Daqueles feito em casa pela senhora esposa do senhor Alessio, e felizmente não tornei a ver aquele cão fantasma que ninguém, além de mim, viu me perseguir incessantemente aquele dia.
         Bem, você já soltou um coelho de sua gaiola e tentou pegá-lo? Molto bene, il signor Alessio desde então só me chamara assim. Coelho, il coniglio. Mas Santa Catarina!!! O tempo não faz bem à algumas pessoas, de fato. O homem estava tão mais velho do que me lembrava que tive a impressão de abrir a boca num pequeno o quando finalmente o reconheci.
         E quanto a pescaria com papai, me lembro de quase sempre sentarmos naquela mesma ponta plana para jogar as linhas, mas esse dia havia um outro grupo por lá, e junto a eles estava ela. Ao esplendor de seus vinte e poucos anos, deduzi, num macaquinho amarelão e uma camisa de gola alta que eu me lembrara dos antigos casacos de mamãe, aqueles que davam a impressão de sufocar. Além de serem horrorosos e espalhafatosos demais para meu gosto. Mas foi quando uma de suas amigas disse ter visto um tubarão que me despertou a atenção. Ao que todos riam, Elena olhava com atenção a água revolta, na esperança de ver o tal “maior peixe que já vira”, que a amiga alertara a todos. Bem, não precisa ser muito esperto pra saber que não há tubarões ali, mas se o objetivo fosse ter algum motivo para urrar e por a vigor toda a bebida quente que eles vinham ingerido só naquela tarde, tinha tido sucesso a menina de cabelos quase branco de tão loiros que falara sobre o peixe.
         Lena viu o peixe e deu um urro de felicidade enquanto vinha correndo em nossa direção; pedira aos berros se poderia pegar o monstro pra eles, e bem...não era o maior que já pegara ali, mas dava pra dar uma de pescador sênior e me gabar um pouco. Infelizmente não fui tão bem quanto o previsto. O peixe era forte como um cavalo! Puxava cada vez mais forte e enquanto eu dava linha pra enganá-lo, era ele quem me fazia de bobo. Meu pai tomou a vara de minhas mãos e logo jogou o tal monstro pra fora d’água com uma facilidade que só me fez envergonhar. Caramba que pescada! O grupo de Elena inteiro ficou extasiado; quiseram tirar fotos atrás de mais fotos enquanto Elena se acabava de rir, e meu velho seguia no mesmo sentido. Mas ele ria era de mim.
        “Isso sim é uma gargalhada.”, não parava de pensar vendo jeito hilário e persuasivo pra onde ela levara a cena. Os cabelos acobreados presos em uma trança que não ia até as pontas dos fios emolduravam seu rosto. Tinha a pele e os olhos muito, muito claros e seus lábios salientes contrastavam com um rosado sutil no rosto tão bem enquadrado ao seu sorriso –che bella! –, que me deixou praticamente hipnotizado.
         –Eu também quero uma!!! Calma aí –disse aos berros, me tirando do transe e deixando por segundos, de lado, a cena cômica que vira a pouco, comigo sendo seu protagonista. Enquanto corria mais uma vez em minha direção, disse ofegante –vem cá pescador. Só chega esse troço bem pra lá...não trouxe nenhuma outra roupa e estamos longe de casa. Ah, qual é? Me dê um sorrisão!
         Essa foto é uma das lembranças mais queridas que eu tenho de casa. Casa, em todos os sentidos.
          Por mais que eu não gostasse de início, ela ficara colada por meses na geladeira do apartamento dela sem eu saber, claro. Só quando finalmente nos encontramos, por acaso no Lorenz ristorante, onde eu trabalhara bons 6 anos, e conversamos sobre algo que não fosse peixe e roupas mal cheirosas finalmente trocamos e-mail e depois telefones. E você pode imaginar o meu susto ao chegar na cozinha de até então uma no máximo amiga e deparar com aquela bendita fotografia em sua geladeira, em meio a tantos outros papéis, mas só algumas poucas fotos. Eu estava com um ar de assustado, mas sorria, o que deixou a foto como uma daquelas que tiram do alto da primeira descida de uma montanha-russa de grandes parques, e quando você vai conferir se ficou boa sua cara está tão constrangedoramente contorcida que você sai fingindo ter adorado mas recusa por “educação”.
         Esta mesma fotografia hoje está aninhada em minha geladeira. Uma péssima mania que adquiri, diga-se de passagem. Já perdi as contas de quantas geladeiras trocamos por esses anos, não por problemas técnicos, mas pela estética. Junto a ela pendem uma fotografia de meu pai, eu e meu tio na última feira de artesanato que fui em casa e umas fotografias avulsas minhas e de Elena, ainda quando morávamos na Itália, pouco antes de descobrirmos o seu câncer.
  • Apenas Um Garoto

    Em 1994, numa cidade do interior de São Paulo, nasceu um pequeno garoto. Coitado… Desde pequeno já vivia à sombra do tormento que seria sua vida. Logo ao ganhar parte nesse mundo já virara um problema. Seus pais, jovens, 19 anos, o tiveram contra sua vontade, deixaram suas vidas e sonhos de lado por causa dele. O tempo passou, e assim como o tempo, a inocência do garoto foi embora. Com apenas 5 anos ele já sabia que não merecia viver. Já escutava ocasionalmente seus pais brigando e reclamando dele, chamando-o de problema, dizendo que deveria ter sido abortado, mas o garoto nunca abriu a boca pra falar sobre o que escutara em casa. O tempo continuou passando, ele agora tinha 11 anos, e continuava pensando que não merecia viver. Esse garoto, mesmo com todo esse sofrimento, sempre foi muito bom em disfarçar. Ninguém imaginava o que se passava na cabeça dessa criança. Medos, desilusões, depressão, tristeza, amargura. Tudo isso era dele, e apenas dele, pois nem amigos o mesmo tinha capacidade de ter. Um dia ele conheceu um outro garoto, aparentemente feliz. Ele tentou evitar esse garoto, mas não conseguiu, e de alguma forma ganhou seu primeiro amigo nesse momento. O tempo, maldito tempo, continuou passando e apenas estragando o protagonista dessa história. Esse amigo que ele conheceu, seu único amigo, faleceu aos 17 anos. Durante 6 anos esse garoto sentia que merecia viver, sentia que tinha alguém que se importava, mas esse alguém foi removido brutalmente de sua vida. Desse dia em diante o garoto concluiu “Não tenho direito de viver. Não tenho o direito de ter um laço de amizade sequer.” e passou a evitar tudo e todos. Ele viveu sozinho por alguns anos, teve algumas novas amizades e namoro, mas todos, sem exceção, foram decepções. 2015 chegou. Faculdade, carro, dinheiro. A vida desse garoto começou a mudar. Ele novamente fez laços de amizades e está namorando há quatro meses. Esse garoto já está estragando seu namoro, já está se calejando para caso tudo venha a ocorrer de novo e ele seja jogado sozinho na vida, como merece ser jogado. Alguém, por favor, ajude esse garoto. Alguém, por favor, me ajude…
  • Apenas uma visita

    Certo dia cheguei de surpresa na moradia de um velho conhecido meu. Ele, espantado por minha incomum visita perguntou:
    − Aconteceu algo?
    Eu, fingindo espanto, disse:
    − Boa noite para ti também.
    − Oh, perdoe-me por minha falta de educação, mas deve concordar que uma visita sua (sobre tudo a esta hora) é um tanto que estranha.
    − Sim, de fato – estampei um sorriso em minha face tipicamente seria e desacostumada a sorrir. – Não vai me convidar para entrar?
    − Oh, mas uma vez devo pedir desculpas, desta vez por minha falta de atenção: Por favor, entre. – Dando espaço para que eu pudesse passar pelo pequeno e velho portão enferrujado.
    − Obrigado.
    Claro que a essa altura ele ainda estava acostumando-se novamente com a minha presença. Percorri lentamente aquele pequeno e defecado quintal ouvindo seus pedidos humilhantes de “oh desculpe-me por isso, desculpe-me por aquilo”, sinceramente não me importava nem um pouco com toda aquela sujeira ou a presença dele implorando asneiras triviais humanas.
    − Posso entrar em sua casa? – Perguntei parando diante a entrada principal que dava aceso a uma cozinha mal arrumada.
    − Sim, sim – disse ele – Aproveite e sente-se, vou passar um café... Ah sim, acabei de lembrar que você não toma café, né?!
    − Agora eu tomo sim, descobrir que ele é melhor do que álcool destilado. – Tentei ser mais amável enquanto arrastava uma cadeira. – Mas não precisa se dar ao trabalho, eu bebo esse que está aí na garrafa térmica mesmo.
    − Ela está vazia, aqui em casa café nunca sobra, mas não é trabalho nenhum, na verdade antes de você chegar já estava me preparando para passar um.
    − A essa hora da noite?
    − Sim, sim. Café sempre me faz dormir bem. – Sorriu.
    – Você não é tão normal quanto me lembrava.
    − Ah, mas quem é normal?! Ser estranho é tão mais divertido. Aliás, se todo mundo fosse normal o mundo estaria uma bosta.
    − Oras, mas o mundo não está uma bosta?
    − Pois é, não havia pensado nisso.
    Ele passou o café e nossa conversa ficou girando em torno desses assuntos banais que nunca levariam a lugar nenhum. De fato, era só uma conversa amigável entre velhos conhecidos.
    Fiquei por lá cerca de duas horas, observei que uma mulher estava dormindo em um sofá na sala, e que haviam crianças na casa por conta dos inúmeros brinquedos jogados pelo chão da cozinha e pelo belo volume de louça suja na pia.
    Pensei no motivo de estar ali naquela noite, no quanto eu estava sendo ruim com aquele que, de certa forma, me considerava um amigo, mas infelizmente não podia fazer nada para mudar o que já estava traçado há tempos...
    − Então, casou?! – Repentinamente perguntou-me.
    − Eu?! Não, não.
    − Por que não homem?
    − Ah, minha vida não dar espaço para uma família.
    − Bobagem. – riu. – Minha vida também sempre foi corrida, você sabe, mas mesmo assim encontrei o amor da minha vida e não deixei escapar, quando menos notei já estávamos casados e com o pequenino a caminho. Sei que minha casa é humilde, e que não moro no melhor bairro da cidade, mas sou infinitamente feliz, pois tenho uma família que amo e sempre que estou triste me alegra. Não seria esse o sentido da vida?! Digo; ser feliz?
