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Simulando
Beba um pouco, beba… saboreie o prazer do imaginar. Não teremos mais chances, não teremos mais refúgio, não teremos mais esperança. Todos os nossos traços foram apagados pela tempestade do tempo. Nossa beleza interior, outrora sugada pela ânsia de sobreviver, mantém-se ausente dos sonhos. Sente-se em sua poltrona, no conforto desconfortável de sua gaiola. Perdão, deveria ter dito “sala”. Pegue o controle remoto e tenha o prazer de acreditar que seus dedos decidem o programa que já é uma alternativa imposta antes mesmo que possa cogitar outro canal. Alimente-se de ilusões e acomode-se à frieza e frustração do mundo real ao amanhecer, enquanto constata o quão distante da plenitude se encontra. Tente dizer a si mesmo que não se importa e sorria aos tiques nervosos como se estes não existissem. Sinta um arrepio, sorria para a felicidade alheia, chore pela encenação preparada e tenha certeza antes de fechar os olhos à noite de que você certamente sabe que tudo é uma bela simulação. Convença a si mesmo, por hora, de que não faz diferença alguma saber ou não. Console-se afirmando veementemente que absolutamente todos mentem sobre tudo, até sobre sua sorte e felicidade. Viva o inferno desejando o paraíso, pagando por pecados nunca cometidos e crendo em algo que provavelmente nunca o faria feliz. Prove do amargor da vida real para que às 7:00 esteja com a máscara intácta para mais um dia de simulção.
Atualizado em: Ter 30 Jun 2026
