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  • A Casa

    A minha casa eu construí com o brilho de querer brilhar...não é longe nem distinto de si o brilho quando em si já se faz toda intenção de brilhar...mas que na espécie rara da minha voz ao minha casa fitar, o tom absorto dos olhos a todas as portas abrir e em cada chave a vida num novo patamar.
    A minha casa veio de longe nos meus caminhos primeiros a me soprar o brilho da noite de sonhar em brilhar, minha casa se fez apresentar em mim a estrela da manhã de em brilho ver meu coração se contornar.
    A minha casa respira no Amor que construí no brilho de querer amar, e em cada respirar da minha casa em mim se constrói o brilho de com Amor tudo nela cercar...
    A minha casa não é lugar de descanso, mas eis que certo dia hei eu de chegar ao cansaço, e no fôlego último pedir pro fogo me fazer nele respirar...
    Seja como for, na minha casa tem a própria essência de amar em todos os opostos de si e do mundo que se fazem conhecer pra que o Amor possa se sustentar.
    E eu respiro no fogo de ver brilhar o sonho da minha casa os alicerces de construir o sempre querer, e eis que me retomo em mim minha morada de levantar acerca do Amor o sempre perto brilho de ver o sonho da minha casa brilhar. E eis que construo minha casa e minha casa me constrói e porque, no voo incessante de querer o brilho fazer em fogo o construir e o respirar da minha casa em Amor, estou eu pra além da minha casa ver o meu sonho de a partir dela fazer o brilho voar.
  • A celestial dança das Almas Companheiras

    Quando a madrugada trina sua entrada, eu rodopio na cama, nu em pelos orvalhados. Beijo o segundo travesseiro, enquanto acaricio as dunas pulsantes do lençol desfeito. Eu ainda não sei o seu nome, mas sinto sua melodia a implorar mil beijos do meu cavanhaque desgrenhado. Desperto, eu quero chorar de alegrias e rir da ansiedade, tudo em simultâneo. Sinto que a visão nos persegue. Eu sei que açoitamos todos os anseios viajantes na linha prata que une os nossos destinos. Um sabe da (nova) existência do outro. Só não compreendemos qual é o Motivo Maior que impede a fusão dos nossos corpos em êxtases nirvânicos. Minha única certeza? É sentir que quando finalmente nos encontrarmos, serei eu a tocar na sua barba e roubar seu primeiro sorriso não mais tímido. E será sua jovial língua a navalhar minha boca grisalha em histerias não mais veladas... durante a celestial dança das Almas Companheiras.
  • A Colecionadora De Medos

    Quando eu era pequena eu tinha medo de zumbis, e tinha mais medo ainda de eles estarem atrás da minha cortina. Então eu ficava acordada a noite inteira olhando para a cortina, tentando me convencer de que não tinha nada para me assustar ali. Mas uma hora eu dormia,e quando eu acordava eu acordava olhando para a cortina.
    Quando eu era pequena eu tinha medo de palhaços assassinos, e tinha medo de eles entrarem na minha janela, então eu ficava olhando para a janela e para a cortina. Tentava me convencer de que nada me atacaria. Mas uma hora eu dormia, e quando acordava eu acordava olhando para a janela e para a cortina.
    Depois que eu cresci um pouco, fiquei com medo de dormir. Então, me deram um urso que me ajudaria a dormir. Eu abraçava aquele ursinho, e um dos meus medos foi perder ele. Então sempre que eu acordava, eu acordava olhando para ele.
    Eu fui crescendo, fui perdendo medo de palhaços assassinos e medo de zumbis atrás da minha cortina... Então eu comecei a ler, e fiquei com medo de algo me tirar dos meus livros. Então comecei a escrever, e fiquei com pavor de algo me tirar o poder de escrever, de me libertar. 
    Então eu tive outro medo, um medo grande...e estranho. O medo de ficar cega. Eu não conseguiria viver como vivo hoje, como amo viver hoje. Talvez, desde sempre, eu estivesse tão ocupada olhando atrás das cortinas e por cima das janelas e que fiquei com medo de não conseguir ver os meus medos. Só assim eles me venceriam.
  • A copa

    Porque depositar tanta esperança em pessoas simples?São milhares de pessoas simples torcendo por poucas pessoas tão simples quanto elas.Quero dizer,biologicamente somos todos iguais.Então porque tratá-los de maneira diferente?.São milhares de pessoas confiando seu dinheiro em apostas,são milhares de pessoas perdendo apostas.São milhares de pessoas felizes,são milhares de pessoas deprimidas.Seria a copa uma contradição?
  • A Desconstrução

    Eu vou a chão, e que nada me sustente.
    É face a face não no espelho de mim,
    Mas no que sou sem imagem.
    Eu vou ao chão nas minhas construções
    Ora ver ruir os cuidados e as bases,
    E que nada me sustente nas cinzas indistintas,
    E que nada me decifre no caos e no queimar dos olhos:
    Que do pó e da lágrima,
    Depois que vento é do tempo ação,
    Há de ser água a emprestar à vida condição,
    Num instante do que é prestes a se fazer,
    O nada se figura em ponte,
    E eu vou ao chão, em água deitar,
    Não me sustento,
    E há de ser o fogo a vida a começar,
    Se espalhar eu, pela água, em meu elemento.

    E eu vou ao chão, sem laços de sustento na base,
    Lapsos da construção, amando o ruir dos espelhos:
    Meus reinos sem capitais.
    Não mais reflexo, eu sou imagem.
    Eu vou ao chão sem cuidados,
    Mesmo que indistinta nas cinzas,
    O caos se decifra no queimar das águas nos olhos:
    Na lágrima o tempo em ação que com o vento vem o depois.
    E dos meus olhos me fiz de vida condição e do nada um instante:
    Criação, eu em meu elemento.
    E eu vou ao chão, porque sou ponte,
    E no fogo a vida pela água, do começo ao se espalhar,
    Eu em meu sustento.
    Eu vou ao chão, para chão ser.
  • A Garota que pressente a chuva

    Você veio até mim
    Anunciando uma tempestade
    Nos molhamos demais
    E assim permanecemos juntos

    A chuva intensa passou
    Você continuou
    Nos entrelaçamos
    E nos tratamos com franqueza

    Mas você confunde o que deseja
    Com a necessidade de algo que não se sustenta

    Porque na verdade o momento talvez já tenha passado

    O tempo bom surgiu
    Um novo começo ressurgiu
    Mas acho que não mas estamos
    Totalmente nos planos um do outro

    Você intensa da sua forma
    E eu intenso do meu modo
    Como a chuva que caiu
    Quando veio o sol
    Você talvez já partiu

    Garota que trouxe a chuva
    E um pouco mais de desejo
    A quem não conseguia
    A tempos sentir qualquer coisa no peito

    Não irei sofrer
    Mas foi bom em ver
    Você sorrindo pra mim
    Dizendo que me deseja

    Não querendo dar um fim
    No que sempre acabo dando
    Eu acabo me molhando
    Esquecendo meu guarda chuva

    Esperando você dizer
    Junto de mim
    De novo que vai chover
    E não ter medo
    De se molhar
    Dessa vez
    Até o fim
  • A Juventude

    Eu sou cheia de sonhos antigos.
    Como para o meu corpo está o sangue,
    Para o meu coração, os sonhos.
    E antigos são como o que me fez
    Mover pela primeira vez,
    E antigos como o ar em meus pulmões.

    Eu sou cheia de sonhos antigos.
    Sonhos que eu nasci sonhando,
    Suntuosos como os passos que me
    Levaram longe deles,
    Cintilantes como a luz que os reacendeu.

    Santos e serpentes, signos e sóis,
    Simples como os mares navegados,
    Antigos são os sonhos que me preenchem,
    Secretos como a essência do silêncio pronunciado.
    Em todas as minhas idades,
    Eu, cheia de sonhos antigos.

    Fossem sonhos em meu esquecimento guardados,
    Sonhando serem por mim sonhados,
    Sejam sonhos despertos no meu realizar,
    São todos os sonhos os mesmos,
    Os mais antigos que a minha consciência de sonhar.

    Eu sou cheia de sonhos antigos,
    O sangue do meu coração,
    O primeiro mover do meu corpo.
    Sonhos de antes de nascer o ar,
    Passeando suntuosos dentro de mim,
    Quando longe de cintilar na luz
    Do meu reascender em sonhar.

    Sonhos mais antigos que o segredo do silêncio,
    Que a essência dos sóis sobre os mares,
    Simples no que me preenchem.

    Antigos são os sonhos que fizeram a idade em mim,
    Eu sou a idade dos meus sonhos,
    E no meu corpo, santos são os signos
    Da idade dos meus sonhos.

