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O DIA EM QUE GANHEI MEU PRIMEIRO CAMINHÃOZINHO



O DIA EM QUE GANHEI MEU PRIMEIRO CAMINHÃOZINHO

     Hoje, penúltimo dia de 2025, navegando pela internet, vi a foto de uma criança brincando com um caminhãozinho. Foi a gota d’água para trazer à minha memória o dia em que ganhei um caminhãozinho. De plástico. Um brinquedo... Isso mesmo.

     Meu pai, quando chegou a Belo Horizonte, e nos trouxe com ele para morar na capital, passou por muitas dificuldades. Não tinha emprego e, como já escrevi em outra oportunidade, revendia queijos comprados no Mercado Central de Belo Horizonte em casas do bairro Padre Eustáquio. O bairro Dom Bosco, onde morávamos, ainda não era muito habitado. Além do comércio ambulante que realizava, aos domingos, quando havia ‘festival’ - jogos de futebol - em campinhos próximos à minha casa, no bairro Dom Bosco ou Frei Eustáquio, ele, com seus braços fortes e cheios de coragem, moía cana em um pequeno engenho manual e o caldo, delicioso, a garapa, era colocado em um grande bule de alumínio, no qual, se acrescentavam pedras de gelo, e vendido, em copos de papel, com o auxílio de seus filhos: o Nini, José Fidêncio, Geraldo, Marinho e eu. Minha irmã Aparecida era muito pequena ainda.

     Agora devo voltar à história do caminhãozinho. Não demorou muito tempo, após a chegada a Belo Horizonte, meu pai conseguiu um emprego em uma famosa fábrica de tecidos na cidade. A Cia Renascença Industrial. Saía de casa por volta das 12 horas e, tendo o bonde como seu meio de transporte, retornava à casa por volta de 2 horas da manhã. Foi uma luta incansável. Por oito anos. Lá trabalhou a cantora Clara Nunes. Colega de meu pai.

     Em um Natal, não me lembro bem de qual ano, devia ser ainda na década de 50, chega meu pai de madrugada com alguns pacotes embrulhados. Presentes. A empresa doou aos empregados brinquedos para que seus trabalhadores fizessem um agrado para seus filhos. De manhã, acho que no dia 25 de dezembro, meu pai, carinhosamente, com seu jeito simples e bondoso, com alegria, distribuiu os presentes para nós, seus filhos, a quem dedicava com amor sua vida. Neste momento, não me lembro quais os presentes receberam meus irmãos. Mas, o que ganhei me trouxe uma alegria extraordinária. Foi um caminhãozinho em forma de carreta. Verde e branco. Comprido. A boleia se separava da carroceria. Empolgado demais com o brinquedo, passava o dia inteiro agachado, na sala ou no terreiro, empurrando para um lado e para o outro aquele caminhãozinho.

     É preciso lembrar que este fato ocorrera quando havia pouco tempo que tínhamos mudado para Belo Horizonte, vindos de Rio Espera. Nossa família era muito pobre. No entanto, apesar das dificuldades, éramos muito felizes. Mamãe, companheira incansável de meu pai, lutava com ele para que pudéssemos ter uma vida honrada, cheia de conquistas, com sacrifício e dignidade. E foi assim que aconteceu.

     Hoje, 30 de dezembro, quase fechando o ano de 2025, ao recordar a história do caminhãozinho, lembro-me, com muita saudade, de meus queridos pais. A doçura de mamãe encantava a mim e a todos. A humildade e o despojamento de meu pai serviram de exemplo para mim e meus irmãos. Em 2007, em uma tarde chuvosa de janeiro, sepultamos, com a maior tristeza, a mamãe, no Cemitério da Colina, no bairro Nova Cintra, em BH. Deus a convocou para morar com Ele. Sua missão foi cumprida com dignidade. Em 2008, em uma tarde muito triste do mês de abril, meu pai, amargurado pela perda da companheira, foi sepultado no mesmo jazigo de minha mãe. Deus, com certeza, precisava dele lá no céu. E o levou. Não faltaram lágrimas e mais lágrimas na despedida de ambos. Ficou a saudade no coração de seus familiares e amigos que souberam reconhecer o grande valor que eles tinham e os exemplos que nos foram repassados.

LUIZ GONZAGA PEREIRA DE SOUZA








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Atualizado em: Sáb 17 Jan 2026

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