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Bilhete
Ela olhou o envelope um pouco amassado. Abriu. Havia um bilhete manuscrito em letras irregulares, papel comum. Leu devagar:
“Ao te ver tão linda, tenho vontade de tomá-la em meus braços.
Mas você é a maciez da seda fina. Eu, a aspereza do algodão barato.
Você é dos salões requintados. Eu, do chão da fábrica.
Você é dos perfumes sofisticados, fragrâncias finas. Eu, do suor do trabalho.
Você é a elegante mulher que passeia em meu imaginário. Eu, o homem que lê romances imaginando vivê-los ao seu lado.
Você é a mulher inteira, completa, que conquistou o mundo. Eu, homem em construção tentando ser tudo isso.
Você é a mulher que povoa meus sonhos e me faz acordar sorrindo. Eu nem sei se mereço um pensamento seu.
Você é a mulher que que passeia em meu coração. E eu? O que sou?
Coração não entende diferenças e padrões sociais.
Coração se entrega inteiro, só entende de amor.”
Ela sorriu. Respondeu em papel perfumado, com letras bonitas, quase desenhadas:
“Sou beleza delicada. Você, a clássica beleza masculina.
Sou requinte e sofisticação. Você, diamante em processo de lapidação.
Sou inteligência, você também.
Sou completa, você está a caminho.
Sou a mulher, você é o homem
Sou vontades. Você, desejo.
Sou metade pronta pra você completar.
Entre quatro paredes, dois são um. Têm o mundo nas mãos.
Tudo que é consentido, é permitido.
Ainda que aqui fora a hipocrisia condene o que não entende.
Entre um homem e uma mulher, mais que o encontro entre corpos, existe a beleza da troca de idéias, encontro de almas.
Tudo mais são detalhes.”
Olhares, flertes, encontros.
Nada é proibido, nada é eterno, nada é constante.
O que faz feliz, liberta e ilumina o corpo, o coração, a mente.
Liberdade é viver sem medo, sem amarras, sem preconceitos.
Diferenças são superadas.
O que importa é a intensidade do que se vive e sente.
Só os momentos intensamente vividos se eternizam na memória, na pele, nos sentidos.
Atualizado em: Qui 12 Fev 2026