    Eu sou cheia de sonhos antigos,
    Sonhos nascidos antes da minha consciência sonhar,
    E sou cheia, no corpo e no coração,
    Da idade dos sonhos,
    Como o primeiro respirar,
    É a juventude sempre em mim a suspirar.
  • A minha forma de refletir em situações difíceis

    Algumas vezes na vida nos questionamos por que passamos por determinadas situações, que achamos que não somos merecedores, mas diante delas devemos nos fortalecer cada vez mais na nossa fé, pois Deus é como nossa sombra, sempre está ao seu lado, mesmo nos momentos em que você não vê a luz, sem luz não a sombra, mas Deus está ali para te iluminar, te reacender. Pois é no tropeçar que aprendemos a força do equilíbrio. É no amanhecer que nos encantamos com a luz do sol. É no escalar da montanha, vencendo todo cansaço físico, é que teu olhos captam para a alma toda beleza do vale. Se tudo tivéssemos nada valorizávamos. É a característica humana. Superações e limites caminham lado a lado. Você deverá ser sempre o ponto de equilíbrio.
  • A morte do eu

    “After a year in therapy, my psychiatrist said to me: ‘maybe life isn’t for everyone’.” 
    O inferno está vazio e todos os demônios estão na minha cabeça. Conjecturo vozes que, no desabrochar da vigília, anunciam-me um transtorno psicótico. Hoje eu tranco o curso, tranco a vida. Cheguei a vasculhar, um dia, a possibilidade do suicídio ser apenas o enterro, mas não a morte em si; todavia, certifico-me, nessa náusea amorfa, que a angústia se infiltra na teia neurossucumbidora antes de incinerarmos a nós mesmos. Conto os dias, odiando o teísmo onipotente, para encontrar o que acredito ser minha alforria: o psiquiatra. Há de ser minha muleta metafísica. Dispneia. Se enlouquecer-me novamente, tenho clonazepam. Vinte gotas; vinte e sete, se precisar. Alivio-me com esse meu novo deus volátil. 
    Sento-me à beira da cama; meus pés desmaiam sobre o chão. Penumbra. Nada me daria mais prazer do que nunca ter de acordar novamente. Sinto na alma a enfadonha arte de vestir-se. Fico apreensivo com minha sanidade dúbia diante das aulas anavalhadas que vagarei hoje. Degusto o Escitalopram com um café áspero. Lembro – fitando um eterno nada – a face sem sentença da minha psicanalista, e esbravejo-me; quero que suba no telhado e grite quem sou eu, pois já me foge essa concepção. Deposito o frasco de benzodiazepínico no bolso; esqueço o celular em casa. 
    Ao longo dos sertões da manhã, o medo do pânico se empodera como um fascista. Claustrofobia. Perscruto que na selva da minha psique não reino como Zumbi Dandara, mas apenas sou uma marionete do caos. Convenço-me da morte iminente: seja por um edema de glote, seja por um cataclismo pneumológico. Vendaval de sinapses. Minha mitral esperneia-se, regurgita-se, fibrila-se; almejo fugir-me; visto a entropia desajustada; balbucio uma filosofia sórdida. Subunidade beta da Proteína G, Guanosina Difosfato Inativa, Adenilato Ciclase: importantíssimo para vocês, futuros médicos. Cronograma de Caim. Quinquilharia. Pandemônio.
    Comprei uma aliança para essa miséria de vida, mas não prometo a monogamia – resmungo ao asilo que concerne minha consciência. Permuto as desvantagens e vantagens de ser um amontoado de átomos; aquelas me logram. Perambulariam como os nômades que nutrem sentimentos por mim? Por mais que sejam escassos, não me ousa denegrir a árvore-mãe que doou suas raízes à fruta empobrecida de alma. Aproveito o anticlímax dessa patologia arruaceira para ler o DSM: tenho todas as anarquias possíveis: transtorno de ansiedade generalizada, síndrome do pânico, depressão, desconexão com o divino, apatriotismo sem-terra. 
    Como um cadáver maquiado, encargo-me da polidez pós-morte: metáfora para os primórdios da tarde. Sobre o alcoolismo: eternizara – não que deguste a ideia, porém era a morfina que varria minhas esquinas neurais; era, senão, o hospício que tratava meu cansaço insuportável de gente. Olho-me: identifico em cada dobramento da minha organogênese os assassinos da minha jornada. A tarde, porém, caminha de forma taciturna; enrosca nos galhos, tropeça nas ironias machadianas, vivencia a chaga de Édipo, mas caminha. Adentro um elevador eremita: coercitivamente controlo a respiração: minhas cavernas pulmonares ecoam desespero.
    Palmilhando os arredores do abismo, pondero em relação ao futuro notívago: ou a insônia reluzirá novamente ou uma bala perfundirá meu encéfalo – entrará por um ouvido e sairá no outro, nada menos. Sinto meus passos derradeiros nesse morro cascalhado. Cairá sequer uma lágrima desse meu rosto surrado diante da morte de meu pai? Meu recinto ainda tem o cheiro de vazio. Insisto em deleitar-me na água que escorre do chuveiro, mas em vão. Pressuponho que dentro da gaiola do meu peito habite um pássaro que almeja voar, todavia se debate nas grades costais, depena-se e desiste da vida. Perfumo o ar com sobriedade: irrita-me o anseio acalentador das pessoas. Recebo, ainda que caquético, no toante dessa noite, uma visita: meu humor sacoleja como um cão solto na praia. Lê-me: você parece ótimo. Não se esqueça, minha cara, que os buquês, por mais que sejam sorridentes e carinhosos, são feitos de flores mortas. 
  • A morte tem o formato de um O

    É o fim. Minha vida começou agora e já chegou ao seu final. Fui morta pela tristeza e sua corda enrolada em meu pescoço, o céu me segura e o amor empurra a cadeira. Pendurada somente por esses emaranhados de fibras, a vida me esvai, e morro em sofrimento. Em nenhum momento fui sustentada pela felicidade, a cadeira sobre meus pés sempre esteve bamba, esse cabo nunca afrouxou ao redor de meu pescoço, e o céu nunca quebrou essa madeira que segura o destino de minha morte. 
    1.60cm e 55kg, passei essas informações para que a homicídio fosse indolor, lembrara de minha idade e nome, mas não dos pontos que me ajudariam a não sofrer. Nos 10 minutos de minha agonia, lembrei do amor que nem mesmo senti chutando meu banco, dos céus brilhantes e impetuosos, e da melancolia finalmente quebrando meu pescoço.
  • A noite é Eu

    Ela sempre vem, mais talvez um dia não virá maís.
    Ela faz-me lembra de tudo vivido, na na claridade do dia.  amores, amizades, igreja, passeios, objetos, músicas, palavras ditas, gestos é detalhes.
    As vezes é alegria, mais uma alegria que doe até chorar, por motivo de memória é imaginação, que talvez nunca aconteça. Ela demora. Não é um cochilo, é um sono pesado. as horas demoram a passar.
    Eu gosto dela. Talvez seja a minha melhor amiga é companheira de todos esses anos, conversor sobre tudo, ela com seu silêncio me responde, seu silêncio é intelectual, 
    Eu Amo sua cor, dentro do meu quarto ela é toda preta. já fora na rua, muitas das vezes ela está acompanhada, da estrelas, da lua.  essas são minhas amigas também, cada uma tem seu espaço no meu coração.O sentido dela é descanso, pacífica, calmaria, paz
    Eu te amo "Noite" eu sei que todos os dias vêm pra mim, eu te espero. sei quê um dia não virás maís. enquanto vês, estarei aqui Eu é você. Durmo muito ou quase nada!
  • A pessoa tóxica que mora com você

    Diversos são os desafios de morar com uma pessoa tóxica. Primeiro: Não pirar. A pessoa tóxica entra na sua mente, bagunça todos os seus sentimentos, te mastiga e cospe para fora. Só sobra a carcaça no final do dia. Ela não sabe do veneno que exala, ela não tem consciência do mal que causa na sua mente e não tem noção dos machucados que deixa na sua alma. Conviver com uma pessoa assim só leva a dois finais: ou você tem que superar dia a dia ou você adoece dia a dia. Essa convivência só é para os fortes, mas tem vezes que até o forte pede arrego. Existem casos em que toda essa toxidade leva as pessoas tomarem remédios, fazerem terapia, recorrer a igreja ou até mesmo começar a beber. Já a pessoa tóxica não aceita que é assim e se recusa a conversar com um terapeuta. A minha mãe tem mania de ser invasiva e jogar na cara tudo que eu fiz de errado, não importa o tempo que já passou ou o quanto eu me transformei para melhor. O que se passa dentro dessas pessoas? Será que devolvem o que receberam? Será que sentem prazer em agir assim? Será medo? Quando um marido ou mulher, pai ou mãe se comportam de uma maneira tóxica as pessoas com quem convivem vão murchando, definhando psicologicamente, se tornando infermos e necessitando de ajuda de quem na teoria deveria cuidar, amar e proteger. Uma só frase, uma só palavra dita é um disparo de doze no peito da pessoa, aonde os estilhaços da bala perfuram até a alma. O mais difícil é que a vítima disso tudo tenta sobreviver, relevar, tentar seguir sua vida da maneira mais normal possível, contudo, é impossível. A convivência chega a ser tão dura, tão pesada, que ouvir os passos da pessoa tóxica na sua direção já te prende o fôlego, seca sua garganta, deixa seus músculos tensos. Isso não é vida para ninguém. Da mesma maneira que estamos normalizando tanta coisa hoje em dia, temos de normalizar o tratamento de pessoas tóxicas, sei lá, fazer campanhas e criar incentivos para que ela se trate. Quantos pensam em suícidio devido ao convívio com esse tipo de gente? Quantos já cometeram suicídio por causa desse tipo de gente. A saída até lá é se afastar, se isolar, cortar o contato e para aqueles que convivem com pessoas assim dentro da própria casa, evitar ao máximo elas. Essa luta não é fácil e eu respeito as vítimas.
  • A Resposta Que Não Encontrei

