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  • [Desabafo] ESPELHO

    A crise de não identificação me dava urticária.
    Aquilo estava me levando ao delírio.
    Não se tratava de uma mera mudança de preferências ou de hábitos. Não se trata de algo que posso limitar.
    Estou cansada de ser quem “sou” e também de quem costumava ser.
    Literalmente pressionada pela minha efígie antecessora e suas versões.
    As pessoas ao redor ainda a imprimem sobre mim, mas estou muito longe de ser aquela mulher.
    Mudei e não posso afirmar se para melhor ou para pior. Ainda é muito cedo e não quero me precipitar dessa forma. O fato é que simplesmente mudei e isso não foi deliberado.
    Cogitar em voltar a ser verdadeiramente aquela efígie não me causa qualquer aversão. Ela parecia boa demais se comparada à essa mulher do espelho… Ao menos, a viam assim.
    Hoje, não me sinto digna de quaisquer dos elogios e rótulos que ainda recebo, quando em verdade são direcionados à mulher do alvorecer findo.
    Não posso resgatar uma efígie que pertence a outro lugar no tempo.
    Eu fito e encaro a mulher nos olhos, mas eles não a vêem. Não adianta.
    Minha realidade e perspectiva de vida é outra. Minhas dores e temores são outros. Por óbvio, os meus desejos e ambições também.
    Será que eu realmente quem desenvolvi aquela efígie e suas versões, caridosamente de forma despretensiosa?
    Será que nos dias findos eu fui aquela mulher verdadeiramente?
    Será que dissimulei sua imagem e eles a compraram ou será que eles quem a esculpiram e, pela boa lábia, eu a comprei?
    Será que justamente por reconhecer que aquela mulher não era eu é que a mudança foi assim, tão abrupta?
    Do encanto ao desprezo.
    Será que aquela também não era uma pintura pirata de mim mesma?
    Me sinto uma impostora.
    Sempre me senti. Quase sem querer, dissimulando.
    Pior, quando tentava não me sentir assim e agia de maneira a fugir da teatralidade, era que a minha tese se consumava. Consistia no exato instante em que exercia com esplendor o papel.
    Às vezes já cheguei a pensar com mais afinco nisso. Quando estaria eu diante de uma das minhas verdadeiras versões, diante de uma verdadeira efígie, ou de uma personagem?
    Tenho horror à ideia de não ser autêntica.
    Isto porque sei que sou muitas mulheres. Reconheço todas as efígies e cada uma de suas versões. E reconheço que a maioria verdadeiramente fui. Poderia afirmar que todas elas se a mulher antecessora não me causasse intriga.
    Como pode?
    Recordo bem quando todos esses pensamentos me assolaram.
    Cantarolava um trecho de “3º do Plural — Engenheiros do Hawaii” quando me assustei com quem estava me tornando, ou em quem havia me tornado, melhor, com a mulher do espelho.
    Essa mulher não foi a que eu idealizei quando criança e nem de soslaio se parece com as meninas, adolescentes, jovens e mulheres que fui nos dias que já encontraram a noite.
    Essa percepção sobre mim mesma me veio aos poucos, mas ganharam intensidade nas últimas semanas.
    Todas as efígies anteriores tinham traços em comum, razão pela qual afirmo que fui e sou uma mulher antiga, me apego muito aos meus pertences.
    Nos últimos dias, ao precisar realmente deles, me dei conta que não me identifico mais com as mesmas coisas.
    Derramei caridosa atenção sobre os meus objetos antigos e os atuais. São conjuntos completamente opostos e que ninguém ousaria apontar que são da mesma pessoa.
    Não é só uma questão de gosto ou estilo ou mesmo personalidade. Vi a mulher que eu jamais imaginava me tornar. Um alguém totalmente dissonante das efígies findas.
    O meu gosto literário, o meu gosto musical e os meus hábitos são outros. Assim como os erros e principalmente os vícios. Até os meus vícios mudaram. Ao menos, posso usar “felizmente” para afirmar que os meus erros são outros.
    Mas também já estava cheia deles. Isso me contava algo…
    Olhei ao meu redor e constatei outra preferência por uma infinidade de coisas.
    Uma paleta de cores específica. Reconheci que a maioria das minhas roupas e acessórios recém comprados são na mesma tonalidade, que os tecidos são similares, que as bolsas são todas de tecido branco, que os livros são dos mesmos autores e seguem a mesma linha de escrita.
    Reparei que deixei de me preocupar com coisas as quais muito me doava. Uso esmaltes com menos frequência. Abandonei a maquiagem. Me conformei com as olheiras profundas e amarronzadas. Suporto o cabelo volumoso e emaranhado.
    A primeira coisa que me despertou os sinais de não identificação com a mulher do espelho foi uma coisa banal. As minhas vestes.
    As araras do meu armário são repletas em razão do meu zelo, nesse sentido, tenho jeans e camisetas que residem há mais de cinco anos na gaveta. Até então, não possuía motivo algum para me desfazer delas e jamais havia cogitado algo assim.
    Até que naquela sexta-feira, em que pretendia ir ao cinema, entrei em pânico por me vestir de inúmeras formas e não me identificar com quaisquer das mulheres que estava transparecendo.
    Acabei por me vestir de forma elegante, com roupas que costumava gostar. Mas não parecia nem mesmo um pouco com a mulher do espelho. Exibia uma mulher que transparecia requinte. Transpareci ter gostos refinados e incluída em uma classe social da qual eu não pertencia.
    Inclusive, na verdade me sinto à vontade e abraçada pelo o que eles chamariam ofensivamente por “laia”.
    De algum modo, senti que aquilo, apesar de banal, burlava a minha identidade.
    Isso ficou ainda mais evidente quando reparei que o meu cabelo, naquela noite específica, havia perdido o volume e cachos de costume. Não me senti menos atraente, mas exteriorizei quem eu certamente não era.
    Não bastasse, a mesma sensação corroeu o meu corpo quando me doei na maquiagem e apesar de estar atraente, me senti desconfortável por ter abarrotado o meu rosto. A maquiagem que o transformou, ao invés de somente o ressaltar, fez eu me sentir uma tremenda falsa.
    Sim, saí. E a primeira coisa que afirmei para mim diante do espelho do banheiro foi: “você não se parece comigo”.
    O susto maior foi na madrugada daquela mesma sexta-feira, ao me deparar, quase sem querer, com o reflexo do corpo nú dela. Ele também havia mudado de uma forma radical.
    Dei as costas para aquela mulher e fechei os olhos, querendo fugir dela.
    Desde então passei a evitar o imenso espelho. Mas não foram poucas as vezes em que de soslaio a fisguei, me encarando.
    E sou incapaz de explicar o que sinto nos instantes de tensão em que quase tenho de encará-la.
    Estaria ela verdadeiramente nua e crua?
    Já não suporto olhá-la.
    Me mostra muito do que eu não gosto e me remete ao extremo oposto da mulher anterior… aquela boa demais para que não tenha sido fruto de dissimulação.
    A mulher do espelho é ousada e o seu olhar é julgador. Ela me julga. Realmente me condena e o meu rosto escancara a culpa.
    Já não me comporta. Me olho e não me vejo.
    Tenho urgência pela efetiva metamorfose da mulher do espelho. Tenho urgência pelo seu desabrochar.
    O que é estranho, posto que jamais me ocorreu qualquer coisa similar antes. Me refiro tanto a constatação da não identificação e a urgência pela completa metamorfose, assim como ao desejo de abandonar no tempo a mulher do espelho.
    Tenho a leve sensação de que a mulher prestes a se instalar, pela evidente demora, não é mutável como as demais.
    Claro que posso estar completamente equivocada uma vez que, quando das demais efígies com suas versões, em cada uma das oportunidades também acreditei que havia me deparado com a “revelação fiel de mim mesma” e justamente pela explicação oposta: não tinha sequer percebido a chegada delas.
    A questão é que essa coisa de identificação me atormenta. Principalmente, pelas mulheres que habitam em mim, digo isso quanto às versões fidedignas da mulher do espelho.
    Quem sabe, essa minha onda de abandonar coisas superficiais e tentar apreciar e valorizar o meu estado natural, consista num reflexo dessa minha busca em encontrar a mim mesma.
    A existência de traços comuns entre todas as minhas efígies, que estão em algum lugar no passado, é que me levam a cogitar que há sim um “verdadeiro eu”.
    E encontrar a mim mesma significa saber quem sou.
    O que jamais havia me causado desconforto passou a me deixar desesperada. Nos últimos dias, não foram raras as vezes em que desejei sair de mim.
    Não só abandonar o casulo, mas não ser esta ou aquela. Não ser alvo de rótulos, alheios ou próprios. Ou melhor, não ser ela… não ser a mulher do espelho.
    Tive vontade de me descascar, tirar a fantasia, abandonar a máscara. Tirar essa roupa que me vestiram. Trocar de pele.
    Ansiei, quase que como um ato de libertação, abrir lentamente o zíper, deslizar os dedos a acompanhar minha coluna e finalmente me despir.
    Caminhar nua. Mostrando quem realmente sou. Tendo convicção que revelava o meu verdadeiro eu. Conhecendo fielmente a mim mesma. Caminhar tendo certeza de que aquele é o meu eu cru.
    Estou atormentada pela mulher antecessora e assombrada pela mulher do espelho.
    E é por isso que gostaria imensamente de me desprender da mulher que fisgo o reflexo me bisbilhotar.
    Por um instante, fugir de tudo associado a ela. Não apagar a minha história, pois jamais faria tal coisa. Apesar de querer deixar o passado realmente para trás e desejar que tudo se tornasse lembrança e não memória.
    Sou grata e tenho imenso respeito pelas efígies e versões que fui, dou um beijo na testa de cada uma delas e sinto que ainda existem em algum lugar no passado. Todavia, não posso dizer o mesmo da mulher do espelho. Esta me apavora.
    Na verdade, a coisa é ainda mais profunda. O que eu quero mesmo ainda não tem nome.
    Me banhar e ser uma nova mulher, qual sequer sou capaz de prever, apesar de premeditá-la.
    Mulher essa não só com outro trabalho, cursando uma outra coisa ou abandonando o centro da cidade. Mas também com outros gostos, hábitos, fragilidades e paixões.
    Aliás, estou enjoada da mesmice desses últimos meses, pois sem qualquer imprevisão. É fácil para qualquer um ao seu entorno prever os passos e falas da mulher do espelho.
    A mesmice me corrói. Não bastasse, no mundo dos algoritmos eu não me deparo com o dissonante, mas sim com o espelho.
    O espelho em que vejo o reflexo da mulher amarga.
    O reflexo que já não mais tolero. Estou cheia dela.
    Eu não mais me suporto.
    Não suporto os rótulos, as expectativas e as afirmações equivocadas.
    Nestes instantes de profundo incômodo, em segredo desejo ser uma pessoa nova.
    Ninguém poderia ousar dizer que a conheceria. Não saberiam os meus pecados. Não saberiam as minhas cicatrizes. Não saberiam a minha história. Não saberiam as minhas virtudes.
    Nem mesmo os meus antigos amores me reconheceriam. Não saberiam o meu ofício ou as aulas que faria. Não veriam a minha dança.
    Ainda que para minha frustração em algum momento vinhessem a reconhecer o meu timbre ou mesmo descobrir o meu ofício ou o meu endereço, seriam incapazes de prever ou meus passos. Seriam incapazes de me rotular e não saberiam o que esperar de mim, quando em verdade sequer deveriam esperar coisa alguma.
    E há instantes que esse desejo fica tão sutil e profundo…
    Eu seria uma mulher séria. Direta. Dona de uma dicção invejável…
    Eu seria imensa e cheia de mim, por saber realmente quem sou. Pelo encontro com a mulher selvagem. Uma mulher quente como dança do ventre…
    Eu, certamente, caminharia com graça e com uma soberba que não seria minha.
    Daquele instante em diante, eu me chamaria Ligia.
  • [Desabafo] GRIS

