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  • Complexo de Afrodite

    “O Reino dos Céus é semelhante a um Rei que comemora o casamento de seu filho (Mt-22:2)”, e um dia presenciarei isso em todos os casamentos da humanidade...
    E considerando que o Reino dos Céus é simplesmente um Reino erigido pela verdade não religiosa e não científica atual, quantos casamentos hoje seriam comemorados com alegria e total união de seus participantes.
    Mas...
    Se eu pudesse contar a quantidade de Afrodites que se encontram no mundo hoje seria esta quantidade o tamanho do mundo sem contar as suas respectivas descendentes onde uma coisa é certa de todas as Afrodites existentes algumas me chamaram a atenção e é destas que eu falarei.
    Antes preciso lembrar que uma Afrodite é aquela mulher que, independente de seus diversos romances em vida, diversas histórias que a envolve, o que claro será fatídico para personifica-la, permite entre todas as Afrodites um ‘que’ em comum, o ser Afrodite sempre amada e cuidadora de seu Cupido no seu mais elementar ‘ser’ em si mesma.
    Da Psique esta com certeza nestas entrelinhas se aqui descrita ou não, será sentida. E do Cupido conheceremos outros universos de Afrodite que o envolvem como as pequenas e futuras Afrodites também.
    Mas quem são realmente estas Afrodites e o que leva este amor muitas vezes exagerado, muitas vezes sufocado, muitas vezes manipulado, muitas vezes separado, esquecido, abandonado e sempre revestido de um certo oculto quase manifesto a acontecer e/ou sem acontecer, acontecendo no próprio oculto das coisas ser o que é...
    E é isto que mergulharemos em o Complexo de Afrodite.
    05 de agosto de 2016.
    Pequena Afrodite e o Monstro Embriagado
    Não conheci pessoalmente esta Afrodite, mas o relato de sua filha me foi suficiente.
    Contava sua filha que era ela uma Afrodite dedicada, guerreira, sonhadora como todas as Afrodites.
    Era ela aquela Afrodite bela, cozinheira, amada pelos filhos e filhas, mas que em um determinado momento do dia se deparava com uma situação monstruosa.
    Dizia a filha que um ser entrava em sua casa com um aspecto cruel e embriagado muitas vezes a noite, apontava sobre ela, sobre a Afrodite dedos sujos e junto com uma grande boca aberta gritava horrores e muitas vezes a espancava.
    Esta quem me dizia, a filha mais velha, em frente a sua Afrodite de tão pequena que era nada podia fazer, apenas assistia com medo e sufoco os maus tratos de sua Afrodite, assistia aquela Afrodite que a alimentava, cuidava e a embebia de leite ser muitas vezes quase devorada por aquela boca grande tão suja como seus dedos.
    Aquela Afrodite que ao mesmo tempo guerreira era tão frágil e perfeita e que insistia talvez por ‘amor’ em enfrentar do seu jeito Afrodite e não mais outra Afrodite de ser aquele monstro todos os dias, apenas enfrentava, do seu jeito Afrodite, mas por incrível que pareça, aquela embriaguez nunca teve fim, e aquela Afrodite a enfrentou por toda uma vida. Sim, toda uma quase miserável vida, pois se não fosse o Monstro Embriagado, talvez tudo seria diferente!
    A filha mais velha de Afrodite, desta Afrodite, por sua vez, foi crescendo e em um determinado tempo percebeu que poderia defender sua Afrodite, poderia enfrentar aquele monstro, mas muitas, muitas tentativas foram feitas, e aquela menininha de Afrodite já crescida não conseguia de alguma forma organizar aquela loucura defendendo casualmente sua Afrodite e assim junto a isso não só agora tentar de alguma forma defender Afrodite certeiramente, a sua amada Pequena Afrodite, como todos os filhos e filhas de seu clã e isto era nas suas noites acordadas uma meta a ser meticulosamente labutada.
    Ah o amor por Pequena Afrodite era tão excelso e ao mesmo tempo tantas dúvidas pairavam na cabeça daquela filha mais velha de Afrodite, que questões deste cunho no dia a dia eram normais:
    Porque aceitar esta monstruosidade embriagada que a todos nos fere?
    Porque permitir que isto aconteça?
    Minha Pequena Afrodite que me aleitou, me pegou nos braços, me amou, me alimentou, me envolveu por uma vida inteira não é capaz de desatar este nó, este laço dos lados demoníacos dos Deuses?
    Que monstro é este que fere minha Pequena Afrodite e meus irmãos e irmãs?
    Como resolver? O que posso fazer? Como fazer?
    E tentava, e tentava.
    Todos os dias quando aquele monstro chegava a sua casa embriagado e a filha de Afrodite cada vez mais esbelta, forte e crescida se deparava com ele contra sua Pequena Afrodite, contra todo o seu clã, desfalecia; desfalecia, mas não fisicamente e sim mentalmente, sentia até neste desfalecimento uma leveza e mal estar físico, porque suas pernas por mais que a cada vez conseguia enfrentar aquele monstro e aquela embriaguez: bambeavam.
    Mas Crhonos o tempo não lhe parecia nunca suave, pois dotado de seu Aeon aparentemente eterno nunca parecia predispor o tão esperado Kayros daquela situação e por isso distante de suas orações e medos, já realisticamente disposta a entender que não havia mais esperanças, principalmente por aquele ser forte, mas ao mesmo tempo sensível e medroso de sua Pequena Afrodite, desta Afrodite, e não outra; ela a filha em seu crescendo junto a Crhonos percebeu que o Éter tinha muito a lhe dizer.
    E em uma serena noite aparente vinha ali o Éter tocar em suas narinas suavemente através de Zéfiro e assim ela entendeu, uma mortal finalmente entendeu que a partir dali para se chegar ao Kayros no Aeon de Chronos era necessária sua transformação e que já vinha sendo perceptível fisicamente nos pelos de suas pernas, nos pelos de suas axilas, nos pequenos brotos mamários de sua pré-adolescência atado aquela perceptiva já pré-definida de amor e ódio por Afrodite e incrivelmente de amor e ódio por aquele Monstro Embriagado.
    Porque os Deuses deram a minha Pequena Afrodite, pensava ela, este Monstro Embriagado provindo das profundezas de Hades quando se deparado a Dionísio após o entardecer e muitas vezes nos dias em que Apolo não provia o trabalho e o fruto das colheitas?
    Porque meu Anima tocado por Zéfiro através do Éter para entender as determinações de Chronos em seu Aeon do Kayros naquela noite aparente consegue amar e odiar Pequena Afrodite e este Monstro Embriagado ao mesmo tempo?
    Amar e odiar?
    Amar e odiar.
    Porque estou começando a ter vontade de me aproximar também de Dionísio? 
    (continua....)
  • Crime Perfeito

    Perina se levantou e foi até a cozinha, queria transformar toda a sua raiva em uma ideia de vingança, precisava encontrar uma forma de ridicularizar sua inimiga.

    Abriu os armários, seus olhos fixos e atentos a qualquer insinuação, a qualquer sugestão para um crime perfeito.

    “Cozinha é o melhor lugar para se premeditar um crime. Aliás, uma mente criminosa com certeza nasce ou se desenvolve aqui.”

    Pensou ela determinada, enquanto abria as gavetas.

    Um objeto atraiu seu faro, seus olhos fixaram-se nele, pura concentração, nada era mais importante naquele momento, nada que conseguisse quebrar aquela atração. Uma força magnética criou-se ali.

    Pegou-o, caminhou até a sala, sentou-se no sofá e explorou-o primeiro com os olhos e depois com os outros sentidos. Consumiu-o completamente, e depois daquela experiência intensa e voraz, deixou seu corpo cair cansado, deitando-se no sofá.

    Suas mãos sem forças se abriram e soltou a prova do crime, o objeto escorregou pelo sofá e caiu no chão, o conteúdo devorado até o final, sobrava apenas a embalagem daquela deliciosa e intensa experiência.

    Passado o torpor, Perina se sentia péssima, novamente foi dominada por aquela força e impetuosamente comeu toda a barra de chocolate. Daquela forma, jamais conseguiria colocar em ação sua vingança.

    Pra isto precisaria pensar como uma verdadeira criminosa. Saiu atrás de uma ideia assassina e o que conseguiu foi acrescentar mais colesterol à sua coleção devorando aquele tablete inteiro de chocolate.

    Perina era compulsiva, desde pequena, por sorte não tinha tendência a engordar, mas tinha problemas com o espelho e com a autoestima, o que afetava e muito suas relações. Eram sempre superficiais.

    Já havia pensado em procurar um médico, chegara até a marcar. Mas sempre desistia, não era fácil abrir mão daquela liberdade gastronômica.

    Mas agora era diferente, precisava começar a pensar com a cabeça, ou emagrecê-la, sim porque de tanto pensar em comida, achava que sua cabeça já estava gorda.

    Trabalhava atualmente numa loja de utilidade doméstica. Foi lá que conheceu Junia, uma mulher magra, linda, desenvolta... mas uma cobra, que além de colega de serviço era também vizinha, morava três casas depois de Perina.

    Junia era má por natureza, inventava mentiras, colocava amigo contra outro, fazia as maiores armações e saia de boazinha. Com Perina então, ela vivia aprontando.

    E desta vez Junia tinha passado dos limites, aprontou uma que Perina evitava até pensar, falar com os outros sobre aquilo então, de jeito nenhum.

    Ela injetou corante num chocolate que Perina amava e aqueceu – o um pouco. Quando Perina foi comê-lo ele estava todo derretido, e gulosa como era, se lambuzou toda. E o resultado, mesmo depois de lavar ficou com o rosto e as mãos todos manchados, deixando claro pra quem quisesse ver que tinha, como uma criança recém-nascida se sujado inteira para comer.

    As pessoas que já conheciam bem sua compulsividade, chegavam a olhar com dó pra ela, e fingiam não perceber aquela catástrofe.

    Aquilo despertou em Perina o que ela tinha de pior. Iria controlar sua fome para satisfazer seu ideal mais profundo: a vingança.

    Precisava de uma ideia.

    Abaixou e pegou a embalagem de chocolate e foi pra cozinha preparar o jantar. Ali pensando no que fazer... Veio o insight:

    “Lógico, comida envenenada, como não pensei nisto antes, uma comida irresistível e envenenada. A mesma arma da inimiga.”

    Escolheu a receita, planejou tudo. Tinha todos os ingredientes, faltavam apenas os morangos. E ela queria colocar numa travessa floral que tinha na loja que trabalhava, que aliás, ainda estava aberta. Resolveu dar um requinte de crueldade à sua vingança, ligou para Junia e pediu para que ela trouxesse morango frescos e a travessa quando viesse do trabalho. Falsa como era, ela se prontificou imediatamente.

    A quantidade de veneno tinha que ser bem dosada, senão poderia até matar. Decidiu colocar todo o frasco, porque sabia que Junia comeria um pedaço pequeno, assim teria uma baita dor de barriga e mais alguns incômodos. Era uma vingança arriscada, mas valia a pena.

    Lavou toda a louça, pôs o lixo pra fora e sentou no sofá para descansar.

    Mas enquanto descansava pensou melhor e desistiu da vingança, aquilo nada tinha a ver com ela, Junia era do mal, ela não.

    Estava decidida, pela manhã iria jogar a sobremesa fora e depois procurar um médico e começaria um tratamento, tudo aquilo já estava começando a mexer com seu caráter.

    Mas tinha sido bom pensar e executar até ali aquela vingança, era como um desestressante. Agora ia seguir com sua vida.

    Estava tão cansada que dormiu ali mesmo assistindo televisão.

    Perina acordou assustada, tivera um sonho tenso, mas delicioso. No sonho ela levantara e encontrara um pavê embrulhado pra presente em sua geladeira e comera quase todo.

    De tão intenso o sonho, ela se sentia até sem ar. Levantou-se e sentiu o corpo pesado, a cabeça girando, e muita tontura. Com muito esforço, foi pegar um copo de água.

    Abriu a geladeira e lá estava a sobremesa desembrulhada e comida quase toda.

    “Não foi um sonho!”

    Tentou entender, mas seus sentidos foram sumindo e seu corpo pesando até que caiu morta no chão.

    A faxineira chegou mais tarde e chamou a polícia. Encontraram o pavê envenenado e na investigação descobriram que foi Junia quem comprou os morangos e a travessa floral.

    A conclusão da polícia foi a óbvia: Junia fez uma sobremesa envenenada e deu pra Perina.

    Junia chegou algemada á delegacia.

    -Não fui eu, eu juro, ela que me encomendou a travessa e os morangos.

    Mas o delegado, que era gordinho estava enfurecido com tamanha maldade.

    -Você vai pagar pelo mal que fez a esta moça. Tentou um crime perfeito, seu álibi até que é bom, mas vou te alertar.

    -CRIMES PERFEITOS NÃO EXISTEM!

  • Desejo de vingança - Segunda parte

    Tereza saiu de casa abandonando tudo. Deixando para trás a vida triste e sem perspectivas que tinha. Juntou o pouco que lhe pertencia, roupas, um pente velho e um livro. A faca que usara para matar o pai foi colocada numa espécie de estojo e o mesmo foi colocado dentro da mala com os demais pertences.
    Passou pela cozinha e deu uma última olhada para o pai. Nestor estava deitado, morto, com as mãos cheias de sangue e o olhar vidrado, Tereza teve a impressão de que o cadáver do pai olhava para ela, mas na verdade, Nestor não olhava para nada.
    Fechou a porta atrás de si e cerrou os olhos. Por um milésimo de segundos as imagens de Nestor em cima dela vieram à tona. Ele a penetrava freneticamente, num vai e vem tresloucado, Tereza tentava se desvencilhar, dando socos, mas era em vão, ela não tinha forças, estava exausta, morta.
    Tornou a abrir os olhos e andou. Ao redor dela casas; tão humildes quanto a que ela vivia, feitas de tijolo e barro, sem acabamento, os telhados eram de palha e o chão de terra batida. Ao redor árvores enfeitando as ruas, no alto um céu de estrelas carrancudas, no chão um silêncio de dar medo, terror que ela sentia explodindo no peito.
    Adeus vida de pesadelos. Nunca mais se deixaria ser tocada por outro homem sem sua permissão, talvez ela não quisesse que outro a tocasse.
    Não demorou muito para ter a vida transformada. Foi para a cidade grande e lá começou a trabalhar em uma lanchonete. Ali ela servia as refeições, tinha arroz, feijão, carne assada, salada e até sobremesa; tudo muito simples, mas feito com amor e carinho pelas cozinheiras.
    Todos os dias um rapaz de cabelos negros, olhos verdes e bem vestido ia a lanchonete almoçar. Sentado a mesa ele pedia arroz, carne e salada. Tereza lhe servia, sempre sorrindo, o rapaz sempre sorria de volta. Certo dia o homem, após terminar a refeição limpou a boca com um guardanapo, fez um sinal com as mãos pedindo que Tereza se aproximasse. Tereza caminhou enquanto tirava do bolso do avental sujo de gordura um bloquinho de anotações onde anotaria um possível pedido.
    - O senhor deseja mais alguma coisa? Sobremesa? – Perguntou Tereza, a voz firme, porém, o coração disparado.
    O homem sorriu, ajeitou a gola da camisa, relaxou na cadeira, tirou os cotovelos repousados na mesa e olhando diretamente nos olhos de Tereza, disparou:
    - Aceita sair comigo?
    A pergunta foi suficiente para fazer Tereza girar nos calcanhares, perder o equilíbrio e quase desabar no chão. O homem a segurou pelo braço. Tereza sentiu os dedos dele, apertando com leveza seu pulso direito, mas desvencilhou-se. Ficou com medo. A lembrança de Nestor abusando dela, rasgando seu vestido, e tentando beijar sua boca.
    - Você parece nervosa, moça. Perdoe-me.
    Tereza não sabia o que fazer. No restaurante lotado todos os olhares se voltavam para a cena. Refeita, Tereza respirou fundo. O homem, sem graça, a olhava admirado.
    - Não foi nada, eu é que não estou me sentindo bem, com licença. – Disse ela, saindo, ainda zonza.
    Entrou no banheiro, foi até a pia, abriu a torneira, deixou a água cair e jogou um pouco no rosto. Precisava acordar recompor-se e retornar ao trabalho. Desde que foi embora de casa não se envolveu com homem algum. Fechou seu coração e trancou seus sentimentos bem lá no fundo, num lugar onde nem mesmo ela pudesse ter como recupera-lo, no entanto, a presença daquele homem parecia ter mudado as coisas.
    Envergonhada não voltou mais ao trabalho. Tirou o avental e o jogou em cima da pia. Pegou a bolsa e saiu pela rua. Lá fora um trânsito de carros, a sua volta prédios e mais prédios; alguns comércios a cercavam. Eram bares, restaurantes, lojinhas de ferragens e até um cinema, cuja fachada anunciava filmes que Tereza já vira pela televisão.
    Caminhou apressadamente, no ar um cheiro de esgoto misturado com poluição, pessoas falando alto e o maldito cheiro de cerveja que lhe trazia amargas lembranças.
  • ÉBRIO

    A penumbra da noite perpassava a janela de vidro e lançava a luz do luar sobre minha fisionomia, outrora radiante, hoje decadente. Os goles da bebida desciam rasgando minha garganta. No início a substância me causava trejeito e um leve reviramento no estômago, mas hoje ela é pra mim o que a água é pra uma pessoa “normal”.
                Esse álcool que agora rasga minha garganta em fervoroso prazer já destruiu minha vida. Essa bebida demoníaca; levou-me a ser abandonado por minha família, levou-me a ser uma vergonha aos meus filhos, levou-me a ser o que sou hoje; um homem de meia idade, decrépito, praticamente sem fígado e quase sem nenhuma razão pra viver.
                Encontro-me hoje jogado em minha velha poltrona, e ao meu lado minha companheira traiçoeira, esse veneno no qual viciei. É comum em noites assim minha cabeça rodopiar em reflexões… “Por que você ainda está vivendo? O abandono de todos que você amava não é o suficiente para você perder a razão da existência?” A voz em minha cabeça dizia. Era uma voz rouca, eu presumo que advinda da bebida.
                Estendo a mão em busca do litro, mas eis que para minha completa estupefação vejo uma sombra passar na parede. Um calafrio percorre meu corpo e num espasmo causado pelo susto acabo derrubando o litro. O vidro se estilhaça em mil pedacinhos, tal qual minha vida se estilhaçou depois do vício.
                Pragas ecoaram de meus lábios. Me levantei e fui pegar uma outra garrafa. O pavor que a sombra me causou foi se dispersando aos poucos. Quando volto a poltrona e tomo um grande gole vejo novamente a sombra. O pânico se apossa de meu corpo, fico paralisado. A sombra começa a ganhar forma, e diante dos meus olhos ela se transforma em… meu pai! Pisquei várias vezes atônito. Pensava que poderia ser uma ilusão, um sonho, já estava a dois dias sem pregar os olhos, sempre que sentia sono cheirava um pouco de um pó especial… Cheirei um pouco de um pacotinho que trazia no bolso. Quem sabe assim a sobra de meu pai ia embora, porém ela não foi. E o terror prendeu meu corpo quando a sombra de meu pai, morto a cinco anos, falou:
                “Você sempre foi uma decepção!” Sua voz soava espectral. “Nem depois da minha morte você toma jeito”.
                “Nem depois da sua morte você me deixa em paz” eu disse, aquilo podia ser um sonho, mas aquele espectro não me ofenderia.
                “Você sempre foi petulante”
                “E você sempre foi um covarde que bate em mulheres”
                “A sua esposa pode dizer o mesmo de você. Isso é, se você não a tivesse matado”
                “Eu não a matei!” Eu exclamei exasperado, peguei a primeira coisa que encontrei e joguei no espectro. Ele desapareceu.
                As palavras dele embaralham meus pensamentos. Fiquei atordoado, e o jeito foi ir pegar uma outra garrafa já que meu pai mesmo morto veio bagunçar minha vida. Enquanto bebia novamente, um redemoinho negro adentro o cômodo. Ele trazia consigo a agonia do inferno, me senti extremamente perturbado, foi então que o redemoinho das trevas começou a ganhar forma e em um piscar de olhos minha esposa estava comigo.
                Sua pele estava pálida, seu rosto, antes rosado e vívido, ganhara um aspecto cadavérico e mortalmente espectral. As órbitas de seus olhos eram de um negrume inigualável. Trajava um belo vestido branco.
                “Anne!” - A exclamação destruiu os muros dos meus lábios.
                “Sentiu saudades, querido.” Sua voz era igualmente doce. “Pensou que não iria mais me ver?”
                Fiquei sem palavras. Ela estava ali em minha frente. Não havia me abandonado. Não estava morta, só estava ali, comigo. Eu não estava sozinho. Me aproximei e tentei tocar seu rosto, mas ela recuou:
                “O que houve?” Perguntei confuso.
                “Você ainda não pode me tocar” ela disse.
                “Por que?” Eu perguntei rapidamente.
                “Você sabe o por que, Victor”. Eu abaixei a cabeça relembrando o dia em que acidentalmente a matei. Eu estava ébrio, não estava consciente dos meus atos. Não queria, simplesmente não queria… mas fiz.
                “Como posso consertar isso? Eu não fiz por querer… Anne” me desesperei.
                “A um jeito de consertar isso, Victor, e você sabe qual é, não é?” A voz dela era melosa, mas firme. Não precisei que ela explicasse, é claro que eu sabia o que ela queria.
                Fui até a cozinha com a garrafa em mãos. Tomei um último gole e quebrei a garrafa na beira da pia. Fiquei a olhar o casco em minhas mão. O estilhaço de vidro em minhas mãos implorava pra ser lambuzado com o meu sangue. Hesitei, mas ela se aproximou de mim e pousou sua mão sobre a minha…
                “Venha! Preciso de você!”
                Essas palavras foram o suficiente. Em um movimento rápido e firme enterrei o vidro em meu pescoço, e ao fazer isso ela desapareceu… não tinha mais esposa… não tinha mais meu pai… não tinha ninguém… apenas eu, sangrando, agonizando, morrendo…
  • Elleanor - conto/ficção

    elleanor02
    natal
    A traição será Vingada!

    ano:2019
    gênero: Fantasia / ebook
    autor: Marcos dos Santos
  • Entre Lobos (conto-romance) 1/9

    principal
    Estados Unidos 8/12/1941

    “...Peço que o Congresso declare que, em vista do ataque ardiloso e não provocado do Japão no domingo, 7 de dezembro, um estado de guerra passa a existir entre os Estados Unidos e o Japão”
    Franklin Roosevelt


    Minnesota, condado de Todd, final de tarde. Dias após o ataque a frota naval americana.

         Escorado sobre a mesa da cozinha, John tentava estabilizar a frequência da radio. A todo instante era transmitido notícias sobre a guerra que partira da Alemanha nazista sobre a Europa. Agora, com a participação do seu país na batalha após o ataque em Pearl Harbor, todo jovem americano era bem vindo ao exército e isso o deixava tenso, pois, Derek era seu único filho e possivelmente iria acabar envolvido àquela causa. Sua concentração era tamanha sobre os noticiários que se quer havia reparado que o próprio chegara e de fato só deu-se conta disso depois que seu filho largara um envelope a sua frente.

          — O que é isso? – perguntou sem tocar na correspondência.
          — Aqueles desgraçados vão pagar caro pelo o que fizeram! – Derek respondeu com precisão. — Vou me juntar ao exército! – declarou.

          O homem escorou-se na guarda da cadeira e tomou fôlego. Desfez-se do ar e levantou sem dizer uma única palavra deixando que a transmissão da rádio encontrasse seu próprio jeito de se consolidar. Foi até o armário e retirou um cigarro da carteira e em seguida escorou-se à porta de saída. Acendeu o fumo e tragou a fumaça profundamente antes de começar a falar.

          — Só espero que não esteja fazendo isso por causa daquela def...
          — Deixe Katy fora disso! – Derek interferiu-se. — Isso nada tem a ver com ela. – esclareceu. — E agradeceria se o senhor não a chamasse dessa forma novamente. A caso tem simpatia pelos ideias daquele tal Führer? – finalizou em um tom mais sério.
          — Não diga bobagens, rapaz! – o senhor firme contra aquela injúria. — Mas está bem! Faça como quiser. Não vai mais me ouvir dar um “pio” sobre essa garota, mas saiba que está criando a ti mesmo um grande problema! – deu outra tragada no cigarro.

          Derek não soube ao certo se seu pai se referia a sua entrada ao exército ou ao seu relacionamento instável com Katherine. Em meio aquele breve silêncio em que se encontravam, ouviram a chegada de um visitante. O rapaz deixou sua motocicleta junto a de Derek e foi de encontro a ambos, agora, parados em frene a  entrada da casa.

          — Sr. John! – o rapaz o cumprimentou respeitosamente antes de falar com Derek.
          — Olá, Mark! – o homem respondeu. — E as novidades, rapaz?
          — Bem... – mirou Derek. — O senhor já deve estar sabendo da nossa... Inclusão! – orgulhoso, referiu-se ao alistamento militar.
         — Claro que sim! – demonstrando não estar surpreso em saber que os dois estariam juntos também naquela empreitada, John respondeu com um pigarro rouco. — Afinal de contas, onde um estaria se não estivesse o outro? – riu-se com certo deboche.
          Mark apenas respondeu com um sorriso na face.

          — Precisamos conversar! – Mark dirigiu-se ao amigo logo à sua frente.

         Percebendo que seria um assunto que não lhe dizia respeito, John deixou que os dois rapazes ficassem a sós. Depois de trocarem algumas poucas palavras Mark deixou clara a razão de ter vindo. De dentro de sua jaqueta, retirou uma folha de papel dobrada e entregou ao outro. Era de Katherine, escrita por sua irmã Mary.

          — Ela está preocupada, Dek! – Mark comentou. — Acha que a ideia de termos entrado no exército foi meio... impulsiva. – descontraiu.

          A mensagem falava sobre a repulsa de Katherine sobre o alistamento de ambos e do quanto ela tronara-se mais reclusa após o término do relacionamento com Derek. Informalmente, pedia ainda para que ele viesse vê-la, deixando claro que os pais dela agora mostravam-se mais receptivos quando a presença dele.

          — Como ela está? – Derek pediu sobre Katy.
          — Até onde sei, mal tem deixado o próprio quarto... – breve pausa. — Pra uma pessoa que adorava fazer passeios isso deve significar alguma coisa, não?
          — Nada disso precisava ter acontecido. – Derek soltou. — Sabe que não foi por minha causa que...
          — Não os tenha mal. – Mark o interrompeu. — Meus tios sempre foram muito cautelosos a tudo o que envolvesse Katy... Só pensam na segurança dela.

         Ficaram em silêncio por alguns segundos.
         — Então, você não vêm? – perguntou.

         Derek o fitou condenando a possível chance de o amigo ter lido sua correspondência.

         — Não, não! – Mark logo se defendeu ao perceber a reação do outro. — Elas só me fizeram prometer que te convenceria ou te levaria amarado até lá. – brincou pondo novamente o capacete.