    Não estamos todos nós sendo ameaçados o tempo todo por nós mesmos de sermos amarrados e jogados na infinita vastidão que é a nossa melancolia,criada por nós com o objetivo de sermos presos imaturamente no nosso egoísmo e falta de empatia ao percebemos que não somos o centro do mundo e nem da nossa própria vida?
    Sim...
  • A Riqueza Salva

    No começo a tecnologia era vista com entusiasmo. O futuro era visto de maneira brilhante com diversos inventos fantásticos, muitos deles estranhamente ligados ao atributo de voar. Parecia algo surreal e mágico substituir as rodas por nada, podendo admirar de maneira simples toda a beleza que um pássaro vê cotidianamente. Mas o pessimismo foi lentamente tomando conta das mentes e o futuro passou a aparecer de maneira sombria.
    Alguns apostavam no aquecimento global, outros em um vírus mortal que é liberado sem querer de algum laboratório, e ainda tinha aqueles que acreditavam que as máquinas iriam adquirir inteligência e dominar o mundo. O grande problema é que tudo isso desconsidera o fator humano. Há muito já se discutia se era a sociedade a responsável pela maldade humana ou se nós já nascemos assim. A resposta, embora importante, só revela que somos maus. E, sendo maus, nós temos que ser o grande protagonista do nosso fim, pois, se não for assim, provavelmente não é o fim.
    Esse pessimismo mostra que, tanto para o pobre como para o rico, o mundo iria acabar num futuro próximo. Talvez não o mundo, mas com toda a certeza pelo menos a existência da raça humana. O grande problema é que os pobres não têm muito poder de ação individualmente e juntar todos a nível mundial para ter alguma mudança é um trabalho muito árduo, difícil e alguns até diriam que impossível. Mas os ricos estão em um número bem menor e o dinheiro deles carrega um poder quase sobrenatural.
    Tudo, como sempre, começa com o medo. Basta uma pandemia para que a venda de bunkers dispare como se fosse um sinal do final dos tempos. Os bilionários acabam desabafando com os seus amigos, que também são bilionários, sobre esse pessimismo e percebem que é um sentimento comum. E, talvez durante uma conversa no balcão de um bar enquanto bebem um whiskey mais caro do que um carro popular, acabe surgindo ideias de como sobreviver a tudo isso sem perder a qualidade de vida. No princípio, as ideias pareciam absurdas, mas vão se complementando. No fim, fica um silêncio constrangedor. Os pensamentos foram longe demais, reais demais e sedutores demais. Afinal, por que não? É só a morte, a velha companheira que está direta ou indiretamente presente em nossas fortunas e em nosso conforto. Por que não pode participar da nossa riqueza e conforto eternos? E não é difícil conseguir gente o suficiente. Basta convencer as 26 pessoas mais ricas do mundo que já terá poder o bastante e os outros terão que vir se quiserem sobreviver. Bilhões de dólares podem se livrar facilmente de bilhões de pessoas.
    A ideia era bem simples na realidade. Bastava continuar desenvolvendo a tecnologia como se nada de diferente estivesse acontecendo, mas lentamente ir acelerando esse ritmo. O foco principal era desenvolver a inteligência artificial para que ela conseguisse chegar ao ponto de criar as suas próprias invenções, além de máquinas que conseguissem substituir o trabalhador humano nas fábricas. Mas esse último era mais simples já que estava em curso há muito mais tempo. Depois disso, o segundo passo poderia ser posto em prática: a aniquilação de todos que não faziam parte do plano. Pode parecer algo complicado à primeira vista, mas só é necessário o caos inicial. É possível fazer isso de diferentes maneiras. Dá para envenenar lotes de sal e açúcar ou até mesmo o sistema de abastecimento de água de um país, sendo escolhido um veneno de ação lenta para que os sintomas fossem confundidos com os de alguma doença. Também dá para simular desastres naturais, como um enorme tsunami, ou diversos ataques terroristas atribuídos a grupos radicais de fachada. Por fim, mas ainda bem longe de terminar uma enorme lista, é possível criar eventos sobrenaturais como boa parte de uma cidade ter morrido eletrocutada durante uma enorme e súbita tempestade formada por uma bomba de pulso elétrico.
    Assim que o caos se instala, gerando a maior (e última) crise do capitalismo, o fim começa a caminhar por si só. As pessoas não veem o inimigo invisível e talvez não ligassem mesmo se o vissem. O mais importante para elas é não passar fome enquanto sonham em voltar ao estilo de vida antigo. Por isso se separam em grupos e começam a brigar entre si pelo mínimo de recursos. Eles mesmos começam a se exterminar para tentar sobreviver. E essa luta se torna ainda mais difícil porque a maioria das pessoas não sabe técnicas de sobrevivência, como produzir alimentos e nem como funcionam as coisas eletrônicas que usamos cotidianamente. Então só resta lutar pelas coisas que já foram fabricadas e, se tiverem sorte, encontrar algum grupo que detenha esses conhecimentos.
    Para os ricos essa fase também é um pouco tensa, pois é crucial. Eles têm que se manter escondidos até a poeira abaixar e proteger os meios de produção, pelo menos o suficiente para que possam reconstruir rapidamente as suas casas e fábricas. Mas essa parte não gerava tanta preocupação já que tinham uma avançada tecnologia e não precisavam chegar ao mesmo ritmo produtivo de antigamente. Cada um era responsável pelo seu esconderijo e os principais eram debaixo da terra, em plataformas marítimas ou até mesmo debaixo do mar em submarinos de luxo. Assim que essa fase acabasse, seria possível deixar que a natureza se recuperasse sozinha devido as reduções drásticas com a super população e do problema da poluição. Na realidade, o próprio fim do capitalismo levaria consigo a maior parte dos problemas. Como os próprios bilionários diziam com suas vozes pomposas e orgulhosas: “Esse é um amargo remédio, mas é a única esperança para a sobrevivência da humanidade e do planeta”.
    No fim dessa fase, a própria inteligência artificial começaria a planificar a economia para decidir o que seria produzido, o local de produção, a quantidade e para quem ia primeiro com base na logística e em qual plano seria o mais rápido para recuperar a luxuosa vida de todos. É claro que ainda havia desafios, afinal alguns sobreviventes, que os ricos apelidavam de baratas, ainda andavam e sobreviviam nas ruínas das cidades. Por sempre andarem escondidos, não havia um censo de quantos ainda resistiam ao domínio mundial dos ricos. Ao todo 15 milhões de milionários foram chamados para participar do plano criado pelos bilionários e logicamente todos aceitaram. Como podiam abrigar a sua família e alguns amigos, o número de sobreviventes ricos deveria rondar os 40 milhões, mas muitos não aguentaram carregar a culpa e acabaram se suicidando. Já outros tentaram sair dos seus esconderijos muito cedo para reconstruir a sua vida normal e acabaram assassinados. E ainda teve aqueles que não se esconderam muito bem, foram encontrados e mortos por baratas famintas. Ao todo devem ter restado uns 25 milhões de ricos espalhados pelo mundo.
    Um desses ricos era Thomas, um homem que fez sua fortuna no mercado tecnológico após criar uma startup de investimentos. Ironicamente o slogan da empresa era “Sobreviva como um rei, invista com a gente e faça a sua fortuna”, mas ele deve ter sido o único ligado ao aplicativo que continuava vivo. Ele tinha uns 25 anos e 1 filho pequeno no momento em que o plano de extermínio foi posto em prática. Quando sua mansão superprotegida estava pronta, saiu do seu luxuoso bunker com um pouco mais de 65 anos e 5 filhos. Mas se alguém o visse na rua em um dia qualquer provavelmente acharia que ele tinha uns 40 anos. As dicas e tratamentos de beleza que a inteligência artificial oferecia eram valiosos, ajudando os ricos a terem uma vida longa e saudável. Além disso, ela criava um belo conteúdo de entretenimento a partir dos gostos dos moradores, o que evitava a culpa e o estresse, influenciando e muito na aparência deles.
    Já o contrário parecia acontecer com Isaac que tinha somente 30 anos, mas aparentava uns 50. Ele nasceu durante a época do extermínio, então era mais fácil lidar com a realidade já que nunca viveu nada diferente do caos. O estresse e a culpa eram sentimentos cotidianos, sempre estando misturados com a raiva e frustração. Ele era negro e seus músculos eram definidos, mas isso acontecia mais pela desidratação e uma dieta irregular do que por uma rotina dedicada a musculação. A barba e o cabelo eram aparados com uma faca sempre que atingiam comprimento o suficiente para puxar e cortar, os deixando com uma aparência de ninho de pássaro. Os cuidados com os dentes eram precários, mas o suficiente para deixá-los lá. Tanto o cheiro do corpo como o das roupas eram azedos, pois ninguém confiava na água dos rios desde o envenenamento em massa. A preferência era sempre pela água das chuvas e somente em épocas de estiagem era que a água do rio era usada, mas sempre com cautela. Embora não tenha vivido a parte mais bruta do extermínio, sempre ouvia as histórias do pai e seguia os seus ensinamentos como se fossem regras canônicas.
    O seu pai, que se chamava Francisco, morreu quando ele tinha apenas 15 anos, enquanto a sua mãe morreu dando à luz. Quando tudo era normal, ele era o mordomo de Thomas que preferia um humano tomando conta de sua casa do que um robô, além de acreditar que ajudaria o seu filho a ser mais empático ao crescer do lado de humanos. Embora fosse constantemente abusado verbalmente, Francisco não poderia se dar ao luxo de pedir demissão já que não tinha muitos empregos lá fora e a maioria das pessoas trabalhavam como autônomas. Ele achava engraçado como elas formavam quase um mercado fechado: autônomo vendendo para outro autônomo e assim todos vivendo de forma apertada, mas sobrevivendo.
