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O Tempo Não Volta, Mas Recomeços São Possíveis
Ela abriu seu e-mail e se deparou com uma mensagem surpreendente. Era dele. Antes de ler e ela viajou no tempo. Quanto tempo! Quando se conheceram nem sonhavam que um dia existiria a possibilidade se se comunicaram por um e-mail. Nem imaginavam que diante de uma tela poderiam se falar, olho no olho, mesmo estando distantes.
Ela era uma adolescente de quinze anos num exuberante corpo de mulher e um sorriso tímido, mocinha recatada do interior das Minas Gerais. Estava estudando o primeiro grau e pensando se faria o científico ou o magistério. Ele já era um advogado. Da porta do seu escritório a via passar sonhando um dia tê-la ao seu lado. Ela, acanhada, se sentia desconcertada com seu olhar de cobiça.
Ela sonhava um dia encontrar um príncipe encantado e ele não se amoldava ao tipo físico que lhe enchia os olhos. Seu rosto era muito bonito, mas não tinha um belo físico, era muito baixo, muito magro, sem atrativos. Por que ficava tão encantada e por assim dizer, apaixonada por ele? Além do mais achava, que do alto dos seus vinte e sete anos, era muito velho pra ela. Sentia-se atraída por homens mais velhos, mas nem tanto.
Apesar disso, sentia-se envaidecida por seus olhares e terrivelmente atraída por ele. Mas, definitivamente não era o que queria para sua vida. Queria estudar, cursar uma universidade, conhecer pessoas interessantes, trabalhar e ser uma mulher independente. Este sim era seu grande sonho. Dentro de si havia um conflito. Não podia negar, estava apaixonada por ele. Mas será que uma garota de quinze anos sabe o que é o amor? Talvez fosse apenas ilusão, encantamento por seu olhar e por sua paixão por ela.
Ele não desistia. Marcava de perto, fazia serenata, mandava recado, mandava flores, bombons, a cercava de todas as maneiras. E naquele baile ele a tirou pra dançar. Tremendo de emoção ela o acompanhou. Quando ele a tocou ela estremeceu. Dançaram e ela sentia que flutuava pelo salão. Seus corpos colados, ela sentindo seu calor, sua pele, seu desejo. Fechou os olhos e viajou. Seu corpo latejava, seu coração disparado. No final do baile ele a acompanhou e roubou um beijo. O primeiro beijo dela. Sem jeito e tímida, ela se sentiu ridícula, mas ele demonstrava amor e desejo.
Encontraram-se outras vezes. Ele era um homem inteligente, culto, experiente, já estava estabilizado na profissão, queria um compromisso sério. Ela ainda queria percorrer todo aquele caminho. Queria estudar, ter sua profissão, ter sucesso. Não queria viver à sombra de um homem. Teve medo. Estava envolvida e não queria se machucar e nem machucá-lo. E fugiu deixando o coração dele ferido. Pela primeira vez ele estava apaixonado e queria que ela fizesse parte de sua vida. E ela disse não.
Por algum tempo ainda tentou, pediu, implorou que ela ficasse com ele. Por fim desistiu. Algum tempo depois recebeu um convite de trabalho e se mudou da cidade. Conheceu outra pessoa e se casou. Em uma redoma lá no fundo do coração ele a guardou. Amor inesquecível. Foi feliz, viveu sua vida, mas volta e meia lá estava ela em seu pensamento. Algumas vezes procurava saber de sua vida, até que perdeu de vez o contato.
Ela nunca mais teve notícias. Esqueceu, não pensava, não tinha curiosidade de saber o que foi feito dele. Vivia sua vida de jovem que queria se divertir, estudar e encontrar seu caminho. Estudou, foi trabalhar, teve sucesso, tornou-se independente. Namorou, casou. Era feliz, realizada profissionalmente. Tornou-se uma mulher linda, exuberante, culta, inteligente, competente, tinha suas opiniões convicções das quais não abria mão.
