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LEMBRANÇAS QUE NÃO SE APAGAM
Há noites na vida que a gente se deita para dormir e vira para um lado, vira para o outro e o sono não vem. Então começamos a pensar na vida. Vêm pensamentos bons, vêm pensamentos desagradáveis, vêm recordações da infância, tanta coisa...
Nesta última noite, de 18 para 19 de setembro, perdi o sono. Deitei-me por volta das 22 horas e nada de conseguir dormir. Pensei em tanta coisa. Até que, sem perceber, acordei-me à meia noite e 40 minutos. Então, de novo, outra luta para conseguir dormir. E aí começaram a vir as recordações. Cheguei a Belo Horizonte com minha família, em outubro de 1954. Já tinha completado cinco anos de idade. Vieram, pois, nessas horas da madrugada, à minha mente, alguns fatos que, não vou dizer que me lembro, porque era ainda muito criança. Imagino que sejam mais ou menos da forma a seguir relatada.
Primeiramente fico imaginando: meu pai, no ano de 1954 estava com quarenta e um anos de idade e minha mãe com trinta e oito. Decidiram vender tudo na roça, em Rio Espera, Minas Gerais. Residíamos em um lugarejo chamado Piteira em uma casinha boa, simples, mas as dificuldades eram imensas. Tínhamos que plantar para comer. Família composta de oito pessoas. Seis filhos, papai e mamãe. Com grande coragem compraram um lote, no bairro Dom Bosco, em Belo Horizonte, Minas Gerais. Um lugar ainda muito atrasado. Resolveram que deveriam dar novo rumo à vida. No local adquirido não havia luz
elétrica. Saneamento básico, nem pensar. Um córrego na porta. Papai contratou um pedreiro e construiu uma casinha de três cômodos. Com esperança de dias melhores, vieram para a capital tentar uma vida nova, certos de que poderiam construir um futuro mais próspero para a família.
Durante a longa noite, meu cérebro funcionava a todo vapor. Primeiramente fiquei pensando no dia da despedida, da terra natal que ficaria para trás. Aconteceu, certamente, que em um determinado momento, estivemos na casa de meus avós maternos, Padrinho Aprígio e Madrinha Loló, a fim de abraçá-los e, com certeza, chorar em seus ombros. Assim também, na casa do Padrinho Pereira e da Dindinha, nossos avós paternos a fim de fazer a mesma coisa. E depois, o caminhão de mudança... Com certeza com um monte de coisinhas, saindo da casa da Piteira, dando o último adeus, com os olhos cheios de lágrimas, onde moramos por algum tempo, que seriam descarregadas na porta da nova casinha, em Belo Horizonte. Acho que a nossa rua nem nome tinha ainda. Depois passou a se chamar “Almenara”. A viagem de Rio Espera a Belo Horizonte, na época, demorava em torno de sete horas ou mais. Nem asfalto por completo havia. Na boleia do caminhão deveriam estar:
motorista, é óbvio; a mamãe; minha irmã, Aparecida; este que escreve o texto; o Marinho; o Geraldo. O Antônio, ficara para trás, a fim de terminar os estudos. O Zezé, José Fidêncio, havia um ano, mais ou menos, tinha vindo para a casa do tio Bernardino, no bairro Concórdia, a fim de trabalhar no bar. Certamente o Geraldo e o Papai deviam ter se acomodado na carroceria do caminhão já que não cabia tanta gente na boleia do caminhão. Imagine, caro leitor, a falta de conforto.
Agora, que tenho lucidez, fico refletindo, como as coisas ocorreram. Um filme começou a passar em minha cabeça. Na minha cama, fiquei estagnado como se estivesse com os olhos fixos em uma tela de cinema assistindo àqueles acontecimentos de minha vida. Meus olhos ficaram cheios de lágrimas. Quanta saudade... Quanta emoção... Meu coração transbordou-se de amor por minha família, principalmente por meus pais que hoje não estão mais aqui. Meu irmão mais velho já partiu para a eternidade, faz pouco tempo, por que não dizer, poucos dias. Tudo nesta noite foi surgindo diante de meus cérebro: minha mãe lavando roupas... fazendo a refeição, na cozinha... às vezes, costurando... muitas vezes rezando com o terço nas mãos... meu pai saindo para o trabalho... minha casinha da rua Almenara... o córrego, em frente à minha casa... os poucos vizinhos, muitos dos quais já faleceram. O progresso que pouco a pouco foi chegando... As conquistas que, com sacrifício e sabedoria de meus pais, foram alcançadas... O filme de minha vida passava... passava... Lembrava-me também dos momentos alegres, dos momentos difíceis, das lágrimas derramadas... das despedidas dolorosas dos entes queridos que, pouco a pouco, tinham ido embora...
De repente abri os olhos. Fui acordado pelo badalar do relógio. Um lindo exemplar que herdei de meus pais. Saí um dia para comprá-lo com minha mãe. Ela o escolheu com todo cuidado. Hoje está na parede da copa de minha casa. Às 6 horas da manhã ele toca, melancolicamente, seis vezes, avisando que o dia está se rompendo. Não dormi mais. Dei um jeito de me levantar, tomar um café mais reforçado. Hoje às 12 horas e 50 minutos devo ir à clínica de olhos a fim de ser submetido a mais uma injeção intravítrea, combatendo a degeneração macular de meu olho esquerdo, mal que me acomete, já faz uns cinco anos. Não posso me descuidar.
Obrigado, caro leitor, pela paciência em ler, mais uma vez, um pouco de minha história, e ter chegado até aqui.
LUIZ GONZAGA PEREIRA DE SOUZA