    Era bem diferente de como Isaac vivia e, sempre que ele se lembrava das histórias do pai, ficava com uma sensação de que era um conto de fadas impossível de se tornar realidade. Ele vivia com um grupo de 4 pessoas, todas mais jovens do que ele. Eles moravam entre uma pequena floresta, que antes era um parque, e os escombros de um antigo prédio que ainda tinha parte de alguns andares em pé. O verde já tinha recuperado uma boa parte do cinza da cidade e, como o parque já tinha um grande número de árvores antes, nessa área a recuperação foi mais rápida. Eles dormiam em uma pequena cabana feita de lona com duas valas escavadas ao lado. Isso permitia que a água da chuva fosse captada mesmo quando ninguém estivesse no acampamento. Assim, eles conseguiam fazer trocas com grupos que moravam nos esgotos sempre que ficavam sem conseguir caçar alguma coisa no parque. A troca não era agradável, mas aqueles que moravam nos esgotos sempre tinham uma abundante criação de baratas e uma escassa captação de água. Pronto, a troca perfeita estava feita: um pote de água por um de baratas. No começo é nojento comer elas, mas você vai fritando, as observando e pensando em sua fome. De repente, param de ser tão nojentas e passam a ser desejáveis ao pensar na crocância do exoesqueleto sendo esmagado pelos seus dentes, no gosto salgado se espalhando em uma boca que não sente nada a dias e na satisfação de ter alguma proteína no seu estômago. Mas graças a Michelle, que era a responsável pela montagem das armadilhas no grupo, esse canibalismo nem sempre acontecia. Ela aprendeu tudo que sabia com a sua mãe e tentava passar para a sua irmã mais nova Micaella, mas ela sempre esteve mais interessada nas histórias do mundo do passado que Isaac contava. Já Yuri e Regis eram os responsáveis pela segurança e arrumação do abrigo, sempre pensando em jeitos de afastar outros grupos, além de deixar tudo limpo e funcional. Como era o mais velho, Isaac supervisionava todos e sempre preparava as refeições. Era um grupo bem limitado que foi formado pelos pais de Michelle e Isaac, mas que de alguma maneira inexplicável continuava sobrevivendo.
    Antigamente havia mais membros, chegando a ter 15 pessoas em seu auge. Porém, como o acampamento ficava muito perto da mansão de Thomas, muitos eram capturados e outros fugiam com medo de terem o mesmo destino. A última baixa do grupo foi Juan que, enquanto caçava com uma lança, foi visto por um drone que patrulhava os arredores da mansão. Ele tentou correr, mas, com o lançamento de um projétil menor que uma bola de gude e macio como uma pena, ele caiu no chão imobilizado. Logo depois foi recolhido por um robô que voava a poucos centímetros do chão e que era do tamanho de uma van. Alguns diziam que a pessoa capturada era torturada por informações assim que acordava, já outros diziam que virava fertilizante para a plantação de flores dos ricos.
    Na realidade, ninguém sabia o que acontecia dentro da mansão e nem como ela era por causa dos enormes muros que separavam as duas realidades. Era até amedrontador olhar para ele toda noite antes de dormir, pois, mesmo em meio a tanta escuridão, ele ainda se destacava como se fosse um corpo vivo que se aproximaria de você durante o seu sono e te mataria enquanto estivesse indefeso. Já durante o dia, ele perdia um pouco dessa magia. Embora só tenha visto a barragem de uma hidroelétrica em um antigo e acabado livro de geografia, Isaac imaginava que deveria ser muito parecida com esse muro, mas só que ao invés de ter comportas para liberar a água, tinha pequenos buracos por onde saiam drones de vigia e alguns outros robôs. Mesmo de longe dava para perceber a vegetação subindo pelo muro e um musgo verde se formando na base enquanto lutava contra o preto da sujeira. De resto, parecia ser originalmente cinza escuro e totalmente liso, sem nenhuma imperfeição à vista e sem nenhuma chance de ser escalado, pelo menos não antes de ser visto pelos gélidos vigias.
    Isaac pensava muito nesse muro e se lembrava de uma história que o seu pai lhe contou, mas que nunca compartilhou com mais ninguém. Segundo ele, era uma história perigosa demais para ser divulgada e que poderia comprometer a vida de muitas pessoas. Talvez até mesmo se tornando a nova lenda de El Dorado. Era sobre um dia de trabalho comum, bem cansativo como sempre, e ele preparava um chá para levar até a sala de reuniões de Thomas. Logo depois de bater na porta e entrar, ele viu uns engenheiros apresentando um projeto de uma bela mansão com grandiosos muros. Na hora ele achou que o senhor Thomas ia reformar ou se mudar para um outro terreno, então não se importou muito. Mas, graças a sua memória fotográfica, viu os mesmos muros se erguerem no final da fase bruta do extermínio. Isso não seria de grande ajuda se ele não tivesse percebido que a mansão do projeto era exatamente igual e no mesmo lugar que a mansão onde trabalhava. Portanto, deveria ser a mesma ou pelo menos ter a mesma base e, se for assim, provavelmente ainda teria o mesmo túnel de fuga entre o corredor do primeiro andar e o quintal. Ele tinha sido criado na época da 2º Guerra Mundial para ser usado se algum exército inimigo invadisse. Depois foi reformado ao longo dos anos para o caso de haver um golpe comunista. No fim, só foi usado por gerações e mais gerações de adolescentes para fugir de casa, mas mesmo assim ainda deveria estar lá. Isaac se lembrava de um desenho que o seu pai fez para ilustrar o que estava contando e onde mais ou menos deveria ficar cada coisa hoje em dia. E, logo quando terminou a história, pediu para que ele só tentasse usar essas informações no momento em que soubesse que estava sem saída, pois as chances de morte eram muito maiores que as de sucesso. Ele falava que era como apostar na loteria, mas Isaac nunca entendeu muito bem essa expressão.
    Ele guardou esse segredo durante anos, tentando descobrir quando era a hora certa já que havia só uma tentativa antes do boato se espalhar ou se perder para sempre. Guardou até que Micaella foi capturada enquanto verificava se as armadilhas tinham pego algum animal. A sua irmã estava longe e não pôde fazer nada. Michelle ficou chorando durante uns dois dias seguidos, se culpando e imaginando pelo o que a sua irmãzinha estava sofrendo. Via ela em todos os cenários que diziam ser o destino dos capturados, mesmo sabendo que a maioria eram apenas histórias para assustar os mais jovens. Mas talvez alguma fosse verdadeira, não é? Alguma tinha que ser a verdadeira. Talvez não criassem as pessoas como gado para o abate e nem lutavam até a morte entre si para entreter os ricos, mas com toda a certeza morriam. Esse era o final de todas as histórias.
    Nesse momento, Isaac teve que admitir pela primeira vez que estava sem saída. Na realidade, há muito tempo não tinha nem sequer um caminho para o qual poderia seguir. Ver o seu grupo definhar ao longo dos anos e estando mais perto da extinção a cada dia doía como uma ponta de lança presa em sua carne, então Isaac teve que contar a história para o grupo. A decisão não seria dele, mas havia somente duas opções: eles podiam ir para o mais longe possível do muro e esquecer tudo ou podiam ficar, tentar invadir e torcer para não morrer. Houve um pouco de revolta por ter contado isso só agora, mas ele sabia que o tempo faria com que todos entendessem o porquê de ele ter escondido. Mas, como estavam cansados da realidade e do terrível cotidiano, decidiram lutar ao invés de fugir e assim começaram a elaborar o plano para a invasão.
    No dia seguinte, tudo que foi planejado já começou a ser colocado em prática. Eles entraram no esgoto logo após o parque e seguiram por ele até ficarem a mais ou menos uma quadra de distância do muro. Eles sabiam que entrando depois do parque não iam se deparar com nenhuma outra pessoa porque ninguém era tão louco de chegar tão perto daquela muralha amaldiçoada. O cheiro não era o pior do mundo já que não recebia esgoto há muito tempo, mas mesmo assim a sensação de ser algo sujo e nojento ainda prevalecia. Para organizar o trabalho, eles se dividiram em duplas que iam trabalhar por 12 horas seguidas. Isaac e Michele ficaram com o primeiro turno, o que foi um alívio já que ela era a única pessoa com quem conseguia ficar em silêncio sem se sentir constrangido. Com os outros dois, sempre parecia que algo estava errado e precisava ser preenchido com papo furado. Portanto, essa divisão seria ótima já que as conversas somente atrasariam o imenso trabalho que teriam pela frente.
    Em uma escavação todas as partes são difíceis, mas a mais difícil sempre é a que você está fazendo naquele exato momento. E, nesse caso, o começo era a parte mais difícil. Isaac tinha que calcular exatamente o ângulo em que o túnel tinha que seguir para atingir a passagem subterrânea do quintal. Depois de conferir milhares de vezes o mapa e ouvir diversos “não sei” de Michelle quando perguntava se estava certo, marcou com algumas pedras a direção e ficou feliz em perceber que era onde o concreto do esgoto estava cedendo. Ele trabalhou durante uma hora e conseguiu atingir a parte de terra do túnel. Michelle continuou e conseguiu fazer o comecinho da passagem. E assim eles foram se revezando de 1 em 1 hora para que pudessem descansar um pouco. Eles marcavam o tempo com uma ampulheta improvisada a partir de uma antiga garrafa pet e escavavam com pedaços de metal antigo presos em pedaços de madeira que originalmente seriam utilizados em armadilhas. Não eram as melhores ferramentas e quebravam facilmente, chegando inclusive a fazer alguns cortes quando a parte de ferro soltava com um golpe forte, mas era o melhor que podiam fazer.
