- Causos
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Se meu time não fosse campeão...
- Acabou!
Gritou, pulou, cantou, sorriu, gargalhou, dançou, nem era carnaval.
Equivalgina... Carrega esse nome como uma cruz, assim se maldiz nos momentos que são seus, só seus. Além do mais não é um tipo atraente. Cabelo fusco, escorrido, cortado curto, com franja. Ligeiramente estrábica, usa aqueles óculos “fundo de garrafa”, além do que é dentuça e magra, aliás, magérrima. Não tem sequer apelido, embora tê-lo fosse comum em casos como esse.
Por ser motivo de arrelia quando pequena aprendeu a se defender jogando futebol, empinando arraia e vez por outra saindo na mão, mas só por necessidade. Cresceu, aprendeu capoeira, corte e costura, tirou o normal e fez concurso público.
Teve poucos namorados ou quase. O mais duradouro teria sido Sidnei que trabalhava na pastelaria, esguelhado de nascença e por isso mesmo apelidado de Lindo-Olhar. Contam que o romance durou o tempo da cirurgia, porque quando recebeu alta passou por ela na recepção do Hospital sem reconhecê-la.
Afora, só Tony Ramos, Gianecchini, Brad Pitt, Richard Gere, cujas fotografias cuidadosamente emolduradas decoram seu quarto e povoam seus sonhos.
Não se sabe exatamente a razão, mas Equivalgina revelou-se apaixonada torcedora do Bahia de frequentar a Fonte Nova com assiduidade escolar.
De nada adiantava o que Dona Carmelita, vizinha, amiga e única confidente chamava de “derivativo”, pois a ela faltava o mais importante: amar e, pelo menos, sentir-se amada.
Equivalgina é devota fervorosa de Santa Engrácia que dizem ser a protetora das feias.
Trabalha numa creche da prefeitura e pelo menos ali as crianças dão-lhe um pouco de carinho, embora a chamem de “Tia Feia” - coisas de criança e talvez por isso não ligue tanto.
Um segredo viu.
Aprendeu a fazer crochê e tece coisas “muito bonitinhas”, o que ajuda passar o tempo, sem considerar a renda extra.
O que se relata, aconteceu num domingo de maio, mês das noivas, por ironia no Barradão. Afinal de contas o seu Bahêa enfrentava o arquirrival Vitória. Arrumou-se como de costume caprichando na indumentária: tênis, short bem curtinho apesar das pernas de sabiá, baby-look do Bahia, boné e bandeira – uma graça. Chegou cedo e logo estava confortavelmente acomodada. O movimento das torcidas era um espetáculo à parte. Bandeiras agitadas, gritos de guerra ecoando alternadamente: “Bora Bahêa!”... “Nêêêgooo!”... Embevecida nem viu o tempo passar.
“Casamento é uma caixinha de surpresas!”. Reescrevam, pois, o velho apotegma, principalmente pelo caso e pelas circunstâncias.
Domingo, 24 de maio de 1998 cerca de 30 mil torcedores lotam o Barradão para assistir mais uma decisão entre Bahia e Vitória. O Bahia entra em campo com a vantagem de poder perder até por 1x0 para ganhar o 2º turno e sagrar-se campeão baiano. Ganhou o primeiro turno e no primeiro jogo na Fonte Nova venceu por 2x0. A torcida do Bahia invade o Barradão cheia de esperança. Quando o jogo começa o que se vê é o Bahia jogando com o regulamento debaixo do braço e o Vitória com a obrigação de ganhar parte pra cima, manda no jogo encurrala o Bahia, mas não consegue fazer o mais importante – o gol. Jean agarra tudo. Assim termina o primeiro tempo. Ufa! O segundo tempo começa e o que se vê é uma repetição do primeiro. Só que aos seis minutos Evandro recebe um belo passe de Fernando, entra na área e bate forte. Jean ainda toca na bola, mas não consegue evitar o gol. A torcida rubro-negra incendeia e empurra o time rumo ao segundo gol que daria o título do segundo turno ao Vitória que sonhava em conquistar o inédito tetracampeonato.O Bahia por um momento consegue equilibrar o jogo, mas com a expulsão de Souza que entrara no lugar de Everton Luiz, o técnico do Vitória coloca Kleber no lugar de Fernando e consegue mais agressividade ao ataque do Leão. Contudo Paulo César e Flávio vão para o chuveiro mais cedo e o jogo volta a ficar equilibrado. O 1x0 foi mantido até Sua Senhoria soprar o apito e a Nação Tricolor fazer a festa, com direito a volta olímpica em pleno Barradão. Acabara-se com o Troféu Caetano Veloso o jejum de três anos.
Eufórica, abraça o torcedor ao seu lado e beija-o efusivamente na boca. Um beijo só bastaria, mas foram muitos e, surpreendam-se, todos correspondidos. Amada, amantes, saíram do Barradão em comemoração terminando em Feira de Santana cujo motivo não se sabe por que nunca foi explicado até hoje.
Em última instância, casou-se com Zezé Bacurau, que tem o dobro de sua idade, é manco, doca, ferrenho torcedor do Vitória, mas são felizes para sempre.
