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Apátridas

Zími estava na sala do apartamento ouvindo o disco "Surf's up", dos Beach Boys.
Ele comentou com Mila Cox:
"Esse é ainda melhor que o Pet Sounds!".
Era uma quarta-feira e a notícia da morte de Brian Wilson tinha sido dada naquele dia.
 Na véspera, havia sido anunciada a morte de Sly Stone.
As duas perdas foram muito tristes para Zími. 
Ele bebia Wild Turkey, que comprou com um dinheiro que deveria ser gasto num bazar, onde compraria tênis e roupas.
Cox apenas observava, e ele falou:
"Hoje é um dia extraordinário. Eles fizeram parte da minha formação musical."
Ela respondeu      :
"Suas camisetas são legais,mas estão desintegrando. Comprar outras em melhor estado não é algo que vá prejudicar sua integridade punk."
Zími bebia numa xícara que tinha a cara do Dave Davies. e falava:
"Sly Stone e Brian Wilson são bem contemporâneos, morreram quase na mesma data, e com a mesma idade. Há décadas atrás, ninguém sonhava que eles passariam dos oitenta anos. A ascensão de Stone coincidiu com a queda do sucesso comercial de Wilson com os Beach Boys.Essa queda de relevância no cenário musical norte-americano da segunda metade dos anos sessenta veio mesmo com os discos maravilhosos que os Beach Boys lançaram  de 1967 até 1973, Esse que estou ouvindo é de 1971, e ninguém mais nos Estados Unidos queria saber de Beach Boys. Aliás, esse período de 67 até 73 foi exatamente quando a banda Sly and the Family Stone viveu seu apogeu artístico, Lançaram seus melhores discos, antes da banda se desfazer e Sly cair em longo período de ostracismo.Ambos tiveram vidas atribuladas, carreira musical brilhante, discos clássicos, usaram muitas drogas. Depois da fama, não seguiram um caminho seguro para manterem seus legados. Agora eu me pergunto de novo sobre o quanto as turbulências na vida são importantes para a criação artística relevante.Eu mesmo tive e ainda tenho muitas, mas agora eu vinha de um fim de semana feliz."
O fim de semana foi feliz porque, poucos dias antes, numa sexta-feira, o primeiro dia de Junho, foi o aniversário de Mila Cox, parceira musical de Zími na banda Crop Circles.
A banda é formada apenas por Zími na bateria e vocais, e Cox no baixo, vocal e no sintetizador, que supria a ausência de um guitarrista.
O som é uma mistura de industrial, hard, core, indie rock, punk e psicodelia dos anos sessenta.
Quando Zími mencionou o fim de semana feliz, referia-se à sexta-feira anterior àquele dia do anúncio da morte de seus ídolos musicais.
Na tarde daquela sexta, Zími saiu.
Voltou à noite ao apartamento que dividia com Mila Cox, e estava acompanhado de Kêta.
Kêta é atualmente a baixista da banda Juízo de Gosto , e seus membros moram em São Caetano, onde ela também passou a viver, agora num apartamento pequeno.
Antes disso, passou a vida morando na casa da mãe e da avó.
O bairro em que vivia é a Penha.
A casa de Kêta era vizinha daquela que Mila Cox morava, antes dela dividir apartamento com Zíni, no bairro da Liberdade.
Cox também morava com a mãe e com a avó, e tinha um ano a menos que Kêta.
Agora, o dia do aniversário de Mila Cox, é também a véspera do dia em que as bandas em que elas tocam se apresentariam na festa junina de uma igreja no Tucuruvi.
Além da banda Juízo de Gosto, de Kêta, o evento reuniu mais três bandas.
Entre elas os Crop Circles, banda formada por Zími e Cox, e também o guitarrista uruguaio Silvano, que era vizinho de porta de Zími e Cox.
Eles consideravam que algumas festas juninas  são perfeitas para tocar rock, porque conseguem reunir um público variado em termos de idade e gosto musical. 
Mila Cox sempre reclamou de ter perdido shows que queria ter assistido quando ainda era menor de idade.
Agora ela tem vinte e dois anos, mas ainda hoje há quem, ao vê-la sem conhecer, peça documento de identidade para comprovar sua maioridade.
Zími foi baterista de outras duas bandas, e largou de tocar por dezoito anos, até que voltasse tocando com Mila Cox.
No período em que tocava anteriormente, ele sempre reclamou de uma cena musical que no geral ainda era muito masculina, e que havia brigas em todos os shows, que não eram muitos.
Ambos sempre se queixaram  de ingressos com preços inacessíveis.
Então quando terminou a pandemia e os Crop Circles puderam voltar a tocar ao vivo, os meses de Junho dos anos seguintes se mostraram  um período muito bom para se apresentarem.
Zími saiu na tarde daquela sexta para encontrar Kêta na estação Liberdade e levá-la para o apartamento.
Além de ser aniversário de Cox, Kêta estava lá porque ela queria ir ao show do dia seguinte na Kombi de Silvano.