    Quando acabou o seu turno e pôde voltar para o acampamento para descansar, só queria ficar deitado na terra amaciada pela grama e olhar para o céu enquanto ainda tinha a chance. Logo ele iria cair no sono, acordar e voltar para a escuridão. Ele tinha medo de voltar para lá. Não um medo paralisante, mas um que embrulha o estômago e te deixa trêmulo. O máximo de luz que eles tinham era um pouco de gordura que eles deixavam queimar no meio do caminho. O cheiro de animais em decomposição predominava, se sobrepondo ao cheiro de terra úmida. E, por estar fazendo bastante esforço físico, era obrigado a respirar mais vezes, sentir esse cheiro pútrido invadir as suas narinas e dominar a sua mente. Mas o que o deixava mais irritado era saber que ia demorar e que provavelmente já seria tarde demais para encontrar Micaella viva. E a cada dia que passava, a demora só irritava ainda mais. O problema não era mais a intensidade do trabalho, mas a longa distância que estava se formando. Os turnos tiveram que passar de 1 hora por pessoa para 3 horas porque simplesmente demorava muito para se rastejar até o fim do túnel. As discussões aumentaram e a maioria tinha Isaac como alvo, indo desde o quanto cada grupo estava escavando até questionamentos em relação a direção em que estavam seguindo. Mas todos que discutiam não acreditavam realmente no que falavam, era só uma forma de se livrarem de toda a raiva e frustração que acumulavam. Eles precisavam descontar em alguém porque também tinham medo de ter tomado a decisão errada. Tinham medo de ter escolhido a morte e literalmente estarem cavando o seu próprio túmulo.
    Depois de 1 semana e meia trabalhando 24 horas por dia, Isaac fincou a sua pá na terra e ela quebrou ao se chocar com o concreto. Ele fechou os seus olhos enquanto a sua pupila olhava para cima, respirou fundo e sentiu uma lágrima caindo do seu olho direito. Finalmente tudo estava próximo de acabar, seja de uma maneira boa ou ruim, mas acabar. Os próximos passos já estavam traçados e prontos para serem postos em prática no pôr do sol, logo quando os pássaros começam a cantar. Enquanto Isaac quebrava o concreto e invadia a mansão, o resto do grupo iria se separar em volta do muro e começaria a queimar uma série de bonecos de palha para distrair uma parte dos robôs responsáveis pela segurança. Logo depois disso, os três iriam se reagrupar dentro do parque e esperar o sinal de Isaac. Seria algo simples, talvez até invisível para alguém com olhar desatento. Ele faria uma fogueira dentro dos muros e pela primeira vez todos que estavam lá fora veriam fumaça saindo da fortaleza. A lenha seria os corpos dos ricos que moravam lá. Talvez possa parecer radical, mas o único jeito de uma barata não morrer é quando o exterminador tem medo dela. Ele tinha certeza que essa história se espalharia e faria com que todos os ricos temessem as baratas novamente.
    Logo após o primeiro pássaro piar e chamar todos os outros para o céu numa revoada que passa dançando pelas nuvens, as faíscas começam a surgir em bonecos de palha e os drones se juntam aos pássaros. O som surdo de uma haste de metal sendo golpeada rápida e sucessivamente por uma pedra encoberta de panos ecoa baixinho pelos esgotos. O suor descendo pelo rosto de Isaac como se ele tivesse acabado de sair de uma chuva não negava o esforço que ele fazia na luta contra o concreto. No começo, o seu adversário resistia em ser perfurado, sendo desgastado lentamente, mas, quanto mais era danificado, maiores eram as lascas que caiam. Depois de meia hora, já conseguia ver a luz do outro lado e bastou só mais 20 minutos para que conseguisse passar pelo buraco. Enquanto se espremia para alcançar o outro lado, sentia as lascas de concreto arranharem cada centímetro do seu corpo e o sangue quente brotando com ardência em alguns dos cortes. A primeira parte do corpo a sentir o cimento frio do outro lado foram as suas mãos e logo depois os pés, deixando o buraco para trás.
    Antes de prosseguir, Isaac decidiu ficar sentado por uns cinco minutos no chão para descansar e aproveitar o sorriso debochado que se formou em seu rosto após essa primeira conquista. Estava dentro. Não era um túnel grandioso e requintado, mas era do lado de dentro dos muros. Tudo à sua volta era cinza e escuro. A única iluminação eram pequenas luzes de emergência grudadas na parede separadas por uma distância tão grande que não iluminava todo o túnel. Mesmo assim pareciam grandiosas para alguém que viu somente alguns poucos LEDs no decorrer de sua vida. Chegavam a ser tão fascinantes que até o hipnotizavam por alguns segundos. Mas chegou a hora de se levantar e continuar, então tirou uma faca do cinto e começou a andar silenciosamente. Ele saia da luz de uma lâmpada, entrava na escuridão e seguia o caminho até encontrar outra luz mais adiante. Isso se repetiu umas dez vezes até encontrar uma grande porta de ferro na sua frente com um enorme leme grudado nela e que era usado para trancá-la. Ela estava com limo em algumas partes e já dava para ver sinais de ferrugem lutando contra a sujeira. Isaac sabia que seria difícil de girar e puxar a porta, então deixou a faca no chão, respirou fundo umas três vezes e jogou todo o seu peso contra o leme o forçando a girar no sentido anti-horário. Depois de alguns segundos sem se mover nem um milímetro, um clique foi ouvido e a roda começou a girar lentamente. Quando não conseguia mais girar, puxou a porta com toda a sua força até que tivesse espaço o suficiente para passar. Os rangidos soltados por ela o faziam praguejar em sua mente com todos os palavrões que sabia. Não tinha como fazer silêncio nessa parte, então só podia torcer para que ninguém ouvisse.
    O lado de dentro da porta era mais brilhante. Essa foi a primeira coisa que percebeu quando chegou ao outro lado. Logo depois, pegou a faca e passou um pé de cada vez pela porta. O piso era de uma madeira lisa e o ar, que no túnel era frio, estava em uma temperatura perfeita, nem quente e nem frio demais. A sua direita tinha uma escada com uma porta de madeira no topo e a esquerda havia dezenas de barris na horizontal com torneiras fixadas na tampa. E bem na sua frente tinham fotos em preto e branco de pessoas sorrindo. Demorando um pouco para juntar as letras, viu que em cima delas estava escrito “Mural do agradecimento”. A voz da mãe de Michelle surgiu em sua cabeça falando “Os ricos são pessoas estranhas, cada um tem a sua excentricidade.”. Essa foi a resposta dela quando Isaac perguntou porque existiam drones que tentavam machucá-los. E agora ecoava em sua mente. Talvez por isso decidiu se aproximar e olhar quem eram. Foi passando o olho rapidamente em cada uma das fotos. Como não reconhecia ninguém, pensou que poderiam ser os bilionários que participaram do plano ou dos descendentes de Thomas. No momento em que chegou na última foto, já estava preparado para fazer o movimento de voltar e subir as escadas, mas parou. Os seus músculos paralisaram totalmente e o único movimento que aconteceu nos segundos seguintes foi uma lágrima rolando do seu olho esquerdo. A foto era de Micaella. Ela estava mais limpa e com o cabelo arrumado, mas com o mesmo sorriso que dava quando Isaac contava as histórias do passado. Ele reconheceria esse sorriso em qualquer lugar porque normalmente era a única parte do seu dia que valia a pena. Às vezes era o que o fazia ter esperanças.
    A raiva, que já era grande, só aumentou. Ele fechou os punhos com força e limpou a lágrima. Não queria ver mais nada lá embaixo, só acabar com tudo. O mais rápido possível de preferência. Então subiu as escadas, abriu a porta e seus olhos se fecharam com a luz intensa. Aos poucos seus olhos se acostumaram e começou a identificar o local. Era como um corredor largo e decorado com um papel de parede branco com formas amarelas retorcidas, como se estivessem dançando. Havia três quadros bem coloridos, mas sem nenhum desenho em específico. Mas o que mais o fascinou foi o tapete. Ele era bem peludo e, quando colocou os pés nele, foi como se estivesse sendo absorvido pela areia molhada depois de uma onda. Era acolhedor, mesmo estando em terreno hostil.
    Depois de se acostumar, tinha que decidir se iria pela esquerda ou direita. Não tinha nada que indicasse o caminho certo, então foi para a direita. Os seus passos eram lentos. Bem lentos. Um pé de cada vez. Sem se apressar. E assim chegou perto de uma porta que estava em uma completa escuridão. As palmas da sua mão suavam e molhavam o cabo da faca enquanto o medo aumentava. Respirou fundo e deu um passo para a frente. Poucos centímetros antes do seu pé encostar no chão, viu uma sombra surgindo na sua frente. Em um movimento rápido e puramente instintivo, levantou o braço até a altura do queixo e tentou atingir a sombra com um golpe de faca no peito. A sombra foi mais rápida, golpeou com uma das mãos a articulação do braço e com a outra forçou a faca a se voltar contra o corpo de Isaac que a sentiu perfurando o seu estômago. Uma ardência mortífera se espalhou por onde a faca passou e, mesmo quando a soltou, ela continuava pendurada em sua barriga. A única reação que conseguiu ter foi dar alguns passos para trás e se apoiar na parede. Isso fez com que a sombra andasse para a frente e se revelasse. Ela tinha o rosto de alguém morto. De alguém simplesmente impossível. Enquanto começava a engasgar com o seu próprio sangue quente, via o seu pai com um terno preto e com uma aparência bem mais jovem se aproximando. Era ele que o tinha esfaqueado, mas era impossível que estivesse ali. Isaac o viu morrer em seus braços há 15 anos atrás e, mesmo se não tivesse, ele não o mataria, não o seu pai. Os pensamentos de Isaac já não fluíam de forma ordenada quando aquela coisa se aproximou de seu ouvido e falou com uma voz calma e familiar “O Sr. Thomas não gosta de baratas em sua casa, então vou ter que pedir para se retirar.”. Ele torceu a faca logo depois da última palavra e uma pontada de dor se irradiou pelo seu corpo como se tivesse sido atingido por uma forte corrente elétrica. A última reação de Isaac foi encostar no pescoço de seu pai e encarar os seus olhos enquanto a escuridão se aproximava. Não existiam batimentos em seu pai e logo não existiriam nele mesmo. A sua cabeça caiu pesadamente para frente e os seus olhos ficaram abertos, mas não enxergavam nada além da escuridão.
  • A Rotina De Quem Ama O Que Faz