Estava divorciada há algum tempo. Algumas vezes, nos últimos tempos, ele voltou ao seu pensamento e tinha curiosidade de saber por onde andava, se estava bem, se era feliz. Mas nem se lembrava do seu nome todo, nem sabia como poderia ter notícias. Sonhara com ele recentemente. E agora ali estava o e-mail.
Voltou de repente como as lembranças voltam à mente sem pedir licença. Amores do passado persistem e são vivos na medida que foram vividos e se instalam lá no fundo do coração. Estava curiosa, mas receosa. Por que depois de tantos anos ele voltou? Sentiu a emoção de cartas recebidas, das ligações de surpresa, de mensagens na madrugada.
Abriu a mensagem e enquanto lia o passado retornou, veio o arrependimento de tê-lo perdido que nunca sentiu antes. E se tivesse ficado com ele. Talvez tivesse sido muito mais feliz. Era um amor tão sincero e marcante e por bobagens ela pôs a perder.
“Enfim te encontro. Lembra-se de mim? Lembra dos olhares, da primeira dança tão emocionante e tensa ao mesmo tempo? Do primeiro beijo? Dos encontros cheios de amor e emoção? Hoje sou um homem cheio de vivência, pra não dizer que a existência me tornou idoso. Vivência nos torna mais sábios. Sempre quis dizer que lá no fundo do coração, nunca te esqueci. Hoje tenho coragem porque não temo mais a rejeição. Não tenho medo de levar outro fora. Porque se isso acontecer eu vou saber superar. Só tive o cuidado de saber que você está livre como eu estou. Dança comigo? Ainda me sinto jovem pra continuar te amando. O tempo não volta, mas recomeços são possíveis. ”
Por muitos dias ela lia aquela mensagem e não sabia se teria coragem de responder. O tempo passa e tudo muda. A aparência, as idéias, as convicções. Sentia uma forte vontade de reencontrá-lo. Como estaria ele agora.? E se decepcionasse com ela? Mais de quarenta anos se passaram desde que se viram pela última vez. Será que recomeços realmente são possíveis?
Ele esperava ansioso por uma reposta. Até que semanas depois ela respondeu e encheu seu coração de alegria. Conversaram por e–mail, por telefone, pelas redes sociais. E resolveram se encontrar.
Quando os olhos deles se encontraram, uma forte emoção os envolveu. Por alguns instantes foi só silêncio. Estavam se reconhecendo. Tentando acreditar na realidade do reencontro. Entenderam que o amor entre eles nunca morreu. Estava adormecido esperando o momento exato de despertar. Ele trazia no olhar as marcas do que deixaram de ser, ela carregava o peso de ter causado a separação. Havia ternura no olhar de ambos. Ternura madura feita de cicatrizes e compreensão. Entenderam que o amor aprendeu a esperar a oportunidade certa para não se perder novamente.
Antes de qualquer palavra, um abraço. Abraço que falou muito e lhes mostrou que a química era a mesma. Enlouquecedora. Por instantes ficaram abraçados, corpos colados e suas bocas se procuraram numa saudade incontida. Como puderam viver tantos anos longe um do outro?
Só então conversaram. Não falaram do passado. Apenas o presente era importante. E sem querer perder mais um minuto do que lhes restava, terminaram na cama. Entre carícias plenas, vontade contida que explodia, se amaram pela primeira vez com volúpia e intensidade, prazer alucinante.
Saciados e abraçados, ficaram quietos com seus pensamentos. Cada um imaginava o que o outro pensava. Cada um queria que o outro ficasse pra sempre em sua vida. Entenderam que cerros amores não morrem, apenas adormecem e atravessam o tempo para provar que o fim nunca foi esquecimento, mas pausa.
Sentiram que tudo tem o tempo exato de se realizar e aquele era o momento deles. Não prometeram nada, não precisavam de promessas. Sabiam que não se separariam mais. Seguiram entre presenças intensas e ausências em que se falavam e sentiam que até as ausências eram pura presença, atitude e amor.
Atualizado em: Ter 30 Dez 2025