          Ainda que aquele convite lhe parecesse, num primeiro instante, estranho, Derek sabia que era preciso aceita-lo já que lhe restava pouco tempo na cidade e a verdade é que pouco importava se os pais de Katy, por causa da atual situação da filha, apenas iriam tolera-lo. Ele ainda a amava e nada sabia do que estava por vir assim de partisse para longe dela.

          — Vou dar uma saída! – esquivando parte de seu corpo para dentro da casa avisou seu pai que respondeu erguendo seu copo munido de whisky enquanto ainda fumava e fuçava na transmissão da rádio.

    Confira o capítulo seguinte! 
  • Entrevista com Matheus Braga – autor de O Landau vermelho

    1 – Quem é Matheus Braga e porque você resolveu contar a história de um carro assassino?
    R – Já começamos com uma pergunta difícil, porque sou péssimo para falar de mim mesmo, rsrsrsrs. Bem, posso dizer que sou um sonhador. Sou uma pessoa que sonha com a cabeça nas nuvens e os pés no chão e corre atrás da realização desses sonhos. Sou uma pessoa determinada, resiliente, apaixonada pela natureza, que ama animais e a-do-ra carros desde que se entende por gente. Pode-se dizer que aprendi a nomear carros antes mesmo de aprender a falar “papai” e “mamãe”, rsrsrs. Quando pequeno, meus brinquedos favoritos eram as miniaturas de carros e meu Ferrorama, e sempre gostei muito dos filmes cult sobre perseguição de carros como Encurralado e Christine – O carro assassino, e foi daí que, anos mais tarde, vieram algumas das inspirações para meu livro.
    2 – Como foi o processo de produção do seu romance de terror O Landau Vermelho?
    R – Gosto de dizer que O Landau vermelho foi um livro construído ao longo de muitos anos. Como já disse, sempre nutri uma paixão muito grande por carros e sempre tive vontade de escrever algo dentro desse universo, mas nunca havia tido a ideia para isso. Eu estava sempre esboçando plots e cenas separadas, mas nunca havia chegado a um enredo satisfatório. Este só veio quando num dia, ao organizar minha pasta de arquivos no computador, acabei lendo todas as cenas separadas em sequência e, baseada numa dessas cenas em específico, intitulada Corrida Infernal, formou-se a ideia para o livro. Também me inspirei nos filmes clássicos do gênero “carro assassino” para me ajudar a enxergar melhor a história. A partir desse ponto, foram mais dois anos e meio de escrita e muita pesquisa para finalizar o livro, e depois ainda precisamos de uns 5 ou 6 meses de revisões pontuais antes que a versão final finalmente saísse em e-book e, agora, em versão impressa. Cabe aqui uma curiosidade: quase todo esse processo aconteceu tendo como trilha sonora a música Two black Cadillacs, da Carrie Underwood, cujo videoclipe também conta a história de um carro assassino.
    3 – Quais suas maiores influências no mundo da escrita?
    R – Sempre me identifiquei muito com o gênero de romance policial, e minha maior influência foi o mestre Sidney Sheldon. É dele o primeiro romance policial que li, Conte-me seus sonhos, e o estilo narrativo dele sempre foi o que mais me fascinou. Ele constrói as cenas de forma quase cinematográfica, explorando as sensações e percepções tanto dos personagens quanto do ambiente em si, de forma a obrigar o leitor a continuar lendo, e lendo, e lendo até que, quando dá por si, o livro já acabou. Venho praticando muito para conseguir escrever dessa forma também, como pode ser percebido no meu romance O Landau vermelho. Mas além do Sidney Sheldon, também sempre li muito Harlan Coben, Stephen King e Agatha Christie.
    4 – As editoras independentes estão dando um show de como se publicar livros no Brasil, muitas vezes exportando esses livros para a Europa e EUA. Como você percebe essa mudança no nosso mercado literário?
    R – Infelizmente a mudança ainda é relativamente sutil no mercado como um todo, mas já é perceptível para quem está atento. As grandes livrarias e editoras sempre dominaram o mercado literário de forma cavalar, quase sempre valorizando autores já expressivos ou que possuam o famoso “Q.I.”, mas com o advento da internet é possível perceber um crescimento das publicações de editoras menores e autores independentes, principalmente no que diz respeito aos e-books. Tal crescimento tem se mostrado uma grata surpresa aos leitores de plantão, pois tem revelado autores talentosíssimos e histórias extremamente deliciosas de se ler. É bastante notável que estes novos autores quase sempre vêm do mundo das fanfics, que já é bastante popular desde a época dos fóruns, no início dos anos 2000, e temos sido agraciados com grandes talentos que até então estavam ocultos ou não tinham uma divulgação expressiva de seu trabalho, e estes talentos acabam por ser a nossa esperança de que, apesar do mercado literário ter entrado em declínio nos últimos anos, ainda poderemos desfrutar por muito, muito tempo deste prazer indescritível que é a leitura de um bom livro.
    5 – Quais as maiores dificuldades para um escritor iniciante conseguir sua primeira publicação?
    R – Sinceramente não tenho propriedade para responder esta pergunta, pois a editora Immortal foi a primeira e única para a qual enviei o original de O Landau vermelho e ele já foi aceito para publicação, rsrsrsrs. Mas acredito que a dificuldade maior seja justamente encontrar a editora certa para a publicação. Escrever em si já é algo muito difícil, mas encontrar uma editora onde sua história se encaixe da forma devida pode ser um tanto delicado, pois pode haver divergência entre a mensagem que o autor quer passar com a história e a interpretação que a editora dará para ela. Além disso pode haver também o fator financeiro, pois não são todas as editoras que se dispõem a publicar o livro antes para colher os lucros depois, e também não é fácil para um autor iniciante dispor de determinada quantia financeira para investir na publicação, mesmo que a realização de um sonho não tenha preço. De qualquer forma, acredito que com a devida paciência tudo pode se ajeitar.
    6 – Qual sua preferência de leitura: e-book ou impresso? E porquê?
    R – Impresso, com certeza. Além de adorar o cheiro de um livro novo, sou muito tradicional nesse quesito, e ter o livro em mãos me proporciona uma experiência de leitura muito melhor. Gosto da sensação de folhear as páginas e consigo imergir melhor na história e absorver a mensagem do livro de forma mais satisfatória. Ler e-book é algo que requer muita disciplina, pois nos aparelhos eletrônicos as distrações são constantes (WhatsApp, Facebook, Instagram, etc...) e eu sempre acabo desviando minha atenção com outras coisas. O engraçado é que leio fanfics com constância no meu celular e não desvio tanto minha atenção, rsrsrs, mas simplesmente não consigo ler um e-book.
    7 – O autor tem outros hobbies além de escrever? Quais são?
    R – Meus principais hobbies além da escrita são o colecionismo/modelismo e o trekking. Tenho várias coleções, desde miniaturas de carros e trens até minifiguras de Lego e moedas raras, e sempre que disponho de um dia livre ou feriado prolongado gosto de fazer caminhadas ao ar livre para serras ou cachoeiras, pois adoro estar em contato com a natureza. Ainda tenho o sonho de montar um “carro projeto” apenas por hobby, que é comprar um carro antigo e fazer alterações no estilo e na performance dele para um uso mais divertido, mas ainda não tenho condições financeiras para isso, rsrsrs.
    8 – O mercado editorial passa por mudanças, elas já são perceptíveis ao ponto de dizermos que temos um novo mercado ou não?
    R – Acredito que a maior mudança que o mercado editorial vem passando nos últimos tempos é a popularização dos livros digitais. Apesar de admitir isso a contragosto, os e-books são bem mais práticos e acessíveis do que os livros impressos, principalmente para fins acadêmicos e profissionais, e podem ser a melhor opção para pessoas que querem passar a ter o hábito de ler mas não abrem mão da conectividade. Com isso, acredito que é seguro dizer que sim, temos um novo mercado, com novas estratégias de vendas, marketing e lucros adaptadas à nova realidade dos leitores.
    9 – Nos conte quais os planos para o futuro desse escritor?
    R – Adoro fazer planos e sonhar com o desenrolar deles, mas sempre mantendo os pés no chão. Entre os principais planos na minha vida hoje estão: morar sozinho, para finalmente conquistar minha independência; publicar mais um livro até o fim de 2019; conseguir mais uma promoção no meu emprego para me estabilizar financeiramente; e no segundo semestre, quem sabe, começar uma das minhas pós-graduações.
    10 – Como e onde os leitores podem adquirir o seu livro e em que projetos está envolvido ultimamente?
    R – Meu livro pode ser adquirido diretamente com a Editora Immortal ou pelos sites Amazon e Clube de Autores, tanto o e-book quanto a versão impressa. Os links estão no meu perfil e na página da editora. Meu próximo projeto é uma participação na antologia Contos do desconhecido, também da Editora Immortal, que será uma compilação de contos de terror onde estarei participando com os contos originais Ferrorama e Sussurros à meia-noite.
  • Epicondilite hemorrágica

    A grama do vizinho parece melhor que a minha
    Invejoso, tratei logo de chama-lo à rinha

    O vizinho, confuso, não entendeu
    Furioso, arranquei um olho seu

    Sangue jorrou aos borbotões
    Para meu deleite e contentamento
    Enrubescendo todos os anões
    Malditos adornos do meu tormento

    Branca de neve menstruou
    Ao ver-me com a pá na mão
    Pronto para fazer uma cova
    E atirar seu príncipe no chão

    Sepultamento magistral
    Em meio ao jardim exordial
    Ilustre cântico funeral
    Ao proprietário do local

    A grama do vizinho parecia melhor que a minha
    Como vizinho não há mais, foi-se a sina.
  • Escola de Ensino Médio Grasso 2014 #105 - Sombras

    Nat está sentada no sofá, nervosa, com o celular na mão. Lucas entra na sala e percebe a tensão.
    — Nat, o que aconteceu? Você está pálida.
    — O... o Ricardo... ele foi solto — disse Nat, com a voz trêmula.
    Lucas fica surpreso.
    — O quê? Como assim? Ele não ia ficar mais tempo na cadeia?
    — Eu não sei, Lucas! Recebi uma ligação do advogado... Ele disse que ele conseguiu liberdade condicional.
    — Isso é horrível. Mas não se preocupe, Nat. Eu não vou deixar nada acontecer com você. Eu vou te proteger.
    Nat olha para o irmão com lágrimas nos olhos.
    — Obrigada, Lucas. Eu estou com tanto medo...

    Personagens Regulares (ordenados alfabeticamente por sobrenome)
    Katia Cardellini
    José Ferreira
    Natasha Jonsson
    André “Magrão” Kimmich
    Bruno Roberto de Lima
    Leandra Lopes
    Elizabeth “Liz” Muller
    Cleiton Reis
    Felipe Rodrigues
    Amanda Souza
    Valéria Tralli
    Estevão Motta Zieler

    No dia seguinte, Nat caminha apressada, segurando uma sacola de compras. De repente, Ricardo surge na sua frente.
    — Olha só quem eu encontrei... a princesinha que me colocou atrás das grades.
    Nat, assustada, dá um passo para trás.
    — Ricardo... o que você quer?
    — O que eu quero? Eu quero que você e seu irmãozinho paguem por tudo que me fizeram passar! Vocês me tiraram tudo!
    — Você sabe o que você fazia comigo; nós só contamos a verdade! Você mereceu ser preso! — disse Nat confrontando Ricardo.
    Ricardo dá um sorriso sarcástico.
    — Você bem que gostava.
    Ricardo se aproxima de Nat com um olhar ameaçador. Nat larga a sacola e sai correndo.
    Nat entra em casa, ofegante, e conta para Lucas sobre o encontro com Ricardo.
    — Lucas, ele me ameaçou! Disse que vai se vingar da gente!
    — Aquele... nós vamos à delegacia prestar queixa! — disse Lucas, furioso.
    Estevão está sentado na cama, com o notebook aberto à sua frente. A tela mostra o rosto de Igor, seu amigo, em uma chamada de vídeo.
    — E aí, cara, como estão os preparativos para o grande dia? — perguntou Igor.
    Estevão sorri, um pouco nervoso.
    — Ah, você sabe, tentando não pensar muito nisso. Mas é difícil, né?
    — Imagino. Mas você treinou pra caramba, vai tirar de letra!
    — Espero que sim. Estou ansioso pra entrar na equipe!
    — E vai entrar! Você sempre foi o mais rápido da turma, lembra?
    — É, mas o teste vai ser pra corrida de 1500 metros.
    — Relaxa, foca no seu ritmo e dá o seu melhor. E depois me conta tudo!
    — Valeu!
    — E vê se dorme cedo hoje, hein? Nada de ficar virando a noite no celular.
    — Pode deixar, senhor preocupação. Já vou desligar, aliás.
    — Beleza, então. Boa noite, Estevão! E dorme com os anjos! — disse Igor zoando o amigo.
    — Oxe, cara tá maluco? — perguntou Estevão.
    Igor começa a rir; Estevão fecha o notebook e se levanta, bocejando.
    — Cada coisa — disse Estevão, balançando a cabeça em negativa.
    Mais tarde naquela noite, Nat está deitada na cama, sem conseguir dormir. Lucas entra no quarto e senta ao lado dela.
    — Nat, eu sei que você está com medo, mas eu não vou deixar nada de ruim acontecer com você. Eu vou te proteger, sempre.
    — Obrigada, Lucas. Eu não sei o que seria de mim sem você — disse Nat, com lágrimas nos olhos.
    — Nós vamos superar isso juntos. Eu prometo.
    Lucas abraça Nat, tentando acalmá-la. Os dois ficam em silêncio por um momento.
    — Agora tente dormir um pouco. Amanhã será um novo dia — disse Lucas para a irmã caçula.
    Nat fecha os olhos, ainda com medo, mas um pouco mais aliviada com a presença do irmão.
    Na manhã seguinte, o sol nasce suavemente, iluminando a rua tranquila. Estevão está correndo na pista de atletismo.
    — Hoje é o dia. Preciso dar o meu melhor — pensa Estevão.
    Wilson Azevedo, um garoto alto e atlético, também está correndo na pista e observa Estevão.
    — Bom dia! Vai fazer o teste para os Panteras? — pergunta Wilson.
    — Bom dia, vou sim. — respondeu Estevão e você?
    — Não, só estou correndo para manter a forma — responde Wilson.
    — Ah, entendi. Eu vou tentar entrar para a equipe de 1500 m.
    — Legal! Eu estava vendo você correr, você leva jeito. Mantenha o foco e a determinação, você vai conseguir — diz Wilson, encorajando Estevão.
    Algum tempo depois, vários alunos chegam à pista, formando um grupo animado. O treinador Charles, um homem forte e experiente, reúne todos.
    — Bom dia, pessoal! Hoje teremos os testes para as equipes de corrida e salto à distância. Quero ver o máximo de vocês!
    O treinador apresenta os co-capitães das equipes: Wilson e Margarete. Estevão fica surpreso ao vê-los.
    — Eles vão ajudar na avaliação dos candidatos. Boa sorte a todos!
    Estevão pensa consigo mesmo:
    — A Margarete é co-capitã? Incrível! E o Wilson também... Ele parecia tão tranquilo.
    Enquanto o treinador explica os detalhes dos testes, Estevão observa Margarete e Wilson interagindo com os outros alunos. Ele se sente um pouco nervoso, mas determinado a mostrar seu potencial.
    — Vamos começar com os testes. Boa sorte a todos! — diz Margarete, dirigindo-se aos alunos.
    Wilson está ao lado de Margarete.
    — Lembrem-se, o mais importante é dar o seu melhor.
    Estevão se prepara para o teste, com o coração acelerado. Ele está pronto para enfrentar o desafio e mostrar a todos do que é capaz.
    Nat está em sua casa tomando café e com uma expressão preocupada, Lucas entra na cozinha.
    — Lucas, não vou pra escola hoje. — disse Nat.
    — Beleza, mas amanhã você vai, hein?
    — Tá bem.
    Na pista de atletismo
    Wilson se aproxima de Charles, que observa os candidatos correndo.
    — Treinador, vi aquele garoto loiro correndo mais cedo... Ele é muito bom! Chama-se Estevão.
    Charles observa Estevão correndo, concentrado.
    — Hum... Ele parece ter jeito para a coisa. Tem uma boa postura e um ritmo forte.
    Charles chama Estevão para perto.
    — Estevão, você já treina há muito tempo? — perguntou Charles.
    — Sim, quando eu era mais novo, participei de algumas competições. — respondeu Estevão.
    — Entendo... Bom, Estevão, você está aprovado. Pode ir para casa e volte amanhã para começar os treinos.
    — Aprovado? Mas... e os outros testes? — Estevão perguntou com uma expressão confusa.
    — Não preciso ver mais nada. Seu talento é evidente.
    — Mas isso não seria justo com os outros candidatos. Prefiro fazer todos os testes, como todo mundo. — falou Estevão, incomodado.
    Charles ergue uma sobrancelha, surpreso com a atitude de Estevão.
    — Tudo bem, Estevão. Se você insiste... Mas saiba que me impressionou.
    Margarete, que ouviu toda a conversa, observa Estevão com admiração.
    — Ele poderia ter aceitado a vaga e entrado direto para o time, mas preferiu ser justo. Que atitude incrível! — pensou Margarete.
    Margarete sorri, inspirada pela honestidade e humildade de Estevão.
    Nat está em sua casa e seu celular toca. Ela vê que é um número desconhecido e não atende.
    Após os testes, Wilson vai falar com Estevão.
    — E aí, Estevão? Mandou bem nos testes, hein? Impressionante!
    — Ah, valeu, Wilson. Acho que consegui me sair bem.
    — Acho? Você mandou bem, cara! Temos grandes chances no estadual esse ano.
    — Espero que sim!
    Margarete se aproxima dos dois: — Parabéns! Seus resultados foram excelentes.
    Estevão olha surpreso.
    — Margarete! Obrigado!
    Wilson percebe algo rolando entre eles.
    — Bom, acho que vou procurar o treinador. Preciso falar com ele. Com licença!
    Wilson sai, deixando Estevão e Margarete sozinhos. Estevão fica sem graça.
    Margarete, com um sorriso gentil: — Estevão, eu queria te dizer que achei muito legal a sua atitude de priorizar os testes. Mostra que você é focado e profissional.
    — Sério? Obrigado, Margarete. Eu só... achei que era o certo a fazer.
    — E foi. Que tal um café? Para relaxar depois dos testes.
    — Ah, eu... preciso treinar mais um pouco — disse Estevão, tentando evitar uma situação difícil para ele.
    Margarete sorri.
    — Hoje você vai descansar. Vamos tomar um café, conversar um pouco.
    — Mais temos aula agora.
    — Relaxa Estevão, somos da equipe de atletismo.
    Depois de um tempo, Estevão e Margarete saem da cafeteria com copos de café.
    Estevão toma coragem.
    — Então quer dizer que não vamos ficar com falta?
    — Não, pois estávamos com a equipe de atletismo e isso conta como presença, agora as última aulas teremos que assistir.
    — Entendi.
    Estevão pensa um pouco respira fundo :
    — Margarete, estava pensando... você gostaria de sair comigo na sexta-feira?
    Margarete para e se vira para ele.
    — Eu adoraria, Estevão! — diz Margarete, radiante.
    — Que bom! Não sabia se você aceitaria.
    Margarete o olha com doçura.
    — Por que?
    — É que... — Estevão gagueja.
    Margarete o interrompe.
    — Adorei nosso tempo juntos, Estevão. Até sexta, combinado?
    — Combinado.
    — Vou pra aula agora. — disse Margarete.
    Margarete beija o rosto de Estevão e se vai, deixando-o com um sorriso bobo.
    Nat não foi à escola e suas amigas Katia e Valeria vão visitá-la em sua casa depois da aula.
    Nat está deitada na cama, olhando para o teto. Katia e Valeria entram no quarto com expressões preocupadas.
    — Nat, que bom que te encontramos em casa. A gente estava preocupada, eu até te liguei mais cedo — disse Katia com um olhar preocupado.
    Nat olha para Katia, parecendo aliviada.
    — Foi você quem me ligou? — perguntou Nat.
    — Sim, esse é meu número novo — Katia respondeu.
    — Mas, Nat, aconteceu alguma coisa? — perguntou Valeria.
    Nat senta-se na cama, com um suspiro.
    — Muita coisa... Meu padrasto foi solto do presídio e agora está ameaçando eu e o Lucas.
    — Nossa, Nat! Que horror! Mas a polícia não fez nada? — perguntou Katia.
    — Eles conseguiram uma medida protetiva, ele não pode chegar perto da gente. Mas... mesmo assim, eu não consigo me sentir segura.
    — Eu te entendo, amiga. Mas você não pode ficar trancada em casa para sempre — disse Valeria.
    — Eu sei... mas é difícil — respondeu Nat.
    Nat começa a falar, com a voz embargada.
    — Vocês sabem que eu nunca conheci meu pai biológico, né?
    — Sim, você já comentou — respondeu Katia.
    — Minha mãe se casou com o Ricardo quando eu era pequena. Ele... ele era um monstro.
    — O que ele fazia, Nat? Você pode nos contar — perguntou Valéria com a voz suave.
    — Ele batia na minha mãe. E... ele abusava de mim — disse Nat com lágrimas nos olhos.
    Katia e Valeria trocam olhares chocados. Nat continua, com a voz tremendo.
    — Um dia, minha mãe desapareceu. Ela era usuária de drogas... eu nunca mais a vi. E os abusos do Ricardo pioraram.
    Nat faz uma pausa, respirando fundo.
    — Um dia, eu e o Lucas fugimos de casa. Nós encontramos uma delegada, ela era esposa de um professor do Lucas. Nós contamos tudo para ela.
    — E foi assim que ele foi preso? — perguntou Katia.
    — Sim. Mas... nós fomos mandados para abrigos separados. Foi horrível. Eu sentia tanta falta do Lucas. Quando o Lucas fez 18 anos, ele conseguiu minha guarda. E nós viemos morar juntos.
    Nat começa a chorar, soluçando.
    — Eu era só uma criança... nenhuma criança merece passar por isso. Ninguém merece.
    Katia e Valeria abraçam Nat, consolando-a. As três ficam abraçadas por um longo tempo, em silêncio.
    No dia seguinte, Nat, com um semblante mais confiante, sai da escola acompanhada pelas amigas. Elas riem e conversam, demonstrando o apoio mútuo. Ao longe, Ricardo observa Nat com um olhar sombrio.
    — Que bom te ver mais animada, Nat! A gente estava com tanta saudade do seu sorriso! — disse Valéria.
    — É isso aí! Esquece aquele traste! A gente tá aqui pra você, sempre! — disse Kátia.
    — Obrigada, meninas. Vocês são incríveis! — respondeu Nat, mais animada.
    Nat se despede das amigas e segue sozinha pela rua. De repente, Ricardo a agarra, puxando-a pelo braço.
    — Você pensa que se livrou de mim?! Não importa se eu apodrecer na cadeia, eu acabo com você!
    — Me larga! — gritou Nat.
    Claiton e seu pai passam de carro e testemunham a cena.
    — Pai, para o carro! Aquele cara tá atacando a Nat! — gritou Claiton.
    — Meu Deus! Claiton, fica aqui! Vou ligar pra polícia! — disse seu pai.
    Nat, usando suas habilidades de caratê, reage ao ataque. Ela aplica golpes precisos em Ricardo, derrubando-o no chão. Claiton se aproxima de Nat, preocupado.
    Nat está concentrada, aplicando os golpes em Ricardo.
    — Eu não vou deixar você me machucar de novo! — falou Nat, determinada.
    — Nat! — Claiton gritou.
    Nat olha para ele e, em um momento de distração, Ricardo se levanta e foge.
    Claiton se aproxima e abraça Nat.
    — Eu estou bem, Claiton. Obrigada. Mas ele fugiu.
    O pai de Claiton leva Nat à delegacia para registrar a ocorrência. O delegado ouve o relato de Nat.
    — Doutor, essa garota foi atacada pelo padrasto. Ele já tem histórico de violência contra ela — disse o pai de Claiton.
    — Ele me ameaçou de morte. Eu tenho medo que ele volte — disse Nat, relatando o ataque.
    — Vamos intensificar as buscas, senhorita. Pode ter certeza de que vamos encontrá-lo.
    Lucas chega à delegacia, preocupado.
    — Nat, você está bem? — perguntou Lucas, abraçando a irmã.
    — Estou, Lucas — disse Nat, com a voz trêmula.
    — Muito obrigada pela ajuda, Claiton, e ao seu pai também.
    — Eu conversei com o delegado, Nat. Ele me garantiu que a polícia vai intensificar as buscas — disse o pai de Claiton.
    — Obrigado, muito obrigado mesmo!
    Nat e Lucas vão para casa.
    Na sexta à noite, depois do encontro, Estevão deixa Margarete em casa.
    — Bom, chegamos. Espero que tenha gostado da noite — falou Estevão com timidez.
    Margarete sorri.
    — Adorei! Foi muito divertido.
    — Eu... eu estava um pouco nervoso. Sabe, primeiro encontro e tal. Acho que não me saí muito bem.
    Margarete coloca a mão no braço dele.
    — Estevão, você está brincando? A noite foi perfeita!
    — Sério? Eu me senti meio desajeitado em alguns momentos — falou Estevão.
    Margarete ri suavemente.
    — Você é fofo, Estevão. E engraçado, e gentil...
    Ela se inclina um pouco mais perto.
    — E eu adorei a forma como você me ouviu.
    — Eu... estava interessado no que você tinha a dizer — falou Estevão.
    Margarete, com um olhar doce, responde:
    — Eu sei.
    Um silêncio confortável se instala entre eles. Margarete olha para Estevão.
    — Sabe, Estevão...
    Margarete se aproxima ainda mais, e antes que Estevão possa dizer qualquer coisa, ela o beija. O beijo é suave e apaixonado. Estevão, inicialmente surpreso, logo responde ao beijo com entusiasmo.
    Após alguns momentos, eles se separam lentamente. Margarete sorri para Estevão, com um brilho nos olhos.
    — Boa noite, Estevão.
    Ela caminha até ao portão de sua casa. Estevão a observa, ainda um pouco atordoado pelo beijo. Margarete se vira na porta e acena para ele com um sorriso antes de entrar.
    Estevão anda pela calçada com um sorriso bobo no rosto. Ele caminha para casa, perdido em pensamentos felizes.
    Mais tarde naquela noite, Ricardo, com uma expressão de fúria, arromba a porta dos fundos da casa de Nat e Lucas. Ele está armado. Nat, que estava na cozinha, assusta-se. Lucas, no quarto, ouve o barulho e corre para ver o que está acontecendo.
    — Chegou a hora, Nat. Não vou voltar para aquela cela sem levar você comigo! — disse Ricardo com a voz rouca e ameaçadora.
    Ricardo agarra Nat pelo braço e aponta a arma para a sua cabeça.
    — Ricardo, solta essa arma! Isso não vai resolver nada. — disse Nat com a voz trêmula, mas firme.
    — Cala a boca! Você arruinou a minha vida! — gritou Ricardo.
    Nat muda o seu semblante de medo para um semblante de coragem e confiança.
    — Não! Você é que arruinou a minha vida.
    Nat torce o braço de Ricardo e usa as suas habilidades de luta para desarmá-lo. Nat derruba-o no chão.
    — Acabou, Ricardo. Você não vai machucar mais ninguém. — disse Nat.
    Lucas se aproxima e pega a arma do chão. Ele examina a arma com cuidado.
    — Nat, essa arma é de mentira! É uma réplica.
    Ricardo empurra Nat, levanta-se e tenta fugir.
    Ricardo sai de casa, sendo surpreendido por uma viatura policial que passava no local. Os policiais o algemam e o colocam no veículo.
    Nat observa a cena com um suspiro de alívio.
    — Finalmente acabou.
    — Você está bem, Nat? — pergunta Lucas.
    — Sim, agora estou. Não posso dizer o mesmo do Ricardo — responde Nat.
    Lucas sorri.
    — Claro, depois da surra que minha irmãzinha faixa preta em caratê deu nele.
    Nat retribui o sorriso.
    No dia seguinte, Nat caminha pelos corredores com um sorriso no rosto, encontrando e cumprimentando seus amigos. Ela parece mais leve e despreocupada.
    — Nat, você parece mais feliz hoje. Aconteceu alguma coisa? — pergunta Valéria.
    — Sim, o Ricardo foi preso — responde Nat.
    — Que bom! Ele mereceu — exclama Katia.
    Nat entra na sala de aula, aliviada e pronta para seguir em frente com sua vida.
  • Eu e o Pássaro