Desde que se conheceram, Silvano sempre levava Zími e Mila Cox para os shows na sua Kombi, que usa para fazer carretos durante a semana, para pagar as contas.
Quando Zími estava saindo naquela tarde de sexta, Mila Cox comentou  sobre o entusiasmo com que ele partiu para essa missão.
Ela falou: "Se você tivesse esse entusiasmo pra diminuir o consumo de álcool, seria legal."
Quando voltou, Zími deixou que Mila Cox e Kêta se cumprimentassem e conversassem.
Pouco depois, ele deu de presente a Cox uma camiseta com a seguinte frase: "Não pode ser vendida separadamente". 
Ao entregar o presente, ele falou:
"Isso é pra não tentarem te convencer a sair em carreira solo."
Então ela respondeu:
"Feliz ou infelizmente, não temos um contrato. Mas eu manteria o nome da banda mesmo tocando sozinha. Você pode ser substituído por uma bateria eletrônica."
Já fazia tempo que ela não falava que caso Zími morresse ou saísse da banda por bebedeiras, falta de interesse ou motivos de saúde, ela colocaria uma bateria eletrônica para substituí-lo e continuaria com o nome da banda, mesmo tocando sozinha.
Ela gosta quando saem para tocar e alguém fala que o nome da banda é legal.
Gosta principalmente quando lhe dizem que o som da banda não pode ser definido com exatidão.
Às vezes parece industrial, às vezes indie rock, às vezes psicodélico.
Kèta, que estava com o cabelo ainda mais vermelho dessa vez, ouvia e olhava sem dizer nada.
Ela sabia que uma diferença entre os dois é que Zími perderia completamente o interesse em ter uma banda sem que Mila Cox estivesse por perto.
Juntos, eles eram a banda Crop Circles, e isso agradava a ambos.
Enquanto isso, Silvano estava na sala concentrado num violão de aço que havia comprado dias antes.
Tocava frases aleatórias e pretendia estreá-lo no dia seguinte.
O Papa deles era Ian MacKaye.
Não votam e não tem políticos de estimação.
Zími às vezes pegava o teclado de Mila Cox e criava, geralmente bêbado, versões antológicas do cancioneiro alternativo. 
Ele bebia e começava a falar, e depois de um monólogo ácido contra alguém ou algo, um estalo em sua mente o fazia lembrar de alguma música que representasse seu  sentimento naquele instante.
Eles já gravaram covers de músicas obscuras feitas por artistas também obscuros, mas faziam muitas mudanças no andamento e nos arranjos.
Conseguiram fazer com que fossem muito além de meras cópias.
Mas geralmente, davam prioridade a músicas próprias.
Em algumas dessas sessões aleatórias de Zími, surgiram idéias para gravações.
Zími era muito mais velho que Mila Cox, então era plenamente compreensível que seu repertório fosse maior.
Eles podiam viver juntos, porque quando Zími defendia uma ideia antagônica a algo defendido por ela, nunca argumentava em tom opressor ou professoral.
Ele sabe que poderia seguir na música sem ela se quisesse.
Ela sabia ainda mais, porque ainda era criança quando conheceu um Zími já bem adulto..
Zími havia sido colega de faculdade de Sara Cox, tia de Mila.
Estudaram jornalismo, e depois seguiram caminhos diferentes.
Na época da faculdade, andavam juntos porque eram insubmissos, e por isso eram considerados também subversivos.
Zími nunca atuou efetivamente na área do jornalismo, e saiu por insubordinação dos poucos empregos formais que teve na vida.
Ele sempre falou que Sara Cox é a pessoa mais cool que conheceu na vida.
Sara foi a mentora intelectual e cultural de Mila Cox, e até certo ponto, era uma pessoa ausente, que sumia por tempo indeterminado, sem dar qualquer notícia.
Então Mila Cox terminou o ensino médio, e ao invés de entrar na faculdade, montou a banda com Zími.
Sara ama os Crop Circles, mas a sobrinha não ter até então entrado numa faculdade, não era seu conselho.
Ela dizia para Mila que considerava que o diploma, mesmo hoje em dia, serviria para reduzir a pressão por parte da sociedade. 
 Para Sara, era importante se livrar dessa pressão que agia em todos os meios em que a sobrinha se envolvesse..
Não tinha nada a ver com status ou simplesmente conseguir empregos melhores.
Mas o período em que Mila Cox concluiu o ensino médio era de pandemia, e ela desprezava a ideia de fazer faculdade pela internet.
Na verdade ela fez algo semelhante.
Dedicou-se a pesquisas, principalmente musicais,mas sem buscar um diploma.
Sua tia escreveu recentemente um livro sobre a experiência de não ter filhos.
Sara Cox considera que há pouca literatura sobre esse assunto, ao contrário da vasta oferta literária sobre a criação de filhos.
Ela dizia para Mila que chegou a sofrer essa pressão pela maternidade, e que, possivelmente isso aconteceria com a sobrinha também, em algum momento.
