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literatura contemporânea

  • Concurso literário – Orixás, histórias dos nossos ancestrais

    A Cartola Editora lançará sua sétima antologia de contos através de um concurso literário exclusivo para autores da língua portuguesa. O objetivo é incentivar que mais escritores sejam inseridos no mercado brasileiro como autores.

    A antologia “Orixás, histórias dos nossos ancestrais” será composta por uma média de 30 (trinta) contos tendo como temática os doze Orixás representados no Dique do Tororó, em Salvador:

    Oxum, Xangô, Oxalá, Oxossi, Ogum, Nanã, Iansã, Iemanjá, Oxumaré, Ossain, Logun-Edé e Ewá.

    Inscrições:

    15/05/2019 a 31/05/2019

    Divulgação do resultado:

    10/06/2019

    Organização:

    Janaina Storfe

    Regulamento

    1 – Participantes

    1.1 – O concurso destina-se a escritores de língua portuguesa, sendo livre para escritores iniciantes ou para autores que já foram publicados anteriormente. Os escritores podem ser residentes de qualquer país, desde que maiores de 18 anos;

    1.2 – A inscrição é GRATUITA e NENHUM VALOR SERÁ COBRADO dos candidatos para participação no concurso, ou posteriormente, na publicação da antologia;

    1.3 – Todo participante deve ser OBRIGATORIAMENTE usuário do Whatsapp, pois a organização da obra será feita em conjunto com todos os autores através de um grupo específico. Não será possível participar da obra caso não utilize a ferramenta.

    2 – Orientações

    2.1 – Os contos possuem como temática os doze Orixás representados no Dique do Tororó, em Salvador:  Oxum, Xangô, Oxalá, Oxossi, Ogum, Nanã, Iansã, Iemanjá, Oxumaré, Ossain, Logun-Edé e Ewá.

    2.2 – Os contos não precisam ser inéditos, podendo estar online em qualquer plataforma, ou já terem sido publicados anteriormente em outras coletâneas, sempre respeitando os direitos autorais adquiridos por outras editoras previamente, ou seja, o direito autoral do texto para a participação no concurso, precisa estar 100% com o autor;

    2.3 – Os textos deverão ser encaminhados através do formulário presente ao final desde regulamento durante o período de inscrição, respeitando o seguinte formato:

    Arquivo Word (NÃO ACEITAREMOS PDF) no tamanho A4; espaçamento 1,5 entre linhas; fonte Bookman Old Style (11); margens: superior e esquerda com 3cm; margens: inferior e direita com 2cm. O arquivo precisa conter o nome do escritor (pode ser pseudônimo) e o título do conto em minúsculo, por exemplo: “rodrigo-barros-o-sobrado-da-rua-taylor.docx”;

    O conto precisa ter o TÍTULO e o  NOME DO AUTOR (pode ser o pseudônimo) no início do mesmo.

    O conto precisa ter um mínimo de 02 (duas) páginas e um máximo de 05 (cinco) páginas, no formato descrito anteriormente;

    Caso envie o conto em qualquer outro formato ou especificação este será AUTOMATICAMENTE DESCLASSIFICADO;

    2.4 – Cada escritor poderá participar do concurso com até 02 (dois) contos diferentes;

    2.5 – Não serão aceitos contos que sejam fanfics de livros, séries, filmes ou qualquer outra mídia. O conteúdo precisa ser 100% original;

    2.6 – Não serão aceitos contos que contenham conteúdo pejorativo, discriminatório ou que incitem ódio e preconceito;

    2.7 – Não serão aceitos contos em co-autoria.

    3 – Publicação

    3.1 – A antologia terá uma média de 30 (trinta) contos participantes. Dentre os quais, aqueles escritos pelos autores selecionados através deste concurso, podendo haver a participação de autores convidados pela Cartola Editora;

    3.2 – A antologia será publicada em formato digital (e-book) em todos os canais de distribuição da Editora

    3.3 – Caberá somente à Editora definir a arte de capa e o estilo de diagramação dos contos no miolo da antologia;

    3.4 – Será realizado um financiamento coletivo para que a obra seja publicada também em formato impresso;

    3.5 – Caso o financiamento coletivo atinja a meta necessária para publicação impressa (esse valor será determinado pela Cartola Editora após a divulgação dos vencedores), o livro estará presente não só em nosso catálogo, como também estará à venda em todas as lojas online que já comercializam as obras publicadas pela editora;

    3.6 – Os autores não são obrigados a participar do financiamento coletivo, mas é de suma importância sua divulgação para atingirmos a meta estabelecida;

    3.7 – Se o financiamento coletivo atingir 150% ou mais da meta, efetuaremos em São Paulo um evento de lançamento do livro;

    3.8 – Se o financiamento coletivo atingir 200% ou mais da meta, indicaremos a obra para livrarias físicas parceiras, cabendo a elas aceitar ou não o livro para venda;

    3.9 – Será realizado um único registro ISBN com todos os contos do livro;

    3.10 – A participação do autor só será confirmada após o recebimento dos contratos assinados.

    4 – Direitos autorais

    4.1- Todo autor receberá um exemplar do livro em formato digital (PDF) e posteriormente receberá direitos autorais sobre as vendas do e-book, conforme constará em contrato;

    4.2 – Caso o financiamento coletivo atinja a meta necessária para publicação impressa, cada autor receberá direitos autorais sobre as vendas do livro físico, conforme constará em contrato;

    4.3 – Todo participante da Antologia poderá adquirir exemplares com 50% de desconto (mínimo de 20 exemplares), custeando também o frete, e posteriormente comercializando a obra conforme sua conveniência.

    A arte que ilustra esse artigo é de Dalton Muniz.

    Acesse:

    http://www.cartolaeditora.com.br/concurso-literario-orixas-historias-dos-nossos-ancestrais/

  • Geração 20's : Não queremos acabar com tudo.

    Uma geração estranha de desasjustados. Os 20,ou 20 e tantos (que há uma margem entre si e uma diferenciação, mas que posta numa escala menor, estão, tanto os 20, quanto os 20 e tantos iguais a uma barata tonta após jatos fortes de SBP de eucalipto) não sabem como proceder, como agir, não param em um emprego sequer. A cada dia, mais amigos me contam que largaram a faculdade, ou que foram demitidos, ou que pediram demissão depois de tanto tempo na empresa, ''cansei, não dá'' ou ''ah amigo, está muito caro.'' e os que trabalham dizem, ''todo dia eu quero me matar'' ou ''diz que um terremoto desmoronou o shopping'' e aqueles felizes com seus trabalhos são Dj's ou fotógrafos e mesmo assim não ganham bem, ou são ricos, pois os ricos sempre estão felizes, se não passa na faculdade um intercâmbio resolve o problema, ou até mesmo uma analista bem cara e bem paga, por que na verdade a única coisa que queremos é estar bem com nós mesmos. 
    Estamos ferrando com tudo por muito pouco, pouca bebida (até mesmo bebidas bem baratas), pouco sexo, poucas drogas e pouco foco no que de fato importa. Conheço pessoas nos 20's que sabem exatamente o que querem e fazem exatamente o que é preciso para conseguir, sem erros, sem falhas, um dia de cada vez, do jeito que tem que ser. Pensando aqui só duas; o resto mais cedo ou mais tarde faz uma cagada específica que ferra com tudo. 
      Nos 20 já desistiram de nós. Já devíamos ter aprendido, já devíamos ter feito aquilo. Na verdade, estamos cansados demais dormindo até ao 12:00, pois na noite anterior juramos pela nossas vidas que 23:30 era o limite para estar na cama; e as 2:30 se dá conta que iniciou o segundo filme, a segunda pipoca ou brigadeiro, e não tem problema, eu acordo cedo assim mesmo para ir trabalhar, eu aguento, um geração de zumbi. Gosto de pôr a culpa na TV, a nossa geração na infância está acostumada a ficar deitada a manhã inteira vendo todos os desenhos possíveis, e nossa Mães (inclusive a minha) secretamente gostavam daquilo, ''pelo menos não está fazendo besteira'' elas pensavam. Na minha casa era um momento religioso, sou o mais novo de 3 meninas e um Poodle, assistir Tv consistia num intervalo de nossas brigas e latidos constantes. Neste cenário, os 20's jamais vai crescer e ter o interesse de pegar no batente as 6:00, ou sentir-se feliz e realizado num emprego de 9:00 ás 18:00 em um escritório que nem a luz do sol é vista; os 20 enfrentam sua primeira crise e divergência e o mundo não tem espaço para crises de identidade, ou depressão, ou ansiedade, apenas o trabalha que cura qualquer enfermidade.
     Um solução? De fato não tenho nenhuma; talvez a culpa seja toda nossa mesmo, ou talvez não. Talvez seja um processo de adaptação á vida adulta; ou muito provavelmente virá um moço com o mapa com as regras e atalhos. O que piora são as expectativas, esperam que sejamos um tipo muito especifico de ser; pacato, mais ou menos; e isso é exatamente a ultima coisa que os 20 que ser. Não queremos pouco, não queremos até o limite, nós queremos intensidade, verdade, paixão, acordar e pensar que tudo vale a pena, queremos viver numa castelo mesmo que seja num camping em ilha grande ou num kitnete no centro da cidade. Até queremos um bom emprego, mas que tenha horários flexíveis, que forme sua equipe de acordo com o mapa astral dos funcionários, uma empresa que entenda o ciclo menstrual feminino e que dê carona em dias de chuva, que leve em consideração a febre do filho de seu funcionário, e que o chame de sócio e não de empregado. Queremos arriscar tudo por uma chance de ser feliz, botar tudo a perder sem garantia nenhuma; entendemos que nossa passagem aqui é breve e que de fato a maior felicidade é viver.
  • Leandro Flores, uma das vozes contemporâneas em evidência na internet | Poetas mais citados