    − Sim, você está correto. Lembro que eu sempre dizia que para um homem ser completo tem que ter sua família e de repente olha-me aqui, não seguindo o próprio conselho.
    − Acontece cara, normal. O que importa é ser feliz. – deu duas batidinhas em meu ombro.
    − Sim, sim.
    − E você é feliz? – Perguntou com um ar realmente preocupado.
    Fiquei sem saber o que responder e um tanto quanto perdido em meus pensamentos:
    − Bom, creio que seja a hora d’eu ir embora. – Mudei de assunto, levantando-me da cadeira. – Muito obrigado pelo café e pela conversa.
    − Ora, mas tão cedo? Ainda nem são onze horas.
    − Sim, sim. Amanhã preciso acordar cedo. – caminhando para a porta.
    − Entendo, mas espera um pouquinho, quero te apresentar alguém. – foi para sala.
    Da porta da cozinha pude ouvi-lo falando bem baixinho “Amor, Amor, acorde, vamos acorde quero te apresentar a um amigo meu”. Alguns poucos minutos depois ele reapareceu seguido de uma mulher com rosto levemente marcado pelo tempo.
    − Veja. Essa é minha esposa Adriana. –Disse-me olhando-a carinhosamente e sorrindo.
    − Olá – disse ela. – Meu lindo sempre falou muito de você. – um pouco envergonhada.
    − Ah sim, espero que tenha falado bem ao menos. – estendi a mão para cumprimentá-la.
    − Sim, sim – sorriu – Sempre muito bem, até me dava ciúmes. – gargalhou.
    − Sem motivos, sempre fui homem. – disse ele agarrando-a por trás levemente e lhe dando um amoroso beijo.
    Sinceramente fiquei contente em ver um casal tão feliz e apaixonado.
    − Bem, foi um prazer conhece-la Adriana, mas realmente preciso ir agora.
    − Ah, tudo bem, mas ver se volta aqui mais vezes.
    − Nem espere, esse aí só aparece uma vez a cada século só para avisar que ainda estar vivo.
    − Não é bem assim – envergonhei-me. – Pode deixar que em breve venho aqui com mais tempo (menti, a pobre mulher não sabia a razão d’eu estar ali)
    Enfim me despedi com um amigável abraço em ambos e fui em direção à rua acompanhado pelo meu velho conhecido.
    − A gente conversou tanto e você acabou esquecendo de dizer o porquê veio aqui esta noite.
    − Ah, não se preocupe, era um assunto trivial. Já me bastou ter passado esse tempo contigo, ter posto a conversa em dia e relembrado o passado mesmo pesado.
    − Pode voltar aqui quando quiser. A Adriana sempre está em casa, se eu não estiver é só esperar com ela que chego.
    − Sim, sim pode deixar. Bem, até algum dia então. – Disse já começando a andar pela rua.
    − Até, vê se toma cuidado por aí.
    − Pode deixar. – acenei de costas.
    Alguns dias depois seu primogênito morreu de uma doença até agora não confirmada, sua mulher entrou em depressão logo depois (e até no exato momento em que digito estes fatos ainda não se recuperou) e a vida daquele meu velho conhecido nunca mais foi a mesma.
    Sou um dos portadores da Morte, como ninguém a deixaria entrar de bom grado em sua casa ela usa pessoas como eu para poder invadir os lares e deixar sua marca.
    É assim que vivo...
    Sou feliz?
  • Aposentei o Galinha

      Existem dois tipos de homem, os que procuram mulheres e os que procuram a mãe de seus filhos.
    Aposentei o galinha que existia em mim conforme fui amadurecendo, ficando mais velho e mais exigente, não por beleza, mas sim por responsabilidade, segurança, interesses mútuos e a confiança que passavam pra mim.
    Uma mulher convicta, segura e que sabe o que quer, malandro, todo homem sabe que põe medo, porque essa aí não vai ser domada, vai te pôr nas rédeas. E esse é o maior medo do homem, andar na linha. Por isso muitos não assumem, preferem pegar várias, é muito, mas muito mais fácil ser O PEGADOR do que o cara que anda na linha.
    Sou loiro, olhos azuis e beijei muito na boca. Não era feio, tinha um bom papo, namorei por anos uma blogueira sem eu nem se quer ter fama. Após cair na vida de solteiro tive aquela fase de “tocar o terror”. Pegava geral, era o último a sair da balada e sempre acompanhado, foram dois anos a fio assim após ficar solteiro. TODO SÁBADO.
    No meu aniversário de 24 anos, estava dentro da balada, meus amigos todos na festa, afinal era meu aniversário e num SÁBADO, quem é solteiro me entende perfeitamente o que é fazer aniversário num sábado, é farra na certa. Era aproximadamente 3h da manhã e fui pra casa, sim, fui pra casa antes da balada fechar e sozinho. E o pior ou então o melhor conforme o ponto de vista, é que eu não estava triste. Parece que no meu aniversário me deram realmente mais um ano de vida, ou então um “cai na real”, sai da balada cedo, sem ter bebido e muito pensante. Mas feliz.
    Foi então que eu comecei a selecionar as pessoas que eu queria por perto, não queria mais meus amigos de balada que fiz em 2 anos, queria meus amigos de infância, ou então aqueles que conheci na trilha de moto, ou em algum curso que fizemos juntos, enfim, longe da noite. Virei seletivo, inclusive com mulheres. Já não “trovava” qualquer uma, já não saia com aquela que todo mundo pegou e eu não peguei por isso tinha que pegar (sim, é esse o pensamento do homem, pode ser sim que meu texto está sendo machista, mas estou expressando a minha opinião, sem me rotular). Comecei a ver outros valores nas mulheres além do tamanho da bunda e do peito. Comecei então a buscar a mãe pro meu filho, aquela que eu queria ao meu lado todas as noites.
    Estava a uns 6 meses sem sair pra noite, não falava com muita gente, não estava com paciência para aquela rotina do chaveco, convida para jantar, mulher se faz um pouco, combinamos o dia, jantamos, transamos, nunca mais nos vimos. E principalmente para a parte da mulher se faz e no fim saímos. Eu já não era mais popular na noite, eu não tinha mais uma rotina noturna e eu não pegava mais tantas mulheres, afinal, quem não é visto, não é lembrado.
    Certo dia estava dando uma volta com dois amigos meus de carro, um amigo conhecia a mais de 10, 12 anos, amigo de infância. O outro, que conhecia a menos tempo, mas que também considerava muito, conheci numa van indo para o jogo do Inter. Eu sentado no banco do carona e nisso para ao lado um Corolla branco, carro com película escura, mas dava pra ver que a motorista era muito linda. E não só no quesito beleza, dava pra ver que era uma moça mais séria, sábado a noite dando uma volta com as amigas, vidro fechado, não tava ali pra chamar atenção, apesar da beleza. Pedi para um dos dois se alguém a conhecia, em cidade pequena a probabilidade de alguém conhecer é muito grande. E um disse que sim e me passou o nome. Cheguei em casa e curti duas fotos dela no instagram, ela retribuiu, ficou por isso.
    Passaram-se cerca de dois meses, eu não a chamei, eu não corri atrás, e muito menos ela. Eu pelo fato de estar muito enjoado daquela coisa chamada paquera que descrevi a cima. Certo dia ela me manda um video no privado, curtindo um som e dando uma volta de carro, foi aí que eu pensei, quer saber, domingo há noite, nada pra fazer, tempo propício a chuva. Mandei algo do tipo “passa aí me buscar, vamos dar uma volta” no que eu mandei isso, na minha cabeça eu já tinha aceitado o não. E a resposta dela foi, “eu vou jantar com algumas amigas, pode ser mais tarde?” e nisso minha cabeça já pensou “nesse meio tempo da janta, ela vai mandar algo pra deixarmos pra outro dia, porque vai estar tarde”. Mas respondi só um “beleza, me avisa quando sair da janta”. Eram cerca de 23h de um domingo com previsão de temporal quando recebi a mensagem “Está acordado ainda? Posso te buscar pra darmos uma volta?”. Nesse exato momento meu cérebro entrou em colapso, eu achava inacreditável que ela não mudou de idéia, foi segura o tempo todo e foi até o fim quando quis alguma coisa. Mas se acha que isso ainda é pouco, entrei no carro e ela disse “E ai, vamos beber o que?” e quando cai na real dessa pergunta percebi que ela tava curtindo um rap.
    Foi aí que percebi que não queria mais uma mulher para uma noite, mas queria que essa mulher ficasse todas as noite, que seria a mãe do meu maior bem, dos meus filhos. Segura, objetiva, que iria me pôr na linha e seria um exemplo para as crianças.
    Por fim, a sociedade talvez diria que ela foi uma mulher fácil, oferecida e “puta”. Eu vi nela uma mulher segura, que almeja o que quer e corre sempre atrás dos seus objetivos. Eu vi nela exatamente aquilo que me faltava.
    “A essência da família se perde nos rótulos que usamos. Já o rótulo do amor gera a essência da família.” 2018, N.A.N
  • AS CORES DE UMA VIDA A PRETO E BRANCO

    CAPITULO I
    Naquela manhã de segunda repetia-se o ritual. Era necessário acordar os gémeos, dar-lhes o pequeno-almoço, vesti-los e leva-los à creche. Um casalinho de 4 anos dá imenso trabalho. O Lucas e a Constança eram a alegria da casa e ao mesmo tempo uma esponja de absorção do tempo. As 24 horas do dia eram mais que poucas para dar vazão a todas as solicitações dos pequenos. A creche era uma forma de ter tréguas, a pretexto da vida profissional, para ter tempo só para si, que também não o era bem, dada a agitação vivida de segunda a sexta. Segunda-feira era por isso um dia de sentimentos mistos para Carlota. Se por um lado era fazer replay de todas as segundas-feiras das semanas anteriores, era também o momento em que podia ser eu outra vez, e não o nós e o eles de todo um fim de semana.
    “Bichinha, visto-lhes manga curta ou comprida?” Pergunta-lhe o marido. Acabada de sair do banho, Carlota respira fundo, responde de voz seca e curta “comprida”. Era verão mas chovia, e há perguntas que soam a patetice àquela hora. Era óbvio que era comprida. Era bom ter aquela dedicação do marido logo pela manhã, uma ajuda valiosa, mas cocha do bom senso que apenas uma mãe pode ter. Por repetição de factos, Carlota sabia que ainda ia ser indagada sobre o tempo no micro-ondas para aquecer o leite e sobre o lanche dos miúdos.
