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Quando A Manhã Se Fez Noite
Não sei precisar o dia. Pelo local do colégio onde se deu o acontecimento, sei que o ano era 1972 ou 1973. Algumas lembranças guardam o fato e a atmosfera sem se preocupar com precisão de datas. O Brasil estava em plena ditadura militar em seus anos mais sombrios. Embora aqui nessa cidade do interior de Minas Gerais não se falasse muito sobre o assunto, o clima era um pouco pesado e de medo. Media-se as palavras e os atos. A polícia estava logo ali.
Eu era pouco mais que uma menina. Naquele tempo, minha maior intimidade era com os livros. Nos jornais, só lia o que me interessava, noticiários de televisão pertenciam ao mundo dos adultos. Nada de extraordinário havia sido dito naqueles dias.
Lembro-me claramente daquela manhã. Era um daqueles dias de céu muito azul, a luz do sol entrava pelas janelas da sala de aula. Estávamos ali, pré-adolescentes, assistindo aula de moral e cívica ou história ou quem sabe inglês. Alguns entediados, outros com o pensamento distante, mas fingindo estar atentos. Apenas a voz da professora era ouvida no ambiente. Nada anunciava que algo estranho estivesse prestes a acontecer.
De repente alguma coisa mudou lá fora. Parecia que o tempo estava ficando nublado. Aos poucos a claridade foi diminuindo como se uma tempestade se anunciasse, mas nenhum fenômeno típico de tempestade ocorria. Nem ventania nem raios e trovões. Estávamos imóveis, a sala foi ficando escura até que a noite chegou em plena manhã.
Não lembro de gritos ou perguntas. Lembro-me de um silêncio absoluto, inclusive da professora, que como nós, estava paralisada. Como se suas pernas se recusassem andar, ela não caminhou até o interruptor para acender a luz. Ninguém se levantou para olhar lá fora. Cada um permaneceu quieto em seu lugar, Ninguém perguntou nada, como se aquela estranha noite tivesse nos deixado mudos. Talvez seja porque o inexplicável tenha nos deixado sem reação. Questionar naquela época era perigoso. Talvez, também por isso, aquela escuridão tenha encontrado terreno tão fértil para o assombro.
Por alguns minutos, cinco talvez, a manhã deixou de existir. A sala ficou mergulhada numa penumbra tão profunda que minha memória a chama de noite. Ninguém explicou, rezou ou correu. Apenas esperamos pra ver o que aconteceria em seguida. E tão misteriosamente quanto a manhã mergulhou em escuridão, a luz começou a voltar. Uma claridade tímida, as formas foram reaparecendo, as paredes recuperaram sua cor, os rostos dos colegas voltaram a ser vistos. Nenhuma chuva caiu. O sol voltou a brilhar.
Então, sem nada dizer, a professora retomou a aula como se nada houvesse acontecido, como se o dia não tivesse desaparecido diante de nós, como se não tivéssemos acabado de atravessar, juntos, alguns minutos fora do tempo. Ninguém comentou nada. Era como se fosse um tabu, um assunto proibido que devia ser esquecido. Talvez tenha sido justamente por isso que aquela lembrança ficou tão persistente em mim, que sempre fui de muitos porquês.
Se alguém tivesse explicado, o mistério teria acabado. Se a professora tivesse ao menos feito uma suposição, não haveria o clima de suspense e medo. E o acontecimento ficou sem nome. E a manhã que se fez noite ficou na memória como algo que não se explica, apenas se assiste e se cala. Mas a memória não se calou, a falta de explicação não conseguiu apagar aquela manhã porque ninguém conseguiu fechá-la numa gaveta.
Passara-se os anos. Vieram outras manhãs, outras escolas, outros professores, outras notícias. A democracia foi reconquistada, a liberdade de expressão se fez realidade. Aprendi a pesquisar, aprendi que eclipses existem , que o sol pode desaparecer por alguns minutos em pleno dia. Que tempestades podem se aproximar em silêncio e que a ciência sabe explicar muita coisa.
Às vezes penso que tenha sido um eclipse, às vezes penso que não. Talvez a hora esteja errada, o ano ligeiramente deslocado. Talvez a memória, depois de mais de cinquenta anos, tenha rearranjado seus ponteiros. Embora tenha feito muitas pesquisas, não consegui encontrar um fato ou um eclipse que pudesse explicar aquela manhã.
Mas há uma coisa que não duvido: naquela manhã, naquele colégio, a manhã se fez noite. Eu estava lá, a professora estava lá, meus colegas estavam lá. Não vimos nada de extraordinário no céu. Vimos algo impensável, o sol se apagar. O mundo perdeu sua explicação, sua rotina. E nós, adolescentes, ficamos em silêncio diante daquele fenômeno.
Atualizado em: Seg 21 Set 2026