    Ninguém quer sentir inveja, ela simplesmente aparece. Queria poder voar, sentir o vento no meu rosto e ser livre pra ir onde quiser, mas não posso. Não sou um pássaro! E é aí que aparece a inveja, ela chega bem devagar no ouvido da sua mente e diz: “Olha aquele passarinho! Ele voa, encanta a todos com seu contorcionismo nos ares e parece ser feliz com essa vantagem. E você?! Você não consegue voar! E é feliz com isso?” e nossa mente, sabe muito bem a resposta e manda apenas uma sensação pro nosso consciente… a inferioridade. E para tentar me sentir superior e competir com a maldita ave eu construo aviões e paraquedas, crio técnicas, trajes especiais, pulo de Bungee jumping, faço de tudo pra depois olhar pra lado e ver que eu ainda sou mais infeliz que o pássaro.
    O pássaro não liga pra mim, não ligar pra minha dor, ele vive a vida dele e aproveita seu dom. Ah, Como eu queria esse dom! Encantar os outros com acrobacias maravilhosas, sentir o bem dito vento em minha face, mostrar minhas belas penas quando bater as asas e ter um canto majestoso. Entretanto, eu voou como uma pedra, o vento que sinto em meu rosto pode me cegar, minha pele tem tatuagens que não se comparam a penugens e minha voz rouca cansa os ouvidos alheios. Como posso prosseguir assim? Como posso esquecer essa dor se tudo me faz lembrar dela?
    Já tentei fazer amizade com o pássaro, para ver seus podres e conseguir superar minhas fraquezas, porém ele me abriu as portas de seu ninho, me contou sobre sua trajetória de vida, sua função na natureza, me mostrou seus troféus, me contou que errou bastante e se arrepende de tudo de ruim que fez, e também me mostrou sua namorada.
    A inveja não é um sentimento fixo, ela com certeza vai te levar para outro bem pior. No meu caso, quando eu soube tudo sobre o pássaro, meu coração disparou, meu olhos reviraram, minhas mãos tremeram e meu coração antes tomado pela inveja mudou para o ódio.
    O ódio é como o escuro, quanto mais se têm menos se vê o que a gente faz. E eu estava cego de tanto ódio que circulava no meu corpo, cada glóbulo no meu sangue odiava o pássaro, odiava seu voou, suas sensações, sua linda namorada, seus belos arrependimentos, odiava aquela vida!
    E o que acontece quando tem alguém cego de ódio perto de sua causa?!... Uma vingança cega.
    E foi isso que aconteceu… uma vingança cega! Eu depenei o pássaro com cuidado, cortei suas asas com todo o respeito que suas coreografias aéreas mereciam, tirei seu bico cantando a melhor música que aquele bico já cantara e joguei seu corpo de um penhasco para que pela primeira vez ele sentisse a decepção de não conseguir voar igual eu sentia. E eu estou me sentindo melhor do que jamais estive, vestindo uma roupa de penas feita pelas minhas próprias mãos e tendo seu bico como troféu na minha estante.
    Eu?! Se eu estou me sentindo arrependido?! Hahaha, arrependimento é coisa de pássaro.
     
  • Filhos das trevas

    A noite sombria a uma escuridão para lá de assustadora; não foi em vã. Os incrédulos apenas alegavam a incompetência da prefeitura pelos fatos. Naquela noite choveu de ligação no teleatendimento da prefeitura.
    O caminhão destinado a socorrer à comunidade, justo naquela noite, duma sinistra maneira quebrou, onde nem mesmo os mecânicos de plantão conseguiram desvendar.
    O pedido necessitou ser adiado, pois o carro quebrado era o necessário para o socorro da comunidade.
    Os incrédulos davam com as línguas nos dentes, naquela noite os bandidos de plantão resolveram tirar a limpo as dívidas na quebrada. Cometeram chacina. Cancelaram nove cpfs.
    Cinco dos corpos foram encontrados, outros, nem pistas deixaram.
    Aos moradores da adjacências murmuravam; aquela noite nunca será a mesma. Será uma sexta-feira, vinte e nove de fevereiro inesquecível.
    Os jornais on-line em menos de três horas, ainda de madrugada, noticiaram que as poucas horas vividas, foram na verdade uma verdadeira noite de terror.
    Não houve uma testemunha que desse pista aos policias de plantão. Tanto que eles nem permaneceram ali. Alegaram ter outras ocorrências a fazer.
    Por fonte de whatsapp, gangues e rivais se comunicaram através de xis noves: ninguém teve a culpa no cartório e muitos alegavam a mesma desculpa, só pode ser coisa do além.
    Um famoso líder de uma seita satânica por ira ao assassinato do primogênito pragou a comunidade: todo o dia vinte e nove de fevereiro a favela pagaria e caro, o sangue do inocente filho do religioso.
    Dos poucos que sobraram da noite da praga, em coral alegaram ser a praga do tal senhor.
    A verdade é uma só, de trauma a comunidade ficou. E a noite de terror, a muitos espantou!

     

  • Imperialismo e misologia em One Piece

    Quando todos acreditavam que as histórias de piratas estavam foras de moda, Eichiro Oda mostrou que só os artistas que ousam promovem a inovação. Publicado no ano de 1997, One Piece se tornou a franquia de mangá mais rentável do mundo. A Shonen Jump só teve o que comemorar. Por mais de duas décadas, a obra mostrou números surpreendentes, se dando o luxo de quebrar alguns recordes no caminho. Mas o fator de maior sucesso nesse shonen é a sua construção de mundo.
              O mangá tem fonte para ótimas análises de representações históricas e culturais. O próprio universo da história nos indica algumas das influências do mangaká nesse sentido. No planeta onde ocorre a narrativa — ele todo uma imensidão de água —  se resume a ilhas e arquipélagos. O único continente existente é uma cordilheira chamada Red Line. Ela divide o mundo servindo como meridiano natural. Numa geografia dessas, seria impossível a Marinha não se fortalecer e a pirataria não se tornar uma prática comum. Um mundo muito parecido com o Japão, um arquipélago com mais de cinco mil ilhas. Foi necessário um grande processo histórico e político para que os milhares de feudos rivais se tornassem um império unificado, e potência imperialista asiática.
              É justamente na Red Line onde fica a capital do Governo Mundial, Mary Geoise. Portal de acesso direto ao Novo Mundo, onde só sujeitos com permissão explícita podem chegar. A estrutura governamental de One Piece se assemelha a uma oligarquia, ao mesmo tempo em que a sociedade é dividida em castas. São cerca de dezoito famílias nobres residindo lá, das vinte famílias fundadoras do Governo Mundial, sendo que uma delas se negou a ir para a capital e outra foi exilada.
              A nobreza mundial, os Tenryuubitou (dragões celestiais) são os personagens mais misteriosos e mais controversos da trama. A sociedade como um todo se resume em dois termos: aqueles que servem e os que são servidos. Os Tenryuubitou sãos estes últimos. Abusam enormemente de seu poder econômico e influência política. Tanto é que essas pessoas, ao andar junto aos plebeus, usam uma roupa semelhante a um traje de astronauta, com direito a um capacete e respirador acoplado. Isso enfatiza o não pertencimento desse grupo as classes subalternas, mas que mesmo assim está no topo da pirâmide social. Os Tenryuubitou equivaleriam em nosso mundo aos estrangeiros coloniais, exóticos e arrogantes, cruéis muitas vezes. Alimentam todo um sistema de opressão mundial para usufruir dos ganhos imperialistas através da invasão e colonização de reinos menores.
              Essa classe dominante tem um grupo confiável para lidar com o poder. Eles são o Gorosei. Esse quinteto de idosos tenta usar sua experiência para dar rumo a todo o planeta. Controlam o mundo de One Piece com mãos de ferros. O Estado é extremamente hierárquico, tanto no sentido social quanto institucional, militarizado no todo. Para esse exercício de controle, contam com a Marinha. O braço armado do Governo Mundial é uma das instituições mais violentas que existe. É através da dela que grupos étnico-raciais sofrem genocídios, nações recebem severas retaliações, civis morrem em ações truculentas — vide os atos das polícias secretas Ciphers Pol. As autoridades cometem crimes tão ou mais horrendos que aqueles praticados por seus inimigos naturais: os piratas.
              A pirataria, assim como outras formas de banditismo, nasce a partir de uma sociedade estruturada em desigualdades, racismo, monopólio e exploração da mão de obra escrava, sim, esse último quesito é tratado muito bem pelo autor. Nada escapa a ótica de Oda. Os piratas, longe de serem heróis, roubam e pilham. Porém, muitos o fazem mais como uma forma alternativa de existência que por algum tipo de prazer mórbido. Muitos desses piratas são poderosos, como os Yonkou, os quatro maiores da pirataria. Aglutinando tripulações menores, formam frota — exércitos particulares que oferecem grande risco a estabilidade do Estado.
              Como estabilizadores de um mundo cada vez mais pressionado pela bipolarização entre Marinha e pirataria, o Governo Mundial oferece um acordo há alguns deles. Um grupo de sete piratas é escolhido para atuar como corsários, os Shichibukai. Esses “piratas estatais” atuam ambiguamente, mas cumprem seu papel de ser mais um desafio aos piratas. Assim surge os Três Grandes Poderes.
              É nessa instabilidade que a tripulação dos Chapéus de Palhas se tornam um perigo iminente. Não apenas pelo poder que Monkey D. Luffy vem acumulando em sua jornada, mas por manter em sua tripulação Nico Robin. Essa mulher, diferente de seus outros companheiros, não era uma lutadora nata — embora seja uma guerreira por ter sobrevivido durante todos esses anos da perseguição política —, é uma arqueóloga. É a última sobrevivente do Buster Call na ilha de Ohara — um extermínio promovido pela Marinha, assegurando que os inimigos do Estado fossem dizimados. Sobrevivendo milagrosamente, Robin decide continuar a estudar a “verdadeira história”.
              A “história oficial” do Estado, escrita pelo Governo Mundial, é uma farsa para validar a hegemonia das classes dominantes, coibir a autonomia de povos, garantir os regimes de opressão vigentes e incriminar os seus opositores. Primeiro, se opera o apagamento dos fatos históricos, é impossível saber com exatidão qualquer coisa em período anterior a instalação do Governo Mundial e qual foi o seu processo, objetivamente falando; depois, o silenciamento dos profissionais de História — vide o assassinato dos arqueólogos e a destruição das fontes históricas em Ohara. História se tornou um tabu. Isso provoca medo e uma ojeriza às ciências humanas, ao estudo da História e saberes correlatos. Assim se garante um passado comum, homogeneizador, que sublima a diferença. Uma tradição inventada, porém, legitimada pela narrativa histórica estatal. O papel de Nico Robin nessa história é trazer lucidez à um mundo coberto pelo véu da ignorância. Que ela obtenha sucesso em seus objetivos.
  • instantes em um parágrafo.

    Cão raivoso. Já me seguiu nas estradas esburacadas, latidos, e, o susto tremendo, os vigaristas o viram e juntaram pedras para o meu destino. "Que o fim deles se vingue por minha causa, que o chão deles abra e os engula, e que não dê nenhuma palavra a favor.".
  • Jerry Bocchio – Detetive Particular – Capítulo IV: A Padaria Nova Caledônia

    Tom veio até meu escritório me dar péssimas notícias. Alice Harback foi até a Polícia pedir medidas restritivas contra mim. Agora eu terei que ir até a delegacia onde eu trabalhava para prestar contas sobre minha investigação. E o que é pior, terei que fazer isso para o Capitão Lester Gregade, meu antigo capitão quando eu trabalhava na Polícia.
    Agora só tenho dois dias, contando com esse, para ir atrás de algo que sustente minha investigação. O problema é que, além de eu não encontrar nada, ainda vou me enfiando num emaranhado de informações cada vez maior. Todas informações sem provas.
    Eu pensei em tentar voltar ao Hamilton's Fashion e dar uma prensa no maquiador, mas lembrei que quando Alice veio me ameaçar, ela citou que eu fui lá. Logo, é quase certeza que ela pegou essa informação com Hamilton e veio até mim. Então poderia ser perda de tempo ir até lá.
    Se a teoria maluca de Allan estiver certa, descobrir detalhes sobre a morte do General Ivan Harback ajudaria a dar um norte para minha investigação. Afinal de contas, seria um inimigo se vingando da família dele. Então comecei a tentar ver na própria internet mesmo se achava notícias sobre a morte do General. Tentei até entrar em sistemas próprios para a polícia com um login criado por um amigo meu, que eu não vou falar o nome. Tudo em vão. A única coisa que eu encontrei foi que ele havia desertado e desaparecido, depois disso, mais nada. Não encontrei nem sequer registros de punição a ele, já que desertar é crime. E olha que eu até tentei ligar para alguns contatos do Exército, sem solução.
    Não via outra saída, a não ser ir até o hospital onde Alice Harback havia sido internada. Eu teria que ser muito furtivo pra não chamar muita atenção. Só que quando me preparava para sair, meu telefone tocou. Era Allan Tresekos:
    – Alô, detetive Jerry Bocchio?
    – Sim, Allan, pode falar.
    – Preciso que o senhor venha à minha casa. Mandei meu motorista te buscar.
    – Olha, senhor Allan, eu estou com muita pressa pra resolver esse caso. Isso virou urgente.
    – Eu sei, detetive. É justamente sobre isso que eu quero falar. Só que, dessa vez, prefiro que seja em minha casa.
    Fui até a porta do escritório e, do lado de fora, estava o carro do Allan Tresekos com um homem em pé ao lado da porta do carro. Ele disse meu nome, falou que Allan estava me esperando e abriu a porta do carona. Entrei no carro pensando que agora tinha ferrado de vez. Allan também me escondia muitas informações. Isso também fazia dele um suspeito para mim.
    Chegamos à casa de Allan. Era uma mansão grande. O motorista passou pelo portão, atravessou o jardim e me deixou na porta. Allan estava me esperando no rol de entrada com um homem ao lado. Esse homem tinha cara de advogado. Desci do carro e andei até Allan, que também parecia apressado.
    – Doutor Perez, esse é o detetive que eu te falei. Jerry, esse é o Doutor Rodolfo Perez, meu advogado.
    Batata! Advogados... nunca me enganam. Enfim, nós três entramos e fomos até a sala de estar. O advogado e eu nos sentamos em poltronas e Allan, que continuou em pé, começou a falar.
    – É o seguinte, detetive: eu te chamei aqui porque Alice Harback foi até a Polícia e pediu medidas restritivas...
    – É, eu sei. Eu já estava indo investigar pra coletar provas pra sabatina de depois de amanhã quando o senhor me ligou. Não se preocupa não porque não é a primeira vez que fazem isso comigo.
    – Com você? Ela pediu medidas contra mim!
    – Eita! Você também? Parece que eu vou ter que me apressar ainda mais.
    – Então, sobre isso, eu gostaria que você ouvisse meu advogado. Doutor.
    O advogado levantou de sua poltrona e começou a falar:
    – Detetive, como vai? É um prazer conhecê-lo! – Detesto quando começam assim! Mau sinal.
    – Igualmente.
    – Eu estou aqui para combinar uma defesa com o senhor e o senhor Tresekos. Pra começar, eu peço para que o senhor pare imediatamente com as investigações.
    Ai, sabia! Sempre que um advogado começa falando manso, ele vai te jogar uma bomba. Mas dessa vez eu não queria saber de desistir. Tinha algo cheirando mal nesse caso, tão mal que encobria até o cheiro de lavanda da mansão de Allan (que, aliás, com tanto perfume disponível pra um cara rico como ele, ele escolheu lavanda?). Eu já não estava mais nem pensando no dinheiro, apenas em desvendar o mistério. Eu peitei o advogado.
    – Não mesmo! Tem algo estranho nesse caso e agora eu preciso descobrir o que é! Você sabia que o General Ivan Harback não morreu na guerra? Ele desertou. Ele morreu em outro lugar. E se ele voltou e foi assassinado aqui? Afinal, não possuem registros no Exército de qualquer tipo de punição, ele só consta como desaparecido.
    O advogado se surpreendeu com a descoberta que eu fiz sobre o General Ivan Harback. Porém Allan não parecia surpreso. Eu comecei a encarar Allan e ele começou a parecer nervoso. Aí eu precisei falar.
    – Allan, pelo visto, o senhor também tinha conhecimento dessa informação, não? Por que não me disse também?
    – Eu não sabia que era importante.
    – Tá virando personagem do Zorra Total, é? Só sabe dizer isso! Como você sabia disso?
    – Detetive, isso não é o que importa agora.
    – Escuta bem, senhor Allan. Você me contratou com uma teoria maluca na cabeça e eu fui o único que te deu ouvidos. Agora eu estou começando a perceber que isso é mais fundo do que parecia, mas não tenho nenhuma prova disso. Ou o senhor me diz tudo o que sabe, ou eu mesmo vou até a Polícia contar que toda a investigação foi baseada nessa sua ideia de comédia dos anos 90. Na frente da senhora Alice e tudo!
    Allan mudou sua feição de esnobe para uma feição mais de preocupação. Ele respirou fundo e dispensou seu advogado, que relutou um pouco, mas foi embora. Após isso, Allan pediu que eu o acompanhasse até a biblioteca da mansão. Lá, ele foi a uma estante velha, sem muito uso, no canto. Abriu uma de suas gavetas e retirou uma caixa. Fiquei apreensivo ao ver essa cena, mas ele logo abriu a caixa e nela haviam papéis. Eram cartas escritas por Ivan Harback para Alice Harback.
    – Como você conseguiu isso?
    – Alice recebia cartas de Ivan por meio de um contato de confiança dele no Exército que ele tinha no país quando estava lutando. Eu via Alice recebendo essas cartas.
    – Tá, mas como você conseguiu as cartas dela? Você ainda não respondeu.
    – Na verdade, após a internação de Alice, eu vi esse rapaz procurando ela, conversei com ele e fiquei de entregar as próximas cartas a ela no hospital, mas nunca consegui entregar.
    – Você ficou com elas todo esse tempo? Mesmo ela saindo do hospital?
    – É, ela ficou muito abalada com a morte do marido. Tanto é que o velório dele foi fechado. Talvez por causa justamente dele ter desertado.
    Opa! O velório foi fechado! Tá cada vez mais difícil achar alguém pra falar. Eu combinei de levar essas cartas para caso precisar na sabatina, em troca, Allan me fez prometer que descobriria a verdade e conseguir derrubar as medidas protetivas. Por que ele me pediu isso, sobre as medidas? Sei não, viu?
    No dia seguinte, analisei as cartas de Ivan para Alice. Pelo que entendi, o câncer de Alice já estava diagnosticado antes dela dar entrada no hospital. Ivan mandava as cartas preocupado se a doença iria se espalhar. Numa delas, ele dizia que estava preocupado com Alice, que não estava mais respondendo suas cartas e, por isso, decidiu deixar a luta para vê-la. Aí então estava o primeiro elo. Ivan Harback desertou durante a guerra para ir atrás de Alice.
    Porém, a carta que mais me chamou a atenção era uma que dizia o seguinte:
    "...Acabei de chegar no país, não posso passar no quartel general, pois o que eu fiz pode fazer com que eu seja preso. Em alguns dias, estarei no hospital. Não vou mais deixar o dever ficar entre nós dois."
    Só tinha um probleminha: essa carta era de um dia antes da Alice dar entrada no hospital. Pra falar a verdade, não tinha só essa carta de antes dela dar entrada.
    E o que é pior, as cartas também não dão nenhuma pista do paradeiro de Ivan Harback antes de sua morte. Será que ele foi morto no hospital? Mas se ele foi morto no hospital, alguém teria chamado a polícia no dia, não? A não ser que tenha sido um crime perfeito.
    Eram muitas suposições e teorias e pouco tempo. Então, decidi ir para um lugar onde eu poderia organizar minhas ideias do melhor jeito possível: a Padaria Nova Caledônia.
    Eu sempre vou à Padaria Nova Caledônia quando tenho um caso muito difícil. Dessa vez, não era diferente. Entrei, sentei ao balcão de atendimento e logo veio o Seu Rogério, com um sorriso de orelha a orelha, me atender. O Seu Rogério é o dono da padaria. Ele gosta de mim como cliente porque acha que, um dia, eu vou aparecer nos noticiários que ele deixa passando para os clientes assistirem na padaria, gerando assim, publicidade pra ele.
    – Fala JB! Vai pedir o que?
    – Boa tarde Seu Rogério. Eu quero um pingado e um pão na chapa, só.
    – Xiii! Tá pedindo café da manhã à tarde? Já sei, tá com mais um caso complicado.
    – É, pois é. E o pior é que eu tenho pouco tempo pra resolver essa... Atchim!
    – Ô Zé Maria, ou apaga o cigarro ou vai fumar lá fora! O cara aqui tem alergia, pô! Mas desembucha aí, JB. É sobre o que o caso?
    – Não posso falar detalhes. Envolve gente importante.
    – Ah, então daqui a pouco você vai aparecer aqui na TV. Olha, quando der a entrevista, tenta dar aqui na frente da padaria. Tá aqui o seu pedido. A vítima morreu do quê? Tiro, veneno, acidente?
    – Não sei, não consigo achar nenhuma informação sobre a morte da vítima. Só sei que ele estava fora do país, aí voltou fugido e desapareceu. Depois disso mais nada, só a família dele que diz que ele morreu.
    – Rapaz! No velório não tava o corpo dele?
    – A família deixou o velório fechado.
    – Então o cara tá vivo, pô! Não tem informação da morte do cara, não tem acesso ao corpo e só a família sabe onde tá enterrado? Além do mais, o que tem de homem que fica se fingindo de morto por aí. Tipo o Zé Maria. Né não, Zé Maria?
    Esse Seu Rogério, sempre tenta dar o pitaco dele nos meus casos. Mas, pensando bem, talvez ele tenha razão dessa vez. Enquanto fui comendo meu lanche, fui pensando nessa linha de raciocínio.
    Mas do jeito que a história está indo, se Ivan Harback estiver mesmo vivo, ou alguém da família ou o contato dele que entregava as cartas saberia o paradeiro dele. Só que Alice Harback não me quer por perto da família, só me sobra o homem que entregava as cartas. Mas eu não faço ideia de quem ele é, e mesmo se soubesse, ele é um militar, fazer ele depor em uma investigação não oficial seria muito difícil. Além do que, a sabatina é amanhã.
    Então eu me toquei, a sabatina é amanhã. Se eu conseguir convencer o Capitão Gregade que Ivan Harback pode estar vivo, a Polícia iria supervisionar minha investigação, sendo mais fácil colher depoimentos. Terminei de tomar o lanche na padaria e fui agradecer o Seu Rogério:
    – Seu Rogério, o senhor é um... Atchim!
    – De novo, Zé Maria? Já falei que é perigoso ascender cigarro perto da chapa! Termina de falar aí, JB.
    – Eu só quero agradecer porque você me deu uma ideia pro caso. Valeu!
    – De nada, JB! Só não esquece de dar a entrevista aqui na frente da padaria, hein?
    Voltei pro meu escritório pra montar minha argumentação. Tenho que ser bem cuidadoso, pois o Capitão Gregade é bem rígido quanto aos protocolos da Polícia.
    Tá vendo só como a Padaria Nova Caledônia me ajuda?
    Continua...
  • Kidnapped - Sequestrada.