    O domingo exalava preguiça. A manhã havia sido densa, com uma garoa incessante que deixava a úmida a relva presente nos arredores do bairro. Apesar do céu em tons cinzas, a paisagem ainda estava incrivelmente bonita.
    A pouca folhagem amarela da copa das árvores me pareciam douradas. O marrom dos galhos, outrora secos, tão vividos. Não haviam carros a transitar e a praça à frente de casa estava vazia. Chovia, mas não havia ventania.
    A porta da sacada do meu quarto estava meio aberta. Deitado na namoradeira, dedilhando o violão sem pensar em melodia alguma, ouvir o gotejar dos chuviscos me transmitia calmaria. O cheiro de terra molhada era agradável e me fazia desejar uma xícara de café bem quente.
    Não tinha plano algum para aquele dia. Não havia pressa alguma. Eu estava sozinho, nos exatos termos da palavra. Nunca havia ficado tanto tempo em silêncio como naquela semana.
    No decorrer dos dias, as horas corriam e eu olhava o relógio incessantemente, como quem esperasse por algo. Mas eu já não tinha pelo o que esperar. Não esperava mais nada. Acredito que já havia se tornado um costume. Não bastasse, intuitivamente, ainda às 19h00 a minha respiração fica ofegante, sinto uma palpitação e a ansiedade pela chegada me consome.
    Desde então, algumas coisas não mudaram. No entanto, apesar da permanência, ainda assim conseguem ser grotescamente distintas. Mudaram a essência.
    Por sua vez, quanto aos hábitos que adquiri ao decorrer das estações, quero continuar com eles, por acreditar que me fazem sentido. Aliás, não os mudamos entre um o alvorecer e outro. Requer tempo.
    Tempo. O tempo escorre por entre as minhas mãos e eu sinto que estagnei. Ainda que conscientemente reconheça a transição, o meu corpo, os meus sentimentos e até mesmo os meus sentidos estão acomodados nos dias quentes.
    Eu gostava do comodismo. No, inicio, confesso, foi uma tortura. Coisas cujo as quais eu não dava importância alguma, ela, por vez, super valorizava.
    Nunca fiquei imerso na ideia de dividir os meus dias, a minha não rotina, com alguém. Naquela madrugada fria de 29 de fevereiro, em que bebemos vinho naquele ponto alto da cidade, enquanto me aconchegava no teu corpo e me perdia no seu olhar, foi a primeira vez que isto me ocorreu. Fiquei assustado.
    Acredito que tenha sido a melhor coisa que fiz.
    Jamais havia conhecido alguém que não possuía barreiras quanto ao interior e o exterior. O seu entorno, nas coisas mais ínfimas, a afetava de uma forma surreal. Aliás, desde as maneiras mais bonitas às mais invasivas. Parecia ser maior que ela.
    Confesso, quanto algumas coisas, eu já podia reconhecer um jeito peculiar de ser. Eu gostava, chamava atenção e a tornava ainda mais única. Manias, jeitos e hábitos.
    Ainda quando estávamos saindo, antes de conhecer a casa dela, muitas vezes tinha a ouvido dizer inúmeras frases que remetiam a uma supervalorização. Falava como se aquele lugar fosse um templo. Me deixava curioso, pois eu não entendia a razão.
    “Francamente, pensar em ‘ser sozinha’, me assombra. Temo a solidão, nos exatos termos da palavra. Porém, acredito que ela me assusta justamente pelo fato de que, se tratando de futuro, (seja cinco, dez ou quinze anos) imagino-me em qualquer circunstância exatamente como o agora. Apenas comigo mesma. Não se trata de um desejo, mas acredito que é o que haverá de ser.
    Eu e a minha casa, os meus móveis, a minha forma de organização, as cores, tecidos e texturas que eu gosto. A minha rotina, o meu café da manhã, os meus livros, o meu vinho e as músicas que eu gosto. O meu cachorro. Os meus hábitos, as minhas manias. Me agrada. Um dia a dia cheio de mim. Para alguns, um dia vazio.”
    Até visitar a casa dela, eu jamais havia me sentido tão abraçado por um ambiente. Era incrivelmente aconchegante e ousaria apontá-lo como o único lugar digno do título de lar se não tivéssemos construído o nosso próprio, óbvio que ela não desfez da casa dela.
    A casa era bem arejada e os cômodos espaçosos. Fruto da criatividade dela e da sua vulgo “imã”, arquiteta. Possuía um design próprio que não sei explicar, mas era linda. Havia a presença de muito vidro e alvenaria. A iluminação de todos os cômodos era majoritariamente natural.
    Cada ambiente com um modelo de lustre peculiar e, além de tudo, lampião. A casa possuía muitas plantas, todas os vasos eram brancos. Absolutamente tudo possuía uma espécie de liame, o conjunto de cores, iluminação, tecidos, móveis… ela tinha muitos itens de decoração e todos possuíam um significado pessoal.
    A cozinha consistia no ambiente mais modernizado e compacto, sendo o único isento de tecidos, nem mesmo cortinas ou tapetes, destoando neste quesito do restante da casa. Ainda assim, percebi a presença de inúmeros detalhes. Coleção de xícaras, ela tinha uma parte específica no armário para certificar-se de que elas ficariam à mostra. A fruteira era artesanal, de uma cidade vizinha à Recife, onde passou parte da infância. Também havia um quadro de xilogravura de cordel. Curiosamente, tinha uma samambaia ali.
    Na transição entre sala e cozinha, havia uma pequena adega de vinhos que me dava inveja e nem era pelos vinhos, mas sim pela criatividade do ambiente. Na parede contraposta havia uma enorme aquarela exclusiva de um amigo artista.
    Na sala, considerando uma vidraça enorme, dava para ver uma das árvores da casa e, que, aliás, tinha um balanço. Aliás, jamais recolhia as folhas que caíam ao chão, dizia ser lindo e achava um máximo quando o vento esvoaçava tudo. A disposição dos móveis era surreal. Ela gostava de vasos e de expor fotografias. A presença de alvenaria era forte.
    O seu escritório sequer parecia um espaço de trabalho. O que mais gostei foi um quadro enorme que, na realidade, se tratava de um quebra-cabeça que havia montado com a mãe quando mais nova. O seu violão, um Strinberg ASF 62C, que ganhara do pai aos doze anos, era pendurado numa clave de sol, sua nota preferida. A sua estante de livros circundava toda a parte superior, passando rente pela altura da porta, inclusive. Guardava consigo somente os livros que realmente gostou muito, razão pela qual, todos eram dotados de post its coloridos e marcações.
    O seu quarto era o ambiente mais cheiroso da casa. A janela possuía o sofá embutido de alvenaria mais charmoso que já vi, aliás, cheio de livros na parte inferior. A cortina foi bordada à mão pela sua avó. Aquele cantinho nos dias de chuva era o seu lugar preferido. Ela gostava de grandes tapetes claros e macios, pelo jeito, de deitar neles também, eis que estranhamente comportavam almofadas. Necessariamente, todos os tecidos de cama e toalhas eram brancas com detalhes em creme ou dourado. O banheiro da suíte possuía um rádio cujo qual só ouvi tocar indie.
    Com uma necessidade extrema de organização, o quartinho da bagunça sequer parecia destinado a tanto, por muito tempo acreditei se tratar de uma espécie de estúdio, haviam cores vibrantes e até um sofá. A lavanderia tinha muitos vasos de flores. Tinha varanda com direito a rede. O terraço não era tão grande, mas havia um ipê amarelo e ela fez questão de fazer um jardim. Não bastasse, nos fundos da casa havia uma pequena plantação de hortaliças.
    A casa definitivamente era a cara dela. Qualquer um, mesmo sem conhecê-la, de imediato associaria as duas.
    Quando começamos a nos relacionar, entendi a frase “minhas coisas”. Tudo possuía um lugar específico e um valor sentimental. Criteriosa com limpeza e cheiros, a casa era perfumada e ela gostava de incensos. Eu jamais vi um ambiente desorganizado.
    Isto porque para se concentrar em seja lá o que for, ela precisa de um ambiente organizado. Para permanecer calma, o ambiente tem que exalar calmaria. Para se sentir limpa, o ambiente precisa estar limpo. Para se sentir confortável, o ambiente tem que ser aconchegante.
    Quando digo que foi difícil no princípio, falo conscientemente. Eu sou o cara mais desorganizado no universo e nunca havia me importado com qualquer coisa desse tipo. Pode parecer poético, mas no dia a dia não rara foram as vezes que teve crises de ansiedade em razão disso. Não bastasse, sempre despendeu um tempo considerável para manter tudo da mesma forma. Por ela, me reeduquei nesse sentido.
    Essa característica peculiar possuía níveis ainda mais intrínsecos, principalmente quanto ao estudo. As anotações de aula dela são impecáveis, pois ela sente que precisa passar a limpo e pormenorizar organizadamente todo o conteúdo lecionado. Do contrário, tem a sensação de que o assunto não está estruturado, que há uma “bagunça em mente”.
    Também em razão disso ela elaborou e sempre atualiza a sua lista de “compras de mercado" e de “feira”. Quando da compra, faz uma espécie de checklist para se certificar de que levou tudo. Aliás, neste sentido, há outra mania, ela coloca os itens no carrinho organizadamente para facilitar a visualização e no caixa para agilizar o procedimento. Outrossim, se recusa a usar sacolas plásticas, ainda que retornáveis, razão pela qual fez as suas próprias de tecido.
    Pensando nos reflexos disso, visando “poupar” o seu tempo, não só tinha como lema “fazer bem feito, para fazer apenas uma vez” como também estabeleceu uma rotina para tudo e atrelava atividades umas às outras para não esquecê-las. Como por exemplo, ir à feira todos os domingos, fazer compras mensalmente e limpar os armários da cozinha no dia do abastecimento da dispensa. Haviam dias específicos para limpar e cuidar de pontos e determinadas coisas na casa.
    Quanto a estabelecer rotinas, tinha algo que ela sempre fez e que, sinceramente, acho uma ideia incrível e o fundamento para tanto é muito plausível. Tem horror a ideia de passar as “feiras" da semana ansiando pelo sábado. Tem a sensação de que, nesse caminhar, poderia anular a maioria dos seus dias, o que significaria eatar sobrevivendo ao invés de viver.
    Por temer isso, resolveu incluir nos dias úteis da semana coisas que ela gosta de fazer. Assim, tornando ainda mais especial cada um dos seus dias e ansiando por todos eles.
    Nos domingos tomávamos café da manhã na feira e almoçavamos em família, uma semana com os país dela e na seguinte com a minha mãe.
    Às segundas-feiras ela tinha o clube do livro e eu o polo aquático. Quando podia, ela tentava encaixar algo novo. Recentemente, fez aulas de dança do ventre.
    Nas noites de terça, íamos ao cinema ou ao teatro. Às quartas, jantava com alguma das sua amigas e eu podia fazer o mesmo ou trazer os meus amigos para vê futebol em casa.
    Eu, particularmente, passei a amar as noites de quinta, pois era o “nosso dia" fazíamos surpresas um para o outro. Segundo ela, consistia num subterfúgio para “a relação não ficar na mesmisse”. Uma quinta era minha e na seguinte ela quem se encarregava disso. Não faz ideia do quanto ela é criativa.
    Nas sexta-feiras, geralmente, pedíamos pizza e tomávamos um vinho, juntos. A preferida dela é “Philadelphia II". Ouvíamos música alta, dançávamos. Nos dias mais cansativos, ficávamos entertidos com jogos de tabuleiro.
    Nas manhãs de sábado, ela acordava cedinho para caminhar e eu ia passear com os cães. Rigorosamente a manhã era voltada à “cuidados com sigo mesma", essas questões quanto à vaidade. Almoçavamos juntos. Por ser o dia preferido dela, consistia no único que não era planejado.
    Ela tinha um jeito peculiar em muitos sentidos. Quando começamos a nos relacionar, fizemos um “pacto", por proposta dela. Listamos as “regras da nossa cidade" em cláusulas.
    Ela é uma mulher com personalidade forte e tem valores e princípios como cláusulas pétreas. Gosta de coisas sólidas.
    Quando fala sobre o que está sentindo, chora, com facilidade. Sobretudo, a respeito de questões difíceis. Sempre disse que “o choro limpa a alma" e que as coisas ditas sob lágrimas carregam sinceridade e pureza. Tive que aprender a lidar com isso, pois vê-la assim me desestabilizava. Eu aprendi a valorizar esses instantes.
    Os meus dias eram cheios dela, mas ainda assim ela me dava espaço para lidar e fazer as minhas coisas. Respeitava o meu espaço. Tratava como sagrado o tempo em que eu estava compondo. Muitas vezes a fisgava me besbilhotar, ela adorava me ouvir tocar. O mesmo ocorria quando ela estava escrevendo, ela conseguia ser sensual mesmo fazendo as coisas mais simples, como era o caso de ler ou escrever.
    Não bastasse a minha dificuldade em me adaptar a esse jeito de ser, ela tem “estranhas” necessidades, mas quais sempre respeitei e até adquiri muito dos seus hábitos. Outrossim, um conglomerado de detalhes que me fizeram ficar ainda mais apaixonado, por conhecer verdadeiramente cada uma de suas frestas.
    São coisas infindas.
    Ela é extremamente apegada à memórias. Possui um baú e inúmeras caixinhas de lembranças. Guarda coisas sem valor monetário algum, mas que são preciso das para ela, pois a faz lembrar de dias gostosos. Flores secas em blocos de anotações, cartas, convites, ingressos, fotografias, medalhas e até mesmo canetas. Ela ainda tinha guardado o uniforme que usou no último ano do ensino médio.
    Não sei o porquê, mas sempre usa pratos rasos e brancos. Gosta somente de copos lisos. Passa o dia inteiro completando a mesma xícara de café. É extremamente raro ela tomar chá e quando acontece, sempre é de limão ou canela.
    Eu jamais vi o seu guarda roupas desarrumado. Tem pavor a roupa dobrada e em gaveta. Ao lavar, ela estende as suas roupas já nos cabides. Aliás, não gosta de passá-las e isso a influencia nas escolhas dos tecidos quando da compra. Usa o mesmo perfume há anos e de alguma forma, todas as suas vestes possuem aquele cheiro.
    A primeira coisa que faz ao acordar é dobrar o edredom e organizar a cama, logo em seguida se troca, lava o rosto e toma exatamente 400 ml de água.
    Ela possui uma cestinha de banho e usa um sabonete diferente para cada parte do corpo. Adora receitas naturais e é comum vê-la com borra de café no rosto. Aos sábados, gosta de tomar banho durante o dia, sob a luz natural e com música. Não sei o motivo, mas lava os cabelos somente com água fria.
    Dentre as suas estranhas necessidades, lá vai uma das mais curiosas: consumir massas no café da manhã. Sempre comia a mesma coisa. Tapioca com queijo e orégano ou pão com ovos, enquanto eu não suportava nem o cheiro. Ela raramente bebia achocolatado e só faltava vomitar ao cogitar tomar leite puro e quente, enquanto eu adorava ele com biscoito.
    Ela adorava cafés. Não apenas os lugares, mas o momento da pausa para o café. Com toda a certeza o café da manhã se tratava da sua refeição preferida. Tinha até mesmo um rito. Acontecia de uma forma ou de outra. Normalmente, nos dias que sabia que seriam agitados, acordava extremamente cedo para tomar o seu café sozinha e apreciar a tranquilidade das 05h30 da manhã. Nos demais, fazia questão de preparar tudo e aguardava com uma certa ansiedade que todos pudéssemos sentar à mesa e comermos juntos.
    Quanto a isso, haviam três coisas que a incomodavam incrivelmente e tornavam o epílogo do café catastrófico, pois o via como um momento de união. Primeiro. detestava comer enquanto alguém também não se servia, todos precisavam comer juntos; segundo, ela preparava a mesa para se certificar de que nenhum outro objeto dissonante estaria ali e a desagravada quando alguém burlava isso; terceiro, qualquer pessoa concentrada no celular, pois a tornava apenas fisicamente presente.
    Algo que nem mesmo ela sabia me dizer um porquê consistia no seu compromisso, sem mais nem menos, de em toda virada de ano tirar um hábito alimentar ruim. Geralmente, cortando alguns itens do seu cardápio. No entanto, acabava por compensar a falta com outros excessos e, felizmente, era capaz de reconhecer. Quando saímos, a ouvia dizer inúmeras vezes “não posso comer isso” e travamos uma batalha para ela comer fora de casa.
    Ela ama comida caseira. Nunca vai à fasts foods. Gosta de cozinhar os seus próprios alimentos, no seu prato sempre terá um legume ou folhas. Valoriza temperos naturais, mas não gosta dos excessos. Prefere os assados aos cozidos e tem pavor a qualquer coisa oleosa. A sua fruta preferida é manga. Sempre pede duas bolas de sorvete, geralmente uma de chocolate e a outra de pistache. Se tratando do sabor morango, gosta apenas da fruta. Adora qualquer coisa que tenha castanha e avelã.
    Quanto à bebida, também era peculiar. Consumia três litros de água diariamente. Sempre toma o suco uma hora depois da refeição. Detesta cerveja, mas em contraponto, bebe facilmente um litro de vinho tinto suave e caipirinha de todos os sabores, exceto morango. Odiava champanhe.
    Raríssimas as vezes em que saímos para restaurantes. Ela jamais ia por causa da comida em si, aceitava o meu convite por querer estar comigo e eu a convencia falando da decoração. Razão pela qual, a levava em restaurantes diferentes e fazia questão de conferir o ambiente com antecedência. Eu queria me certificar de que ela gostaria. Iluminação, música tranquila, arte e água a deixava fascinada.
    A conhecia tão bem a ponto de entrar num ambiente e instantaneamente dizer a mim mesmo que “ela não vai gostar disso”, “vai retirar aquele objeto da mesa antes de jantar”, “vai elogiar aquela estante”, “vai ficar deslumbrada com as cores e luzes”, “ela vai pedir para tocar tal música”.
    Era apaixonada por música, assim como eu. Apesar de ter preferência por rock, curtia muitos estilos, mas não gostava de todos. Se tratando de MPB, parecia impossível apontar qualquer canção que ela não conhecesse. Violão é o seu instrumento preferido e o único que arrisca tocar. Tinha inúmeras playlists, mas a que mais ouvia era “Calmaria”, enquanto trabalhava e “Vinho” para escrever. Aliás, sempre escreveu no escuro, de madrugada e ao som de “Cigarettes After Sex”.
    Justamente pelo o que já expus, para ela, há um clima para tudo. Música, som, ambiente, textura, tecido, cor, fala e toque. Todo esse conjunto tem um potencial incrível para confortá-la. Sempre molda os ambientes para que o seu interior esteja bem. Quanto se sente bem, faz opossível para externalizar isso e estabelecer uma sincronia, prezando pela mantença daquilo.
    Eu sempre fui fascinado pelo quanto ela é intensa. Como ela mesma costuma escrever, ela “queima em intensidade”. Me incendiava. Ela é uma mulher quente. Por sinal, muito sensual. Ela ama escrever e seus textos elucidam isso. Aliás, eu que nunca tive a leitura como um hobbie, li e reli inúmeras vezes todos os seus textos.
    Eu a conheço bem mais do que a mim mesmo. Eu poderia passar horas listando coisas que sequer me incluíam. Convivendo com ela, me mostrou e passei a reconhecer cada uma de suas preferências e gostos.
    Ela sempre se veste de acordo com o seu humor. Tem uma preferência perceptível pela cor marrom, costuma dizer que combina com a tonalidade do cabelo e que realça os olhos avelãs. O seu armário tem uma paleta de cores: preto, marrom, rosê e tons pastéis, raramente se vê um verde militar. A única peça de roupa que ela arrisca usar com estampas são os vestidos. Tem um estilo próprio que é deslumbrante.
    Ela decretou só usar preto, vermelho e vinho para duas coisas: esmalte e lingerie. É apaixonada por botas, se não fosse pela presenças de um salto e uma sandália, diria que é o único tipo de calçado que possui. Prefere bolsas transversais, apesar de não as usa-las assim. Não gosta de óculos de sol e muito menos de chapéus, diz que “não combina”. Usa o mesmo relógio com pulseira de couro desde que a conheci. Gosta de joias, mas jamais usaria algo perolado.
    Ela ama banhos quentes e, independente do horário que for dormir, precisa se aquecer. Gosta de dormir sem roupas. Só usa um edredom. Ela possui uma rotina de cuidados noturnos e é por isso que dorme com cheirinho de coco, já que passa o óleo natural nos pés e cabelo. É estranho falar “dorme”, já que ela sofre com insônia. Muitas vezes, me confidenciou que havia passado a madrugada me vendo dormir e tentando sincronizar a respiração dela com a minha.
    Ela ama caminhar, independente do quanto for demorar o trajeto, ela preza por ir à pé. Por sua vez, detesta musculação. Não gosta de esporte algum. Prefere andar de patins do que de bicicleta. Morre de medo de altura. Não sabe nadar, mas tem uma paixão doentia por praias. Ela ama a natureza e gosta de fazer trilha.
    Sempre falou querer morar em Campina Grande, mas sempre esteve domiciliada na “selva de pedras”, como rotula São Paulo. Ela adora viajar de carro. Passou os melhores dias da sua infância em duas cidades do Pernambuco, mas confessa que tem uma admiração enorme pela paisagem de Minas Gerais, o apontando como seu Estado preferido.
    Gosta de cidades pequenas e de interior. Adora dias ensolarados e quentes, desde que esteja ventando. Gosta dos dias frios, mas chuva apenas quando está em casa. Detesta usar guarda-chuvas. O barulho da garoa a ajuda a dormir.
    Tem uma gana doentia por realização pessoal. É pressionada pelo tempo. Vê a vida como uma ampulheta, não pensa “amanhã é um novo dia” e sim “amanhã é um dia a menos”. Teme a solidão. Vê a felicidade não como um objetivo de ser, mas sim como um estado emocional. A ideia de eternidade a agrada. Gosta daquela frase “um templo em mim”.
    As suas duas linguagens do amor são toques e palavras de afirmação. Eu aprendi a demonstrar amor dessa segunda forma, por ela. Afinal, queria que ela se sentisse amada ao meu lado.
    Passaria horas falando dela. A conheço mais do que a mim mesmo.
    Eu aprendi a fazer café. Aprendi a gostar de lê. Aprendi a escolher frutas na feira. Aprendi a me organizar. Aprendi a gostar de indie. Aprendi a fazer bolo de chocolate com recheio de avelã com castanhas. Aprendi sobre cores, mãos, bocas e perfumes. Aprendi infindas coisas por estar com ela, com ela e para ela.
    É óbvio, antes dela me aparecer o meu dia a dia, os meus gostos, as minhas experiências, preferências e anseios, eram outros. No decorrer do nosso contato, experimentei/provei coisas novas. Em razão de tanto, minhas preocupações e olhares voltaram-se para trechos e formas que antes passavam por mim despercebidos e não tinham qualquer importância. Hoje, já não deixo de repará-los, é inevitável, ganharam minha atenção e não há nada que possa ser feito.
    Confesso, sou grato. Mas, ainda acho uma tremenda sacanagem do destino, pois não quero atrelar culpa à ela, de ir embora depois de ter transformado todo o meu eu.
    Depois de ganhar o meu sentir, a minha doação e entrega. Depois de eu ter feito dela uma deusa, não uma deusa qualquer, mas a minha deusa. Depois de eu ter entrelaçado tanto as nossas vidas a ponto de sequer compreender o significado de tudo, sem a presença dela.
    Ainda que eu esteja no mesmo trabalho, ainda que eu esteja na casa que planejamos juntos, ainda que eu veja sentido em continuar com os hábitos e rotinas que compartilhei com ela, ainda que eu seja um cara autossuficiente, sou dependente dela emocionalmente e fisicamente.
    Eu posso viver sem a companhia dela, sem lidar ou me preocupar com as suas manias e estranhas necessidades. Mas, eu simplesmente não quero. Tudo, exatamente tudo é mais intenso e gostoso ao seu lado. Se ela está junto, nada pode ser simples. Esta manhã gris jamais seria apenas uma manhã acinzentada de um domingo qualquer.
    Eu sinto a presença da ausência dela. É por isso que ainda, às 19h00 eu anseio com veemência que ela cruze a porta da sala de estar, me dê um beijo demorado, tire a camisa e o salto e diga “meu amor, vamos fazer o jantar”. Desejo uma cama preenchida e o cheiro de coco, protesto por uma noite aquecida pelo rosto dela a repousar no meu peito. A desejo por inteira, com todos os hábitos, manias e defeitos.
    Ela quem coloria os meus dias e desde então eles estão cinzas. Faria o possível para tê-la novamente aqui, trazendo essência à casa e à minha vida. Eu até mesmo a buscaria, mas eu jamais iria burlar uma das regras da nossa cidade, “insistir na presença de quem já não quer ficar”.
    Janaina Couto ©
    Publicado — 2021
    @janacoutoj
  • [Desabafo] Inspiração

    Você é minha fã. Eu sei disso. Eu vejo.
    Obrigada por toda atenção. Apesar de, como mesma diz, ser “completamente leiga no assunto”, só me dou por satisfeito quando da sua aprovação. Sem usar termo técnico algum, me auxilia nos ajustes da melodia. Você é precisa. Tem um jeitinho peculiar de explicar o que “falta”. Você realmente as ouve. Me deixa empolgado quando aponta os segundos. Me motiva a aprimorar o som.
    Se debruçar sem razão alguma. Me exalta. Elogia o que produzo e me diz que sou um artista. Você me vê de uma forma tão bonita.
    Gosto dessa coisa aqui, sabia? A nossa trama. Você é um livro aberto, inclusive sobre os teus sentimentos, e ainda assim me é um mistério.
    Tu, por vez, conhece as minhas manchas, o meu caminhar, aliás, já é capaz de premeditar as minhas ações. Porém, tenho uma dificuldade tremenda em me abrir. Sei que tenta me desvendar, pois jamais exponho os meus sentimentos. Normalmente, percebo o clima e guardo tudo para mim.
    Recordo a primeira vez que estivemos juntos. Usando a desculpa para vê-la, te pedi um livro emprestado, marcamos um encontro.
    Partindo de um contato sem mais pretensões, suas, nos tornamos amigos. Muito íntimos, aliás. Serei eternamente agradecido por aquele março.
    Estava chovendo, o meu rosto molhado, a visão embaçada, as minhas botas encharcadas e eu tinha a convicção de que levaria um bolo. Era o cair da noite de uma sexta-feira e estava definitivamente caindo o mundo. Confesso, desci até lá com uma ansiedade, uma palpitação, um receio e uma euforia que não sei donde vinha. Os minutos corriam e não me contive a reclamar daquela chuva inesperada que, no meio do caminho de casa até o recanto, me contava que estava prestes a frustrar os meus planos.
    No ponto marcado, haviam muitas travessias. O cruzamento estava assoberbado de carros e a chuva intensificava a luminosidade dos faróis. Isso atrapalhava ainda mais a minha visão. Temi não a vê-la, perder o eclipse. Inquieto, olhava incessantemente para cada uma das ruas. Por qual delas você viria? Conseguiria te reconhecer? Aliás, será que viria?
    Tínhamos conversado por algumas semanas, sobre o universo e o mundo. Todos os dias, por muitas horas. Existia uma conexão foda e em poucos dias eu me via ansiando o horario em que sairia da faculdade, pois sei que responderia as minhas mensagens de texto. Não havia nem mesmo fitado os teus olhos e já podia apontar uma série de coisas que me cativaram.
    De alguma forma, sentia que era o princípio de algo grandioso. Aquela chuva foi a coisa mais estranha e prazerosa que já me aconteceu.
    Eu estava inquieto. Os segundos pareciam minutos, os minutos me eram horas. O tempo passava e eu estava me sentindo tolo “aquela garota jamais vai se propor a tomar um banho de chuva por minha causa”. “Aliás, por qual razão ela viria?”. Mas, ainda assim, permaneci ali. Com frio, mas esperando, enquanto profanava o trovejar.
    Senti o meu cabelo encharcado gotejar sobre a minha pele. Estava prestes a ir embora. Na fútil tentativa de aprimorar a minha visão, passei as mãos sobre o meu rosto e no mesmo embalo o cabelo para trás. Abri novamente os olhos e fisguei o exato instante.
    Cristo, não acreditei quando a vi. Sei que fiquei paralisado, com as mãos ainda sobre a cabeça e boquiaberto. Aquele triz foi atemporal.
    A vi atravessar a rua, parar no farol. Estava com um enorme guarda-chuva preto e o exemplar de a “A Cruz de Morrigan”, da trilogia da Nora Roberts em um saco plástico transparente.
    Deus, eu não aguardava uma garota. Era uma mulher. A mulher. Alta, emoldurada por um longo cabelo ondulado meio preso, um rosto de traços finos, um nariz pontuadinho, uma boca rosa e cheia… vestia uma regata que destacava a sua clavícula e um jeans claro que ressaltava as curvas.
    Assim que chegou do outro lado, de imediato, ainda que ao longe, me reconheceu. Acredito que por me ver encharcado, enquanto caminhava até mim, se atreveu a fechar o guarda-chuva. Interpretei como um “eu topo tomar um banho de chuva”.
    Eu pude sentir o penetrar dos teus olhos nos meus. Me arrepiei dos pés à cabeça. Você caminhava com graça, apesar de todo o caos do entorno. Parecia indestrutível. Como se nada te atingisse. Eu vi força.
    Finalmente chegou diante de mim, de queixo erguido fitou meu rosto e abriu um enorme sorriso largo. Foi insano. Agiu como se já me conhecesse. Não vi qualquer resquício de timidez. Foi a primeira vez que ouvi pessoalmente o seu “Eae, cara”. Eu ainda estava sem reação.
    Havia algo de diferente. O clima. O tempo, O momento. A intensidade. As cores. O som. A velocidade. O destino me contava algo. Me senti alinhado à ele. Eu era tomado por euforia e medo da grandiosidade do que havia de vir. O futuro era uma álea e eu a desejava com todas as forças.
    Eu ainda estava deslumbrado, simplesmente sorri enquanto o meu rosto escancarava um “uau”. Já disse o quanto adoro a tua atitude? Sequer havia te respondido, ainda processava a minha admiração com o contexto e você me deu um imenso abraço corporal.
    A água do meu corpo foi de encontro a tua pele macia, cheirosa e seca. Eu jamais vou esquecer a intensidade do que percorreu o meu corpo. Foi banho de chuva e o abraço mais gostoso da minha vida. Cacete. Como você era gostosa de abraçar. Macia. Eu poderia ficar no envolto daquele abraço por toda a minha vida. Estava perplexo. Tu não se importou nem um pouco em se molhar. Num desejo repentino e um agir imediato, se pôs nas pontas dos pés e em milésimos de segundos a imensidão do seu eu estava em mim. Acariciei a tua nuca.
    Lembro que na noite seguinte te disse “desde aquele dia no recanto, eu não paro de pensar em ti”.
    Eu recordo minuciosamente os detalhes. Posso apontar cada um deles.
    Desde então, não deixamos de nos falar nem mesmo um dia. São quase dois anos. Exatamente o tempo em que sinto algo. Algo ainda, por mim, inominado. É diferente. Nunca senti isso antes.
    Fico pensando nisso… como um conjunto de ações, atitudes, falas e, sobretudo, imediatismos, nos trouxe até aqui. Outrossim, como sem mais nem menos, apesar de alguns ocorridos, apesar dos pesares, permanecemos. Não importa as razões ou quantas vezes já tenhamos tentado nos distanciar.
    Mesmo quando me expôs os motins, naquele julho, para não nos entrelaçarmos da forma que eu mais desejava, apesar de me destruir, ainda fazia eu desejar permanecer pela nossa amizade. Claro, aquele sentimento ficou guardado, às sete chaves, eu queria parecer forte. O coloquei numa caixinha de estofado rosê. Um sentimento bonito dentro de uma série de caixas velhas e esquecidas. Mas, quando eu me aproximava de você e, especiamente, quando te beijava, aquela caixinha se abria e a força do que ela guardava me consumia. Era inevitável o sentimento correr pelo meu corpo.
    Confesso que não sei ao certo o que aconteceu comigo naquele junho e, muito menos, no dezembro passado. Sei que pedi para se afastar de mim. Eu mesmo tentei me convencer de que precisava disso. Falhei. Com o primeiro brilho e soar de fogos de artifício do ano novo, a primeira pessoa em quem pensei foi você. Te liguei, lembra? Estava na praia e eu na cidade. A minha única certeza era que eu não desejava estar onde estava, em muitos sentidos. Foi ali que me dei conta de que eu queria estar com você. Você. Ao seu lado. Sou incapaz de me dissociar de ti.
    Sabe aquela minha música que você tanto venera? Foi pra você.
    A minha segunda, que escrevi no outono passado. Estavas no Recanto esses dias, tarde da noite já, lendo, como sempre, a ouvindo. Te ouvi sussurrando a letra e cantarolando. Não sei como não me viu ou sentiu a minha presença.
    Pode não parecer lendo a letra. Mas, o modo que eu a enxerguei enquanto escrevia, fazia todo o sentido do mundo.
    Pensei em ti em cada uma das estrofes.
    Nunca contei para ninguém. É o meu segredo. Mas, pra você, eu conto.
    Primeira estrofe. Escrevi recordando os nossos primeiros encontros. O nosso banho de chuva e aquela primeira noite no recanto, no ponto alto de sempre. Você não parava de falar e eu estava deslumbrado. Lembro com precisão do que me consumia ao ver sua o movimento dos teus lábios. Me remetia inúmeras frases e ser ouvinte jamais fora tão quente.
    Segunda estrofe. Foi pautada em um outro dia no recanto, mas naquele em que ficamos no banco de madeira marfim escondido dentre as árvores. Era quase madrugada, eu estava deitado no seu colo e te apreciava. Já estávamos engajados no meio-termo. Se tratava do começo e já te via um universo de qualidades.
    Terceira estrofe. É inequívoco que eu estava gostando de você e da nossa coisa. Te olhava e dizia a mim mesmo, de mansinho, que não podia fazer aquilo comigo. Mal te conhecia e já estava apaixonado. Óbvio, você até primeiro que eu. Parecia tudo tão apressado, mas eu estava adorando.
    Quarta estrofe. Se trata, nos exatos termos, da imensidão do que você significa para mim. A minha lua, a minha musa. Vênus.
    Penúltima estrofe. Lapidada nos dias em que você ia à minha casa. Não sei explicar. À época, eu enfrentava alguns problemas e estava muito mal. É claro que você não sabia. Aliás, se tratou do período em que mais nos vimos, pois eu tinha sede da tua presença. Você me acalmava de um jeito que ficou marcante até hoje. Você tem o poder de isentar a minha dor, espantar as trevas do meu mundo. Surreal demais para ser esquecido.
    Última estrofe. Confesso, tentei e acredito que deveria reformular a frase. Deixei esta por, pensando em ritmo e campo harmônico, encaixar melhor com a melodia. Ainda assim, expõe uma gana insaciável. As horas correm quando estou contigo, o relógio não é meu amigo. Se tratando de ti, até a eternidade parece insuficiente.
    Sobre tudo o que falei. Sei que jamais havia demonstrado o quanto cada instante, dia, momento significava para mim. Eu não demonstrei nada, nunca demonstro, eu só guardo. Hoje, me sinto seguro para dividir com você.
    Quanto a canção, eu não iria te falar tão cedo. Ela surgiu quando falou com todas as letras e me disse de boca cheia que o teu desejo era ficar comigo, justamente por também ser da minha vontade, me estimulou a escrever. Eu precisava eternizar a minha percepção e o meu sentir de alguma forma.
    Ainda bem que também desenvolveu um sentimento latente por mim. Algo nos atrai. Nos move. Até parece que o nosso interior sabe de algum modo. Não sei. O universo nos empurra.
    No início, pensei que era paixão e que se eu deixasse tudo como estava logo passaria. Juro. Depois do banho de chuva, acreditei naquela ideia de “amor à primeira vista”. Claro, jamais iria te escancarar logo no princípio. Afinal, quando eu dizia sentir saudade ou estar ansioso para te ver, você parecia tão serena “calma, estamos nos conhecendo” e eu me via um idiota.
    O tempo escorre. Sinto que nos conhecemos há anos. O meu sentimento não mudou. Apenas fica cada vez mais forte. A chama mais quente. Pulsa em mim e estou perdendo o controle. É maior que eu. Tenho a sensação de que vai me dominar. Eu preciso por pra fora.
    Desculpa por me prolongar. É que eu gosto muito de você. Obrigada por me ouvir. Você é muito linda. Sabia? Não consigo acreditar que não estou contigo. Agora. Juntos.
    Você é a mulher da minha vida. Só de olhar pra você percebo. Quando me encara, teus olhos avelãs confirmam tudo. Me deixa queimando em intensidade sem sequer se esforçar. Te quero na minha vida por todo o sempre.
    Eu tenho medo de perder você. Medo do destino. Temos certeza somente do presente e quero fazer de tudo pra ficarmos confortáveis um com o outro. Sim, eu ainda estou muito apaixonado por você e sei que não é passageiro. Eu sei quando é. Você é uma mulher incrível, já te disse isso e falo novamente. Não quero te perder. Aconteça seja lá o que for, jamais deixará de ser “a mulher da minha vida”.
    Você me idolatra. Ter me dedicado “The Pussycat Dolls ft. Avant — Stickwitu” foi a melhor forma de escancarar.
    Eu sou quem sou seu fã. 
    Você é minha inspiração.
    A minha musa.
    A amo com todas as minhas forças.
  • [Desabafo] NUDEZ