    Tomar banho para limpar as impurezas do corpo;
    Ler para limpar as impurezas da mente;
    Escrever para limpar as impurezas do coração.
  • A tela do meu telefone

    Eu me sinto estranha. Em um breve segundo uma lágrima escorre e sei que o que vejo nessa tela nunca será meu. Estou sorrindo e o motivo nem me pertence, aquele que me faz rir não sabe que eu existo e nunca me amará do jeito que eu o amo, estou a somente 15 centímetros dele e mesmo assim jamais poderei tocá-lo. 
      Não sei porque o amo e nem quando comecei a amá-lo, a lágrima que desce agora deve ter escorregado porque no fundo sei que existe também alguém que me ama, mas que já tem quem o chame de seu. Nessa noite tão solitária quanto a minha alma, os únicos barulhos que escuto agora são o de um grilo que nunca para de cantar e o do meu coração que bate como um louco depois das cenas que sei que nunca protagonizarei. 
      Meu amor é passageiro mas não sei quando irá passar, estou com medo das madrugadas que passarei chorando sem que eu possa justificar, estou com medo do que eu disse antes ser realmente verdade, e que ele nunca irá me amar.
  • A Torre e os Enamorados

     
    a torre e os enamorados

     Não me recordo exatamente do meu início... Consigo apenas lembrar de quando já me considerava ser algo. Comecei como um aglomerado de rochas incandescente, sendo forjado pelo fogo que transmuta. Em um estado bruto, rústico e primitivo, ainda encontrava-me em minha nebulosa familiar, meu ponto de origem, e com os adventos das radiações cósmicas, dos ventos solares entre outras intervenções naturais, fui me formando.

        Possuo anéis de alegria ao meu redor, eles deslumbram e me protegem de turistas inoportunos, detesto turistas - até porque não sou a Disney. Tenho oceanos de sentimentos, com zonas abissais tão profundas e indesbraváveis quanto a subjetividade de um ser, rios de vivências que marcam minha derme - com leitos vívidos -, em que na queda de cada um há a força de minhas cachoeiras, onde abriga o início e o fim dos novos ciclos.

        Um dia - por loucura - acabei indo orbitar um corpo celeste desprovido de luz. Por consequência, toda vida que havia em mim foi se esvaindo... Foi uma fase de infortúnios e solidão, nunca imaginei que aprenderia a ser só, mesmo estando acompanhado. Minhas atmosferas já não davam conta de me manter habitável, meus vales foram ficando secos, todo o sentimento que fluía estava se perdendo no espaço, já não via mais promessa de continuidade, pois não podia se quer achar um arco-íris em qualquer canto, independente do quanto procurasse. Com tudo isso fui aumentando a minha órbita, desvencilhando-me naturalmente, para não me destruir. Meus anéis já não tinham brilho, eu não me via, mas sabia que não estava bem. 

        Coabitando a mesma localização e girando a uma distância de dias luz, segui, segui sem a esperança de mudança, em um estilo bem Clariciano. 

        Passei algumas poucas vezes por um certo corpo celeste, até que resolvi ir conhecê-lo. Ele era lindo... Uma estrela diferente de todas as outras que habitam o céu, seus raios era suaves e intensos, suas tempestades eram de doçura e atenção, a radiação transmitia reciprocidade, composto de carinho, que queimava paixão.

        Extasiado por seu encanto, mesmo distante, comecei a orbita-lo. Adentrando uma rota sem volta, lancei-me nessa empreitada. Pedi o respaldo de minhas luas, que não foram muito claras, mas explicitaram que ali era o meu lugar.

        Em uma térmica ascendente, fui mais rápido que um cometa, até que fiquei próximo a ele, parei a minha atenção, não queria perder um só segundo da volúpia de estar na sua companhia. Entre olhos fitados, havia apenas o silencio da imensidão, para que nada interrompesse a linguagem incompreensível a mente que o sentimento do olhar tem. Senti todo o calor do seu afeto, suas palavras fizeram ressurgir a vida em mim, meus campos floriram, meus bosques reavivaram-se, as borboletas voltaram a pairar com os beija-flores e as cachoeiras recuperaram sua força. 

        Ele era uma estrela solitária, ao meu ver, disse-me que eu era a "Lux da sua vida". De início eu ri, pois ele tinha um jeito bobo de falar, mas, mal ele sabia que a luz que ele via em mim era reflexo dele mesmo. Foi um magnetismo inesperado, senti que pertencia a ele e ele a mim, como se meu espaço já estivesse ali, esperando-me. A consumação de todos meus anseio, de meus desejos e aflições. 