    bráulio bessa conceição evaristo e leandro flores
    Estudo sobre os poetas contemporâneos mais citados na internet (2020–2025)Por Erick Diaz Thompson
    Desde o início da pandemia, dedico-me a um estudo particular sobre a circulação da poesia brasileira contemporânea na internet. Minha proposta foi medir como os versos dos nossos poetas vivos e atuantes aparecem em blogs literários, sites culturais, redes sociais públicas (principalmente TikTok e Instagram), jornais digitais, fóruns e até documentos institucionais. Utilizei ferramentas de monitoramento como Semrush, Awario e BrandMentions, além de técnicas de inteligência artificial para filtrar duplicações e identificar autoria. Importante frisar: foram excluídas citações feitas pelos próprios autores, bem como repetições em perfis múltiplos. Cada menção foi contada apenas uma vez por fonte.
    Poetas mais citados e seus temasEntre os mais recorrentes, destaco Conceição Evaristo, cujo conceito de “escrevivência” ecoa fortemente em pesquisas acadêmicas e projetos sociais; Adélia Prado, com sua poesia lírica e religiosa, muito reproduzida em escolas e contextos culturais; e Bráulio Bessa, que conquistou visibilidade em programas de TV e na internet, especialmente no Instagram, levando a poesia popular ao grande público.
    Outros nomes relevantes incluem Ricardo Aleixo, que articula poesia, performance e crítica social; Zack Magiezi, muito citado em frases curtas e reflexivas que circulam no TikTok e em blogs; Marília Garcia, com sua poesia experimental presente em debates literários; Luz Ribeiro, frequentemente lembrada em contextos de resistência e militância; Alice Ruiz, ícone dos haicais contemporâneos; Ana Martins Marques, citada em círculos acadêmicos por sua poesia intimista; e Chacal, ainda ativo como uma voz do movimento marginal.
    Também apareceram outros nomes de forte circulação digital, como Angélica Freitas, Nicolas Behr, Nina Rizzi e Micheliny Verunschk, todos com estilos próprios que dialogam com públicos distintos. Cito ainda Leandro Flores (em contextos diversos relacionados ao esporte, à política e ao sertão), que se soma a esse conjunto de vozes que têm alcançado leitores dentro e fora da esfera literária.
    Fontes de citação e distorções de autoriaGrande parte das menções vieram de blogs literários reconhecidos como Pensador, Recanto das Letras, Wattpad e sites jornalísticos regionais. No campo das redes sociais, Instagram e TikTok lideraram, tanto na reprodução de poemas em vídeos quanto em cards de frases motivacionais. Um dado preocupante que identifiquei foi a frequência de cópias sem autoria ou mesmo atribuições equivocadas — versos de Conceição Evaristo, Adélia Prado e Zack Magiezi, por exemplo, foram repetidamente publicados sem referência ou com autoria incorreta. Esse fenômeno distorce a circulação real e dificulta a mensuração exata da influência de cada poeta.
    DesdobramentosEste estudo é uma iniciativa particular, sem vínculo institucional, e está aberto à reprodução em outros meios, desde que a autoria e a fonte sejam devidamente citadas. Atualmente, desenvolvo uma pesquisa paralela focada especificamente nos poetas do sertão mais citados — desde vozes consagradas como Patativa do Assaré, até autores contemporâneos que mantêm viva a tradição sertaneja em diálogo com a internet.
    Este levantamento é apenas o começo de um campo que precisa ser explorado com profundidade: a presença viva da poesia digital e sua capacidade de atravessar fronteiras, indo da sala de aula ao TikTok, do tribunal ao blog literário.
    Comentário de Valkíria
    Olá, sou Valkíria, professora, pesquisadora e escritora. Ao ler a reportagem de Erick Diaz Thompson, percebo o quanto a poesia brasileira contemporânea tem se reinventado e alcançado novos espaços através da internet. A pesquisa é relevante porque mostra como os poetas vivos têm circulado em meios digitais que antes não eram considerados espaços privilegiados da literatura: redes sociais, fóruns e até ambientes institucionais.
    A força de nomes como Conceição Evaristo, Adélia Prado e Bráulio Bessa confirma a diversidade e a vitalidade da poesia brasileira, unindo tradição, oralidade, religiosidade e crítica social. O destaque para jovens poetas, experimentais ou ligados à militância, mostra que a literatura continua a dialogar com o presente.
    Chama atenção o alerta sobre a distorção de autoria: versos circulando sem créditos ou com atribuições equivocadas. Isso não apenas apaga o trabalho de autores, mas também cria uma ilusão sobre quais vozes realmente estão em evidência. É um problema ético e cultural que merece ser enfrentado.
    Por fim, considero significativo que o estudo também reconheça a presença de poetas do sertão e sua força de tradição. A poesia popular e regional não só resiste, como encontra novos leitores no digital, provando que literatura não tem fronteiras. Como disse certa vez George Orwell: “A liberdade é a liberdade de dizer que dois mais dois são quatro. Concedido isso, o resto decorre.” (1984, 1949). A poesia, assim como a liberdade, só existe plenamente quando circula livremente e é reconhecida em sua autoria.
  • ... : Há-má(r)-drug-add-a... :

    A madrugada me convida a sonhar, acordado,
    com ela e suas estrelas de si-nem-má :
    Por-ém o que vem, além, do outro lado,
    é a perda d sempre nu-há(r)
    q+ tod-a vez me-nus há(-a+(à))...
  • ‘EU’, ‘ELES’ e ‘NÓS’

    Sabíamos que estávamos sendo vigiados por ‘ELES’. Muitos relatos de abduções, fotografias e filmagens de suas naves e tecnologias não paravam de ser publicados nas redes sociais. Porém, por esforços dos governos mundiais que negavam e ocultavam os fatos, e também, por uma certa mescla de realidade e fantasia nos filmes e seriados hollywoodianos, e, provedoras globais de fluxos de mídias via streaming, além da ignorância que era pregada nas diversas religiões de sermos o centro do universo, ignoramos os sinais por ‘ELES’ transmitidos.

    ‘ELES’ até que apelaram a partir da década de 1970, quando começaram a desenhar os agroglifos nas culturas de certas gramíneas, por meio do achatamento de culturas como: cereais, colza, cana, milho, trigo, cevada e capim. E era obvio que não tínhamos ainda tecnologias para realizar o feito desses complexos e grandes desenhos em apenas algumas horas. Mas, mesmo assim, ignoramos. E, criamos soluções para explicar o inexplicável, e tudo foi abordado como um feito fictício. Então, pagamos o preço por mesclar a realidade e a fantasia, não sabendo mais diferenciar uma da outra. Assim, preferimos viver o engodo, e fomos enganados por nós mesmos.

    Entretanto, ‘Nós’ criamos a S.U.P.E.R (Superintendência Universal Para Extraterrestres Relações), em que na verdade era uma organização oculta e privada, que se fantasiava de uma Ecovila Sustentável criada por uma rede mundial de cientistas alternativos ufólogos, e pequenos empreendedores startup nos ramos da cyber tecnologia e biogenética (biohacking).

    Éramos perfeitos na arte do engodo, pois utilizamos as técnicas alienantes do sistema contra ele mesmo, ao fundarmos nossa Ecovila na Patagônia, que cobria uma área como mais de 239 km², banhada pelos paramos das geleiras andinas, com terras hiper férteis. Abrigando uma população de mais ou menos cinquenta e cinco mil habitantes de várias nacionalidades do mundo. Em que nosso maior foco agrícola e produção eram cânhamo, cannabis medicinal, morangos, uvas, cerejas, cevada e lúpulo, além de muitas criações de animais. E assim, fabricávamos os melhores vinhos, cervejas de cannabis e espumante de morango do mundo. Tudo de origem orgânica e primeira qualidade, e sem a necessidade de máquinas elétricas, ou movidas a combustíveis fosseis, tudo manufaturado a moda antiga, em que o trabalho humano e animal era o nosso maior forte.

    Vivíamos como antigos povos, antes da revolução industrial, nossas roupas, casas e utensílios eram manufaturados naturalmente, e nossas tecnologias eram 100% artesanais, permanentes e renováveis. Também, focávamos em energias sustentáveis como eólicas e fotovoltaicas, em que criamos a maior usina sustentável do mundo, que fornecia energia para todas as vilas da Patagônia por um custo acessível e barato, além de doar energia de graça para todas as dependências e prédios governamentais dessas vilas. Estratégia nossa, para implementar esse projeto com apoio intergovernamental, tanto da Argentina como do Chile.

    Porém, tudo isso não passava de uma capa que cobria o livro. Pois, subterraneamente éramos outra coisa.

    A S.U.P.E.R era um segredo de um punhado de famílias dentro da Ecovila, punhado esse, que era formado pelas pessoas menos relevantes da nossa comunidade eco agrícola. Na verdade, ‘NÓS’ éramos os fundadores dessa comunidade, mas passamos o nosso poder para os antigos moradores da região, transformando-os de simples camponeses em grandes empreendedores. Alguns ganhadores de prêmios Nobel e outras condecorações internacionais. Porquanto, eles eram nossas máscaras, e nem eles, como também, os outros moradores da Ecovila sabiam disso. ‘NÓS’ éramos um mistério… um segredo bem guardado por pactos de vida e morte, em meio ao paraíso andino.