Mas Mila Cox também não cogitava essa hipótese.
Já teria muito trabalho para cuidar de si mesma.
Ela nem mesmo falava muito sobre o tema, tamanha era sua convicção sobre o que esperava da vida.
Mila Cox sempre teve um sentimento estranho pela ideia de ter sido concebida e ter nascido.
Tinha ainda um completo desprezo pela velha ideia de que as mulheres têm que ter filhos para que tenham uma vida plena.
Zími compartilhava essas ideias.
Quando eles começaram a tocar juntos, sob o nome de Crop Circles, tinham apenas seis músicas autorais.
 Fizeram seus quatro primeiros shows, sem sair de São Paulo.
Foram shows modestos, em lugares e condições improvisadas.
Zími,morava na Bela Vista e Mila Cox ,morava na Penha.
Nem sonhavam em conhecer Silvano e irem aos shows de Kombi.
Foi então que a pandemia se consolidou.
Zími já havia tocado em algumas bandas, mas era a primeira vez para Mila Cox.
Aquele período de isolamento iniciado quando ela tinha dezoito anos, a marcou.
 Mas não tão amargamente, pois havia muito a ser feito em casa.
Zími era bem mais velho, quarenta e oito anos, e não estava perdendo a juventude com aquilo.
 Não teve nem mesmo seu cotidiano afetado pela pandemia.
Aquele período foi importante para que ele aceitasse melhor a ideia de fazer shows, quando a situação se normalizasse.
Era algo muito trabalhoso e a recompensa só vinha quando a missão estava cumprida.
Zími e Mila Cox estabeleceram a regra que obrigava qualquer um dos dois a avisar previamente quando fossem levar alguém para transar no apartamento.
Isso possibilitava ao outro pensar no que iria fazer durante aquele tempo.
Muitas vezes o que decidiam é que iam ficar ali mesmo, separados da cena apenas por uma porta trancada.
Para Mila Cox, as apresentações ao vivo eram quase uma obsessão.
Antes de mudar da Penha para a Liberdade, quando ela ainda vivia com sua mãe e sua avó, no auge daquele período agudo da crise, as duas eram o retrato do medo e da desolação coletiva.
Mas foi nesse período que Cox passou a trabalhar como copywriter para sustentar seus projetos mais imediatos.
Enquanto isso, Zími estava perdendo a guerra para os percevejos e bebendo água da torneira, numa pensão no bairro da Bela Vista.
Trabalhava ajudando seus amigos feirantes a montarem barracas nas feiras livres do bairro, três vezes por semana.
Comia em bocas de rango no centro da cidade para economizar com comida.
Sob influência de sua parceira musical, ele, que já tinha um computador, logo passou a trabalhar como copywriter também.
De uma certa maneira, foi a primeira vez que seu diploma de jornalista serviu para alguma coisa.
Zími não tinha amigos jornalistas.
Depois que saiu da faculdade, nunca mais conversou com seus ex-colegas, pois os considerava vazios.
Mas conseguiu juntar dinheiro suficiente, e então os dois viabilizaram a mudança para o apartamento da Rua da Glória.
A banda não dava lucro e nem prejuízo financeiro, mas foi responsável direta pela ideia deles dividirem aquele apartamento.
Isso foi uma grande prosperidade para os dois.
Socialmente, a banda abria um leque para eles.
Isso era bom para Nila Cox, que parecia estar se recuperando do isolamento que teve logo no começo da vida adulta.
Agora, no dia em que Brian Wilson faleceu, uma quarta-feira, eles não tinham show marcado para o fim de semana seguinte.
Isso deixava Zími mais sossegado.
Outro motivo pelo qual ele dizia estar vindo de um fim de semana feliz, era o fato de que no dia do evento não choveu, e eles estavam com o aluguel pago,  livres de qualquer ódio, raiva ou rancor.
Naquele dia tocaram à tarde, algo que gostavam de fazer, mas raramente acontecia.
Zími e Kêta transaram na Kombi depois do último show, que foi o da banda de Kêta.
Mila Cox andava pela festa junina, e as pessoas que não a conheciam antes do show, amaram-na tanto que quase não a deixavam em paz.
Ela não precisava pagar por nada nas barraquinhas de comida e bebida.
Quando ela andava, o jeito como a ponta de seu cachecol batia em seus joelhos foi o tipo de cena que ensinou a algumas pessoas ali como ser cool espontaneamente.
Ela via a alegria apressada das pessoas, que enfrentavam uma escala de trabalho assassina, e precisavam extravasar tudo ali, para voltarem na segunda-feira ao moedor de carne que o sistema representa.
Mila Cox e Zími haviam tocado músicas nada palatáveis sonoramente.
 Falavam sobre quanto o sistema é imundo, sabendo que todas as aberrações e desigualdades na sociedade não são falhas desse sistema.
Elas representam o seu pleno funcionamento.
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Atualizado em: Dom 6 Jul 2025

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