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UM DIA DIFERENTE DOS OUTROS
Ferdinando era um homem simples e trabalhador. Morava em uma cidade do interior do Mato Grosso. A maior parte de seu tempo era dedicada ao trabalho da lavoura. A casa, confortável e ampla, ficava a seis quilômetros do centro de sua pequena cidade. O que se produzia em suas terras não era tanto para que pudesse vender ou exportar. Mas somente para o gasto da família e, por que não dizer, para ajudar os mais pobres de sua vizinhança. Plantava milho, feijão, arroz, batatas doce e inglesa. Tinha também um pomar no qual havia goiabeiras, pereiras, figueiras, bananeiras, cajueiros etc. etc. Claro que, para dar conta dos serviços exigidos, contava com alguns empregados. Contratava-os e lhes pagava um salário justo.
Era Ferdinando casado com Gabriela. Conheceu a esposa em uma cidade vizinha. Filha de um rico fazendeiro da região. Tinham os dois três filhos. Amavam-nos profundamente : Benício, de 12 anos, Matheus, 10 anos, e Laura, a caçula e princesinha da casa, com 4 anos.
A família de Ferdinando e Gabriela gozava de prestígio na cidade. Pessoas do bem, iam à missa todos os domingos, participavam da Pastoral Carcerária, mantida pela Paróquia de Nossa Senhora do Carmo. Mensalmente, Gabriela, Ferdinando e outros casais, também devotos na mesma igreja, visitavam e levavam palavras de carinho e conforto para encarcerados do presídio da cidade. Não eram muitos, talvez em torno de vinte detentos. Levavam também alguns alimentos e materiais de higiene pessoal para os cativos. Gabriela fritava pastéis, fazia pequenos sanduíches de carne bovina ou mesmo suína, suco natural. Montava pequenos kits para distribuir àqueles seres humanos que, por força do destino ou pela fraqueza do caráter, cometeram crimes e estavam naquele lugar para cumprir a pena que lhes fora imposta pela Justiça.
Trechos do evangelho eram lidos e debatidos junto aos presos. Rezavam com eles, buscando fortalecimento da fé. O trabalho realizado pela Pastoral Carcerária da paróquia, da qual participavam Ferdinando, Gabriela e outras pessoas, era respeitado e elogiado por muitos habitantes da cidade. No entanto, havia pessoas do município que não concordavam com a prática realizada. Achavam que os presos mereciam o castigo e deviam pagar de forma cruel pelo que fizeram. Nada de fazer agrado aos presos. Assim pensava uma parte da população do lugar. Mas este não era o pensamento do grupo de acolhimento do qual participavam Ferdinando e Gabriela.
Pois bem. Nos parágrafos anteriores passei para você, meu leitor, uma introdução da história que vou relatar a seguir e que, certamente, servirá de reflexão para aqueles que compreenderem a mensagem.
Era uma bela manhã de domingo de primavera. O dia estava bonito e nuvens espessas cobriam grande parte do azul celeste. Certamente, mais tarde, como acontece nesse período do ano, uma chuva copiosa cairia, trazendo alegria para a natureza. Foi exatamente nesse dia lindo que os participantes da Pastoral Carcerária da Paróquia de Nossa Senhora do Carmo, três casais, tiveram que passar por uma situação desafiadora.
Chegaram ao presídio em torno das quatorze horas. Os funcionários da cadeia receberam com tranquilidade o grupo. Como já o conheciam, fazia tempo, não conferiam os materiais levados por ele. Os presos eram liberados de suas celas e levados para um pátio descoberto, onde havia mesas e cadeiras. Muitos deles contavam suas histórias, esclarecendo o motivo de sua penalidade. Alguns choravam, outros mais conformados e já acostumados àquela vida, davam risadas e até contavam piadas. Recebiam os donativos, demonstrando gratidão. Havia aqueles que nunca recebiam visitas por familiares ou amigos, uma vez que haviam cometido crimes que desagradaram profundamente suas famílias, a ponto de receberem, além do castigo da prisão, o desprezo. Era muito duro para eles terem que sujeitar à prisão e ao descaso de seus entes queridos e amigos.