    Adoro banhos. Sou fascinada por banho. Principalmente, quando acontecem após um epílogo desgastante.
    Me é inerente, pois tenho a sensação de que a água leva embora a exaustão, o estresse, as mágoas, o choro.
    Nestes minutos, estagno o tempo e aquele momento é dedicado exclusivamente a mim. Ao meu suporte. Ao meu corpo.
    Definitivamente, me renova. Supervalorizo estes instantes de autocuidado.
    Aliás, confesso que muitas vezes não são só premeditados, como também planejados.
    O meu banho preferido geralmente acontece aos sábados, quando estou sozinha em casa. Quando tenho a certeza de que nada e ninguém surgirá para interromper o meu momento. A casa quieta e silenciosa. Sem mistura de sons. Sem algazarra.
    Escolho a dedos os óleos essenciais, cremes e sabonetes. Preparo a esfoliação. Me atento aos cheiros.
    Esse meu banho é quente. No fim de tarde. Com o ambiente à luz natural, baixa. Inclusive, acompanhado de música boa, suave.
    E as cores, cheiros e sons tornam o meu momento comigo e a relação com o meu corpo ainda mais intensa e dotada de imensa valorização e carinho.
    Gosto de tatear a minha pele. Macia. Cheirosa. Quente. Deslizar cada centímetro do meu corpo, massageando. Apreciando e cuidando de cada pequena parte do meu eu.
    Observando as minhas manchas, marcas que escolhi e aquelas que ganhei, as tonalidades da minha pele, a extensão do meu corpo, as minhas curvas…
    São nesses banhos que derramo caridosa atenção para comigo. Me tenho com cuidado e entendo a importância da manutenção e zelo pela única coisa física que tenho certeza que estará comigo até o fim dos meus dias. O meu corpo.
    Nesses momentos, sou grata a mim mesma pelo companheirismo e até me desculpo, com verdadeiro pesar, pelos episódios não eventuais de desdém, em muitos sentidos. Ora, o cuidado com o corpo não há que se confundir com a vaidade. São coisas distintas.
    E é por reconhecer isso que nestes momentos percebo o quanto gosto de mim. Não apenas do meu eu corpo, mas de quem sou. Apesar das inúmeras falhas e cicatrizes.
    Sabe, uma vez o meu pensamento caiu de forma ainda mais intrínseca nisso…
    Não apenas minha relação com o meu corpo ou a percepção que tenho sobre ele, mas como vejo os corpos de uma forma geral. Indistinta.
    Certa noite me doei numa conversa com um amigo. Aliás, amigo esse com quem tenho conversas profundas, que perduram no tempo. Inclusive, com quem não tenho receio de falar absolutamente nada.
    Não importa o assunto, seja ele qual for, a conversa tem um outro nível. Isto porque, se tornam muito subjetivos. Eu gosto. Geralmente, os diálogos cessam e fico matutando uma coisa ou outra.
    Foi em uma dessas ocasiões que chegamos num ponto nebuloso para mim.
    Nebuloso por não ter uma resposta objetiva e imediata para a razão da distinção. Está me corroendo desde então.
    Reconheci que tenho dois pensamentos aparentemente distintos, mas de maneira alguma excludentes. E a ambivalência me mata.
    Há dias caço uma forma de explicar como a coexistência é válida, mas ainda não descobri ou mesmo inventei uma teoria a respeito.
    A banalização da nudez.
    A sexualização do corpo.
    Há uma linha tênue, bem tênue e que não está associada a algo eminentemente físico, como o corpo.
    Isto porque, em algumas ocasiões, um corpo é apenas um corpo. Nada mais que isso. Um corpo humano, nu. Com curvas, manchas, cicatrizes, pelos e volumes. E ajo com imensa indiferença a respeito.
    Quero dizer que, na maioria das vezes, ao ver um corpo nu, não tenho qualquer reação. Não me suscita absolutamente nada, haja vista a naturalidade para com o corpo. O humano. O corpo animal. Carne. Vejo tão somente um ser corporalmente frágil.
    O mesmo ocorre quanto ao meu corpo nu. Em alguns momentos, expor o meu corpo ou mesmo tirar a roupa diante de alguém ante as necessidades do dia a dia é um ato tão banal e natural que vez ou outra fico questionando a existência de um desdém para comigo neste sentido. Uma humana frágil, um corpo.
    Na grande maioria das vezes, não sexualizo o corpo alheio, nem mesmo o meu. Tão menos sinto receio, vergonha ou qualquer espécie de timidez neste sentido.
    Outrossim, inexiste aversão, óbvio.
    Quero dizer que, felizmente, não sinto vergonha ou receio diante do que é natural e comum a todos nós. O corpo.
    Não tenho problemas ou desconforto com a nudez.
    Claro, a regra comporta exceções.
    Nem sempre um toque é apenas um simples toque. Há um limite, há uma barreira. Há a privacidade e a inviolabilidade.
    Assim como em outros momentos, há a intimidade.
    Mas, de um instante a outro, por falar em intimidade, instantes específicos, o meu pensamento e a minha percepção e sensação está num polo incrivelmente distinto da banalização.
    Especialmente, se tratando do meu corpo.
    De um instante a outro, não se trata apenas de um corpo humano. Frágil.
    De um instante a outro, o espaço banal dá vazão à intimidade.
    É o meu corpo.
    O meu corpo. O meu corpo nu.
    O meu templo. O meu suporte. A minha casa. Sou eu.
    De um instante a outro, torna- se quase impossível dissociar o meu corpo e a minha mente. A menor tentativa de contato com a minha pele é quase uma invasão à parte mais pura de mim mesma.
    De um instante a outro, estar ou mesmo cogitar estar diante da observação do olhar alheio me é delicado. Não há receio, mas a sensação é diferente e a percepção dos corpos é diferente.
    Aliás, não digo isso exclusivamente a corpos nus. Esse percepção qual me refiro inicia-se antes da nudez e até mesmo da seminudez.
    Inclusive, ao dizer nudez, não me refiro exclusivamente às partes do nosso corpo que de um modo geral a sociedade rotula como “íntimas”.
    Não há um padrão. Não há um rótulo.
    Inclusive, na maioria das vezes, a nudez da minha nuca, das minhas costas ou clavícula, torna aquele contexto tão íntimo, quente e particular para mim… Assim como a exposição do meu pescoço, dos meus pulsos e das minhas coxas.
    Nestes instantes, vejo e sinto o corpo como a coisa mais preciosa. Há uma comistão entre ele e a minha essência. Quem sou. A minha história.
    Nestes instantes, cada extremidade, marca, pinta, mancha, curva, volume e cicatriz conta uma narrativa diferente. Uma narrativa minha. Dizem muito a meu respeito. São os meus detalhes.
    Aliás, o que parece óbvio mas merece caridosa atenção é o fato de que todo esse conjunto formam unicamente o meu eu. O meu corpo inteiro. Formam a mim. É exclusivo, não apenas privativo.
    O simples fato de cogitar e de efetivamente permitir a observação e o toque alheio, por si só, já exige a principio respeito, cuidado e sinceridade.
    Evidentemente porque não se trata de algo ordieno, tão menos banal. É valioso e singular o momento, o contexto e quem.
    Nestas ocasiões, não há como se banalizar a nudez. Sobretudo, a minha.
    Inclusive, nestas ocasiões as falas, os olhares, jeitos e suspiros também são dotados de intimidade. E carregam algo mais que não sei explicar. Também se tornam invioláveis.
    Como já dito, em algumas ocasiões o simples fato de reconhecer o repouso do olhar alheio pelo meu corpo, me arrepia. Por sua vez, quanto aos toques e deslizes, sinto coisas que nem sei se posso descrever.
    Assim com o ato de me despir, tão corriqueiro e despercebido por mim mesma na maior parte dos dias, se torna tão sutil.
    Isto porque, me vejo mostrando o meu espaço, o meu mundo, as minhas verdades e mentiras, a exposição não só do meu corpo, mas de todo o meu eu. Literalmente nua e crua, em todos os sentidos.
    Me sinto escancarando e gritando quem sou, o que dito assim, de imediato, parece errôneo ou mesmo assustador, de tão impressionante.
    Nestes instantes, claramente estou conectada com a parte mais selvagem de mim mesma. Não há filtros. Não há véu.
    É óbvio que o convite, a abertura e a exposição do meu templo à outrem não deve ser tratada como vulgar. Uma vez que evidentemente não se é.
    Não é um ato singelo, mas sim sobre-humano. Para comigo, dotado de uma tremenda ousadia.
    Como um dia alguém escreveu fascinantemente, “eu sou tímida e ousada ao mesmo tempo”.
    A exposição do meu mundo, do meu íntimo, justamente por ser ousada, é tentadora. E a ideia me é ainda mais cativante quando o outro ser, privilegiado, reconhecer a preciosidade e singularidade do que há de vir. A conexão entre duas pessoas.
    Conexão não apenas corporal. Mas, a conexão da parte mais intrínseca de si mesmos.
    Tenho pavor à ideia de ter o meu corpo banalizado, nestes instantes.
    Caramba, é o meu corpo. Ao vivo e em cores. A minha pele. O meu cheiro.
    Aliás, aproveito e destaco que o meu desejo é aflorado de uma forma radical ao reconhecer, principalmente ao ver, pulsar desejo no outro.
    Por questões óbvias e razões infinitas, escolho a dedo aqueles cujo a qual hei de autorizar o toque ou a apreciação. Claro que a ideia de exposição precisa ser tentadora e confortável.
    Ademais, evidentemente que tenho para com o corpo alheio a mesmíssima percepção.
    Os nossos corpos são instrumentos. É preciso atentar-se a qual instrumento estamos dedilhando e apreciar, com atenção, a melodia que se está criando… a mesma melodia jamais irá se repetir. Especialmente porque, não é apenas sua. Assim como, é de muitíssima importância zelar pelo sigilo das notas e peculiaridades dos instrumentos.
    De um instante a outro, os corpos banais são dotados de inúmeras peculiaridades e alvo de fascínio.
    É por isso que fotografias e suas variações, assim como monumentos ou até mesmo peças teatrais e qualquer outra forma de arte com o semblante de um o corpo nu, não me suscitam nada. Me causam o mesmo espanto que o fato do cair das folhas. Até mesmo, para com ocasiões em que a fotografia de um corpo nu, por exemplo, pelo contexto, poderia ter condão para me deixar quente.
    Isto porque, não elucidam mistério. Não há correspondência. Não há permissão. Não há a possibilidade de toque. Não há conexão. Não há exposição ou contato do que eu entendo por intimidade, neste aspecto. Não há canção.
    São questões mais do que justificáveis. Explicam por si só a razão pela qual sou incapaz de desejar o outro tão somente por algo tão banal, como é o caso da imagem.
    O desejo pelo corpo está condicionado a algo, que evidentemente não sei explicar. A sexualização de cenas e traços de um corpo ao vivo e em cores é secundária. É decorrente.
    O meu desejo, o meu fascínio, o meu zelo pelo corpo, não é apenas carnal. Tão menos visual.
    Felizmente, não é apenas carnal.
  • [Excerto] ÁPICE

    O ponto é o mesmo. A sensação ao chegar no ponto alto é ainda vigorante. Vejo o negro do céu e as mesmas ruas iluminadas. O lugar está igual, mas a experiência é dissonante. O tempo é outro.
    Chego aqui e a vejo.
    Com o traje de sempre. É o mesmo jeans claro e a mesma blusa relaxada, bolsa de crochê e livro nas mãos. A assisto desde oprincípio da ladeira. Reparo seu caminhar despreocupado e o cabelo emaranhado ao vento. Ela nunca se atrasa, sempre chega primeiro. 19h30 ela sempre chega. Assim que adentra no recanto, seus olhos caçam. A vejo subir até aqui com uma sede…. é fácil perceber a ansiedade e euforia que percorrem o seu corpo. Ela tenta disfarçar, não quer demonstrar isso.
    Com um sorriso contagiante e olhos que sorriem finalmente vê, logo diante de si. A sua respiração fica acelerada, até que calorosamente aquela imensidão a abraça. O seu rosto exala conforto, aconchego. O instante é atemporal. A brisa é suave e intensa. Aprecia até mesmo o cheiro, o devora, lhe é um entorpecente. Acredito que ela até suplica para ter aquele aroma. É fácil perceber que, se ela pudesse, eternizaria aqueles minutos. Vejo as tonalidades de vinho e salmão que a transbordam. O encontro da alma. Ali, ela certamente está onde quer estar. É o instante em que se encontra. Assim que aquela sensação lhe arrepia, se faz nua e crua.
    Vejo essas cenas com muita clareza, cada uma delas. Cada uma das noites. As palavras e sensações. A intensidade com que se vivia. Acompanhada e em êxtase por infindos detalhes. Ela queimava tanto em intensidade que, nos últimos dias, não ouvia as badaladas do sino em contagem regressiva.
    Sempre teve um temor em dar-se, quando caridosamente fez isso, a dilaceraram. Aquela jovem está morta.
    É difícil digerir. Não se aproveitaram de uma mulher, com recentes rugas, mais velha, séria e com cicatrizes o suficiente para conhecer a decepção e não mais ter expectativas para com as pessoas que vão e chegam. A maior sacanagem foi que desintegraram a garota dos olhos que sorriam. E foi tudo tão gradual que enquanto isso acontecia eu fui incapaz de perceber, jamais vou me perdoar por isso.
    Hoje, se eu pudesse, salvaria aquela menina. Meses correram, num piscar de olhos. E com cada um daqueles segundos, ela morria aos poucos. Pouco a pouco.
    Fervorosamente eu suplico para que ela ainda esteja por aqui. Não sei se isso seria possível, por óbvio. Futilmente, volto ao mesmo lugar tentando resgatá-la, mas não encontro nem mesmo o menor resquício. São apenas as claras memórias. Não mais ouço os seus passos. O seu timbre está ecoando em algum lugar no tempo.
    “Cadê você?”
    A noite vazia é a mesma. Estou aqui. Sozinha. Não sinto raiva, tristeza, nada. Estações atrás o meu agora seria inimaginável e isso é avassalador. Até parece que aquelas noites não passaram de um delírio. Vejo o fantasma daquela garota e tento abraçá-lo.
    “Cadê você?”
    Ela foi por eles. Não sei porque e nem pra que e é justamente isso que ela mesma achava bonito. Não exigia nada em troca. A sua pureza e doação neste sentido era justamente o que eu achava bonito. Era tudo sincero.
    Quando a sugaram e ela já não tinha mais o que oferecer, quando ela precisava do mesmo tipo de doação, deram-lhe as costas.
    “Cadê eles?” Não sei.
    “E hoje, quem são eles?” Não sei.
    Só lhes digo uma coisa: não esperem nada de mim, já há muito tempo que não espero nada mais de vocês.
    Tenho certeza que aquela minha versão, perdida em algum lugar no tempo, não seria capaz de imaginar que eu me sentiria desolada, neste lugar.
    “Cadê você?”
    Estou aqui. Mas, eu sou o resto ruim. A parte bruta. Sobrou apenas a parte que a gente não gosta e quer esconder.
    Estou aqui, sozinha. Uma versão “depois deles”.
    Fielmente sozinha. Eu e eu. As coisas que faço são por mim. São os meus medos. As minhas lamentações. As minhas derrotas. As minhas noites. Os meus prazeres. Os meus sentimentos. Os meus amores. As minhas quedas. Cicatrizes. Eu comigo e eu por mim. Se ainda houver alguma doação é exclusivamente para o meu eu.
    Em nada tem haver com eles e é por isso que não se importam.
    Falar assim parece tão óbvio. Mas, quando se vive isso, fielmente, é que a gente entende o verdadeiro significado. Não digo isso com indignação. Não lamento ou comemoro. Só reconheço que estou verdadeiramente só.
    Sou eu comigo e eu mesma. Para onde vou? Quem sou? Não sei. Estou existindo. Neste instante, ouvindo repetidamente “Ordinary World — Duran Duran”, sei apenas onde estou, as horas e que sinto a ventania da noite eriçar os pelos dos meus braços. Não sei o amanhã, apesar de muito o esperar.
    Não que isso me cause algum desconforto, na verdade, não me causa nada, só é o que é e ponto.
    A minha única indignação é a morte da garota dos olhos que sorriam.
    Sabe, enquanto vivia aqueles dias, sentia que aquilo era importante. Talvez eu não tenha aproveitado o quanto gostaria. Mas sabia que aquilo podia ser o meu ápice. Aquela garota era o meu melhor de mim.
  • [Poema] LEMBRAR

    Todas as vezes que ouvir “Os Outros”
    ou até mesmo “Onde Anda Você”.

    Todas as vezes que alguém pronunciar aquela frase
    ou quando outro alguém me fitar daquela forma.

    Todas as vezes receber um largo sorriso malicioso como o teu
    ou quando outros lábios tocarem os meus.

    Todas as vezes que sentir aquela mesma euforia
    ou quando me deparar com aquela cena.

    Todas as vezes que me tocarem da sua forma
    ou quando tocar aquela a sua canção.

    Todas as vezes que atravessar aquela esquina
    ou descansar no banco marfim daquela praça.

    Todas as vezes que acariciarem a minha nuca
    ou quando me ver no envolto de um longo abraço apertado.

    Todas as vezes que ouvir um timbre próximo ao seu
    ou quando sem mais nem menos me ver diante de ti.

    Todas as vezes que ler aquele poema…

    Todas as vezes que ouvir “Vento no Litoral”…

    Todas as vezes que chegar aquela estação…

    Todas as vezes que uma brisa invadir a janela do meu quarto numa madrugada de verão…

    Todas as vezes que numa quente madrugada contemplar o mar…

    Todas as vezes que um olhar fixo e profundo fizer o meu corpo arrepiar…

    Todas as vezes que a brisa deixar em mim o cheiro de mar…

    Sempre que lembrar daquele verão.
    Vou lembrar de momentos simples com você.