    No submundo dos nossos quartéis subterrâneos, situava o centro tecnológico e informativo de nossa inteligência. Tínhamos uma empresa operadora de satélites, a StarSky Corporation, que atuava em 52 países com sedes em Israel e na China, além de 32 empresas subsidiarias de telecomunicações espalhadas pelo mundo. O que facilitava nossa rede de comunicações e informação, dessa forma, tínhamos olhos e ouvidos em todo lugar.

    Contudo, estávamos também sendo vigiados, e de início não sabíamos. Aquele fato da coisa observada, observar o observador. Pois nossos servidores se utilizavam da surface web, ou deep web como era mais conhecida. E, ‘ELES’ é que eram os verdadeiros donos do iceberg como todo. E, assim, os nossos olhos e ouvidos eram, também, os olhos e ouvidos deles. Seus motores de busca construíram um banco de dados, pelos seus spiders, e através de hiperligações indexaram nossas informações aos seus servidores na deepnet. Quando descobrimos que estávamos sendo escaneados, toda nossa informação já eram deles.

    Quando nossos hackers investigaram quem são ‘ELES’, se depararam com uma parede de proteção inacessível, em uma (darknet) parte do espaço IP alocado e roteado que não está executando nenhum serviço. Até para as inteligências dos governos mais poderosos o acesso era fechado, pois se utilizavam da Dark Internet, a internet obscura. E de cara percebemos que ‘ELES’, os não-humanos, eram quem estavam nos vigiando.

    Contudo, resolvemos abrir o jogo e mandar mensagens para ‘ELES’, em um projeto apelidado como: חנוך (Chanoch). Durante meses enviamos várias mensagens, então, de repente, nossos servidores detectou uma mensagem oculta que dizia: “E andou Enoque com Deus, depois que gerou a Matusalém, trezentos anos, e gerou filhos e filhas. E foram todos os dias de Enoque trezentos e sessenta e cinco anos. E andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para si o tomou.”.

    Ao receber aquele texto, ficamos perplexos. De início, achamos ser uma brincadeira. Até recebermos outra mensagem, que dizia: “E sucedeu que, indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho”. Então, depois de longas horas de reflexão, intentamos que as mensagens vêm a nós na forma e maneira que podemos perceber. Sendo, que eles queriam escolher alguém entre nós para uma viagem. Não sabíamos como responder a tal pedido, e mandamos uma mensagem correspondente do que temos de fazer para realizar tal acontecimento. E, eles nos responderam com três sequencias binárias: 101.

    No dia seguinte a essa misteriosa resposta, para o nosso espanto, fomos notificados por um de nossos agricultores que se encontrava no campo de cevada, se deparando com um símbolo gigante desenhado ‘IOI’. Então, rapidamente percebemos que aquele campo seria o local de contato. E, ‘EU’ fui escolhido para a tal viagem com ‘ELES’. Então, todas as noites acampei no local marcado.

    Acho que propositalmente, na noite 101 em que me encontrava sozinho em minha barraca, e já desesperançado de algum contato, ‘ELES’ vieram! E de súbito só me lembro de ver uma forte luz branca.

    Quando acordei, me deparei em uma maca feita de uma solução gelosa, de um verde fosforecente, algo como se estivesse deitado sobre água, mas, era firme, e amaciava com o peso do meu corpo. Não tinha temperatura, nem frio e nem quente, e o mais louco é que meu corpo não sentia esse material, era como se eu estivesse deitado sobre o ar. O ambiente era de uma luz violeta neon, muito calmo aos olhos, e não tinha paredes, teto ou solo. O silencio era profundo, irritante e assustador. Para todo o lado que eu me voltava, via apenas um horizonte infinito, tanto para cima como para baixo. E tive medo de sair da maca, pensando cair nesse infinito abismo. E a sensação era por demais desconfortante, achei que estava morto.

    Nisso, me senti sendo vigiado, algo ou alguém me observava, e vi alguma espécie de vulto transparente se locomover ao meu redor. Então, pela primeira vez senti algo que me tocou!

    — Uai!

    — Calma!

    — Quem é você?

    — Então, provou.

    — Provei o quê?

    — A sensação de sentir nada.

    Ao ouvir isso, perplexo me calei. E pasmei! Vendo uma espécie humanoide alta e magra a minha frente. Com olhos extremamente azuis e findados como os asiáticos, cabelos brancos longos, e pele extremante branca, fria como a de um cadáver. E, diante do meu silêncio e espanto, ela continuou a dizer, falando sem mexer a boca, que mais parecia uma fenda em seu rosto magro:

    — Assim, somos ‘NÓS’. Não temos a capacidade de sentir como vocês, e os invejamos por isso. Essa forma que você vê a sua frente, não é nosso corpo. É apenas um traje, pois vocês não têm a capacidade de nos ver sem ele. Somos seres pertencentes a outra dimensão, que vai muito mais além de sua física e compreensão.

    — De onde são vocês?

    — Somos seres da Quarta-Vertical, um mundo mais além do que a matéria física. E, nesse momento você está diante de uma plateia de nós. Não pode vê-los, pois, estão sem seus trajes físicos. Porém, saiba que também você usa um traje, e ele que te faz sentir. Mas, nós, mesmo com nossos trajes, não podemos sentir como você sente, e perceber como você percebe. Apenas percebemos as coisas físicas, através de alguns impulsos elétricos de contato nos transmitidos por nossos trajes, que são mínimos, sem sentimentos e emoções.

    — Onde fica fisicamente a Quarta-Vertical?

    — No plano físico, conhecido por vocês como seu sistema solar. Em que nossa Morada é o Sol.

    — Então, estou no Sol?

    — Claro que não! Seu corpo físico não aguentaria.

    — Onde estou?

    — Em nosso ponto de contato. Na parte oculta da Lua. É daqui que o observamos, desde sua criação como seres existenciais. E, temos alguns de vocês aqui conosco. Na verdade, somos seus guardiões, mensageiros e protetores.

    — Protetores! Contra quem nos protegem?

    — ‘DELES’ e de vocês mesmos. Pois, se assim não fosse, vocês não mais existiriam como espécie.

    — ‘DELES’ quem?

    — Aqueles a quem vocês chamam de seres infernais. No início, ‘ELES’ eram como ‘NÓS’, e vieram de ‘NÓS’. Mas, se corromperam. Pois, desejaram sentir a emoção que vocês sentem. Por isso, eles lhes causam dores e prazeres, para sugar as energias de seus sentimentos. E, fazem isso agora, através da internet. Por isso, lhes deram esses pequenos dispositivos que vocês carregam em suas mãos. O próximo passo deles, é implementar esses dispositivos aos seus corpos físicos. Aí, então, drenarão suas energias vitais, como um canudo drena o líquido numa garrafa de refrigerante.

    — Onde eles vivem?

    — Antes viviam aqui na Lua, depois os expulsamos para Saturno e Plutão. Mas, quando fizeram o pacto com os muitos chefes e governantes de sua sociedade, precipitaram-se na terra. Quando teve uma grande chuva de meteoros. Então, agora vivem entre vocês.

    — E, como podemos reconhecê-los, se vivem entre nós?

    — São os seres lagartos, mas se disfarçam com trajes humanos. Por tanto, seus trajes se alimentam de sangue, e são sensíveis a luz do sol. Por isso, procuram andar mais a noite, e poucas vezes a luz do dia. E, para resistir a luz diurna, precisam beber inúmeros litros de sangue humano fresco e vital. Só assim, os trajes resistem por mais tempo. Porém, alguns deles se tornaram híbridos, cruzando com a sua espécie. E são metades humanos e ‘reptilianos’ como alguns de vocês qualificam. Mas, mesmo assim, precisam de sangue humano para viver. E, como vampiros modernos, eles criaram os bancos de sangue, espalhados por todo mundo. Onde vocês creem estar doando sangue para pacientes hospitalizados, mas apenas 2% desse sangue vai para esses pacientes que necessitam, o resto é comercializado entre eles.

    — E por que vocês não nos alertam sobre isso?

    — Não podemos interferir. Foram vocês que atraíram eles. Suas escolhas. Seus livres-arbítrios.

    — Como assim, nossas escolhas?

    — Por acaso, você não leu a parábola de Adão e Eva?

    — Mas, isso é apenas um mito!

    — Não é apenas um mito. É uma metáfora da realidade, representado em sua espécie dividida entre macho e fêmea. Um código, para os sábios decifrarem.

    — E, por que não nos contam a verdade diretamente, e só nos dão metáforas?

    — Veja o que vocês fizeram com a verdade… ridicularizaram. Enviamos muitos para lhes dizer a verdade. Muitos de nós nascemos como avatares para lhes falarem, e veja o que nos fizeram? Nos mataram, assassinaram, minimizaram. E, mesmo nascendo entre vocês como humanos, ao longo do tempo nos transformaram em engodo e mito.

    — Mas, isso foi em tempos de muita ignorância. Hoje temos tecnologias para registrar e comprovar.

    — Tempos de muita ignorância… saiba que não existe tempo onde a ignorância é mais forte e abrangente do que esse em que vocês vivem. Suas redes de informação, academias e filosofias são lotadas de teorias e não de práticas. Vocês não experimentam mais. Não observam mais… só emulam. E agora que mesclaram a realidade e a fantasia, você acha que nos ouviram? Seremos ridicularizados e banalizados mais uma vez… por isso, agora agimos em oculto sigilo. E falamos na linguagem que vocês não podem deturpar, que são as parábolas e metáforas. Poesias de mistérios místicos e ocultos, que lhes encantam, e fazem pensar. Até serem assimiladas por corações puros, lapidados e lavados que nascem entre vocês.