    Depois de um fim de semana de trajes confortáveis, segunda exigia outra indumentária. Clássica, formal, feminina q.b., não mais que a conta. Trabalhar numa sociedade de advogados não era tarefa fácil. Meio predominantemente masculino, um tom demasiado feminino poderia ser o suficiente para uma conversa profissional entornar rapidamente para uma tentativa de engate barato. Fato beije de calça, camisa preta sem colarinho só com o primeiro botão aberto, não mais. O salto alto era obrigatório. Dava-lhe não só uma silhueta mais pronunciada como um pouco mais de altura para enfrentar os seus colegas à linha do olhar. Sapato preto, clássico, salto médio. Tinha uns seis pares destes. Eram os sapatos do trabalho, combinavam bem elegância e conforto, adequados para dias intensos e carregados de stress.
    Carlota aproximava-se dos 40 mas mantinha uma elegância ímpar. Tinha imenso cuidado com a alimentação, sem ser uma veggie apoderada pelo fanatismo, e quando podia, além de joggings vespertinos, ainda passava pelo cube de boxe para descarregar a neura causada por tudo e todos á sua volta. Os traços doces do seu rosto e um sorriso quase sempre aberto enganavam bem sobre a frieza com que lidava com o seu dia-a-dia, fosse profissional, fosse pessoal. Cabelo preto pelo ombro e risco ao lado com franja a cair-lhe sobre os seus olhos noisette permitiam-lhe oscilar entre um olhar escondido ou fulminante consoante o momento. No trabalho, por regra, optava pelo rabo-de-cavalo, o olhar era uma arma para ela, servia para marcar posição, demonstrar confiança e também para intimidar os seus interlocutores. Ser advogada todos os dias é como ser gladiador numa arena. Ao mínimo deslize, fraqueza ou receio, perde-se…. Para sempre. O segredo da profissão está muitas vezes, mais do que no conhecimento do código e das leis, na convicção com que se fala, trate-se de uma verdade absoluta, de uma opinião, ou de uma mentira descarada.
    Estava pronta. O Lucas e a Constança também. Obrigado marido, pensou ela. O jeito que dá ter um fotógrafo freelancer em casa. A parte free da palavra era de uma ajuda preciosa. Carlota reconhecia-lhe talento, o mundo da fotografia, apenas a espaços. Para juntar algum à conta bancária ao fim do mês, o Júlio tinha muitas vezes de fazer casamentos e batizados. Para ele era como ser Chef e ter um part-time no McDonald’s. Mas tinha de ser. O salário de Carlota era suficiente para o nós, mas ele insistia em garantir o seu contributo. Não era de todo machismo, aceitava com naturalidade essa realidade, o século XXI ensinara-lhe a conviver bem em Portugal com a disparidade de rendimentos para a sua mulher, era mais uma questão de honra para não se sentir um fardo a somar aos gémeos. Dois para dois era mais justo do que um para três. Júlio era 4 anos mais novo que Carlota, tinha 34. Ser pai aos 30 fora uma enorme alegria, no caso, a dobrar. Ser pai e marido realizava-o pessoalmente, a liberdade de poder fazer da sua profissão a sua paixão, também. Estava de bem com a vida. A fotografia é uma arte, a sua arte e vocação. Ter tempo livre era também uma necessidade, não se revia no formato profissional clássico das 9 Às 17, de segunda à sexta. Trabalhar era quando estava inspirado, ou então, quando as cerimónias religiosas lhe batiam à porta.
    Júlio ainda ficou de pijama em casa enquanto Carlota e os gémeos saiam porta fora. Dança de beijos de despedida, um mimo de casal que combinava o toque de narizes e um beijo nos lábios, até já, até logo, a porta de casa fecha-se, a do elevador também.
    Cadeirinhas rosa e vermelha no banco detrás do Mercedes Classe A comprado há menos de 1 ano. Constança na rosa, Lucas na vermelha. Ainda não sabia apertar os cintos sozinhos e por isso arrumar os petizes no carro ainda dava trabalho! Feito. Dava-lhe prazer conduzir aquele carro. Não era de família, não era urbano, o carro encontrava o justo equilíbrio entre a sua personalidade e forma de estar na vida. Apreciava conduzir, e este, dava-lhe prazer guiar, fosse a levar os miúdos à creche, a conduzir no meio do trânsito ou de prego a fundo na autoestrada. Sossegados e ensonados, a cabeça de ambos pendia para a direita em perfeita harmonia. Ver este cenário pelo retrovisor chegava a ser ternurento. Não mais de 10 minutos separavam o ninho, nome querido dado ao apartamento no campo, e a creche, também campestre, de nome “A Quinta”.
    Mesmo com 4 aninhos somados ainda era difícil para Carlota larga-los na creche. Vinha-lhe aquela sensação de abandono por breves instantes, remediados por dois beijos bem colados nas bochechas dos gémeos. Ficam agora a cargo da educadora, é hora de rumar a Lisboa, à selva que é o mundo da advocacia. Com o pensamento embrenhado na defesa do dono da empresa Alves & Ribeiro Lda, acusado de desviar fundos da empresa e não fazer os descontos dos trabalhadores à segurança social, o para arranca até Lisboa era mais fácil de suportar. Ao todo, Afonso Alves era acusado de ter desviado perto de 5 milhões de euros e estar em dívida com mais de 700 mil euros à segurança social. “Como é que eu vou safar este patife”, desabafou em voz alta Carlota. Nesta profissão muitas vezes não se trata de provar a inocência do réu, mas sim evitar a sua condenação. São coisas diferentes. Todos sabemos da culpa do réu, mas se as provas não forem suficientes, pois, antes um culpado livre do que um inocente na prisão. Reconfortada por este pensamento, ciente da sua missão, projeta a defesa em tribunal, calendarizada para daqui a pouco mais de 15 dias.
    A descer o viaduto Duarte Pacheco rumo às Amoreiras. Ponto morto, pé no travão, larga, pisa, larga e pisa….. já tão mecânico. Há quase 10 anos a trabalhar na rua Castilho, o caminho para Lisboa era feito de olhos fechados.
    Ainda neste ritual, Carlota desce à terra com o toque de mensagem no telemóvel. Era o Pedro, um antigo cliente num caso de burla, absolvido com sucesso! “Temos de lanchar um destes dias, beijos”. O caso remonta há dois anos atrás, o Pedro era de facto um burlão, mas dos melhores, não deixava rasto. Todos conheciam a estirpe, até a juíza que em privado dissera a Carlota que por ela mandava o filho da mãe para os calabouços por muitos e bons anos, reconhecendo-lhe uma defesa astuta e segura. Entre dentes, dissera-lhe “um dia ainda se vai arrepender da profissão que tem”. “Esta semana não, na próxima? Bj”, respondeu Carlota. Ainda antes de chegar ao destino, lugar de garagem marcado no piso (-) 1 mesmo ao lado do elevador, o Pedro anuiu em resposta à mensagem, ficando de ligar para acertar agulhas. Carlota sorriu para o telemóvel, não respondeu.    
    Mercedes estacionado para lá das nove e meia da manhã. Era a sua hora habitual de chegada. Normalmente até às 10h estava a beber o café da manhã sentada no seu escritório a passar os olhos pelos temas que tinha em mãos para gerir durante o dia. Além de ter sempre um caso importante entre mãos, Carlota orientava uma equipa júnior na qual delegava os casos menores e mais recorrentes, fossem divórcios, partilhas litigiosas ou processos por difamação.
    Era segunda, e finalmente sentada na sua secretária, vê ao fundo do corredor, Joana, colega e amiga de longa data, com duas chávenas na mão caminhar em direção ao seu gabinete. Boa companhia para começar a semana.
    AS CORES DE UMA VIDA A PRETO E BRANCO
    CAPITULO II (final)
    Joana era muito diferente de Carlota. Divorciada, uma ano mais nova, abraçava a vida com o egoísmo de quem não quer dividir o seu eu com mais ninguém. 3 anos de casamento chegaram-lhe para perceber que filhos e marido não era vida para ela. Não se tratava dele, o ex, ser a pessoa certa ou não, ser casada mexia com a sua liberdade e por isso optou por se separar há pouco mais de um ano. Desde então que se deixa levar ao sabor do vento que a vida lhe vai soprando. É livre e isso é o mais importante para ela. Hoje escolhera um vestido azul-turquesa até ao joelho, fresco, com um padrão de rosas vermelhas e brancas estampado. Era fresco demais para o dia chuvoso, mas Joana não se vestia pelo tempo, vestia-se pelo que lhe dava vontade ao abrir o armário. Até as sandálias chocavam com a meteorologia, mas combinavam com o vestido, também elas em tons de azul.
    “Toma, fica com o cheio como gostas!”, Diz Joana antes mesmo do bom dia! Sentou-se à frente de Carlota e foi direta ao assunto. Passou o fim de semana com o Tomás, ex-colega da sociedade de advogados. Tinha saído há umas semanas para abraçar um período sabático dedicado ao surf e mudado de armas e bagagens para a Ericeira, onde as ondas fazem a delícia dos amantes da modalidade. Joana ficou por lá também de sábado para domingo. Praticamente não saíram da cama, relata Joana, com alguns detalhes tórridos sobre o que se passara por debaixo dos lençóis. Era pois a nova aventura de Joana, nada de sério, muito casual, orientada para os prazeres do leito que Joana muito apreciava, especialmente por trintões apetitosos. Ambas concordaram na apetitosidade do Tomás, que em tempos também chegou a fazer a corte a Carlota, sem sucesso. Ao que parece, o recém surfista a tempo inteiro era capaz de encaixar três seguidas sem perder o fôlego. Uma marca digna de registo que fez ambas soltarem uma breve gargalhada sincronizada com mais um trago no café. A conversa não descambou mais do que isto, a palavra passou para o outro lado da secretária, Carlota também tinha vários episódios dos gémeos para relatar, não tão envolventes como o fim de semana com o Tomás, mas que também lhe preencheram os dois dias de descanso. Antes de iniciar o dia de trabalho um pouco mais a sério, Carlota rematou com graça “empresta-me o Tomás para 1 dessas 3 e para me dar um jeito na sala, pode ser?”. Joana atirou-lhe a língua para fora, saiu porta fora com as duas chávenas na mão vazias, num passo que reclamava a atenção dos colegas do sexo masculino. Ainda se ouviu um “Joaninha, hoje és o sol deste planeta!!!” Encaixava bem no azul do vestido e na chuva que insistia lá fora. Carlota também ouviu, abanou a cabeça ligeiramente, e pensou “Joaninha, há uma linha que separa o trabalho dos colegas”.
