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  • 45°C DO SEGUNDO TEMPO

    Procuro um verso na noite azul e ametista.

    Tento baixar aquela estrela na minha lista

    e ouvir os lamentos de quem sozinha brilha

    no meio do nada ou em algo que não exista.


    Não quero do tipo qualquer um me serve;

    talvez algum que forme o contato elétrico

    entre dois polos aleatórios que se atrevem

    a roçar seus limites na sala cinza do cérebro.


    Folheio vários livros. Abro e fecho os arquivos.

    Corro o dedo no drive. Subo e desço e respiro

    quase ofegante enquanto os miolos são fritos

    nesta azia dos signos, no refluxo dos sentidos:


    quando escrevo toda a temperatura aumenta...

    A perna treme. A mão sua. E onde está o poema?

  • 4K

    Meus sonhos são extintos na usina
    do cérebro, pouco antes da cortina
    da aurora desabar sobre a espinha
    da ex-noite roxa, que agora é cinza.
     
    — Mas essa imagem nítida cristaliza
    (quando o devaneio é seu, e sozinha)
    os desenhos de toda a sua topografia
    (e é feito se encontrar com a poesia).
     
    Um azul cobalto metálico predomina.
    Às 18h, tudo pode virar manhãzinha.
  • 5h38 (tangerina)

    Há sobre a aurora uma garoa teimosa...

    Molha o raio de todo o orvalho que brota

    do bebê do dia onde o rosa sem demora

    sumiu do amarelo do contorno da encosta.


    Pode o poema se tudo é uma saudade agora?

    Fazer o que se o meu verso voou e foi embora?

    Estou muito cheio desse vazio oco que implora

    a tangerina do seu beijo e os degraus do seu pódio.


    Projeto nas paredes as imagens que assolam

    a sua falta. Ouço aqueles ais dos ecos da copa.

    Sinto o dulçor do perfume do amor do seu colo.

    Puxo risos altos dos pés sob pés da nossa história.


    No meio da manhã e entre os lamentos da memória,

    não há nas dez e dezenove nem uma garoa teimosa.

  • 5h40 & 11h00 & 13h49

    Às cinco e quarenta um céu de azul metálico,
    entre o semicírculo, dominava toda a abóbada
    da manhã que aguardava o fresta da alvorada,
    ainda nas coxias da ex-noite que saiu de órbita.
    Agora, às onze horas, o ciano resiste na encosta
    (as nuvens vieram com seus chumbos esparsos),
    sequestraram os cinzas e espalharam as rochas,
    onde acendi os meus sonhos e subi o despacho.
    Na sacada vejo vários ruídos e ouço os pedaços
    da rua que levitam na elipse do átomo e no bafo
    dos versos que na cerração do poema se formam
    e voláteis sobem e rodopiam e nunca mais voltam.
  • 5h43 (acalanto)

    O morro parece um jardim de plantas variadas,
    quando a manhã produz do alto a névoa cinza,
    mas quase transparente da garoa que se espalha
    no domingo preso em casa dentro da pandemia.
    Não sei traduzir esta lavanda das cinco e quatro
    — fougères amplos, mesclados com o óleo diesel
    das poças cintilantes da água vinda da madrugada.
    O meu olfato é um depósito exposto de imagens
    e vejo o médio, o musgo, o claro, o escuro, o oliva
    e os tons dos verdes que se expandem das árvores,
    feito se acalentassem este dia ácido de melancolia
    no gingado das suas copas que o vento coreografa.
  • 6B

    Grito um silêncio na manhã fria da segunda

    temperada nas ervas da ventania. Na agulha

    procuro na mudez da casa a melodia oculta

    do verso que flutua nas bordas da balbúrdia


    ainda feito a palavra aleatória desse sistema

    atrás dos tapumes. Dentro do porão do poema

    eu tento mexer com as sombras que conjuram,

    cada uma, as preces para outra nova arquitetura.


    A luz de mil imagens modifica o ângulo e a estrutura.

    A linha do horizonte é grafite 6B. Aqui. Ali. Profunda.

  • 7h02 — NRA —

    Dentro da manhã não amanhecida,
    pergunto-me sozinho e novamente
     
    — o que pretende de mim, a vida?
    Serão os versos do meu não poema
     
    ou apenas ser uma testemunha bífida
    do ametista suspenso que ornamenta
     
    o alumínio elétrico e circular das cinco
    — e da nuvem que parece rocha viva?
     