    POV'S Alessa Katherine Kendrick.
        - Se alguém tem algo contra este casamento, fale agora ou cale-se para sempre. - Disse o padre.
       - Amiga é agora! - indagou Courtney que estava sentada ao meu lado. E ao lado dela estavam Hanna e Babi. Éramos as damas de honra, e que honra. Sorri com meu pensamento.
        Olhei do outro lado e em outro banco estavam sentados os meninos que iriam nos ajudar. Meninos que estudaram conosco. Os olhei e pisquei.
       Um deles se levantou e veio até mim. Estendeu sua mão e eu segurei na mesma. Me pus de pé e estalei os dedos, como se fosse um sinal. Logo uma música começou a tocar. Uma música romântica. O que fez todos olharem maravilhados achando que aquilo faria parte do casamento. Meu pai olhou sorrindo achando que aquela era uma surpresa que eu havia preparado para seu grande dia. E realmente era!
       Logo a música ficou mais sensual. Soltei meus cabelos. Agora sim o jogo começou.
       Eu me movimentava conforme a música, subia e descia de costas para Daniel, o garoto que estava dançando comigo. Passei minha perna em volta de seu quadril e o mesmo segurou ela ali, fazendo com que meu vestido subisse mostrando parte de minha bunda. Pude ouvir vários murmúrios o que me fez sorrir.
        - Alessa! - advertiu meu pai.
        - Sim Papai? - o olhei com cara de desentendida.
        - Sente-se imediatamente! - disse mais vermelho que o normal.
        - Garota mimada! - retrucou a vadia petulante do altar.
        - Claro. - disse e realmente me sentei. Mas em cima do colo de Daniel, logo após deita-lo no chão. Comecei a rebolar e Daniel começou a se soltar, não pelo plano, mas sim porque o mesmo estava ficando excitado de verdade.
       Me levantei e fiquei em prontidão, logo as outras garotas se encontravam do meu lado. Ficamos paradas, imóveis, os outros garotos se levantaram e nos rodearam. Agora tocava “Love Me” de Lil Wayne. Os garotos continuavam a nos rodear. Eles colocaram as mãos nas nossas nucas e puxaram os fios amarrados do vestido, fazendo os mesmos caírem ao chão revelando nossas lingeries vermelhas idênticas e totalmente provocante. Caminhamos até os meninos que estavam parados uns do lado dos outros. Nos abaixamos em perfeita sincronia e puxamos as calças dos mesmos revelando as cuecas box idênticas, também na cor vermelha, logo puxamos o smoking e revelou seus peitorais muito bem definidos e com a gravata borboleta no pescoço. Podíamos ouvir vários "Óhh" das senhoras sentadas tapando os olhos de seus maridos. Logo começou a tocar “Side To Side” da Ariana Grande. Começamos a fazer a coreografia com os meninos. Havia as senhorinhas que nos encaravam e não sabiam o que fazer, umas até foram embora passando mal. Pude até ouvir uma delas dizer: “Barbaridade, no meu tempo não existia esse tipo de coisa”.
        Nos deitamos no chão e os meninos se deitaram por cima, se esfregando em nós, invertemos as posições e ficamos por cima, rebolando o mais que conseguíamos ou pensávamos estar sensual, sem parecer um bando de virjonas, tentando ser vadias só para estragar o casamento do pai.
       Com a música logo no final, olhei para o altar e a vadia tentava acudir meu pai que estava muito vermelho, a mesma abanava o rosto dele com um envelope. O padre estava estático.
       Peguei o vinho que eu deixei preparado na taça onde eu estava sentada e caminhei até ela, beberiquei o mesmo e ela já podia imaginar o que eu ia fazer.
        - Se você ousar... - joguei todo o líquido na cara dela, manchando todo seu vestido.
        - Ah... sua... insolente! – reclamou, passando as mãos pelo vestido branco, desesperada.
       A igreja se pôs de pé, comentando minha audácia, alguns jovens na flor da idade, com os hormônios à flor da pele, nos aplaudiam e assobiavam. Já os mais velhos estavam indignados, provavelmente achando que eu era uma filha ingrata e mal criada.
       Ouço o grito da vadia e olho para trás e vejo meu pai caído no chão. Droga! Isso não estava nos planos.
        - Aí, Alessa, fodeu vem! - disse Hanna me puxando para a saída.
       Saímos correndo e descemos as grandes escadas da igreja, todos da rua nos olhavam, por conta de nossas lingeries. Um garoto que estava de bicicleta, deu de cara no poste após prender sua atenção em nós.
        Nós, meninas, corremos para meu carro que era um Audi R8, que acabara de ganhar do meu pai de presente antecipado de aniversário. Iria fazer 18 anos daqui quinze dias e os meninos entraram no Porsche de Daniel logo atrás de nós.
        - Mano, isso não estava nos planos. - Comentou Babi.
        - É o meu pai. Preciso voltar! - disse com lágrimas nos olhos.
        - Aí Kath, deixa de ser dondoca! Ele apenas desmaiou. Se voltarmos agora, vai ferrar para todas nós! Conseguimos o que queríamos, agora é só esperar. O casamento não aconteceu.
        - Está certa! Está certa! Está certa! - dizia tentando confirmar a mim mesma.
        Parei em frente a uma praça.
        Logo quebramos o silêncio constrangedor com nossos risos escandalosos.
         - Meu, vocês viram a cara da vadia quando você jogou o vinho na cara dela?! - dizia Courtney nos fazendo rir ainda mais.
         - Aí, Alessa - chamou Babi -, depois dessa acho que seu pai vai te deserdar. - rimos de novo.
         - A essa altura nem me importo com grana. Sem contar que ele me deixou disponível na minha conta 5 milhões de dólares, mas eu só posso mexer daqui 15 dias quando fizer 18 anos. Além do mais, tem a fortuna da minha mãe que diferente daquela vadia, ela não se escorava em meu pai. É uma mulher independente! - disse orgulhosa.
         - Realmente. A tia é mó fodona. Admiro muito ela. Ainda mais os vestidos que ela faz. - disse Hanna se lembrando do vestido lindo de 15 anos que minha mãe havia dado de presente à ela a três anos atrás.
         Fomos para minha casa e já estávamos vestidas novamente com os sobretudo que havíamos levado de reserva no carro.
         Abri a porta de casa e adentramos a mesma.
        - Mas já estão de volta meninas? - disse minha mãe alegre. Quem olhasse para ela jamais diria que a mesma fora traída e abandonada pelo marido. Minha mãe era uma mulher que eu admirava muito, não demonstrava fraqueza, mas eu sabia que a noite ela chorava por falta de meu pai.
        - Mãe, foi maravilhoso! - sorri largamente pra ela.
        - É tia, fizemos tudo direitinho! - disse a bocão da Babi.
        - O... O que? - disse direcionando seu olhar para mim - Alessa! O que você aprontou? - disse autoritária.
        - Então... Sabe o que é mãe... - disse olhando feio para Babi - Bom...
        - Bom?... - disse me incentivando a continuar.
        - Ah mãe, qual é! Você aceitou esse casamento, mas eu não! E estou em todo meu direito de fazer um show e acabar com tudo. Não é só por você, é por mim, pelo papai e pela família que tínhamos e ele nem se quer levou isso em consideração. Não adianta nada ele depositar milhões de dólares na minha conta, me presentear com um Audi R8, me visitar e me tratar como princesa se no final do dia, ele vai voltar para aquela vadia, vai jantar com ela, se deitar com ela e acordar com ela! Pronto para construir uma família nova e eu vou estar pronta para me considerar órfã de pai se isso acontecer! - disse transbordando raiva.
         - Ah filha... - ela sorriu e me abraçou - puxou meu temperamento. Me conta todos os detalhes, derrubou vinho no vestido dela? Isso não pode faltar em nenhum lugar!
         - Sim mãe, joguei bem na cara dela! Olha como ficamos na igreja... - disse abrindo o sobretudo e revelando a lingerie vermelha. A mesma arregalou os olhos e soltou um gritinho histérico, logo nos puxando para o sofá e nos fazendo contar cada detalhe.
  • Labirinto

    O sonho era bonito. Estava deitado na praia e sentia o sol bater na face direita do seu rosto. Já ardia de tão quente, mas não era uma ardência ruim ou angustiante. Trazia prazer sentir aquilo e o barulho das ondas do mar se quebrando trazia a tão querida paz. Porém, como é por diversas vezes costumeiro nessa vida, o sonho acabou e tudo se tornou um pesadelo. O despertador tocou as 05:30 da manhã, sinal de que ele tinha que sair da sua sonhada praia e começar a se arrumar para ir ao seu odioso trabalho.
    Tudo ocorria exatamente como ele detestava nos inícios da manhã. O seu café estava velho e ele colocou o número errado de colheradas de açúcar. O pão já estava duro, mas não o suficiente para que fosse impossível de comer. A programação da televisão era um lixo e, mesmo que achasse algo bom, não daria tempo de assistir tudo. Era assim todas as manhãs, mas o horário já avisava que não tinha como ser melhor.
    O cotidiano dos seus tormentos se modificou assim que abriu a porta. Tudo estava escuro. Somente por causa de uma luz, que estava distante dele uns 50 metros, era possível perceber que o que levava até ela era um corredor. Ele continuava na beira da porta com a sua chave na mão. Tentava entender o que estava acontecendo. Tentando achar alguma explicação lógica para aquilo. Tentando se convencer de que tudo não passava de um sonho. Tentando não se frustrar. E tentando criar coragem para ir até aquela luz.
    Os seus primeiros passos foram feitos sem muita convicção, mas a curiosidade de saber o que tinha lá fez com que a coragem viesse lentamente e seus passos foram se tornando mais firmes. Chegando lá, percebeu que tinha algo escrito na parede iluminada. “Bem-vindo ao meu labirinto! Direita ou esquerda? Direita.”. O que já era confuso para a sua mente se tornou ainda mais depois dessa frase. A única coisa que tinha convicção de que sabia era o que era um labirinto, mas não sabia de quem era ou de que maneira tinha parado ali já que sabia que não existia nenhum na porta de sua casa quando foi dormir. De qualquer maneira, seguiu para a direita com calma e sem nenhuma coragem.
    As paredes eram brancas e feitas com grandes tijolos de concreto, mas já estavam sujas e com trepadeiras crescendo nelas. Via a sua sombra o acompanhando apressadamente enquanto andava. Não havia luz o suficiente para que uma sombra fosse gerada. Percebeu isso quando um rato passou correndo por ele e nem sequer gerou uma imagem borrada. Quando chegou em uma bifurcação, continuou para a direita assim como ordenara o aviso. Finalmente, viu uma luz no final do corredor em que estava. Seguiu apressadamente, ansioso para saber o que estava escrito. Enquanto andava pensava somente em coisas boas, acreditando que podia ser uma saída ou pelo menos uma explicação do que estava acontecendo.
    O branco da parede começou a ter respingos de vermelho. Os respingos viraram manchas. A sua sombra se ajoelhou em prantos, ele não. Os seus passos estavam mais lentos como se quisessem impedir que os seus olhos vissem uma desgraça. Como se pudessem ver o futuro. E como se antecipassem a dor.
    Antes de ler o que estava escrito, viu o seu gato de estimação, chamado Simão, caído no chão. Ele repousava sobre o próprio sangue retirado por meio de uma degolação. Ainda dava para perceber o rabo com os pelos todos eriçados, mostrando que ele sofreu e sentiu medo em seus últimos minutos de vida. Assim que a sua ficha caiu, o que demorou poucos segundos, sentiu como se uma adaga tivesse sido fincada no peito. Não acreditava que, depois de passar doze anos ao lado do seu gato, ele teria que o perder dessa maneira, sem conseguir entender nem onde está e o porquê de estar lá.
    Quando finalmente conseguiu fazer com que as lágrimas saíssem da frente dos seus olhos, leu o que estava escrito na parede. “Eu disse direita? Esse nunca é um bom caminho, mas fique com esse presente. O reencontro com um animal de estimação é sempre emocionante. Siga ao norte e depois vá para a esquerda.”. Ele decidiu ir para o norte já que essa era a única opção além de voltar, mas viraria a primeira a direita que visse.
    Assim que começou a seguir pelo caminho planejado, viu que a sua sombra estava indo para trás. A sua mente estava perplexa com aquilo que via e isso só aumentou quando viu uma outra passar pela parede logo em seguida. Olhou para os lados e viu mais umas outras três sombras fazendo o caminho contrário. Decidiu ignorá-las, acreditando que esse seria somente outro truque do labirinto para desviá-lo do verdadeiro caminho.
    Como prometeu para si mesmo, virou a primeira a direita. O caminho parecia ser longo já que caminhava durante horas e não chegava a nenhuma parede que o impedisse de continuar. A sua mão já estava muita arranhada por ter que andar encostando na parede uma vez que a iluminação ia diminuindo lentamente e quase imperceptivelmente. Para ele, o labirinto insistia em tentar o convencer a seguir o outro caminho. Via diversas sombras voltando ou entrando em diversas bifurcações que levavam ao norte ou a noroeste, mas continuava firme em sua promessa.
    Finalmente chegou no terceiro aviso. A luz estava fraca e tremula. A escuridão a sua volta não o permitia ler direito. Quando olhou para a sua esquerda, viu diversas sombras parando uma atrás da outra. Não conseguia ter um bom pressentimento daquilo. Assim que a última sombra parou, todas passaram a correr em círculos. As sombras começaram a sair das paredes. Ele sentia o vento delas correndo em volta dele e o impedindo de respirar fundo. O seu coração disparou enquanto gritos estridentes de sofrimento começavam a ensurdecê-lo. Os seus olhos latejavam com o som e suas mãos foram instintivamente para os seus ouvidos, mas os sons já estavam dentro da sua cabeça. A dor que as sombras pareciam sentir invadiram o seu corpo e se concentravam em seu peito. Parecia que todas as angústias, sofrimentos, medos e dores, tanto físicas como emocionais, que as sombras sentiam estavam sendo transferidas para ele. A sua mente não aguentava aquilo e ele implorava para que a morte chegasse logo. O seu sofrimento deve ter durado horas ou pelo menos era isso que o seu cérebro estimava.
    A dor não cessou instantaneamente, mas foi reduzindo aos poucos, igual aconteceu com as luzes enquanto caminhava. No momento em que tudo se tornou suportável, viu que a luz presa na parede estava mais forte e com brilho firme. Leu cada palavra muito lentamente para tentar driblar a dor e impedir que ela não o faça entender a mensagem corretamente. “Você é retardado ou só não passou do maternal quando ensinaram direções? Eu falei esquerda e é melhor seguir as minhas ordens.”. Quando leu a palavra “ordens”, uma raiva subiu a sua cabeça que foi o suficiente para ignorar todo o resto da dor que sentia. Ele adorava desafiar autoridades e achava que, se continuasse para a direita, conseguiria a liberdade, então assim foi como ele fez.
    Ele foi um pouco para o norte e logo virou à direita. A dor misturada com a raiva o deixou com um aspecto de maluco. Às vezes, enquanto caminhava, sorria do nada com algum xingamento aleatório ao labirinto e seu criador como se estivesse prestes a ganhar uma luta difícil. Os seus passos agora eram inegavelmente firmes e sem nenhuma hesitação. Não havia muitas sombras a sua volta, somente três.
    A caminhada até o outro aviso não durou tanto como a anterior, mas ainda assim foi longa. Os seus pés já doíam, principalmente porque os sapatos que usava não eram feitos nem mesmo para caminhadas curtas. Mesmo assim conseguiu chegar ao quarto aviso e, no momento em que estava perto o suficiente para ler, se ajoelhou para que conseguisse descansar um pouco. Na parede estava escrito: “Você está saindo da área de influência dos meus poderes. Parabéns,”. Depois de ter sentido medo, tristeza e dor, esse foi o primeiro aviso que trouxe alguma felicidade e esperança. Pelo menos foi isso o que ele sentiu na primeira parte, mas a vírgula no final da frase o deixou apreensivo. Queria acreditar que era só um descuido numa pichação apressada. E, como quis acreditar dessa forma, assim acreditou e decidiu continuar o seu caminho para direita.
    Não demorou muito para encontrar outra bifurcação na sua tão querida direção. Depois de ter dado uns vinte passos, o caminho que estava atrás dele se fechou e o chão cedeu até a metade dos seus passos. A luz que iluminava aquelas áreas só durava o bastante para que ele visse toda o chão ceder com um estrondo aterrorizador e sumir diante dos seus olhos, se tornando nada além de escuridão. A cada passo que dava para frente, um pouco mais de chão era perdido atrás. Não tinha percebido antes, mas agora só tinha uma única sombra o seguindo, somente a sua.
    Os seus passos estavam tão lentos como os de um velho de noventa anos. Queria correr até o aviso, mas os seus joelhos estavam travados de medo. Queria acreditar que continuava no caminho da saída, porém não conseguia se convencer de que a liberdade tinha um caminho tão amedrontador. Os seus sorrisos desafiadores agora não passavam de um rosto que se segurava para não chorar com as suas pálpebras e lábios tremendo. Toda a força que fazia não foi o suficiente para segurar as suas lágrimas enquanto lia o aviso. “, você cavou a sua própria cova, então agora aceite a sua morte. Nos vemos no inferno.”. No exato segundo em que os seus olhos viram o ponto final, todo o ar a sua volta sumiu. Não havia mais luz no labirinto enquanto ele sufocava até a morte. Em seu sofrimento, os seus olhos pareciam vazios, embora seu coração estivesse cheio de decepção.
  • LENTES

    Os olhos
    São lentes
    Diferentes...

    Olhares diferentes
    Penetrantes...

    Olhares das mentes
    Mentes revolucionárias
    Combatentes...

    Mentes insurgentes
    Mentes que mantém
    Lentes midiáticas.

    Mentes democratas
    Mercados, pomadas
    Lentes felinas.

    Universo das mentes.

    Linces...

    Lentes,
    Mentes mirabolantes
    Que através das lentes.

    Mentem...

    Fazem guerras
    Em nome de Deus!

    Lentes...

    Que filmam as mortes
    Retratadas como coisas
    Penetram quando vida.

    O prenúncio das mortes
    Mentes das lentes.

    Mentem...
    Mentem...
    Mentem...
  • Livrai-nos do mal

    Pai nosso, que estás nos céus

    Santificado seja o teu nome. Venha o teu reino;
     
    Seja feita a tua vontade,
     
    Assim na terra como no céu
     
    Dá-nos hoje nosso pão de cada dia
     
    Perdoai-nos as nossas ofensas 
     
    Assim como nós perdoamos
     
    A quem nos tem ofendido
     
    E não nos deixeis cair em tentação
     
    Mas livrai-nos do mal
     
    Amém"
     
    "Mateus 6:9-13"



    Capítulo 1
     
    Investigação (1990)
     
    1
     
    O tempo se fecha no céu, as gotas se formam nas nuvens enquanto as lagrimas escorem dos rostos familiares em volta de Maria Carolina Ruschel. Seus pais, Sophia Ruschel e José Ruschel, estão sendo sepultados no cemitério atrás da igreja. Maria com apenas 8 anos assassinou eles, um ato que no futuro ela entenderia como vingança. Isso era apenas o começo dos assassinatos da pequena criança.
     
    Todos estavam de preto, alguns seguravam guarda-chuvas, outros lenços, o padre lia uma passagem da bíblia, trovões assustavam os presentes, o vento assoviava entre as folhas, Maria estava congelada de medo, não pelos corpos de José e Sophia, e sim pelo homem de terno preto que sorria logo atrás do padre, era um sorriso de satisfação, de trabalho bem feito. De repente a voz do padre fica cada vez mais distante, o som do vento e do choramingo de seus parentes começa a sumir. Quando o lugar todo fica em completo silencio, o homem começa a gargalhar euforicamente, Maria começa a tremer, suas pernas estão quentes, um liquido estranho esta escorrendo entre elas, ela cai no chão de joelhos, todas as pessoas ao seu redor sumiram, ela está sozinha junto ao homem desconhecido, Maria coloca a mão entre as pernas e sente o liquido grosso e viscoso. Sua vagina está sangrando. Ela começa a chorar, mas não demora muito e para, uma boa sensação toma seu corpo, o homem gargalha em dobro agora. Todo seu corpo começa a formigar, seus olhos ficam brancos, ela geme cada vez mais alto. Neste momento o homem mistura sua gargalhada com gritos.
     
    -ISSO! ISSO! MINHA GAROTA, NÃO RESISTA AO PECADO
     
    Ela tremeu e gemeu por mais alguns instantes e depois desmaiou. O homem estalou seus dedos e Maria acordou, ainda desnorteada limpou a saliva em sua boa, lambeu os lábios e olhou para o homem com cara de dúvida.
     
    -O que aconteceu? Cadê todas aquelas pessoas? Quem é você? –Disse ela rapidamente, se levantou assustada e cruzou os braços sentindo frio.
     
    -Calma minha menina. Quem sou? Bom depende a pessoa, mas para você, saiba que sou seu verdadeiro pai. E aquilo que você sentiu e um presente que dei a todas as pessoas do mundo, e você, Maria, teve a sorte de receber muito cedo. Bom, eu chamo isso que sentiu minha querida de felicidade, já meu pai chama de pecado, e os seres humanos deram um nome diferente, não gosto muito, espero que tenha gostado do meu presente-Ele dizia tudo isso se aproximando dela e gesticulando com as mãos.
     
    Maria agora se sentia bem, de uma maneira que nunca se sentira antes, o homem falava a verdade? Ele realmente era quem dizia ser? Ela não sabia, mas confiava nele. De repente ela sentiu vontade de querer mais, mais calor, mais formigamento, mais sangue, mais felicidade. Ele finalmente chegou ao lado dela, se agachou, colocou a mão em seu ombro-Era um homem muito bem arrumado, tinha um cheiro bom misturado com enxofre (ela amou o cheiro de enxofre) ele tinha uma rosa vermelha no bolso do terno, o cabelo era muito bem penteado, usava um bigode que se enrolava nas pontas, e um sorriso extremamente branco, os olhos eram seu destaque, as vezes vermelhos, as vezes violetas, as vezes roxos, a cor ia mudando sem serem notados.
     
    -Gostou? -Diz ele.
     
    -Sim...
     
    -Quer mais, não quer?
     
    -Sim...
     
    -Bom, é muito simples, é só me obedecer, você vai?
     
    -Sim...
     
    -Ótimo!
     
    O homem então beijou sua testa. Acordou deitada no chão, chuva caia forte agora, todos seus parentes e o padre estavam ao seu redor. O padre quebrou o silencio.
     
    -Menina! Você está bem?!-gritou ele ainda assustado.
     
    -Nunca estive melhor-disse ela sorrindo.
     
    2
     
    O padre, Joseph Levitt, carrega Maria em seus braços para dentro da igreja, ele tenta se apressar, mas já não é o jovem Bépe faz muitos anos. À chuva deixou o gramado escorregadio, se ele caísse poderia quebrar algum osso e ali ficar por um bom tempo pois os familiares de Maria não estavam por perto para ajudá-lo. Parece impossível levar a garota para dentro. Sua respiração fraca, sua velhice, não faria ele desistir-Bépe nunca foi de desistir das pessoas que podia ajudar. Um passo de cada vez, ele pensava respirando profundamente, chegando bem perto da porta, Joseph, teve o desagradável sentimento de ser observado, ele parou por um instante, seu coração dobrou os batimentos que já estavam acelerados. Por um pequeno instante o pobre padre (misturado aos sons de vento e trovões) ouviu uma gargalhada não muito nítida que parecia vir ao fundo da floresta, ou talvez foi sua imaginação de uma mente que estava em decadência junto com o restante do corpo. Finalmente ignorou todo o resto e entrou na igreja com a menina que estava tremendo de frio. Com dores nas costas, levou Maria para os primeiros bancos que ficavam perto do altar.
     
    Joseph procurou roupas secas nos pequenos armários-onde somente padres, freiras tinham acesso-encontrou um pequeno vestido branco para a menina e uma batina seca para ele. De volta ao altar Bépe trouce um cálice de vinho-agora de roupas secas- e um pão para alimentar a criança. Maria agora acordada sorria para ele ao ver a comida e o vestido. Porém o padre não gostou muito de ver aquele sorriso no rosto de Maria, era desagradável, não era um sorriso inocente e alegre de qualquer criança de sua idade, tinha malicia, uma malicia tão horrível e perturbadora que assustou o pobre senhor de uma maneira que ele teve vontade de jogar tudo no chão e puxar sua bíblia de bolso, mas não o fez, pois era somente uma pequena menina de cabelos longos e loiros com olhos azuis, na verdade até parecia um anjinho. Com toda a calma, Bépe, chamou Maria e mandou ela se vestir em algum dos quartos da igreja e depois voltar para comer o pão e beber um pouco de vinho-ele achou que tudo bem ela beber um pouco para esquentar o corpo, Na Europa e completamente normal crianças desta idade beber alguns goles de vinho, refletiu. A direita do altar existia um pequeno escritório, com bíblias, outros livros católicos, e até mesmo um telefone, em cima da mesa de Joseph. Ele se deslocou até sua mesa, sentou, e começou a pensar no que fazer com a garota. Alguns minutos se passaram e ele teve a ideia de ligar para a delegacia-ele tinha um amigo que era policial e poderia levar Maria em segurança para o orfanato e também escola de freiras da cidade- lá ela vai ter educação, comida e uma nova família, lembrou-se de sua infância. Sim, Madre Bárbara, será perfeito para ela. Com esse último pensamento em ordem, percebeu a escuridão de sua sala então ligou o abajur de sua mesa, no mesmo momento o sino badalou e fez Bépe voltar a realidade, ele viajava em lembranças. Já são sete horas, preciso me apressar. Finalmente pegou o telefone e digitou os números, meio relutante pois o rosto sorrindo de Maria não saia de sua mente, em seus 40 anos como padre, nunca tivera presenciado um sorriso tão maligno. Bépe era o apelido que ganhou por todos que moravam na cidadezinha de Vera Cruz. Uma cidadezinha que habitava dentro de si um mal que crescia a cada ano que passava, pelo menos era como o padre se lembrava. Com o dedo no ultimo digito da delegacia, Joseph ouvia o som do vento e da chuva, parecia que o passado o chamava. Bépe. Agora tremendo um pouco se lembrou de uma frase, não lembrava o contexto, nem onde estava, nem com quem falava. Se algum dia o anticristo nascer, e com ele trazer o apocalipse, Vera Cruz será seu berço. Com isso fez a ligação e após três longos Beeps, ouviu uma voz grossa e rouca sair do telefone
     
    -Alô, delegacia de Vera Cruz
     
    -A-Alô-diz o padre com a voz tremula
     
    3
     
    Vera Cruz nem sempre foi uma cidade onde coisas horríveis acontecem normalmente. Em algum dia no final de maio, o pequeno Bépe descobriria que sua cidade estava amaldiçoada com muito mais do que apenas alguns assassinatos, estupros, e até mesmo animais que simplesmente sumiam, ou morriam de alguma doença desconhecida que apodrecia sua pele e ossos em pouquíssimos dias. Era ainda pior, pode acreditar. 
     
    No verão de 1934, Joseph Levitt completava seus 12 anos, se sentia quase um adolescente agora. Suas primeiras paixões começaram a surgir. Além do futebol, Levitt admirava uma moça ruiva de cabelos longos que passava na frente de sua casa. Essa moça é Rosemary Aine. Sorriso longo, sua pele branca realçava sua boca excessivamente vermelha e pequena. Seus olhos verdes combinavam com seu vestido estilo camponesa alemã. Algumas sardas cobriam suas bochechas e nariz. Tinha seios fartos o bastante para marcar o pequeno decote apertado, e um quadril largo o suficiente para marcar o vestido. Com ela sempre levava uma cesta com flores e alguns vegetais. Rosemary sempre fazia o mesmo caminho ao leste da cidade, onde ficava a famosa vila das bruxas. Lugar onde viviam famílias irlandesas, que no passado foram expulsas de Vera Cruz, por puro e completo preconceito da sociedade na época
     
    Mas elas não são bruxas de verdade, certo? Levitt em um jantar após os pais contarem a ele sobre fogueiras feitas por seus avôs e outros moradores da cidade que na época era muito menor (mesmo hoje em dia a cidade dificilmente chegaria a dez mil moradores). Algumas bruxas foram queimadas vivas. Outras, esfaqueadas, decapitadas, enforcadas e afogadas. Mas no final todas era queimadas para retornarem para o inferno. Os pais-Morgana e Alfonso, Levitt-não contaram a parte mais pesada da história. Um simples coral vindo dos dois- É claro que não – Junto a risadas quase convenceu Joseph, mas sua curiosidade era maior.
     
    Um certo acontecimento mudou um pouco a sua conclusão, e despertou a curiosidade de Bépe em uma manhã fria de começo de inverno.
     
