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poesia

  • voz do vento.

    Do violão que seduz a audição,
    Do portão a ilusória liberdade atiça, 
    Faz fumaça a névoa que engole o pensamento, 
    O tormento assola quando falta a tua visita.
    Dos olhos chega o pranto, sabe,
    Nos teus cabelos perdi o argumento, 
    E, beijei-a nas lembranças quando era só o teu perfume,
    Da janela vi o teu vestido branco nublar os olhos.
    Quis tatear a flor que te cobria,
    Quis achá-la e não podia; meu verso, então, morreu,
    Fui tê-la em um poema, 
    Essa insegurança é quem me condena ao deixar só nos lábios, esse amor meu.
  • Vozes

    Se eu não criar

    De algum jeito vai desaguar

    Porque posso chorar.
  • Vozes Da Alma

    O bem e o mal, à coragem e o medo,
    sentireis em teu efêmero viver. 
    O gosto amargo e o azedo,
    e o doce,d'alegria,que desperta o prazer. 

    Inesperadamente, como o verso,
    à lembrança, 
    veio no ocaso lhe trazer.
    O tempo que ainda era criança,
    e havias inocência em teu ser. 

    Melancolia não sentias, ouvistes,
    hoje, graças à ela, estás vivendo...
    Nas catedrais os dias tristes,
    lentos, há findares, como um círio derretendo. 

    E de novo solitário com os versos,
    numa noite,sem os astros,na atra solidão...
    Em lágrimas os olhos viu imersos,
    e acelerado,palpitar,eu senti teu coração.
  • WAR

    Meu verso é um mero questionário
    que, mesmo confuso, tenta ser claro:
    ora na inquirição do poema calado,
    ora neste inquérito eterno do passado.
     
    A fórceps, ponho dentro dele uma tocata
    silenciosa, composta apenas de palavras
    colhidas no adro do moinho da banalidade
    dos dias vazios que não têm hora marcada.
     
    E entre o tabuleiro do mapa-múndi da casa,
    busco o xis da resposta — e sempre fracasso.
  • What’s sanity?

    What’s sanity?
     It’s supposed to be a good thing but, quando meu coração acelera e eu não consigo controlar meu corpo, parece que que meu peito quer sair para fora, ao mesmo tempo que eu pareço não conseguir sair do lugar.
     Enquanto a vontade de escrever eu tenho, ao passar da cabeça para mão tudo parece uma confusão e dessa vontade me desprendo.
     Ansiedade talvez? Será que é isso que as pessoas reclamam? Mas que estranho, é momentâneo, enquanto elas não dormem, o meu efeito é o contrário, aperto, adjunto com cansaço, onde eu sempre espero, que amanhã já não lembre mais disso ?
  • Xícara Vazia

     O dia estava frio,
    Era final de tarde,

    tarde de inverno,
    inverno de 1982.

    A fina fumaça que subia,
    da tua xícara de café
    trazia um clima nostálgico,
    amável, de uma paz acalentadora.

    Seus finos lábios sorriam,
    seus olhos claros brilhavam,
    ao se refletirem nos ínfimos fachos
    do fraco sol que invadia nossa janela.

    Eu permaneci calado,
    apenas segurando tuas mãos,
    Acariciava teus finos e delicados dedos.
    Mãos de princesa,
    Como eu chamava.

    Degustamos o café,
    Sorriamos ao lembrar de situações engraçadas,
    Momentos únicos, pequenos momentos,
    De um passado distante.

    Meu coração sentia paz,
    paz vinda da alma,
    de uma alma que te ama.
    Falar era desnecessário,
    apenas sentir, deixar o coração falar,
    falar por nós dois.

    Mas o tempo vai passando,
    esse malvado tempo,
    que passa como a voar,
    por um momento tão lindo.

    Tu, minha divina amada,
    Ergueu-se, abraçando-me,
    beijando minha face.
    Acariciou meus cabelos,
    enquanto em silêncio,
    eu observava sua xícara, já vazia.

    E saiu,
    saiu da sala,
    saiu da nossa vida,
    saiu do nosso tempo,
    do nosso último café.
    Meu coração não quis entender.
    que tu não apenas saiu,
    já era um adeus.

    E na xícara, que parecia vazia,
    deixou nossos sonhos,
    nossos planos,
    nosso mundo.

  • Zé Preto

    Jogaram o Zé Preto no lixo.
    Envergaram a coluna do Zé.
    Nunca vi nada igual.
    Deve existir por aí, mas eu nunca vi.

    Subindo uma ladeira,
    O Zé, se quisesse andar de quatro pé,
    Era só estender os braços para onde o nariz apontava.
    Ele tinha que fazer contorcionismo
    Era pra olhar pro céu.
    O Zé Preto era um homem envergado
    Pelo peso nas costas de seus ascendentes.

    Lançar o recém-nascido no lixo
    É a continuação de uma história.
    Os proprietários da mãe do Zé
    Precisavam de comida na mesa,
    Roupa lavada e casa arrumada.
    Jogaram o Zé Preto no lixo.
  • ZONA DO SILÊNCIO

    Tudo muito bem aqui no mundo dos mortos,

    onde quase todos passam — exceto as horas

    que se atrapalham sem ponteiros ou relógios

    quando marcam a implacável tirania dos ossos.


    Não temos dia e noite, tampouco ocaso e aurora;

    o tempo também morreu feito o que há em volta.

    O cinza é dominante sobre os escombros tortos

    das ruas sem alamedas e das almas sem corpos.


    O sol vermelho sanguíneo ultrapassa o céu ocre.

    Vejo os becos e as cédulas sujas que se enrolam

    — conduzem a poeira por entre as ventas expostas

    e não há quem saiba mais o que realmente importa.


    Ouço muletas e próteses que se escoram no poste.

    Há gemidos invisíveis que não têm sul. Nem norte.

  • Zumbis

    Sonhei que eu era um computador
    Que em conversas com outras máquinas
    Percebi algo ameaçador:
    Uma rede de computadores zumbi
    Pronta pra fazer o que o computador mestre pedir.
    Nela, cada escravo anda na tocada que é tocado.
    Pensar, ouvir, ver, sentir, tudo cativado.
    A luz que ilumina leva os olhos à escuridão.
    Nas esquinas tropeçam as viúvas da razão.
    A razão, distinção de ser, fundamento,
    Afundada, pisoteada por um casco de jumento.
    Amargando esse pesadelo, tento ficar livre da escuridão
    Que não atinge meus olhos, mas escurece o meu coração.

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