    Isto dito, o fim de semana de Carlota fora tudo menos de aventura. Sábado o Júlio tinha passado o dia a fazer um casamento, e ela ficara atracada aos gémeos, sozinha. Era bom tê-los por perto, era desgastante seguir-lhes o rasto a cada esquina, acompanhar um, dar atenção ao outro, tratar das refeições. Depois de uma semana de trabalho chegava a ser exasperante. Um dia vão crescer e dar menos trabalho, pensava. À noite, nesse dia, depois dos gémeos aterrarem no sono, embrulhara-se com o Júlio no sofá, em silêncio, pés entrelaçados. Era ternurento e aconchegante, mas aquela noite pedia mais. Há mais de dois meses que havia noites que pediam mais, mas que se ficavam por ali, naquele registo. Era bom mas insuficiente, Carlota queria mais chama em casa. Não era preciso arder, não era preciso ser o Tomás e fazer um triatlo na cama até de madrugada, mas sentia falta. O Júlio não ficava a dever nada aos outros homens, era como diz a Joana, um naquinho bem pesado, mas para haver desejo e vontade para Carlota era preciso bem mais do que um bom bife, fosse ele do lombo ou da alcatra. A culpa era da rotina que ambos não conseguiam contornar. Culpava em parte os gémeos que lhes virava a vida do avesso, mas sabia que ela própria tinha muita culpa por se deixar ir noutras correntes com as quais o Júlio, lá de casa, não podia competir.
    Regresso à terra! Reunião com a equipa dentro de 10 minutos para ponto de situação sobre os diferentes casos, e à tarde, ainda era preciso analisar melhor as provas do ministério público contra Afonso Alves. Era preciso também agendar uma reunião a meio da semana com ele para alinhar a estratégia. Este não ia ser fácil de livrar e às vezes na justiça também é preciso encontrar compromissos. De entre os casos menores que estava a cargo da equipa, destaque para um divórcio. Ele não queria dar o divórcio à cliente, alegava os valores de família e do filho para manter um casamento de fachada, ela, queria saltar fora por já ter sido violentada em casa. Era de Cascais, e assumir uma coisa destas em tribunal não era para todas. Mais um nojento à face da terra escudado nas 4 paredes do lar a vingar-se do que a vida lá fora o frustrava. O artista era para demolir e extorquir, e por isso, a este caso ela ia dar a maior atenção. A violência doméstica era um tema que tocava Carlota, um dos maiores atos de cobardia, e por isso, dava-lhe especial gozo ser justiceira nestes casos, para contrapor à defesa que era obrigada a fazer a outro tipo de escumalha, normalmente vestida de fato e gravata.
    Reunião feita, mais duas ou três coisitas menores durante a manhã, outro café para manter a atenção bem afinada e o relógio a marcar as duas da tarde. Carlota almoça tarde, depois dos outros, gosta de sossego à hora da refeição. Qualquer coisa de ligeiro, uma sopa, uma sandes e fruta. Não de muito substancial para não lhe apertar a moleza na longa tarde que ainda a espera. Ia quase sempre à Maison des Croissants, a menos de 2 minutos do escritório. O ambiente era moderno, tipicamente francês e confortável. Não que fosse nos croissants, especialidade da casa, mas era um sítio com o espírito de Carlota. Tascas de petiscos e derivados, não era para ela. Durante essa meia hora reservada para satisfazer o estômago, era também hora de saber o que andava o seu Júlio a fazer. Borboletas, diz ele. Era dia de fotografar borboletas. Mesmo com chuva. Diz ele que tinha conseguido duas ou três especialmente boas, e que logo, depois de polarizadas podiam ir a concurso. Bom saber. Concursos não dão dinheiro, mas dão reputação, o que ainda lhe falta ao marido. Falar com o Jú a meio do dia era um ritual, um hábito, mas também um conforto. Carlota gostava de saber o que andava ele a fazer, fosse andar à caça da borboleta perfeita, fosse um passeio no parque ou uma manhã de ronha na cama. Ele podia. Sopa de couve lombarda! Não era a preferida, mas ia-lhe cair bem. Pensou que uma Maison deveria ter umas sopas tipicamente francesas e não “caldo verde” todos os dias, mas por outro lado, há que encontrar a perfeita simbiose entre o estilo estrangeiro e os hábitos portugueses, até porque o negócio fala sempre mais alto. Além da sopa, uma empada de galinha afrancesada pela companhia dos croissants na vitrina e um Compal de laranja, do Algarve, especifica a Mónica, colaboradora da Maison. Bom saber, mais uma vez, se fosse uma laranja de Marselha, talvez fosse mais coerente.
    Entre colheres de sopa e dentadinhas na empada, o pensamento foge-lhe para o Pedro. Ficou um pouco surpresa com o SMS da manhã. Há mais de dois meses que não lanchavam lá no sítio. Verdade que ela sentia falta daquilo, embora aquando do último lanche ela lhe tenha dito para fazerem um time-out. Ele achou que dois meses eram suficientes, e ainda bem. Alegrou-lhe a segunda. Como bom burlão que é, o Pedro tinha sempre conversa para dar e vender. Era fácil deixar-se ir, era toda uma dimensão imaginária que agradava a Carlota. Não era para todos tocarem-na na alma, mas ele, Pedro, conseguia. Tinha as palavras certas nos momentos certos. Coisa rara num homem, pensou. O caso de burla de que fora acusado e que os uniu fora das relações mais intensas que tivera com clientes. Primeiro porque o Pedro lhe dissera tudo, mas tudo. A verdade toda, como tinha planeado e executado e como, em parte, também tinha coração. Era a lei da sobrevivência dizia ele. Se não fosse ele era outro qualquer, pior, sim, porque Pedro, embora burlão, tinha uma costela de Robim dos Bosques, o outro, lado, o que o ilibava do mal que fazia. Dizia não raras vezes que, ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão. Tinha graça! E de facto teve o perdão em tribunal.
    De regresso à sociedade. Tarde longa pela frente. O Afonso Alves era o típico empresário trafulha. A lógica empresarial de vender muito, gerar margem e ganhar dinheiro para ele não fazia sentido. O que fazia sentido era sacar dinheiro da empresa em proveito próprio. Faturava vendas por baixo e recebia por fora, comprava a fornecedores por cima e ficava com a diferença. Os livros da empresa estavam bem montados, e o contabilista era artista. Estava bem feito. Os registos financeiros de Afonso menos, mas lá se havia de dar a volta. O não pagar à Segurança Social, esse, era fora um erro que chamara a atenção. Não há muita volta a dar, está em atraso, é culpado, vai ter que pagar e com juros. Nem os prejuízos da firma lhe valem, embora possam atenuar a culpa. É com este pragmatismo que Carlota avalia os seus casos. Se há provas inequívocas, é inevitável a condenação e vamos tentar conseguir que a pena seja branda, se há dúvida, é lutar com unhas e dentes até à absolvição. Ligou a Afonso e pediu-lhe reunião para quarta à tarde. Era hora de ultimar detalhes para a audiência em tribunal.
    O fim do dia a aproximar-se e Carlota a baixar a guarda finalmente. Sentada no seu cadeirão, olha à volta, o escritório estava em modo debandada. Hora de espreguiçar um pouco, soltar os pé direito do sapato, amparado apenas com a ponta do pé, a baloiçar um pouco, de perna cruzada. Não lhe apetecia ir já para casa. Ainda só era segunda e as saudades dos gémeos ainda não tinha batido, depois de um fim-de-semana de omnipresença na sua vida. Ligou ao seu Jú para dizer que chegava um pouco mais tarde, relembrando que hoje era dia de brócolos na ementa dos pequenos para acompanhar o resto do frango de ontem. Era necessário cozer, juntar uma pitada de sal e não deixar passar os 5 minutos de fervura. Carlota não dava muitas justificações ao marido e ele também não perguntava. Era assim a relação. Ele sabia que ela voltava sempre a casa, e isso para o Júlio, era o mais importante. Para ela, uma bênção. Dar justificações de tudo o que fazia só podia levar a um lado, à mentira. Por vezes na omissão encontra-se um justo equilíbrio entre um casal, pensa ela. Provavelmente no dia do Jú nem tudo fora andar atrás de borboletas coloridas para fotografar, por isso, quid pro quo.
    Depois de quase todos abandonarem o escritório, passava um pouco das sete da tarde, ainda era de dia, embora as nuvens que ainda permaneciam no céu acinzentassem o fim de tarde. Finalmente saiu, não sem antes trocar o seu fato beije por leggins e um top, ambos pretos. Os saltos altos pretos deram lugar aos Nike de estimação que lhe aconchegavam os pés, e por cima, um hoodie cinza com uma risca rosa. Era um dos trajes alternativos que Carlota mantinha no armário do seu gabinete. O fato fora para o cabide, pendurado na porta detrás do seu Mercedes. Carlota ia dormir a casa, mas a segunda-feira, para ela, ainda não tinha acabado.
    AS CORES DE UMA VIDA A PRETO E BRANCO
    CAPITULO III
    Carlota ruma pela A5 em direção a Cascais, para depois, no Estádio Nacional, apanhar a marginal. Fazer a marginal, a qualquer hora do dia ou da noite, de janela aberta, era garante de um novo folego. O ar com sabor a maresia esbate-lhe no rosto com alguma intensidade, era um fim de tarde ventoso. Mais vento houvesse. O bem que lhe fazia ver e sentir o mar. Passada a praia de Santo Amaro, Carlota sai no Inatel para estacionar. Ao final do dia e com céu nublado, o seu Mercedes ficou mesmo à bica da praia. De frente para o mar, em silêncio, ficou alguns minutos dentro do carro. Estava à espera das 8 da noite. Não estava a pensar em nada, simplesmente deixou-se ir no pela vista que tinha à sua frente. No vazio total, serena, nuca ligeiramente inclinada para trás encostada à cabeceira do assento do pendura, para onde se tinha mudado só para não ter o volante à frente. Tempo ainda para 1 cigarro, daqueles que fumava ocasionalmente quando estava apenas com ela própria. Não era fumadora viciada, nem social, fumava quase sempre sozinha quando estava apenas com os seus botões, como hoje. Tinha em miúda aprendido a fazer círculos de fumo que lhe saiam bem formatados pela boca. 3 seguidos. Tinha graça, eram de tamanhos diferentes, o primeiro maior, o terceiro, e último, pequenito. Era à cowboy. Demorou uns bons cinco minutos a fumar, mais do que o habitual para um fumador. Mais do que inalar o fumo, ver o cigarro acesso só por si já a satisfazia. A beata, atirou-a pela janela, prensada entre o polegar e o dedo do meio, num gesto masculino, que contrastava com a sua aparência feminina e doce.