        Por mais que eu queira estar sempre próximo dele, a vida ainda não permitiu, minha rota elíptica é ovalada, onde só tenho um contato próximo de tempos em tempos, mas, o encanto é que não perdemos nossa ligação, pois independente da distancia posso sentir o calor do seu afeto. 

        Por ser composto de carinho, em seu núcleo há algumas instabilidades, o que faz com que ele transpareça medo em sua coroa, mas nada que não seja recondicionado e estabilizado com reflexos visíveis de amor.

         Viciado em estar em rotação plena e inebriado por tudo isso, fui convidado a dançar. Ele me escolheu para ser seu par e nos concedemos o direito dessa dança cósmica que haverá de durar até o final da eternidade desse amor.

     

  • A tríade do mau em si

    Decidiu ir muito mais além do que se possa imaginar em sua estadia no plano físico-orgânico e tridimensional. Resolveu descortinar-se, despindo do manto de ignorância da sua própria persona programada, alienada e fragmentada. Parou de culpar o mundo… as pessoas… as coisas… tudo! Vira a culpa em si mesmo, e se vendo em sua dramática lastima percebeu-se sabotador de si mesmo, porquanto, ainda não se conhecia.

    A medida em que se observava, vira a tríade mental do seu ser mundano e civilizado psicológico: o EU INTELECTUAL; o EU EMOCIONAL; o EU SEXUAL. E se viu em uma sala completamente espelhada, em que cada ‘EU’ do triângulo de si, se multiplicava infinitamente no amago de sua personalidade inconstante e provisória.

    Ao se perceber equacionado em si mesmo… expressadamente contido entre parênteses, colchetes e chaves. Multiplicado e dividido meditou em manter a ordem dos fragmentos opostos, para por último se resolver em fatores de subtrações e adições, em toda complexidade de somatórias minimalísticas, entre efêmeras igualdades e variadas situações dos seus multifacetados ‘eus’ aplicativos do mau em si.

    Muito além de sua complexidade mental psicológica… degenerativas de todos os orgânicos e inorgânicos sentidos do corpo-mente… em que o ‘EU INTELECTUAL’ se aplica, elaborando seus conceitos e preconceitos a partir das múltiplas percepções externas e internas que adultera a Arte Sagrada, a Filosofia Primordial e a Santa Religião… o que já era pesado demais para resolver… tinha ainda que lidar com o automatismo instintivo do seu corpo físico-orgânico, pelo qual confeccionara o ‘EU SEXUAL’. Porém, mais ainda perigoso e desastroso, entre outros e esses fatores… era lidar com o insaciável e temido ‘EU EMOCIONAL’, a cabeça do meio do Dragão-de-Três-Cabeças, em que os outros dois ‘eus’ eram-lhes subservientes.

    Fora impactado pela tríade do ‘EU’ desde o nascimento, o que adoecia o corpo-mente, levando a uma total inconsciência ignorante de si, do outro e ao redor na cadeia ponto-espaço-tempo. Passara por longos e agoniantes momentos de transformações decadentes, ao receber do mundo exterior falsas imagens e impressões da realidade descendente em infra-normalidades, se afeiçoando as falsas qualidades antagônicas terrivelmente negativas do materialismo, baixo espiritualismo e vaidosas “verdades” sociais, econômicas e étnicas de si. E assim, decidira com afinco trabalhar na educação de sua forma infra-humana enfrentando o Dragão-de-Três-Cabeças, o Macho Alfa de suas bestialidades, brutalidades, temores, vaidades, traumas, vícios, costumes, psicoses e luxurias… a parte do partido egocêntrico, humanoide-animalesco em que adormece e entorpece a Sagrada Consciência Divina em sua gnose.

    Assim, almejava o retorno a sua Pureza Original, ao se render as espadas flamejantes das sentinelas-querubins que guardavam o caminho de acesso à Árvore da Vida.

    Aprofundando-se mais e mais em si mesmo, silenciou-se em sua retorta, destilou-se no Alkahest (solvente universal) de sua vontade, para ser posto em uma das câmeras do At-tannur (forno alquímico) de sua consciência, almejando ser purificado dos constituintes de seus ‘eus’ em sua solitária espargia espiritual.

    Os muitos questionamentos… as muitas perguntas… o excesso de gesticulações… as queixas e tagarelices de si, e as reclamações do mundo externo… o que não era ou estava bom em sua vivência… a falta de atenção e elogios alheios não mais o perturbavam em sua busca meditativa, em íntima contemplação.

    Apenas deixou-se ser arrastado pelo Rio (o Criativo), guiado em inércia e não-ação para o Mar (o Receptivo).

    Assim!

    O Amante, em Amor, uniu-se ao Amado…

    O Masculino penetrou o Feminino…

    O Homem conheceu a Mulher…

    O Pai gerou o Filho na Mãe…

    O Céu cobriu a Terra…

    O Sol em sua potência iluminou a Lua…

    O Criador, na Criação, manifestou-se em Criatura…

    E o Fogo Sagrado derreteu o tenebroso gelo nos empedrados corações.
  • A Uma Realidade De Distância

    "Me manter a uma realidade de distância nunca foi fácil;
    Principalmente quando parecia tão longe e tão perto;
    Talvez eu devesse me mudar;
    Quanto mais longe eu fico, mais perto estou de você;
    Preciso medir meus esforços;
    Nunca se sabe quando o universo vai decidir me presentear com você;
    Então eu o forcarei a fazer isso;
    Eu vou forçar ele a me dar você;
    Eu vou me mudar para mais perto, ainda dentro da minha casa, e mesmo assim longe o suficiente dela;
    Tão longe de você, mas com a palma da mão no seu rosto;
    Estudando os traços do seu rosto, com a consciência de uma realidade vívida e da memória ridícula de que tenho de voltar para o perto, que seria o mais longe que fico de você."
  • A verdade sobre a confiança

    A algumas semanas pensei ter conquistado a tão famigerada confiança. Estava confortável com minha vida profissional, amorosa , acadêmica e segura de mim de uma maneira que nunca tinha estado antes .
    Porém hoje, uma amiga estava com problemas e conversei horas tentando acalma-la e faze-la ver a razão. Minutos depois outra amiga nossa chegou na conversa e com excessão de alguns pequenos pontos insignificante, disse exatamente a mesma coisa que eu, porém dessa vez nossa amiga triste entendeu, agradeceu os conselhos para ela e foi embora. Nesse momento me senti extremamente incapaz , como se eu não fosse capaz de dar bons conselhos ou não fosse uma fonte confiavel.
    Sentei alguns minutos e precisei me lembrar que não tem nada errado comigo , que a meninas dos conselhos não é superior a mim . Uma avalache foi aberta dentro de mim por algo tão pequeno. Será que todo essa confiança é real ? E a minha resposta a essa questão é : Sim, é real.
    Não é porque ruimos em um dia , porque nos questionamos se estamos fazendo as coisas direito, porque alguém melhor que você em algo te abalou que você nunca foi confiante, só significa que naquele momento especifico você não é . Se abalar com o talento dos outros não é bom, mas é completamente natural, pois nós somos humanos, não gostamos de perder. Mas, levantar e ver que assim como você aquela pessoa tem erros e problemas, e que você não é superior nem inferior , mas sim igual a ela , te faz transceder sua natureza humana . Lidar com sua falta de confiança não só faz com que ela se recupere com a faz voltar melhor que antes , e acredito que seja para isso que ela se abala , evolução.
  • A vida de uma Pimenta

    Comer a mais no café se tornou rotina. É uma maneira de evitar o contato prolongado com quem eu mais amava: meu pai.
      Depois do meu pedido de ajuda, a vida se virou de ponta cabeça. Depois do meu suicídio mal sucedido, minha cabeça começou a trabalhar num escritório e ter que ler vários artigos por dia.
      Bom, vamos ao ponto. A verdade é que sou depressiva bipolar e fóbica social. Mas a vida não tão difícil quanto pode ter passado em sua mente. Sou bem aberta à recepcionar pessoas e ouví-las. Só entro em pânico quando tenho que ir ao shopping. A vida só ficou complicada mesmo quando meus pais decidiram que eu não podia mais ficar sozinha. Isso mesmo. 24 horas por dia, vigiada. Além disso, comecei a ter o senso de que meu pai estava se aproveitando de nós, minhas irmãs e eu, para fazer tudo na casa, enquanto ele se sentava ao sofá. Sabe aquela VELHA história de que o homem trabalha fora de casa e a mulher dentro? Pois é, acontece aqui. E foi assim que as brigas começaram; que a distância se tornou refúgio e que eu comecei a perder o senso.
      Quero contar essa história do início. Mas é uma LON______GA história. Então, se você quiser/puder ficar, conto tudo direitinho....
  • A vida passa, meu amigo!

