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Impossibilidades: O Silêncio Das Cartas
Teresa sabia dos sonhos, sabia das dores, sabia dos encantos e desencantos, sabia dos amores e desamores, sabia do que a vida lhe ensinou nos caminhos tortos. A vida nunca lhe sorriu. Caminhos árduos, lutas desiguais, silêncios impostos. Impossibilidades.
A vida nunca foi um convite para um baile e sim um embate áspero. Em meados dos anos 1960, no interior onde paredes têm ouvidos e o julgamento é uma garra, sua beleza era um fardo. Atraia olhares de homens que pensavam que o destino de moças pobres e belas era se perder na vida.
Foi assim que ele a viu. Homem feito, casado, arrogante, certeza de impunidade. Desejou Teresa e tomou-lhe a virgindade aos vinte anos. Com cinismo e canalhice, instalou-a dentro da própria casa com pretexto de emprego e abrigo no quarto dos fundos. Sob o teto onde a esposa fingia não ver o que saltava aos olhos.
Mas o coração soberano e indomável de Teresa ainda sabia sonhar. Com olhar terno e altivo um dia chegou à janela e viu do outro lado da rua um jovem rapaz lindo, sorriso franco, olhar de quem não quer nada. O coração dela estremeceu, disparou. Imaginou coisas de amor e sonhou com a felicidade.
Rafael, tinha o olhar tímido e o coração pronto pra se apaixonar. Contava quase dezoito anos. Seu sorriso encantava. Olhou, viu aquela bela jovem na janela e seu coração bateu forte, as pernas tremeram. Amor à primeira vista. Ela não saiu mais de seu pensamento. Não importava as conversas e cochichos que corriam pela vizinhança e manchavam o nome da moça. Teresa era o mistério que queria desvendar com ternura.
Teresa e Rafael começaram a conversar de maneira discreta quando os patrões não estavam. Palavras sussurradas, risos contidos, esperanças que cresciam. Depois os encontros no quarto dos fundos. Teresa jurava não ter caso algum com o patrão. Rafael acreditava. Prometeu amá-la para sempre e fazê-la sua esposa. Era tudo que queria ouvir. Pela primeira vez sentia-se acolhida e escolhida.
O romance deles evoluiu rápido e logo os pais de Rafael desconfiaram. Vieram as advertências, as ordens. Diziam que não era mulher pra ele e que o amante poderia reagir com violência. Rafael não dava ouvidos. Jovens apaixonados não conhecem prudência. Cada vez mais sua mãe aconselhava, falava e pedia para que tivesse bom senso e juízo.
Pouco tempo depois Teresa descobriu-se grávida. Ao contar a Rafael, revelou também que o patrão exigira um aborto. Pela primeira vez admitiu o caso. Ele sentiu a dor da decepção. Ficou magoado, mas insistiu que não fizesse o aborto pois o filho podia ser dele. Propôs fuga, enfrentamento, verdade. Teresa recusou. Tinha medo de seu amante matar os dois. Discutiram e nada se resolveu. Quando a mãe de Rafael soube ela fez um escarcéu. Ela era o braço armado da moralidade da época.
—Como você pôde ser tão irresponsável e se envolver a tal ponto com uma mulher que não tem classe, não tem moral, que se presta ao papel de amante de um homem casado bem debaixo do nariz da esposa? Você pode ser o pai do filho de uma vagabunda, ordinária. Logo você, meu primogênito que criei com tanto zelo.
—Não quero saber se ele é ou não meu filho, o que eu quero é me casar com ela e criar o filho como se fosse meu.
—Casar? Você nem completou dezoito anos. Como pretende casar? O que você precisa é se afastar dessa mulher, esquecer que ela existe. Ela confessou que tem outro homem e você insiste em ficar com ela? Não tem brio, dignidade, vergonha na cara?
—Tenho amor por ela, mãe. Amor, talvez você não saiba o que é isso.
—Meu filho, você tem dezoito anos, nem sabe o que é amor. Você está jogando sua vida fora com quem não te merece. Você está perdendo sua mocidade. Daqui a alguns anos você vai olhar para trás e que lembranças vai ter de seus dezoito anos? Vai poder se orgulhar do que fez? — ele chorou. Estava perdido, já nem sabia o que pensar, aquela paixão estava tirando seu sossego e seu raciocínio.
