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CORPO ESTRANHO - 9º CAPÍTULO - VILA DA AVAREZA

Aquela “desaparição”, aquele sumiço desconcertantemente irreal e fantasmagórico deixou Boruja – o mais novo anarquista e talvez o único da região – num transe hipnótico, com uma cara de zumbi sem causa, que nem um violento puxão de um crocodiliano (pesando meia tonelada) o trouxe de volta à realidade. Só quando foi arrastado pela margem pedregosa, arranhando sua sofrida face, é que ele voltou a si e imediatamente largou a vara antes de sucumbir nos afiados dentes daquele aligator errante. Aturdido, imaginou ter pego um peixe cujo rebuliço n’água atraiu o gigantesco réptil, que roubava seu almoço sem cerimônia ou uma explicação lógica, convincente e científica, afinal aquele monstro de sangue frio jamais poderia habitar àquelas águas.

Começava a achar tudo possível, até chegar ao fim da jornada, aos diamantes oculares, mesmo sozinho. “– A solidão é fera, prima-irmã do tempo, amiga das horas...” – resmungava e tentava se lembrar de onde havia ouvido definição tão exata. É, estava só, mas isso para ele era o menor dos males, já que há tempos fora feito dela prisioneiro, apesar dos finados entes em cuja companhia trilhou àquela psicodélica aventura. Nada a reclamar, só continuar.

Esfomeado e sem o seu instrumento de fisgar os escamosos e rudes, catou larvas e caramujos embaixo das pedras lodosas. Porém era insuficiente o frugal cardápio, precisava forrar bem seu dilatado estômago. Foi quando se lembrou da máquina majestosa deixada pelo pseudo Bakunin. Talvez houvesse uma ferramenta, um acessório para usar na caça. Na mosca ! Dentro dos alforjes laterais encontrou um estilingue além de livros espíritas, filosóficos e de todos os grandes pensadores; antenas de uma raça prestes a se extinguir, entre à ânsia pelo poder e o consumismo desenfreado de suas fontes esgotáveis.

Com pena dos passarinhos embrenhou-se na mata – agora com um verde altivo e revigorado – tocaiando lambús, perdizes e rolinhas. Após certo tempo mirou seu alvo e flexionando bem sua arma rústica, disparou certeiramente numa galinha d’água incauta e despreocupada.

A galinácea, junto com alfaces selvagens e cogumelos alucinógenos, fez do almoço um banquete inesquecível, uma viagem à culinária woodstochiana.¹ Saciado e doidão adormeceu, e num sonho sereno pela primeira vez sentiu a paz profunda dos iluminados. Estava zen, num lugar repleto de riachos e luzes capazes de aquietar feras; se não era o Shangri-lá², gêmeo seria dos mais belos paraísos, já descritos pelos melhores visionários.

 Toda a onírica experiência durou avantajadas vinte e quatro horas, despertando o viajante sem ressaca ou desassossegos de quaisquer espécie. Abestalhado, sorriu à existência revigorado e pronto para a última Vila antes das preciosidades. O Baraíba ainda em ascensão devido à enchente, provocada por àquela incrível precipitação pluviométrica, lavava seus longos cílios convidando-o a encarar Avareza, talvez a pior das comunidades já visitadas.

1: Relativo a Woodstoch, show de Rock’in Roll e 2: Paraíso

Autodidata como era, montou na Harley e fez da ignição o início de uma paixão, que o acompanharia pelo resto da sua caótica existência. Lembrando dos movimentos do seu criador ao pilotar aquela nave em duas rodas, acelerou e passou todas as marchas como se principiante não fosse.

Rodou uns cinqüenta quilômetros já saindo do interminável cânion, cuja trilha acabava num bloqueio causado por uma avalanche e se distanciava do caudaloso Baraíba. Rumava cada vez mais para o Oeste, para o árido sertão até que, após uns cento e vinte mil metros percorridos, deparou-se com Avareza.

Realisticamente surrealista, a Vila era um grande paradoxo, o maior de todos por ele já observado. Composta de dezenas de casebres de barro batido, onde crianças famélicas brincavam em quintais esturricados por um calor de 45ºgraus. Definhadas, eram espreitadas por urubus e abutres cujo apetite, vez por outra, carregava uma para deleite de suas crias famintas.

