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Quem me dera!

Dona Vilma era uma senhora tranquila que vivia no bairro da Urca, em uma pequena casa aos pés do Pão de Açúcar no Rio de Janeiro. Todos os dias, ela suspirava a cada vez que olhava a fotografia do companheiro, que morrera há seis anos atrás. Eles ficaram casados por mais 46 anos. Deste casamento de uma vida inteira, ela teve a bela Manuela.

Manuela namorou Bruno por quatro anos e se casou com ele em uma cerimônia memorável. Com o passar dos anos, Manuela começou a ver que o convívio com marido estava ficando repetitivo e chato em demasia. Bruno estava fazendo algumas coisas, que ela não estava gostando e aquilo a estava aborrecendo.

Então, ela começou a ficar mais fria com ele, se afastando cada vez mais dentro da sua própria casa. Os beijos, que antes eram quentes, foram se tornando selinhos secos e sem graça. As coisas eram feitas, como se havia uma obrigação de contrato de risco. Sem pensar, Manuela arrumou as malas, depois de uma discussão acalorada com Bruno e foi para casa da mãe.

Chegando lá, a mãe estranhou a presença da filha de mala em mãos:

-Olá filha, que saudades?... Ué? Que malas são estas?

-Briguei com Bruno! Não dá mais para aguentá-lo.

-Entre filha! Me explique isso melhor e depois você conversa, com mais calma, com ele.

-Não tem mais conversa mãe. Acabou! - disse ela entrando, colocando as malas no chão e sentando-se no sofá.

-Como acabou? O que aconteceu? - falou ela fechando a porta e se sentando do lado da filha.

-Tive uma discussão feia com ele.

-E o que levou você a ser tão radical?

-Bruno está tão diferente, mãe... todas as vezes que chega do trabalho, diz que está cansado e vai dormir depois da janta... Quando toma banho esquece a toalha molhada enrolada encima da cama... Ele está roncando mais do que o normal e quando nós saímos, muito raramente, quer voltar rápido para casa querendo descansar... Quem aguenta uma situação desta?

-Eu aguentaria!

-O que?

-Eu aguentaria!

-Que nada! A senhora casou com um homem que era um santo, mãe! Papai era uma pessoa compreensiva. - disse ela se levantando e buscando o retrato do pai, que estava sobre um dos moveis da sala.

-Ele em nada se diferenciava de Bruno, Manuela!

-Não tem nada a ver mãe. Papai não era desmazelado igual Bruno... Eu nunca o vi deixar uma toalha se quer, ou qualquer objeto fora do lugar.

-Quando você chegava, eu já tinha recolhido... Pois sabia, que os pensamentos dele estavam em outro lugar: nas contas que tínhamos que pagar no final de mês.

Manuela ficou olhando para a foto do pai e depois passou para a mãe. Dona Vilma a pegou começou a alisar.

-Quem me dera, ter os roncos dele de volta;

quem me dera, ter que pegar as toalhas da cama novamente;

quem me dera, recebê-lo de braços abertos de manhã, quando acordávamos.

quem me dera, deitar no peito dele na cama, enquanto dormia;

quem me dera, voltar para casa mais cedo das festas; para estar mais tempo em sua companhia;

quem me dera, abraçá-lo no momento que chegava cansado do trabalho;

quem me dera, sentir o cheiro dele todos os dias;

quem me dera, ser envolvida pelos braços fortes dele;

quem me dera, chorar junto com ele nas horas de tristeza;

quem me dera, rir junto com ele das besteiras que falava de vez em quando;

quem me dera, ter apenas um selinho, como beijo;

quem me dera, se ele estivesse aqui do meu lado em silêncio;

quem me dera, ouvir a respiração dele, enquanto pensava;

quem me dera, vê-lo secar as minhas lágrimas de dor;

quem me dera, ver o brilho do sorriso dele outra vez;

quem me dera, minha filha!

Quem me dera!... Só sabemos que realmente amávamos alguém, quando Deus resolve levá-lo. Não deixe o arrependimento fazer parte da sua vida, pois eu aproveitei tudo que a vida pode me dar com o seu pai. Eu te digo uma coisa... ninguém foi mais feliz no mundo do que eu nesta vida, minha filha. Ninguém!

Manuela percebeu a injustiça que estava fazendo a ela mesma e a sua felicidade. Aquilo surgiu como uma luz no fim do túnel.

O maior erro dela foi querer que o marido fosse igual a ela, mas ela se apaixonara pela diferença que ele tinha.

Então, ela pegou as malas de volta e foi em direção a porta.

-Para onde você vai, minha filha?

-Não quero viver no “quem me dera”... Quero aproveitar tudo agora.

Ela voltou para casa e fez as pazes com Bruno.

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Atualizado em: Qui 2 Jun 2011

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