    E vou amar você, novamente, da mesmíssima forma,
    nem que seja por míseros instantes.

    Sei que sorrir ao lembrar de como os dias daquele verão foram ainda mais quentes com você.

    E, nesses instantes, apenas nesse momento, desejarei intensamente reviver tudo.

    Depois?

    Provavelmente os meus olhos ficarão acinzentados e serenos, quem sabe, até mesmo trêmulos…

    quando me der conta de que o seu amor não mais me pertence e nem o meu a você.


    Janaina Couto ©
    [Publicado — 2019]

    @janacoutoj

  • [Poema] ODIAR

    Odeio o jeito como me olha quando diz que estou errada
    Odeio quando se faz de sonso
    Odeio o fato de sempre tentar me agradar
    Odeio o seu sorriso bobo quando diz que te desconcentro
    Odeio o teu timbre ao dizer que ainda não amo você
    Odeio quando finge que não existo
    Odeio os dias que não está comigo
    Odeio as manhãs sem ouvir o teu riso
    Odeio as madrugadas sem sincronizar com o teu o meu respiro
    Odeio, sobretudo, a fulminante distância


    Janaina Couto ©
    [Publicado - 2016]

    @janacoutoj

  • [Poema] REINAR

    Mostrei meu mundo a você
    havia um reino a ser ocupado
    apesar de ser encantador
    você fugiu.
    Teve medo?

    Quis conhecer mundos lá fora,
    eu soube.
    Agora
    sem mais nem menos
    ressurge querendo asilo.
    Sei que não se trata apenas disso

    Quer ocupar o trono
    “jamais deveria ter deixado”

    No entanto, 
    o reino está preenchido. 
    Eu sou a rainha.
    Álias
    não preciso,
    nunca precisei
    de alguém para completar o meu mundo.

    Eu posso ser
    eu sou
    inteira sozinha.

    A felicidade no meu reino
    no meu mundo
    nunca esteve
    nas mão de alguém
    que não eu mesma.

    O sustento 
    pertence e depende
    apenas de mim.

    Olha, velho amigo
    eu posso até lhe fornecer abrigo
    mas, você jamais será rei.


    Janaina Couto ©
    [Publicado - 2019]

    @janacoutoj

  • [Poema] RESPIRAR

    domingo de outono
    árvores curvas
    folhas ainda quentes
    manhã luminosa
    cores quentes
    olhos semicerrados
    é forte, incandescente

    numa travessia
    qualquer um percebia
    a calmaria da vida

    poças de água
    a beira das calçadas
    refletem o musgo verde
    árvores de copas altas
    circundam o quarteirão

    apesar de todo o movimento
    da vida ao redor
    ali, naquele cantinho
    o tempo estava estagnado
    os microsegundos
    exalam insana alegria
    mas, donde vinha?

    centenas de feixes de luz
    atravessam os ipês
    atingem - me em cheio
    aquecem a minha face
    me fazendo sentir parte
    de toda exuberância
    instante atemporal
    plenitude surreal

    a leve brisa quente
    esvoaça meu cabelo
    emaranhado
    traz consigo
    o cheiro de relva
    e a imensa sensação
    pertencimento

    sento-me ao chão
    escoro na árvore
    de copa iluminada
    dona de uma enorme sombra
    alta, envelhecida,
    coberta de musgo,
    mas, 
    ainda assim,
    viva
    ela vive

    me vejo pequena
    diante da grandeza do meu envolto
    mas, ainda assim
    faço parte disso
    e a vida me pertence
    eu a sinto
    eu vivo

    a dádiva elucidada
    diante dos meus olhos
    a tenho
    felizmente,
    a tenho
    sinto a plenitude do viver

    o peso do mundo
    das minhas costas
    se esvai
    carga que eu criara
    naquele triz
    os meus problemas
    tão insignificantes
    coisas minuciosas
    que me faziam escrava
    sobreviver
    ao invés de viver
    como não pude perceber?
    a grandiosidade
    do viver
    do sentir
    do ser

    é perspicaz?
    sigo a observar
    o tranquilo bairro
    no calor escaldante
    vislumbrando o verde
    minha visão deturpada
    ondulatória
    a luz intensa
    a deixa trêmula

    não estou torpe,
    talvez em transe?

    uma buzina na esquina
    cessa a calmaria
    jovens transitam
    apressados
    pobres escravos
    do tempo...

    exceto eu
    não passo pela vida
    nem ela por mim
    caminha comigo
    me pertence
    eu a sinto
    eu a vivo


    Janaina Couto ©
    [Publicado - 2019]

    @janacoutoj

  • [Poema] SER

    Porque eu sou isso...

    sou confusão
    sou paixão
    sou turbilhão de emoção!

    sou razão e emoção
    sou claro e escuro
    sou maior que saturno!

    sou forte
    sou caco
    sou corte!

    sou acorde e canção
    sou silencio
    sou um ego mudo!

    sou delírio
    sou devaneio
    sou sossego!

    sou calmaria
    sou boêmia
    sou poesia!

    sou amor
    sou fúria
    sou sintonia?

    sou turbilhão de pensamentos
    sou turbilhão de sonhos
    sou turbilhão de confusão

    ahh
    é isso
    confusão!

    sou mistério
    sou metamorfose
    sou transformação

    sou o que sou

    sou o que me der vontade de ser
    sou mais do que aquilo que você vê
    sou mais do que aquilo que você pensa

    eu sou amor
    eu sou intensa!


    Janaina Couto ©
    [Publicado - 2016]

    @janacoutoj

  • [Poemas] DETESTO

    Coisas que eu detesto em você:

    Detesto o fato de você fumar;
    Detesto o fato de você sempre sair pra beber;
    Detesto como você gosta de ser o centro das atenções:
    Detesto como aparenta ser íntimo com toda e qualquer garota;
    Detesto o seu desleixo com os estudos;
    Detesto sua opinião política;
    Detesto como consegue ser bipolar ao extremo;
    Detesto o quanto é pão duro;
    Detesto o fato de você não estar nem aí para nada;
    Detesto o seu jeito de andar se sentindo o fodão;
    Detesto quando suas atitudes vão em confronto com a tua fala;
    Detesto o jeito como se porta diante dos seus amigos;
    Detesto fortemente seu completo desdém;
    Detesto o seu desmazelo;
    Detesto o teu corte de cabelo;
    Detesto como consegue conquistar todo mundo;
    Detesto o seu caminhar como se o mundo estivesse do jeitinho que você quer;
    Detesto quando diz "foda-se" para toda e qualquer situação;
    Detesto o quanto é incrédulo quanto ao amor;
    Detesto as suas falsas convicções;
    Detesto quando você mente;
    Detesto quando me dá desculpa esfarrapadas;
    Detesto quando usa a ironia para discutir comigo;
    Detesto quando me fita e me deixa constrangida;
    Detesto quando teus olhos avelã penetram os meus;
    Detesto a minha tensão quando estou perto de ti;
    Detesto mais ainda quando me vê e me ignora;
    Detesto quando faz eu me sentir "um tanto faz";
    Detesto, sobretudo, quando me ignora, pois eu gosto da tua atenção;
    Detesto como sempre está com uma garota diferente… detesto tanto que sinto ânsia de vômito;
    Detesto o fato de você me fazer sentir ciúmes de alguém que não me pertence, nem mesmo um pouco;
    Detesto como mexe comigo a ponto de eu precisar me esforçar para te odiar;
    Detesto seu potencial para me distrair;
    Detesto o fato de acreditar que estou apaixonada por você;
    Detesto quando afirma que dentre garotas passageiras inexistiu alguém especial;
    Detesto com todas as forças o fato de sequer cogitar o meu "eu";
    Detesto quando me idealizam para você;
    Detesto ainda mais os comentários de que eu te suscitaria qualquer coisa próxima a "mudança";
    Detesto como sempre associam eu a você;
    Detesto ficar questionando para mim mesma o que os outros dizem;
    Detesto memorar a primeira vez que te vi;
    Detesto pensar naquele primeiro ano;
    Detesto principalmente reprisar e sentir uma mormente saudade;
    Detesto ficar imersa numa época em que acreditei vivenciar o meu "primeiro amor";
    Detesto assumir para mim mesma que esse amor era você;
    Detesto me ater a sua afirmação de que as suas borboletas no estômago existiam por mim;
    Detesto desejar uma nova faceta daquela paixão ingênua;
    Detesto enxergar que aquela conexão não há de voltar;
    Detesto como apesar dos pesares, depois de tudo, você me fez sentir especial novamente;
    Detesto com todas as forças o fato de que na verdade somente tomou o meu tempo;
    Detesto reconhecer que acreditei em meias verdades;
    Detesto ter acredito, ainda que por míseros instantes, após aquela noite tudo estaria bem;
    Detesto o fato de depois você ter mudado comigo radicalmente;
    Detesto sua bipolaridade, já falei isso?
    Detesto confessar que havia criado expectativas quanto a nós;
    Detesto afirmar que a alegria das minhas manhãs era te ver;
    Detesto a convicção da minha ilusão;
    Detesto estar tão na cara que não fiz isso sozinha, pois você colaborou fortemente para isso;
    Detesto reconhecer que não fui a única a sonhar e romantizar;
    Detesto a dúvida se também o fiz se decepcionar;
    Detesto te ver e ser incapaz de impedir que tudo torne à minha mente;
    Detesto olhar a estrada e ver o amor juvenil desaparecer;
    Detesto a sensação de ter pedido o eclipse, quem sabe, a álea que mudaria nossas vidas;
    Detesto poder apontar com precisão que perdemos o acontecimento do século;
    Detesto a minha intuição da sua cegueira, eis que não enxerga nada disso;
    Detesto a sua presença, que me impede de virar a página;
    Detesto como tudo desabou em dias;
    Detesto tu não ver os meus cortes;
    Detesto tu não mais se importar;
    Detesto me sentir incapaz de apagar tudo, como fez você;
    Detesto não entender os seus porquês;
    Detesto pensar naquela palavra "esquecer"; soa tão "você"
    Detesto me ver resumida a nada para você;
    Detesto assumir que imploro ao universo para te esquecer;
    Detesto exatamente esse agora, que apesar de vividas as memórias, já não me fazem sofrer;
    Detesto olhar o futuro e cogitar encontros;
    Detesto a hipótese de duas pessoas que não mais se conhecem com memórias em comum;
    Detesto agora desabafar num post-it, enquanto o que eu mais desejava era dizer diretamente a você;
    Detesto saber que jamais terei a oportunidade de esclarecer;
    Detesto recordar com fiducia o seu aviso de que não iria me permitir te confundir novamente;
    Detesto usar a frase com o intuito de suavizar o "estou me apaixonando novamente por você";
    Detesto esses temores bobos;
    Detesto a certeza de que este escrito jamais chegará a você;
    Detesto você sequer gostar de ler;
    Detesto como não se dá conta que eu o conheço melhor que até mesmo você;
    Detesto questionar maneiras de te remeter:
    Detesto antecipadamente sofrer com a ideia de ti amassá-lo sem mesmo ler;
    Detesto o contraste entre a minha alma escritora e o seu analfabetismo;
    Detesto este caso concreto fazer valer a máxima "o que não vira amor, vira poema";
    Detesto pensar em jamais isto publicar, com receio de ti não gostar;
    Detesto apontar a nossa história como a minha mais intensa e o mesmo não partir de você;
    Detesto ter enganado a mim mesma naquela noite;
    Detesto aquela noite marcar a minha vida, enquanto para ti foi um anoitecer qualquer;
    Detesto constatar o tempo que despendi nisso aqui;
    Detesto cada fantasia minha frustrada;
    Detesto a música solene daquele 28 de agosto;
    Detesto sentir saudade daquele agosto;
    Detesto o quanto ainda queima as memórias dos dias quentes;
    Detesto cada uma das controvérsias. Por falar em controvérsias, desde o princípio foi assim, por muito tempo acreditei que te amei, de uma forma que jamais imaginei;
    Detesto este amor em cem linhas.
  • [Poemas] PERDER

    Os dias correm
    penso, felizmente,
    cada vez menos em ti.

    Foi
    na verdade, ainda é
    tão árduo tentar te esquecer.

    Sequer sei se é possível
    essa coisa de esquecer.

    Acredito que não.

    Basta uma brisa
    um lugar
    um cheiro
    e, inevitávelmente, eu falho.

    Sim,
    eu falho
    cada vez menos.

    As vezes 
    me assusto 
    ao lembrar que ainda havia 
    um tanto de mim pra você conhecer
    é uma pena.

    Realmente uma pena,
    lentamente você me perder.


    Janaina Couto ©
    [Publicado - 2018]

    @janacoutoj

  • [Roteiros] CIGARROS

    — Quanto tempo. Está me procurando... O que houve? O que quer?

    — Com tédio. Estou querendo ir na praça. Aquele lugar sempre remete você, sei lá. Vou ir.

    — Deve estar um deserto.

    — Não me importo. Eu gosto da calmaria.

    — Vai, chama alguém… Ou vai sozinho mesmo, pensar na vida. É gostoso.

    — Está ocupada?

    — São 23h40 e eu estou no busão… vou descer a serra… encontrar um pessoal e passar o feriado na praia.

    — Espero que seja quente.

    — Eu também, mas como essa madrugada pelo jeito vai ser gélida, já não tenho tanta esperança.

    — Eu queria era um maço de cigarro. Mas não posso gastar.

    — Vícios. Não há o que se fazer, a vontade vai te corroer até tragar.

    — Fuma há quanto tempo? 2 anos?

    — Menos.

    — Hum. Quantos maços por dia?

    — Não fumo todos os dias. Mas quando fumo mesmo, uns 4. Às vezes mais.

    — 4 maços? Cacete.

    — Não, 4 cigarros.

    — Ah, menos mal. Eu acho. Meu pai fuma 3 maços por dia.

    — Já não há uma parte do pulmão que salve.

    — Acho um absurdo.

    — Eu fumo com meu pai. Sempre quando vamos trocar um papo de vida, estamos fumando juntos.

    — Eu sou asmática. O cheiro do cigarro me enoja e dá pigarro.

    — Fresquinha.

    — Não, sensata. Jamais gastaria grana com o que me destrói.

    — Pode ser.

    — Conselho: Nunca pare de fumar por alguém. As pessoas te abandonam, o câncer não.

    — Essa frase não fez sentido

    — Era para ser um humor pesado. Não é pra ter sentido.

    — Ah tá, entendi.

    — Fuma qual cigarro?

    — Lucky Strike. Mas, com o tempo, me acostumei e passei a achar fraco. Passei a fumar Marlboro e não me satisfazia. Agora, Hollywood está suprindo as necessidades.

    — Marlboro fraco??

    — Sim, acredite.

    — E o Ministér? Já fumou?

    — Não.

    — Sempre achei o Marlboro forte. Insuportável.

    — O cheiro?

    — A gente precisa conhecer o inimigo

    — Você sempre odiou o cheiro, não vai dizer que começou a fumar…

    — O cheiro, sim, é insuportável. E nāo, eu nāo fumo.

    — Então não entendi.

    — Eu nāo consumo o que me destrói. Okay? Apenas.

    — Ingere açúcar?

    — Infelizmente, sim. Mas, quando possível, evito. Nesse sentido, me destruo. Pouco a pouco. Lentamente. Mas, eu dou a ele esse poder. Ainda assim, estou no controle.

    — Ninguém está. Então, é a mesma coisa.

    — Não. Pois, os cigarros que fumam perto de mim, me degradam sem o meu querer. Inalo. Me faz mal e eu não posso evitar. É exterior ao meu querer. É bem diferente. Agora, se eu quiser fumar, okay… a escolha foi minha. Eu dando o poder a coisa que me faz mal. Eu e minha vontade. Eu decidindo por mim. Ainda assim, no controle, alteridade…. até se tornar um vício. Aí fode. Mas, coisa que de uma forma ou outra, foi fruto das minhas ações.

    — Às vezes a gente faz coisas para suprir necessidades que nós mesmos fazemos ser necessárias, mesmo sabendo que tal coisa nos faz mal. Bebida, cigarro, entre outras coisas. É o que eu acho.

    — Sim. Vício. Você descreveu o que acarreta. É muito metafísico isso. Concorda?

    — Com o que disse? Sim.

    — Vício. Dá para fazer uma puta comparação ou intersecção com as pessoas.

    — E ao que disse lá em cima sobre câncer. Cigarro causa sim câncer, mas não como dizem.

    — Muita coisa causa câncer.

    — Sim, mas demora muito, em alguns pode ser em algumas dezenas de tragas, mas em outros pode nunca nem acontecer.

    — Sim. Como quem nunca tragou pode desenvolver.

    — Sim.

    — Porém, é evidente que quem é fumante está mais propenso. Seja ele passivo ou ativo.

    — Uma série de coisas que ingerimos, assim como vários temperos, causa câncer. E ninguém liga pra isso.

    — Cara, agrotóxico. Uma centena de coisas.

    — Eu não ligo pra nada disso, tô foda-se. E não quero me importar ou me preocupar.

    — Você diz estar “foda-se” para uma série de coisas. A questão é: Até onde isso é verdade? Já se questionou se diz isso a si mesmo apenas na tentativa de se auto convencer? Dizendo alto e em bom tom?

    — Nunca me perguntei. Mas não acho que seja.

    — Hum. É, pode ser. Ou simplesmente nunca se questionou.

    — A questão é que mesmo sabendo que é errado. A gente costuma, eu costumo, me apegar aos vícios e eles me controlam. Passo a agir por eles a ponto de fazer qualquer coisa para suprir meu desejo.

    — As vezes a gente deseja o que destrói e isso é duro de aceitar e lidar.

    — Concordo.

    — Isso explica muito sobre nós.

    — Eu sei… Eu sou a merda do cigarro não é?

    — Sim. E eu tô tentando parar de fumar.

    — E hoje um alguém te encarou e acendeu a porra de um cigarro na sua frente.

    — Exatamente. Justamente enquanto estou lidando com a abstinência.

    — A merda da abstinência.

    — Ela é sufocante porque os segundos correm e só o desejo com mais veracidade.

    — Ainda que cada trago seja intenso, pouco a pouco tudo se desfecha em cinzas.

    — Você sabe, você vê.

    — Não importa o quanto eu queira…

    — Eu sou nocivo.

    — Não pode continuar a me dar o poder de destruir você.

    — Eu dei o poder e luto para tomar ele. Já havia se tornado um vício.

    …

    — Tenho sede do seu trago.

    — Dizer isso não me ajuda.

    — Desejo você para cacete a ponto de ser egoísta, te querer só para mim. É forte a ponto de te fazer mal. Eu sou a merda de um nocivo. E você tem a porra de um vício. Me desculpa.

    — Eu queimo em intensidade e incendeio ao queimar o cigarro.

    — E é nesse momento em que me tem nas mãos. E eu me desfaço. Momento que sou teu. Momento que você, pelo prazer, me dá o poder.

    — Eu detesto você por tudo isso. E detesto ainda mais a mim.

    — Tudo poderia ser suave. Mas, como você falou, o controle só existe enquanto não há o vício.

    — Sim.

    — São pequenos esforços diários...

    — Eu sei. E hoje, eu não vou tomar minha dose de você.

    — (…).


    Janaina Couto ©
    [Publicado — 2019]

    @janacoutoj

  • [Roteiros] DETALHES

    14h16

    Acho que sim. Você disse que não corre atrás e que não irá implorar nada. Sei que faz quando vê um problema, mas, aparentemente, não vê problema em nada.
    [...]
    Vejo sim. Vejo um problema, mas não o mesmo que você.
    Simplesmente queria que se colocasse no meu lugar. Mas, nāo tenta fazer isso. Fica dizendo equivocadamente que eu nāo tenho o direito de me justificar ou de também estar chateada. Acho um absurdo. Só queria que visse o meu ponto de vista para entender que "eu tenho o direito sim" e não ficar como hipócrita na sua visão.
    A sua frustração é quanto a um ocorrido, qual eu ainda não entendi pois você se recusa a explicar; a minha, por vez, é com a sua forma de lidar com ela, o seu modo de agir quando diante de uma situação de incômodo. Você está agindo pensando no mérito e eu no processo.
    [...]
    Entendi. Sei que se trata disso. Quanto a minha forma de lidar, reconheço que me estresso, quero distância no momento e me recuso a falar a respeito, faço isso porque qualquer atitude/decisão minha no momento será influenciada pela emoção, acabo sendo imediatista e agindo de uma maneira que sempre me arrependo depois.
    O seu agir na emoção me afeta de um jeito que você nāo faz ideia e a minha frustração/irritação foi justamente por isso.
    Eu nāo sou assim, a gente é diferente nisso. Tento nāo ser imediatista, as coisas ditas em instantes ficam e a gente nāo apaga. Quando eu tomo uma decisāo é de verdade, pra valer. Por isso te perguntei e te disse "me fala quando tiver convicção". Por isso nenhuma vez eu disse qualquer coisa do tipo. Não sei se entende o peso de falar isso…
    [...]
    Compreendo perfeitamente. Mas, voltando ao cerne da questão, ao mérito, ao que me frustrou… você não se desculpou de nada, em momento algum, somente justificou tudo. Eu entendo e concordo com o que disse, mas eu não quero mais ouvir justificativas e argumentos.
    Não fui bom o suficiente pra você e acho que, talvez, nem você pra mim. Como você mesmo falou, não costuma "correr atrás", se é assim, por favor, não faça isso, minha decisão está tomada.
    [...]
    Não sei o que falar nessas horas. Ainda assim, já nāo importa.
    Eu fui de verdade. A todo instante, nāo menti ou camuflei nada. Fui sempre sincera.... desde o início, até mesmo no longo "meio-termo". Quero que saiba. Não comecei nada cogitando um fim, mas, as vezes é como aquela música da Cássia Eller " o 'pra sempre' sempre acaba".
    [...]
    Você sabe porque acabou.
    [...]
    Eu sei, pelo motivo que eu nāo queria que tivesse acabado.