    O vapor das sete sobe e a pergunta fica
    — o que afinal aguardo de mim ainda?
  • 80 TIROS

    "80 tiros" parece nome de filme, daria bom título pra 1 poema.
    Mas a extensão do ato macabro não pede lirismo,
    mede a insanidade e a indignação.

    Drummond precisou de apenas 1 tiro para acordar
    a madrugada com "a morte do leiteiro".

    Ando ensurdecido, 
    o barulho da aurora em meus ouvidos
    parece grave estampido de canhão.

    Ultimamente quando escrevo sinto que vai sair uma de História.
    Mas eu não quero ensinar História para mais ninguém,
    desisti de ensinar mas não desisti da História.
    Eu submeti a História à Poesia que transcende os limites da ciência
    que se vende de acordo com a circunstância e a conjuntura.

    A Poesia tem canal direto para alma que necessita
    de um terceiro tom, a minha alma principalmente.  
    *
    *
    Baltazar Gonçalves

  • 99°GL (inviável)

    O poema é aquele álcool frágil

    e de quase cem graus inviáveis

    que aparece, mas não se instala


    e pousa no trago que você aprecia

    e finge que é seu — e sua a poesia.

    Posa de modelo para a sua escrita


    e sai e sobra o pó das suas vísceras.

  • A Ação

    Não, não há pressa nessa minha velocidade.
    Quando eu me ponho a correr aqui dentro do coração,
    Mesmo que em vida a explodir,
    É só uma brisa o que se estende ao meu passar.
    Sem pressa, que é pra chegar mais rápido
    Que eu vou assim, no andar que sou devagar,
    Que o meu divagar está no que dos meus sonhos é ação,
    E que vigorosa eu sou na corrida que ninguém vê,
    Mas vagarosos são os meus passos de fora,
    No ritmo que o mundo se encontra com o meu correr.
    E ainda que eu vague entre mim e o mundo,
    É com vigor que eu paro e me ponho a observar.
    É sem pressa que me ponho a andar.

    Mas não há pressa, eu paro sim nas fronteiras,
    Mas não daqui, de dentro do meu coração.
    Eu paro sim, mas meu parar é para movimento insinuar,
    É numa brisa que eu chego mais rápido.
    Devagar passando pelo mundo,
    Divagando em ritmo a ação dos sonhos meus,
    Ainda que nos passos pro lado de fora,
    A falta de vigor, aqui de dentro em nada sou vagarosa,
    E que no que o mundo se põe a me observar,
    Parada, vigorosa em mim no meu andar,
    Sem pressa, uma brisa eu, de explodir e de andar.
  • A arte diante de ti!

    Eu vi você sair daquela porta

    Com aquele jeito "encantador"

    E ao mesmo tempo despojado

    Ao ponto de ser engraçado!





    Só queria expressar

    Ou melhor tentar

    Expressar que você

    Me conquistou

    Com seu "jeitão" de ser!





    Toda vez que você sair

    Por aquela porta

    Irei te expressar de uma

    Forma diferente

    Daquilo que já foi visto!





    Por quê amor é algo inexplicável

    Não estou aqui para explicar

    Ou expressar amor algum

    Por alguém!

    Apenas estou expressando

    A minha arte ao meu ver!
  • A Árvore da Vida

    É o lugar onde deito
    Sobre as raízes,
    Derramo rios de lágrimas
    (doces e salgadas),
    Espalho-me
    Os cabelos libertos,
    Nesse chão de amor
    E compreensão,
    E não me envergonho.
     
    Ela que me faz companhia
    Dia e noite,
    Aconselha-me,
    Alimenta-me
    Com suas doces peras.
     
    Hoje me impôs que levantasse
    A cabeça
    Na direção da montanha verde,
    Aquela que liberta o sol (todo dia),
    A brisa (todas as horas) e
    O amor (a vida inteira)
     
    Ali te vi replantando
    Todos os girassóis com a flor cabisbaixa. E
    Afagavas o solo com suas poesias encantadas,
    Afugentavas os resquícios da paisagem cinzenta,
    Confiante no próximo amanhecer,
    Quando todos nós seremos mais felizes.
  • A avó que não conheci.