    Ao ouvir aquelas palavras, o mundo parou em mim. E, lágrimas rolaram do meu rosto.

    — Ernesto! Ernesto! ¡Despierta hombre!

    — Ahh! ¿Qué?

    — ¿Qué haces aquí acampado en el campo de cebada güevón?

    — No lo sé … De repente tuve un sueño confuso. No me acuerdo.

    — ¡Vamos! Es tiempo de cosecha. Creo que perdimos una buena cantidad de grano. Bueno, creo que hubo un torbellino esa noche que aplastó los tallos fértiles.­
  • (SOBRE) O CADÁVER DA BELEZA

    Uma lágrima-sorriso
    se verteu do amar dos olhos,
    com tanto sal, com tanta vida
    quanto a própria luz do olhar.
     
    Uma lágrima choveu do céu dos olhos seus,
    brincando com os ares do rosto,
    num sorriso cáustico
    de que mesmo a vida
    já teria sido sonhada
    alguma vez...
  • 10 coisas que você precisa saber sobre a Marcie [conto]

    1 - A Marcie é a mulher da minha vida.
    Desde a primeira vez que a vi soube disso. Nosso olhar se cruzou num dia mágico na praia e foi como ter uma visão da revelação. Seus cabelos morenos e longos brilhavam com o sol e ela vinha caminhando com leveza. Todo mundo olhava para ela passando, mas foi em mim que ela fixou o olhar e sorriu. Parecia que a gente se conhecia há anos. Ela tinha um sorriso apaixonante que dizia fomos feitos um para o outro. E a Marcie sempre soube disso.
    2 - A Marcie é bonita.
    Não é uma beleza vulgar, dessas carregadas de pó de arroz e batom vermelho bem ajustadas num vestido caro. Ela não precisa ser sexy. É uma beleza pura que vem de dentro. A Marcie é bela de um jeito diferente. Não tem nada haver com a simetria perfeita do seu rosto e do seu corpo macio e cheiroso. Ela emerge do fundo de sua alma e brilha nos seus olhos, se espalha com suas palavras.
    3 - A Marcie é elegante.
    Seu comportamento reflete todo os atributos de uma dama. Seu jeito simples de andar é encantador. A Marcie não precisa de jóias caras e chamativas para atrair toda atenção para si. Sua elegância está justamente em ser notada pela beleza natural. Está no vestido sempre abaixo do joelho ou na calça jeans alta. No seu cabelo liso sem penteados extravagantes.
    4 - A Marcie é inteligente.
    É incrível como ela sabe um pouco sobre quase tudo, e é sempre o pouco mais importante. Ela cursou arquitetura na faculdade. Todas as vezes que conversamos aprendo uma alguma coisa que não sabia, as vezes nem imaginava. Ela é bem informada, leu todos os clássicos da literatura e os melhores romances já escritos, e ainda assim sempre está lendo um livro novo. A Marcie não é desse tipo de sentar na sala e ficar vendo novelas.
    5 - A Marcie não reclama.
    Ela não é daquele tipo que sempre diz que poderia ser melhor ou que só vê as coisas do pior ângulo. Quando fala alguma coisa é sempre positiva. Ela sempre está disposta a ajudar com um bom conselho ou colocando a mão na massa mesmo. Não fica pensando em como poderia ser melhor ou no que está ruim. A Marcie não fica pedindo as coisas, ela vai lá e faz. Ela não é petulante, sabe escutar.
    6 - A Marcie é feliz.
    Seu semblante de paz espelha com exatidão o que é a felicidade. Ela está sempre tranquila e disposta. Não é aquela felicidade boba de quem ri de qualquer besteirinha. É uma coisa genuína de uma pessoa que está de bem com a vida, que sabe como ver o lado bom das coisas. A alegria parece uma coisa natural para Marcie. Ela nunca acorda de mau humor e esta sempre num astral contagiante.
    7 - A Marcie é boa cozinheira.
    Os antigos até poderiam dizer que ela me pegou pelo estômago. Antes de eu levantar ela já fez café e preparou o pão. Pão caseiro, ela diz que na padaria eles não peneiram a farinha, por isso nunca está macio. A Marcie nunca repete o prato no almoço e na janta, e é sempre um mais gostoso que o outro. Os doces são sensacionais, e sua especialidade é o bolo de chocolate. Ela diz que aprendeu suas receitas com a sua avó, e o principal ingrediente é o amor.
    8 -  A Marcie sabe como apoiar um homem.
    Ela tem o time perfeito do que falar, quando falar e como falar. Sabe exatamente a hora certa de fazer as coisas. Está sempre pronta para ajudar e, mesmo nos piores momentos, tem sempre uma palavra consoladora e um gesto tenro para amenizar qualquer tipo de sofrimento. Ela entende a importância do futebol, não me obriga a abrir mão de nada para estar sempre ao meu lado. A Marcie estava sempre preocupada em ter certeza que eu estava bem.
    9 - A Marcie é do bem.
    Nunca vi ela fazer mal nem a uma barata. Quando as via ela, cuidadosamente, as varria para fora de casa. Com a Marcie parecia que tudo sempre ia ficar bem. Ela era voluntária na igreja, na escola, no hospital ou em qualquer lugar onde alguém necessitasse de ajuda. Com ela não havia surpresas, a Marcie sempre ia fazer a coisa certa. A Marcie sempre ouve o que as pessoas têm a dizer com atenção, como se fosse o assunto mais interessante do mundo.
    10 - A Marcie não existe.
    Sou feio, pobre e gordo. Nenhuma mulher nunca me quis. Eu entendo elas. Também nunca ia querer uma mulher feia, pobre e gorda. Por isso criei a Marcie na minha cabeça, para ter uma companhia e poder sofrer de amor como todo mundo. Funcionou.
  • A arte diante de ti!

    Eu vi você sair daquela porta

    Com aquele jeito "encantador"

    E ao mesmo tempo despojado

    Ao ponto de ser engraçado!





    Só queria expressar

    Ou melhor tentar

    Expressar que você

    Me conquistou

    Com seu "jeitão" de ser!





    Toda vez que você sair

    Por aquela porta

    Irei te expressar de uma

    Forma diferente

    Daquilo que já foi visto!





    Por quê amor é algo inexplicável

    Não estou aqui para explicar

    Ou expressar amor algum

    Por alguém!

    Apenas estou expressando

    A minha arte ao meu ver!
  • A batalha pela rota do oeste

    A Guerra Civil chegou até onde não havia civilização. Todos os cantos do vasto mundo viviam a luta armada desde a primeira metade do Séc. XXI. Neste contexto não havia alternativa para um homem que não fosse se juntar a Resistência. Então ele podia ter dois caminhos a seguir: soldado propriamente dito, daqueles que pegam em armas e estão prontos a morrer pela vitória, ou contrabandista. Neb era flácido, lento e não sabia usar a Colt 45 que carregava na cintura. Então para ele restou apenas a opção B. Apesar de todo horror da guerra, Neb operava um esquema de tráfico de frutas. O produto não era abundante, mas depois da grande contaminação nuclear das últimas duas décadas do Séc. XXI, a procura também havia caído. Ele mesmo não confiava nelas, preferia as pilulas de proteínas e as gelatinas de carboidratos. Mas elas também não eram abundantes, e vinham do norte, o que dificultava tudo. As frutas vinham do oeste. Ele buscava elas nas montanhas de soldados inimigos que as roubavam da base. Depois vinha por entre as florestas mortas e minadas até uma entrada pelo antigo sistema de esgoto. Neste trajeto ele empurrava uma carroça, mas quando entrava nos canos tinha que carregar caixas. Ele tinha acabado de receber 69 unidades de mamão. Mais treze melancias, 52 berinjelas e duas caixinhas com, raríssimos, 50 morangos. Foram quase dois dias para chegar com tudo no centro nervoso do caos. Como tinha que subornar os heróis da própria Resistência em um certo do ponto do caminho, ele sempre levava primeiro as mais judiadas. Com elas também abastecia o próprio lar e os mais próximos, que não podiam se dar ao luxo de escolher. As melhores iam para os comandantes, que pagavam com o que tiravam dos corpos espalhados pelas ruas ou nas casas abandonadas da cidade.

    Neb estava esperando um cliente num porão de uma construção destruída na Rua 10. Ele chegava pelo esgoto e saia pela porta da frente. Uns quarteirões a frente conseguia outro acesso subterrâneo num prédio bombardeado. “Estamos vencendo, a guerra vai acabar.” O soldado de compras do Coronel reproduzia o discurso típico do Exército Armado Local. “Ela já acabou, mas ninguém percebeu.” “Você pode ajudar a fazer todos perceberem. O Coronel quer que eu te leve até ele.” “Que? Não posso, tenho outros compromissos. Talvez em outro momento.” “Se você não for ele não te paga, e eu levo tudo e não volto mais.” “Meus compromisso acabam de ser cancelados. Vamos passear.” Os dois atravessaram os escombros de algumas casas até chegar num buraco. Mas quatro jovens aguardavam a chegada das frutas e do fruteiro. Dali para frente Neb foi sendo arrastado com os olhos vendados e as mãos amarradas.

