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A Botica E A Travessia
No pilão, quatro mãos transformam o oferecimento da terra
Grãos e ervas se entregam ao esforço de mãos generosas
Da transformação nasce não apenas o sustento
Nascem as flores do bem que florescem na alma
Mãos abençoadas tocam e transformam o grão e a erva
Que se rendem ao saber silencioso
No pilão não se macera apenas a matéria
Ali se lapida a cura física e espiritual
A for de lótus se mostra em sua exuberância
Trazendo renovação e iluminação.
Ao passar pelo Centro Histórico de sua cidade, Helen observou uma porta entre um antiquário e uma loja de artesanatos. Nunca atentou para aquele local. Na fachada uma única palavra: Botica. Curiosa, se sentiu atraída e entrou para conhecer.
Helen estava perdida em sua solidão. Sentia um vazio que tomava todo seu ser, uma insatisfação fazia com que perdesse o sentido da vida. A depressão insistia em se alojar e tirar as cores. Sentia uma angustia de quem não encontrou uma missão.
O Centro histórico trazia a imponência de séculos passados, de histórias que se mantinham vivas e de vidas que por ali passaram e fizeram a diferença. Mas para Helen, naquele momento, eram apenas construções velhas e apagadas.
Ao entrar na Botica notou uma atmosfera mística, o cheiro de mirra e incenso eram acolhedores. Sentiu que não entrou ali por acaso. No centro estava um pilão, no seu corpo, uma flor de lótus num entalhe perfeito. Duas mãos de pilar repousavam dentro dele. Uma voz tirou sua atenção do pilão.
—Posso te ajudar?
—Vi a placa lá fora e me senti curiosa e atraída.
—Talvez precise de algum remédio para o corpo e principalmente para a alma.
—Vocês fazem manipulação aqui?
—Fazemos transformação de ervas para a cura. Fazemos também a transformação de muros em pontes para a travessia.
—Não entendi.
—A solidão que pesa não faz bem, Helen. O vazio pode não ser falta, mas espaço que a alma abriu para ser ocupado pela sua verdadeira natureza e missão que lhe foi destinada.
—Como sabe meu nome e como sabe de tudo o que sinto?
—Você carrega o dom do renascimento, Helen. Você precisa de transformação, de fazer a travessia para que sua essência se revele. Seu dom de fazer renascer é o dom da cura. Muitas pessoas esperam pela cura que você pode trazer.
—Você é vidente?
—Não gosto de rótulos. Sou o que sou desde sempre e por toda a eternidade.
—Eu sou solitária, nunca encontrei um amor que valesse a pena, tenho poucos amigos, mantenho distância dos colegas de trabalho, só encontro chefes abusivos. Como quer que não sinta vazio e infelicidade?
—A solidão, por si só, não é ruim. Depende de como é encarada. Enquanto você mostrar apenas o seu lado sombrio, vai atrair pessoas sombrias. Tanto no amor como nas amizades e no trabalho. Se mostrar seu lado de luz, vai atrair pessoas cheias de luz.
—Eu aprendi a ser sombria. Como quer que de repente passe a ter luz para oferecer?
—Você nasceu cheia de luz. Busque a luz que sempre teve que camuflar para não incomodar as pessoas sombrias que tinha ao redor. Liberte-se das sombras. Não precisa mais delas. Você é livre para brilhar. Não se esquive de sua missão.
Helen sentiu-se confusa. Não sabia se seria capaz e nem se acreditava em tudo que a mulher lhe falou. Saiu dali pensando em tudo que viu e ouviu. À noite teve um sonho em que caminhava por uma trilha íngreme, sinuosa e cheia de obstáculos. Era cansativa e muitas vezes pensou em desistir, mas seguiu em frente. No fim da trilha havia um lugar pleno de luz, natureza generosa e beleza ímpar. Ao olhar no espelho do lago viu uma flor de lótus em seus cabelos. Não sabia como foi colocada ali. Pegou e viu que era real. Recolocou nos cabelos e andou pelo lugar sentindo a brisa e o encanto.
Helen voltou à botica muitas vezes. Aprendeu a conhecer as ervas, grãos e raízes pelo cheio e toque. Aprendeu sobre os elementos de cura física, espiritual e psíquica. Mas havia algo que ainda não compreendia: o pilão no centro da sala. Grande, antigo, vivo.
—Por que o pilão tem duas mãos? — a mulher a encarou com profundidade.
—Ninguém cura sozinho. Além da energia da Suprema Dinvidade, é preciso que quem é curado aceite a cura. E a flor de lótus representa renovação, iluminação espiritual.
Naquela noite Helen sonhou. Estava diante do pilão. Suas mãos seguravam uma das mãos, mas não estavam sozinhas. Outras mãos surgiam. Translúcidas, antigas, firmes. Mãos de quem veio antes. Mãos de quem ainda viria. Mãos que sabiam.
No dia seguinte a boticária disse:
—Hoje você vai preparar algo. — colocou diante dela ervas desconhecidas, sementes secas e uma espiga dourada —Isto não é um remédio comum.
Helen começou a triturar. Mãos invisíveis trituram com a outra mão do pilão. No início, apenas matéria. Depois memórias. Cada movimento do pilão despertava algo dentro dela. Dores antigas, amores interrompidos, palavras nunca ditas, Era como se estivesse sendo moída junto com aquilo.
—Está doendo. — sussurrou.
—Cura começa assim. — respondeu a mulher.
Não era sonho. Helen sentiu mãos sobre as suas. Firmes, guiando, sustentando. Não eram visíveis, mas eram reais. Uma energia antiga, coletiva. Ela não estava mais sozinha. Nunca esteve. Quando terminou o que havia no pilão não era mais pó e sim vida. Um perfume suave encheu o ambiente. No fundo do recipiente entre o que fora triturado nasceu uma pequena flor. Igual à que estava em seus cabelos no sonho. Helen chorou.
—O que é isso? — a mulher se aproximou com ternura.
—É o que sempre foi. Você apenas se revelou, renasceu.
—Eu me curei?
—Você permitiu que a transformação lhe tocasse. Permitiu ser o que é, o que nasceu pra ser e que lhe foi tirado. Você está pronta para assumir a sua missão.
—Mas eu não posso largar tudo para cumprir uma missão. Tenho meus compromissos.
—Você saberá conciliar tudo. Tempo é apenas uma medida que o homem criou para justificar seus temores, sua insegurança, suas impossibilidades, sua preguiça e falta de compromisso.
Helen olhou em volta e a Botica estava diferente. Mais clara, mais viva. Quando se virou a mulher não estava mais lá. Soube que a partir de agora era com ela. Tocou o pilão e pela primeira vez sorriu com a certeza de sua missão. Sabia o que fazer. Sabia quem era. Do lado de fora a cidade seguia seu ritmo. Mas a Botica estava mais visível para quem precisasse dela como Helen precisou.
Quatro mãos não são apenas um número. São a certeza de que toda cura é encontro entre o que fomos, o que somos e o que floresce a cada dia…
Atualizado em: Seg 13 Abr 2026