    20h02

    [...]
    Isso está me torturando.. Vai me atender?
    [...]
    Por qual razão saiu e me deixou falando sozinha?
    Eu disse que tinha muito a falar, pois, depois que tanto implorei para pontuar, fui capaz de compreender seus motins (finalmente entendi ao que se referia ao falar em "detalhes") e você ainda insistiu em sair andando.
    [...]
    Você só diz o que eu não preciso ouvir.
    Sabe o que aconteceu e você parece não se dar conta? Hoje eu percebi, com decepção, que você não correria atrás de mim. Simplesmente parece que não se preocupa com a ideia de poder "me perder". Seria capaz de me deixar partir por uma simples desavença, por ser orgulhosa a ponto de não querer correr atrás e fazer eu ficar.
    Demonstrou que não faz "questão" de me manter na sua vida. Aliás, confesso, ver sua indiferença me matou.
    O papel que eu fiz hoje, você quem deveria ter feito. Eu quem estava frustrado e decepcionado, o que me levou a cogitar uma ruptura, literalmente fui atrás de você por ter dito aquilo a flor da pele, para "resolver" as coisas.
    [...]
    Eu faria, faria o mesmo. Se, desde ontem, soubesse exatamente do que se tratou o seu desconforto, como fui capaz de compreender hoje depois que se propôs a falar. Já disse, não leio mentes.
    Aliás, faço questão sim. Diferente de você, eu sequer colocaria a hipótese da gente terminar por causa de uma simples briguinha.
    [...]
    Você ficou argumentando, tentando se explicar de alguma forma para se isentar de qualquer sentimento de culpa, enquanto deveria ter ficado quieta nesse sentido e simplesmente tentado resolver as coisas, independente de seja lá o que for.
    De antemão, esclareço que, sequer se trata de um "problema". Você se expressou mal, creio eu. Não "errei". Isso sequer deveria ter tido condão para causar discussão.
    Meu bem, uma omissão minha que te fez sentir-se mal… deveria tranquilamente ter me dito, nas suas palavras, que: "eu gostaria que agisse assim, essas pequenas coisas que deixam confortável e demonstram - para mim - que estás comigo, me fará muito bem se passar a ser mais atenciosa nesses detalhes, por mim".
    [...]
    Mas, independente do cerne da situação, você me deixou partir. Algo que eu jamais esperaria. Aliás, ainda nem consigo digerir isso, fiquei incrédulo e por isso mais uma conversa.
    [...]
    Estávamos conversando e tentei explicar o meu agir diante de como vi a coisa. Você parece não perceber que eu não iria "correr atrás" diante de uma situação onde eu sequer constatei "problema" para justificar sua escolha de partida.
    [...]
    Eu vi indiferença da sua parte e me magoou muito. Não disse o que precisava dizer, o que eu precisava ouvir e, sobretudo, o que deveria ter dito. E tenho convicção de que sabe ao que me refiro.
    Isso aqui não era para estar acontecendo, estou praticamente te cobrando. Se você quisesse a minha presença, diria por espontânea vontade. Mas, pelo jeito, a ideia de ruptura não te suscita nada. Não te assombra.
    Como se não bastasse, depois de tudo o que foi dito, das coisas que eu queria ouvir após todo esse meu agir, ainda não ouvi ainda.
    [...]
    Há pouco tempo, eu jurava que você estava disposto por um ponto final no nosso vínculo e isso definitivamente não era o que eu queria. Mas, com tudo nebuloso, ainda ousei e falei: DECIDE e me diz uma coisa dessas somente quando tiver convicção, justamente para você repensar e prestar atenção no absurdo. Sabe, eu jamais imaginaria que diria o que disse. Confirmando uma escolha ruim.
    Eu nāo tinha como correr atrás. Aliás, eu jamais imaginaria que precisaria correr atrás pois eu não fazia ideia de que, diante de uma situaçāo mal interpretada e não esclarecida, você diria um adeus.
    [...]
    Essa conversa não vai dar em nada de novo. Não entraremos em um consenso. Sabe, como se não bastasse, constatei algo que me abalou. Vamos deixar a situação como está.
    Por fim, te peço desculpas por não ter tentado lidar com as situações de incômodo de uma forma melhor.


    22h45

    [...]
    Eu te peço desculpas, agora, por nāo agir do modo que você gostaria, um modo que eu poderia agir e não percebi (digo isso quanto aos detalhes). Aliás, me desculpa por ser "individual" em algumas coisas, sua frustração nesse sentido é, infelizmente, válida. Reconheci isso, percebi tudo sobre os detalhes depois que se propôs a pormenorizar.
    Eu já havia dito que agiria de acordo, por querer agir, por ver sentido em passar a agir assim. Agora, sei como são importantes, apesar de chamarmos de "detalhes".
    Peço desculpas também por nāo ser direta, sei que isso complica muito as coisas.
    Peço desculpas por colocar expectativa no seu agir e me frustrar com ele.
    [...]
    Pediu desculpas somente após ouvir as minhas pelo meu imediatismo cego. Pediu desculpas como se fosse por obrigação.
    Sinceramente, se eu nunca amei alguém antes, acredito que estou amando agora e não gosto de amar alguém. Dói e frustra. Não quero esse sentimento de amor.
    [...]
    Isso foi inesperado e cortante. Não queria te proporcionar isso. E, outra, você nāo é o único a ser afetado nessa história.
    Sobre desculpas, está equivocado. Eu mesma já te disse que um pedido de desculpas sem mudança é manipulação.
    [...]
    Quanto a minha dor, já tomei atitude a respeito. Você precisa me esquecer, o que eu acho que não é tão difícil, a ausência do seu agir quanto aos detalhes me leva a pensar assim.
    [...]
    Não tenho como esquecer ou parar de sentir tudo o que pulsa em mim de uma hora para outra.
    Qual atitude? Aquela decisāo anterior? Aquilo realmente é do seu desejo?
    Como assim, isso foi um "eu amo você"? Disse me amar e não gostar disso?
    Cacete. O primeiro "amo você" que ouvi, dessa forma de amor, foi pronunciado com pesar. Não faz ideia do quanto isso é decepcionante.
    Vejo que está decidido… Se é assim, quanto aquele texto, sobre o parágrafo final (que prometi te responder na hora certa), foi sincero. Sei que nāo mais te importa, mas, foi real.
    Isso explica muita coisa... o meio-termo que me submeti, mesmo sendo doloroso para mim, por causa do desdém e, ainda assim, eu estou aqui.

    [...]
    Um amor que só você sabe que existe? Que não me demonstra com atitudes? Um sentimento que eu não vejo? Um sentimento vomitado? Você me diz muitas palavras de amor, mas tenho a sensação de quem são da boca pra fora.
    [...]
    Eu tenho plena convicção do que sinto e é horrível te ver menosprezando algo que está em mim, algo puro e singelo que pulsa por você.
    Sabe, quanto às suas perguntas retóricas, eu também poderia fazê-las. Principalmente por você ter colocado a hipótese de ruptura, enquanto eu jamais faria uma coisa dessas.
    [...]
    Não conta isso que estou fazendo? Nem mesmo tudo o que já fiz até agora? Aliás,coisas que eu nunca fiz e jamais faria por nenhum outro alguém?


    00h05

    […]
    Tem mais alguma coisa a falar?
    [...]
    Só a ouvir...
    [...]
    Isso quer dizer que está me esperando dizer algo específico?
    [...]
    Talvez. Na realidade, se trata do que eu gostaria de ter ouvido há muito tempo. Mas, não sei, acho que já desencanei…
    [...]
    Entāo isso significa que independente da nossa conversa a sua decisāo é aquela?
    [...]
    Faça uma reprise de todo o acontecido, lembre das coisas ditas.
    Eu fiz e percebi coisas que eu e você dissemos e que nāo dissemos. E, sobretudo, nas coisas que eu falei.
    Aliás, aceito suas desculpas, ainda que você nāo reconheça as minhas.
    [...]
    Eu aceito as suas. Mesmo que eu não tenha sentido sinceridade.
    Como assim? Esteve repensando exatamente o que?
    [...]
    Como as pessoas são capazes de sentir e isso nāo estar ao alcance do outro.
    [...]
    Se refere a o que?
    Quando eu disse que sinto o mesmo que você, me falou que nāo percebia assim…
    [...]
    Não irei te enganar com uma mentira. Não há nada que eu possa fazer a respeito, pois se trata do que eu vejo e sinto.
    [...]
    A gente pode levantar infindas coisas para justificar o nāo crer no que o outro alega sentir.
    [...]
    Eu não vejo o seu sentir e se ele realmente existe, não me satisfaz.
    (...)
  • [Roteiros] ESPETÁCULO

    (…) — Gosta dessa quebra?


    Penso diferente, vejo diferente a situação. É como se eu assistisse você dançar, ir e voltar, se fazer e se desfazer. Se refazer. Oscilar quando lhe é conveniente. Entende?

    Eu sou a plateia. Aquela que assiste com certa indiferença. Já que a plateia segue inerte e se adapta ao que assiste, ainda que com uma visão crítica, seja ela negativa ou positiva. Mas, ainda assim, aquela plateia que não abandona o espetáculo. E, talvez eu seja esse tipo de espectador. Não sei, complicado.

    A questão é que, pensando do ponto de vista do espetáculo, há instantes em que a gente, expectador, se ver extremamente cativado, porque tudo ainda é desconhecido e ainda estamos esperando, com ansiedade, já que não sabemos o que vai surgir dali. É fresco. Desperta uma enorme curiosidade para desvendar o desconhecido. É excitante. Principalmente a ideia de ter algo tão próximo e quase ao alcance das nossas mãos. O segredo está aí, no quase, principalmente na incerteza se as nossas expectativas quanto ao que está diante de nós serão supridas ou frustradas.

    Só que quando nos deparamos com o primeiro embate, a primeira crítica negativa, a primeira cena do espetáculo que a gente não gosta… acho que a oração é essa “não gosta” ou que fere aquilo em que acreditamos, bem como os nossos valores ou princípios; a gente fica com um pé atrás, surge então o receio do que há de vir, a plateia fica com um olhar mais cauteloso.

    Alguns, talvez, quem sabe, até mesmo fascinado pela quebra de expectativa. Ruptura.

    Aí sim, ocorre aquela velha coisa de “se adaptar a situação” e nosso encanto passa a se pautar em momentos. “Ah, gostei dessa cena” outrora “nossa, não gostei nem um pouco disso”… entende? Deixando-se levar pela maré.

    Sempre vai ser assim, passa a ser assim, a depender do espetáculo como um todo e do desenrolar do enredo, o espectador vai se adaptando as cenas e se impondo a respeito delas ou, simplesmente, sem mais nem menos, em algum instante sai da sala e abandona o espetáculo.

    Isso, abandona. Porque já não faz sentido ver aquilo, assisti-lo já não o cativa. Talvez justamente em razão das coisas que confrontam os seus anseios, valores princípios ou, até mesmo, as expectativas frustradas do espectador; se sobressaem quando diante das coisas que o cativaram naquele espetáculo. Então, o espectador decide ir embora, com plena convicção e ciência do que faz. Ele sai daquela sala, literalmente abandona, porque já não há mais sentido permanecer, ficar, e observar uma coisa que em cima ele vai desmoronar.


    […]

    (…) — Por que permanece?


    Sinceramente, não sei.

    Acho que… ansiei por tempo demais a transformação do vínculo, o ápice, ou melhor, a saída do meio termo. Eu percebi a entrada e não a interrompi, pois acreditei que logo haveria uma definição e a linha já não seria mais tênue. Seria uma coisa ou outra.

    Mas, eu esperei por tempo demais. Identifiquei idas e vindas e senti coisas diversas. Também reconheci muita coisa que me desagradaram e que pulsam para que eu abandone o espetáculo e pequenas coisas que me cativaram, sendo assim, me fazendo questionar o que mais teria a conhecer.

    Me importei com algumas coisas e muitas outras me atingiram, justamente por ferirem meus valores e princípios. Sobretudo, ainda assim, houveram aquelas que eu gostei intensamente.

    E permaneço, creio, que por elas.

    Quer saber? Acontece que eu já nem sei. Simplesmente permaneço. É isso, fico a observar. Porém, sem expectativas, nem mesmo a menor delas. Nenhuma.


    […]

    (..) — Está presa nisso aqui e não quer assumir.


    É realmente tudo muito ridículo.

    Respirei profundamente.

    Naqueles segundos, não me olhei para mim, me desfiz e me refiz.

    E é quando, finalmente, me levanto.

    Após nenhuma cena específica, mas, simplesmente porque aquilo já havia me cansado. Passou a ser tedioso e nenhuma cena mais me causava euforia e as que deveriam me causar pavor, nāo me surpreendiam. Eu seguia inerte, sequer ansiava o final do enredo ou fazia presunções.

    Me levanto. Sem mais, nem menos. De uma hora para outra. Sozinha. Sem nenhuma transformação. Cambaleio no escuro, esbarro em uma pessoa ou outra, ouço alguns murmúrios e sussurros, sobretudo questionamentos sobre a minha saída.

    Em segundos, passo pela grande porta. E, por incrível que pareça, indago a minha partida. Sigo o longo carpete vermelho e entro desesperadamente no banheiro.

    Fito o meu rosto sereno e sólido no espelho. “O que estou fazendo? Vai continuar se submetendo a isso aqui? Você merece mais”.

    Suo frio e cogito voltar. Não sei exatamente o que me levou a isso.

    Lavo as minhas mãos e, numa tentativa fútil de amenizar a tensão, — que não sei donde vinha — as deslizo molhadas sobre meu rosto.

    Encaro-me. E falo, alto e em bom tom, para mim mesma, com convicção: “eu abandono o espetáculo, agora”.

    Então caminho suavemente até a loja de conveniências, compro um chocolate qualquer, o saboreio, reclamo do gosto enjooso.

    Como se não bastasse, resmungo do tempo perdido e do valor do ingresso da porra daquele espetáculo.


    Janaina Couto ©
    [Publicado — 2019]

    @janacoutoj

  • [Roteiros] ETERNO

    […]

    Estive refletindo todo esse portfólio. O nosso amor. Sabe no que tanto andei pensando? Que a gente deveria casar. E ter uma família, cachorro. Temos uma conexão surreal, gostamos muito um do outro. Não há desculpas ou o que se questionar. Já sei que a resposta é um sim, não precisa responder. Agora só falta marcar o dia… Pode ser hoje mesmo, ao anoitecer, no Recanto, assim que eu sair do trabalho. Fechou então, marcado.

    Vamos mesmo casar hoje, viu? Uma cerimônia a dois, simples e singela, vamos eternizar cada segundo entre o luar e o alvorecer.

    Está será a noite mais incrível dos nossos dias.

    Olha, juro para o Universo que não estou brincando. Você diz que eu sou louco, mas ainda não sabe o quanto. Te amo, meu Jacarandá.

    […]

    Está falando sério? Adorei o seu falar cheio de convicção. Convicto quanto a mim. Exatamente assim, não há que se ter dúvidas.

    Eu trocaria a eternidade por esta noite, como em “Relicário — Nando Reis”. Caso com você quando e onde quiser.

    Assim que te vi, topei uma vida com você e todos os frenesis que há de vir. Estamos entrelaçados. Ligados por todo o sempre.

    O destino me mostrou isso ainda no principio. Te contei, cedo, nas entrelinhas e você não se deu conta.

    Lembra quando nos conhecemos? A primeira vez que nos encontramos?

    Recordo fervorosamente cada detalhe. A primeira vez que senti o seu toque, o teu cheiro, o teu olhar… A primeira vez que ouvi o teu timbre. O nosso abraço sob a densa chuva.

    As águas de março fechavam o verão e naquele dia eu tomei o banho de chuva mais gostoso da minha vida. Sobretudo, me vi no envolto corporal que estranhamente me arrepiou dos pés à cabeça.

    Somente quando diante do seu olhar eu compreendi tudo. Se tratava daquilo… a chuva.

    Quando do nosso primeiro beijo, a chuva também estava lá. Marcando o principio do relicário imenso desse amor.

    Em algum lugar no tempo ouvi dizer, e acredito com veemência, que as coisas que se iniciam com a chuva são eternas. Nos transformam. Mudam a nós mesmos radicalmente. É um sinal de que estamos alinhados ao nosso destino. São instantes atemporal.

    Sabe, tenho essa sensação… de que o “eu e você”, de algum modo, sempre esteve escrito. Não sei explicar, só sinto.

    […]

    Mulher, você é fantástica. Confesso, tive receio de que julgasse bobo, precipitado e mal desse ouvidos. As estações correm e nós permanecermos a agir como no principio. Não há que se esperar nada se tratando de nós dois. Não passamos vontade. Não importa como, quando ou onde. Gosto disso na gente.

    […]

    Óbvio que foi inesperado. Sem mais nem menos, de um instante a outro. Aliás, diante de tudo isso aqui, inequívoco que eu seria incapaz de dizer um “não”.

    Se trata de você, meu bem. O homem que tem nas mãos o meu choro de mulher, que tem o meu ver, o meu olhar e o que quiser.

    Eu toparia casar com você até mesmo se a proposta for fazendo juras de mindinho. O casamento, ao meu ver, não é institucional e sim simbólico.

    […]

    Você tem um potencial para me dizer coisas tão lindas que eu fico perdido sem saber o que responder. Como se nada do que eu dissesse fosse capaz de expressar tudo o que eu sinto.

    […]

    Não precisa me dizer nada. O seu olhar, o seu toque, me diz o Universo e o mundo. A sua linguagem do amor é diferente da minha. Eu não preciso de palavras de afirmação para reconhecer o que você sente.

    Você não precisa usar comparações, canções ou palavras bonitas para me fazer sentir amada. Basta palavras sinceras. Apenas.

    Gosto dessas nossas conversas. São lindas. Parece até mesmo que estamos seguindo uma espécie de roteiro, escrito por um alucinado que idealiza o amor.

    […]

    Eu jamais havia imaginado estar vivendo isso aqui. Esse “agora”, com você. Quando te conheci, não imaginei que seria a mulher com quem dividiria a minha vida. Na realidade, sempre te achei tão dona de si que parecia loucura cogitar qualquer envolvimento contigo. Você é um Universo de qualidades.

    Não sei o que em mim tanto te cativa.

    […]

    Sinto em dizer que não sei te responder. É um mistério. Eu mesma me questiono isso. O que faz você, ser você. Há algo, sei que há. Algo imenso.

    Posso apontar a dedo cada detalhe seu, pinta, marca, riso, jeitos e andados. É um conglomerado de coisas que te faz único. Fico imersa nos seus detalhes.

    Não precisa de muito. É justamente por ser tratar de você.

    Não sei explicar, desde o início, ainda que você e qualquer outro alguém agisssem exatamente da mesmíssima forma, eu sempre fui atingida ao máximo por você.

    O sorriso que enaltece o meu dia. O colo que eu deito e descanso. O olhar que despertar o meu lado devasso.

    Não percebe? Eu amo você. Você. Todo o conjunto do seu eu, cada partezinha.

    […]

    O que eu sinto por ti é desmedido a ponto de ser misterioso. Até mesmo mais que o céu, o luar e as estrelas. Eu sei exatamente o que torna você, você. Cada uma das coisas que me faz transbordar.

    […]

    Sabia que sou fascinada nessa coisa? Planetas, estrelas, anéis… Gostei dessa comparação com os astros. Pode ter certeza que irá encontrá-la em algum dos meus textos. Eles são cheios de você.

    […]

    Então, escolhi a noite certa. Um evento celestial para marcar mais um epílogo. A noite de glória para Vênus, seu ápice. Iremos contemplar o extremo de seu brilho sobrecarregar as Plêiades, da constelação de Touro.

    Aliás, por falar em astros, recorda a primeira música que cantei para ti? “Mecânica Celeste Aplicada — Yoñlu”. Tudo quanto a nós está repleto de pequenas coincidências. Sempre estamos diante da “sincronicidade” que você tanto fala.

    […]

    Espero não estar sonhando, delirando ou em devaneios. Você sempre me surpreende e cada vez de uma forma mais esplêndida. Se eu pudesse, nos fazia eternos.

    […]

    Vamos estagnar o tempo. Eu te farei eterna, em mim. Exatamente como em “As Coisas Tão Mais Lindas — Nando Reis”. Dias, semanas, meses, anos décadas e séculos, milênios vão passar e viveremos por todo o sempre, eternamente, no templo que construímos um no outro.

    […]

    Me sinto grata por você ser o alvo de toda a minha doação e entrega. É um prazer ser você a ter nas mãos o meu sentir e cada fresta do meu corpo. Eu amo a forma como me tem, como me toca (em sentido amplo).

    […]

    O prazer é mútuo. Sei o quanto adora ser chamada de “Vênus”. Mas, você não se dá conta que ser uma deusa, se tratando de ti, ainda é pouco. Você é um Universo inteiro. Aliás, o mais lindo que poderia existir. Tanta força, beleza e intensidade em uma única mulher. Você é expansão.

    […]

    Obrigada, meu bem.

    […]

    Eu quem sou grato. Terei a honra de casar com você. Aliás, venho matutando isso há dias consideráveis. Te comprei um vestido bem antes disso, por de imediato memorar você.

    Fica tranquila, não é branco e muito menos “de casamento”. Sei o que pensa a respeito. Sabe, Ele é do tecido e com os tipos de detalhes que você gosta. Quanto a cor, estampa e tudo mais, não sei dizer. Ele é a linha tênue entre o luar e o alvorecer.

    […]

    Perfeito.

    […]

    Sabe, adoro isso na gente… como nos tratamos. O imenso respeito. A cautela, cuidado e zelo um com o outro. O nosso amor puro. Nesta noite, vamos materializar não apenas simbolicamente. Te fiz algo. Também te escrevi outra música. Bom, seria surpresa, mas eu fico nervoso nesses instantes.

    […]

    Tenho certeza que irei amar.

    Está aí mais uma coincidência. Finalmente finalizei aquele capitulo. Eu escrevi todo o nosso enredo. Cada texto é pautado em um momento. São escritos repleto de frases, cores e falas dos nossos dias. Pormenorizei os nosso detalhes. Espero que goste da minha dedicatória, o primeiro exemplar será seu. Bom, seria surpresa, mas não me contive.

    […]

    Nas ultimas semanas, reconheci o seu jeito e andando diferente. A mudança do seu semblante. Acredito que se tratava disso. Eu tenho convicção que irei me desmanchar com cada palavra.

    […]

    Se trata não somente, mas também disso…

    […]

    Olha, a semana corria e muitos momentos pensei em “arrancar” algo de você, mas não tentei. Você pode ser boa em muitas coisas, mas não sabe disfarçar. Dissimular não é uma característica sua. Eu sinto que tem algo mais.