    Joseph, um menino loiro de olhos azuis (esse era um padrão de beleza que chamava a atenção de Rosemary e de muitas meninas, mas esse tempo se foi) de boca sempre aberta quando Rose passavam em frente à sua casa. O garoto usava sempre uma camisa branca junto ao seu macacão. Ele se sentava ao balanço de pinéu-que estava amarado na árvore de família-que o pai tinha projetado para ele. A árvore era da família a gerações, e tinha o nome de Maria, em homenagem a sua tataravó. Bépe brincava no balanço todos os dias após a escola, esperando sempre sua amiga passar para sorrir e alegrar seu coração.
     
    Em uma manhã de sábado, Joseph estava animado, desceu as escadas do seu quarto correndo, levando cobertor e travesseiro. Era dia de assistir desenhos animados. Ele era muito pontual sobre isso, todos os sábados, as sete horas ele estava em frente à televisão. Morgana prepara seu café da manhã, toradas com geleia de morango e leite morno com um pouco de açúcar. Morgana Levitt, era uma mulher muito alegre, cantava todas as manhãs de sábado. Ele comeu as toradas, bebeu seu leite, e riu, riu muito com os desenhos animados, o dia de Joseph Levitt estava perfeito até ele cometer o erro de seguir Rosemary até a casa na colina. Aquele era o dia em que Bépe teria certeza que além de um garoto solitário ele seria assombrado. Ao final dos desenhos, e do café, o garoto só precisava ver o sorriso de sua amada para seu dia ser perfeito. Correu pela sala e para fora de casa, correu ainda mais no gramado, com os braços abertos, se sentia um pássaro livre do cativeiro, livre para conhecer o mundo. Subiu no balanço e se jogou para frente com os pés, para trás, várias vezes, pegou velocidade, vou para longe, para o alto, sentiu o vento gelado, sentiu o sol. De repente vou fora do balanço, fora do gramado, por um instante seu coração quase saiu do peito mas voltou quando sentiu mãos gentis segurarem ele evitando que se quebrasse na calçada, mas não evitou o grito que saiu do fundo de seus pulmões.
     
    -AAAAH!
     
    -Calma garoto, eu te peguei viu? Tudo vai ficar bem-uma voz suave e gentil vinha da pessoa.
     
    -O-obrigado-disse ele envergonhado, porem se colocando no chão e vendo quem era sua salvadora. E agora seu coração realmente quase parrou. Era Rosemary.
     
    -Come se chama garotinho? Você mora aqui?
     
    -S- s -sim, me chamo Joseph.
     
    -A que lindo nome, prazer em te conhecer Joseph, me chamo Rosemary, eu sei parece complicado de lembrar, por isso pode me chamar de Mary, ou Rose se preferir, o que acha?
     
    -Acho legal-Ele estava menos nervoso, ela sorria para ele de uma maneira encantadora
     
    -Tome mais cuidado Joseph, você é um rapaz muito lindo, e sabe de uma coisa, essa cidade é perigosa demais para meninos lindos como você, e se acabar se machucando assim, pode ser difícil de correr do perigo não acha? –Ela disse mantendo o sorriso lindo, porem seus olhos mudaram do verde claro para o vermelho, isso fez Bépe se arrepiar totalmente, e tremer um pouco. Algo estava errado, o coral de vozes dos pais ressoou na cabeça-Claro que não.
     
    Com isso Mary continuou seu caminho. Tremendo um pouco, Joseph começou a seguir ela, ele estava curioso e com medo da história dos pais. Será verdade? Ele parou e esperou um pouco pensando no assunto. Aqueles olhos...
     
    Um menino apaixonado por uma jovem com talvez o dobro de sua idade, e não era só ele, ela seduzia qualquer um. Rosemary Aine tinha algo especial, e também escondia segredos terríveis. Segredos que traumatizariam Joseph. Porem ajudaria ele a descobrir a verdade por trás de toda a maldade de Vera Cruz. Mas naquele momento, ele não sabia de nada, ele só queria desvendar um mistério que atormentava sua cabeça O coral voltou-Claro que não.
     
    Ela começou a ganhar distância do menino, entrando agora no centro da cidade. Joseph morava na última casa da última rua antes do centro. Alfonso Levitt gostava porque podia comprar seu jornal do outro lado da rua todas as manhãs. Era um bairro de ricos, os mais ricos da cidade, se quisessem, juntos somente os pais de Joseph, comprariam toda a cidade e ainda assim sobraria dinheiro (não tinha muito no que gastar). A moça passara a banca de jornal, o jornaleiro gritava algumas manchetes sobre a bolsa de valores, assassinatos, e sobre a peste que estava devastando os animais no interior da cidade. O menino esperou pacientemente Rose se afastar uns bons metros, para que ele avançasse em sua direção. Ele estava realmente determinado em descobrir o que ela realmente era.
     
    Quando Mary alcançou a feira da cidade-onde aos sábados se reunira muitas pessoas em busca de vegetais, frutas, carnes, leite, pois as pessoas achavam que esses produtos que vendiam no mercado não eram saudáveis, apesar que os produtos que vinham do campo eram os que sobreviviam a praga, e outros que eram importados da vila das bruxas- o menino apresou o passo. Pessoas saiam de todas as lojas ao mesmo tempo, ele se esbarrava com muitas delas e pedia desculpa quase automaticamente. Joseph realmente achava que Rosemary não sabia de sua intenção, mas ele se enganava, e com isso ela pensava na forma mais "talentosa" de "impressionar" o menino.
     
    Ao passar a multidão de pessoas na feira, o garoto, seguia sua amada por toda a cidade, com passos minuciosos. Quando finalmente viu para onde Rose seguia caminho, Bépe ficou relutante. A vila das bruxas, no fundo ele sabia que provavelmente era lá que acabaria sua jornada. Mas algo o fez continuar, paixão? Talvez, ele não tinha certeza. Parado em frente a última farmácia de Vera Cruz, vendo a trilha e imensa floresta fechada onde Rose entrava cantarolando como se fosse a chapeuzinho vermelho, o menino tremia de medo da tremenda escuridão que habitava a floresta as dez horas da manhã. Uma escuridão tão densa que parecia que podia tocar e segurar em suas próprias mãos. As árvores, ele ouvia sussurros fracos de onde estava, uma língua desconhecida por Joseph, talvez já ouvira o padre Sebastião falar em uma de suas missas que o menino frequentava todos os domingos. Após um tempo ouvindo as vozes e os galhos sendo esmagados e o cantarolar ser diminuído, Joseph teve coragem o suficiente e se aproximou da floresta que parecia sugar sua alma e felicidade a cada passo que dava em sua direção. Em alguns segundos não existia mais a calçada em seus pés, e sim terra, grama, galhos, e folhas, os sussurros aumentavam. Ao chegar na entrada da floresta fechada, Bépe olhou para dentro, para o coração da floresta, e depois para o alto das árvores e percebeu que o tempo se fechava em cima da floresta, ele começou a ficar com frio, as folhas das árvores começaram a tremer e assoviar.
  • Lúcia (Parte 1)

    Noite chuvosa, sete e trinta e seis da noite de uma quarta feira normal na cidade de angra dos reis. 
    Os carros ainda fazem seu desfile diário nas ruas esburacadas de um morro da cidade. Numa das casas, se encontra Lúcia e sua irmã Carla; lúcia tem 17 anos e carla tem 5. 
    - Poxa, o pai tá demorando... E você, que não larga esse celuar Lúcia, escreve pra mim o nome do desenho logo! - Diz Carla, fazendo cara de choro.
    - Eu to ocupada garota, já falei! - Responde Lúcia insatisfeita por ter que ficar com a irmã enquanto o seu pai trabalha e sua mãe ainda está fora num passeio com as amigas da igreja que vai durar mais uns dois dias-
    Alguns minutos depois, quando acabou de conversar, Lúcia levanta os olhos, "-você ainda quer ver o desenho q...", batem forte na porta quatro vezes, na ultima a porta se abre um pouco. Pela fresta um homem com calças jeans claras, bastente sujas e surradas do tempo coloca o pé esquerdopra dentro da casa e pergunta: - O Rogério tá em casa?- 
    Lúcia se assusta e começa a chorar.
    O cheiro de bebida tomou conta da pequena sala onde moravam as meninas e seu pai.
    -Meu pai tá trabalhando!- quase grita Carla indo em direção a irmã pra tentar acalmá-la do susto que levara.
    -Eu queria falar com Rogério, Ele não tá aí não?- Diz o homem que agora já abriu a porta revelando então uma camisa preta, um rosto envelhecido e ensanguentado se esgueirando com olhos arregalados e um estranho sorriso que briga com a dor numa boca seca sob um bigode imenso.
    - Meu pai não tá aqui, é melhor o senhor ir embora logo! Não gostei de você ter entrado aqui assim! - Diz Carla indo em direção a porta, no caminho ela pisa num brinquedo no chão, olha pra baixo pra ver o que é quase que institivamente procurando o que a feriu, quando ouve a porta batendo.
    Ela olha pra cima assustada e vê o homem de costas trancando a porta.
    -Eu vou esperar ele chegar!- Diz o homem que parece agora ser maior que momentos antes.
    -Moço, por favor, vai embora!- Suplica Carla enquanto abraça a irmã que já havia corrido e agarrado a cintura de Carla.
    -Eu não vou embora até esse babaca do seu pai aparecer, ele vai bater na porta, e eu vou fazer um surpresinha pra ele!- retruca o homem limpando um dos olhos cobertos de sangue.
    - Meu pai não é isso que você falou, você que é!- Grita Lúcia, nervosa.
    -HAHAHAHAHA... você não conhece seu pai, eu conheço!- Grita com soberba o invasor, já sentado onde estava Carla.
    Lúcia, com medo, começa a chorar baixinho.
    O homem então num longo e repentino suspiro levanta e vai em direção as meninas e sussurra repetidamente no ouvido de Carla: - Faz ela calar a boca, faz ela calar a boca, faz ela calar a boca...-
    Carla começa também a chorar, mas em total silêncio e de olhos fechados.
    O homem a agarra pelos braços à soltando da irmã e girta: - AAAAAAAAAAAAAAAAAARH!!- No ouvido de Carla que grita:- Socorroo! - O homem então lhe dá um tapa na boca que a faz cair.
    Lúcia corre pra ajudar a irmã mas o homem a impede segurando em seu braço .Ela se debate tentando se livrar enquanto sua irmã ainda se recupera no chão.
  • Maestro infernal: capítulo 1

     
    A chuva batia no para brisa do corola 2008, como se fosse um pianista profissional tocando uma sinfonia maravilhosa de Beethoven. Sem dúvidas Rodrigues, babava em cima do volante, trabalhar de detetive particular nas horas vagas, e manter seu trabalho na polícia estava acabando com ele. Mas, ele precisava. Vento forte, trovões, pancadas de chuva, até mesmo a própria buzina que tocava eventualmente, não o acordava, dava pequenos pulos no banco, de hora em hora, não adianta, seu sono era pesado, e a chuva ajudou a tranquilizar o homem, vivia a base de pão do 3 dia e café de má qualidade. Dias em claro atormentavam sua cabeça. O rádio da polícia toca, aparentemente um terrível assassinato aconteceu, homicídio duplo, menina abandonada ao meio do sangue, isso sim o despertou novamente. Rodrigues era por natureza um predador de casos bizarros e sem sentido, amava seu trabalho, sempre se sentia um tal de Sherlock do sobrenatural, o próprio Scooby-Doo farejador de corpos esquartejados e dilacerados, mofados sujos, nojentos. Bom, Rodrigues não amava o banho de sangue, mas, amava e fascinava pelo sobrenatural. Nesses cenários complicados, sem pistas normais, sempre existia algo do outro lado, do mundo invertido, purgatório, seja lá como preferir chamar, era a única explicação pra alguns casos de mortes extraordinárias sem marcas. Quando criança Rodrigues vira vultos e etc. Porém ninguém acreditava nele, hoje em dia muito menos. Ele se sente ligado a esse mundo de monstros, fantasmas, bruxas, homens que pulam em uma perna só ou de pés invertidos, seu pai sempre contava a história de que um menino dos pés ao contrário e cabelos de fogo vigiava a floresta, era pra assustar o pequeno Gui, hoje em dia, esse se pergunta, eram só histórias? Algumas poderiam ser mesmo, outras ele não tinha certeza. Com um belo solavanco, Gui pulou, pegou o rádio, e ouviu com atenção. “Dois corpos na mansão Volkman, na colina do Dia bom, certamente identificados como Senhor Paulo Volkman e senhorita Valeria Volkman, ambos com 43 anos, aparentemente os dois tiveram todos os ossos quebrados, porém sem hematomas graves externos. Encontrada na cena somente a filha única, Clarisse Volkman, em prantos, nenhum outro parente da menina foi localiza...” Gui ouvirá suficiente, ligou o corola, partiu a todo vapor pra colina Dia bom. Rodrigues esperou a movimentação acalmar, queria investigar sozinho a cena, policiais iam e viam, lanternas nas mãos, capas de chuva, guarda-chuva sirenes e luzes pra todo lado. Rodrigues deixou o carro na mata, e seguiu caminhando o resto da colina, se esgueirou, escondido vigiava, coberto pelo seu sobre tudo preto e uma capa de chuva provisória. Aparentemente ninguém o notara, avistava com um binóculos, dois policiais conduziam uma pequena menina de olhos claros e cabelo loiro curtinho estilo chanel e encaracolados linda como uma margarida, mas murcha, pela chuva, e pelas lagrimas. Os policiais largaram a menina no banco traseiro da viatura, parecia tentar consolar a menina. Não funcionou, continuava cabisbaixa. Percebendo que nada iria mudar na menina, se afastaram e continuaram seu trabalho. Rodrigues notou a oportunidade perfeita e se aproximou da viatura, deveria fazer perguntas, ele era ótimo com crianças, não exatamente crianças mesmo, mas seus dois gatinhos, franjinha e bolota amavam ele, crianças não deveriam ser diferentes, somente mudava o tipo de petiscos oferecidos, e sem caixinhas de areias, definitivamente crianças eram mais fáceis de lidas, sem sombra de dúvidas. A barra parecia limpa, Rodrigues chegou perto suficiente do vidro da viatura escura e fria, cutucou a janela cuidadosamente, tentando ganhar atenção da menina, mas alerta para não ser percebido. Com um pulinho do banco a maninha encarou aquele projeto de sem teto esquisitão, sorrindo de orelha a orelha, acenando como se a garota fosse uma nova espécie de macacos australianos. Clarisse torceu o rosto, mas não gritou, o homem tinha olheiras fundas, barba por fazer, fios brancos na barba e na cabeça, topete mal feito pele branca e dentes amarelos de café expresso de má qualidade, o bafo deveria ser terrível, pensou a menina. Cuidadosamente, ela abaixa o vidro e pergunta. -O que você quer? Não me resta mais nada, sem esmolas hoje senhor, por favor se retire. Sentia-se enojada só de encarar aquele projeto de homem das cavernas. -Muito mal educada você, uma menina tão linda com uma boca suja assim, desse jeito não vai ganhar mais meu chocolate superespecial-Rodrigues fala isso fazendo uma cara emburrada e um biquinho esnobe. Clarisse fica intrigada. -Qual sabor? -Chocolate ao leite com avelã e castanhas caramelizadas. -Mentira! -grita escandalizada, batendo o pé, cruzando os braços com força- esse chocolate não existe, nunca vi em lugar nenhum, e já fui a muitas lojas diferentes, com chocolates importados da Bélgica, Suíça, Alemanha, e nunca vi esse sabor, além de feio o senhor e mentiroso. Rodrigues tira do bolso do sobretudo um envelope dourado, um chocolate muito aromático, como ele descreveu, e da uma baita mordida, enchendo a boca. -Huhummmm-exclama Rodrigues, muito satisfeito e saboreando seu chocolate perfeito e inigualável. -Deve ser um chocolate qualquer, você não me engana- Clarisse esnoba o detetive. -Certeza? Por que não prova? Com um estalar crocante, como se um lenhador quebrasse uma tora ao meio próprias mãos, o chocolate é partido, ele estende ate a menina encolhida no canto. Ela encara com curiosidade, avança a mãozinha e pega, olha, cheira e morde a pontinha, incrédula com o sabor irresistível e maravilhosa chuva de sabores na boca, a garotinha, funga e chora um pouco, seca as lágrimas no rosto com a manga da blusa lilás. Ainda choramingando, confessa. -Lembra meu papai. Rodrigues fica sério em silêncio. Retoma a conversa com um tom mais sério. -Qual seu nome menina? -Clarisse, porque te interessa? Eu não sou ninguém pra você, eu não sou mais ninguém agora. Rodrigues da um longo suspiro e continua -Clarisse, certo? Tudo bem, pode me chamar de Gui, apelido na escola. Olha eu sei que você perdeu tudo hoje, não sou a melhor pessoa com conselhos, mas, preciso saber o que você viu lá dentro, tenho algumas ideias mas não a certeza, preciso de ajuda, da sua ajuda, você é muito inteligente, tenho certeza- Termina dando sorrindo meigo. -Gui, qual é seu nome, tipo, completo? -Rodrigues, faz sentido pra você? -Não exatamente mas tudo bem- Ela para, e respira fundo- Se contar pra você, promete não rir? Os policiais riram, e debocharam, disseram que eu estava alucinando, “demônios, monstros? Isso é história de criancinha” fiquei muito envergonhada. -Clarisse, vem comigo, pode contar a sua história, já vi milhares de coisas esquisitas, acredito em cada palavra sua. Mas tive um ideia, vai ser melhor, me segue por favor. Rodrigues abre a viatura e estende a mão- Vem vamos, no caminho me conta tudo oque lembra, ouvi no rádio parte dos acontecimentos. A menina fica desconfiada, mas segue o policial esquisitão, esgueirando se pelas viaturas, pelo mato até a entrada dos fundos da mansão, ao entrar Rodrigues e Clarissa se depararam com uma enorme cozinha, mesa de jantar, tudo completamente arrumado e limpo, deveria caber dez, doze convidados na longa mesa preta se ornamentada , pia de mármore, geladeira de duas portas, Gui fica maravilhado ao se deparar ao bar da família, taças, vinhos importados, e oque mais chamou sua atenção, uma cafeteira de expresso, provavelmente italiana, profissional, o mais puro café que jamais tomaria. Peças de queijo, salames espalhados pendurados sobre o teto, uma variedade de uísques importados. Se existem um céu certamente era parecido, Rodrigues imaginava. Clarisse ficou confusa com o homem babão olhando todo aquele banquete, estalou os dedos o mais próximo do rosto dele, dando pulos, puxando a manga do seu braço e exclamando, parecia estar em transe. - Gui, ei acorda! Nada. -EII ALOU. A menina impaciente chutou sua canela. -Aiii! Clarisse, calma. Esfregava seu calcanhar que podia inchar futuramente. -Acorda por favor, preciso que fique atento, estou com medo de voltar aqui, mas ainda assim estou curiosa, preciso entender que aconteceu com eles. Ela aponta pra saída da cozinha/sala de jantar. -Onde eles estão? Na sala? -Papai, piano. -Certo. Começam a caminhar em direção a cena mais aterrorizante de Clarisse até hoje, inimaginável, passos largos e frios, chuva ainda batendo, coração acelerado e ansioso , Rodrigues nunca tinha ouvido de algo assim antes, ossos quebrados, sem machucados visíveis...Precisava ver, precisava sentir o paranormal novamente o chamar, aquilo o...E chegaram, os dois atirados, dois buracos no rosto de Paulo, onde deveria estar seus olhos, enormes, quase como duas bocas, isso era novo certamente, faixas da polícia por todo lado, o piano no centro da sala a mãe, Valéria, jogada no tapete enorme, poucos passos da poltrona onde sentava, parecendo querer chegar no marido, se arrastou com os últimos suspiros. Paulo estático, se tivesse os olhos ainda, certamente estariam vidrados na partitura em cima do piano, Gui reconhece a música que tocava, pelas notas marcadas em preto, como se alguém queimou as exatas notas da nona sinfonia de Beethoven. Clarisse não entrou, notou Gui, olhou para os lados, sumiu, voltou à cozinha, sentada a pequenina na ponta da enorme mesa, assim como um líder mafioso. -Eu entendo, querida, não precisa ver a cena novamente, me conta pelo menos oque aconteceu. Dizia Rodrigues puxando uma cadeira e sentando-se próximo da garota, inquieta balançando as perninhas. -Certo. Uma pequena pausa, parecia estar juntando todas as informações pra não ter que reviver mais vezes a mesma cena-Papai, estava na sala tocando varias músicas de piano, como sempre fazia aos sábados a noite, nada anormal, enquanto mamãe lia seus romances gigantescos. Eu estava no quarto, vendo alguns vídeos no meu Ipad, Felipe Neto, conhece? Ele e muito engraçado. -Ah, sim eu tenho alguma ideia, mas continue por favor. Clarisse, deu um breve sorriso e continuou. -Então de repente, ouvi minha mãe batendo na porta, e me chamando, ela falou alguma coisa relacionada à meu pai precisar de mim, queria minha opinião sobre uma música que aprendera a tocar, desci e, bom, sentei no colo dele atentamente ouvindo ele tocar, estava bonita a melodia, como sempre. Rodrigues sorri. -Desculpe mas, você e muito educada com seus pais, parabéns. Pode continuar. -Obrigada-Clarisse levemente corada-E difícil encontrar homens assim gentis, e você é, assim como meu papai- Ela para desconfortável com oque acabou de dizer, a realidade dos fatos era difícil de encarar ainda-Deixa pra lá, vou acabar logo com isso. Enfim, como ia dizendo, a música estava agradável, era uma nova certamente, mas logo as coisas ficaram estranhas. Uma pequena pausa novamente, a menininha olhava fixamente a mesa. -Aos poucos a melodia foi mudando, ficando sombria, meu papai me segurava cada vez mais forte, não queria me deixar sair, comecei a gritar, estava assustada, chamei minha mãe e. Parou novamente, começou a lagrimejar. -Os olhos dela, totalmente pretos, vibravam-Abanava os braços com força, e começou a chorar- Me...me...meu pai, não parava cada vez mais rápido a tocar, falar coisas estranhas em alemão. -Que coisas? Entendeu alguma palavra? Em prantos, ela fungava e secava as lágrimas. -Sim, mas só uma coisa, transferência de receptáculo, repetia inúmeras vezes. Ela tomou fôlego tentando se focar para acabar logo. -Depois disso, eu juro por todos os ursinhos carinhosos, que vi os dedos dele pegarem fogo, mais e mais rápido, a boca retorcendo e falando coisas incompreensíveis, provavelmente ainda alemão, mamãe caiu no chão, um brilho na nuca dela em vermelho, fumaça ou gosma preta saiu dela, tomou a forma de serpente, cobra, não lembro perfeitamente, desmaiei, foi isso. Acordei e eles estavam assim. A menina banhava-se nas lágrimas, a dor de ver aquele rostinho sem esperança apertou o coração de Rodrigues. Ninguém deveria presenciar evento algum assim, era deprimente. Levantou, anotou tudo com sua caneta e caderno de bolso, guardou novamente, e deu um leve abraço na garotinha mais miúda e cabisbaixa do que nunca, fungava e soluçava. Ele compreendia sua dor. -Pronto, acabou, você é incrível garota. Abraçava e dava pequenos tapinhas nas costas de Clarisse, que estava imóvel. Movimentação vinha da sala de estar, piano voltou a tocar, em um susto, a dupla investigadora correu para investigar, totalmente rígido, Paulo dedilhava ferozmente, fogo se ascendia nos dedos, exatamente como Clarisse relatou. A chama subiu e consumia seu rosto, entrava nas cavidades oculares, queimando sua carne de dentro para fora. Certamente não era Beethoven, sons melodiosos horríveis, entravam na mente do detetive e da menininha, latejavam seus crânios, como se estivem em chamas também. Clarisse se encolheu no chão, suplicando que a música infernal para-se de imediato, mas, não parou, aumentou, mais e mais, a sensação de enlouquecer estava próxima. Rodrigues, tentou se concentrar, buscou o revolver ao bolso, levantou lentamente ao Sr.Volkman, que agora parecia o verdadeiro maestro infernal, respirou fundo, tremendo puxou o gatilho, uma, duas, cinco vezes. Os disparos foram abafados pela sinfonia diabólica, mas, cessou. A caveira de Paulo, ainda em chamas cai de bruços sobre o piano incendiando. Porém, a sensação de alivio durou pouco, o maestro, agora sem pele nas mãos e na cabeça, levanta, o fogo cessa. O maestro infernal levantasse e caminha na direção da menina e do detetive. Passos lentos mas firmes, que ecoam pelo salão. Rodrigues congela, tenta disparar mais vezes, mas o tambor está vazio. Começa a recuar puxando Clarisse. -Clarisse vamos! –Exclama Rodrigues desesperado. Clarisse não move um musculo, alguma coisa mudou, a menina encara o próprio diabo em sua frente fixamente. Medo talvez? Não fazia sentido. De repente a caveira ambulante para, e começa a falar, apontando em linha reta. - Der Teufel hat sich in dich eingeschlichen Fez-se silencio por um momento, depois a criatura repetiu a mesma coisa, mudando as vezes para”der Teufel ist in dir” e depois “die Schlange des Chaos erwacht wieder”. Rodrigues não entendia, nada fazia sentido, mas decidiu esperar e observar. De repente, as coisas ficariam ainda mais absurdas. Clarisse jogou o rosto pra cima, muito abruptamente, tinha quase certeza, “Quebrou o pescoço”, um estalo forte veio da menininha, flutuava, nada que Rodrigues não presenciara antes, o paranormal, imprevisível até mesmo com criancinhas. Ele mesmo tinha poderes assim, de qualquer forma, não era todo dia que criancinhas saiam voando por ai. Desconforto, uma presença maligna tomava conta do local, não era o senhor caveira ambulante, não, algo mais forte, a fonte dessa energia caótica deixava-o tremendo de ansiedade. Clarisse emanava caos, emanava destruição. Diferente de tudo, uma energia poderosa capaz de matar tudo e todos que a tocassem. Mas a garotinha segurava esse poder na palma de suas mãos. Clarisse no ar, finalmente proclama mais coisas incompreensíveis. -Verstanden, Ruhe Soldat. E como se a pequena garota fosse o comandante superior, o maestro infernal bate continência e se desfaz em cinzas no ar. Clarisse cai, Rapidamente, já esperando, Rodrigues corre e pega a garota no ar. Desmaiada nós seus braços, suspira, e senta, tentando recuperar o folego. Noite estranha e gente esquisita acabavam com ele. A última lembrança de Clarisse antes de cair na total escuridão foi seu pai, esquelético, caminhando em sua direção, falando coisas estranhas, e então, sua visão escureceu. Acordou em outro lugar, não reconhecia aquele lugar, casas com arquitetura germânica medieval, uma igreja ao longe badalava um sino, várias pessoas, camponesas seguiam em direção a um grande poço no centro do vilarejo. Resmungavam coisas em alemão, ela entendia parcialmente. Tentou chamar por ajuda, mas todas as pessoas passavam pela menina como se não existisse. Um circo de camponeses, com tridentes, foices, até mesmo livros de couro preto ou marrom com um símbolo cravado no centro, vermelho como sangue. Certamente um culto maluco, agora se juntavam ao circo, homens e mulheres encapuzados, máscaras de serpentes, o mesmo símbolo, parecia escorrer sangue atrás das capas. Clarisse estremecia, mas curiosa se juntou, sentia-se ainda invisível na multidão. Uma canção, ou oração começou a ser proclamada, todos de livros abertos, os símbolos brilhavam em fogo. Cada um dos encapuzados se aproximou do poço, doando seu próprio sangue, a canção de invocação aumentou, todos juntos em um rito de dar inveja aos seguidores de Satã. Sons começaram a serem ouvidos no poço, uma mare latejava e borbulhava, e como nascida do sangue e do lodo dos mortos, se levantou, uma espécie de cobra, dragão, serpente do mar, ensanguentada. Abocanhou, e pela metade ficou o camponês mais próximo do monstro do poço. Estranhamente ninguém se mexeu, todos hipnotizados pela carnificina. O estômago da serpente rugiu, não saciado, mas sim com sede de sangue e destruição. Clarisse, tenta fugir daquela insanidade, dando passos para trás, ainda encarando, um por um dos camponeses sendo devorados, uns tinham cabeças arrancadas outros metade do corpo, braços, pernas. Finalmente o horror tomou conta do povoado, gritos e desespero por todo lado, a serpente perseguia e devorava tudo que se mexia em sua frente. Clarisse acordou com sangue respingando em seu rosto e correu, “Não é real, não é real” Era impossível, era horrível. Por que tinham invocado um demônio pra destruí-los? Um sonho, terrivelmente real, só podia ser. Correu o mais rápido possível, mas não adiantou, serpente alcançara Clarisse, mas não atacara, e sim, chamou. -Clarissssse, não fuja, nosss somos iguais, somos parte um do outro, não fui eu quem matou todos eles, foi você, não entende? Olhe pra baixo, está ensanguentada. -NÃO! –Clarisse se joga no chão chorando, balançando, desejando que tudo acabasse, E acabou, acordou nos braços de Rodrigues. Desnorteada e com medo, confusa. Viajou no tempo? Não fazia ideia, sentia a cabeça latejando. Rodrigues estendeu uma xícara de chocolate quente para menina, ela agora se encontrava enrolada em um cobertor, mas não em sua casa. Uma cozinha pequena, luz fraca. Sentada em uma pequena mesinha redonda de madeira, um lindo gatinho encarava a menininha, mesclado preto e branco. -Franjinha e o nome.Rodrigues inicia a conversa, sentado do outro lado da mesa bebericando café, obviamente, deveria se passar da meia noite, mas não se importava, ele precisava daquele café, afastaria os sentimentos ruis daquela noite. -Onde estou? Você me trouxe aqui, certo? -Exatamente, bom, pensei que como estava desmaiada e bom, você sabe… -Sozinha- A garotinha corta secamente- Eu entendo, por quê se preocupar com uma garota estranha, que não te deve nada? -Não podia te deixar lá para morrer né? Que tipo de ser humano eu seria? Deve ter aprendido a ajudar os outros, certo?- Tenta dar seu melhor sorriso, mas não sente que se saiu bem. -Onde vai me levar? O quê aconteceu lá, eu simplesmente apaguei, vi meu pai morto vivo caminhar na minha direção, e teve aquela música, e bom, tive um pesadelo horrível com.. - A serpente? -S-sim- uma pequena pausa, desceu o olhar triste- Rodrigues, Gui, estou com medo, a cobra, o monstro seja lá o que for, me acusou, disse ,"nós somos iguais" não entendo. Eu sou um monstro pra você? -Clarisse, vou te explicar uma coisinha- Dá um grande gole final no café,e bati levemente a caneca na mesa, imitando um bêbado afogando as mágoas- Esse mundo, não é um conto de fadas e nem mesmo um mar de rosas, inclusive, qual sua idade mesmo? -11, mas faço 12 mês que vêm, 31 de janeiro -Bom, como imaginei, muito nova , grande poder. Clarisse estremece ao ouvir "poder". Rodrigues continua. -Alguém em algum momento na sua família fez uma grande besteira, e agora vai ter que segurar o fardo, mas vou te ajudar, não te levei pra lar de adoção, pois, não iam saber lidar, você Clarisse, tem poderes sobrenaturais. Essa frase não parecia fazer nexo nenhum com a realidade, e não fazia de maneira alguma, insanidade, no mínimo, ecoava em sua pequenina cabeça. -Eu sei, pode me colocar no hospício, sou maluco, mas, é a verdade. Conhece demônios, certo? Existem, lobisomem, vampiros, todo tipo de criatura maligna que consiga imaginar, bom, testemunhou hoje com teus próprios olhos. Crianças como você, tem um lugar certo, frequentei praticamente na tua idade, matei bruxas velhas, vampiros feiosos, espíritos vingativos, devo ter topado com o próprio diabo nesses anos de caçador. Clarisse pulou com um pequeno susto, outro gatinho se arrastou entre suas pernas, ronronando, esse laranja, um alívio calmante naquela noite. -Escola preparatória contra as artes das trevas, ou EPCAT, sim é uma sigla horrível, mas é um lugar ótimo, outras crianças com e sem poderes sobrenaturais vivem lá, vai fazer amizades e estudar e combater bastante, bom, e claro se você tiver interesse, e um dia vai entender o'que sua família fez, ou de onde veio poderes sobrenaturais e absurdamente fortes. -Gui, eu, matei ele? O maestro ? -Transformou ele em cinzas… Ficou corada, impressionada, estava sonhando, mas ao mesmo tempo, destruiu uma criatura. Seu próprio pai, naquele ponto, já não existia Paulo Volkman ali, Clarisse não entendia isso ainda. -Vão me ajudar? -Vão, e vai ser a melhor caçadora paranormal, sobrenatural do mundo-Agora sim Rodrigues deu um sorriso satisfatório- Acho melhor você descansar, deve estar caindo de sono, não tenho exatamente um quarto ou cama, mas o sofá é perfeito, tenho cobertas travesseiros pode se aconchegar , os gatinhos podem te fazer companhia. Agora dando uma olhada melhor no apartamento, Clarisse nota os sofás de couro marrom, bem cheios e arranhados, um tapete e uma mesinha de centro com livros empilhados, Agatha Christie, Stephen King, Poe , e muitos outros. Tudo na sala e na coy pareciam mais antigos, anos 90 talvez, mas a televisão era muito recente, tela plana 43 polegadas, ao lado do sofá central uma caneca, e outra ao lado da televisão , em cima da mesa da cozinha, canecas no geral se espalharam pelo apartamento,isso e os livros e algumas anotações espalhadas, explicavam as olheiras de Rodrigues. Ele se levanta e vai em direção ao quarto no corredor. Volta trazendo cobertas e travesseiros. -Bom, qual sofá? Geralmente o do centro e dos gatos. Clarisse ainda meio confusa, perdida nos pensamentos, balança a cabeça voltando a realidade. -Pode ser, esse mesmo, não me importo em dormir com ps gatinhos. -Perfeito, vou arrumar pra você. Rodrigues ajeita a coberta e os travesseiros e com um sinal, chama a garota. -Clarisse, uma coisinha importante que precisa saber, primeiramente, tem onde ficar? Algum outro familiar? As aulas da EPCAT só começam em fevereiro. -Não- responde friamente. -Olha pra mim, se importa de ficar comigo nesse meio tempo? Nunca cuidei de crianças, mas sei que você é muito inteligente , vejo isso. Clarisse olha para Rodrigues meio cabisbaixa, mas não tinha para onde correr, perdera tudo, ele era sua única esperança por enquanto. -Gostei daqui- dá um sorrisinho. -Ótimo, prometo que vou fazer tudo para que fique bem até as aulas, Dorme bem garota, boa noite. Rodrigues espera uma resposta, mas a garota caiu no sono.
                    