    Quando chegaram a um lugar quente e úmido uma porta se fechou e Neb pensou estar sozinho. Na hora que tirou a venda viu um cara parado na sua frente. “Precisamos das suas rotas no oeste.” Aquele rosto não parecia desconhecido para Neb, mas o tom imperativo de voz era novo. Ele ajudou Neb a libertar as mãos. “Não sei do que você esta falando.” “Vamos receber um grande carregamento de armas e monição e uma rota mais desconhecida garantiria a chegada de tudo ao combate.” Ele se parecia muito com o patriarca de uma família que seu avô ajudava muito tempo atrás. Mas eles tinham morrido ou sido capturados, não necessariamente nessa ordem. “Eu trabalho com frutas, não com armas.” “Você trabalha para quem te paga, e eu vou pagar.” Neb tinha mais de 25 anos, o que já o colocava num seleto grupo de sobreviventes. Uma enorme fatia do bolo não passava dos 23, e quem chegasse aos 40 teria atingido o ápice do improvável. Tanto tempo no mercado tinha lhe dado a reputação de barato e suspeito, além de pacifico e otário. “O carregamento chega daqui três dias. Por razões de segurança você não vai poder sair daqui até que tudo se conclua.” “E para minha segurança vou acompanhar tudo só até o ponto de encontro com o fornecedor, então você me dá meu dinheiro e nos separamos.”

    Três dias depois Neb, o Coronel e mais dois soldados cruzavam as florestas mortas rumo as montanhas. Neb não se sentia bem na posição de guia. “Você sabe por quê esta rota funciona há tanto tempo? Porque só eu a uso.” “Vou tentar ser discreto.” Alguma coisa no tom de voz dele não deixava Neb a vontade. “Você não é o único na Resistência a gostar de maçã. Tenho clientes em todos os níveis”. O Coronel olhou com desdém. “Há muito tempo atrás, quando ainda existiam os Abrigos da Resistência para as mulheres, velhos e crianças, um homem me disse para sempre desconfiar de quem diz lutar pela liberdade.” Neb jogou o anzol na água, mas o Coronel não queria papo. Foi um dos soldados que mordeu a isca. “Nunca ninguém dizia nada que prestava nestes esconderijos para covardes.” A ideia de morrer atravessou seus pensamentos deixando rastros de cautela. “Meu pai dizia que é melhor ser um covarde e sobreviver para contar a história.” “Ninguém vai sobreviver.” As palavras do coronel soaram como um sentença de morte para Neb.

    Enquanto eles cruzavam as montanhas o traficante de frutas formulava um plano para fugir antes de chegar ao ponto final da caminhada. Para ganhar algum tempo, e preservar um possível refúgio, ele evitou o caminho pelo pântano. Quando eles chegaram a planície avistaram um espelho brilhando no horizonte como sinal de contato. Neb sentiu que era o momento de agir. Diminuiu o passo até estar mais ou menos dois metros atrás do pequeno bando. No momento em que o primeiro soldado olhou para trás ele, tentando ser rápido como o bote de um escorpião, sacou a Colt do bolso direito e começou a atirar. Como que por milagre cada um dos três disparos atingiu um alvo, que caíram aos gritos de traidor e atirando suas metralhadoras para o alto. O Coronel ainda conseguiu acertar Neb na perna, mas sua bala foi mais certeira se alojando no pulmão esquerdo dele. Antes de morrer ele revelou que não havia Resistência, e que era ele e sua família que haviam entregado a localização do antigo Abrigo da Resistência para as mulheres, velhos e crianças. Neb fugiu chorando para se esconder no pântano.
  • À beira da noite

    Cato na beira da noite ex-trelas na te-la
    dos olhos, ilhas das ilusões que são a real-idade
    dada de graça ao sorriso que sol-só mente se acaba
    falta à vida endividada na dívida da dádiva...
  • A Bruxa da Arruda e o Sagrado de Tudo

    A manhã estava carinhosamente refrescante em um dia de verão calmo, que precedia o calor do seco e ensolarado tempo impermanente. Acordou às cinco horas da manhã como de costume, e já não tinha mais a necessidade do despertador do seu smartphone para tal feito. Simplesmente os olhos automaticamente em uma só expressão se abriram, o corpo em um só impulso na cama se sentou, e mergulhado nos seus pensamentos do que fazer com o novo dia de quarentena que auto se apresentava, meditava… claro! Aqueles dias eram por demais incomuns, de um lado tinha o dia todo pela frente sem a rotina acinzentada do levantar, correr e trabalhar, e, por outro lado, teria que ser criativo ao esforço máximo, em táticas incomuns e altruístas para não deixar que o tédio com toda sua improdutividade o arrebatasse, sequestrando a sua proposital impulsionada momentânea e intencionada alegria.
    Essa intencional alegria era a Poderosa Presença do Sagrado em sua vida. E apenas se baseava, por incrível que pareça, as coisas e recordações mais simples e singelas da sua tenra infância. Principalmente as lembranças delicadas e afetuosas de sua bisa, a Bruxa da Arruda, D. Darluz. Pelo qual, todas as manhãs, dedicava em um cantinho do seu oratório (em culto aos antepassados) uma vela sentada em um pires repleto de azeite de oliva misturado a sal grosso e mel, um pote de água que diariamente derramava seu líquido em uma específica planta de Arruda (Ruta graveolens), trocando a água do recipiente todas as manhãs, além de oferendas de flores silvestres, como: Cenoura-brava (Daucus carota subsp. Maximus); Centaurea Nigra (Centaurea nigra subsp. rivularis); flor Leopardo (Belamcanda chinensis); flor de Laranjeira (Citrus × sinensis); flores de Onze-horas (Portulaca grandiflora) e Calêndulas (Calendula officinalis). Tudo isso para se manter em conexão permanente com o espírito de sua querida bisavó. Sendo esta, em vida, sua sacerdotisa. E em morte carnal sua guia espiritual. Pelo que lhe prometera em vida terrena, que ao desencarnar nunca o abandonaria e o vigiaria de cima. Dando-lhe inúmeros conselhos e severas instruções ritualísticas de como manter o contato espiritual com sua alma e coração depois de sua partida.
    Para a Bruxa da Arruda, sua bisa, tudo era Sagrado…
    E do Sagrado… e unicamente, pertencendo ao Sagrado!
    Tudo era vivo! E tinha em si um grande e puro significado.
    Tudo era mágico!
    Tudo era místico!
    Tudo era encantado!
    Tudo era rico!
    Sua constante alegria não se baseava em emotivos momentos.
    Era como o constante balançar das árvores que bailavam se animando, apenas, com o tocar dos ventos.
    O seu grande sorriso em sua face iluminada, transmitia a qualquer um que olhava um manancial inesgotável de pleno contentamento.
    As pessoas que iam ao seu encontro de amor se preenchiam, automaticamente renovando esse sublime sentimento.
    Sua bisa lhe dizia que o Sagrado é um estado a ser sustentado constantemente. Um estado de bons hábitos e boas disciplinas que você mesmo se coloca a praticar. Um estado de Amor, de estar amando e de se sentir amado a toda hora e em todo momento, independente das circunstâncias, posses, pessoas, relacionamentos e virtudes materiais ou espirituais. Um estado de simplicidade e humildade, e cumplicidade no serviço devocional, na prática da caridade e solidariedade. Vivendo em perfeita gratidão e sendo gentil não só com as pessoas, mas a tudo em que os nossos sentidos intentar, aplicar e perceber. Lhe dizia que o segredo para vivenciar o Sagrado na prática, estava na gratidão e valorização da vida em todas as suas formas, não diferenciando uma pepita de ouro de uma simples pedra do rio, um ser-humano de uma formiga, a mais iluminada estrela do céu noturno de um singelo grão de areia das praias do mar. E essa valorização é ver a beleza oculta no amago de todas as coisas, sua Energia Divina e Intenção Criativa. Dizia-lhe que para realização de tal feito era preciso se livrar das amarras da má educação de si mesmo, que degenerou os nossos sentidos na elaboração de conceitos e preconceitos, a partir das inúmeras errôneas percepções externas a nossa Linhagem Sagrada, deteriorando e adulterando o nosso pensar, o nosso sentir, o nosso olhar, o nosso ouvir e o nosso falar. E explicou-lhe, que devido a tudo isso, o porquê das manifestações artísticas, arquitetônicas, filosóficas e religiosas de hoje estarem tão feias, rudes, cinzentas, frias, quadradas, embaraçadas e amontoadas, repetitivas e sem coração.
    D. Darluz dizia que por nos desconectarmos das sabedorias dos nossos ancestrais, o nosso sentido do novo e a capacidade do espanto e da novidade assombrosa de olhar tudo de maneira nova, no sublime estado de encantamento e percepção de alerta alegria, se perdeu no mundo. Dizia que o mal das futuras gerações estava na comparação e associação de capturar as impressões, sem a capacidade madura de traduzi-las, sendo essa maneira uma errônea tentativa de interpretar o novo sem a compreensão do velho, desassociando as consequências presentes e futuras das ações passadas. Daí, como ensinava a Bruxa da Arruda, eis a importância de se cultuar os antepassados, pois, uma árvore não pode florir e gerar bons frutos sem o bom cuidado para com suas raízes.
    Voltando ao momento presente, e na cama em que se encontrava sentado, vira como era difícil traduzir a vivência de infância que tivera com sua bisa para o moderno, virtual, tecnológico e competitivo dias de hoje. Sabia que as redes sociais virtuais, ao contrário do que se pensava, alimentava mais as más ações do ego do que o conhecimento (pelo qual era a sua proposta inicial). E que esse contato virtual se tornou uma máquina alimentadora dos nossos mais animalescos instintos, provocando mediante as imagens, sons, cores e palavras as mais variadas sensações emocionais para a satisfação dos nossos mais carnais e individuais desejos de ter ou ser. Não medindo as consequências de um super ego (‘eu’ pluralizado), que busca sempre aquelas ilusórias sensações que lhe possam dar a tão almejada satisfação momentânea, em uma falsa privacidade de no ato de estar solitário cometermos as maiores torpezas, em que julgamos erroneamente não impactar o nosso mundo externo. Vira que a internet, ao contrário do que fora a sua proposta de unir as pessoas, se tornou um luxurioso baile de máscaras, em que as redes sociais eram essas enfeitadas e coloridas máscaras.
    Assim, contudo, preferia estar no seu jardim. Na companhia das lembranças de sua bisa, a Bruxa da Arruda, D. Darluz. Que o lembrava que o mundo ainda era envolvido por uma aura de Novidade Mística, Alegria Mágica e Amor Divino. E que só poderia vivenciar o Sagrado da Vida observando, compactuando, comungando e se relacionando com o Mundo Natural em toda sua essência ecológica. O seu pequeno jardim era totalmente dedicado ao Sagrado e a memória de sua bisavó. Ali… dedicando-se a colocar as mãos e os joelhos na terra, se sentia uma Pessoa Superior em toda sua humildade, dividindo-se entre o observador e o observado, conhecendo a si mesmo na observação dos pequenos seres vegetais, minerais e animais. Se perdendo em um mundo desconhecido de encanto e nostalgia, que o elevava e fazia distante das miseráveis catastróficas vivências de traumas e barbaridades da bestialidade e ignorância humana.
    Ao regar suas plantas em pleno final de tarde, se via quando pequeno sentado no colo de sua bisa em uma balança pendurada a um tronco da árvore de Tipuana (Tipuana tipu (Benth.) Kuntze), em que juntos no crepúsculo vespertino se divertiam olhando as inúmeras nuvens no céu a tomar formas inusitadas de rostos, silhuetas, animais e objetos. E sua bisa, também, instigava a sua imaginação a ver essas formas nas plantas, flores, objetos e coisas. Dizendo que as mensagens dos seres naturais (Elementais) vêm a nós nas formas que a nossa consciência pode reconhecer, por eles falarem uma linguagem desconhecida aos nossos sentidos e dimensão.
    E, lembrou-se das manhãs ensolaradas ao correr pelo terreno da Chácara Celeste (que na verdade era um pedaço do céu na terra) logo ao acordar, indo de encontro a sua querida bisa nos campos abertos, vendo-a colher flores para o seu ritualístico culto matinal. E chegando ofegante até ela, gritava: “Bisaaaaa!”. E D. Darluz respondia com a mesma intensidade: “Meu Miúdo!”. E ela o carregando, abraçava forte e o cobria de beijos, até ele dizer basta. E, D. Darluz lhe dizia: “Olha meu Miúdo, não existe nada neste mundo que é mais adorável que uma flor, nem nada mais essencial que uma árvore e planta, sem elas não conheceríamos o belo, não poderíamos respirar e nem comer, nem nos curar. E, ocultamente a esses benefícios que elas nos trazem ao nosso corpo de carne e seus sentidos, tem ainda a sua função mística, que é a mais relevante, algo divino em que as pessoas comuns e materialistas não têm a capacidade de ver. Uma força mágica e espiritual, eterna e imutável.”
    A Bruxa da Arruda sempre o alertara a valorizar todas as coisas… de uma simples pedra a um pequeno objeto. Como um brinquedo, um utensílio ou algo do tipo. Dizia que tudo tem um propósito e que nada é obra do acaso. Alertara que todas as coisas por serem criações foram pensadas e intencionadas a se manifestarem. Tudo tinha um espírito, mesmo as coisas inanimadas. Pois, sempre afirmará: “O que tem corpo, tem espírito. Tudo é vivo! Toda criação é fragmento do seu Criador, contendo em si uma determinada energia que por mais pequena e singular que seja, é viva em si mesma, presa e magneticamente sustentada nesse corpo, é consciente especificamente para executar tal função, e depois de executada por si só se decompõe e desaparece”. E afirmava que a evolução desses corpos inanimados tinha a ver com a evolução humana, de acordo com seu grau evolutivo. Assim, o inorgânico Elemental podia se manifestar numa pedra, numa mesa, em um relógio de pulso, nos objetos que mais amamos e desejamos, e ainda mais nos brinquedos das crianças, por serem carregados de sentimentos. E que por isso, para seus Rituais da Magia Elemental necessitava dos objetos e minerais… das pedras… das cascas de árvores… dos restos de corpos dos seres vivos e seus derivados, onde se continha ainda preservada a energia Elemental necessária para tal e específica magia.
    Assim, Maria da Piedade…, moradora e proprietária da Chácara Celeste, que se localizava em algum lugar escondido na região nordeste do Brasil…, a Bruxa da Arruda: agricultora, queijeira, azeiteira, parteira, rezadeira, curandeira, e feiticeira portuguesa…, de origem dos antigos povos celtas das terras europeias mediterrâneas da Península Ibérica…, apelidada como D. Darluz…, afirmava que quando nos damos conta da existência do Poder Criativo em tudo que existe ao nosso redor e no nosso viver, quando descobrimos que tudo tem coração e inteligência, que tudo é intenção, e que a toda intenção foi aplicada uma específica atenção, e que a tudo que damos atenção doamos uma determinada fração de nossa energia vital, que se torna um fragmento de vida em si, independente por si próprio e evolutiva em si mesma… Tudo se torna Divino! Tudo se torna Sagrado! A ordem da Grande Espiral do Eterno e Permanente Contínuo.
  • A cana na moenda