Dias depois ela fez o aborto. Alegou um mal estar e se manteve no quarto. No dia seguinte trabalhou mesmo fraca e sangrando. À noite teve febre que foi só piorando. Dois dias depois nem conseguia se manter em pé. A patroa a levou ao hospital onde descobriram o aborto. Estava com hemorragia e infecção. Seu quadro piorou e ela precisou de uma cirurgia. Pressionada, Teresa contou tudo.
Quando voltou, a patroa disse que não poderia mais ficar. O amante covarde a ignorou Alguns dias depois, já fortalecida, foi para casa de parentes em uma cidade distante pois seus pais não a aceitaram em casa. Não se despediu de Rafael.
Conseguiu emprego e ficou morando com uma tia. Escreveu para Rafael com a alma sangrando. Uma, duas, dez cartas. Mas o papel nunca encontrou os olhos do amado. Encontrou o fogo do fogão a lenha, pelas mãos impiedosas da mãe do rapaz. Ela pensava que ele a tinha esquecido e chorava. Continuava apaixonada.
Rafael esperava, sofria, chorava, tomou bebedeiras, pensou em morrer. Não pensou que amor doía tanto e que ela pudesse ser tão falsa. Vivia para esperar notícias ou que ela voltasse pedindo perdão. Não conseguia esquecer. Pensou que nunca conseguiria.
Rafael, no vácuo do silêncio, sentiu o veneno da rejeição. Convenceu-se que ela era o que diziam: uma mentirosa que brincara com seu coração de menino. O tempo, que cura e cicatriza, trouxe-lhe uma garota que encantou seu coração. Um amor morno, seguro. Começaram a namorar e tentava não pensar na outra. Ia esquecer e amar novamente.
Três anos depois Rafael se casou ainda bem jovem. Queria e saberia recomeçar sua vida, trabalhar, ter uma família e ser feliz. Ele encontrou uma pessoa boa e do bem que saberia construir uma vida com ele.
Teresa permanecia sozinha, triste, apaixonada. Rafael era o homem que queria na sua vida, mas trilhou caminhos tortos e perdeu a oportunidade de ser feliz. Seu silêncio denunciava o desprezo e esquecimento. Pensava que havia de se reerguer e ser feliz.
Naquele dia de festa na praça, Teresa chegou. Veio a passeio. Havia barraquinhas e música no coreto. Estava assistindo ao movimento quando Rafael passou com a esposa grávida. Seus olhos se encontraram por um instante. Ela o olhou fixamente e ele sentiu-se tremer, seu sorriso se desfez. Sua esposa perguntou se estava passando mal. Ele disse que não. Teresa sustentou o olhar. Procurava naquela face algum vestígio de culpa, ódio ou saudade. O que viu foi o olhar inseguro de um homem que vê um fantasma e a distância intransponível de quem já construiu o futuro sobre as cinzas do passado. Não conteve as lágrimas. Ele seguiu com a esposa.
Voltou para casa e chorou até dormir. Não sabia que ele tinha se casado e muito menos que ia ser pai. Nunca teve notícias. Entendeu que as cartas que enviara não foram perdidas, mas sim devoradas pelo destino, pelo desprezo. Acreditou no seu amor e veio pra tentar conversar com ele e quem sabe se reconciliarem. Ainda o amava e pensou que talvez ele anda a amasse. Agora sabia que estava tudo acabado.
Rafael ficou constrangido, sentiu-se mal por ela vê-lo com a esposa grávida. Todo aquele sentimento voltou por um minuto ao seu coração. Dormiu mal e no dia seguinte ao chegar na casa da mãe, contou a ela que viu Teresa e que queria desaparecer. Sua mãe o consolou e disse que sua vida agora era sua esposa e seu filho que em breve chegaria.
No dia seguinte Teresa foi embora. Jurou pra si mesma que jamais sofreria por ninguém e nem voltaria àquela cidade. Ela nunca soube que ele não recebeu as cartas e ele nunca soube que ela escreveu várias cartas.
Tempos depois, Teresa conheceu um homem bem mais velho que ela. Ele se apaixonou e a tratava como rainha. Ela não o amava, mas tinha respeito e carinho. Casaram-se. Ela não podia dizer que era feliz, mas vivia bem e era tratada como merecia. Talvez fosse o máximo que a vida podia oferecer e ela se sentia grata por ser tão amada e respeitada.
Teresa nunca mais teve notícias de Rafael. Nem ele dela. Ficaram apenas lembranças de um grande amor que não morre, mas que a vida transforma em impossibilidade.
Atualizado em: Qui 12 Fev 2026
