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Indagando se a viagem no metrô para o outro mundo é física ou espiritual
Indagando se a viagem no metrô para o outro mundo é física ou espiritual
Rogério Duarte Fernandes dos Passos
Comentário. PIRES, José Herculano. Metrô para o Outro Mundo. São Paulo: Paidéia/Fundação Maria Virgínia e José Herculano Pires, 2. ed., 2003, 204 p.
Nascido em Avaré, no Estado de São Paulo, José Herculano Pires (1914-1979) foi um destacado jornalista e filósofo espírita brasileiro que, em sua vasta obra – formada por estudos doutrinários, ensaios, romances e outros escritos –, dedicou profunda atenção aos fundamentos da Doutrina Espírita codificada pelo pedagogo francês Allan Kardec (1804-1869).
Inserido na vertente da ficção científica paranormal – da qual Herculano Pires foi um dos pioneiros no Brasil –, Metrô para o Outro Mundo constitui, em parte, a continuação do romance O Túnel das Almas.
Publicado originalmente em 1978, Metrô para o Outro Mundo apresenta mais uma realização dos cientistas do bairro do Morumbi, em São Paulo, que, após construírem, de forma inovadora, O Túnel das Almas, ligando os planos dos encarnados e dos desencarnados, aprofundam a experiência com o metrô, que conserva o mesmo propósito. Neste, porém, acrescenta-se a vivência sensorial e reflexiva do convívio com personagens de outras épocas e dimensões, oferecendo diferentes perspectivas de observação àqueles idealistas que viam no Espiritismo e na Parapsicologia instrumentos de renovação científica, moral e material para o planeta Terra.
Herculano Pires traz ao enredo toda a sua vasta bagagem filosófica e o profundo conhecimento da Doutrina Espírita de Jesus, ora ensinando ao leitor seus fundamentos, ora abrindo-lhe novas perspectivas de cotejo com um mundo que, em seu egocentrismo, insiste em explicar-se exclusivamente a partir da matéria e do plano meramente sensível. O verdadeiro protagonista do romance, mais do que o próprio metrô, é o pensamento, compreendido como a força capaz de transcender as limitações da matéria e abrir ao espírito novos horizontes de conhecimento.
Na época em que a obra foi escrita, os estudos parapsicológicos encontravam-se em grande evidência. O autor incorpora esse ambiente intelectual à narrativa, tendo como pano de fundo a Guerra Fria (1945-1991) e a consequente disputa ideológica e científica protagonizada pelos Estados Unidos da América, pela extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e, de forma quase profética, pela China, todos muito mais interessados na afirmação de relações de poder do que na investigação das conexões extrafísicas que semelhante sublimação do conhecimento potencialmente poderia proporcionar à humanidade.
Esse metrô, idealizado em uma empresa de empreendimentos invisíveis, proporciona uma experiência igualmente fundamentada no pensamento e na capacidade vibratória de seus viajores, conduzindo-os, ao modo da filosofia platônica, à busca de uma nova premissa cósmica e astronáutica baseada na percepção inteligível, em que repousariam as verdadeiras ideias e concepções de verdade.
Contudo, será somente no bojo do espírito – portanto, no interior de um ser imaterial, portador de memórias extracerebrais oriundas dos processos reencarnatórios – que essa conquista realizar-se-á plenamente, vencendo as distâncias de espaço e tempo e fazendo do pensamento o elemento condutor da inteligência e do descobrimento do universo, que, em última instância, aproximaria a humanidade do propósito maior do Criador.
Portanto, a nova engenharia enunciada por Pires não é mecânica – embora também seja física – e resta apoiada no pensamento como elemento construtor e vibratório, capaz de conduzir-nos a uma nova realidade, perene e identificada com a verdadeira felicidade. Esse poder, ademais, somente será plenamente exercido em espírito, cuja evolução incessante conduzirá novos encarnados a seguir o mesmo rumo, em atos desveladores de um universo que a mente e a inteligência humanas ainda não são capazes de vislumbrar por meio dos signos sensíveis.
De qualquer forma, será preciso expiar nossos crimes, elevar-nos por meio das provas e das experiências e superar o materialismo, o egoísmo e o ceticismo para que, como proclamado pelo Mestre Jesus, consigamos realizar obras minimamente próximas das dEle.
Será, outrossim, nesse momento que os mundos físico e extrafísico unir-se-ão em propósito, elevando todos nós à condição de partícipes da obra de um Pai pleno em bondade.
As viagens são muitas: no túnel, nas ideias, nos amores – tendo Sandra, expressiva personagem da empresa de empreendimentos invisíveis, como fio condutor e ponto de equilíbrio de uma corporação sem alicerces físicos –, nos sítios arqueológicos do Morumbi, na força dos sons e das pulsações do Estádio Cícero Pompeu de Toledo e no metrô, simultaneamente subterrâneo, extrafísico, transcendente, emotivo e vibratório. No permanente embate entre o material e o imaterial, o romance recorda a verdadeira essência espiritual do ser humano, conclamando todos ao bem e ao adiantamento.
Eis que o livro se encerra em simplicidade, em uma bucólica propriedade rural nas imediações de São Paulo. Ali, as personagens brincam, refletem e, distantes do ambiente urbano e científico, indagam se ainda precisaremos do metrô para o outro mundo.
Atualizado em: Dom 5 Jul 2026