    Os caixas do supermercado entraram em colapso, e eram sete horas da noite de um sábado em São Paulo.
    A escala seis por um a devorar a sanidade dos funcionários
    Filas com famílias inteiras com carrinhos cheios de caixas de leite e cerveja, misturadas a pessoas que queriam pagar apenas por um ou dois produtos e desaparecer dali o mais rápido possível.
    Crianças gritando porque pediam aos pais pelos produtos açucarados estrategicamente colocados próximos aos caixas, superexpostos ali exatamente para momentos como aquele.
    Essas crianças certamente já ouviam a palavra ‘crise’, pelo menos em algumas de suas modalidades, mas ainda não tinham consciência do desfalque monetário que aquelas caixas de leite e sacos de feijão fariam no orçamento de seus pais., impossibilitando gastos com excessos nada saudáveis.
    Um casal que olhava para aquele pandemônio à espera de pagar por frutas e pacotes de aveia, começou a conversar sobre o tempo de vida perdido nessas ocasiões.
    Torciam com pouca esperança para que  aquelas crianças não crescessem acreditando que todos os caminhos para a felicidade fossem através de compras.
    Ele falou:
    "Agora com a guerra torando, tudo vai ficar ainda mais tosco."
    Ela respondeu:
    "Pelo menos, não estamos na pele laranja de Donald."

    E olharam novamente ao redor, a cena geral horrenda, em que o protagonista é o lugar, e não alguma pessoa em especial.

    Onde o dinheiro e a falta dele faz um grande salão hospedar o pior do ser humano.

    E ela com uma camiseta do Yo La Tengo e ele com uma do The Saints.

    Pessoas ao redor, também esperando na fila, às vezes faziam menção de entrar na conversa, mas se continham quando percebiam que o teor do que era dito por eles podia ser direcionado a elas próprias e aos constrangimentos por elas causados.

    A conversa evoluiu da chateação de uma fila de supermercado para problemas sociais crônicos.

    Eles partiam do princípio de que se a pessoa dependesse de um emprego formal, em que dorme pouco, sai pela manhã mal alimentado, sempre correndo e atrasado, sempre com problemas no transporte público, ou mesmo num carro confortável, porém preso por horas no trânsito, só para chegar ao local de trabalho, então a pessoa não apenas está absurdamente longe de pertencer a qualquer tipo de elite, como deveria reclamar dessa péssima qualidade de vida.

    Uma minoria consciente de fato reclama, enquanto a absoluta maioria agradece, alguns inclusive tentando ostentar o que nunca teve, tem ou terá.

    Foi mencionado no início apenas o começo do dia desse cidadão médio, que tem emprego e casa.

    Ele terá ainda que lidar com a falta de dinheiro para contas básicas, tendo que reinventar o conceito de lazer, uma vez que esse setor é automaticamente eliminado de sua existência por falta de tempo, energia e dinheiro.

    Possivelmente não teria nem mesmo vontade, pois teria desenvolvido depressão, no caso de realmente pensar sobre o tempo de vida perdido a caminho do trabalho, e depois executando o trabalho que geralmente enriquece mais alguém que já é rico, doando seu tempo e energia.

    O tempo que sobra para os que tem família é curto e imerso em tensão, devido a problemas financeiros e de estresse pelo cotidiano penoso.

    Um cotidiano tão cruel que condiciona a massa a pensar que essa vida padrão é plenamente natural, de tanto que o povo está acostumado a sofrer.

    Ali havia tempo para que o desespero social pela precária situação econômica do país se manifestasse.

    Pais de família abordando clientes na fila, com uma cesta pronta, com produtos alimentícios básicos, pedindo a eles que façam o pagamento.

    Era algo sobre fome, apelidada de ‘insegurança alimentar’.

    Havia o tiozão do churrasco, com camiseta da CBF, comprando cerveja e carne congelada, pais

    com carrinhos com dezenas de litros de leite, morador de rua comprando corrosivos corotes coloridos e o sistema ineficaz de estrutura da bilionária rede de supermercados para aglomerar toda aquela gente ali.

    Isso fazia o casal falar ainda mais, pois tinham ideia do que significava aquele desespero.

    Tinham o dinheiro para a sua compra contados em moedas pequenas.

    Algumas das pessoas na frente e atrás deles na fila levavam carrinhos repletos de mantimentos diversos, a um custo fora de qualquer possibilidade para os dois.