    Eu não me recordo dela, se não por uns poucos quadrados de sentidos breves. Texturas em sepia.
    Entre a cor de sua blusa, o bege dos azulejos da cozinha e o marrom dos móveis, existem cafés com leite e requeijão, bolachas água e sal e cabelos repartidos.
    Minha avó usava blusão, quase uma regata enorme.
    Era azul?
    Provavelmente com diversas bolinhas, deveras velho...
    Todas as memórias de alguém que você não conheceu, são puras verdades e descaradas ficções. Afinal, são memórias borradas, beges e que estão por acabar.
    Porém persiste o "rememorar", que é sentir, um último momento uma última vez.
  • À beira da noite

    Cato na beira da noite ex-trelas na te-la
    dos olhos, ilhas das ilusões que são a real-idade
    dada de graça ao sorriso que sol-só mente se acaba
    falta à vida endividada na dívida da dádiva...
  • A beleza dos diferentes

    Vou continuar seguindo por aqui
    pensei que sabia aonde ir
    provando um novo gosto e assim
    metamorfose ambulante em fim

    Muitas palavras sem palavras
    o bastante para explicar
    sincera é a faísca que se excita
    perceberá em nosso olhar

    Sua mente rápida divaga, a normalidade acaba
    adoro a riqueza da alma, comigo se encaixa
    quero a diferença, a cor que a pele exala
    coisas e pessoas normais continuam tão sem graça

    Apenas diz o que pensa, sente, surpreende
    afinal, é difícil encontrar o assunto que prende
    a atenção inteligente, nosso sorriso se rende
    um tapete se estende quando alguém te entende

    Rotinas diurnas, lacunas noturnas
    meu coração trancafiado na mesma urna
    a matéria é só uma energia que se curva
    por sorte ou azar, para cada mão há uma luva

    Tudo passa e a escolha sempre será sua
    ser livre da rua para casa, de casa para rua
    insignificante é quem só atua e nos julga                                           
    Sempre seremos verdadeiros e intensos, sem dúvida

    O que se fala, muda, colore, posso esticar
    a metafisica que buscamos, poucos sabem apreciar
    trilha de pensamentos que se calam pelo ar
    se não puder enxergar é melhor nem perguntar

    Alternativas mentais são caminhos a percorrer
    na velocidade da luz, fazemos sem perceber
    entre o futuro e o passado, querer e se envolver
    tudo é raro e valioso, não temos tempo a perder
  • A cachoeira

    cruz machado cachoeira

    Um dia belo
    Na cachoeira a felicidade

    Um dia
    Do salto a queda

    Lá de cima vem o primeiro
    Lá de baixo olha o segundo

    E se o segundo sobe
    O primeiro lá embaixo está

    E se o segundo pula
    O de baixo vê

    Um dia belo
    Na cachoeira que mostra

    As quedas
    As subidas e decidas que a vida nos dá

    E em troca pede-nos:
    -Aproveite viva!

    31245885
    Esta aqui é a cachoeira no RN.
  • A Cachoeira kkk

    Na Cachoeira
    A água boa para se banhar

    Vejo uma mulher a chorar
    Já estive em seu lugar

    Vejo um homem saltar de cabeça na água kkk
    Já estive também lá

    Vejo um prender a respiração, mergulhar e ir lá em baixo
    Já estive nesta situação

    Vejo um rapaz a girar varias vezes dentro da água
    Íh, não estive nesta não kkk

    É a vida é assim
    Altos e baixos, choros e glorias

    Na cachoeira
    Curtir é o que me importa
    cruz machado cachoeira
  • A Caminho

    Pouco mais do que nada é o que sou,
    um fraco a arrastar sua humanidade.
    Nas mãos, além de calos e memórias
    de ancestrais carinhos, nada mais eu trago.

    Os bolsos vazios e o coração
    senão pelos amores agonizantes
    e a angustia de se caminhar só
    sem cajados ou bússolas.

    Não peço nada, já que mínimo é o que tenho.
    Se meu futuro é ponte inacabada
    e o presente, pó da estrada e farrapos
    de andrajoso andarilho
    na busca de paz e um cadinho de amor.

