- Minicontos
- Postado em
Asas Abertas: O Despertar
Ao cair da tarde o céu se cobriu de violeta. Parecia que o céu pressentia o que estava por vir. Ela caminhou até o penhasco onde tantas vezes esteve. Era para aquele lugar que se dirigia quando precisava estar só, conversar consigo mesma, chorar ou tomar decisões.
Olhou o mar tão imenso lá embaixo e lembrou que sempre foi mar. Seu coração e sua alma nunca couberam em pequenos espaços e querer aprisioná-los era tirar-lhes o ar. Sua vida e seu futuro nunca couberam no cotidiano, na rotina, na vida que dividia com ele. É certo que o amava. Tanto que nem sabia como seguir sem seu abraço forte, sem seu sorriso largo, suas mãos que tocavam seu corpo.
Trazia nas mãos um pequeno saco de linho com sementes, uma fita vermelha e uma vela azul. Objetos simples escolhidos como símbolos naquele ritual que ali faria: o que floresce, o que ata e o que ilumina o caminho. Não foi uma decisão fácil. É muito mais fácil a segurança de um lar. Mas não lhe bastava. Sentia que tinha uma missão grande e sublime e não podia se furtar ao chamado.
Sentou-se na pedra fria e olhou o mar. Seu pensamento voou. Ele a amava à sua maneira. Silencioso e contido em tudo. Agia como se um copo de água bastasse. Nunca percebeu que ela era mar e que mares não cabem em um copo. Tentou fazê-lo entender. Ele nunca prestou atenção, só entendia o seu mundinho.
Acendeu a vela. Parecia encantada e não se apagava apesar da ventania. Sua vida era assim: encantada, resistente, teimosa. Jamais se apagaria mesmo com todos os vendavais. Fechou os olhos sentindo o coração pulsar chamando para a travessia. Espalhou as sementes pela encosta deixando que o vento as levasse. Eram promessas lançadas. Sempre pensou que não se pode aprisionar o destino, Ele sempre encontra uma maneira de se soltar. Amarrou a fita vermelha no pulso, não era prisão e sim escolha. A luz da vela iluminou seu rosto. Sentiu que o universo a chamava.
Olhou mais uma vez a imensidade do mar Uma brisa morna soprou trazendo o perfume de terra molhada e flor escondida. Ela sorriu. Uma paz a invadia. Finalmente aceitou que alguns caminhos não se cruzam para sempre, mas apenas até o tempo do despertar. Ao caminhar de volta sentiu-se leve. Atrás dela o fogo consumia o seu passado. À frente o horizonte era vasto como os seus sonhos, sua missão e seu futuro. Ele ainda não voltara do mar. A conversa não tinha sido fácil e ele não acreditava que ela iria partir.
Escreveu com letras bonitas: “Nunca foi por você ou por falta de amor, mas pela minha vida, pelos meus sonhos. O amor não se sustenta por si só, Requer atitudes, mudanças e adaptações constantes. Não é estático e sim movimento. Somos tão diferentes. Você insiste em permanecer parado como se o tempo não lançasse desafios, insiste em ser sempre o mesmo. Você é terra endurecida, eu sou mar, sou movimento, força que move o novo. Quero alcançar o infinito, conhecer a liberdade até onde a alma e o coração enxergam. Vou em busca de mim…
Enquanto caminhava, ela sabia que não partia para perder. Partia para renascer…
Atualizado em: Sex 16 Jan 2026