    […]

    Confesso que já fui melhor nisso. Te mostrei cada uma das minhas versões. No inicio de tudo isso, sobretudo, naquele 29 de fevereiro, eu te era um enigma. Hoje, me conhece tão profundamente que facilmente me decifra.

    […]

    Dona do meu pensamento, cogito algo. Aliás, que eu desejo fervorosamente que seja. Me diz, por favor, que não estou equivocado. Fala de boca cheia e com todas as letras que o nosso vinculo eterno já foi materializado.

    […]

    Se trata disso. Carrego o nosso vínculo eterno em meu ventre.

    Janaina Couto ©
    [Publicado — 2020]

    @janacoutoj

  • [Roteiros] RECEIO

    [Roteiros] RECEIO
     
     — Jamais. Vou me atentar a tudo o que você expôs e o que eu mesmo reconheci e prometi a respeito. E, você sabe o que eu sinto por você. Pode não ver ou sentir, por eu não demonstrar. Estou muito consciente quanto a isso. Mas, não é possível que não tenha se dado conta de que você está sendo a melhor pessoa que eu pude conhecer. Você é a minha dádiva.
    Se leu o meu texto, sabe o que eu penso.
     — Eu li e reli uma centena de vezes. Eu amo você, meu Jacarandá. Talvez, a única mulher que sou capaz de amar. Apesar dos pesares.
     Frase minha…
     — Minha agora.
     Eu sei. Ou acho que sei. A minha única certeza é quanto ao meu imenso sentir. Você é o motim de todo ele. É insano a minha sede do seu eu”. Sinto que absolutamente nada será capaz de me dissociar de você. A comistão ocorreu e, felizmente, não há nada que possamos fazer.
     — Diz que sabe… Diz que sabe que eu amo você.
    Espero que nós dois nunca magoemos ou decepcionemos um ao outro para algo bonito nāo se tornar lindamente horrível.
    Pois, tenho plena convicção que na hipótese, eu, ainda que não mais goste de você, jamais deixarei de te amar. Isso vai me dilacerar de todas as formas, esfarelar o meu sentir e sei que levarei comigo por todo o sempre cada uma das migalhas.
     — Fico boquiaberto com cada palavra sua. Independente do que aconteça entre nós, sei a imensidão de tudo isso… que você realmente gosta de mim e de mais ninguém. Jamais serei hipócrita ao ponto de jogar fora.
    Nós somos pessoas, meu bem. Sobretudo, muito diferentes. Se é preciso ter cautela e cuidado consigo e com o que causamos no outro. Eu mesma tenho medo de fazer mal para você, de qualquer forma, … emocionalmente, psicologicamente. E, se esse desatino um dia acontecer, jamais me perdoarei. 
     — Eu também… apesar dos pesares. Me sinto péssimo quando me diz essas coisas. Fico imerso nesse contexto. Não entendendo como sou capaz de afetar você de diversas formas, com minhas omissões e posições. Aliás, sei que essa sensação é recíproca da sua parte. O nosso amor é lindamente doentio.
    Sim. Espero, com todas as minhas forças, que as coisas que foram ditas após o episódio quente diante do enorme Cinamomo não sejam por ti ignoradas. Sabe, para o meu bem e consequentemente, o nosso. Eu mergulho, chego ao âmago e você parece não ter qualquer noção quanto as profundezas. Para existir um relacionamento amoroso entre nós, eu preciso que você se atente, assim como eu sei que preciso em alguns pontos.
     — Sim. Eu sei disso. Fica tranquila. Inequívoco que nada é proposital. Jamais me perdoaria por machucar você. Sou incapaz desejar, planejar ou cogitar tamanha atrocidade. Sabe, a mudança não será efêmera, mas prometo tentar. Não quero te afastar de mim, aliás, isso sequer é possível… somos uma linda comistão, lembra?
    Não me interprete mal, foi porque noite passada me vi precisando avisar a presença de uma coisa que outrora você havia dito que iria se atentar e tentar evitar.
     — Sabe, me vejo abraçando você, te beijando e presenteando com uma rosa, mas que está dotada de espinhos quais eu sequer os vi ou senti. Até que, de um instante a outro, você se espeta. O seu sorriso se esvai, o seu olhar fica trêmulo e fixos aos meus. Exato momento que te vejo sangrar e me desespero. A culpa permeia o meu corpo sou dilacerado por ver que, ainda sem ter querer culpa, te causei dor…enquanto na realidade o que eu desejava era tão somente proteger, cuidar e amar o meu universo, a minha mulher.
    Não vou negar, vejo isso. Somente frisei aquilo por ter receio de que você entenda todo o epílogo desde o desabafo no Cinamomo como um “Ela nāo se importou. Fez uma cena. Nāo consegue ir”.
     — Não. Não penso isso de você.
    Me vejo voltando atrás numa decisāo e isso é incomum, se tratando de mim. Nāo descarta as coisas que eu te falei. Um pedido de desculpa ou uma promessa sem mudanças é manipulação, leva isso pra vida. Prometo ser cautelosa com você.
     — Adivinha o que estou ouvindo?
    Não faço ideia, meu bem. Vou voltar a dormir… levantei para falar contigo antes de você ir trabalhar e estou acordada desde entāo.
    Vamos ver até quando isso vai durar. Estou ouvindo a música que define você, para mim. Você segue o nosso pacto à risca, se faz “nua e crua” para mim e a canção retrata isso. Retrata a grandeza de uma mulher, de imediato penso no meu universo. Você. Ela é, sobretudo, linda como você. “É Você Que Tem — Mallu Magalhães”. 
    Irei ouvi-la agora. Não pausa, okay? Colocarei os meus fones, ouviremos juntos. Olha, se depender de mim, essa rotina vai perdurar por todo o sempre. Em cada um dos nossos dias.
     — Você é surreal.
    Sabe o que também é surreal? Enquanto qualquer coisa é motivo para você nāo querer falar comigo, eu suprimo minhas horas de sono para ter o prazer em falar com você antes do incio do amanhecer.
     — Não diz isso…
    A verdade é dura de se ouvir…
     —Eu amo você.
    Meu mais insano e desmedido amor, se atenta aos detalhes, vamos fugir da mácula. Eu amo você, meu Tigre Malaio.
  • [Roteiros] RUPTURA

    Eu sempre vou ter o que falar. Não guardo palavras. Mas, é cansativo quando são proferidas em vão. Sobre o meu sentir, você sabe. Aliás, fim de semana passado foi incrível.

    Posso apontar a dedo (os seus e meus) erros e os acertos, ações e omissões, os altos e baixos.

    Obrigada pelos altos.
    Obrigada pelos dias gostosos.
    Obrigada pelos olhares, pelos momentos de verdade.
    Obrigada por me mostrar inúmeras coisas.
    Obrigada pela imensidão do que me permitiu sentir.

    Porém, foi sobretudo, conturbado para apenas uma estação. Não vivemos ou viveremos tudo o que eu gostaria. Não comecei nada pensando no fim.

    O ponto final você põe, agora, sozinho. Não precisa me falar razões. A minha resistência ao CEDER e a sua necessidade em IMPOR sempre foi um problema entre nós. Sobretudo, o jeito como lidamos com as coisas, que é grotescamente diferente. Causou muitos dias baixos (como ontem e hoje).

    Todas as minhas declarações, choros, abraços, beijos, toques e olhares, foram sempre, profundamente, de verdade.

    Sabe, você diz sentir o universo por mim. Não sei como se pode amar alguém e facilmente colocar ponto final em relação a ela, bem como sempre ameaçar partir. Muito menos como tudo pode ser razão para partida. Não sei se é por você ser imediatista. Não sei.

    Acaba por me proporcionar alvoroço emocional. O alvoroço existe justamente pelo que pulsa em mim, por eu gostar de ti de uma forma desmedida.

    Você parece não perceber que, para quem está do outro lado, isso é foda, pra cacete. É uma espécie de controle emocional. Sem contar que mostra fragilidade do nosso elo, em muitos sentidos. Te disse isso das outras vezes.

    Francamente, como amiga, se atenta nisso. Como isso afeta e o que demonstra para o outro. Não sei se nos seus relacionamentos anteriores isso fluía ou como sua parceira reagia. Mas, pode descartar se quiser. Não tenho outra experiência para poder comparar. E, ainda que tivesse, sabe o quanto detesto comparações.

    Por favor, não me venha com “vai deixar a nossa coisa se desmanchar”. Sendo sincera, você quem iniciou a ruptura e, dessa vez, simplesmente acatei sua decisão. Não jogue o peso da sua escolha sobre mim.

    Recordo precisamente do seu efêmero posicionamento. Ouvi com atenção aquela frase, que, aliás, óbvio, atordoa a minha mente. “Não está bom pra mim”. Ainda que antes mesmo de proferi-la, intuitivamente pude pressentir o que diria. A mensagem amarga. Ao soar de cada silaba proferida, cada movimento dos teus lábios, queimava. Lentamente eu provava cada farpa do veneno.

    Não vou enganar a ti, muito menos a mim mesma, estou decepcionada e, mormente, com raiva. Por todo um conjunto.

    Aquela conversa não foi em vão. Aliás, nunca qualquer conversa, fala, minha foi frívola. Detesto a ideia de me doar em conversas baldias.

    Você não pode dar tchau pra mim sempre que tiver vontade. Fazendo-me sentir imenso temor diante de toda e qualquer coisa ínfima, propriamente por saber que você, a qualquer momento, irá se voltar a mim dizendo um adeus ou ameaçando isso.

    Você não pode me dispensar e depois -quando quiser - me chamar, acreditando que vou ignorar isso e simplesmente "gozar".

    Não pode me descartar assim, achando que isso não me abala ou enfraquece um vínculo.

    Sabe o pior? Isso não foi agora. Já havia acontecido mais vezes do que eu gostaria, aliás, vezes demais que chega a ser difícil de acreditar. É tristemente reincidente.
    Não quero uma relação instável. Não quero me sentir insegura, pontualmente nesse sentido: “hoje ele quer estar comigo, amanhã, sem mais nem menos, talvez não”.
    Tenho horror a estar constantemente dependente da sua aprovação e, principalmente, a conviver com a necessidade incessante em me certificar de que “está tudo bem entre nós”.

    Não quero ficar absurdamente pressionada pela ideia de que “se eu não fizer determinada coisa ou se não agir da forma que ele espera/deseja, independente do que penso ou quero a respeito, para mantença do ‘nós” irei ceder, senão ele virá colocar um ponto final ou ameaçar fazer”.

    Não quero estar obrigada a ceder quando não vê necessidade ou sequer sentir vontade para tanto, muito menos quando reconhecer um problema quanto a anuência. Fico apavorada ao me ver sendo qualquer pessoa, que não eu mesma, por temer sua partida.

    Naquela madrugada, custava pensar antes de agir? O que te faz mudar de ideia logo após enfiar na minha garganta um ponto final? Nem sei se mudou, sequer o que te motivou a tomar uma decisão incrivelmente ruim. Juro que isso me intriga. Desde quando o que penso ou sinto sobre a árdua transição do “nós” para o “eu e você” passou a te importar?

    Você fez isso, sozinho, quando eu menos esperava, quando eu sequer podia sentir cheiro de partida, muito menos cogitar qualquer coisa parecida.

    Depois daquela tarde de domingo quente, quando fizemos juras de amor e promessas, exatamente quando, para mim, estava tudo passando a fluir de um modo surreal; mais uma vez, você me fez sangrar, encerrando o nosso ciclo por “bobagem”, quando parecia ser o início do nosso melhor tempo. 

    Acredito que foi a coisa mais idiota que você fez. Justamente por eu gostar pra caralho de você aquela conduta foi uma merda.

    Talvez, seja como canta Adriana Calcanhoto, “Rasgue as minhas cartas e não me procure mais, assim, será melhor.”

    Não importa o que diga. Não me é interessante que as promessas sejam renovadas. Pois, não me valem de nada até que as cumpra. Teve inúmeras chances e elas não foram aproveitadas.

    Não irei permitir ser como das outra vezes. Ainda que eu dê uma nova chance, para o “nós”, é muito provável que semana que vem você faça a mesma coisa. Nessa frequência, irei permanecer me magoando. Detesto com todas as minhas forças o “vai e vem”. Eu não aguento isso.

    Fico pensando naquilo... Se para ti não está bom, imagina para mim com essa instabilidade partindo de você. Não é decidido quanto ao meu “eu”, em muitos sentidos.

    É claro, não imaginava que o nosso relacionamento poderia ser conturbado assim. Instável. Não quero isso para nós. Desejo pisar em terreno seguro. Mergulhar e não cair nas pedras.

    Eu que sempre falei em reciprocidade e priorizei “leveza”, me deparo num naufrágio. Não está sendo saudável e você não vê ou, ridiculamente, fecha os olhos.

    Por constatar o caminhar das coisas e acreditar sinceramente que, nós dois, desejando, seríamos capazes de contornar a situação. Nos proteger da mácula. Te escancarei isso antes. Justamente pela árdua percepção que, naquele domingo, eu te implorei: “vamos tentar”. Mas, infelizmente, nas oportunidades para vermos a tentativa, ela não aparece.

    Desse jeito eu não quero mais. Estive pensando muito de sábado pra cá. A mesma cena se repete. Não quero permanecer num relacionamento desse jeito, a nossa coisa não estava boa para ti e, para mim, estava ainda pior. Sabe por quê?

    Não quero ter que ceder aos seus caprichos (saiba diferenciar ao que me refiro) sob ameaça de te perder! Muita pressão sentimental que estava me sufocando. Sinto que a qualquer momento estarei sozinha, quando eu menos esperar, então é melhor que seja agora, já que você mesmo decidiu isso sob o argumento ridículo de que não supro as suas expectativas.

    No mais, anseio estar com alguém confiante sobre mim. Você sempre com ameaça de fim não demonstra isso.

    Aliás, quanto a sua carta, foi a primeira que recebi dessa forma de amor. Olha, independente de tudo, você sabe o quanto eu sinto por você.

    Desculpa não conseguir responder. Pela primeira vez, não tenho palavras. E isso é raro. Acredito que por estar indignada, com raiva e decepcionada, por aquilo que já falei.

    Eu confiei em você. Confiei em muitos sentidos. Estava mergulhando e me entregando emocionalmente e fisicamente. Para o cara sempre romper comigo por nada. Sem contar nas ameaças de partidas anteriores e nas coisas que já te foram ditas.

    É evidente. Fiquei e estou magoada. Quanto ao nosso vínculo, sou porto seguro enquanto você, para mim, aparenta ser incapaz de ser qualquer coisa próximo a isso. Sempre instabilidade da sua parte.

    Não vou me sabotar tentando repousar a culpa da ruptura nas minhas condutas. Eu sei que tentei agir para você, a todo instante, da forma que eu gostaria que agisse comigo.

    Lembra? Em muitos momentos eu falei “É apenas o começo. Estamos nos conhecendo. Calma, tudo no seu tempo. Podemos lidar da nossa forma. Não esquece o nosso pacto”.

    A estação inteira eu pugnei por um relacionamento saudável. Com sinceridade, reciprocidade e confiança. Sem joguinhos, desconfiança e “paranóias”, pois sequer haviam razões para tanto. Eu via a instabilidade e a repudiava com todas as forças, pois, afinal, eu gosto muito de você e queria o “nós”.

    Acredito mesmo que quando os dois querem, fazem acontecer. Mas, se é preciso maturidade.

    Em muitos momentos não me impus da forma que eu deveria. Ao contrário, conversei cruamente para te explicar o problema de algumas coisas e que poderia se sentir seguro quanto a outras. Não obstante, aceitei coisas que não gostei, de modo desprezível deixando “passar” para ficar tudo bem entre a gente.

    Digo com convicção que em instante algum agi num imediatismo cego contigo, por temer o que isso poderia suscitar em você, a mim e, sobretudo, na nossa coisa. Sei que até mesmo tu reconhece. Pois, diante de toda e qualquer pequena situação de desconforto, eu explicava as minhas razões, problemas e escolhas, me fazendo “nua e crua”.

    Sempre valorizei e recordo de todos esses diálogos. Para mim, representavam um marco para que desde as ínfimas à grotescas situações de incômodo não se repetissem. Deveríamos evoluir para sabermos enfrentar e lidar com coisas novas.

    Reconhecendo que não raramente pareci a sua psicóloga, explicando o problema das coisas, pontos de vistas, aconselhando a ressignificar e mostrando como tudo poderia ser mais suave. Nós dois precisávamos de equilíbrio e aprender a sopesar as coisas.

    Como se não bastasse, para mim mesma, muitas vezes te julguei por “infantil”. Assim como sei que, ainda no momento tendo plena convicção do contrário, também fui.
    Fizemos “pactos” para facilitar o correr dos nossos dias, já que vemos e lidamos com toda e qualquer coisa de modos absurdamente distintos. “Eu e você sempre ‘nus’ e ‘crus’”, lembra? Mas, aparentemente, nos instantes em que mais se era preciso, só eu recordava e estava disposta a segui-los.

    No último mês, houveram partidas em todas as semanas. Todas! As mesmas promessas já foram feitas outras vezes, sobretudo, nas últimas semanas. Por favor, não vamos normalizar isso. Mostra bem mais que fragilidade.

    Relacionamento é balança e não depende só de um. A conduta do outro gera sempre reação. Se isso prosseguir, da maneira como estava, é inequívoco que iremos adentrar novamente no mesmo ciclo vicioso. Assim, acabando somente por prolongar isso, a ruptura.

    Não adianta forçar nada! A entrega, o cuidado, o zelo e a valorização da nossa coisa deveria ser, de ambas as partes, natural. Independente do quanto eu deseje, independente da nossa conexão foda, não temos que forçar dar certo.

    É insano. Foi o meu primeiro relacionamento e sei que minha inexperiência pode ter atrapalhado. Não que sirva de justificativa para erros e afins. Quero dizer que, apesar de tudo, eu tentei agir com maturidade e responsabilidade afetiva. Convivi com uma sede insaciável de afastar as coisas que abalavam o “eu e você”.

    Acredito que irei me magoar ainda mais persistindo nessa ganância de cuidar de algo que independe somente de mim. Não sei como de um instante a outro as coisas podem ser diferentes.

    Você sabe muito bem. Dei um passo muito grande, seria uma surpresa e acabei te contando quando do seu adeus.

    Percebe? É difícil digerir que até mesmo quando tudo está bem, sem mais nem menos, do nada, chove. É triste remoer que na maior parte do tempo estamos no “baixo”, enquanto me apego aos poucos momentos de “alto”.

    Foi a estação em que senti o mundo. Mas, foram dias, sobretudo, conturbados. As minhas emoções ficaram à flor da pele.

    Não acato sua decisão sob o argumento de “é melhor agora enquanto é cedo, antes de entrelaçamos nossas vidas ainda mais, antes se apegar”. Não, não tomo, porque eu já estava apegada o suficiente, desde o meio-termo. No mais, pouco a pouco, te inseri em todos os âmbitos da minha vida.

    Tratava-se do nosso começo e ele deveria ser, em tese, muito bom. Deveríamos, os dois, estarmos eufóricos pela entrega um do outro. A reciprocidade, a sinceridade, o cuidado emocional com o outro tinha de ser trivial. Sem a necessidade de precisar provar que se importa ou, muito menos, se sentir obrigado a tanto.
    Sabe o que demonstra que não estava sendo saudável? Palavras suas: “ambos estão exaustos”. São coisas que não coincidem para mim. Exaustão em um curto lapso temporal. Uma estação! Parece muitos mais tempo, não é? Mas, não, foi só um verão. Com o outono, chegou a ruptura.

    Dessa forma, eu não consigo seguir. Passo o meu dia ponderando em como podemos elevar o suporte do nosso afeto. Fico tentando compreender o que acontece. Como se não bastasse, sinto constantemente o peso de precisar provar para você que pode confiar em mim, que gosto de você, que me importo, que me preocupo.
    Sendo que eu acredito que nunca fiz nada para você pensar o contrário e agir de acordo com tal. Não faz ideia do quanto me sinto imunda por isso. Insuficiente. Ainda que seja convicta de quem sou, muitas vezes, me senti assim diante de ti.

    A única vez que a partida partiu de mim, foi por isso. Por perceber tudo! Conversamos sobre reciprocidade, leveza, sentir e tudo mais. Houveram promessas de ambas as partes. Você se atentou a algumas coisas, mas ao que magoava, não. Com a primeira chuva de outono, nos encontramos nisso, partida.

    Possamos gostar muito um do outro. Mas, não foi a primeira que me disse “não está bom para mim”. Não sei como isso vai mudar de uma hora a outra. Levando em consideração o quanto já tentei, me sinto esgotada, sem cartas na manga. Como de um segundo a outro te farei sentir-se realizado? Não quero ser hipócrita.

    É duro. Posso gritar para o mundo o quanto é duro para mim enfrentar isso aqui, a ruptura.

    Sofro pelo que poderia ter sido e não foi. Não esquece.

    Acredito que estou frustrada, não pela minha entrega, mas justamente por acreditar com lasciva veemência que, depois do pôr do sol daquele domingo, nós dois iríamos tentar, mesmo! Por acreditar que as promessas, conversas e pactos não tinham sido em vão. Pelo meu crer de que nunca mais haveriam idas e vindas. Sempre estive disposta a enrrigecer a nossa coisa.

    E, exatamente uma semana depois, tudo volta ao antes. Ao morno.

    Meu mais insano e desmedido amor, o “eu e você” não vai prosseguir. É árduo dizer que na maior parte do tempo estávamos frustrados um com o outro, ainda que em vertentes distintas.

    Não quero viver na esperança de tentar. Não quero permanecer num relacionamento que conforme palavras suas, “só tenho preocupações”. Não quero seguir assim.
    Nossa afinidade deveria ser o refúgio. Algo digno de agradecimento. Sabe, muitas noites eu agradeci ao universo por estar ao seu lado, por dividir essa fase com você. Ansiei muito para que passasses a me ter como confidente, assim como te fiz o meu. Te falei isso, mas sempre respeitei o seu jeito peculiar, astuto e ocluso, nesse sentido; acredito que tratava-se de uma questão de tempo para você se sentir confortável para tanto.

    Talvez eu tenha posto muito expectativa e essa seja a raiz da frustração. Mesmo que eu tenha tentado manter os meus pés no chão. Desejei ter o seu verdadeiro “eu” comigo.

