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Uma luz no caminho
Toda manhã ao levantar vai até o bar da esquina, suas mãos tremem, até o momento em que sorve com gosto e raiva o primeiro copo do dia!
Assim o faz há muitos e muitos anos, mais que uma rotina é o vicio que corroeu sua vida, sua alma e sua dignidade.
Por causa dele ou por ele perdeu família, casa e emprego, hoje vive de lembranças, de fantasmas que o atormentam durante seus delírios nas noites longas em que preferia ter morrido.
Dizem na vizinhança que foi uma traição que o levou a bebida, outros falam que foi a timidez, os amigos e uma coisa leva a outra.
Quando fica alcoolizado chora e fala de um passado onde passeava com a família na praia, em meio a muitas risadas e cervejas, na volta para casa acabou capotando o carro e matando sua filha.
A esposa que vinha tolerando suas bebedeiras cada dia mais freqüentes, não conseguiu nunca mais olhar em seu rosto, dias depois do enterro da menina foi embora para nunca mais voltar.
Dizem que é conversa fiada de boteco e que todo bêbado carrega uma tragédia para contar.
Real motivo ninguém sabe ao certo, mas algo muito grave lhe roubou a alegria de viver, seu rosto é apenas um amontoado de carnes com sulcos fundos que o deixam mais velho, seus cabelos branquearam fora de época e suas costas encurvaram com o peso de seus ombros.
Todos os dias o vejo de minha janela, seus passos cada dia mais arrastados pelo tempo e a fraqueza das pernas, o álcool a destruir e a consolar ao mesmo tempo, os meninos da rua falam mal e fazem chacota dele, mas nada o atinge a não ser a dor que dilacera sua alma.
Hoje quando ele voltou para casa seu semblante estava diferente, parecia ver alguma coisa que só era visível a seu olhar.
Depois daquele dia a rua nunca mais foi à mesma e no bar da esquina sua história é sempre repetida.
No lugar onde José morava foi criado um centro de reabilitação para ajudar crianças de famílias com pais alcoólatras.
Aquela noite a doze anos atrás, José chegou em sua casa e uma menina o esperava, ela lhe disse que não se culpasse pela morte de sua filha e que a morte é apenas o recomeço, ele chorou e lhe pediu ajuda.
A menina disse que a resposta para todas as suas angustias estavam dentro de si próprio, apenas precisa encontrar a paz.
_Ajude outras crianças a serem felizes e cumpra a missão a que foi designado.
Internou em uma clinica para desintoxicar e por ali permaneceu meses, aprendeu a viver um dia de cada vez.
Através do grupo alcoólatras anônimos conheceu Helena e juntos começaram o projeto que mudou suas vidas e o de muitas crianças. Quando abro minha janela lembro-me daquele olhar a quase doze anos atrás, quando José encontrou a luz que o tirou da escuridão do alcoolismo.
