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Moinhos De Vento

Aurélio estava sentado na varanda, olhar distante. Seu filho sentou-se ao seu lado e perguntou por onde viajava seu pensamento. Ele olhou seu filho que já se tornara um adulto, já estava na faculdade. Tanto tempo se passou e ele nunca pôde esquecer daqueles acontecimentos. Eram tão jovens quando tudo aconteceu. Sua esposa não gostava de tocar no assunto. Nunca quis saber o que descobriram quando ele e seus amigos voltaram lá. Ele sentiu uma angústia e percebeu que era a hora de contar para alguém, nada melhor que contar para seu filho que era tão centrado e equilibrado.
—Às vezes penso em tudo que aconteceu naquele dia. Posso ver cada cena, reviver cada acontecimento. Nossas vidas nunca mais foram as mesmas. Algo se quebrou pra sempre. Muito do encanto da juventude se desfez. De repente tudo mudou, como se o trem da história tivesse descarrilado naquele instante e lugar. Lá era desabitado. Ao redor a força e energia das águas das inúmeras cachoeiras. Exatamente o que nos atraiu.
—Você sempre fala sobre este assunto por enigmas. Não acha que precisa se livrar disso? Falar é bom. Dizem que o que fica guardado não pode ser esquecido.
—Éramos jovens demais para acreditar no medo e para termos prudência. Quando se é jovem se tem a arrogância de sentir que o mundo se curva a nós, não se respeita o silêncio e o que não conhece. — calou-se por um instante.
—Vamos, seu Aurélio. Coragem. Sempre tive curiosidade de conhecer este segredo que você me mamãe guardam a sete chaves.
—Não tem segredo algum. Apenas preferimos não falar sobre isso. Mesmo por que, muitos nem acreditariam. Diriam que bebemos demais ou foi alucinação por drogas ilícitas. E não foi uma coisa nem outra. Nunca curtimos drogas e sempre bebemos muito pouco. — depois de um tempo continuou:
“Éramos três casais, eu e Júnia, Ségio e Camila, Marcos e Cíntia. Amigos inseparáveis. Ficamos sabendo que aquela região abrigava lindas cachoeiras e que era pouco visitada. Paramos para pedir informações. O senhor nos olhou com ar de desconfiança e  medo. Deu a informação e disse para termos cuidado. Rimos dele. Agradecemos e seguimos. Estávamos em três motos de trilha. Pegamos a velha estrada de terra numa sexta-feira de céu dourado. Íamos acampar no caminho e chegar no sábado a tempo de curtir as cachoeiras. Estávamos animados para a  aventura, diversão e muito amor.
O vale ficava escondido entre paredões de mata úmida. Dali se ouvia o barulho das cachoeiras que produziam um som constante, quase hipnótico. Não havia mais casas além do casarão que avistamos. Estava erguido numa pequena elevação próxima ao rio que corria ali. Era grande, antigo, tomado por trepadeiras e rachaduras. As janelas pareciam olhos vazios. Bem mais pra frente podíamos ver dois moinhos de vento antigos.
Ficamos encantados com a beleza do lugar. Não entendíamos porque estava tão abandonado. Cíntia disse que teve um arrepio e sentia um desconforto estranho, pressentindo algo errado.  Nós rimos e dissemos que o melhor era curtir as cachoeiras e aproveitar bem o dia. Hoje penso em quantas tragédias começam exatamente assim. 
Fomos para as cachoeiras aproveitando o dia. Banhos naquelas águas que trazem energias positivas, muita diversão e namoro naquele lugar tão encantador. No fim da tarde estávamos exaustos. Voltamos para o vale e montamos nossas barracas perto do rio. 