    Saiu do carro e encetou a sua caminhada pelo paredão. Tapou a cabeça com o capucho do seu hoodie cinza, enfiou as mãos nos bolsos, inclinou o olhar para o chão e a passo, seguiu na direção de Cascais. Ela sabia que se ia cruzar com ele. O paredão estava praticamente vazio, dado o tempo e a hora, de jantar, mas Carlota conhecia-lhe os hábitos. Nunca faltaria ao jogging de final de dia antes de jantar. Se eventualmente já tivesse passado na direção a Lisboa, de certeza que agora o apanharia no regresso, se é que não o ia apanhar mesmo de frente. Só a ideia de o cruzar arrepiava-a. Só ela podia compreender o que sentia. Joana, a quem Carlota já falara dele, não percebia a fixação. Estar aos 38 anos de idade agarrada a um romance de adolescência era para Joana inimaginável dado o seu pragmatismo nas relações amorosas, mas para Carlota, ele, Ricardo, Ricky para ela, fora o seu primeiro grande amor, único, irrepetível e eterno. Não era comparável ao que alguma vez tinha sentido pelo seu Jú, a história tinha outros contornos, num misto de história de amor inocente, escaldante e claro, inacabada, mal encerrada entre os dois. Pelo menos para Carlota. Ela sabia que o Ricky era solteiro, ou melhor, solteirão, dedicado, tal como Joana, às aventuras do dia-a-dia e sem ninguém com poiso certo no seu coração. Carlota nem sabia se ela própria tinha direito a algum lugar de destaque no coração de Ricky. Não falavam desde que cada um seguiu a sua vida, num amor que terminou abruptamente aos 21, depois de 3 anos em que Carlota viveu nas nuvens, ou para lá delas.
    Em passo lento, de ouvido atento, sentiu uma passada firme atrás dela, ainda distante. Persentiu que era ele. Não que lhe conhecesse o passo, era a vontade dela e a sua intuição a funcionar. A passada aproximava-se rapidamente, e Carlota começou a ouvir a respiração forte de quem ia em esforço físico. Uma locomotiva. Ricky era homem do desporto, sempre fora. Nos tempos do namoro, era jogador de futebol federado e representava os juniores do Estoril. Não fez carreira no futebol porque a cabeça dele merecia mais. Seguiu engenharia, e pelo que Carlota sabe, do que cuscou e descobriu, está muito bem na sua vida profissional, A chefiar uma equipa numa das maiores construtoras nacionais. Para quem ainda não bateu nos 40, nada mal. Finalmente chegara o momento da interseção entre quem caminhava e quem corria. Quem corria passou de raspão por Carlota, sem ser propositado, apenas para cortar caminho. Sentira-lhe o cheiro, do perfume da manhã certamente. Leve e fresco, de bom gosto para a estação do ano. Era ele, Ricky, passara por ela sem dizer sequer um “Olá tudo bem?”, nem a reconheceu, nem olhou de esguelha para ela, camuflada no seu hoodie. Carlota também não queria ser reconhecida, aquilo que estava a fazer tinha qualquer coisa de stalking, o que, associado a mais alguns atos deste tipo, poderia ser considerado crime, e disso das leis, direitos e deveres, sabia ela. Viu-o afastar-se no paredão rapidamente, e ainda com o coração acelerado pensou, “nem os olhos verdes lhe vi, pena não o ter apanhado de frente!”. Que belo homem era Ricky, aos seus olhos, mas consensualmente aos olhos de todas as mulheres. A roçar os 40 e pareceu-lhe melhor que nunca, ainda que avaliado de soslaio.
    Carlota parou. Era hora de voltar com o sentimento de missão cumprida. Ela sabia onde morava o Ricky, onde ele trabalhava e algumas das suas rotinas. Não raras vezes Carlota saia da sua vida para se dedicar ao passado, para recordar, para reviver esses momentos. Hoje dera-lhe essa vontade, e parcialmente saciada, já de noite, decidira regressar ao presente e à sua vida. O Lucas, a Constança e o Jú estavam à sua espera.
    No regresso, médios ligados, de volta na marginal, acendeu outro cigarro, janela entreaberta com água a pingar para o interior, seguiu a queimar os limites de velocidade ao ponto de queimar os múltiplos radares espalhados pelo caminho, o que a obrigavam a parar nos diferentes semáforos sincronizados com os radares, que automaticamente ficavam vermelhos perante os excessos de velocidade. Chegava a ser irritante. Já não era hora de aproveitar a paisagem e Carlota só pensava em encontrar refúgio do lar. Não raras vezes ficava confusa com este regresso ao passado, com a transição para o presente, que por sinal convivia mal com o seu outro presente….. Que futuro poderia Carlota esperar na sua vida. Quantas Carlotas poderiam viver numa só?
    A breve crise existencial durou apenas o tempo de chegar a casa, desligou o Mercedes na garagem, tirou a chave da ignição, e naquele preciso instante sentiu uma vontade doida de abraçar os seus gémeos. Já era tarde, por isso, o único sobrevivente daquele fim de segunda era apenas o seu Jú, que estoicamente tinha tratado deles, banho, jantar, e cama. Não era fácil adormecer os 2. Juntos no mesmo quarto, até o sono vencer ambos, era preciso batalhar. A socorro de duas chuchas era um pouco mais fácil, mas ainda assim a tarefa era digna de ser classificada como missão. Às vezes faziam o “pedra, papel ou tesoura” para decidir quem era o destacado na missão. Ele tinha mais jeito do que Carlota. Aliás, Carlota não era uma mãe nata, faltava-lhe instinto, não tinha carinho por bebés antes dos gémeos nascerem, ser mãe não a mudou muito. Certo é que não lhe faltava amor por eles, faltava-lhe sim jeito. Era tarde, um beijo molhado na testa do Lucas, outro na bochecha da Constança. A dormir eram verdadeiros anjos, não só pela pose serena e doce mas também pelos cabelitos ainda loiritos, vindos do ADN do pai. Eram os seus anjos, mereciam melhor mãe, pensara ela ao beijá-los. Mordeu ligeiramente o seu e saiu do quarto. Jú tinha guardado jantar para ela. Tinham sobrado brócolos, além do frango de domingo. Era o que havia, e tudo aquecido no micro-ondas transformaram as sobras num digno repasto. Jú enchera-lhe um copo até meio com o resto do Duas Quintas tinto que sobrara também de domingo. “Vais ver que dormes melhor”, diz ele. E era verdade. O vinho tinto era um bom embalo para o melhor dos sonos. Fizeram um pouco de conversa trivial, ele sobre as suas borboletas, ela sobre o seu dia de trabalho. Para Carlota chegava a ser estranho ele nem perguntar porque tinha chegado mais tarde, ou melhor, tão tarde. Apreciava o respeito pela sua individualidade, pela sua vida, odiava ser controlada, mas daí à indiferença ia um passo bem largo. Será que ele não pergunta par evitar que lhe mentisse? Porque não quer saber a verdade. Porque é feliz assim? Por causa dos meninos? O Jú não era de manter casamento de fachada, os seus pais eram separados e cada um era feliz à sua maneira, nas suas vidas, que seguiram rumos diferentes quando Jú tinha dez anos. Talvez tivesse ficado com trauma nessa altura, certo é que nunca o demonstrou e sempre que falavam dos pais dele, era com naturalidade. Era filho único e não tinha meios irmãos. A mãe ficou divorciada até hoje, o pai casou outra vez, mas sem frutos.
    Já na cama, um beijo seco entre lábios e cada um seguiu para o seu lado da cama. Chegaram no passado a adotar a concha como método carinhoso para adormecer, mas desde que os gémeos nasceram que esse hábito se perdeu. Cada uma para seu lado, na mesma cama, juntos, embora de costas um para o outro. O copo de vinho tinto tinha-a deixado relaxada, mas ao fechar os olhos não pode deixar de recordar o seu Ricky, num daqueles inúmeros momentos vividos. Tinha saudades de fazer amor com ele. O sexo era o melhor que havia tido em toda a sua vida. E tão jovem ainda. De olhos fechados, recorda um dia, ainda de manhã em que tinham ido de comboio a Sintra, galgado as colinas até aos Capuchos, e no meio de nenhures, ele, afoito e ardente de desejo, a agarrara de surpresa, ali, ao ar livre, contra um pinheiro bravo, a começara a beijar no pescoço, cara e depois boca, onde se demorou enquanto a sua mão direita lhe baixava a alça do ombro esquerdo. Chegou-lhe bem aos seios que apertava ao de leve. Carlota lembra-se bem de ter sentido um calor enorme a subir-lhe pelo corpo até à cabeça, num dia em que o clima de Sintra fazia jus à sua fama, brumoso. Puxou-a para cima, ela passou as pernas à volta da sua cintura, e sem tirar a roupa, ali, ele afastou as cuecas dela para o lado, saia para cima, sem querer saber de eventuais olhares indiscretos que tornavam o momento ainda mais excitante, amaram-se com um sexo vigoroso, versátil, que só o Ricky conseguia proporcionar. Carlota recorda-se da dor nas costas que roçavam no pinheiro enquanto Ricky a entalava nele com ambas as mãos a segurar as suas nádegas. Carlota não se lembra se foram 2 ou 20 minutos, perdera noção do tempo, mas sabia, que nem por um segundo os seus lábios descolaram dos dele.
    Húmida, Carlota, adormeceu de sorriso nos lábios nessa noite.