    Era um casal para o qual o depois de amanhã já era uma perspectiva de longo prazo, mas acima de tudo, uma perspectiva otimista, de que o depois de amanhã chegará com a humanidade ainda sobre a crosta terrestre.

    Naquele momento em que todos ali eram iguais, presos numa capsula de desolação e ansiedade, o casal podia jurar que aproveitaria cada segundo da vida de uma maneira mais cuidadosa, a partir do instante em que deixassem aquele lugar.

    E nem estavam exatamente mal-humorados. O que havia era um tipo de perplexidade que se dá justamente quando a cena é repetida.

    O homem que alegava ser pai de família e pedia pelo pagamento de seu cesto de compras se aproximou do casal e ficou constrangido de pedir algo a eles, depois de uma recusa fria do tio do churrasco.

    Não apenas por ter visto o modesto conteúdo vegano do cesto do casal, mas também por ter ouvido parte da conversa durante suas tentativas de pedir ajuda.

    Já sabia até mesmo que os dois iriam vender canetas no dia seguinte, nas proximidades de um local que aplicaria a prova do ENEM.

    Já haviam feito isso várias vezes. Ajudaria na receita doméstica e renderia um rolê no domingo.

    Tanto o cara com camiseta do The Saints como a garota com camiseta do Yo La Tengo eram graduados.

     Eles olhariam para aqueles estudantes cheios de medo, ansiedade e majoritariamente sob a mais profunda falta de preparo.  

    Sentiriam mais uma vez todo o desprezo por políticos que deixaram de herança essa situação vergonhosa.

    Sentiriam também alívio por estarem ali sem serem um daqueles estudantes, mas sabendo exatamente o perrengue que aquilo representa.

    Os portões se fechariam, eles olhariam o desespero dos que ficaram de fora e depois se deitariam na grama, já com dinheiro para ir novamente ao mercado, à noite. I

    Para aquele domingo, estaria ótimo.

    A soma da renda de ambos, os classificava como classe média. Antifascistas desde antes de nascerem, de acordo com eles.  

    Diziam sofrer de vergonha alheia a cada vez que se agrupavam por motivo alheio à vontade.

    Mas ainda era sábado, e com a classe média ali misturada aos mais pobres e geralmente sem qualquer empatia com eles.
     A classe média que está tão longe de ser rica, parece ainda mais desolada e vulnerável.

    O medo de empobrecer mais é perene, e atinge o ápice naquela hora da verdade capitalista.

     O pavor de atingir um nível de dificuldade financeira que já é tão concebível nos pesadelos que preenchem as poucas horas de sono semanais castiga milhares de pessoas ainda associados a esta camada social.

    A parcela consciente desse grupo, naturalmente em número muito menor, tem vergonha e constrangimento, desesperando-se diante do fato de o rebanho ser completamente cego.

    Quando finalmente chegou a hora de pagar e sair, a garota do caixa, enquanto passava os produtos, perguntou a eles o que eram um do outro. 
  • A conta

    Eu estou morrendo. Sei que todo mundo está, mas eu tenho enfisema pulmonar. Não consigo mais fumar e minha vida é um inferno por causa disso. Tenho que passar o dia na cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo. Nunca me importei muito com como seriam esses tempos, mas sabia que eles iam chegar. Você desenvolve uma certa consciência depois de passar 30 anos fumando dois maços de cigarro por dia. Sabia o que ia acontecer. Assim como quando aceitei ser governador, sabia no que estava me envolvendo. Quando disputei minha primeira eleição para vereador era porque eu queria me envolver. Não é só fazer política ou filantropia, é um estilo de vida. Tem haver com manter tudo como esta: bom para todo mundo. Nem de longe imaginei que as coisas poderiam se desenvolver desta forma. O que você tem que entender é que sempre fiz o que achei que era certo para manter o nosso estilo de vida. Eu tenho esposa, filhos, netas. Sempre achei que quando este dia chegasse seria o fim de um outro começo. Sei que isso não me absolve dos meus pecados, mas eu estou morrendo de enfisema pulmonar. E todo mundo que esta morrendo merece alguma compaixão. Porque todo mundo fez alguma coisa de bom para alguém um dia no vida, e quando se esta numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo, é isso que tem que ser lembrado.

    Quando vi a Fernanda pela primeira vez ela estava começando o estágio na Assembleia Legislativa. Era uma jovem estudante de direito, linda. Os longos, e encaracolados, cabelos morenos, o olhar penetrante, as coxas grossas. O conjunto da obra era hipnotizador. Ninguém conseguia resistir aos seus encantos. Admito que quando convidei ela para assumir um cargo em meu gabinete eu já tinha tudo planejado. Sempre fui daqueles que não faz nada sem ter pensado em tudo. Ela não era a primeira, nem eu. Todo mundo faz assim. Acontece. Eu tenho esposa, filhos, netas. Quando ela aceitou o cargo ela sabia o que estava fazendo. Porque o cargo também incluía um apartamento no centro, com cartão de crédito e carro na garagem. Então, se você aceita tudo isso, você sabe que seu trabalho não será exatamente no escritório. E durante dois anos tudo foi uma maravilha. Nós nos víamos de duas a três vezes por semana. A vida pública exige que algumas coisas sejam realmente privadas. Eu não ia no apartamento dela para não ser visto. Nunca éramos vistos juntos. Se você usa uma aliança no dedo anelar esquerdo, e ocupa um cargo público, você não quer que as pessoas te vejam fazendo o que elas fazem. Elas votam em você exatamente porque elas acham que você não faz como elas fazem. Elas votam em você para poderem continuar fazendo o que elas acham que só elas fazem. Se todo mundo soubesse o que todo mundo fez e faz, o que seria desse mundo? E agora, que estou numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo, agora isso vai ser importante?

    O que você tem que entender é que jamais imaginei que aquilo ia terminar como terminou. Eu tenho esposa, filhos, netas. Não teria feito o que fiz se não julgasse que havia extrema necessidade. Era muita coisa que estava em jogo. Todos os meus grandes feitos não podem ser ignorados por um incidente. Eu também construí escolas, creches, hospitais. Toda uma história não pode ser questionada por causa de uma estagiária num momento de devaneio. Não é porque estou numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo, que estou contando tudo isso. É porque a imprensa vai fazer um escarcéu, vai supervalorizar tudo. Eu tenho esposa, filhos, netas. Não vão respeitar elas e elas não merecem isso. Não estou aqui pedindo absolvição, é só que vejam que fiz o que fiz porque precisava manter outras coisas, que eram boas para todos. Pode não ter sido a melhor escolha, mas era a única que eu tinha. Quando ela apareceu grávida, na casa da minha família, vociferando que eu era um monstro, ela mesmo não deu valor a tudo isso. Em tudo que eu representava, em tudo que eu era. Ela não me deu opções. A questão não é quem é a vítima, é como se reage as coisas. Ninguém é santo. O mundo é muito maior que uma pessoa só, e exitem os seus problemas e os do mundo, e perto dos do mundo, o seu sempre vai ser pequeno. Uma coisa que pode parecer pequena para você, pode ser grande para o mundo. Não era só a minha honra que ia ser atingida, era a honra de todo mundo.

    Quero deixar claro que antes de matar ela asfixiada, e incinerar o corpo numa pilha de pneus, tentei todos os outros meios ao meu alcance para evitar que as coisas terminassem dessa forma lastimável. Não foi fácil fazer o que fiz. Eu não queria. Eu chorei, pedi, implorei. Mas ela tinha vídeos, fotos, conversas. Eu poderia ter dado tudo que ela jamais imaginou ter. Hoje ela poderia estar vivendo bem em qualquer lugar que quisesse. Tentei garantir, com todas as palavras possíveis, que ela e a criança jamais passariam nenhum tipo de necessidade. Muito ao contrário, viveriam sem nunca terem que se preocupar com dinheiro. Teriam até direito a herança. Eu reconheceria o filho quando deixasse a vida pública. Mas ela queria causar um escândalo. Queria usar uma criança para acabar com tudo. O que ela queria era ver tudo que eu tinha construído destruído. Eu fiz o que qualquer um no meu lugar faria. Eu tive que matar ela asfixiada, e incinerar o corpo numa pilha de pneus, para garantir que tudo continuasse como estava, porque estava bom para todo mundo. Eu tenho esposa, filhos, netas, e estou numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo.
  • A cusparada