O sol desapareceu e acendemos uma fogueira, fizemos nosso lanche, bebemos algumas cervejas. Fomos dormir cedo, O fogo logo se apagou e não pensamos em deixar alguém de vigia. Pegamos no sono, mas logo fomos acordados por barulhos que o medo fez imaginar que era de algum animal. Ouvimos passos se aproximando das barracas. Passos lentos e pesados. Gritamos uns pelos outros e todos estavam apavorados. Apontamos a lanterna, mas não vimos nada. Vieram então os arranhões no tecido da barraca. Marcos sugeriu que pegássemos apenas os sacos de dormir e fôssemos para dentro da casa. E foi o que fizemos. Ali estaríamos protegidos de animais.
Entramos e nos acomodamos na sala. Havia um forte cheiro de mofo antigo. Havia móveis deteriorados, retratos caindo das molduras e uma escada que levava ao andar superior, cujos degraus de madeira estavam prestes a cair. O silêncio era sepulcral. Mortos de cansados, adormecemos logo. Mas o sossego não durou muito. Acordamos com um lamento pungente. Parecia uma pessoa tentando nos amedrontar. Júnia, apavorada me abraçava. Outro lamento ecoou, agora acompanhado de passos arrastados. Parecia estar descendo a escada. Objetos começaram a cair pelo chão criando ecos aterrorizastes. 
Marcos apontou a lanterna para a escada e vimos apenas sombras. Mas os passos se aproximavam e começamos a correr para fora da casa. Saímos tropeçando uns nos outros. A noite estava muito escura. Atrás de nós vinha o barulho dos passos. Eu puxava Júnia pela mão quando ela desmaiou de medo. Os outros continuaram correndo. Eu me deitei sobre o corpo dela para protegê-la. Fiquei quieto e em silêncio, esperando pelo desfecho. Pensei que bem podia ser uma pessoa pra nos fazer mal, quem sabe nos matar. Eu só sabia pedir a Deus que nos protegesse. Senti um toque em meu ombro e virei apavorado. Ninguém.
Ao longe se via a sombra dos moinhos de vento e suas hélices começaram a girar, mesmo sem vento. Eu estava totalmente apavorado. Nem conseguia mais pensar. Os outros caíram perto do rio e gritavam de pavor. O caos se instalou naquele lugar e todos tinham vontade de estar no aconchego de suas camas. Marcos gritava que tinha alguém no moinho, mas nenhum de nós viu nada. 
Passamos a noite ali, apenas aguardando o que aconteceria. Ouvíamos passos, gemidos, gargalhadas, correntes sendo arrastadas. Quando Júnia acordou já era madrugada, quase dia. Com esforço fomos procurar os outros. Eles estavam machucados pela queda nas pedras próximas ao rio e estavam em choque. 
Quando amanheceu, deixamos tudo para trás, pegamos nossas motos e fugimos dali. Chegamos em casa ainda em estado de choque. Por muito tempo não ousávamos tocar no assunto. Mas o silêncio não apagou o que sentimos, ouvimos e vimos naquele lugar sinistro. Tínhamos pesadelos e crises de pânico que tiravam nossa qualidade de vida. Com tratamentos nos sentimos melhor, mas parecia que uma obsessão nos chamava para aquele lugar, para procurar saber o que houve ali. 
As garotas nem queriam ouvir falar nisso e nem queriam que nós três remexêssemos nesse assunto. Diziam que devíamos deixar o passado quieto. Sem dizer nada a elas começamos a investigar. Tínhamos perguntas demais pra continuar fingindo que nada aconteceu. Ficamos sabendo que durante um tempo aquele lugar era  muito frequentado, mas todos saiam de lá apavorados e as visitas às cachoeiras foram ficando escassas. Até que ninguém mais aparecia. Só alguns desavisados como nós.
Na cidade mais próxima do lugar, verificamos os registros que constavam em cartório e descobrimos que o último registro datava de muitos anos em nome de Josué de Castro Mendonça. Em outro cartório constava uma certidão de casamento supostamente da mesma pessoa com Maria de Lourdes Fontes que passou a assinar Mendonça. E o registro de uma filha dos dois. 