    Não me abras portas, ao me ver passar
    capaz que eu entre e queira ficar.
    Capaz até que vislumbre-me feliz
    como talvez nunca tenha sido, 
    dá-me somente água e o benefício da inocência.
    Não me corrompa coração e caminhos
    com a visão de alegrias
    que somente os puros podem provar.
  • À CAPELA

    Sou aquela sola a qual nunca se acaba,

    a que continua viva e jogada às traças

    dos escanteios empoeirados da casa.

    Me estico no varal das línguas afiadas,


    sob os pisantes dos donos das cocadas,

    na rabeira do pernil sem nem uma prata.

    Estou aqui no pátio desta selva armada

    encoberto pelo caráter aleatório que falha


    feito papel de bala chupada. A dose derramada

    de cachaça do poeta que não serve para nada.


    Escoro a draga do mundo sobre um verso tosco

    e blefo neste sonho vivo, mesmo já estando morto.

  • A Casa

    A minha casa eu construí com o brilho de querer brilhar...não é longe nem distinto de si o brilho quando em si já se faz toda intenção de brilhar...mas que na espécie rara da minha voz ao minha casa fitar, o tom absorto dos olhos a todas as portas abrir e em cada chave a vida num novo patamar.
    A minha casa veio de longe nos meus caminhos primeiros a me soprar o brilho da noite de sonhar em brilhar, minha casa se fez apresentar em mim a estrela da manhã de em brilho ver meu coração se contornar.
    A minha casa respira no Amor que construí no brilho de querer amar, e em cada respirar da minha casa em mim se constrói o brilho de com Amor tudo nela cercar...
    A minha casa não é lugar de descanso, mas eis que certo dia hei eu de chegar ao cansaço, e no fôlego último pedir pro fogo me fazer nele respirar...
    Seja como for, na minha casa tem a própria essência de amar em todos os opostos de si e do mundo que se fazem conhecer pra que o Amor possa se sustentar.
    E eu respiro no fogo de ver brilhar o sonho da minha casa os alicerces de construir o sempre querer, e eis que me retomo em mim minha morada de levantar acerca do Amor o sempre perto brilho de ver o sonho da minha casa brilhar. E eis que construo minha casa e minha casa me constrói e porque, no voo incessante de querer o brilho fazer em fogo o construir e o respirar da minha casa em Amor, estou eu pra além da minha casa ver o meu sonho de a partir dela fazer o brilho voar.
  • A casinha

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    Era uma vezinha
    numa cidadezinha
    na sua única ruazinha
    uma casinha
    pequenininha
    espremidinha
    e apertadinha
    só tinha uma portinha
    e uma janelinha
    mas era bonitinha
    estava sempre cheiinha
    e também vaziinha
    pois só cabia uma pessoinha
  • A Causa Não Vem ao Caso

    A palavra causa foi riscada
    Do dicionário da minha jangada.
    Na minha embarcação,
    Essa palavra não embarca não.
    Se eu tiver de conviver com ela,
    Vão querer saber o porquê das mazelas.
    Tira-me o sono e me consome
    A ideia de falar das causas da fome.
    Para não correr esse risco,
    Risco o causa, ponho um asterisco
    Para poder indicar
    Por onde podemos navegar.
    Mergulhar na causa é como usar uma lupa,
    Isso pode rasgar o papel da biruta.
    Tudo deve seguir a direção do vento.
    Quem não seguir a biruta há de ter contratempo.
    Há de nadar contra a maré
    E nunca chegar aonde quer.
    No meu barco tudo deve andar
    Por onde sempre andou.
    Nada de navegar
    Por onde a biruta não apontou.
    As causas precisam estar fora de pauta.
    Se ninguém vê-las, ninguém sente falta.
    Vamos navegar sem pausa
    Pra ninguém navegar pelas causas:
    Das vidas apagadas, do passeio das finanças,
    Da fome, das doenças, da falta de balança, 
    Do mar carcerário, do racismo dissimulado
    E de todas as mazelas desse mar mal apurado.
  • A Cesário Verde (O poeta incompreendido)

    Pela vívida Lisboa deambulava
    O maior dos repórteres entre os poetas
    Porque na sua tela havia cores certas
    E, nas suas palavras, arte não faltava.   
                                                 
    Concentrava toda a perfeição literária!
    É Impensável não ter sido idolatrado
    Mas tamanho talento foi desrespeitado,
    Foi julgado por uma gentinha ordinária

    O seu parnasianismo não encantou todos,
    A sua busca pela perfeição formal
    Foi desvalorizada de todos os modos
    E essa falta de consideração foi fatal.