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  • Mente Criminosa- Resumo do Livro. 2020

    Esta noite mandei trazer todas as Lamparinas que haviam na casa, colocar  a poltrona e a mesa  perto da grande janela e proibi que me  incomodassem de agora em diante.
    Talvez eu tenha demorado demais para contar o acontecido.E só vou contar-lhes aqui o que realmente aconteceu.Em nenhum momento irei dissimular nada do que pude escutar ou pensar naqueles momentos .
    E também não pintarei os bons melhores do que eram, nem tornarei os maus piores do que foram.
    Mas quero, se minha memória permitir, contar a mais exata verdade sobre o caso que mobilizou a  polícia de Londres no inverno de 1862, e sobre o qual apenas alguns poucos homens superaram-se em seus esforços para conter uma das mais terríveis ondas de crimes que aquela cidade já viu.
    Quando toda essa onda de crimes começou ?
    Novembro de 1862, e só  mais tarde percebi quão longe suas raízes venenosas remontavam na história da cidade. Mas, para mim, que buscava em cada beco imundo de Londres um pretexto para uma boa história, Teria nos dias que viriam a seguir uma excelente oportunidade para deixar fluir minha imaginação.
     Naquela fria manhã, o inspetor Thormann,  da Scotland Yard  bateu a porta de minha casa, na St. Tooley 123.Já a algum tempo não tinha contato com o ele, isto porque discordei da maneira como conduziu as investigações sobre a morte de  uma jovem chamada Nina.E sei que este afastamento foi certamente para preservar nossa já bem antiga amizade.Mas naquela manhã ele estava a bater em minha porta e de maneira que presumi ter ele alguma brevidade.
    ---Lawford – disse ele, Bom dia, Gostaria que me acompanha-se, por favor !
    Mal tive tempo de vestir o casaco e sorver rápidamente o café que ainda restava em minha xícara.
    ---A quanto tempo inspetor! Disse eu tentando ser amistoso.
    ---Algo terrível aconteceu na catedral de Westminter, na Victória Street.Disse ele.
    ---Conheço o jardineiro Hernest e o cardeal Wisemon.Acrescentei enquanto embarcávamos no coche da Scotland Yard que estava parado a minha porta.
    ---Sei disto, por este motivo pedi que me acompanhasse, quando chegarmos ficarás a par de tudo, pedi que nada fosse mudado até nossa chegada.
    Ao chegarmos à catedral  de Westminter, compreendi que se tratava de algo muito mais sério. Cerca de trinta pessoas estavam reunidas ao lado de fora da enorme porta de entrada, na maioria curiosos.Algumas  mulheres colocavam as mãos na cabeça, e os homens se entre-olhavam aturdidos.Guardas armados cercavam o local como se temessem que algo escapasse dali.O mais estranho era aquele silêncio que paralisava a todos.
    Descemos do coche e adentramos rápidamente, apenas dois guardas estavam no interior da catedral, próximo ao altar.Em um banco afastado da porta pude ver o cardeal Wisemann sentado com o rosto entre as mãos.
    — Lá em cima,atrás do púlpito. murmurou Thormann.
    Subi lentamente os três degraus em veludo vermelho e fui diretamente para o local onde Thormann havia indicado e o que ví deixou-me perplexo. 
    ---Mantenha acalma. Disse Thormann, que estava bem atrás de mim.
    Dentro de uma bandeja de prata estava uma cabeça humana dacapitada, e não foi preciso muito para identificar que se tratava de Hernest, o jardineiro.
    ---Mas  oque é isto? Falei assustado com a horrenda cena.
    ---Não é só isto. Respondeu o inspetor enquanto segurava meu braço conduzindo-me até o fundo da igreja.Descemos por uma pequena escada que ficava atrás do coro da catedral e daria-nos acesso ao local sagrado onde ficava a cripta de St. Peter.Sómente o cardeal Wiseman e Hernest tinham acesso ao local.E a cena foi ainda mais horripilante, o corpo de Hernest, sem a cabeça, estava colocado cuidadosamente sobre a cripta,  braços abertos, formando uma macabra cruz.O chão coberto por sangue.
    ---Quem teria capacidade para tamanha crueldade? Falei enquanto olhava atónito aquela pavorosa imagem.
    Thormann caminhava lentamente em volta da cripta,olhando atentamente para o chão, agachando-se em alguns momentos para observar melhor.
    ---O que procura inspetor? Indaguei
    ---Nada de espicífico Lawford, apenas tentando entender o que aconteceu aqui.
    ---Mas somente um lunático poderia fazer tal barbárie. Interpelei de imediato.
    ---Mesmo que o criminoso seja um lunático, ele foi muito meticuloso em arrumar o corpo e depois colocar a cabeça no púlpito.Deve haver uma lógica em toda esta loucura. Completou o inspetor.
    ---Então o que posso fazer para ajuda-lo? Perguntei
    ---Foi o cardeal Wisemann que trouxe o Hernest a catedral, como vocês são amigos de longa data, peço que converse com ele e tente descobrir alguma coisa.Estarei esperando no distrito.
    Enquanto os guardas colocavam o corpo e a cabeça do decapitado em um caixote de madeira para ser levado ao necrotério, sentei-me ao lado do cardeal, que estava visivelmente abalado com o que aconteceu.Wisemann ainda não era cardeal quando, a alguns anos atrás,  nesta mesma igreja realizou minha união com a linda e  amada Aurora, e por uma trágica coincidência, também realizou seu funeral três anos depois.
    Após alguns minutos de conversa, percebi que nada iria ouvir do cardeal além de lamentações.Sendo assim dirigi-me de imediato ao coche que me levaria ao distrito, onde certamente Thormann já teria iniciado a investigação deste crime tão brutal.
    Enquanto o coche percorria as ruas de Londres, não conseguia tirar de minha retina a imagem da cabeça decepada colocada cuidadosamente sobre uma bandeja.Thormann tinha razão ao dizer que não foi um crime fortuito, teria que haver um sentido lógico para o criminoso ser tão meticuloso.
    Quando cheguei ao distrito Thormann estava em sua sala, sentado em uma poltrona ao lado da mesa e atufando a sala com as baforadas de seu charuto.
    ---Desculpe, não tive sorte com o cardeal, ele esta muito abalado.Disse eu
    Thormann ergueu a mão passando a mim um impresso bastante amassado.
    ---A fisionomia de Hernest não me era estranha.. Disse ele
    O impresso era da policia de Sheffield, um homem de nome Charles Peace era procurado pelo assassinato de Heleonora Hort, uma jovem de vinte anos que depois de sua morte teve sua cabeça arrancada pelo criminoso.
    ---Então o crime pode ter ligação com o que aconteceu na catedral. Comentei
    Thormann pediu para que observasse o verso do impresso.
    ---Olhe esta foto lawford, Charles Peace esta envolvido neste crime, só que ele não é o criminoso, é a vítima.
    No impresso estava a foto de Peace, que na verdade era o mesmo jardineiro Hernest, que enganou a todos passando-se por um simples trabalhador na catedral.Acobertado certamente pelo cardeal Wisemann.
    ---Ele não poderia ter escolhido melhor lugar para se esconder, doque em uma igreja. Disse Thormann.
    ---Quem entrou na igreja certamente conhecia a vítima . Argumentei
    --- Fiéis entram e saem das igrejas a todo momento.. Disse o inspetor
    ---O que vamos fazer? Perguntei
    ---Ainda temos um caso para invertigar, quando não solucionamos um crime, somos tão culpados quanto quem o cometeu. Completou o inspetor.
    Naquela mesma manhã fui novamente  falar com o cardeal Wisemann, saber porque ele acobertava tal homicída.
    ---Em doze anos nesta catedral é a primeira vez que não celebro a missa das oito horas. Disse ele quando me viu entrar.
    ---Por favor cardeal, me ajude a encontar quem cometeu esta aberração.
    Mostrei a ele o cartaz de procurado com a foto de Peace.
    Ele não ergeu a cabeça e continuou a arrumar o púlpito, que já havia sido limpo.
    ---Sr. Lawford, não posso dizer o que não sei.
    ---Mas porque acolheu na igreja um homem que cometeu um ato de tamanha crueldade. Indaguei
    ---Perante Deus todos os serem humanos merecem uma chance.
    ---Mas certamente quem o matou era alguém que o conhecia. Argumentei ao ver que talvez Wisemann estivesse com medo de falar.
    ---Conte-me o que sabe cardeal,tudo vai ficar bem. Completei
    ---Sr. Lawford.Nada mais tenho a dizer-lhe.  
    Durante todo dia,eu e Thormann procuramos alguém que pudesse dar-nos uma pista sobre o crime da catedral, como já era chamado o assassinato de Peace.
    ---Estive procurando testemunhas, e acredite, não encontrei nenhuma. Disse eu ao inspetor quando retronei ao distrito.
    Thormann apenas sorriu timidamente.
    ---Quem se arriscaria a identificar um assassino que corta a cabeça de suas vítimas? Comentou ele.
    ---Mas aquele que observa não derrama menos sangue que aquele que desfere o golpe. Argumentei
    ---Sei disto Lawford,mas precisamos ter calma.
    ---Mas aos poucos as pistas esfriam e o caso fica esquecido. Retruquei
    Thormann olhou-me com um olhar bastante severo.
    ---Amigo Lauford, não diga a mim como conduzir a investigação, pois oque ainda deixa-te irritado é a morte daquela protitutazinha polonesa, Nina.
    Naquele momento senti o sangue ferver, mas ele estava totalmente certo.
    ---Desculpe, não foi minha intenção fazer-lhe qualquer crítica.Vou me recolher a minha casa, se precisar estarei a sua disposição.
    Dizendo isto, sai imediatamente do distrito a procura de um coche para levar-me para casa.Mas confesso que a cena que presenciei na catedral e o mistério que envolve a morte de Peace me deixaram deveras curioso.Pedi ao cocheiro que aguardasse em frente a minha residência enquanto pegava minha caderneta, pois a partir daquele momento tudo seria anotado.   
    ---Cocheiro, leve-me até o Hospital Geral.
    Já era final de tarde quando cheguei ao Hospital Geral de Londres, sabia que o corpo do jardineiro fora levado para o necrotério que ficava nos fundos do hospital.Lá certamente teria alguma informação que colocasse alguma luz a investigação.Ao abrir a pesada porta de metal, pude ver ao fundo Thormann e o dr. Guliê ao lado de uma maca.
    ----Parece que tivemos a mesma intuição. Disse Thormann ao me ver entrar.
    --- Quero ajudar, isto é o que importa. Respondi.
    O Dr. Guliê era legista e tentou explanar como o crime foi cometido.
    --- A decapitação em si não apresenta nenhum mistério, se me permite dizê-lo. A vítima foi amarrada pelos punhos e pelos tornozelos, há diversas marcas de apertões na pele.O  assassino apoiou então a cabeça sobre um  banco de madeira ou algo do gênero e a cortou com uma lâminas bastante afiada.O golpe foi dado obliquamente, como o demonstra a secção enviesada do pescoço, provavelmente porque o lugar não era alto o suficiente ou tivesse dificuldade  de  movimentar  as duas mãos naquele momento.
    ---Talvez ele estivesse segurando alguma coisa naquele momento. Argumentei
    ---É bem provável que sim. Confirmou o médico.
    ---Mas a vítima não teria se dabetido ou gritado naquele momento. Perguntou Thormann.
    ---Com o forte golpe que sofreu na parte traseira do crãnio ele já não sentia mais nada. Completorou Guliê.
    O inspetor mostrou-me um pequeno pedaço de papel onde estava escrito “Galem Place 8 fundos”
    ---Mas é um endereço. Falei de imediato.
    ---Sim, estava no bolso de Hernest, ou Place.Vamos ver onde nos leva este endereço.
    Subimos rápidamente no coche da Scotland Yard.
    ---Para este endereço. Disse Thormann ao cocheiro.
    Era uma das partes insalubres de Londres, na verdade parecia mais um beco sórdido onde medicantes e prostitutas estavam espalhados por todos os lados.Deixamos nosso transporte e tomamos então a direção descrito no papel, o que não representava um grande desvio,  e  eu apertei meu capuz contra as orelhas. A umidade se juntava agora ao nevoeiro que envolvia a cidade. Os muros das ruelas ao redor pareciam fantasmas, e continuamos em silêncio, cuidando para não escorregar nas lajotas e na terra molhada.Quando chegamos não se via mais nada a dez passos. Só a luminosidade da lanterna do coche nos permitiu distinguir a entrada do beco e  fomos a pé até o numero 8, uma porta de madeira quase apodrecida com um pequeno numero de metal afixado no umbral.
    Thormann bateu na porta com força duas vezes, e uma senhora que pelos traços faciais deveria ser chinesa  atendeu-nos.
    ---Sou o inspetor Thormann da Scotland Yard e preciso entrar para conversarmos.
    A senhora exitou por alguns segundos, mas quando abriu vagarosamente a carunchada porta encontramos por trás de uma surrada cortina, algo que eu poderia chamar de sala dos prazeres.Varias poltronas dispostas ao redor de uma grande mesa redonda.No local, vários cavalheiros tinham a sua disposição cachimbos com ópio, cocaina em pó, licores aromáticos e outros tipos de alucinógenos trazidos com certeza da china.Belas jovens peranbulvam pela sala vestindo tão somente um véu de fina seda transparente.
    ---Meu nome é Yong Shem, sou proprietária deste local de descanço.
    ---Não estamos aqui pelo que a senhora chama de local de descanço.Apenas quero saber se conhece este homem.
    Thormann retirou do bolso o cartaz com a foto de Place e mostrou a chinesa.
    ---Nunca vi este homem, conheço meus clientes e este não é um deles. Respondeu ela.
    ---Então porque  estava com seu endereço no bolso do paletó quando morreu. Indagou o inspetor.
    A senhora apontou para uma porta que ficava nos fundos da sala.
    ---Eu alugo quartos para homens solteiros, talvez ele estivesse interessado. Disse ela.
    Thormann dirigiu-se rapidamente até a porta a ao abrir tivemos acesso a um pequeno corredor, onde uma enfraquecida luz esverdeada mostrava  portas dos dois lados.
    ---No momento apenas um quarto esta alugado, aquele no final do corredor. Disse ela
    Desta vez eu me antevi a Thotmann e fui direto a porta, estava por demais ancioso para esperar.Ao ver a porta fechada bati duas vezes.
    ---Abra por favor. Falei em voz alta.
    Repeti as duas batidas mas novamente não houve resposta.
    ---A senhora tem outra chave deste quarto? Indagou Thormann
    ---Sim, esta aqui comigo. Respondeu ela colocando a mão no interior de uma bolsa em tecido colorido que carregava amarrada a cintura.Entre as inúmeras chaves que estavam presas em um pedaço de corda, uma delas abriu a porta para termos acesso ao misterioso aposento.
    Logo ao abrirmos a porta sentimos um forte odor de umidade, o local não tinha janelas.Mas o que fez-nos ficar paralisados por alguns instantes foi oque vimos em um dos cantos do fétido quarto.Um homem com cabelos grisalhos, bastante robusto, creio eu pesar ele em torno de cento e vinte kilos.Sentado em uma cadeira, completamente nú, com braços e pernas amarradas e a cabeça pendida sobre o peito.
    ---Lawford, peça ao cocheiro que avise ao distrito para buscarem outro corpo. Disse Thormann enquanto aproximava-se do estranho hóspede.
    Quando retornei o inspetor estava agachado emfrente ao morto.Apontou para a boca do homem mostrando-me que estava cheia de pedaços de algum tipo de tecido.
    ---Este eu conheço. Disse Thormann quando viu que eu havia também agachado-me, e continuou...
    ---Este é Samuel Furnace, um construtor falido de Canpeltouw.Ele estava sendo procurado pela morte de Walter Spatchett, um cobrador de impostos que foi encontrado boiando próximo ao cais.Uma testemunha disse ter visto quando Samuel o matou.
    ---Mas porque o endereço dele estava no bolso de Peace? Questionei
    ---Ainda não sei Lawford, mas vamos primeiramente falar com o dr. Guliê no necrotério, para depois tentar fazer alguma ligação.
    Mesmo já havendo chegado a fria noite londrina, Guliê foi bastante solícito ao atender o pedido do inspetor para encontra-lo no necrotério do hospital.O cheiro de éter era fortíssimo no local, e com os dois corpos colocados em macas e posicionadas uma ao lado da outra, passamos a ouvir com muita atenção oque o médico tinha a dizer.
    --- Bem senhores, vamos começar pelo sr, Peace, ele foi morto devido a um ferimento na parte traseira da cabeça,mas isto os senhores já sabem, um forte golpe e somente depois de ja estar sem vida houve a decapitação.Não encontrei sinais de luta, o que presupõe que ele conhecia o agressor.
    ---O segundo corpo, Sr. Furnace, por coincidência ou não também tem um ferimento na parte traseira da cabeça, que possivelmente o tenha deixado inconsciente por alguns minutos.Tempo este suficiente para que o agressor o amarrasse para encher sua boca e nariz com retalhos de panos retirados das mangas da própria camisa da vítima.Sua morte foi por asfixia.
    ---Alguma ligação entre as mortes. Perguntei
    ---Além do bilhete e do ferimento na cabeça, nenhuma outra. Respodeu Guliê.
    ---Sim, existe uma forte ligação. Interviu Thormann.
    Ouve um silencio na sala, aguardávamos que concluisse seu pensamento.
    ---Os dois eram crimonosos procurados.
    ---Então temos um assassino vingador. Concluí.
    ---Seja qual for sua motivação, teremos muito trabalho pela frente. Completou o inspetor.
    Na sala do distrito Thormann colocou um painel sobre um cavalete e os nomes das duas vítimas,Com certeza começava ali uma intricada invertigação.
    Interrogações foram feitas, indefinições surgiram, informações contraditórias, indicações muitas vezes irrelevantes eram colocados no painel.Já haviam se passado dois dias e ainda estávamos distante de alguma evidência que lavaria-nos ao assassino.Estavamos entrando na manhã do terceiro dia dentro de uma sala com prateleiras que cobriam as paredes, e todas elas repletas de arquivos policiais.Estávamos na sala onde eram arquivados todos os casos que chegavam até os policias da Scotland Yard.Após revirarmos tudo que parecia relevante ao caso, poucos dados colhemos.Já estávamos preparando-nos para sair quando  o capitão da guarda inglesa entrou na sala.
    ---Inspetor, o sr. é solicitado na parte norte do Park St. James.
    Enquanto percorriamos a sala em direção a saída senti avivar-se em mim lembranças que sinceramente preferia  te-las esquecido.Foi justamente no Park St. James que conheci Nina,e foi também no St. James park que conheci Clarett, a violinista amiga de Nina,  que diz acreditar ser  Thormann o responsável pela morte da Jovem.Ao mesmo tempo em que pensamentos passados invadem minha mente, o coche sai em direção ao local onde possivelmente algo de perverso tenha acontecido.
    Logo ao chegarmos avistamos muitas pessoas em volta do portão de grades da entrada do parque.Alguns policias tentavam afastar os curiosio de perto doque parecia-me ser um corpo, ao aproximarmos verificamos que alguém estava espetado pelas costas nas grades do portão de entrada do St. James Park.O portão era bastante alto e ficava fechado duranre a noite.          
     Àquela distância, não dava para distinguir se o corpo pertencia a um homem ou a uma mulher.
    ---O que estão esperando ? indaguei
    ---É preciso subir e tirar o corpo das grades. Concluí
    ---Talvez o assassino ainda esteja no parque. Disse Thorman
    Não tive tempo de manifestar minhas dúvidas, pois uma pequena tropa de policiais, conduzida pelo chefe da guarda de Londres irrompeu entre nós. Todo mundo recuou para dar passagem, em breve saberíamos de quem era o corpo colocado sobre as grades do St. James Park.
    Após a retirada tinhamos o corpo de um homem magro e calvo com trajes que se pareciam com aqueles usados em festas da realeza, estava aos poucos sendo colocado no chão e pudemos ver claramente que seu rosto estava coberto por uma fuligem escura.O inspetor fez um sinal para que dois de seus soldados colocassem o corpo em um carroção da policia para ser levado ao necrotério.
    ---Havia pegadas próximas as grades quando chagaram ? Interpelei a um dos guardas
    ---Os curiosos já haviam pisoteado por todo local. Respondeu ele.
    Duranre todo aquele dia ficamos no distrito, precisávamos de respostas mas só tinhamos perguntas.
    Então fomos novamente ver o dr. Guliê. Depois de termos conversado com o soldado de sentinela diante da porta, entramos na sala de dissecação. Fui logo invadido pelos vapores de cânfora e de incenso que ali reinavam.
    ---Caros Lawford e Thormann, parace que encontramo-nos com frequência nestes últimos dias.O nosso morto também tem um ferimento atrás da cebeça e este ferimento foi a causa da morte.Vou poupar-lhes o trabalho de investigar quem ele é.Na verdade nosso ilustre defunto é o conde de Wolguert, sua manção fica em uma área mais afastada de Londres e ficou conhecido por torturar e matar escravos negros em suas terras.
    ---Ele tem família? Perguntou Thormann
    ---Sim.Sua esposa a condessa Edna, porém ela esta reclusa na mansão aos cuidados do doutor Freud, ela sofre de problemas mentais. Completou Guliê.
    ---Precisaria alguém muito forte e com uma elevada estatura para colocar  o conde sobre as grades do portão. Argumentei.
    ---Creio que sim, ou talvez ele tivesse alguma coisa como apoio. Completou o inspetor.
    ---Mas como alguém carregaria um corpo e mais alguma coisa para apoiar-se sem ser visto? Interviu Guliê ao ver que estávamos a alinhar nossas deduções.
    ---E as manchas escuras no rosto? Perguntei
    ---Era carvão, o assassino sujou o rosto da vítima enquanto era morta. Respondeu o médico
    ---Alguma coisa em suas roupas que pudéssemos averiguar? Indagou Thormann
    ---Apenas um ticket cortezia  para o espetáculo de hoje a noite no Palace Music Hall, assinado pelo próprio Hector Lenn. Respondeu o médico.
    Os cartazes desta apresentação estavam por toda Londres.Tratava-se do cômico e ilusionista Hector Lenn, e não haveria dúvidas que estariamos lá, gostariamos de saber a ligação dele com a nossa mais nova vítima.Mas primeiramente tinhamos uma visita a fazer a condessa de Wolguert.
    Durante o  trajeto até a mansão dos Wolguert em Kensal Green, não conseguia presumir como alguém poderia colocar sua vitima a quase três metros de altura, mesmo sendo a noite, sem ser notado.Minhas conjecturas somente foram interrompidas quando passamos pelo cemitério Catholic St. Mary.Neste local despedi-me de minha amada Aurora.Mas isto é uma outra história.
    ---Não havia marcas no chão quando chegamos ao parque inspetor? Indaguei a Thormann.
    ---Você mesmo falou com guarda Lawford, o chão estava pisoteado e a única marca era das rodas do carroção do necrotério. Replicou ele.
    ---Qual a sua opinião sobre oque esta acontecendo? Continuei
    ---Minha opinião não importa, temos que procurar evidências.Concluiu ele com semblante bastante preocupado.
    Logo ao chegarmos a majestosa mansão dos Wolguert fomos recebidos na porta pelo mordomo, que conduziu-nos até uma sala com tapeçaria luxuosíssima e um magnificente lustre em cristal pendurado ao centro.
    ---O dr. Freud já irá recebe-los. Disse o mordomo.
    ---A condessa não esta?Perquiriu Thormann
    ---Sim, mas é necessário a autorização de seu médico para falar-lhe.Completou ele.
    Em poucos minutos adentrou a sala um homem de meia idade,magro e com vasta barba, uma vestimenta de primeira linhagem e um charuto a boca.Eu estava naquele momento perante o homem que se dizia capaz de revolucionar o estudo da psiquiatria, dr. Sigmund Freud.
    ---Bom dia Doutor,desculpe pelo incomodo mas precisamos falar-lhe. Disse Thormann antecipando-se ao médico.
    ---Senten-se senhores e digam-me o motivo de sua visita. Retornou Freud.
    Após estarmos devidamente apresentados, Thormann relatou todos os acontecimentos ocorridos até chegar a morte do conde naquela noite.O médico escutava atentamente a tudo que era dito alojado comodamente em uma poltona e sugando pausadamente seu charuto.
    ---Querem que eu informe a condessa da morte de seu marido? Perguntou ele
    ---Bem doutor, na verdade gostariamos de falar com ela. Respondeu o inspetor.
    ---Senhores, minha paciente passa maior parte do tempo com sedativos, e neste momento dorme aos cuidados de uma enfermeira devido a frequentes crises de histeria e alucinações.O conde era um homem bastante ocupado, não tinha para com ela nenhuma atenção.Não sei em que ela possa auxilia-los. Objetou Freud.
    ---Encontramos com o conde um convite para um espetáculo de Hector Lenn, assinado pelo próprio artista.O sr. sabe de alguma ligação dele com a familia Wolguert.? Questionou Yhormann
    ---Creio não haver ligação, mas o sr. certamente vai interroga-lo. Disse o médico
    ---Certamente farei isto doutor.
    ---Ele é um dos seus supeitos? Perguntou Freud
    ---O senhor acha que ele deveria ser, dr. Freud.? Disse Thormann olhando fixamente para o médico.
    ---Senhores, lembrem-se que o psiquiatra aqui sou eu. Não brinquem comigo.Falou Freud rispidamente.
    O inspetor irritou-se visivelmente com a declaração do médico.Ergueu-se da poltrona indo até o canto da sala.
    ---Dr. Freud, parece que o sr. não entendeu a gravidade da situação.Não estamos brincando, desperdiçar nosso tempo pode custar vidas. Retornou Thormann em voz grave.
    ---Desculpe senhores, não foi minha intenção causar-lhes qualquer desconforto.Vou falar com a condessa quando ela acordar e procuro os senhores no distrito. Falou Freud em tom mais amistoso.
    Ao encaminharmo-nos a porta da saída percebi que um homem bastante forte com cabeça raspada e roupas em couro estava na janela a observar nosso coche.
    ---Quem é aquele homem? Perguntei ao mordomo dos Wolguerts.
    ---É Rurik, nosso cocheiro e também ajuda nos afazeres da casa.Respondeu  ele.
    Já no coche de retorno a área central de Londres meus pensamentos estavam ainda mais confusos.
    ---Você já havia visto este Rurik? Perguntei
    ---Não. Estes donos de terras trazem gente de toda parte do mundo para trabalharem para eles.
    ---O que vamos fazer agora inspetor?
    ---Vamos verificar novamente os relatórios do dr. Guliê sobre as mortes.Algo pode ter passado despercebido.
    ---As ruas estão cobertas de sangue e você preocupado com papelada. Falei irônicamente
    ---Deixarei você em sua casa, acho que precisa descansar.A tarde encontramo-nos no distrito. Disse o inspetor sem dar maior importância ao meu comentário.
    A infrutífera noite revirando os arquivos da polícia londrina deixaram-me completamente fatigado e o cansaço já se tornara quase incontrolável.Melhor mesmo era aproveitar as horas que faltavam para findar a fria manhã e descansar.
    Quando retornei ao distrito por volta de quatorze horas já havia reposto minhas energias.Ao entrar na sala de Thormann encontrei o cardeal Wiseman sentado enfrente ao inspetor.
    ---Que bom que chegou Lawford, parece que o cardeal tem algo que esquece de  contar-nos. Disse Thormann
    Em nossa última conversa o cardeal mostrou-se bastante enpafiado, mas agora, sentado cabisbaixo pareceu-me abatido e envergonhado.
    ---Peço que me desculpem se não dei a devida atenção aos senhores naquela triste manhã.Tenho algo que gostaria de revelar. Disse Wisemann sem erguer a cabeça.
    ---Por favor cardeal, fique a vontade para falar o que deseja. Falei em tom respeitoso.
    Ele então ergueu a cabeça e percebi um semblante demasiadamente cansado.
    ---Soube hoje sobre a morte do conde de Wolguert, eu  o conhecia, falei com ele apenas uma vez. Disse ele e acrescentou.
    ---Uma noite ele me procurou juntamente com Peace e pediu para que eu contratasse Peace como jardineiro.Disse que seu nome era Hernest e que a catedral receberia uma generosa doação por isto.
    ---O sr. Sabia que ele era um homem procurado pela polícia? Indagou o inspetor
    ---Não.Só muito tempo depois descobri.Mas fiquei com medo de falar. Respondeu ele.
    ---O senhor tem alguma idéia de quem poderia ter matado Peace? Interpelou o inspetor.
    ---Não.Ele falava apenas com o empregado do conde Wolguerts, mas era sempre muito rápido. Disse Wisemann
    ---Este empregado seria Rurik? Muito forte e calvo. indaguei de imediato.
    ---Creio que sim, mas eram sempre visitas muito rápidas. Concluiu ele.
    Thormann recostou-se para trás segurando o charuto entre os dentes.
    ---Agradecemos sua colaboração cardeal.Se lembrar de mais alguma coisa procure-nos. Disse ele
    Após a rápida saída de Wisemann o inspetor olhou-me fixamente por alguns segundo. E advertiu.
    ---Incrivelmente a verdade tem o hábito de encravar-se na mente e sempre vem a tona, mas temos que ter cautela.
    Ele caminhou lentamente até o painel onde mais um nome estava sendo colocado.
    ---Veja Lawford, Peace e o Conde tinha uma ligação, mas onde entra nisto tudo o homem morto na casa chinesa?
    ---Falta um detalhe que deixamos passar talvez. Sugestionei.
    Thormann virou-se rapidamente e pegando seu sobretudo e seu chapéu dirigiu-se para porta.
    ---Vem comigo.Temos que fazer outra visita a condessa de Wolguerts.
    Enquanto subiamos no coche da Scotland Yard em direção a Kensal Green explanei ao inspetor o que minha mente vociferava naquele momento.
    ---Se Peace conhecia o empregado do conde poderia ter sido morto por ele, mas oque me deixa confuso é quem teria matado o conde?
    Thormann abriu a escura cortina da janela do coche e com um gesto de mão mostrou-me a rua.
    ---Todos fizemos parte de uma enorme tapeçaria que se chama Londres, em algum momento os fios terão que cruzarem-se e então saberemos qual direção tomar.
    ---Eu sei inspetor, mas esta situação deixa-me inquieto. Comentei com um tom polido.
    ---Aquele que fracassa em fazer justiça é tão culpado quanto o criminoso, e não vamos fracassar caro Lawford. Finalizou ele com um semblante menos severo.
    Quando chegamos a mansão Wolguerts fomos recebidos diretamente pelo dr. Freud.
    ---Boa tarde Inspetor Thormann e sr. Lawford, vamos passar a biblioteca.
    Mesmo não sendo a primeira visita aos Wolguerts, é impossível deixar de admirar o requinte e o luxo daquele lugar. Depois de devidamente acomodados Thormann foi objetivo.
    ---Dr. Freud, preciso falar com um empregado, seu nome é Rorik.
    O médico abriu uma pequena caixa de madeira que estava sobre o livreiro e retirou uma velha foto passando as mãos do inspetor.
    ---Peço desculpas por não ter procurado os senhores no distrito, mas existem fatos que devem saber. Minha presença nesta casa nunca foi bem vista pelo conde e certamente por seus empregados.Quando cheguei encontrei a condessa em estado crítico.Muitas lesões nos braços e pernas feitas possivelmente pelo conde.Ela estava extremamente fraca.
    ---Mas porque a condessa não pode atender-nos? Ela é louca ?Perguntei
    ---Sr. Lawford, a loucura pobremente definida não recebe a devida importância pois não é uma doença psicológica do cérebro.É na verdade uma manifestação do subconsciente.
    ---Desculpe dr, mas oque isto quer dizer? Interrompeu Thormann
    ---Significa inspetor, que oque ela disser poderá ser verdade ou simplesmente algo que esta em seu subconsciente.Não temos como saber ao certo.
    ----E esta foto? Indaguei
    ----A enfermeira encontrou no fundo de um velho baú, no quarto da condessa.É uma foto bem antiga mas talvez ajude na investigação.O conde esta na foto com outras pessoas.
    Thormann foi até a mesa e aproximou a lamparina para observar com mais clareza.E em seguida olhou-nos com um olhar de perplexidade.
    ---Estão nesta foto o conde, Rurik, Peace, Furnace, a condessa, e tem um casal e mais um jovem. Disse Thormann
    ---O sr. Sabe quem são o casal e o jovem? Perguntei a Freud.
    ---Infelizmente não tenho esta informação. Disse ele.
    ---Mas Rurik sabe quem são.Vamos falar com ele. Disse o inspetor posicionando-se em pé ao lado da porta da biblioteca.
    ---Sente-se inspetor, eu irei chama-lo. Interviu Freud.
    O médico saiu da sala para buscar o empregado, ao passo que o inspetor olhava atentamente para a velha foto.
    ---Todos tem alguma coisa em comum, todos se conheciam e o assassino pode estar nesta foto. Disse ele
    ---Mas três já estão mortos. Ressaltei
    ---Oque nos deixa a condessa, Rurik, o casal que ainda não sabemos quem são e o jovem. Completou Thormann
    Neste momento entram na sala o médico e o cocheiro.Rurik mantinha a cabeça erguida  e um olhar desafiador dirigido ao inspetor.
    ---Quando foi tirada esta foto? Indagou Thormann em voz alta e firma.
    A expressão de surpresa ao ver a foto fez mudar completamente o semblante do até então ronpente serviçal.
    ---Não lembro exatamente a data, talvez quatro ou cinco anos,no porto de Londres. Disse Rurik
    ---Quem é este casal e este jovem no fundo da foto? Perguntou Thormann
    --- O Jovem é Guilbert, Filho dos Wolguerts, morto a dois anos na Indía, quando fazia parte do exército  inglês.O casal não sei os nomes, eram chamados de Fred e Marg, trabalhavam na cozinha do navio.Respondeu.
    ---Porque estão todos nesta foto.? Perguntei.
    ---Chegávamos em um navio vindo da áfrica, Participamos de uma expedição de caça com o conde.Disse ele
    ---Porque você visitava Peace na catedral? Perguntei
    ---O conde pediu-me para ir a catedral duas vezes por semana e levar algum dinheiro a Peace. Respondeu
    Thormann apriximou-se na cadeira onde Rurik .
