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O Invisível Fio Do Destino

Marcelo chegou. Era uma cidade pequena onde o tempo parecia cochilar nas varandas. Um vento bateu em seu rosto e ele estremeceu levemente. Uma estranha sensação tomou conta de seu coração. Dominou aquela angustia. Olhou em volta e gostou do que viu. Hospedou-se na melhor pousada que havia. Era simples, mas acolhedora. 
 
Era um quarentão, olhar sério, passos medidos, homem de cálculos, rotina e responsabilidade. Engenheiro competente, estava ali a trabalho em uma obra da prefeitura. De certa forma sentiu que sua seriedade e racionalidade eram armaduras frágeis naquela cidade perdida entre montanhas.
 
Ele se ajeitou na pousada. Pensou na esposa e filhos. Sentiu a saudade lhe sufocar. Desceu pra jantar, estava distraído, pensamento longe. E então a viu. Lígia era funcionária da Pousada. Dezoito anos, uma beleza que parecia brotar da própria terra. Fixou o olhar nela que sorriu e o deixou sem graça, mas ao mesmo tempo encantado.
 
Lígia pisava leve como o vento, olhos vivos, atentos. Havia nela uma malícia doce. Era brejeira, ladina. Cheirava alfazema fresca. Gostou do engenheiro logo à primeira vista e ao serví-lo, se mostrava, caminhava sensualmente e se aproximava perigosamente. 
 
Os dias passavam e ela mostrava mais do que devia. Um descuido aqui, outro ali, a alça do vestido que escorregava. Um abaixar onde a minissaia revelava mais que escondia. Debruçava pra servir o café e mostrava seus seios bem feitos, firmes. Fazia tudo sem parecer vulgar, apenas descuido de uma jovem atrapalhada. 
 
Marcelo percebia e tentava resistir. Mas havia algo além do corpo. Havia misticismo em  seu olhar, certeza de quem sabe o que quer e conhece o fio do destino. Quando passava, deixava seu cheiro no ar. Quando o olhava, havia um silêncio estranho, como se houvesse entre eles um reconhecimento. Não era apenas desejo, era uma estanha atração. 
 
Ele começou a perder o eixo invisível que o sustentava. Pensava nela sem querer, a qualquer momento. Não conseguia evitar olhar pra ela. O que era apenas admiração virou fome, desejo, desassossego. À noite, ficava imaginando como seria tocar aqueles lindos seios, beijar aqueles lábios rubros, passear por aquelas curvas perfeitas. 
 
Na véspera de sua partida a lua cheia brilhava lá fora. No corredor a penumbra. Marcelo encontrou Lígia na porta de seu quarto. A pousada estava vazia, em silêncio. Ele tentou recuar. Lembrou-se da família e da vida tranquila que o esperava. Tentou usar a razão. Mas naquele instante algo maior pulsava, chamava, puxava para os braços dela. 
 
Ela se aproximou. Ele sentiu seu hálito doce, o cheiro de alfazema, o calor de seu corpo jovem e sedento. Era mais que desejo, era mais que instinto. Era uma força fatal e irresistível. Ele a beijou com frenesi, ela colou seu corpo no dele e sentiu todo o seu desejo despontando. Entraram no quarto ela enlaçou seu pescoço. O mundo lá fora não existia. Apenas aquele instante ardente, vivo, impossível de conter.
 
Ele a despiu devagar descobrindo o que imaginou tantas vezes. Olhava para aquele corpo lindo e cheio de desejo. A respiração parecia lhe faltar. Beijou seus seios, suas mãos tocavam cada canto de seu corpo, sua boca percorria o caminho do prazer. Ela gemia baixinho. Ele a deitou na cama com delicadeza e se amaram com uma paixão incontida. Passaram horas ali se acariciando, se amando.
 
Já era madrugada quando ela saiu do quarto. Ele ficou sem chão, sem lógica. Uma estranha sensação de ter atravessado uma linha invisível da qual não se retorna inteiro. O perfume dela parecia impregnado em sua alma. Seus lábios ainda sentiam o gosto do beijo. Seu corpo levitava levemente. Na manhã seguinte partiu. Levou consigo o silêncio e o incêndio que o alcançou naquela noite alucinante. 
 
Marcelo seguiu sua vida, mas não esquecia do que lhe aconteceu,  da mulher que lhe fez perder a cabeça, o juízo e os sentidos. Não era amor, não era saudade. Era desejo latente, necessidade inexplicável, coisa de pele, sensação de que o encontro já ocorreu num passado remoto. Não sentia culpa, foi inevitável. Não se arrependia, foi transcendental.
 