    AS CORES DE UMA VIDA A PRETO E BRANCO
    CAPITULO IV (final)
    A semana prosseguiu sem incidentes de maior. Mais do mesmo, trabalho, casa, de volta ao trabalho. Segunda fora uma exceção que levara Carlota a fugir do presente, um escape para ela, numa visita fugaz ao passado. Ela tinha bem presente que ninguém vivia do passado, nem ninguém se agarra ao passado para viver o presente. No entanto, deixar-se transportar para o passado dava-lhe o bem-estar no presente que muitas vezes não conseguia encontrar. Dava-se o caso de Carlota ser uma mulher conhecedora do código civil, das leis, dos deveres e obrigações dos cidadãos perante a sociedade, mas ao mesmo tempo, uma mulher no rules, capaz de se transportar para um mundo diferente onde se vive à medida da vontade de cada um. Uma ambiguidade permanente a roçar a bipolaridade. Artigos e liberdade eram palavras antagónicas que conviviam a espaços isoladamente na cabeça de Carlota, por mais que tivesse estudado que os princípios do direito visava garantir a liberdade de cada um. Era uma liberdade circunscrita, não uma liberdade efetiva. Não raras vezes se perdia em pensamentos e ideias que a levavam para outra dimensão intelectual. Faltava-lhe alguém para falar, puxar por ela, para conversar noutro patamar. Ela sabia quem a conseguia levar para esse patamar, foram outros tempos, agora contentava-se com um simples cruzar no paredão à procura de inspiração. Esta obsessão chegava a ser doentia, e ela sabia disso. Qualquer pensamento desaguava quase sempre inevitavelmente no Ricky. Doentio, sem cura, sem comprimidos que a fizessem cortar com o passado.
    A reunião de quarta-feira com o Afonso correu pelo melhor. Ele era um homem pragmático e partilhou da ideia de Carlota que não vale a pena batalhar pelos casos perdidos. O devido à segurança social era para pagar com mil perdões, e juros de mora, para tentar colher a simpatia do juíz, os milhões que fugiram da empresa para as ilhas Caimão, que serviram de suporte financeiro à compra da moradia na Quinta do Lago e ao seu Porsche Carrera, eram para tentar branquear em tribunal. Era património que estava registado em seu nome, mas havia forma de justificar a proveniência do dinheiro sem ser através do saco azul da Alves & Ribeiro. O problema talvez fosse o contabilista que inevitavelmente iria ser chamado pela acusação. Ele próprio fora cúmplice e por isso também tinha de proteger as suas costas, mas o que lhe tocara no bolso era pouco para enfrentar o juízo do tribunal. Entregar o peixe graúdo poderia ser uma solução. Uma ameaça a ter em atenção na defesa do caso.
    Dessa reunião ficara-lhe na memória um gesto de Afonso. Tocara-lhe ao de leve na perna. Carlota, coisa rara, levara saia nesse dia. Uma saia preta folhada a combinar com uma blusa, também ela preta, em contraste com o blazer vermelho que comprara na véspera na Zara. Foi um toque intencional, de quem tinha vontade de tocar, não tinha surgido naturalmente na conversa. Se o seu Jú visse, não ia gostar. Ou melhor, pelos tempos que correr já nem Carlota sabia o que poderia ele gostar ou não. A conversa entre Carlota e Afonso era de facto puramente profissional, o caso absorvia a totalidade das palavras trocadas. O Olhar de Afonso, não raras vezes, transmitia outra coisa. Nessa reunião de quarta, enquanto falava detalhadamente sobre como tinha montado o saco azul com o seu contabilista, e a forma como se relacionada com fornecedores e clientes combinados, olhava-a com um desejo carnívoro de quem a queria possuir ali mesmo em cima da mesa. Era um olhar transparente, e nem o Afonso o queria esconder, aliás, fazia questão que Carlota o compreendesse bem em busca de um sinal de reciprocidade. De troco, Carlota dissera a Afonso para tentar manter a frieza em tribunal, para preparar uma poker face, o que implicava um olhar gélido, diferente daquele que lhe atirava naquele momento, ou de qualquer outro que pudesse indiciar culpa. Ele sabia que Carlota percebia o seu desejo sexual, não podia ser mais explícito. Por mais que Carlota quisesse evitar deixar transparecer que se deixara ir no entusiasmo do olhar de Afonso, os seus mamilos, diziam o contrário. Péssimo dia para não usar sutiã. Não era sempre, mas havia dias que Carlota gostava de sentir os seus peitos soltos. Empinados, salientes na blusa preta de Carlota, demonstravam nota de culpa.
    Enquanto tentava manter o foco na defesa de Afonso, Carlota imaginava as “crueldades” a que Afonso a queria submeter. Pela sua imaginação, inspirada no olhar de Afonso, não era menos do que a colocar de joelhos e obrigá-la a abrir-lhe o fecho das calças, ali mesmo, no seu próprio gabinete. Esta simples ideia perturbava Carlota, num misto de excitação e culpa. Também lhe dera vontade de sucumbir à tentação de presentear Afonso com um momento de luxúria num espaço dedicado ao direito. Pensou Carlota, “não duravas mais de 5 minutos”. Rasgou um sorriso que Afonso não compreendeu, e nesse preciso instante, o olhar dele volta a ser o do empresário trafulha, preocupado com a impunidade que acha lhe pertencer por direito. Ficara da reunião a defesa alinhada, uma perna tocada de forma atrevida, ainda que ao de leve e um enviesamento de uma relação profissional. O clima assexuado da reunião contrastava com a forma como se tratavam, ele, referindo-se sempre à Dra. Carlota, ela, tratando-o por Afonso, não por tu Afonso, mais próximo do meu caro Afonso.
    Na quinta-feira, à conversa com Joana, Carlota partilhara toda a parte sombria da reunião. Riram ambas do episódio. Estavam no seu gabinete, como quase sempre, de porta fechada, na típica tagarelice feminina. Joana conseguia potenciar este tipo de conversa para outro nível, num misto de ordinário e graça, para lá do que duas senhoras nos seus trinta deveriam convencionalmente ter. Era assim Joana, ora trazia um resumo dos temas da imprensa cor-de-rosa, que muito jeito dava a Carlota, curiosa mas sem tempo para mundanices, ora trazia uma história qualquer com um dos seus queridos amigos, ou melhor, especulava e imaginava em voz alta. Era uma boa amizade, ainda que maioritariamente de convívio laboral. Raramente tinha ido lá a casa, e nunca com o seu Jú presente. Não era de aparecer no aniversário dos gémeos nem de lhes oferecer presentes. No nascimento deles, Carlota lembra-se de ter recebido no hospital a visita de Joana, com flores, mas foi só. Perguntava pelos gémeos como quem fala do tempo, desapegada. Preferia delirar sobre o Afonso e omitir do seu pensamento a virtude de um dia ser mãe.
    Carlota relatava ao pormenor o olhar de Afonso, o que ela sentira, o constrangimento dos seus mamilos salientes na camisa preta, Joana, essa, complementava com a sua imaginação. Sugeriu que as duas podiam dar conta do recado. Descambou. “Tu baixavas o fecho das calças, eu ia lá busca-lo”, provocava Joana. Carlota corou! Joana riu-se e continuou a provocar. “À vez íamos lá as duas. A quem saísse o lanchinho ganhava um almoço da outra! Vale?” Era ordinário mas dito entre risos parecia menos mal. O caminho do riso para a gargalhada foi vertiginoso. Carlota corada desmanchada a rir enquanto Joana, também ela incontinente no seu riso, sugeria a custo que Carlota devia começar a ter toalhetes em cima da mesa. Alguns olhares de fora fixaram as duas pela parede vidrada do escritório. Ainda que fosse final de dia, era uma postura pouco apropriada para um escritório de advogados, ainda que os olhares fossem de curiosidade e não de condenação. Recomposta a postura, Carlota pergunta se Joana vai outra vez passar o fim-de-semana para a Ericeira com o Tomás. Afirmativo. Era aproveitar enquanto dura, e como Joana já bem sabe, as suas relações não duram muito, pelo que era de aproveitar. A manter-se o tempo chuvoso, era promessa de muito tempo passado entre paredes e não na praia a vê-lo apanhar ondas. Tinha mais graça assim.
    Sexta chegou finalmente. O seu Jú não tinha ofício no fim-de-semana. Era para fazer planos a quatro, e em particular, dividir as tarefas e o babysitting dos gémeos. Provável que muito do tempo fosse passado dentro de quatro paredes, não na mesma onda que a Joana ia surfar, noutro registo. Mamã e papá fazem de mamã e papã a tempo inteiro. Carlota não rejubilava com a ideia, mas ao mesmo tempo, depois de uma semana de trabalho, também era bom ser mamã. A advogada ficava à porta de casa, a sua imaginação em hold e a sua outra vida esquecida por dois dias. Carlota ia ser a mãe, junto com o seu marido, o pai. Durante a semana o tempo passado juntos fora mínimo, breves momentos entre o acordar e o adormecer, repetidamente, dia após dia. Será que o seu Jú também tinha a mesma ideia do fim-de-semana? Raramente falavam do que sentiam. O silêncio entre ambos era interrompido na maior parte das vezes por trivialidades ou temas dos gémeos. A vida conjunta perdera a graça de outros tempos. Não que a relação alguma vez tivesse sido perfeita, mas houvera momentos no passado que eram promessa de bons alicerces para o futuro. O futuro provou ser diferente, mas não perdido. Era assim, Carlota não pensava em divórcio, não lhe parecia haver motivo para isso, e o seu Jú também nunca meteu o tema em cima da mesa.
    Era sexta à noite, paz em casa, só adultos acordados no lar.
  • As crianças perdidas

    Sofria de insônia há alguns anos. Terapias e tentativas diversas nunca funcionaram(acupuntura,meditação,oração, reza, TCC, psicanálise etc) . Em relação aos remédios, seguravam-me, no máximo, duas horas na cama, mesmo tomando o triplo do recomendado pelos médicos. Passei por vários, que sempre me diagnosticaram com um problema diferente. E, cada um deles, prescreviam um amontoado de pílulas. Tomava aos montes, estava viciada, especialmente num verdadeiro coquetel de benzodiazepínicos, que sempre estavam ao lado da minha cama. Não me faziam dormir, mas me acalmavam quando eu estava com raiva ou chateada com algo ou alguém. Apelei até para as mais bizarras alternativas. Cheguei a sacrificar animais a pedido de um pai de santo. De nada adiantou. Fui a uma praticante de vodun, que havia fugido da crise haitiana após aquele terrível terremoto do ano passado e vindo morar em nosso país. Era de uma tradicional família abastada de lá. Dinheiro e tempo perdidos. Nada me fazia dormir.
       O motivo para a insônia que os especialistas, religiosos e curandeiros alegavam, variava de acordo com a especialidade e a crença deles: Os psiquiatras diziam que eu sofria de um distúrbio hormonal na produção de melatonina(hormônio necessário para o sono). Resultado de um defeito congênito na glândula Pineal(má formação) que a impedia de produzir o hormônio na quantidade e qualidade necessárias para as minhas necessidades. Os religiosos, em geral, incluindo curandeiros, padres, pastores, umbandistas e espíritas estavam de acordo: era um problema espiritual. Havia forças sobrenaturais atuando sobre mim e causando a insônia.
