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Noite De Lua Negra

Em noite de lua negra, Cecília se aproxima da janela e faz uma oração à lua. Não faz pedidos, apenas se concentra. Sabe que antes de falar com o invisível, é preciso ouvir. Apaga as luzes deixando apenas uma vela lilás acesa e ao lado um copo com água repousando. Coloca-se em posição de meditação. Sua respiração se mistura ao ritmo do mundo. Dentro dela há mares antigos, vozes suaves, nomes que não pertencem a esta vida apenas. Calmamente se abre ao universo.
 
Em estado de meditação ela sente a intuição se acender. As mensagens chegam, ela vai ouvindo e assimilando. Tudo o que precisa saber é revelado. Tudo que precisa ser curado vai aflorando. Não há dor sem sentido nem lágrima sem caminho. Cada emoção é um portal. A mediunidade não lhe foi dada como dom, mas como responsabilidade da alma.
 
Terminada a meditação ela toca a água com a ponta dos dedos. Toca a testa, a nuca e diz em voz baixa parecendo cantar e orar ao mesmo tempo: “Que eu seja canal do que é luz. Que eu seja ponte entre mundos. Que eu sinta sem me perder, que eu cure sem adoecer, que eu veja sem me ferir.” A vela crepitou dizendo sim. Ela passou água na nuca e no peito selando o corpo num círculo sagrado. Quando terminou o ritual sentiu-se leve. 
 
Cecília recolhe a vela, a água e agradece a Lua. Retorna levando consigo a capacidade de caminhar entre planos sem se perder de si. Enquanto dormia os sonhos se abriam. Para ela sonhar é se lembrar. Há algum tempo se preparava para a missão que lhe a esperava. 
 
Cecília era uma mulher de vinte e oito anos. Morava sozinha, era uma mulher das ciências, do palpável, do que se pode explicar. Desde menina tinha algumas intuições, algumas visões, algumas sensações que não sabia explicar. Mas tornou-se extremamente racional e fugia dessas coisas. Foi estudar, trabalhar e sabia que o mundo racional era o mundo das ciências. Espiritualidade pra ela era crer em Deus e fazer suas orações. 
 
Começou a ter sonhos inquietantes com sua avó paterna, com quem conviveu muito pouco. Quando ela faleceu, Cecília era uma menina. Sabia pouco sobre ela. Seu pai falava pouco sobre sua família. Sabia apenas que sua avó era espírita e praticava o espiritismo com amor e dedicação, fazendo o bem a quem precisasse. O resto da família era católica. Sentia que não aprovavam a fé da avó. 
 
Naquela madrugada de lua negra,  hora em que o mundo silencia e o véu entre os planos se torna fino e transparente, Cecîlia sentiu uma presença ao lado de sua cama.  A avó chegou  sem ruído. Trazia cheiro de ervas maceradas e água fluidificada. Fazia preces em silêncio. Suas mãos sempre foram treinadas para limpar campos espirituais, alinhar espíritos cansados, devolver inteireza aos que chegavam partidos. Cecília sentiu  um arrepio. Não era medo e sim reconhecimento. O sangue lembra o que a mente esqueceu.
 
—Não temas. Sou eu, sua avó. Durante muito tempo te preparei para esta manifestação.  Preciso de você. O mundo precisa de você. A obra é extensa. Os obreiros são poucos. Poucos estão hábeis para o trabalho. Eu parti cedo. Precisaram de mim e me buscaram.
 
—E por que escolheu a mim? Convivi tão pouco com a senhora. Não tínhamos nenhuma afinidade  especial. Sei que tem outros netos que eram bem chegados. Não sei nada do trabalho que fazia. Meus pais não gostavam de falar do assunto.
 
—De todos os meus netos, só você tem a força que tenho. Só você tem a capacidade de viajar entre os planos, de receber guias que podem curar, limpar, restaurar pessoas que sofrem com males espirituais que levam a doenças físicas. Eu te preparei meticulosamente. Vou  passar os rituais, apresentar os guias e você estará pronta para a obra.
 
—Eu sou racional, não acreditava em nada disso.
 
—Você acredita, sente e conhece. Tenta fugir, mas não pode. Venha comigo.
 
A mediunidade se abriu como uma herança. Com a mão esquerda sobre o coração e a direita estendida no ar ela permitiu que a avó a conduzisse. No final diz: “Minha avó, que limpavas as dores do mundo, que passavas a mão onde ninguém via, seja meu guia sem me prender, seja pra mim força sem pesar. Que eu cure sem me perder.” A presença da avó se adensa. 
 
Cecília sente o gesto da avó se repetir em suas própria mãos. Ela se limpa e se prepara para a missão, retirando de si tudo o que não lhe pertence e o que lhe faz mal. Um sopro final sela e protege. Sente o quanto o verdadeiro trabalho espiritual é calmo. Aprendeu que limpeza espiritual não é tirar, mas recolocar cada coisa em seu lugar. Ela toca a nuca e o ventre fechando os centros abertos como a avó ensinava. Agradece silenciosamente porque quem viveu servindo não exige palavras. A avó se afasta devagar. 
 
Ao amanhecer, Cecília acordou soube que não carregava um dom novo e sim uma linhagem. Lembrou-se de tudo, de como foi preparada para a missão. Desde então dedicava parte de seu dia à limpeza que a avó lhe passou. Sentia que sua vida era muito mais leve e suave, que seu coração carregava paz, que seu espírito exultava quando fazia o bem. Sentiu que não aprendeu a mediunidade e o dom que recebeu, apenas se lembrou.
 
A presença da avó como guia a alegrava. Sentia que seu diálogo com ela segue a cada dia. Aprendeu que não iniciou seu caminho espiritual, apenas continuou o que já corria no sangue, como a água que encontra inevitavelmente seu leito. 
 
 
 
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Atualizado em: Sex 16 Jan 2026

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