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Fora de Alcance (Capítulo Dois)
Emmanuelle acordou um pouco antes do amanhecer, e viu Douglas já desperto sentado na cama, de costas para ela, pensativo. Ela se aproximou e tocou-o no ombro.
— Douglas?
Ele virou-se lentamente e seus olhos se encontraram. A expressão dele estava indecifrável.
— Você está bem? — ela perguntou.
— Só estarei bem quando entender exatamente o que se passou na noite de ontem.
— O que faremos agora?
— Instantes atrás dei uma olhada rápida na repercussão da história, e a única pessoa suspeita do crime até o momento continua sendo a mulher misteriosa que acompanhava o senhor Rossano.
— O Salvatore sempre fazia questão de dizer que quanto menos gente soubesse da nossa real história melhor seria.
— É, ele só confiou esta real história a mim, que fui o único homem da inteira confiança dele.
O olhar de Emmanuelle ficou vago de repente.
— Não é bem assim, Douglas. A história completa você ainda não sabe. Nem em você ele confiou para contá-la.
Douglas se levantou e postou-se diante dela. Tomou seu rosto entre as mãos tentando fazer com que ela olhasse para ele, mas a garota fazia de tudo para desviar o olhar.
— Eu preciso saber da história toda, Emmanuelle. Você precisa me contar, preciso formar uma opinião que ajude a esclarecer esse episódio.
— Sinto muito Douglas, não posso te dizer. Não agora.
Percebendo que ela estava resoluta em não lhe dizer absolutamente nada, Douglas desistiu e repeliu-a de si.
Emmanuelle permaneceu observando-o. Sabia que ele estava irado, mas não podia fazer nada para mudar isso. Ela prometera a Salvatore que ninguém mais saberia da história completa, e pretendia manter a promessa. A questão ali não era a falta de confiança em Douglas, mas sim a lealdade ao homem a quem ela devia a sua vida.
— Vista sua roupa, vamos partir imediatamente — ele anunciou. — E use isto, por via das dúvidas.
Ele jogou-lhe uma peruca, e Emmanuelle logo cobriu com ela seus cabelos loiros. Aquele cabelo escuro no meio das costas ficara mais natural, e Douglas assentiu com a cabeça concordando com o resultado que previra de antemão. Com a roupa que ela agora vestia, podia muito bem passar despercebida por quem quer que fosse. Parecia uma mulher comum, que não é necessariamente observada ao passar.
— Estou pronta, podemos partir?
Sem dizer palavra alguma, Douglas pegou todas as coisas deles que estavam no quarto e colocou no carro. Fechou a conta no motel, e partiram.
***
O dia começava a amanhecer quando eles pegaram a estrada. Como previsto, logo chegaram a uma barreira policial, e Emmanuelle ficou um pouco apreensiva. Douglas tomou sua mão e ela virou-se para sorrir-lhe nervosamente, mas percebeu que o gesto fora puramente automático.
— Documentos, por favor.
Douglas, que já esperava por isso, apanhou seus documentos e os entregou ao policial de feição dura e aparência de quem não dormira por pelo menos um dia inteiro. Emmanuelle olhou para ele enquanto retirava de dentro da bolsa a carteira de identidade, estendendo o braço e entregando-a também ao policial logo em seguida.
Após um momento que pareceu uma eternidade para ela, o policial devolveu-lhe o documento, e a Douglas, acenando para os colegas que eles estavam limpos.
— Tudo certo, podem prosseguir — disse ele, desejando-lhes uma boa viagem logo em seguida.
Douglas agradeceu superficialmente, e Emmanuelle permaneceu observando-o enquanto ele fazia o carro atingir o limite máximo de velocidade permitido naquela estrada. Ele parecia completamente desligado do mundo, ignorando-a, e não havia nada que ela pudesse fazer agora para mudar isso. Ele precisava confiar nela.
Mas de repente um carro surgiu de não se sabe onde, ganhando velocidade total na pista e aproximando-se cada vez mais por trás deles. Douglas percebeu a tempo de acelerar, caso contrário seria jogado para fora da estrada.
— Pára logo esse carro, seu filho da puta! — Gritou o perseguidor com a cabeça para fora do vidro.
— Como se eu fosse imbecil o bastante... — Douglas murmurou para si mesmo, enquanto o velocímetro aumentava gradativamente.
— Eu estou com medo, Douglas.
Ele pareceu não ouvi-la. A adrenalina tomara conta de todo o seu corpo, e a estrada parecia agora pertencer apenas aos dois carros. Ele pensava e acelerava, e então tomou uma atitude. Virou o carro no meio da pista e freou bruscamente. O outro veículo não teve tempo o bastante para reagir, e capotou numa tentativa falha de se desviar.
Emmanuelle saiu rapidamente do veículo cobrindo a boca com as mãos, numa tentativa de segurar o vômito que chegava à sua garganta. Douglas foi até onde o carro estava capotado, e encontrou o motorista murmurando frases sem sentido.
— ...ele pediu que eu vigiasse... — ele dizia. — Eu cumpri a promessa, mas não cheguei a tempo...
— Do que você está falando? — Douglas perguntou, mas o homem continuava a insistir naquelas frases sem nexo.
Ao perceber que Emmanuelle vinha agora em sua direção, foi ao encontro dela para cobrir-lhe os olhos com as mãos; atitude que ela recusou prontamente.
— Você não precisa ver isso, não faz nem um dia que...
— Por que ele estava atrás de nós daquele jeito, Douglas? Quem é esse cara?
— Eu não sei, Emmanuelle. Eu também adoraria saber.
Ela segurou a mão que a envolveu, e começaram a caminhar em direção ao carro deles quando Emmanuelle ouviu também os murmúrios:
— ...Salvatore... ele não confiava... ele pediu que eu vigiasse...
Seu coração acelerou, e ela sentiu-se tremer por dentro. Soltou-se das mãos de Douglas e voltou para descobrir quem exatamente era aquele homem, mas foi arremessada para trás quando o carro capotado explodiu subitamente.
Douglas correu até ela, tomou-a nos braços e levou-a desacordada até o carro. Voltou ao local do acidente, mas uma densa nuvem de fumaça dominava o lugar, então ele voltou e partiu à velocidade máxima. Ouviu ao longe as sirenes já se aproximando do acidente, atrás deles, e seguiu sem pensar em mais nada que não fosse chegar são e salvo, com Emmanuelle, a qualquer lugar em que pudessem descansar enquanto ele refletia na situação.
Algo não cheirava bem naquela história, afinal, ele ouvira muito bem a última frase do sujeito. Teria agora de descobrir quem ele era e o que exatamente Salvatore Rossano pedira a ele, se é que havia de fato alguma ligação entre os dois.