    Sempre me empolguei com relatos parecidos com o que vou escrever aqui. Mesmo cobiçando a atitude e me identificando com o estilo de vida, eu continuava sentado, esperando pelo dia que eu pudesse ter coragem de fazer a mesma coisa. Eu pensei que não faria nunca. Mas eu fiz, e quero te contar sobre os motivos que me fizeram me desvencilhar do meu trabalho.

    A vida passa, meu amigo. E é só por causa disso. Não vai valer a pena no final. Me vi dentro de uma maratona para ganhar dinheiro, subir de cargo e bater campanhas. Previ minha vida inteira aos 25 anos de idade, e sinceramente, foi chato demais! Não dá pra eu me matar de trabalhar agora porque eu deveria me preocupar com a educação de filhos que eu nem tive ainda. Não dá para desperdiçar uma vida inteira, porque eu deveria pensar na aposentaria. Além de corrermos o risco de nem chegarmos lá, essa estabilidade poderá ter acabado, e também mesmo que ainda exista e cheguemos lá, de que valerá a estabilidade se a vitalidade já se foi? Talvez eu olhe para trás e veja que fiz um péssimo negócio. Não dá mais para trocar experiências de vida por bens materiais e acúmulos de contas. Se não for para se aventurar, não fará sentido essa vida. É estranho, controverso e talvez esse texto não servirá para você, como uma peça de roupa que não entra, não veste bem, e não fará o menor sentido usar. Não use! Vivemos um tempo acelerado que me parece de propósito, para que não tenhamos tempo para pensar e notar o que importa. Importar, trazer pra dentro. O trânsito está cada vez mais acelerado, as pessoas estão cada vez com mais pressa e perdemos o respeito pelos outros. O excesso de futuro tem nos deixado doentes. Se a gente soubesse ao pé da letra que vamos morrer um dia, a gente faria tudo diferente. Mas nós não sabemos disso – não é? Eu quero desacelerar, ir com calma. Embora isso não quer dizer que perderei o sangue nos olhos e minha necessidade do já. A verdade é que eu tenho tanta coisa para fazer que não posso perder mais 1 dia da minha vida fazendo algo que não me representa mais. Cresci e não estou mais cabendo dentro desse sistema maluco de passar cartão, ficar preso por mais de 9 horas e tirar míseros 30 dias de descanso dentro de 1 ano inteiro. O salário é bom, mas não paga a conta. O mundo é demasiadamente grande para ficarmos num só lugar, fazermos sempre a mesma coisa e não nos atrevermos a arriscar por temer o que é novo.

    Há 7 anos atrás eu entrei nesse trabalho e interrompi diversos planos na minha vida, fiz faculdade de administração - da qual nunca tive vontade - porque eu precisava ser promovido na minha empresa. Não vou dizer que me arrependo. Esse trabalho me trouxe privilégios, me abriu portas e me apresentou um universo totalmente diferente do que eu vivia, e eu quis fazer parte dele. Com isso adquiri conhecimentos diversos e conheci pessoas encantadoras que vou levar pra sempre. Já fui destaque regional, já me vi nas primeiras posições em nível nacional, tive promoções rápidas e acabei indo mais longe que eu poderia prever anos atrás enquanto eu amarrava meu jaleco escrito “posso ajudar? ”. Mas antes de tudo isso, como eu mesmo disse, deixei muita coisa pra trás. O plano A, que estava esquecido, ressurgiu com força, me fazendo repensar minha vida inteira, trazendo à tona meus sonhos e planos que eu cultivava desde criança - e que sim, acabaram sendo mais inteligentes que minhas escolhas atuais porque sempre tiveram mais verdade e coragem -, o que me colocou frente a frente a mim. E o que era pra ser um encontro doloroso e desastroso, foi de um leve estranhamento para uma compreensão acolhedora quando me olhei e disse pra mim mesmo: “Ei! Aí está você! Por onde andou esse tempo todo? Eu estava com saudade”. E antes que eu caísse em lágrimas, essa mesma voz conhecida e esquecida continuou: “É isso que você quer? Então vambora!!!”, e pronto. Foi o apoio que eu precisava.

    Quero compartilhar isso com você e deixar meu rastro como outros já fizeram, e dizer que eu não conheço você, não sei sobre as contas que você tem para pagar, sobre seus sonhos deixados no caminho, sobre os filhos que você tem que sustentar, e não estou dizendo para tomar decisões precipitadas que podem ferrar com tua vida. Quero apenas que aproveite ela. Olhe para você, seu redor, seu corpo que fala constantemente se suas escolhas estão te levando para o caminho certo. Você pode sim conversar com todo tipo de gente e colher as mais diversas opiniões, faz parte do processo e eu fiz o mesmo. Mas a grama do vizinho é sempre mais verde e as experiências dos outros não são como as suas. Ninguém poderá te ajudar porque ninguém sabe mais de você que você mesmo, acredite. A decisão é única e exclusivamente sua. Não temos certeza do futuro e o controle do mundo é uma ilusão. Mas nossas escolhas e decisões é a gente que dá, como cartas que jogamos para o universo e esperamos que prospere. Temos muito tempo para errar e fazer de novo, não há desculpas no jogo. Perdi amigos próximos que se soubessem que sua estadia aqui teria uma jornada tão curta, talvez teriam feito escolhas diferentes. Mas de onde estão, devem rir da nossa cara quando nos pegam aflitos, deixando a vida passar em troca de esmolas e rodeados de medos e conflitos bobos. A vida está acontecendo agora. Esse é o momento. E você?! Tem feito o que?! Quais histórias vai contar quando chegar lá?! Aposte nas suas ideias e faça suas escolhas. Essas mesmas que estão aí. E você vai ficar muito, muito contente por tê-las feito. Porque a vida passa, meu amigo! E é só por causa disso!
  • A Vida Precisa Fluir

    A vida, uma única vez se vive
    Sinto falta do que já passou
    Eu sinto falta daquilo que não tive
    E que em meu peito a saudade deixou

    Sinto falta do meu tempo de criança
    Dos que já partiram, deixando meu coração em pedaços
    Ainda relembro das boas lembranças
    Por não poder lhes dar um último abraço

    A vida passa, voando como o vento
    Hoje eu percebo o quanto eu mudei
    Eu sinto falta dos bons tempos
    E dos lugares por onde passei

    Carrego comigo alguns costumes
    Sinto falta de não ter sido amada
    Sinto falta do cheiro de antigos perfumes
    Isso me deixou desmotivada

    Não quero deixar de sentir
    Sentir falta de todas esses momentos
    Que tanto me fizeram evoluir
    E que ainda habitam meus pensamentos

    Mas, eu preciso deixar a vida fluir...
  • A zona (a pior das piores)

    As vezes sinto vontade de ficar
    E penso que é normal
    Mas se é tão habitual estagnar
    Porque minha vontade de correr é fatal?

    Como hedonê esse suplicio me seduz
    Para um mundo imovél essa vontade me conduz
    Mas como um resquicio de luz
    Uma força dentro de mim se reproduz

    Põe de volta o moinho em movimento
    Faz o dom quixote interno ser são por um momento
    Faz o que antes caia na simplicidade de um intento
    virar real e trazer contentamento

    Minhas mãos agora deslizam
    Acessos de inspiração e epifania transbordam em mim
    Ideias na minha mente cristalizam
    E se tudo for posto em seu lugar,
    Não serei o mesmo enfim

    Adrenalina usurpa-me o direito de falar
    Agora todo o meu ser se concentra em exercer
    Exercer o poder de criar
    poder este, que é de toda obra
  • Abstração de vida

       Dois meninos, deitados no capim que parece mais uma grama. Mesmo em cima da camisa, volta e meia o capim pinica as costas. Estão bem em frente para a estrada de asfalto, que trouxe o “progresso” a comunidade rural.
        Nenhum deles liga pro asfalto quente. Mas os carros que passam sobre ele sim. A escola era pela manha. Já tinham feito suas obrigações na roça e agora estavam ali a contar as três horas da tarde, quantos subiam e quantos desciam.
       Os que desciam eram de um, os que subiam do outro. Quando um carro dava marcha ré, não discutiam, negociavam ate chegar a uma conclusão. Alguém lembra que tem carros demais e diz “não, fica já tenho muitos da cor vermelha”, e o amigo respondia “não eu tenho muitos chevetes”. Doa o carro e fim de papo. Ambos possuem tantos carros que poderiam abrir ate uma concessionária
        Mas e as motos? As motos também, as bicicletas e ate os carros de mão. Estavam ali tão despreocupados. Não tem filhos para alimentar, educar, mulheres para cobrar nada deles. Por isso viviam assim, como diria o poeta “Êta vida besta meu Deus”.
       Um deles esboça um sorriso, o outro senti pena daquelas pessoas a descer e subir no asfalto, a passarela do progresso. Eles pouco se importavam com ele, queriam mesmo era sonhar que eram donos do que passava por ela.                                                              

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