    ---Peço que aguarde nesta sala.Disse em voz calma e baixa .
    ---Dr. Peço que leve-me até os aposentos da condessa,  por favor. Dirigiu-se a Freud
    ---Se é oque deseja inspetor, então sigam-me. Disse o médico enquanto abria a porta para  acompanhar-nos a escadaria que dava acesso aos quartos.
    Ao abrir a porta dos aposentos da condessa pudemos distinguir a enfermeira em seu tradicional uniforme branco ao lado da cama onde uma senhora de cabelos grísalhos e fisionomia bastante abatida dirigiu-nos um olhar, sem qualquer outra reação.O aposento era grande mas com pouco mobiliário, o chão coberto por tapeçaria de várias cores e grossas cortinas não permitiam a entrada da luz do sol.Na parede quadros pintados a mão mostravam figuras desarmoniosas, figuras com rostos deformados.
    ---Senhores, esta é a condessa de Wolguerts, ou pelo manos oque restou dela. Disse Freud em voz baixa e tom melancólico.
    ---É um prazer conhece-la Condessa. Falei esperando alguma resposta.Ela apenas ergueu a mão em nossa direção e sussurou com voz rouca.
    ---Cavalheiros, encontrem meu filho, ele esta ferido e precisa de ajuda.
    Neste momento Freud acenou para que saíssemos do quarto.
    ---Eu avisei aos senhores que ela esta delirante, diz ver o filho que morreu na guerra e que ele esta ferido.
     O inspetor baixou a cebeça em respeito ao comentário do médico.
    ---Entendemos certamente e agradecemos sua colaboração.Vamos levar Rurik para o distrito policial, pois ele e´o nosso único suspeito.Aconselho a levar a condessa para clínica pois aqui ela não estará segura.
    ---Os senhores estão cometendo um erro, não sou assassino. Disse o empregado quando Thormann mandou que entrasse no coche.
    ---Parece que finalmente os fios da tapeçaria começam a cruzarem-se. Disse Thormann fazendo referência ao que havia comentado quando estávamos a caminho da mansão.
    Durante o tempo em que o inspetor determinava aos policiais do distrito que colocassem Rurik em uma sela, fui ao escritório do mensageiro para que enviasse um telegrama para meu padrinho, general Konrad, da Academia Militar de  Westpoint pedindo que verificasse a informação sobre o jovem Guilbert Wolguerts. Movido talvez pela intuição que dizia-me que Rurik não era o verdadeiro assassino, fui a casa de registros para saber em que situação estava a propriedade dos Wolguerts.
    ---A dois anos houve uma alteração no regedor do patrimônio da familia Wolguerts, com a morte do filho e a condessa com distúrbio mentais todos os bens ficaram exclusivamente para o conde.
    A informação do escrevente poderia trazer uma nova direção ao caso, se não fosse o fato do conde já estar morto.
    ---Mas com a morte do conde quem ficaria com as terras. Indaguei
    ---Se não houver mais pessoas do mesmo sangue para reclamar a herança , a prefeitura de Londres poderá requerer a posse do patrimônio.
    Já era final de tarde quando retornei ao distrito, tudo estava embaralhado em minha mente.Uma foto com oito pessoas, o conde, Peace e furnace estão mortos.a condessa esta na clínica e seu filho morto em combate.Se Rurick não é o assassino restou-nos procurar o casal que sabemos apenas serem Fred e Marg.
    Ao chegar encontrei Thormann recostado a porta de entrada bufando seu charuto.
    ---Tudo que irremediavelmente ocorre em nossas vidas, começa e termina no pequeno círculo de nosso amigos ou inimigos. Disse ele retornando em direção a sua sala.
    ---Dizes isto por causa da foto? Perguntei ao ver que havia colocado ao lado dos nomes no painel.
    ---Temos varios nomes, todos em uma foto e nenhuma pista concreta. Concluiu ele.
    Após informar ao inspetor sobre oque descobri no escritório de registro ele balançou a cabeça franzindo o queixo.
    ---Parece que tudo se complica ainda mais, agora temos uma terra sem dono. Disse ele.
    --E Rurik, porque o prendeu? Questionei.
    ---Não acredito que ele seja o assassino, senão teria fugido.Mas aqui ele esta seguro. Respondeu.
    Thormann certamente estava tão confuso quanto eu, e talvez por este motivo foi até a sela onde Ruruk encontrava-se sentado ao chão.
    ---Se diz não ser o assassino deve tomar cuidado, pois talvez ele também tencione mata-lo. Disse Thormann ao prisioneiro.
    ---Garanto aos senhores que jamais matei alguém. Disse Rurik.
    ---Então conte-nos algo que possa auxiliar para encontramos quem esta cometendo estes crimes. Falei enquanto o prisioneiro  veio até as grades onde estávamos.
    ---A algumas noites o conde recebeu a visita de um homem, não sei dizer quem era pois ele veio em um coche e  não desceu, o conde falou com ele rapidamente no pátio.Os dois estavam bastante alterados.
    ---Você conseguiu ver a fisionomia do homem? Indaguei
    --- Não, mas na mesma noite o conde colocou três baús de madeira em um coche e saiu sózinho, retornando tempo depois sem os baús.
    ---Sabe oque continha nos baús?Perguntou Thormann
    ---Muitos amigos do conde traziam objetos em ouro e prata, jóias e outras coisas de valor para vende-las ao conde.Talvez este seja o conteúdo. Completou Rurik.
    ---Certamente fruto de roubos. Afirmou o inspetor
    ---Mas para onde ele levaria tudo isto? Perguntei
    Apenas o balançar de cabeça do Rurik deu-nos a enterder que ele não sabia o paradeiro dos baús.
     A notícia dos assassinatos logo se espalhou pela cidade., começaram a fervilhar boatos insensatos. Falava-se de uma orgia, de uma batalha entre clãs rivais, de uma farsa macabra que teria acabado mal.Não que em Londres corresse pouco sangue , a história da cidade era um longo desfile de combates, de confrontos.
    Os Londrinos reagiram como se o assassinato do St. James Park significasse outra coisa. Eles compreenderam que o que mais importava ali era a maneira de exibir a morte e não o fato de causá-la. O assassino, expondo seu malfeito daquela maneira, lançava um desafio as autoridades.
    Já era noite quando nossa atenção direcionau-se ao Palace Music Hall, onde buscaríamos alguma informação com Hector Lenn.Thormann mostrou-me a foto que havia colocado no bolso de seu sobretudo.
    ---Cocheiro.Vamos ao Hospital Psiquiátrico. Disse ele
    Quando notou minha expressão de espanto com o novo trajeto argumentou.
    ---Ainda é cedo e temos tempo para falar com Freud.
    Em poucos minutos estávamos na recepção da Clínica em companhia do médico.
    ---Doutor, o senhor é especialista em analisar a mente humana. Ajude-nos. Disse Thormann colocando a foto sobre o balcão da recepção.
    Freud tomou a foto em sua mão e olhou demoradamente para cada um dos rosto que estavam nela.
    ---venham comigo cavalheiros.
    Seguimos por um longo corredor até um consultório, onde após entramos a porta foi fechada pelo médico.
    --- Por favor senhores fechem seus olhos e ouçam a minha voz.Imaginem que conseguem ver dentro de seus cérebros.É uma casa e esta escuro, apenas sua consciência é uma pequena luz solitária.Como uma vela ao vento que vacila para todos os lados, e todo resto atrás desta fraca luz esta nas sombras.Todo este resto esta em nosso subconsciente.Mesmo não vendo sabemos que tudo esta lá, nossos segredos, medos, desejos, tudo aquilo que não expressamos externamente.São muitas vezes memórias que não queremos que encontrem a luz, tudo esta no subconsciente e estas memórias ou desejos é que distorcem nosso visão mais clara de tudo.Muitas vezes a resposta não esta a nossa frente, mas sim naquilo que não estamos vendo.
    ---Tudo isto é muito interessante, mas em que isto pode ajudar-nos neste caso. Perguntei
    O médico sorriu timidamente e devolveu a foto ao inspetor.
    ---Sr. Lawford, como eu disse, muitas vezes a resposta esta no que não estamos vendo.
    Thormann olhou-me também confuso com a resposta.
    ---Por favor Dr, seja mais claro.Disse ele
    Freud moveu-se calmamente até onde Thormann estava sentado a parou ao seu lado.
    ---O que o sr. Não esta vendo inspetor? Quem esta faltando nesta foto ?
    O inspetor ergueu as sobrancelhas e ergueu-se de um salto.
    ---O mordomo, ele não esta na foto . Concluiu.
    ---Isto mesmo inspetor, Bernard o mordomo, não esta na foto.Completou Freud.
    A revelação pareceu-me ter aguçado o raciocínio de Thormann.
    ---Ele conheceu a todos, e não esta na foto, porque ? Ponderou
    Saimos quase a correr em direção ao coche.
    --- Para o distrito, rápido. Falou Thormann mostrando-se bastante impaciente.
    Descemos emfrenre ao distrito com a urgência que a situação requeria.O inspetor foi diretamente a sela de Rorik.
    ---Porque o mordomo Bernard não esta nesta foto. Indagou mostrando novamente a foto ao preso.
    --- Bernard foi quem tirou esta foto inspetor. Respondeu Rorik.
    Neste momento um guarda chega ao corredor das selas.
    ---Sr. Lawford.Chegou um telegrama em seu nome.
    Era a resposta do Coronel Konrad sobre Guilbert Wolguerts, segundo os registros militares o jovem não foi considerado morto, mas sim desaparecido em batalha.Seu corpo nunca foi localizado.
    Na sala de Thormann tentávamos colocar as deduções em uma vertente mais coerente.
    ---Precisamos falar com o mordomo. Disse ele recolocando a foto no painel. 
     Mas o capitão da guarda interronpeu entrando na sala.
    ---inspetor, sua presença é solicitada na hospedaria Grenn Rose, na Dowling Street 96.
    ---O que houve lá capitão ? Indaguei
    ---Parece que houve outro assassinato Sr.  Lawford. Respondeu ele.
    Thormann olhou-me balançando a cabeça negativamente enquanto saía em direção ao coche.
    O local era não muito longe da área central de Londres.Eram poucas as famílias que residiam ali, quase todo o quarteirão era de armazéns e algumas poucas hospedarias baratas.Ao descermos do coche no numero 96 fomos acompanhados por um policial da guarda de Londres que subiu conosco as escadas que lavaram ao segundo piso, Entrei primeiro, com a lanterna na mão, subindo um degrau  por vez da escadaria para permitir ao inspetor seguir-me. Este avançou cautelosamente, inspecionando o chão como se procurasse alguma coisa. Ao chegamos próximo a porta onde deveríamos entrar ele sentiu o cheirou  pútrido e fez uma careta estranha que eu não soube interpretar.
    No quarto 23, Já na entrada observamos uma mesa com uma garrafa de vódka e três copos ainda com restos da bebida.No fundo da peça uma cama e sobre ela dois corpos, um homem e uma mulher.Colocados um ao lado do outro com as mãos sobre o peito, deitados sobre uma enorme mancha de sangue com borrifos por todo chão.O assassino cortou-lhes a garganta e consumou seu crime colocando as vítimas sobre a cama.Thormann agia com cautela para não deixar passar nenhum detalhe. enquanto o guarda nos lançava olhares intrigados.O inspetor pegou então a lanterna e iluminou, um a um, os corpos estirados, onde haviam secado horríveis manchas  avermelhadas.
    Thormann observou por alguns segundos a cena.
    ---O que estas vendo aqui Lawford?
    A pergunta do inspetor me deixou confuso.
    ---Um crime, um casal com a garganta cortada. Respondi
    ---Sim, o mesmo casal que esta na foto. Olhe com atenção. Disse ele
    Só então pude perceber que se tratava de Fred e Marg, o casal que estava na foto com o conde.Rorik estava preso, restava Bernard, o mordomo.
    ---Vire os corpos. Disse Thormann
    Como nos outro crimes havia um ferimento na parte traseira da cabeça do homem, mas na mulher o ferimento era na parte frontal do rosto.Talvez ela tenha tentado resistir ao assassino.
    Um dos guardas abre a porta do lavatório do quarto.
    ---Inspetor, tem algo mais aqui.
    Amontoados no minúsculo e fétido banheiro o policial encontrou três baús de madeira.Completamente vazios.
    Thormann ordenou que levassem os corpos ao necrotério e sem tardar procurassem por testemunhas.Mas em poucos minutos todos estávamos de volta ao local do crime, como sempre ninguém viu nada.Enquanto o inspetor caminhava pelo quarto.
    ---Veja Lawford, três copos na mesa.O assassino conhecia as vítimas. Disse ele
    ---Mas Rorik esta preso, então só nos resta Bernard. Concluí.
    Neste momento o capitão da guarda entrou.
    ---Ninguém viu nada ou não querem falar. Disse ele.
    ---Nenhuma testemunha se manifestou, o assassino é um fantasma. Disse o inspetor irritado
    ---Em todo caso, duvido que o assassino tenha mostrado sua verdadeira face.Argumentei 
    ---Parece que infelizmente foi o que aconteceu. Disse o capitão ao sair.
    --- Não se trata mais apenas de explicar um assassinato, meu caro amigo. Trata-se, provavelmente, de impedir que outro aconteça.  Completou ele.
    Suponho, hoje, que tal presságio devia ter me apavorado.Mas para minha grande vergonha, devo admitir que me fascinou.
    Tinhamos um suspeito, o único, e fomos de imediato a mansão dos Wolguerts.Queriamos saber o que Bernard tinha a dizer.
    Ao descermos do coche encontramos a mansão praticamente abandonada, janelas fechadas e luzes apagadas.Thormann dirigiu-se pelo caminho ao lado da casa.
    ---Vamos dar a volta pelos fundos.
    Enquanto esgueirávamos pelas paredes laterais verificamos que realmente não havia ninguém na luxuosa mansão dos Wolguerts.Mas em um pequeno cômodo fora da casa avistamos uma fraca luz de vela, e lá encontramos Bernard. Apenas uma batida na porta foi o suficiente para que a porta fosse aberta e pudéssemos entrar no local onde apenas uma cama e um armário sem portas serviam de moradia ao mordomo.
    ---Você saiu da propriedade esta noite? Interrogou Thormann em voz alta .
    ---Não. Fiquei limpando a prataria. Respondeu ele
    ---Leve-me até onde esta a carruagem. Disse Thormann.
    O estábulo ficava bem próximo onde estávamos,e Thormann foi perfeito em suas deduções.
    ---Existe uma grande quantidade de barro ainda úmido nas rodas do coche, e o rastro das rodas são recentes.
    O inspetor agarrando Bernard pelo braço puxou-o bruscamente para fora do estábulo.
    ---Você pensou que poderia enganar-nos por quanto tempo? Completou Thormann.
    Em uma velha mala de couro em cima do armário a policia encontrou uma antiga máquina de fotografia, muitas fotos da área central de Londres, em algumas destas fotos aparereciam uma senhora muito bem vestida segurando nos braços uma menina e com um menino ao seu lado.
    Durante boa parte da noite o inspetor tentou extrair alguma informação do mordomo.Queriamos saber o porque das mortes e se alguém o ajudava.Mas Bernard permanecia em silêncio, oque deixava Thormann ainda mais irritado.
    ---Precisamos saber a motivação dos crimes, como ele agia para encontrar as vítimas. Dizia ele.
    Permanecemos até o amanhecer no distrito analizando os acontecimentos, pois agora tínhamos um suspeito.Mas o inspetor sabia que nem tudo era o que parecia.Bernard não era um homem jovem.Seus cabelos grisalhos, seu porte bastanrte magro e sua baixa estatura indicavam claramente que ele não cometeu os crimes sem ajuda de alguém.Supondo que ele era o assassino, fato esta que não estávamos plenamente convencidos.O sol ja estavava por sair quando adentrou ao distrito o Sr. Peter Langoni, Um robusto italiano na casa dos sessenta anos e proprietário do Jornal Londom Gazzet.
    ---Bom dia Inspetor, o sr, tem alguns minutos? Gostaria de falar-lhe. Disse Langoni
    Thormann recostou-se em sua poltrona com uma visível fisionomia de cansaço.
    ---Se é alguma manchete para o jornal, ainda não temos nenhuma. Respondeu Thormann sem olhar para Langoni
    ---Na verdade inspetor eu vim aqui oferecer minha ajuda, e quem sabe depois consiga minha manchete. Disse o homem puxando uma cadeira e sentando-se a frente do mesa do inspetor, que sinalizou com a mão para que ele continuasse.
    ---Em 1769 meu pai, um imigrante italiano e minha mãe,uma costureira  irlandesa chegavam a Londres.Meu pai engenheiro trabalhou na construção da ponte de Winsminster.Minha família acompanhou o crescimento de Londres.
    ---Seja mais específico Sr. Langoni. Interronpeu Thormann.
    ---Muito tempo depois a família Wolguerts chegou a esta cidade.O patriarca chamava-se Isac Wolguerts.Vieram com muito dinheiro e compraram muitas terras,era apenas Isac e sua esposa Virgínia.Com o passar dos anos eles tiveram dois filhos, Bernard, o mais velho, e Edna que veio depois.
    ---Bernard é irmão de Edna.?Indaguei surpreso.
    Langoni apenas olhou-me rápidamente e continuou.
    --- Isac era um homem acostumado com a nobreza e logo começou a circular nos locais onde somente os mais poderosos de Londres podiam frequentar.Tinha como passatempo a fotografia, conhecimento este que foi passado a Bernard quando adulto.
    ---O que houve com Isac e Virgínia? Indagou o inspetor.
    ---Morreram quase ao mesmo tempo, devido a uma forte tuberculose.Mas seus filhos já eram adultos. Respondeu Langoni.
    ---Mas o conde e seu filho. Perguntei impaciente.
    ---Depois da morte de Isac e Vírginia, Edna foi para França e retornou três anos depois com Guilbert, seu filho.Sómente quando o menino tinha oito anos foi que Edna conheceu Edy Singers, um aventureiro e comerciante de escravos.Casou-se com ele transformou o contrabandista em conde de Wolguerts. O sucessor da fortuna no caso de morte de Edna seria o filho, mas foi enviado para o campo de batalha ao completar dezoito anos e nunca mais voltou.Ou seu tio Bernard.
    Tudo que foi dito por Langony deixou a mim e ao inspetor sem palavras.
    ---Porque então Bernard era tratado como mordomo? Perguntou o inspetor.
    ---Esta resposta eu não tenho.Disse Peter
    ---Mas gostaria de pedir sua permissão para publicar a foto que esta em seu painel. Direi apenas que um suspeito foi preso , nada mais. Completou o rechonchudo homem.
    Thormann retirou a foto do painel passando as mãos de Langoni.
    ---Depois devolva-me, ainda estamos investigando.Disse ele.     
       O caso parecia se tornar menos incerto.
    No entanto, após a publicação da foto na edição do Lomdom Gazzet, uma nova escuta das testemunhas confirmou a presença de um Homem com uma longa capa preta e apoiado em uma muleta subindo as escadas da hospedaria acompanhado de outro cavalheiro, mais baixo de cabelos grisalhos. mas ninguém sabia quem eles eram, nem sequer escutaram suas vozes.
    Thormann ordenou que libertassem Rorik, não havia provas contra ele.Ao contrário de Bernard, que estava bastante envolvido no mistério das mortes.
    ---Parece que você tem muito a dizer. Disse o inspetor ao mordomo quando entrou em sua cela.Sentado ao lado de Bernard na casa de detenção da Scotland Yard, Thormann relatou ao preso tudo oque sabiamos. E pediu que falasse tudo oque estava escondendo, pois não havia mais motivo para segredos.
    ---Em uma noite chuvosa a alguns meses, alguém bateu a porta de meu quarto, era muito tarde e certamente ninguém havia percebido sua chegada.quando abri quase desmaiei, era Guilbert. Disse o mordomo.
    ---Mas ele não estava morto? Perguntei precipitadamente.
    Ele nem sequer ergueu os olhos para mim e seguiu sua narrativa.
    ---Primeiro fiquei assustado, depois mandei-o entrar, estava ensopado quando tentei ajuda-lo com a capa percebi que faltava-lhe parte  da perna direita, por isto usava uma muleta.Uma muleta de metal.
    ---Ele disse oque aconteceu com ele? Indagou o inspetor também precipitadamente.
    ---Contou-me que perdeu parte da perna em batalha e foi enviado ao hospital de campanha, de onde fugiu.Quando chegou a Londres hospedou-se nos fundos da Cantina Urso Branco, onde o proprietário foi combatente juntamente com ele na Índia.Pediu-me para acompanha-lo no escritório da registro, pois desconfiava das intenções de seu padrasto, e quando foi falar com o conde na mansão não desceu do coche. Discutiram e o conde proibiu sua entrada na mansão.
    ---Mas ele voltou certamente. Conclui.
    ---Muitas vezes, durante a noite eu o colocava para dentro da mansão pela porta dos fundos, e ele visitava sua mãe, a condessa.
    ---Então quando ela dizia que ele estava ferido não era delírio, realmente ela via seu filho sem uma parte da perna. Exclamou o inspetor.
    ---Exatamente. Disse o preso.
    ---Oque ele tem a ver com estas mortes? Perguntei sem Evasiva.
    ---O Conde realmente pretendia ficar com as terras, e Guilbert sabia que ele pediria aos seus velhos cúmplices que providenciassem algum acidente para mim e para meu sobrinho.Então Guilbert resolveu agir.
    ---Como seu sobrinho fazia isto? Perguntou Thormann.
    ---Não foi difícil descobrir onde eles moravam, depois foi só planejar o dia e esperar o momento certo.Eu buscava Guilbert no Urso Branco com a carruagem da mansão e acompanhava ele até o local.
    ---Você participou das mortes? Perguntei.
    ---Não. Guilbert usava sua muleta de metal para derrubar as vítimas, eu apenas auxiliava para colocar os corpos como ele desejava.
    ---Mas qual de vocês cortou as gargantas das vítimas. Inquiriu Thormann.
    ---Também foi ele. Respondeu Bernard.
    ---Porque aceitou ser mordomo da mansão? Perguntei intrigado
    ---Quando percebi que minha irmã já não tinha mais nenhuma consciência doque estava acontecendo, temi por minha própria vida.E  passei minha parte das terras para o conde.
    ---Então ele te colocou como um serviçal. Disse Thormann balançando negativamente a cabeça.
    ---Foi oque aconteceu. Completou Bernard.
    Um ato de extrema violência tem sempre como motivação algum trauma, uma negação ou uma não aceitação.No caso do Jovem da família Woolguerts, era a traição do padrasto.
          Não era preciso ser um grande adivinho para perceber que nossa próxima visita seria a cantina..
    O inspetor, acompanhado de sua tropa, foi então até a cantina Urso Branco, localizada atrás do Palace Music Hall. A Cantina era um dos locais mais mal frequentados de Londres. Não foi preciso muito tempo  para que seus homens ficassem sabendo que, de fato, um jovem usando muletas vivia em um dos quartos. Infelizmente, não havia ali mais do que um baú vazio, restos de velas e alguns objetos de uso masculino num estado lamentável.
    A proprietária, por sua vez, não se fez de rogada para contar o que sabia,seu locatário alugava aquele quartinho havia pouco mais de um ano e lhe pagava uma boa quantia por ele, preço este que presumi ser exorbitante, considerando-se que a única janela dava para um terreno baldio coberto de estrume.
    ---Faz algum tempo que ele vem aqui, é oque me parece. Afirmou o inspetor
    ---Ele me paga adiantado, se não usa o quarto é problema do aleijado.Disse a proprietária despreocupadamente.
    ---A senhora sabe onde mais posso encontra-lo. Perguntei.
    ---Ele perguntou-me certa vez onde ficava a oficina de Bruckmeier. Respondeu ela
          Thormann notou que fiquei absorto tentando lembrar se já havia escutado aquele nome.
    ---Bruckmeier é um austríaco que fabrica objetos de vidro e metal.Fica do outro lado da cidade. Disse ele.
    E este seria nosso próximo destino.O dia já estava em seus minutos finais e o sol já havia se posto. Estavamos naquele momento em que alguns chamam de “ A Hora Morta”, quando o sol já se pôs mas a lua ainda não surgiu.Já no coche em direção a oficina Thormann parecia ter recuperado sua tranquilidade.
    ---A linha entre a justiça e a barbárie é muito tênue. Falou calmamente.
    ---Para o assassino era como uma peça de teatro, cada morte era um ato da peça.Comentei.
    ---A pantomina na forma mais pura,o espetáculo da morte.Mas agora chegamos ao capítulo final. Concluiu ele.
    A oficina ficava no final da King Charles Street, um prédio antigo, muito alto e construído na maior parte com pedras retangulares.Tendo ao fundo uma enorme chaminé.Logo ao chegarmos fomos recebidos por um homem de cerca de trinta anos, bastante forte.Embora não parecesse  surpreso com nossa visita, sua atitude refletia uma hostilidade absurda que eu não sabia a que atribuir. Conduziu-nos, no entanto, até uma grande sala, cujo forro devia estar a quatro metros de altura e onde reinava uma desordem extraordinária.
    Havia ali grandes mesas cobertas de pilhas de papéis, de desenhos e livros.Vários baús antigos, encostados nas paredes serviam de suporte a uma quantidade de máquinas de ferro ou de madeira cuja utilidade eu era incapaz de adivinhar. Num canto, uma bancada de preparação de peças em vidro ostentava manchas coloridas e estava cheia de potes com pincéis, penas e bastonetes apontados.
    ---Meu nome é Bruckmeier. Oque os senhores desejam? Disse o homem
    ---Somos da Scotland Yard e gostaríamos de saber se conhece Guilbert Wolguerts?
    A sua resposta surpreendeu-nos.
    ---Certamente que conheço, Vou chama-lo.
    Dizendo isto o homem afastou-se e sumiu em meio as prateleiras que estavam espalhadas por toda parte.
     No alto, uma engrenagem de polias mantinha suspensa uma espécie de cavalete sobre o qual se via a moldura de um quadro virado para cima. No outro canto da sala, um fogo infernal ardia numa enorme lareira. Hastes de metal incandescente estavam mergulhadas no braseiro, e pensei ter distinguido uma massa de vidro derretido no meio das chamas. Um pouco afastada da lareira, estava disposta sobre um pano, uma coleção de objetos que me fez pensar nos instrumentos cirúrgicos utilizados no Oriente.Realmente, não sabia o que pensar daquela acumulação de objetos, nem do estranho cheiro, mistura de pintura, de substâncias aromáticas e de metal incandescente, que se desprendia do conjunto. Ao lado desenhos, diversos cadernos estavam cobertos de uma escrita que não
    conseguia decifrar. Embora acreditasse reconhecer algumas daquelas letras, o conjunto não evocava nada de compreensível, como se as palavras e as frases tomassem emprestado nosso alfabeto para se combinar numa outra língua.Outra coisa estranha eram as espécies de enigmas que decoravam a parte de cima de algumas folhas. Traçados em lápis preto, podiam ser vistos, por exemplo, uma nota musical seguida de uma serpente, depois de um pote, depois de uma  outra nota e de uma  arma de fogo. Embaixo, estavam rabiscados alguns signos, sem dúvida a solução do enigma, ela também expressa na mesma língua desconhecida.
    Os momentos que antecederam a chegada de Guilbert pareceram uma eternidade para mim,estavam vivas em minha memória as horríveis cenas que presenciei nestes últimos dia.Gargantas cortadas, cabeças arrancadas, muito sangue e crueldade.Era uma mistura de Impaciência e nervosismo.Então surgiu Guilbert, eu poderia dizer com certeza que foi uma entrada teatral.Saindo por detrás das inúmeras cortinas que se espalhavam pela sala, apareceu um homem com trajes militares em cor azul escuro.A perna da calça direita dobrada até o joelho deixava claro que lhe faltava parte daquele membro, o apoio era uma muleta fabricada em aço.Ele caminhou vagarosamente até onde estávamos e sorriu.
        ---Que bom que chegaram senhores.Disse ele enquanto sentava-se em uma cadeira a nossa frente.
    ---O senhor me parece muito tranquilo para quem vai ser preso por quatro assassinatos. Respondeu Thormann
    Bruckmeier colocou duas cadeiras próximas para que sentássemos e acomodou-se sentado em uma das inúmeras caixas de metal que haviam no local.
    ---Meu caro inspetor, o senhor foi muito esperto em seguir as pistas deixadas por mim. Falou Guilbert ainda  sorrindo.
    ---Se sabia que vínhamos porque não fugiu? Perguntei, pois não estava entendendo toda a calma do criminoso. Ele então recostou-se ainda mais na cadeira, fez um gesto com a mão para que sentássemos  e começou a falar.
    ---O motivo pelo qual me alistei para ir ao front de guerra na India foi porque nunca concordei com a união de minha mãe com aquele trapaceiro, não suportava mais ver ela sendo maltratada por aquele vigarista.
    ---Mas a noticia que tínhamos era que estavas morto. Disse o inspetor
    O Jovem ergueu a mão pedindo para continuar.
    ---Fui gravemente ferido em combate, e podem ver que o ferimento me fez perder parte de minha perna.A incompetência dos médicos ingleses matavam mais que as balas inimigas, então pedi ajuda a uma das enfermeiras e fugi do hospital.Se permanecesse ali perderia mais que metade da perna, certamente perderia minha vida.
    ---Você é um desertor. Disse Thormann interrompendo a narrativa. 
    ---Quando se esta em uma guerra só existem dois tipos de soldados, os vivos e os mortos.E eu escolhi fazer parte dos vivos. Justificou ele.
    ---Mas e estas terriveis mortes depois de sua chegada? Perguntei
    ---Quando retornei fui procurar o Sr. Langoni, um velho amigo de minha família, pois sabia que ele era me ajudaria.E então fiquei sabendo das torturas que o conde infringia a minha mãe, e de seus comparsas que saqueavam a cidade e levavam seus logros a ele.
    ---Seu problema de locomoção certamente não atrapalhou na execução de seus planos? Afirmou Thormann
    ---Sempre que tinha que sair a rua pedia para meu Tio Bernard acompanhar-me com o coche.
    --Ele foi seu cúmplice então. Deduzi.
    ---Eu não diria desta forma.interveio o jovem.
    --- Quando fiquei sabendo das intenções do conde de ficar com as terras de minha família resolvi agir.Primeiro foi a morte de Peace, mas ele não deu importãncia ao aviso.
    ---Ou então talvez não o tenha entendido. Interví.
    Mas sua incrível narrativa estava apenas começando.
    --- O mesmo acontecendo com o velho Furnace.Aquele embusteiro estava zombando das mortes.Pois tenho certeza que sabia que eu estava caçando seus larápios.
    ---E a morte do conde? Indagou Thormann
            ---Pedi a Langoni que entregasse ao conde um convite para o espetáculo de Hector Lenn, mas eu o estaria esperando nos fundos do teatro.Depois  de derrubar o miserável com uma pancada na cabeça colocamos novamente dentro do coche e fomos para o Park.O restante vocês já sabem. Confessou ele calmamente.
    ---Usaste esta muleta para dominar suas vítimas com uma pancada na cabeça. Disse o inspetor apontando para o artefato que estava ao lado da cadeira de Guilbert.
    ---Sem dúvida inspetor. Respondeu ele, sempre muito calmo.
    Thormann ergueu-se de sua cadeira e foi até onde estava o Jovem.
    ---Terei que prende-lo pelas quatro mortes, tens algo a declarar antes de ser levado ao distrito?
    ---Sim inspetor, o mais importante eu deixei para o final. Disse o jovem sorrindo.
    Nem eu,  e creio certamente tampouco o inspetor entendíamos porque a ironia, ou seria demasiada tranquilidade do assassino.
    ---Quando minha mãe foi para França ela já estava grávida.Eu nasci lá mas meu pai é de Londres.
    Ouve um entre-olhar de surpresa entre Thormann e eu.
    ---Sou um desertor, se não prederem-me agora o exército certamente me encontrará.Por este motivo entrego-me aos senhores mas faço um pedido.
    Ouve um breve silêncio na gigantesca sala e ele continuou.
    ---Que os senhores sejam testemunhas que passarei toda nossa propriedade para o Sr. Langoni.Ele é meu verdadeiro pai.Enquanto eu e Bernard estivermos presos ele cuidará das terras e de minha mãe.
    Foi quase indescritível a expressão de espanto que ficou estampada no rosto de Thormann.No trajeto até o distrito estavámos todos em silêncio.Guilbert já nao tinha mais o sorriso no rosto e o inspetor parecia aos poucos analizar o intrincado desfecho cheio de detalhes inesperados ao qual presenciamos.
    Após todas as providências necessárias já terem sido tomadas pela Scotland Yard para a prisão de Guilbert e Bernard, predispunha-me a ir para casa para um merecido descanso quando Thormann pediu que o acompanha-se até o centro prisional.Logo ao chegarmos direcionou-se rapidamente a uma cela localizado aos fundos do corregional.
    ---Veja este homem Lawford. Disse o inspetor apontando para um preso que estava de pé agarrado as grades.
    Era um homem de meia idade e cabelos longos e claros, com uma cicatriz no lado esquerdo do rosto.
    ---Este é Jack Sheppard, ladrão e cafetão. Falou Thormann apontando para o homem.
    ---E porque esta me apresentando a ele? Perguntei intrigado com o fato.
        Thormann aproximou-se da grade.
    ---Diga ao Sr. Lawford porque esta preso Jack. Falou o inspetor.
    O preso retornou ao fundo de sua cela e sentou-se ao chão.
    ---Cavalheiro, eu fui preso porque matei uma vagabunda que roubava meu dinheiro, dinheiro de meus clientes.
    ---Diga o nome dela Jack, diga ao sr. Lawford o nome da prostituta que você matou. Falou Thormann em voz alta.O homem sorriu, ergue-se e veio novamente até as grades.
    E ssussurou...
    --Nina, o nome dela era Nina.
    O inspetor esperou alguns segundos observando minha expressão de total perplexidade.Depois colocou a mão em meu ombro conduzindo-me para fora da área prisional.
    Eu não sabia oque pensar ou dizer.Por longo tempo joguei sobre os ombros de Thormann a culpa  de algo que ele não havia feito.E ele afastou-se de mim tempo necessário até pegar o verdadeiro criminoso de Nina.
    ---Vou ao distrito mas deixo-te em casa, ambos precisamos descansar.
    E assim o coche seguiu seu curso, assim como nossas vidas.
       