    Nesse quesito, sobre a sua carta, nas folhas “amarelas”, eu gostaria, mas não consigo ler aquilo e dizer “você não foi assim para mim”. No entanto, afirmo com convicção que você não foi somente aquilo.

    Existem dois caras em você. Aquele por quem me apaixonei e o que me faz ir embora.

    Sei que eu não sou ótima. Que não sou a dona da razão, aliás, não raramente estou completamente equivocada. Mas, realmente tentei agir para contigo da forma que eu gostaria que agisse comigo.

    Eu não menti uma vez sequer. Não tratei com desdém. Não joguei na cara o tempo que despendi para estarmos juntos. Não enganei, nem com ações, nem com palavras e em nenhum instante isso passou pela minha cabeça. Eu fui nua e crua para você, te mostrei cada fresta. Mas, nada disso foi o suficiente.

    Como se não bastasse, o meu sentir, nas suas palavras, “não o satisfaz”. E, quanto a isso, me recuso alegar qualquer coisa. E sei que essa frase jamais será esquecida por mim. Já disse o quanto detesto seu imediatismo?

    Estou assoberbada de pensamentos confusos e conflitantes. Por hora, não sei o que tenho mais a falar. E o que sei que tenho, prefiro acalentar.

    Já falei tanto. Fiz cartas de amor (puras). Me declarei. Me entreguei. Sobretudo, me joguei da cascata, a queda foi gostosa, mas acabei presa nas pedras.

    Não quero mais. Desculpa, sei que devo, pois também errei contigo, apesar da minha “ingenuidade”, como mesmo dissestes. Aquela história. E, sinceramente, pensando em tudo que vivenciamos, analisando os motins das nossas discussões, aquela consistiu na única coisa com titulo de “problema” e digna de uma ameaça de partida. Quanto às demais, trataram-se de coisas que poderiam facilmente ser resolvidas e acabaram, por nós, prolongadas.

    Independente da minha raiva e decepção, juro que digo isso com um imenso pesar, meu bem: Nada do que te digo agora é inconsciente. Essas não serão mais palavras em vão.

    Eu não havia planejado falar nada disso aqui. Depois de agradecer pelos nossos “autos”, pensei: “ao decorrer dos nossos dias, já falei o bastante”. Nada do que expus te é novidade. Não abandono o espetáculo sem mais nem menos.

    Sabe o que me corrói? Não fui para ti quem eu gostaria. Ser refúgio e confidente, por exemplo. Você não me permitiu ser. Acabava comigo te ver “morno”, com a mente e o olhar distante e, especialmente, por notar que os problemas te consumiam a ponto de te fazer agir mal com os que te querem bem.

    Foram muitas as vezes que te implorei para saber o que estava rolando e querer ajudar, mas parei quando me disse em voz alta e em bom tom que não queria a minha ajuda. Não dividiu. Não mostrou confiar em mim. Não me inseriu nos outros âmbitos da sua vida.

    Ainda assim, por ter ciência da sua dificuldade em compartilhar, te perdoo pelos momentos de desdém, pelos instantes que estava atordoado com os problemas a ponto de parecer que eu nem estava ali, que a minha presença tanto fazia.

    Porém, muitas vezes, agiu como um idiota comigo, como você mesmo pormenorizou na segunda folha amarela daquela carta. Como se não bastasse, quando diante dessas ações te disse “eu não não mereço ser tratada assim”, não ouvi sequer um pedido de desculpas, mas sim um “então arranja um cara que te trate melhor que eu”.

    São tantas coisas. São praticamente infindas para apenas uma estação. Fiz uma escolha, acatei sua decisão e, por hoje, não quero falar sobre isso. A minha cabeça está cheia e o meu coração inquieto. Não existe mais o “nós”.

    Eu disse sério ao falar que estou com raiva e decepcionada. Essa ruptura será ainda mais complicada se mantermos contato contínuo. Pelo menos agora.

    Mais uma vez, te peço, não coloque a ruptura nas minhas mãos. Você já tomou uma decisão e eu simplesmente concordei com ela. Faço isso pelo meu bem estar emocional e psicólogo.

    Não quero perder minha essência ou personalidade, como é o caso de ceder a meros caprichos, para manter relações, ainda por cima instáveis. Não quero me desgastar na tentativa de salvar algo sozinha, que não está somente sob o meu controle.

    Me apavora te ouvir dizer que existe algo mais, que estou dissimulando as razões da minha anuência. Parece absurdamente que não prestou atenção ou que ridiculamente descartou tudo o que já desabafei. Não é “do nada” e não tem que se achar estranho. Uma vez, naquele domingo, a partida surgiu de mim e pelos mesmos motivos de agora.

    Sabe o quanto desprezo idas e vindas. No pôr do sol daquele mesmo domingo te disse: “Me vejo voltando atrás numa decisão e isso não é comum para mim. Por respeito a nós, não vamos jogar fora”.

    Você voltou atrás também, em todas as suas despedidas…

    Suas ameaças de partidas e as despedidas foram motivadas com base em que eu fui para você, dentro dos seus limites, ideais de certo e errado e sentimentos.

    Sua percepção sobre o meu desejo de estar com você, príncipalmente sobre o meu sentir, depende de que eu seja quem você quer, ceder, suprir as suas expectativas até mesmo nas coisas mais mínimas.

    Sabe, eu tenho fervor por quem me deseja por inteira. A mim mesma. Não irei mudar a ponto de se tornar uma versão pirata de mim mesma.

    Eu queria poder agradar você, óbvio. Mas, sendo eu mesma e não precisando provar o meu desejo e tudo o que sinto da maneira que você achava que deveria ser. “Não está bom para mim”. Não consigo ceder a ponto de me tornar o amor que te satisfaz, que você deseja.

    Houveram pedidos de desculpas e promessas mútuos, mas nem todas elas foram cumpridas. No principal imbróglio, sequer houve tentativa. Nunca acreditei numa mudança repentina. Mas, o mínimo que eu esperava era uma mísera tentativa.

    Com instabilidade e insegurança sobre mim, tive dias de inquietação emocional e psicológica. Não consigo lidar, me martiriza. Acaba, assim, me atrapalhando nas coisas mais simples (concentração, estudo, trabalho).

    Confesso que nos “altos” me proporcionou coisas incríveis, êxtase. Mas, a maior parte do tempo estávamos no “baixo”. Pelo morno, me sentindo insuficiente, idiota e até mesmo alguém ruim. Sobretudo, “o não satisfaz”.

    Percebeu como sou repetitiva? Isso torna essa conversa densa e incrivelmente cansativa.

    Ainda que me questione, não vou mais te expor motivos. Foram coisas sempre ditas.

    Não vamos ser hipócritas. Isso não precisa acabar mal. Não vamos denegrir a imagem um do outro, não há razão. Aliás, algo assim é ridículo.

    Se é preciso aceitar os erros. Ficar triste pelo que não foi. Reconhecer o que se perdeu. E seguir com maturidade. No mais, agradecer os momentos de “altos”. Não é tratando como se nunca tivéssemos nos conhecidos que a ruptura se tornará fácil.

    Você não foi e não é qualquer pessoa. Isso não vai mudar, para mim. Marcou.

    Eu comecei com sinceridade. Vou terminar assim também.

    A minha decisão está tomada. Espero que aprendamos a não cometer os mesmos erros.

    Sobre a nossa coisa, o nosso meio-termo, me mostrou como sou intensa. Obrigada, mesmo, pelos instantes de intensidade. Adorava quando a nossa coisa pegava fogo.

    Você foi contemplado em ter o meu sentir, o meu querer, o meu corpo. Eu jamais havia me entregado tanto.

    Peço para que a nossa coisa fique entre nós. Principalmente os nossos detalhes, as coisas importantes que aconteceram. Desejos, intenções e afins. Assim como as coisas agradáveis e desagradáveis. Lembre, são memórias suas e minhas também.

    Me agrada a ideia de estagnar no tempo o “eu e você”.

    Não sei como vai me perceber depois da ruptura. Acredito e espero que não seja motivo para “descaracterizar” o meu eu. Jamais irei desonrar o seu nome. Por favor, não o faça com o meu. Não há razões. Não me interprete mal, peço isso por desencargo de consciência. Acredito no que sente por mim e sei que não faria tal coisa.
    Desculpa se te proporcionei momentos ruins.

    Foram meses repletos de primeiras vezes, para mim. Você sabe. Aliás, a primeira vez que proferi “eu amo você”, dessa forma de amor. E dane-se se foi cedo.
    Reconheço que sobre algumas coisas dei passos largos e tropecei nos meus próprios pés. Fui inconsequente. Me arrependo. Mas, jamais irei me arrepender pelo que fui e sou capaz de sentir. Muito menos, pelas palavras de amor ditas.

    Uma pena eu não tê-las visto valorizadas…

    Não quero ser vista como hipócrita.

    Sei que não compreende o meu pedido em mantermos a amizade. Não consegue entender como posso não mais te querer como seu parceiro (mesmo amando-o) e, ainda assim, implorar para que me tenha como amiga. “Não entendo como eu não te querer como amiga é algo que se deva discutir e fazer sentido”.

    Coloquei tudo às claras. Detesto quando questiona o que eu sinto. Eu não queria que fosse assim. Ansiei a transformação do meio-termo muito tempo. Você sabe. O meu sentir nasceu muito antes do verão. Não fale insinuando como se eu tivesse em algum momento mentido sobre o meu sentir, muito menos diminuindo o que me rasga o peito.

    A perda não é apenas de uma parceira ou um parceiro. É de um amigo(a) também. Não apague o meio-termo. Tudo começou numa amizade sem mais pretensões.

    - “Se você realmente sentisse intensamente, iria querer permanecer e continuar, tentar mudar. Nunca se afastar do problema, igual você fez. Me esquece. Você de repente decidiu que os nossos confrontos te fizeram sentir uma fracassada. Além de tudo, foi capaz de esquecer todos os momentos bons, sem mais nem menos, descartar-los e valorizar só os pontos ‘baixos’ para justificar a sua hipócrita vontade de partir. Forte seu amor.  Não vou negar. As vezes me pego preso nisso… questionando se tudo o que me disse, se cada palavra de afeto foi realmente cheia de sinceridade. Você é boa com as palavras e tenho medo de tê-las usado para comigo de uma forma deplorável. Não sei se seria capaz de dissimular dessa forma. É louco dizer, mas, sim, eu acredito no que diz sentir por mim. Ainda que muitas vezes não tenha agido de forma condizente, ainda que eu mesmo fique matutando a respeito. Tudo isso é insano (como você mesmo costumava dizer).”

    Quanto à mantença do “nós”, me recuso a permanecer no que me fazia sentir um fracasso. Essa sensação existia por você ter me dito bem mais de uma vez que a minha linguagem do amor não te satisfazia.

    Da forma que você coloca, faz-me sentir ingrata. Também estou despedaçada. Nos nossos dias, pouco a pouco eu estava me desfazendo em alguns sentidos e precisava do seu agir para me refazer. Por isso tanto diálogo, da minha parte. Por isso a ideia do “pacto”.

    Falei isso naquele domingo. Lembra? Com seriedade. Mas, quando tudo soava calmaria. Você choveu em mim. Foi isso que você fez naquela madrugada de sábado. Naquela noite quente, prometi a mim mesma que era a última vez que iria me fazer chorar. Última vez que iria me frustrar por você descartar suas promessas e não pensar em mim antes de fazer algo que tanto me afetava.

    Me desculpa por ser tão repetitiva. Te remeto inúmeras palavras, te falo coisas infindas, e sei que você acha um porre, acaba descartando quase tudo.

    Ao pôr do sol daquele domingo, me disse as mesmas coisas que agora. E eu voltei atrás na minha decisão, lembra? No mais, deixei claro que a hipótese de partida, da minha parte, se tratava de algo que não desejava, mas que a cogitei para evitar me machucar.

    Ainda que em outro contexto, estamos novamente na mesma coisa. Mas, dessa vez, eu já estou machucada.

    Espero que você fique bem, mesmo. Mas, sendo sincera, não vou mentir. Espero, no mínimo, um pingo de saudade, arrependimento ou pesar pela perca.

    - “Espero o mesmo de ti. Sinto uma saudade incessante. Sonho com você. Tenho arrependimento também. Quanto a estar despedaçada, não acredito. Se você sentisse saudade, vontade, amor… resgataria o ‘nós”. É simples. Eu te falei estar disposto a mudar, mas você não se importa.Eu faria o impossível por você e é deprimente te ver me colocar como imundo. Não jogue entrega na minha cara, suportei muita coisa por você e tu simplesmente joga fora. Sabe, me abri emocionalmente como jamais havia feito com qualquer pessoa. Você tem o meu amor nas mãos e está esfarelando ele. Nunca imaginei que seria capaz de uma coisa dessas. Te vejo traindo quem eu vi em você, principalmente, tudo o que me dizia ser. Você diz estar machucada enquanto me machuca também e não se dar conta.”

    Não me surpreende você não acreditar em mim. Simples para você falar pensando em quem fui contigo. Se coloca no meu lugar. Você mesmo reconheceu coisas nada bacanas que partiam de você. Não quero discutir.

    Foram poucos dias para tudo voltar ao antes. E as três coisas que eu mais te pedi para evitar, porque me afetava muito, vinheram num pacote no mesmo final de semana. Me decepcionei muito naquele sábado. Eu chorei a madrugada inteira.

    Não entendo como pode me amar e não tentar evitar fazer algo que eu tanto te pedia para ser cauteloso. Não entendo como não conseguia evitar fazer o que me desabava.

    Sabe, eu reconhecia quando agiria daquela maneira. Pressentia. Sabia quando seria tomado pelo seu imediatismo cego. Nesses momentos, eu falava coisas como: “Presta atenção. Lembra do que combinamos sobre lidar com os problemas. Não precisa ser assim”. Justamente para ver se você pensava em mim e no valor do nosso vínculo.  Antes de fazer qualquer coisa ou dizer, eu sempre pensava em como você ia se sentir. Por isso tenho certeza de que nunca te ofendi ou derrespeitei, ou magoei com o que falei.

    Não estava sendo saudável, meu bem. Não quero nós dois num relacionamento que ainda no início não estava sendo leve. Não vamos mais reviver essas discussões… Okay?

    - “Não adianta eu dizer mais nada. Vejo que persistirá nessa decisão. Eu preciso digerir a ideia e aprender a lidar. Sabe, foi você mesma quem terminou com a gente. Não te entendo. Eu corri atrás e você não quis mais, praticamente me esnobou. Permanece com a vontade de se afastar e de que, se ficar, será somente para ter minha amizade. Eu não quero ser somente o seu amigo, quero dividir uma vida contigo, desejo ser o seu parceiro. Sabe, nós discutimos algumas vezes e eu te disse coisas impulsivas, sobretudo, nunca dotadas de veracidade, foram coisas que eu não deveria (e não queria) ter lhe dito. Porém, apesar de tudo, isso jamais significou que não quero a sua presença e muito menos que ela tanto fazia para mim. Não precisa ter medo, pode confiar nessas minhas promessas, nas falas que te remeto agora.No entanto, acima de qualquer coisa, sabe o que é foda? No momento que acreditei que ficaria comigo, você foi embora. Isso foi péssimo. Tenho medo de dizer a mim mesmo o que isso significa. Você não está disposta a erguer um castelo comigo.”

    É complicado erguer castelo com alguém que diante de qualquer lajota colocada torta ameaça abandonar a execução ou a faz. Dá a sensação de que a qualquer momento a obra vai ficar inacabada e desmoronar. Do jeito que você coloca, tudo se torna pequeno. Me colocando como venenosa faz eu me sentir muito bem.

    Não foi minha intenção “esnobar”. Foi o que te disse: Eu, ferida, iria passar a ferir você também. Não quero isso. Olha, eu não queria somente a sua parte fácil de amar. Não. Eu mesma falei: “eu e você nus e crus”. Eu disse desejar o seu verdadeiro “eu” comigo.

    Moram dois caras em você. O que fez eu meu me apaixonar e aquele que tem atitudes comigo nada bacanas, me tratando de uma forma que não gosto, e assim me cortando. E, se tratando de um amor que ainda estava no começo, esse primeiro cara deveria ser o mais presente e não o segundo. Diante do segundo cara, eu não conseguia ser o meu melhor com você.

    Aliás, tem algo que está engasgado e preciso te questionar. Sabe o que eu não entendo? Você me disse assim, duas semanas atrás: “Eu posso ser só esse primeiro cara”. “Posso mostrar só o meu melhor”. Me passou a impressão de que, de algum modo, você tinha plena consciência de tudo o que apontei… Não sei.

    - “Me desculpa. Sim, eu sempre tive. Por isso quero você de volta. Para agir como você merece. Aliás, como deveria ter agido desde o incio. Com o inicio da ruptura, passei a ver e valorizar tudo de uma outra forma. Me sinto mal com tudo isso. Porém, ainda que você exponha infindas coisas, só consigo pensar que: ‘É por isso quer partir pra sempre?’. Tenho a horrível sensação de essa conversa não vai dar em nada. Sinto que estou de mãos atadas. Estou implorando para ficar enquanto você constantemente arranja um argumento para reforçar sua partida. Me faz um monstro.”

    Já que percebia, por qual razão não agia assim antes? Já pensou nisso? Sabe, são um conjunto de pequenas coisas e estou decepcionada pela existência delas.
    Argumento porque você merece justificativas. Sobretudo, porque gostaria que se colocasse no meu lugar. Principalmente, que tentasse entender. Você sabe muito bem que não ser tratado da forma esperada por quem a gente ama, corta. Mas, tenho a sensação de que para ti, estou “fazendo tempestade em copo d’água”. “Sou exagerada”.

    A minha decisão não é fácil. Eu sinto o universo por você. Ainda que tenha me decepcionado com atitudes. E é duro assumir isso. Sinto saudade do primeiro cara, muita. Sinto saudade de olhares, toques, do seu abraço, de me sentir protegida ao caminhar contigo, do seu timbre… É por sentir muito, intensamente, que as coisas que apontei me machucaram e você não está percebendo isso.
     
    Isso é difícil, mesmo. Eu vejo que reconhece o que eu expus para aceitar a sua decisão de partida. Não questionou nada e disse reconhecer. Mas, vejo que não vê como motivo para ruptura.

    Eu adoraria — com todas as minhas forças — acreditar quando você disse “eu estou prometendo que vou mudar, porque a minha visão é outra agora”. Eu não sei qual é a sua visão, mas, ainda assim, tenho medo. Poxa, você confirmou que tinha percepção de tudo aquilo antes.

    Os dias correm e em todos eles eu revivo “a nossa coisa”. Tudo poderia ter sido diferente, assim como você mesmo expôs naquela sua última música.

    Não é por meras brigas. Isso vai existir, justamente porque nos importamos e queremos fazer dar certo estarmos juntos.

    O problema é por se tratar das mesmas coisas. Como vamos crescer persistindo nos mesmos “erros”, persistindo no que destabiliza a nós dois?

    Você é astuto, tem controle sobre o que quer. Sei que não me quer como amiga. Porém, preciso saber que você está bem. Se precisar de mim, independente do que for, me diz.  Você sempre disse ter problemas, mas tinha um bloqueio em dividir comigo. Se precisar desabafar, eu estou aqui. Pode confiar em mim. Não irá ouvir julgamentos. Eu sempre questionei sobre eles por me preocupar. Não faço ideia do que sejam. Eu ainda me importo. Isso não vai mudar. Sabe o quanto sinto, sabe onde e como me encontrar, se quiser, se precisar.

    Pensa numa coisa, por favor, é a última coisa que te peço. Questiona se, pelo caminhar das coisas, eu te fazia sentido.

    O sentido a gente percebe com o tempo. Sobre “tempo”, você disse não acreditar. Eu também. Mas, sobre relacionamento, é tudo novo para mim. Ao longo da estação, mudei pensamentos, me vi em coisas que antes dizia “jamais” e fui eufórica com coisas que antes me assombravam.

    Por favor, pensa realmente nisso. Pois, uma coisa é querer a presença de alguém e outra coisa é querer a presença daquela pessoa. E, se tratando daquela pessoa, se é preciso agir com maturidade e responsabilidade afetiva. 

    Se tratando de você, para mim, há sentido. Mas, não naquele caminhar.

    Me chame de venenosa, hipócrita o que for. Só não me puna por estar desacreditada quanto a promessas. Acredito que a mudança que tanto ansiei só existiria na certeza quanto aquilo. Eu sendo “aquela pessoa”. Acredito que assim você agiria como tal.

    Essa infinidade de palavras não existiriam se você não fizesse sentido para mim.

    Juro que tentei, mas não consigo entender como por qualquer “problema” você mudava comigo e dizia coisas como “presta atenção, eu só vou caindo fora” ou que o caminhar não te agradava. Como se não bastasse, algumas vezes, de última hora, tirou o nosso encontro dos seus planos porque, para ti, me ver “não valeria a pena”. E, não obstante, claro, sempre cogitava dar um basta comigo e chegou a fazer isso algumas vezes.

    É difícil ouvir essas coisas de alguém que você ama. Eu me senti insuficiente mesmo. Insuficiente para ti. É isso que eu quis dizer com um fracasso.

    - “Você nunca foi insuficiente, muito menos qualquer coisa perto disso. Aliás, eu pensei. Não quero ser seu amigo. Sei que não irei suportar te ver com outra pessoa, um dia vai acontecer e eu não quero estar lá pra ver isso, muito menos te ouvir falando desse alguém para mim. Não quero ter contato. Mas, ainda assim, pode contar comigo, sempre que quiser, para qualquer coisa. Sabe, eu amo você de todas formas e uma delas é como amigo.”

    Eu gostaria de ser sua amiga.

    Se isso acontecer, vai demorar muito. Pra caralho. Eu não sou do tipo que se apaixona em cada esquina.

    A recíproca é a mesma. Olha, você é um cara super atraente. Devem ter dezenas de garotas lindas interessadas em você e que despertam seu interesse também. Isso nós dois sabemos. Eu sou facilmente substituível. Se ocupo um posto, logo mais ele não será meu. Você já se envolveu com outras mulheres. Já teve outros relacionamentos. Sabe que o que digo é verdade. E se por acaso um dia se lembrar de mim, vai ser em algo singelo, por exemplo, ouvindo “É Você Que Tem”.