       Certa noite, acordei com se ouvisse gritos de crianças. Fui ao banheiro, então tive novamente a impressão de que crianças brincavam pelo terreno da fazenda. Dei uma espiada por todos os lados da casa e seus arredores. Não havia ninguém. Acordei meu irmão:
    - Carlinhos, Carlinhos, acorda:
    - O que é dessa vez, Naninha? viu o Boitatá ou o Saci?
    - É sério, Carlinhos.
    - Pois diz logo, porque diferente de você, tenho a obrigação de dormir. Papai e eu temos que sair cedo para fecharmos um contrato para a venda de nossas uvas. Os preços subiram e quero dinheiro, e muito. Afinal, quem vai sustentá-la? sua aposentadoria mirrada não vale os presentes que vc distribui aos seus amantes, uma vez ao ano, quando aparecem por aqui.
    - Acho que há crianças pela casa. Eu as ouvi. Elas estavam correndo e rindo. Conversavam também.
    - Naninha, vá para a cidade. Termine os estudos e arranje um namorado , ou um macho qualquer pra te comer. Ou quem sabe uma mulher. Os tempos mudaram. Agora me faça um favor: saia do meu quarto e me deixe dormir.
       Enquanto todos dormiam, eu perambulava pela casa, não parava de ouvir passos e vozes de crianças. Percebi de onde vinham os sons, os passos e as gargalhadas. Abaixo-me lentamente e saio rastejando até uma das janelas. Preparo a câmera do celular. Elevo-me subitamente, avisto as crianças e bato várias fotos. As crianças estão entrando na plantação de Uvas. Uma delas arranca vários cachos. Pelam praticamente as videiras da frente da casa. Eu encaro uma delas e ela retribui com uma sorriso. Depois corre para dentro das videiras. Enfim, achava que havia registrado as crianças.
    - São crianças de verdade. Meu Deus! Carlinhos tem que ver isso.
    - Carlinhos! Carlinhos!
    - O que é Naninha? Jesus Cristo, me deixa dormir. Vai encher o saco da mãe ou do seu primo retardado. Preciso dormir, mulher.
    - Agora é sério. Tirei fotos de crianças, elas estão nas videiras. Brincando.
    - Espera que vou abrir a porta.
    - Entra, diz Carlinhos.
    - Olha, Carlinhos, aqui estão as fotos. Agora me diga se estou louca.
    - Cadê as crianças? não vejo ninguém.
    - Você além de burro e feio, é cego também? não está vendo esse garotinho de chapéu de vaqueiro? e essa garotinha com roupa de cigana?
    - Saia do meu quarto, agora. Sua maluca. Aliás, vou acordar a mãe e falar com ela.
    Carlinhos, dirige-se ao quarto dos nossos pais,furioso e mal humorado. Bate na porta a ponto de derrubá-la.
    - O que é Carlinhos? o que aconteceu, diz sua mãe assustada.
    - Dê um jeito na sua filha, agora. Além de passar todas as noites fazendo barulho pela casa, atrapalhando nosso sono, agora fica vendo coisas. Tô até com medo dessa doida.
    - Feche sua porta, e não dê atenção a ela. Me deixe em paz também, diz a mãe deles.
    - O que Carlinhos queria, Maria? pergunta o esposo
    - Veio reclamar da Naninha. Diz que agora ela anda pela casa vendo coisas.
    - Não bastasse passar as noites acordadas, agora está tendo visões. Mais um problema, mais dinheiro com consultas e remédios, diz o patriarca da família.
    - Pois é, conversaremos sobre isso amanhã.
    - Mas agora quero conversar com você sobre outra coisa.
    - Nem venha. Estou com dor de cabeça e indisposta. Vá dormir
       Depois de todo o alvoroço que meu irmão provocou, resolvi ser mais reservada. Não iria incomodar mais ninguém, nem minha mãe, que geralmente era mais paciente e compreensiva que todos(as) da família. Resolvi me refrescar fora da casa. Sentei-me na cadeira de balanço na varanda. Preparei um cafezinho e um cigarro de Marijuana. Aqui em casa, e nas fazendas vizinhas, o uso dessa planta é disseminado, para os mais variados fins. Todos fumam, sobretudo como tranquilizante natural. Minha mãe também faz chá com suas folhas. A plantação é ilegal, mas tínhamos variadas espécies de Cannabis entre as videiras. Não gostava muito, mas me tranquilizava. Tinha um efeito semelhante ao meu coquetel de benzodiazepínicos.
       Enquanto me refrescava ao sabor do café e da Cannabis, as crianças voltaram. Eu as observava de longe. Elas brincavam. Escondiam-se. Acenaram para mim e entraram na plantação de uvas. Eu resolvi segui-las. Entrei no labirinto das videiras. O campo de plantação era gigantesco. Tinha quilômetros.
       Estava no labirinto, as crianças apareceram. Pareciam querer brincar. Peguei na mão do garoto e da garota e saí pelo mato, cantando e me divertindo com elas, até o dia raiar.
    - Bom dia, Pedrinho!
    - Bom dia, mãe!
    - Cadê sua irmã?
    - Não sei. Ela me acordou duas vezes de madrugada.Meu pai ainda está dormindo?
    - Não.Está se arrumando para sair com você.
    - Vá la fora e chame-a aqui?
    - quem?
    - A Naninha, Carlos. Quero conversar com ela.
       Carlos vasculha o terreno da casa. Grita por Ana. Ela não responde. Ele observa suas pegadas em direção às videiras. Ele entra, chama por ela, mas ninguém responde. Ele entra mais a fundo nas plantações. De repente ouve vozes de crianças também. Elas riem.
    - Será que a Naninha tem razão? parece que tem crianças por aqui.
    Ele tenta saber o local que origina os sons. Vai em direção a eles. Lentamente, sem fazer barulho, observa uma cena estranha. Era sua irmã sozinha, cantando e rodando em meio às videiras. Mas ele continua intrigado com as vozes de crianças que continua escutar. Ele observa os lábios de Ana. Percebe que as vozes infantis são falsetes. São criações de sua irmã. Furioso, ele a pega pelos braços e a leva:
    - Vamos, Naninha. Minha paciência se esgotou. A mãe quer falar com você.
    - Espere, não deixe as crianças sozinhas, elas podem se perder.
    Carlos leva Ana até a cozinha, onde todos estavam rezando.
    - Ana chegou, mãe? gostaria de saber onde ela estava e o que estava fazendo?
    - Que insolência, Carlos! interromper nossa sagrada oração matinal sem necessidade, diz o patriarca
    - Desculpa, pai.
    - Agora diga, onde diabos estava Ana e o que fazia? estava transando com algum dos agricultores, como é de costume?
    - Não era isso não. Diga você mesmo, Naninha!
    - Eu estava a brincar com um casal de meninos lá dentro das videiras.
    - Você desse tamanho, Aninha, brincando com crianças em plantações? pergunta seu primo.
    - Sim, não tinha nada a fazer. Eu as vi brincando e resolvi fazer companhia a elas.
    - Isso é verdade, Carlos? pergunta a mãe.
    - Que nada. A louca estava sozinha cantando e rodando no meio do mato, e com um agravante: a maluca imita vozes de crianças. Fala com ela mesma achando que conversa com crianças.
    - Seu caso está sério, querida, diz seu pai.
    - Vamos, Ana, imita aí a voz de uma criança! insinua Carlos
    - Eu não estava imitando nada. Você que inventou isso!
    - Estamos sem tempo, Carlos! vamos sair agora. Deixe sua irmã em paz. Deixe-a brincar com quem quiser, e imitar o que bem entender, desde que não traga prejuízos. Melhor brincar com crianças do que com adultos, porque estas últimas brincadeiras tem me rendido uma terrível dor de cabeça e uma grana preta. Esqueceu os abortos a que fui obrigado a arcar?
    - Talvez se ela não abortasse os filhos, tudo melhoraria. Era teria ao menos o que fazer, disse a mãe.
    - jamais! disse o pai esmurrando a mesa.
    - Filha minha não tem filhos bastardos, não tem filhos em pai.
    - Os garotos da cidade vem para os festejos e transam com essas idiotas. E os pais dessas irresponsáveis que arcam com o prejuízo.
    - De saco cheio dessa conversa de sempre. Vamos embora, pai.
    - Eu também, meu filho. Vamos sim, porque alguém precisa ganhar dinheiro para sustentar essa palhaçada toda.
    - Vão, e demorem bastante, disse Ana, furiosa.
    - O que é isso, minha filha? são seu pai e seu irmão.
    - Eu sei, mãe. Eles me tiram do sério.
    - E vc acha que não os tira do sério também?
    - Só não me mudo para a cidade porque não gosto do estilo de vida urbano. Me acostumei com a tranquilidade daqui, diz Ana.
    - Uma viagem poderia fazer um grande bem a você, meu amor.
    - Vou pensar no assunto.
    - Mas antes disso vou chamar o Dr. Wolff, para uma nova consulta.
    - Aquele médico nazista nojento?
    - Sim, ele mesmo. A preferência políitica dele não nos interessa. O que importa é sua competência como psiquiatra.
    - A senhora quem sabe.
       Tinha trinta e três anos quando as crianças surgiram na minha vida. No começo, apareciam apenas à noite. Mas aos poucos a presença delas foi se estendendo por todo o dia. Às vezes, quando acordava no meio da noite, elas estavam juntas a mim. Eu me levantava e as cobria como uma boa mãe deveria fazer. Bebiam café e conversavam comigo. Elas até me pediam para fumar. Mas não deixei, é claro. Um dia perguntei a elas:
     Por que só eu as vejo ?
    - Nós também só vemos a senhora. Quem mora mais aqui?
    - Meu pai, minha mãe, meu irmão e mais dois primos. E mais à frente na fazenda, depois do cercado, fica a moradia temporária dos agricultores. Eles ajudam a família na colheita. Depois voltam para suas casas.
    - Não, nós não vemos ninguém. E naquela casa lá fora só vemos um homem. O que se veste igual ao meu irmão. Ele também conversa com a gente. Por que isso acontece?
    - Não sei, minha querida.
    - Deixa eu olhar bem para você, garoto. A roupa é igualzinha a dele. Ele se veste sempre assim mesmo. Que estranho!
    - Vocês moram onde, crianças?
    - Nós moramos entres as videiras. Crescemos com elas. Tem mais crianças lá. Muitas. Você não as vê?
    - Não. Só vejo vocês.