    Timoty Lawford, Londres 1864
  • Mil cairão ao teu lado

    “Ignorando as advertências do tenente Gutschalk, Franz tentava aliviar o sofrimento onde pudesse. Algumas vezes os próprios camaradas machucados ou que estavam morrendo precisavam de assistência; outras vezes ele ajudava os judeus e ucranianos. Não fazia diferença entre amigo e inimigo, sabendo que Jesus também os teria tratado da mesma forma.” Mil cairão ao teu lado - Susi Hasel Mundy, Maylan Schurch - página 87 
    Este trecho nos mostra que independente da pessoa em questão, devemos tratar como Jesus trataria; existe um projeto na minha igreja que se chama Uma Semana Para Jesus, eles escolhem uma cidade e em média, uns 300 missionários de todas as idades ( desde adolescentes até idosos) vão para passar uma semana lá, fazendo trabalhos voluntários nas áreas de:
    saúde : dentistas, nutricionistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos Estética: corte de cabelo, esmaltação de unhas, design de sobrancelhas, maquiagemAção social: bazar beneficente, banheiro solidário, assistência social, arte e alegria, orientação jurídica, veterinária, ebf ( escola Bíblica de Férias)
       E todos os missionários ganham uma pulseira que vem escrita, OQJF? ( o que Jesus Faria?) e acho que isso deveria ser o nosso lembrete diário em todas as situações cotidianas e não cotidianas. O que Jesus faria se alguém que ele não gostasse viesse falar com ele? O que Jesus faria se alguém traísse ele? Bom para isso já temos a resposta em Mateus 26:23 - Indicou-lhes Jesus: “Aquele que comeu juntamente comigo, do mesmo prato, este é o que vai me trair.  
     
     Mateus 26: 25. Então Judas, que haveria de consumar a traição, disse: “Acaso, seria eu, meu Mestre?” E Jesus afirmou-lhe: “Sim, tu o declaraste!”    
       Jesus já sabia que judas colocaria ele naquela cruz, e o amou, não o tratou diferente, se sacrificou e deu a oportunidade de Judas se redimir, assim como fez comigo e contigo!
       A acepção de pessoas resultam em ideologias como o nazismo. Matam as pessoas, até por dentro, na alma, no emocional!
    Para finalizar quero deixar registrado para reflexão a passagem de Mateus 25:35, que diz: “Pois tive fome, e me destes de comer, tive sede, e me destes de beber; fui estrangeiro, e vós me acolhestes. “
  • Mil em um dia

    Só hoje eu quis ser mais de uma mulher
    Só hoje eu quis ser uma pessoa melhor e a pior possível
    Só hoje eu amei e odiei a mesma pessoa uma enorme e incontável porção de vezes
    Só hoje eu quis liberar a enorme escuridão que habita em minha alma e ainda assim mostrar meu sorriso desajeitadamente e indiscriminadamente aos que são a razão das lágrimas que teimam em cair

    Só hoje quis ir ao céu e ao inferno usando as mesmas razões e propósitos para tais fins
    Só hoje estive a um passo da loucura e interminável alucinação que desgraça o que restou dos meus sonhos e, ainda assim, quis sentir a paz que só a brisa morna do mar e do canto discretamente afinado do vento podem proporcionar
    Só hoje eu fui e voltei do passado alternadamente e com as mais profundas ressalvas de como aqueles dias poderiam ter sido vividos com a festiva ou lamentos com os quais se cosntituíam

    Só hoje fui princesa e maltrapilha, fui bandida e fui moçinha, fui, sou e vou
    Só hoje eu quis que tudo fosse o nada em questão de segundos e ainda assim estar condenada ao paraíso
    Só hoje eu vivi e morri ao mesmo tempo
    Só hoje
    Só hoje
  • Mudança

    Regeitado , humilhado ,
    Tentei fugir, meu coração secou,
    Meus olhos se fecharam, 
    Isso me mudou.
     
    Agora minha vida mudou,
    Agora eu aprendi,
    Aprendi a não amar, 
    comecei a odiar. 
     
    Agora não sou mais o mesmo, 
    Não sou mais o humilhado, 
    Agora serei ó exaltado. 
     
    Quem eu quero enganar, 
    Não posso viver sem amar, 
    Nem mesmo consigo me lembrar
    Como era me apaixonar.

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