    E independente de qualquer coisa, da minha decepção amorosa (já falamos a respeito, sabe o que quero dizer), jamais desejarei o seu mal ou direi coisas ruins a seu respeito para qualquer pessoa. As coisas que aconteceram entre a gente e também o que não aconteceu, só cabe a nós. Aliás, ainda que eu possa em muitos momentos sentir raiva, desprezo e afins, sou incapaz de sentir ódio a ponto de profanar de modo detestável o outro. Não sou alguém que se domina por sentimentos ruins.

    No mais, também reconheço as minhas falhas. Espero, mesmo, que você não tenha somente memórias ruins. Tentei e acredito não ter magoado com palavras, te respeitei (em todos os sentidos). Se em algum instante eu não fiz isso, peço perdão. Pois, tenho muito medo de apontar e de cobrar do outro algo que não está em mim.

    Hoje, eu amo você. Mesmo. Apesar dos pesares. Ainda que, olhando com distancia, eu não goste de quem foi comigo.

    Não sei se você sabe, mas há 5 linguagens do amor. As nossas são diferentes, acredito que por isso você “não vê o meu sentir”.

    Talvez, agora, a minha decisão para você (mesmo depois de tudo que eu expus e esclareci) não faça sentido. Mas, daqui alguns dias, meses ou sei lá, acredito que fará.

    Nem sempre o sentir é o suficiente para duas pessoas ficarem juntas. E juro que acredito naquela ideia de que “há formas de se amar alguém para sempre”. No entanto, às vezes justamente a nossa forma de amar, lidar com as coisas, vê-las ou sei lá, atinge o outro de uma forma que não imaginamos. É preciso ouvir o outro e ter cuidado com o que se está construindo.

    A minha decisão é para não mais me magoar. Eu sou muito intensa. Tudo me afeta muito. É frustante ser o bilhete dourado enquanto o outro só enxerga preto e branco.

    Os nosso pacto estava sendo quebrado e os diálogos e promessas sendo vãos. Eu valorizo tanto essas coisas. Reforço, eu, ferida, ia passar a ferir você também.

    Quero muito o seu bem. Sei que um dia outro alguém vai ter o seu sentir e não quero que esteja despedaçado. Não quero que lembre de mim de uma forma ruim.

    Queria ter te proporcionado somente coisas boas, talvez eu não tenha feito, assim como você não fez.

    Apesar do quanto eu sinta, jamais irei me perdoar se, por acaso, persistir nisso aqui e perder a minha essência.

    Eu apago a luz e fecho a porta com cuidado.

    “Não suporto meios termos. Por isso, não me doo pela metade. Não sou sua meio amiga nem seu quase amor. Ou sou tudo ou sou nada.” — Clarice Lispector. Faz sentido sua escolha. Eu penso a mesma coisa. Queria parecer mais forte. Vou respeitar sua decisão.

    Ps. Se um dia eu escrever um livro, leia. Provavelmente, terá textos meus sobre sentimentos e coisas atreladas a você. Será capaz de reconhecer, eu acho. (Se quiser, claro).

    - “Ninguém será capaz de substituir você pra mim. Só você teve esse posto, da forma que sempre desejei, e só você terá, por todo o sempre. Não vou estragar isso. Talvez eu faça aquilo que você sempre me falou “ressignificar”. E sim, eu já estou despedaçado. Nunca me senti dessa forma. Me magoa ver que está decidida. Só me resta tentar superar e, além de tudo, respeitar. Me desculpa por todos os ‘baixos’. Eu amo você.”

    Nunca mais ouse duvidar do que sinto.

    Sabe, eu realmente acreditei que não mais estava fadada ao Naufrágio.

    Por fim, não joga fora as minhas palavras, nenhuma delas.


    Janaina Couto ©
    Publicado — 2020
    @janacoutoj


    [PS. Não se trata de um relato pessoal. Mas, confesso que é um imenso pesar reconhecer que o meu texto foi lapidado sob um apanhado de relatos de pessoas queridas que estão ao meu entorno.
    Ainda que mesmo nas coisas mais sutis possamos constatar algo a se repudiar e imediatamente afastar-se, não raramente, horrivelmente, isso acontece apenas quando se tornam salientes.]
  • 140 batimentos por minuto

    Minhas mãos aos montes transpiram
    Meu corpo trêmulo agora busca por uma calmaria
    Minhas narinas sem função já não respiram
    Dormir? outrora poderia

    Quem dera fosse tudo isso adrenalina
    Quem sabe apenas animação genuína
    Bateram-se três da madruga
    E essa energia perseguia sem fuga
    Profissional assassina

    Aquelas palavras que não foram ditas
    Não foram ditas pois o peito travou
    Aquelas promessas tão bonitas
    Não foram cumpridas porque o racional não deixou
    Mil e uma coisas lindas
    Que o vento levou

    E por falar em mil que nem sequer posso citar
    Que tal falar dos mil pensamentos diarios
    Só pra começar?
    Pensamentos de todas as ordens, e são vários
    Nessa eterna máquina de ponderar
    Pondera tanto que as vezes não da nem pra controlar
    Pelo amor, onde fica o botão de desligar?

    Porque não basta apenas nessa vida ponderar
    Nem tudo se resume a raciocinar
    Quero por um momento parar de pensar
    Sem ter que estar ligado ou ter de me ligar
    Quero apenas vivenciar
  • 3:27 Da Madrugada

    E quando acho que a dor foi embora ela volta, quando penso que finalmente está tudo bem ela volta. Atormentando minha noite,meus pensamentos,e sentimentos. Vem uma por uma para me lembrar do que já aconteceu. Meu coração se enche de ódio,raiva e eu fico furiosa. Enquantos outros dormem eu quero quebrar a casa do mesmo jeito que minhas lembranças me quebram
  • 31

    Uma certeza eu tenho, existe um tipo de pensamento que está comigo o tempo todo. Esse pensamento eu apelidei de “31”. Eis que você deve estar se perguntando: “Por que e o que é 31?” Pois bem, irei explicar.

    31 é aquele pensamento que está comigo o tempo todo e a todo momento. Este é você e provavelmente você ainda não entendeu o porquê desse apelido incomum.

    O que você tem a ver com 31? É simples, você está nos meus pensamentos 24horas por dia e 7 dias por semana, logo, 24+7=31. Todos os momentos com você são como feriados, calmos, tranquilos e alegres.

    Às vezes me pego pensando em ti do nada, às vezes quando acordo e por fim, quando irei dormir. Nós somos jovens cheios de energia d aprendemos a nos curtir cada vez mais. Deve ser a convivência, eu não conseguia ser assim tão ativo antes.

    Mesmo que não estejamos próximos fisicamente nossos espíritos estão conectados, tenho certeza. Pode não ser literalmente em tempo integral mas deu pra entender o recado rsrs.

  • A Ação

    Não, não há pressa nessa minha velocidade.
    Quando eu me ponho a correr aqui dentro do coração,
    Mesmo que em vida a explodir,
    É só uma brisa o que se estende ao meu passar.
    Sem pressa, que é pra chegar mais rápido
    Que eu vou assim, no andar que sou devagar,
    Que o meu divagar está no que dos meus sonhos é ação,
    E que vigorosa eu sou na corrida que ninguém vê,
    Mas vagarosos são os meus passos de fora,
    No ritmo que o mundo se encontra com o meu correr.
    E ainda que eu vague entre mim e o mundo,
    É com vigor que eu paro e me ponho a observar.
    É sem pressa que me ponho a andar.

    Mas não há pressa, eu paro sim nas fronteiras,
    Mas não daqui, de dentro do meu coração.
    Eu paro sim, mas meu parar é para movimento insinuar,
    É numa brisa que eu chego mais rápido.
    Devagar passando pelo mundo,
    Divagando em ritmo a ação dos sonhos meus,
    Ainda que nos passos pro lado de fora,
    A falta de vigor, aqui de dentro em nada sou vagarosa,
    E que no que o mundo se põe a me observar,
    Parada, vigorosa em mim no meu andar,
    Sem pressa, uma brisa eu, de explodir e de andar.
  • A bipolar solitária

    Estar sozinho é uma arte. Ainda mais na minha condição. Quando choro, gemo, grito, não tenho com quem contar, abraçar me lamentar. Quando estou feliz, cheia de vida e planos, não tenho com quem dividir, sorrir e comemorar. Mas quer saber? Dane-se! Já se passaram anos vivendo assim e hoje sei que posso apreciar minha própria compania. Eu me considero divertida, interessante, com bom gosto musical e cinematográfico. Claro, também sei que sou patética, invejosa e um pouco burra. Tem momentos que me sufoco, que derramo aquela lágrima de canto de olho, necessitando de alguém para conversar. Sim, dividir momentos especiais é legal, mas não é o fim do mundo estar apenas com você mesmo apreciando um filé a parmegiana do Spoleto. Geralmente quando me encontro na mania eu divido meus planos com minha mãe ou minhas irmãs. Mas não é a mesma coisa que dividir com alguém de fora da sua casa. Aqui todo mundo julga e acha que sabe o que é melhor para você. Eu já fui de muitos amigos sabe? Mas na maioria das vezes só queriam se aproveitar de mim, usar minha grana ou só querer de ficar drogado. Ou seja, não era nada saudável e tive que me afastar de todo mundo. E sabe o que pesa? As vezes eu guardo tanto coisa aqui dentro que na primeira oportunidade, com a primeira pessoa que me dá abertura, há! Lá vou eu despejar minhas decepções, alegrias, planos, neuroses em cima da pessoa. E sim, na maioria das vezes o arrependimento bate e bate forte. E a pessoa que aqui lhe escreve nunca aprende e está sempre fazendo tudo de novo. Seria cômico se não fosse trágico. Ah! Eu não mencionei o fato de que as vezes estou em uma fase tão sozinha que faço amizade com a faxineira do prédio (chega ao ponto deu convidar ela para tomar um café), a secretária da recepção da minha faculdade, a cabeleleira, e por aí vai. Então não, eu discordo de mim mesma em relação ao começo desse texto. Talvez eu não tenha aprendido a lidar com a solidão. Talvez eu ainda precise de um amigo que me dê um ombro para chorar e um sorriso para compartilhar. Mas eu ainda sou nova, talvez quem saiba eu trombe com alguém especial por aí para dividir momentos especiais?
  • A Bruxa da Arruda e o Sagrado de Tudo

    A manhã estava carinhosamente refrescante em um dia de verão calmo, que precedia o calor do seco e ensolarado tempo impermanente. Acordou às cinco horas da manhã como de costume, e já não tinha mais a necessidade do despertador do seu smartphone para tal feito. Simplesmente os olhos automaticamente em uma só expressão se abriram, o corpo em um só impulso na cama se sentou, e mergulhado nos seus pensamentos do que fazer com o novo dia de quarentena que auto se apresentava, meditava… claro! Aqueles dias eram por demais incomuns, de um lado tinha o dia todo pela frente sem a rotina acinzentada do levantar, correr e trabalhar, e, por outro lado, teria que ser criativo ao esforço máximo, em táticas incomuns e altruístas para não deixar que o tédio com toda sua improdutividade o arrebatasse, sequestrando a sua proposital impulsionada momentânea e intencionada alegria.
    Essa intencional alegria era a Poderosa Presença do Sagrado em sua vida. E apenas se baseava, por incrível que pareça, as coisas e recordações mais simples e singelas da sua tenra infância. Principalmente as lembranças delicadas e afetuosas de sua bisa, a Bruxa da Arruda, D. Darluz. Pelo qual, todas as manhãs, dedicava em um cantinho do seu oratório (em culto aos antepassados) uma vela sentada em um pires repleto de azeite de oliva misturado a sal grosso e mel, um pote de água que diariamente derramava seu líquido em uma específica planta de Arruda (Ruta graveolens), trocando a água do recipiente todas as manhãs, além de oferendas de flores silvestres, como: Cenoura-brava (Daucus carota subsp. Maximus); Centaurea Nigra (Centaurea nigra subsp. rivularis); flor Leopardo (Belamcanda chinensis); flor de Laranjeira (Citrus × sinensis); flores de Onze-horas (Portulaca grandiflora) e Calêndulas (Calendula officinalis). Tudo isso para se manter em conexão permanente com o espírito de sua querida bisavó. Sendo esta, em vida, sua sacerdotisa. E em morte carnal sua guia espiritual. Pelo que lhe prometera em vida terrena, que ao desencarnar nunca o abandonaria e o vigiaria de cima. Dando-lhe inúmeros conselhos e severas instruções ritualísticas de como manter o contato espiritual com sua alma e coração depois de sua partida.
    Para a Bruxa da Arruda, sua bisa, tudo era Sagrado…
    E do Sagrado… e unicamente, pertencendo ao Sagrado!
    Tudo era vivo! E tinha em si um grande e puro significado.
    Tudo era mágico!
    Tudo era místico!
    Tudo era encantado!
    Tudo era rico!
    Sua constante alegria não se baseava em emotivos momentos.
    Era como o constante balançar das árvores que bailavam se animando, apenas, com o tocar dos ventos.
    O seu grande sorriso em sua face iluminada, transmitia a qualquer um que olhava um manancial inesgotável de pleno contentamento.
    As pessoas que iam ao seu encontro de amor se preenchiam, automaticamente renovando esse sublime sentimento.
    Sua bisa lhe dizia que o Sagrado é um estado a ser sustentado constantemente. Um estado de bons hábitos e boas disciplinas que você mesmo se coloca a praticar. Um estado de Amor, de estar amando e de se sentir amado a toda hora e em todo momento, independente das circunstâncias, posses, pessoas, relacionamentos e virtudes materiais ou espirituais. Um estado de simplicidade e humildade, e cumplicidade no serviço devocional, na prática da caridade e solidariedade. Vivendo em perfeita gratidão e sendo gentil não só com as pessoas, mas a tudo em que os nossos sentidos intentar, aplicar e perceber. Lhe dizia que o segredo para vivenciar o Sagrado na prática, estava na gratidão e valorização da vida em todas as suas formas, não diferenciando uma pepita de ouro de uma simples pedra do rio, um ser-humano de uma formiga, a mais iluminada estrela do céu noturno de um singelo grão de areia das praias do mar. E essa valorização é ver a beleza oculta no amago de todas as coisas, sua Energia Divina e Intenção Criativa. Dizia-lhe que para realização de tal feito era preciso se livrar das amarras da má educação de si mesmo, que degenerou os nossos sentidos na elaboração de conceitos e preconceitos, a partir das inúmeras errôneas percepções externas a nossa Linhagem Sagrada, deteriorando e adulterando o nosso pensar, o nosso sentir, o nosso olhar, o nosso ouvir e o nosso falar. E explicou-lhe, que devido a tudo isso, o porquê das manifestações artísticas, arquitetônicas, filosóficas e religiosas de hoje estarem tão feias, rudes, cinzentas, frias, quadradas, embaraçadas e amontoadas, repetitivas e sem coração.
    D. Darluz dizia que por nos desconectarmos das sabedorias dos nossos ancestrais, o nosso sentido do novo e a capacidade do espanto e da novidade assombrosa de olhar tudo de maneira nova, no sublime estado de encantamento e percepção de alerta alegria, se perdeu no mundo. Dizia que o mal das futuras gerações estava na comparação e associação de capturar as impressões, sem a capacidade madura de traduzi-las, sendo essa maneira uma errônea tentativa de interpretar o novo sem a compreensão do velho, desassociando as consequências presentes e futuras das ações passadas. Daí, como ensinava a Bruxa da Arruda, eis a importância de se cultuar os antepassados, pois, uma árvore não pode florir e gerar bons frutos sem o bom cuidado para com suas raízes.
    Voltando ao momento presente, e na cama em que se encontrava sentado, vira como era difícil traduzir a vivência de infância que tivera com sua bisa para o moderno, virtual, tecnológico e competitivo dias de hoje. Sabia que as redes sociais virtuais, ao contrário do que se pensava, alimentava mais as más ações do ego do que o conhecimento (pelo qual era a sua proposta inicial). E que esse contato virtual se tornou uma máquina alimentadora dos nossos mais animalescos instintos, provocando mediante as imagens, sons, cores e palavras as mais variadas sensações emocionais para a satisfação dos nossos mais carnais e individuais desejos de ter ou ser. Não medindo as consequências de um super ego (‘eu’ pluralizado), que busca sempre aquelas ilusórias sensações que lhe possam dar a tão almejada satisfação momentânea, em uma falsa privacidade de no ato de estar solitário cometermos as maiores torpezas, em que julgamos erroneamente não impactar o nosso mundo externo. Vira que a internet, ao contrário do que fora a sua proposta de unir as pessoas, se tornou um luxurioso baile de máscaras, em que as redes sociais eram essas enfeitadas e coloridas máscaras.
    Assim, contudo, preferia estar no seu jardim. Na companhia das lembranças de sua bisa, a Bruxa da Arruda, D. Darluz. Que o lembrava que o mundo ainda era envolvido por uma aura de Novidade Mística, Alegria Mágica e Amor Divino. E que só poderia vivenciar o Sagrado da Vida observando, compactuando, comungando e se relacionando com o Mundo Natural em toda sua essência ecológica. O seu pequeno jardim era totalmente dedicado ao Sagrado e a memória de sua bisavó. Ali… dedicando-se a colocar as mãos e os joelhos na terra, se sentia uma Pessoa Superior em toda sua humildade, dividindo-se entre o observador e o observado, conhecendo a si mesmo na observação dos pequenos seres vegetais, minerais e animais. Se perdendo em um mundo desconhecido de encanto e nostalgia, que o elevava e fazia distante das miseráveis catastróficas vivências de traumas e barbaridades da bestialidade e ignorância humana.
    Ao regar suas plantas em pleno final de tarde, se via quando pequeno sentado no colo de sua bisa em uma balança pendurada a um tronco da árvore de Tipuana (Tipuana tipu (Benth.) Kuntze), em que juntos no crepúsculo vespertino se divertiam olhando as inúmeras nuvens no céu a tomar formas inusitadas de rostos, silhuetas, animais e objetos. E sua bisa, também, instigava a sua imaginação a ver essas formas nas plantas, flores, objetos e coisas. Dizendo que as mensagens dos seres naturais (Elementais) vêm a nós nas formas que a nossa consciência pode reconhecer, por eles falarem uma linguagem desconhecida aos nossos sentidos e dimensão.
    E, lembrou-se das manhãs ensolaradas ao correr pelo terreno da Chácara Celeste (que na verdade era um pedaço do céu na terra) logo ao acordar, indo de encontro a sua querida bisa nos campos abertos, vendo-a colher flores para o seu ritualístico culto matinal. E chegando ofegante até ela, gritava: “Bisaaaaa!”. E D. Darluz respondia com a mesma intensidade: “Meu Miúdo!”. E ela o carregando, abraçava forte e o cobria de beijos, até ele dizer basta. E, D. Darluz lhe dizia: “Olha meu Miúdo, não existe nada neste mundo que é mais adorável que uma flor, nem nada mais essencial que uma árvore e planta, sem elas não conheceríamos o belo, não poderíamos respirar e nem comer, nem nos curar. E, ocultamente a esses benefícios que elas nos trazem ao nosso corpo de carne e seus sentidos, tem ainda a sua função mística, que é a mais relevante, algo divino em que as pessoas comuns e materialistas não têm a capacidade de ver. Uma força mágica e espiritual, eterna e imutável.”
    A Bruxa da Arruda sempre o alertara a valorizar todas as coisas… de uma simples pedra a um pequeno objeto. Como um brinquedo, um utensílio ou algo do tipo. Dizia que tudo tem um propósito e que nada é obra do acaso. Alertara que todas as coisas por serem criações foram pensadas e intencionadas a se manifestarem. Tudo tinha um espírito, mesmo as coisas inanimadas. Pois, sempre afirmará: “O que tem corpo, tem espírito. Tudo é vivo! Toda criação é fragmento do seu Criador, contendo em si uma determinada energia que por mais pequena e singular que seja, é viva em si mesma, presa e magneticamente sustentada nesse corpo, é consciente especificamente para executar tal função, e depois de executada por si só se decompõe e desaparece”. E afirmava que a evolução desses corpos inanimados tinha a ver com a evolução humana, de acordo com seu grau evolutivo. Assim, o inorgânico Elemental podia se manifestar numa pedra, numa mesa, em um relógio de pulso, nos objetos que mais amamos e desejamos, e ainda mais nos brinquedos das crianças, por serem carregados de sentimentos. E que por isso, para seus Rituais da Magia Elemental necessitava dos objetos e minerais… das pedras… das cascas de árvores… dos restos de corpos dos seres vivos e seus derivados, onde se continha ainda preservada a energia Elemental necessária para tal e específica magia.
    Assim, Maria da Piedade…, moradora e proprietária da Chácara Celeste, que se localizava em algum lugar escondido na região nordeste do Brasil…, a Bruxa da Arruda: agricultora, queijeira, azeiteira, parteira, rezadeira, curandeira, e feiticeira portuguesa…, de origem dos antigos povos celtas das terras europeias mediterrâneas da Península Ibérica…, apelidada como D. Darluz…, afirmava que quando nos damos conta da existência do Poder Criativo em tudo que existe ao nosso redor e no nosso viver, quando descobrimos que tudo tem coração e inteligência, que tudo é intenção, e que a toda intenção foi aplicada uma específica atenção, e que a tudo que damos atenção doamos uma determinada fração de nossa energia vital, que se torna um fragmento de vida em si, independente por si próprio e evolutiva em si mesma… Tudo se torna Divino! Tudo se torna Sagrado! A ordem da Grande Espiral do Eterno e Permanente Contínuo.
  • A Cada Passo Da Caminhada

    Respire e se prepare;
    Olhe para o sol e siga em frente;
    Comece absorvendo o que o ar nos dá;
    Respire,já está preparado?;

    Não encurve os ombros,isso faz a caminhada parecer mais cansativa do que é;
    Não desacelere;
    Não pense em parar,isso faz a caminhada parecer mais cansativa do que é;
    Não pare,é isso que eles querem;

    Falhando em ser o melhor;
    Falhando em ser o pior;
    Falhando em ser o que quero;
    Tentando amarrar os tênis;

    A cada passo você está mais perto;
    A cada passo você tem mais cansaço;
    A cada passo você quer mais;
    A cada passo você quer parar;

    A cada passo você quer dar a volta;
    A cada passo você sente seus pulmões mais cansados;
    Ninguém disse que seria fácil,mas ninguém disse que seria tão difícil;
    A cada passo você sabe que consegue aguentar mais,e você vai.

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