Seguimos para a vila onde pedimos informações e conseguimos encontrar o senhor. Conversamos com ele e contamos o que nos aconteceu e ele que gostava de uma boa prosa, disse que o casarão estava abandonado há muito tempo e que seu pai contava que o seu Mendonça era um homem arrogante, de gênio ruim e com muita maldade no coração. Humilhava as pessoas e principalmente quem trabalhava para ele. Era injusto e muitas vezes nem pagava o salário.
Um dia, após dar chicotadas em um empregado de apenas dezessete anos, os outros que já estavam revoltados, se uniram e foram até a casa do patrão. Invadiram e o pegaram sentado na sala. Depois de uma discussão e dele pegar uma arma, eles o renderam e começaram a bater. A patroa a filha entraram no meio para ajudá-lo. A coisa saiu do controle e os três acabaram mortos. Eles então os enterraram próximo aos moinhos de vento e se apossaram do casarão e de tudo que era deles.
Os empregados foram denunciados e quando a polícia chegou uma grande confusão se armou. Houve tiroteio e luta física. Muitos morreram, e muitos fugiram. A polícia nunca soube se os patrões realmente foram mortos e onde supostamente foram enterrados. Alguns corpos foram levados do lugar para o sepultamento, outros ficaram por lá. 
Desde então muitos tentaram se apossar do lugar, mas sempre fugiam apavorados. Outros tentaram comprar e revitalizar a fazenda e alguns até quiseram transformar o casarão em Hotel Fazenda. Mas sempre desistiam por um motivo ou outro. Parece que uma maldição se apossou do lugar. E as noites ali eram aterrorizastes, como foi a nossa.
Fomos até o lugar. Entramos no casarão. Durante o dia tudo ali permanecia na mais profunda paz. Fomos ao andar superior. Olhamos alguns documentos que já estavam se desfazendo. Olhamos fotos, objetos pessoais. Tudo ali parecia pertencer à família Mendonça. Fomos aos moinhos de vento. Tudo lá permanecia como foi deixado. Entramos, olhamos ao redor. De repente as pás dos moinhos começaram a girar mesmo sem vento e o som parecia um lamento, um pedido de socorro. Saímos correndo de lá e fomos embora.
Quando nos propusemos a fazer aquela viagem, éramos jovens céticos. Fomos criados na fé católica, mas nunca nos importamos com religião. E naquele dia aprendemos, a duras penas, que o universo guarda muito mais segredos que podemos supor. Que as energias de pessoas, almas e espíritos têm muito mais força que imaginamos. Naquele dia, com o amor da minha vida desmaiada, eu implorei a Deus que nos ajudasse e protegesse, que nos desse uma chance de sair dali. Os outros também oraram a Deus. E aprendemos que somos muito pequenos diante de fenômenos sobrenaturais e que somos muito importantes para Deus e Ele ainda mais para nós. Toda a nossa vida mudou.
Naquela época faltavam apenas dois anos para o início do Século XXI. Tempos modernos onde quase ninguém acreditava no que não podia ver. E no entanto, seis pessoas foram testemunhas de fenômenos sobrenaturais. Estávamos sóbrios e lúcidos, não éramos medrosos e nunca tínhamos ouvido relatos de tais coisas. Chegamos ali apenas pensando em nos divertir e saímos apavorados, passamos uma noite tenebrosa em que o medo foi o pior conselheiro e companheiro. Mas não tivemos como conter o medo. 
Tempos depois Júnia e eu nos casamos, você nasceu. Fomos felizes. Os outros também se casaram, constituíram suas famílias. Continuamos amigos. Sei que nos tornamos cada dia pessoas melhores. Aquele acontecimento ficou para trás. Nunca esquecemos, mas nunca tocamos no assunto. Como se fosse algo que tivéssemos que passar, mas que deve ficar no passado.”
Aurélio abraçou seu filho que o olhava com admiração. Ficaram ali em silêncio, olhando para o jardim, cada um com seus pensamentos. Cada um imaginando o que o outro estava pensando…
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Atualizado em: Sex 22 Maio 2026

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