Três anos depois, Marcelo voltou àquela cidade a trabalho. Seu coração pulava ao se aproximar da pousada. Não a encontrou. Sentiu-se decepcionado. Ao sair, no dia seguinte, encontrou Lígia. Ela carregava uma criança que aparentava ter dois anos, pouco mais. Ele se aproximou. Ela olhou assustada. Cumprimentaram-se. Ele disse que voltou a trabalho. Ela disse que deixara a pousada. Ansioso ele perguntou quem era a criança.
 
—É meu filho. 
 
—Qual a idade dele?
 
—Pouco mais de dois anos.
 
—É meu filho?
 
—Pouco depois que você se foi eu engravidei e casei com meu namorado.
 
—Você não respondeu minha pergunta. É meu?
 
—O que importa? Pai é quem cria e meu marido é um excelente pai e companheiro. Nos trata com carinho, amor, consideração e respeito. Eu trabalho com ele em seu negócio. Temos uma vida feliz. — ele olhou o menino e viu muitas semelhanças. Pensou nas datas, nas possibilidades. A dúvida o atormentava, ela não negava e nem afirmava. 
 
Nos dias que se seguiram a paixão e desejo renasceram com uma força irresistível. Sempre encontravam um lugar pra estarem sós e bastava um toque pra que a chama se acendesse. Beijavam-se, tocavam-se e se amavam em êxtase e o prazer era quase um delírio. Não se importavam com as alianças, as leis dos homens, o preconceito ou o julgamento do mundo. Naqueles momentos, eram apenas dois seres buscando a unidade perdida. Para eles nunca foi pecado ou traição, era uma necessidade, um chamado, predestinação. 
 
Na véspera de sua partida eles conversaram. Ele disse:
 
—Sempre ouvi dizer que o tempo cura e apaga tudo. Em todo esse tempo ele não apagou o cheiro de alfazema que emana de você, o calor de sua pele que se fundiu à minha, seu beijo, o amor que fizemos. Eu voltei para minha vida, para minha família, mas deixei aqui parte de meu coração e de minhas vontades. 
 
—Nosso encontro sempre esteve escrito. Quando te vi, logo percebi que precisava me perder em você. Em apenas uma noite vivi mais do que tinha vivido em toda a minha vida. Era pra ser assim. Eu também guardei aquela noite em mim. Seu cheiro, seu corpo no meu, me acariciando, me invadindo, me fazendo gritar de prazer. 
 
—E quanto ao menino? Eu preciso saber a verdade. 
 
—Vá, volte pra sua vida. Leve esta dúvida, ela também vai te fazer lembrar de mim.
 
—Eu posso pedir um teste de DNA.
 
—Não faça isso, vai me prejudicar. Meu marido é o pai que cria e ama. O silêncio é a linguagem mais antiga das mulheres daqui. Ele nunca soube nem vai saber do nosso alucinante encontro. Você tem a sua família, não destrua a minha. Para ele o menino é filho. Para mim ele é a prova viva que o destino não se importa com contratos ou alianças. Ele é o elo secreto que você nunca poderá tocar, mas que jamais deixará de existir. Na espiritualidade destas montanhas, as metades se completam no invisível, no não dito. Eu guardei nosso segredo como se fosse uma relíquia colocada num altar. 
 
Marcelo compreendeu que não tinha o direito de prejudicá-la. Despediram-se. Ele partiu sabendo que embora seus dois filhos o chamassem de pai, seu coração sempre pertenceria também àquele terceiro filho, fruto de uma noite onde o céu e a terra se tocaram naquele quarto da pousada.
 
Nunca mais se viram. O encontro entre o engenheiro e a garota brejeira nunca foi um  cálculo de números exatos, mas um arcano traçado pelo destino. A distância é apenas uma ilusão para quem traz marcas profundas na alma. A sabedoria mística provou que o desejo quando misturado ao destino torna-se uma entidade viva que atravessa gerações. A saudade não era vazio, e sim presença  de uma verdade velada. Eles foram um quando se encontraram e se amaram. O fruto desse encontro alucinante seguia caminhando pelo mundo, unindo o desejo do corpo ao mistério do espírito, perpetuando o que o tempo não  ousou apagar. 
 
 
 
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Atualizado em: Seg 6 Abr 2026

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