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Quando Os Destinos Se Encontram
Há quem acredite que algumas almas se reconhecem antes de duas pessoas se conhecerem, que há encontros escritos muito antes do tempo físico existir. Talvez seja este o caso entre os dois. Mas eles nem sonhavam com isso quando se conheceram.
No primeiro dia que o viu, ao entrar na empresa, sentiu um arrepio estranho. Ele levantou os olhos do relatório e teve a estranha sensação de já ter vivido aquele momento. O choque foi imediato: atração e antipatia na mesma medida. Repeliam-se e buscavam-se ao mesmo tempo.
Ah! Como ele mexia com a libido dela. Másculo, lindo, ar de bom moço, olhar apaixonado, e aquele jeito de quem nada quer. Já ele, quando a via chegar em seu discreto rebolado ao andar, beleza sensual, curvas onde seus olhos derrapavam e suas mãos queriam viajar por toda a vida, perdia-se em devaneios e sentia que a qualquer momento seu desejo o levaria a puxá-la para si e beijar aquela boca provocante.
Ele era metódico, detalhista e sempre tinha um auto elogio que irritava, como se fosse o máximo e o melhor em tudo. Era vaidoso e dono de um ego esculpido em aço. As pessoas diziam que era tão perfeccionista e detalhista que quando se casasse levaria um manual para a noite de núpcias.
Ela era livre ágil e intensa. Era inteligente, competente em tudo que fazia e detestava pessoas minuciosas demais. Tinha raciocínio rápido, logo entendia o que lhe falavam. Pensava que não é preciso tanta firula para se fazer um trabalho bem feito e ia lá e fazia. O que o irritava profundamente e levava a dizer piadinhas de mau gosto. No conflito dos dois havia algo que ultrapassava a razão.
Estavam sempre batendo de frente e tinham raiva da atração que sentiam. Ele tentava menosprezá-la sempre que podia. Machista e preconceituoso que era, dizia que “mulher foi feita pra ser a rainha ou a escrava do lar”. Ela não baixava a cabeça e respondia à altura, mostrando que o lugar da mulher é onde ela quiser estar. Mas os olhares mostravam que as almas queriam se encontrar. À noite no silêncio frio pensavam um no outro.
Ela chegou à confraternização da empresa e os olhos dele brilharam. Ela conversava com um e outro. Ele se aproximou e soltou um comentário de mau gosto sobre seu vestido. O olhar que ela lançou o fez calar. Passaram a festa toda se olhando com paixão e trocando farpas nas palavras. O amor e o ódio dançavam no mesmo ritmo. No final, quando ela pediu uma carona ele se ofereceu pra levá-la. Ela recusou, mas ele insistiu.
Estavam constrangidos, a atração e a animosidade batiam de frente. Ao chegar eles se olharam e se beijaram. Pensaram que ocupavam muito melhor suas bocas se beijando que quando trocavam palavras ácidas. Ficaram um tempo abraçados. Era como um encontro que há muito esperava para se realizar, como se as próprias almas se abraçassem. Mas voltaram à realidade. Ela se despediu, saiu do carro e entrou rapidamente.
Na segunda mal se falaram no trabalho. Nem se olhar queriam, mas vez ou outra trocavam olhares de quem quer mais gostar que brigar. E seguiram a vida. Pequenos desentendimentos, fingindo que nada aconteceu naquele dia. Cada qual mais teimoso não queriam dar o braço a torcer que aquele beijo foi o que de melhor aconteceu na vida deles nos últimos tempos.
Meses de implicâncias, risos contidos, desejo negado. Um dia ele a surpreendeu. Fez um convite para abrirem juntos uma empresa de consultoria e auditoria empresarial. Ela riu com um sutil deboche.
—Você deve estar brincando. Não combinamos pra trabalhar juntos aqui, imagina numa empresa nossa? Tem coragem de abrir uma empresa com uma mulher, que segundo você, só serve pra ser rainha ou escrava do lar?
—Tenho que admitir que você trabalha bem e me completa. Eu sei cuidar dos detalhes, das minúcias e você sabe cuidar muito bem do lado prático.
—Minha resposta é não. Estou bem aqui. Melhor ficarmos assim como estamos.
—Vamos sair para um happy hour pra gente conversar um pouco. — ele disse quase num sussurro e completou: —Sinto que somos parte de uma mesma história.
—Não posso negar que você me atrai imensamente, mas não posso esquecer a pessoa horrível que você se mostra e que me faz te detestar todos os dias.
—Eu posso não ser tão horrível assim. Posso estar só me defendendo do que estou sentindo por você. Vamos e você pode se surpreender.
Ela foi e se surpreendeu. E quanto uma música antiga tocou, mesmo sem conhecê-la seus corações bateram forte. Suas mãos se tocaram e sentiram que já viveram aquele momento e que tinham uma história para resgatar. Era como se as almas se tocassem num leve arrepio. Ela sentia em sua intuição que não era a primeira vez que suas vidas se cruzaram. Fechou os olhos e imagens passaram por sua frente. Mas se calou. Poderia parecer tola diante daquele homem tão racional. Ele sentia algo que não sabia definir, mas sentia que a queria na sua vida desde que nasceu.
Tornaram-se namorados, tornaram-se sócios. Ainda discutiam, mas se respeitavam e não se ofendiam mais. Eram fogo e tempestade. Mas um amor profundo os fazia chegar a um consenso em tudo.
Amavam-se com desejo e intensidade. Casaram-se. Sabiam contornar as diferenças e se amarem a cada dia, a cada noite. Suas almas se reconheciam e davam as cartas para o jogo seguir com lealdade e cumplicidade. Não tentavam explicar aquele amor intenso que os unia, apenas sentiam e seguiam juntos no trabalho e na vida. Sempre juntos…
Atualizado em: Ter 30 Dez 2025
