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O ESPELHO E BENJAMIM

No dia 03 de novembro último, Benjamin, 76 anos, foi a uma clínica, em Belo Horizonte, Minas Gerais, a fim de fazer um exame tomográfico do abdômen. Depois de tomar quatro copos d´água para encher a bexiga, a pedido da enfermeira, preparando-se dessa forma para o procedimento, vestiu uma bermuda azul, e ficou sentado em uma salinha, bem defronte a um espelho. Durante uns vinte minutos. Não é que ele descobriu que não se conhecia... Verdade. Não se conhecia. Ficou se olhando... se olhando... e não podia negar. Uma tristeza grande tomou conta dele. Sabe por que, caro leitor? É que não sabia que o tempo o havia corroído tanto. Isso mesmo. O espelho não mente e, apesar de, rotineiramente, eles dois tenham o costume de se encontrarem, frente a frente, nesse dia, o ordinário do refletor o aborreceu profundamente. Não sabia que estava tão judiado pelo tempo. Percebeu que seu rosto estava cheio de rugas e seus olhos carregados de profunda tristeza. Considerava-se tão feio... Meu Deus!

Em 2025, Benjamin passou e ainda tem passado por algumas dificuldades. Na saúde do corpo e da alma. Se é assim que se pode dizer. No princípio do ano alguns cálculos renais lhe tiraram a graça. Passou por infecção urinária, andou e ainda anda tomando medicamentos fortes para cefaleia que lhe tiram o apetite, fazendo-lhe emagrecer uns bons quilos. Perdeu seu irmão mais velho, em 19 de julho último. Sua sogra, de quem gostava tanto, também faleceu. Por outros dissabores tem nosso personagem passado. Mas, caro leitor, prefiro poupá-los de informá-lo de vários outros problemas de Benjamim.

Quando escrevo um texto, meu desejo, é claro, é que as pessoas leiam. Que o conteúdo possa ser agradável e traga uma mensagem boa. Mas, infelizmente, não é sempre assim que ocorre. Quando isso menciono, lembro-me de Machado de Assis, um escritor de grande alcance, de uma inteligência extraordinária que conseguiu cativar tantas pessoas. Ele era um homem melancólico. Suas obras têm muito de pessimismo. Olhe bem, ele era, pois, uma pessoa triste, de personalidade conhecida como sendo reclusa e reservada. Embora ele fosse descrito como um pessimista e cético em sua visão de mundo - o que transparece em suas obras -seus amigos e biógrafos também o descreviam como alguém carinhoso e, no fundo, cheia de meiguice. E mais, ele era bastante avesso à vida social. Com a morte da esposa, isolou-se ainda mais e entrou em profunda depressão. Escreveu para o amigo Joaquim Nabuco, certa vez: “Foi-se a melhor parte da minha vida, e aqui estou só no mundo”.

Pois bem. Voltando à salinha da clínica, Benjamim não negava que, naquele dia, após terminar o exame, tenha ficado triste. E ainda estava. Não podia negar que a velhice já batera à sua porta e se arranchara. Sim. O tempo é cruel e deixa suas marcas: as rugas, os cabelos brancos, a perda da elasticidade da pele, além de mudanças internas como o declínio na função celular e na comunicação entre as células. Outros sinais notáveis são a perda de gordura facial, o ressecamento da pele e o surgimento de manchas. É a realidade. Infelizmente. Vagarosamente, andando pela avenida Francisco Sales, passando pela praça Hugo Werneck, em direção ao ponto de ônibus, foi refletindo sobre a finitude da vida. Imaginando tanta coisa... Por que não aproveitei mais quando estava mais jovem? Agora estava se considerando tão abatido... tão deprimido... tão para baixo. Pensou até mesmo em morrer.

Consciente da realidade dos fatos, de que seu corpo já passara pelo desgaste natural do tempo, não lhe restava uma alternativa a não ser aceitar. Vou me esforçar para não ficar pensando nisso. Assim resolveu. Usarei menos o espelho, pois já concluí que ele é verdadeiro e franco demais. Sua franqueza não tem me agradado. E mais, já vivi um bom pedaço de minha vida. Agora não adianta ficar reclamando. Quando eu for para o outro lado, somente peço que a terra me seja leve, assim finalizou, reflexivo, o ancião Benjamim.

LUIZ GONZAGA PEREIRA DE SOUZA

 

 
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Atualizado em: Sex 7 Nov 2025

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