O barulho da majestosa moto, máquina jamais vista nas redondezas, espantou a todos e levou-os a se refugiarem na dormência dos seus lares. Sedento e diante do sono que o assediava, pousou a “espaçonave” e pediu abrigo na maior das residências (se é que assim se podia chamar aquele mocambo).

- Boa tarde, pode me dar um pouco d’água e um abrigo por esta noite. – perguntou o corcunda.

Lá dentro, um esquivo magricela respondeu em alto, bom tom e com a rispidez dos carentes de sexo.

- Escuta bem moço, daqui não sai nada, só um caneco d’água e a sombra daquele umbuzeiro, onde em cima do carro de boi podes esticar teu esqueleto corcunda, para no outro dia sumires rapidinho. – vociferou um tal de Avarino Nônnôn, aparentemente o líder daquela decrépita comunidade.

- E se tiver algum umbu no pé faz favor de não arrancar, pois tô de oi em ocê, ta entendeno. – completou o avarento finalizando a conversação.

- Tá certo amigo, calma, me dê essa água de quartinha e só. – apaziguou Carlinhos, bebendo a ínfima oferenda.

Dito e feito encaminhou-se a seu improvisado dormitório, em cuja cama poderia contemplar galáxias inteiras, sorvendo seus zevatrons e neutrinos*, única fonte de energia disponível. Sem escolha, mas até achando melhor a companhia das criaturas noctívagas, aconchegou-se naquele “unoplex bovino”, aparentemente a salvo dos ofídios peçonhentos.

Às vezes a exaustão excessiva causa insônia, principalmente com o estômago vazio e a curiosidade a fustigar suas elucubrações, nas quais filosofava:

“- De que são revestidas as paredes do infinito? Talvez de novas e inquietantes elucubrações. Se o muro não existe, de onde escorreu o tempo, esse pulsar esquisito? Decerto que não veio da realidade, mas da ânsia que enumera emoções.”

Agoniado, resolveu brechar, tal qual um voyeur tarado, as frestas de onde bruxuleiavam fótons fugidios. E a cena presenciada por aquele olho mongol o   deixou   enojado,  revoltado  e  com  pena daqueles malditos avarentos. No centro de uma cozinha sem móveis, havia um tanque abarrotado com cédulas e moedas de cobre e ouro, onde a famélica família (composta por uma mãe palito e barriga-d’água, dois meninos com seus nove e onze anos e o pai antipático), refestelava-se no estranho êxtase dos “Tios Patinhas”; seres perdidamente apaixonados pelas coisas materiais.

Com ânsia de vômito e aquele desprezível tripé sentimental afastou-se do buraco, ouvindo antes de onde se originava a pegajosa riqueza. Assim falou Avarino:

- Muié, amanhã voltaremos à Crentina, oh cidade boa né!? Lá arrancaremos mais dinheiro daqueles fiéis trouxas, e que nossa Igreja Buniversal arrecade cada vez mais pá nosso piscinão.

Completamente embasbacado retornou à sua “cama de boi”, evitando pisar em gravetos secos e cascavéis sonâmbulas. Lá ficou deitado e, como tinha em sua mente todo o mapa cósmico, reconheceu e contou trezentas e vinte nove galáxias como se fossem carneirinhos, até o fechamento das suas pesadas pálpebras. Assim adormeceu num profundo sono, tão bom quanto aquele numa fazenda, onde a avó cobria o autor com a colcha aconchegante da infância.  

Os primeiros raios da bela aurora, acompanhados de uma matinada capaz de levantar defuntos, despertou-o enregelado, faminto e sem saber ao certo onde estava.

De repente, para seu espanto e escândalo, notou estar completamente nu em cima do carro de boi. Todos os seus poucos pertences, incluindo sua velha mochila com mantimentos e sua portentosa motocicleta, tinham sido covardemente surrupiados enquanto dormia profundamente. Mas como não percebeu nada? A água do caneco possuía alguma droga? – perguntou a si mesmo já com o ódio a eriçar seus longos pelos pubianos. Puto, saltou e aos berros buscou explicações sem pudor ou vergonha.

- Avarentos acordem, malditos ladrões. Onde estão minhas coisas, desgraçados? – intimou a Vila, sem titubear o despossuído Carlinhos.

- Fora da minha propriedade corcunda, antes que lhe cape os culhões! – respondeu, já armado com uma estrovenga, Avarino e outros aldeões fortemente armados.