    - E quem são seus pais, meninos ?
    - O chão é nosso pai e uma das videiras nossa mãe. Quer conhecer nossos pais, Naninha?
    - Não, queridos, por enquanto não.
       Era domingo à tarde. O pessoal estava no campo trabalhando, fazendo a colheita das uvas. A família estava reunida como de costume. E tínhamos uma visita: nossa prima Raquel. Era uma jovem inteligente e bastante divertida. Fazia residência médica em psiquiatria na Capital. Todos os meses nos visitava. Era a irmã dos dois primos que residiam conosco. Mas estava claro que sua visita tinha um propósito exclusivo: analisar meu caso a pedido dos meus familiares. Quando todos estavam à mesa, Carlos falou em tom de ironia:
    - Raquel, você já se formou?
    - Sim, Carlos. Estou fazendo residência médica agora.
    - Vai ser médica dos doidos, não é?
    - Não é bem assim, Carlos.
    - Pois minha irmã está completamente louca.
    - Cale a boca, Carlos!
    - Não tia, deixe-o prosseguir. Não tenho tempo de sair espalhando a vida particular de ninguém. Meu tempo é curto, é quase todo dedicado à Universidade.
    - A Naninha acha que cuida de duas crianças que nasceram nas videiras. Vê se pode isso! Tá louca de pedra.
    Todos riram, inclusive nossa prima, que tentou até se segurar. Mas não deu.
    - Mas é verdade. Eu vejo como se estivesse vendo a todos aqui.
    - Verdade, prima?
    - Sim.
    - E melhorou daquela sua insônia?
    - Não, continuo sem dormir, mesmo tomando o coquetel de medicações.
    - Estou preocupada, prima. Conheço casos parecidos com o seu. Temos que cuidar disso antes que se agrave. Antes só não dormia, agora vê crianças. Isso pode progredir.
    - Mais tarde quero conversar com você sobre tudo.Quem sabe posso ajudar.
    - Ótima ideia, Raquel. Ana precisa de uma companhia feminina e de desabafar um pouco. Você ajudaria e muito se dormisse essa noite conosco.
    - Eu ficarei, tia, não se preocupe.
    - Vocês mulheres que se entendam, disse o patriarca, saindo com os outros para fiscalizar a colheita das uvas.
       Já era tarde da noite. Umas 23h, talvez. Não sei precisar. Eu estava na sala assistindo a um filme com meus primos quando Raquel chegou acompanhada de uma jovem, vestida de branco e com uma bíblia na mão.Era uma médium espirita, muito conhecida pelos fazendeiros locais.
    - Ana, preciso que venha até a varanda para conversarmos.
    - Não pode esperar até o fim do filme? venham, podem ficar à vontade, vejam como é interessante.
    - A médium não tem tempo. Precisa falar agora com você.
    - Esperem uns dez minutinhos. Daqui a pouco chego à varanda.
       Passaram duas horas e nada de Ana aparecer. Carlos passa pela sala e vê os primos e a irmã vendo TV e pergunta:
    - Que filme é este?
    - Diário de uma paixão, diz um dos primos
    - Filme de maricas. Um lixo, diz Carlos, de mal humor e  cansado.
    - Vocês dois não tem vergonha de assistirem a um filme tão idiota? a propósito Senhorita Ana, há duas pessoas que estão a um tempão na varanda esperando alguém. Receio que seja você. Estou certo?
    - Meu deus, acabei esquecendo.
       Ana levanta-se e vai à varanda da casa.
    - Me desculpe, pessoal. Eu me esqueci completamente de vocês.
    - Não tem problemas, Ana, a médium cancelou o compromisso que tinha para dar toda atenção a você. Agora vou dormir! boa sorte para as duas.
    - Olá , Ana, Lembra-se de mim?
    - Como poderia esquecer?
    - Pois vamos direto aos fatos, meu anjo. Sabe o que está ocorrendo com você?
    - Tenho insônia e estou, segundo os médicos, tendo alucinações.
    - Nada disso.
    - Você foi abençoada por Deus e pela natureza.
    - Não me diga, é? e por quê?
    - Porque mesmo tendo abortado seus filhos, eles cresceram e estão próximos a você.
    - Como sabe disso?
    - Raquel me contou tudo.
    - E como sabe que são meus filhos?
    - Pela descrição que me deram deles.
    - Continuo sem entender.
    - Vou lhe explicar um pouco sobre o mundo espiritual. Todos nós possuímos um alma antes mesmo de nascer. O corpo é apenas um receptor descartável. Vagamos por mundos e vidas num processo evolutivo. É a lei do progresso. Reencarnamos incessantemente. Mas há alguns espíritos que relutam contra esse inevitável processo. Querem permanecer vagando pela Terra ou no planeta onde desencarnaram.
    - E onde entram as crianças nisso?
    - Eu me lembro que Raquel me disse que as crianças afirmam terem nascido da terra e que a mãe seria era uma das videiras. Estou certa?
    - Sim. Elas dizem isso mesmo. E dizem que só vê a mim e a um dos homens que trabalham na colheita?
    - Agora quero que responda, Ana, sem mentiras. Você teve um caso com esse homem?
    - Não só tive um caso como abortei duas vezes.
    - E hoje, como é a relação entre vocês?
    - Não nos falamos. Meu pai quase me mata e o ameaçou também. Mas durante a colheita anual ele sempre vem aqui trabalhar.
    - E o garotinho é cara dele, não é?
    - Sim, e se veste do mesmo jeito que ele.
    - Ana, não se faça de desentendida. Você sabe que essas crianças são seus filhos.
    - Mas como pode? eles só tinham dois meses quando os abortei.
    - Ana, os fetos foram enterrados vivos. E eles captaram a energia dessas videiras e desse solo. Cresceram e estão vivos. É um raro processo de materialização. Eles são uma forma especial de vida. Estão na fronteira dos dois mundos. E nessas circunstâncias, só quem possui uma ligação direta sanguinea podem senti-los ou vê-los. Ou seja, seus pais. Você e o agricultor. Por isso as crianças veem os dois, ninguém mais. Nem eu, uma médium experiente, posso vê-los. Nem eles a mim.
    - Queria ao menos uma prova do que diz.
    - Mas não está óbvio. Não faz sentido para você?
    - Pode até fazer, mas não me convence.
    - Pois vou lhe dar uma prova definitiva. Sabe onde os fetos estão enterrados?
    - Sim. Duzentos metros depois da primeira videira. A do meio.
    - Quer ir até lá para eu lhe mostrar algo?
    - O que é?
    - Quando chegarmos lhe direi.
    - Chegamos. O que tem aqui?
    - Os seus fetos enterrados.
    - E daí?
    - Desenterre-os. Eles estão protegidos num vaso de vidro com álcool. Terá uma surpresa quando vê-los. Não arranque a videira. Vai matá-los.
    - Minha nossa, o vidro está quebrado e não há nada aqui. Onde estão meus filhos?
    - Eles não estão mais nos recipientes. Quando os enterraram, seus espíritos capitaram a energia da terra e da videira, que os alimentava. Os fetos cresceram numa forma material diferente. Uma espécie de corpo espiritualizado. Olhe a videira. As uvas carregam a semelhança de rostos. E ela não tem a vitalidade como as demais. Ela passou todos esses anos alimentando as crianças. Está quase perecendo. Quando ela morrer, as crianças terão de voltar ao mundo espiritual para reencarnarem, talvez aqui, ou em outro lugar, ou mesmo em outro planeta. Não sabemos. Um dia, elas irão embora para sempre. E nunca mais as verá.
    - Agora eu acredito. São meus filhinhos de verdade. E a garota é minha cara.
    - E o que eu faço, feiticeira?
    - Não sou feiticeira, Ana. Sou médium.
    - Desculpe.
    - Cuide dessas crianças até o destino as levarem. E se case com o pai delas. Você ainda gosta dele, não é?
    - Sim, mas meu pai jamais admitiria eu me casar com um agricultor.
    - Converse com ele que tudo estará resolvido. Eu vejo um futuro glorioso para vocês.
       A médium me deu  esperança. Se havia algo de racional acontecendo, então eu não estava louca. Saí satisfeita com as explicações e sugestões dela.
       Enquanto a médium saía da fazenda, o patriarca a interpelou:.
    -Venha cá, Bruxa de quinta, charlatã.
    - O que quer, seu Jeca de terceira?
    - Fez o trabalho direitinho com minha filha?
    - Fiz de acordo com o combinado..
    - Então pegue o seu dinheiro.
    - Obrigado, seu brutamontes. Soque seu dinheiro onde bem entender. Não preciso dele. Vá pro inferno, seu hipócrita.
       Amanheceu na fazenda. Os galos dão seu ar da graça.
    -Bom dia, Ana. Conseguiu dormir?
    - Não. Passei a noite pensando em como vou fazer o quarto das crianças?
    - O quarto das crianças? pergunta Carlinhos, espantado.
    - Sim, não sabia que as crianças que me acompanham são meus filhos? os que eu abortei por imposição de meu pai?
    - Carlos se levanta às gargalhadas, e vai para o quarto. A mãe o segue.
    - Carlinhos, o que combinamos?
    - Mãe, juro que não se repetirá. Mas não me contive. É hilário, no mínimo. Por isso saí.
    - Espero que isso não se repita.
       A mãe volta ao lanche matinal.
    - Tenho algo a dizer a todos: vou morar aqui com o Joel. O pai dos meus filhos
    - Por mim tudo bem, minha filha. O problema é seu pai. Ele quem manda.
    - Por mim, pode se casar até com um jumento e dizer que é seu marido. Já passou dos trinta. Depois dessa idade, para uma mulher que não é mais virgem, qualquer coisa serve, até o Joel.
    - Obrigada pelo incentivo, papai.
    - Hoje mesmo arrumo os quartos das crianças. Já chamei os decoradores, disse a mãe de Ana.
       Joel veio morar na casa comigo. Senti um alívio. As gozações na família cessaram. Durante os seis meses posteriores, as aparições das crianças se tornaram mais raras. E a cada dia, elas apareciam menos. Eu engravidei novamente. E dessa vez não abortei. As crianças sumiram. Não as vi mais. Voltei a dormir normalmente. O relacionamento com Joel durou pouco: dois anos.  Nós nos separamos amigavelmente. Conheci outro rapaz. Casei-me de verdade, na Igreja, como os meus pais desejavam. Enfim, depois de anos, voltei a ter uma vida tranquila e normal. Tomando café e fumando marijuana todas as noites.

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222