    Repousa enfim, depois da humilhação sofrida.
    Abençoada a terra que o recebeu, 
    Pois o que dali nascerá serão os frutos
    De uma semente desprezada pelos incultos.

    Espero que este louvor lhe tenha agradado.
    A si, declaro-me um simples admirador;
    Que estes alexandrinos lhe sirvam de alento,
    Que estes versos lhe despertem o sentimento.
  • A Charada

    Eu sou a charada por poucos decifrada
    Por vós amada por todos desejada
    A cara encriptada, coroa do reino fantochada
    Por todos disputada, por todos procurada
    O dilema a malícia a felicidade fictícia
    A corrupção do polícia a censura da notícia
    Matéria palpável desejada em abundância
    Mal inevitável o prólogo da ganância
    Sou o pseudónimo do ser anónimo
    Corpo de lúcifer é meu sinónimo
    Fui a razão da fúria de cristo
    Sou desde então o advogado do ministro
    Sou a razão das solidárias ajudas
    Fui a razão dos chicotes dos tugas
    Sou a causa da fama do judas
    Sou e serei o ser que tu não mudas.
    Sou a máscara do vosso baile
    O tecido do vosso xaile
    O defeito insuperável pela qualidade
    Plumas no leito que trazem infelicidade
    Eu sou o mal mas por ti necessário
    Ser decimal, sinal vital binário
    Na minha ausência a presença do precário
    Na abundante existência o sorriso do proprietário
    Sou debatido na igreja, no ministério
    No político partido no Vaticano em mistério
    Sou o vício do ambicioso sem critério
    Ser maligno que ninguém leva a sério
    O meu pacto com o homem só vai até o cemitério
    Quando vivo garanto-lhe um império
    Sou o incentivo das maldades do hemisfério
    Motivo do debate bélico no Iraque.
  • A chuva lá fora

    A chuva lá fora
    Os trovões graves e marcantes
    Mas na minha mente a única coisa que ecoa é a sua voz, a todo instante

    Qual o sentido?
    Por que eu tô parado encarando o vidro?
    Já são anos que com o sofrimento eu lido
    Eu já não mais existo
    Não sem você
    E é tudo tão clichê
    Mas hoje eu vejo que tem que ser
    E a chuva não acalma, achei que seria um remédio para minha alma
    Mas ela não para, meu coração então dispara
    Mas, de repente, para
    Tudo isso é para?
    Por que nada disso sara?
    Por que, Sara?
    Anseio pelo seu rosto, mas, agora, queima tudo quando você me encara
    Eu te amo
    Não nego, não posso, não sou capaz
    Não sei por que não me entrego, em meio aos destroços, não saio daqui nunca mais
    Tento lembrar, mas não consigo
    Comecei isso aqui com um propósito e não o achei ainda, por isso nunca termino
    Ah, e o nosso término
    Um tratamento tão gélido
    A dependência dos remédios...
    Tudo interligado
    Todos os acontecimentos, todos eles, todos culpados
    E ainda assim me culpo
    Sou tão burro, tão estúpido
    Eu sinto muito... Sinto muita falta
    Queria que fosse tudo como antes, mas não é você quem me exalta, não mais
    Não sei se ainda sou capaz
    Só consigo olhar para trás
    Mas isso nada me traz
    A alegria já não mais me satisfaz
    Estou morto por dentro
    Não sei se aguento
    Não sei... Não sei...
    Que merda é essa em que tô preso?
    É impossível de entender
    Não sei como entrei, não sei como sair, não sei se vou sobreviver
    Sempre me esqueço, sempre
    Por mais que eu tente
    Tentativas em vão, todas elas
    E ficam as sequelas
    E elas nunca se vão
    São como uma tatuagem no meu coração
    Que nada remove
    Que a todo momento remói
    E dói...
    Eu me perdi
    Esqueci
    Deixei de lado a vida, o prazer
    Abri minha ferida, decidi para sempre sofrer
    Não sei como entrei
    Não sei como sair
    Tudo deixei

    A chuva escorre na janela e o barulho me causa pânico
    Só penso nela, uma tentativa de ter ânimo
    Quando o céu vai abrir?

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