Diante da inferioridade gritante e sem ninguém para ajudá-lo, não teve outra alternativa senão correr balançando seu avantajado saco escrotal com hidro-varicocele*, perante o escárnio e a chacota que novamente perseguiam-no aos gritos.

Maldito Bietzsch¹ e seu “eterno retorno”! Lágrimas angustiosas, pudicas e reminiscentes escorreram pela verrugosa face. Novamente era humilhado e vilipendiado gratuitamente pelo prazer sádico dos humanos, inerente à sua natureza demoníaca.

“Digam o que disserem, o mal do século é a solidão. Cada um de nós imerso em sua própria arrogância, esperando por um pouco de atenção!” Foi este lindo e triste conceito que surgiu em sua mente naquele ocaso do seu eu. Era um trecho de Benato Busso², formidável compositor e poeta, morto pela peste da aids.

*Partículas invisíveis, provenientes do Cosmo

*Hidro-varicocele, hidrocele e varicocele, doenças no saco escrotal e no canal do sêmem.

1 : Nietzsch (filósofo alemão) e 2 Renato Russo, cantor e compositor brasileiro.

Achincalhado, recebendo pedradas (ovos e tomates nem pensar, pois avarentos não iam cometer tamanho desperdício), percorreu seiscentos e sessenta e seis metros pela paupérrima avenida, até o final do enxovalhamento indecoroso!

“Ter esperança é hipocrisia, a felicidade é uma mentira e a mentira é salvação.” Pipocavam em sua cabeça os trechos melancólicos de Busso, enquanto tentava se esconder por entre cactos gigantes em cujo interior talvez saciasse a sua sede de anteontem.

Exausto, constatou que, além de avaros, eram amigos dos bens alheios e desenvolveram uma sutil capacidade de subtrair, com ajuda de narcóticos, tudo o que fosse propriedade das inocentes vítimas.

Realmente foi a pior das vilas apesar da perda dos companheiros nas anteriores, pois sua dignidade foi ultrajada sem direito à resposta. Os heróicos amigos tombaram como guerreiros, enquanto ele padeceu vivo, despido da gala e da honra dos combatentes.

Reduzido a um excremento de ácaro tal qual Bollor (um presidente drogado e deposto em um país distante), encolheu-se procurando folhas de bananeira para cobrir sua nudez aberrante. Evidentemente nenhum “calção vegetal”  encontrou  naquela  árida caatinga. Só  desejava  se enrodilhar e permanecer assim como um emboá, até que a vontade de continuar existindo, acendesse a quase apagada centelha de sua alma.

O Sol alcançou o zênite e a Lua despontou por entre xiques-xiques, mandacarus e avelóis, iluminando a desolação incutida na tsunâmica depressão, em cujo fundo jazia o esquecido Boruja.

 “Quando tudo está perdido sempre existe um caminho. Quando tudo está perdido sempre existe uma luz.” – declamou Bolorenta levitando sobre espinhos pontiagudos de Jurema Preta e lançando sobre ele roupas de um elementar duende verde, visitante de outros mundos planetários, muito além da parca e ínfima sapiência humana.

- Meu filho levante-se! – ordenou Bolorenta lentamente se transfigurando, ectoplasmaticamente, em Salete, sua doce mãe desencarnada.

- Disfarcei-me na forma da bruxa Bolorenta, uma entidade elementar estranha, porém bondosa, apesar das gargalhadas guturais. Tudo isso para velar e auxiliar-te nessa dura peregrinação imposta pelo teu destino. Portanto, não podes se encolher nas teias no desânimo e se entregares à megera negra da depressão. – explicou a luminosa Salete irradiando benéficos fluidos em direção ao prostrado Carlinhos.

Com os cabelos em pé e olhos esbugalhados, o aleijadinho só pode balbuciar um quase inaudível pronome:

- Você?

- É, sou eu! Só tens aleijumes físicos, tua alma é tão branca quanto as geleiras do Bártico*, apesar de terdes merecidamente castrado teu algoz circense. – perdoou Laquê ajuizadamente.

- Mãe, meu Deus, que alegria! Abraça-me agora, para que eu possa prosseguir neste carma espinhoso e rude. – suplicou o ex-adotado.

*Ártico

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Atualizado em: Ter 17 Maio 2011

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