Funcionários do presídio, em cada canto do pátio, a fim de garantir a ordem e disciplina, ficavam observando aquele ambiente. Vozes humanas produziam ruídos. Quantas histórias eram contadas... Os membros da pastoral, pacientemente, ouviam e sempre procuravam transmitir uma mensagem de conforto e carinho. Escórias da sociedade, ou seja, grupos considerados desprezíveis, marginais e indesejáveis ocupavam aquele lugar. Era um ambiente de tristeza e de revolta para muitos. Tristeza para quem estava de fora e viam seus parentes encurralados como se fossem animais. Revolta para quem tinha que pagar pelos pecados graves que cometeram e não tinham como escapar.
Continuando, pois, a narrativa, eis que, liderados por dois presos muito revoltados, Pablo e Jerônimo, um grande tumulto se instalou naquele drástico domingo de sol. Apesar do controle acirrado dos carcereiros, os dois condenados conseguiram, aproveitando-se de um segundo de distração, apoderar das armas de dois funcionários. A intenção deles era clara: conseguir a liberdade. Com as armas em punho, conseguiram instalar um clima de terror no pátio do presídio. Por infelicidade, Gabriela e Ferdinando foram dominados pelo pescoço e ameaçados de morte caso não fosse atendida a reivindicação, ou seja, colocados em liberdade.
Havia quatro guardas naquele dia. Era um número suficiente para manter a ordem, caso houvesse qualquer tumulto. No entanto, naquele dia a situação saiu de controle com a ocorrência.
Os quatro guardas do presídio nada puderam fazer frente àquele momento de desespero e confusão. Ou liberariam os dois homens, ou algo muito grave poderia acontecer. Quem sabe, até mesmo a morte de pessoas naquele lugar. Francelino, um dos guardas, pediu silêncio a todos e se propôs conversar calmamente com os dois malfeitores. Pediu a eles que nada fizessem com qualquer um dos componentes do grupo da Pastoral Carcerária, dizendo-lhes que o trabalho daquela equipe era de misericórdia e puro amor para com eles. Não era justo que eles passassem por aquele momento de aflição. Pediu calma a todos. Porém os dois homens não estavam dispostos a controlar a situação, tampouco se renderem.
O relógio não parava. Mais de uma hora já havia se passado e, apesar de todo esforço, a situação não se resolvia. Até que, talvez pela Providência Divina, o céu tornou-se profundamente escuro e uma forte tempestade trouxe um enorme transtorno para o plano dos dois delinquentes. Não conseguiram manter seus dois aprisionados em seu poder. A chuva forte e torrencial permitiu, pois, que a situação fosse controlada. Um dos carcereiros, Estanislau, em um gesto de bravura, conseguiu, através de um golpe de mestre, dominar um dos malfeitores. O outro, sentindo-se sozinho, e dada a força das águas da chuva, acabou por desistir do plano e se entregou.
Foi um dia muito difícil para os demais presos e para o grupo da Pastoral. Jamais imaginavam que tivessem que enfrentar aquela situação. O trabalho deles sempre foi voltado para o apoio e cuidado para com aqueles infelizes e desafortunados. Não seria justo que acontecesse uma tragédia, podendo até mesmo ser ceifada a vida de qualquer um que estivesse ali, naquele momento de enorme susto e medo.
Transcorrida toda aquela situação, os membros da Pastoral da paróquia Nossa Senhora do Carmo levaram ao conhecimento do pároco, padre Zezinho, a situação vivenciada naquela tarde de domingo de primavera. Ouvindo atentamente as palavras daquele grupo de pastoral, padre Zezinho, muito emocionado, atribuiu à Providência Divina o sucesso daquela investida. Deus, tendo enviado o forte temporal, permitiu que uma desgraça não acontecesse.
Ferdinando e Gabriela, dois personagens desta história, não desistiram das atividades pastorais. Juntamente com outros casais, mensalmente, aos domingos, por muitos anos, continuavam a dedicar-se ao trabalho de confraternização, levando mensagens de paz e amor para aquela gente que, condenada pela Justiça, ali permanecia para pagar por seus crimes.
LUIZ GONZAGA PEREIRA DE SOUZA
Atualizado em: Sáb 3 Jan 2026