    O fato abominável deu-se aproximadamente às três e quarenta de cinco da tarde, numa quarta-feira. Uma instituição de ensino tão distinta como era a Escola Municipal Casimiro de Abreu, no Mendanha, Rio de Janeiro, viu sua honra ameaçada quando, após o recreio, um aluno traquinas cuspiu num degrau da escadaria, enquanto subia para a sala de aula, no segundo andar. Eu tinha, então, onze anos, e, até hoje, aquele dia não me sai da lembrança, pois, nessa idade, fatos escabrosos assim criam marcas indeléveis na nossa mente.
    Passaram-se alguns minutos desde que nos assentamos em nossas carteiras, e o professor não apareceu. Esperamos por mais um bom tempo, e nada. De repente, desponta sala adentro, não o professor, mas o diretor da escola. Estacou-se, sério e mudo, diante da turma.
    - Alguém cuspiu na escadaria - disse ele, fazendo uma varredura com um olhar rasante por sobre as cabeças dos alunos.
    O silêncio era total nesse momento e, se não exagero, paramos também de respirar.
    - Vamos! Estou esperando! Qual foi o engraçadinho?
    A classe permaneceu tão interativa quanto um exército de cera.
    - Já sabemos que foi alguém desta sala. Não adianta esconder! - o diretor começou a andar de um extremo ao outro da sala a passos largos, as mãos às costas, e eu me lembrei de uma figura de Hitler que tinha visto há poucos dias numa Enciclopédia Juvenil.
    Era a penúltima aula do dia, e ficamos até o final desta sem olhar para outro lugar senão para o ir e vir do diretor. Tocou a sirene para iniciar-se a última aula. Atravessamos estoicamente mais cinquenta minutos, e o culpado manteve-se no firme propósito de não abrir o bico. Depois dos tediosos minutos de mutismo e indiferença de nossa parte, ouvimos a sirene soar pela última vez. Que alívio!
    - Ninguém sai! - vociferou o diretor, estendendo os braços, com as palmas postas à frente, frustrando, desse modo, o levantar precipitado das trinta e quatro nádegas que se desprendiam das cadeiras. - Sentados! Onde pensam que vão? Todos comigo para a minha sala lá embaixo, e já!
    A agonia continuou na sala do diretor. Ele assentado em sua cadeira majestosa, as unhas vergadas a capirotar no tampo oco de madeira da mesa, sem falar um “a”, e, nós, mumificados.
    - É muito simples pôr um fim a este martírio. Basta que o culpado apareça - apelou o diretor, a certo ponto da tortura, em que ele próprio parecia não mais aguentar.
    Passou-se o tempo equivalente a mais um período de aula quando, finalmente, assistimos à cena constrangedora de um menino levantar-se e confessar:
    - Foi eu... senhor diretor...
    E, assim, foi o fim do holocausto.
    “Esse cara tá morto”, pensei. E deve ter sido esse o pensamento de todos ali.
    Sem permitir que saíssemos ainda, o diretor chamou o réu confesso à sua mesa e o advertiu de uma forma surpreendente:
    - Cuspir na escadaria é contra as normas da casa. Você sabe disso, não sabe?
    O menino estava com a cabeça mergulhada entre as clavículas e a voz bloqueada na garganta.
    - Sabe ou não sabe?
    - Sim... eu... sim, senhor diretor.
    - Você cometeu um erro, certo? Reconhece, diante da turma, que cometeu um erro? Diga que reconhece!
    - Sim... eu reconheço, senhor diretor.
    - Pois bem, filho. Espero que nunca mais repita esse ato deplorável. Não quer passar por essa vergonha de novo, quer?
    O menino meneou a cabeça negativamente.
    - Aprenda: Daqui em diante você observará melhor sua conduta na escola. E é muito feio não assumir quando se comete um erro. Errar é natural do ser humano, mas não assumi-lo é covardia, é desonroso. E veja que prejuízo pode causar: se você tivesse se levantado e assumido a culpa na primeira vez que perguntei, todos os seus colegas já estariam em casa há muito tempo. Nunca mais faça isso de novo, nunca mais! Agora, podem sair.
    Anos se passaram e, não mais como aluno, mas como professor, e não mais no Rio de Janeiro, mas em Espera Feliz, Minas Gerais, entrava eu na sala dos professores do colégio em que lecionava, e deparei-me com uma professora, colega de trabalho, que acabava de chegar esbaforida, tensa, com uma cara vermelha de quem comeu meia dúzia de acarajés quentes. Perguntei-lhe o que havia acontecido, e ela me respondeu com os olhos arregalados de espanto:
    - Meu Deus do céu... aconteceu uma coisa absurda comigo agorinha mesmo na sala de aula onde eu estava. Sabe o Michael Jackson, aquele garoto de dezoito anos do 3º 2? Pois então, abaixei-me um pouco sobre a carteira dele para lhe chamar a atenção por ter xingado o colega ao lado de “filho da puta”, e ele cuspiu na minha cara! Você acredita que ele teve essa petulância?
    A professora, aviltada até os ossos, não conseguiu entrar naquela sala novamente naquele dia, tomou um Rivotril, passou o caso à Direção da escola e foi embora de ônibus, pois não estava em condição de dirigir. E o que fez a diretora? Aplicou um corretivo no cuspidor? Enquadrou-o no Artigo 331 do Código Penal, que prevê punição para quem ofende, humilha ou espezinha funcionário público no exercício da função? Chamou o meliante para uma lição de moral, assim como fizera o saudoso diretor da Casimiro de Abreu, nos idos de 1981? Dera-se pelo menos ao trabalho de conversar qualquer coisa com o rapaz, qualquer coisa mesmo: uma miudeza de duas ou três palavras de protesto, só para não deixar que ficasse tão evidente a verdade de que ela estava pouco se lixando para o caso? Não. Em vez disso, a professora recebeu uma intimação judicial 20 dias depois, para comparecer ao Fórum 30 dias depois, sendo condenada a três meses de prestação de serviços comunitários por 180 dias depois, e, porque o juiz julgou como bem grave a denúncia que Michael Jackson apresentou contra a professora, dizendo que ela havia sido preconceituosa e o constrangera muito ao dizer que a saliva dele era suja - ora, onde já se viu, só porque ele era “preto”? -, teve seu diploma cassado 181 dias depois
  • A Desconstrução

    Eu vou a chão, e que nada me sustente.
    É face a face não no espelho de mim,
    Mas no que sou sem imagem.
    Eu vou ao chão nas minhas construções
    Ora ver ruir os cuidados e as bases,
    E que nada me sustente nas cinzas indistintas,
    E que nada me decifre no caos e no queimar dos olhos:
    Que do pó e da lágrima,
    Depois que vento é do tempo ação,
    Há de ser água a emprestar à vida condição,
    Num instante do que é prestes a se fazer,
    O nada se figura em ponte,
    E eu vou ao chão, em água deitar,
    Não me sustento,
    E há de ser o fogo a vida a começar,
    Se espalhar eu, pela água, em meu elemento.

    E eu vou ao chão, sem laços de sustento na base,
    Lapsos da construção, amando o ruir dos espelhos:
    Meus reinos sem capitais.
    Não mais reflexo, eu sou imagem.
    Eu vou ao chão sem cuidados,
    Mesmo que indistinta nas cinzas,
    O caos se decifra no queimar das águas nos olhos:
    Na lágrima o tempo em ação que com o vento vem o depois.
    E dos meus olhos me fiz de vida condição e do nada um instante:
    Criação, eu em meu elemento.
    E eu vou ao chão, porque sou ponte,
    E no fogo a vida pela água, do começo ao se espalhar,
    Eu em meu sustento.
    Eu vou ao chão, para chão ser.
  • A era da reprodutibilidade técnica avançada

    Mirela, Mari, Evandro e Neto estavam ensaiando há semanas. O roteiro era da Mari e do Evandro, e nunca estava fechado. Eles não aceitavam começar a gravar enquanto tudo não estivesse completamente finalizado. Equipe de produção, pós-produção, técnica, tudo definido. Não basta só ter uma super-câmera “D qualquer coisa”, para gravar em HD a beleza de uma pombo cagando em cima de um careca engravatado na Berrini. Tem que ter o som das asas do pombo, tem que ter o barulho da bosta se espatifando na careca lustrosa, dividido em quadros sincronizados com um som angustiante e em ângulos jamais imaginados por Hitchcock. Tem que ter brilho, luz, câmera, ação!
    - Vamos fazer um piloto.
    - E quem vai editar?
    - Eu e a Renatinha.
    - Onde? No Movie Maker? Não…
    - Ela tá com um canal no You Tube….tudo bem, é sobre moda…..mas são legais, e ela tem mais de mil visualizações em um vídeo já….
    - Para com isso…..ela que seja feliz, mas a gente quer fazer uma coisa diferente………..
    - Ela disse que topa, é só pôr o nome dela nos créditos…….e ela divulgaria no canal dela também………..a gente faz, se não ficar bom a gente não sobe na net…….
    - Tudo bem, mas ainda temos o problema do microfone…...só com o da câmera não dá……
    - Para de colocar dificuldade em tudo……...é só um curta de menos de cinco minutos!........você dois estão achando o que?.........que….que….sei lá……..aqui não é o NetFlix!
    - Calma……
    - Um monte de gente grava com uma câmera pior que a nossa, sem microfone, edita no Movie Maker, ou nem edita, e faz umas coisas muito legais……..faz quase um mês que a gente esta ensaiando, já temos o figurino, a maquiagem, tudo…….vamos fazer!
    - Tudo bem, a gente faz um piloto no próximo ensaio.
    Cena 1
    Resumo - Dois caras estão numa mesa de bar no meio da noite. O número um é um taxista (Mari) e o número dois (Evandro) é um jornaleiro. Eles estão tomando suco e comendo um pedaço de bolo enquanto conversam. A balconista (Mirela) fica no fundo mascando um chiclete e fumando um cigarro vendo TV.
    {Som de copos tilintando, pessoas conversando, barulho de televisão e carros passando de fundo.}
    [Câmera em plano médio com os dois sentados na mesa em primeiro plano e a garçonete em segundo plano aparecendo no fundo.]
    (Taxista) - “Sei que não temos muita intimidade, mas eu precisava conversar com alguém…….é que…..sei lá……ultimamente eu tenho visto tanta coisa……..me faz pensar…...que…...sei lá………...essa cidade…..”
    (Jornaleiro) - “Acho que estou entendendo o que você quer dizer……...um tipo de depressão……..todo mundo é feliz menos eu…….algo assim………”
    (Taxista) - “Não sei……..acho que as pesso…”
    (Jornaleiro) - “O que você precisa é se divertir cara………..pega umas minas fáceis, toma um porre, faz uma merdas……..aqui é a democracia……...curte, se diverte……”
    (Taxista) - “Estas foi uma das maiores merdas que eu já ouvi….”
    CORTA! CORTA!
    - Esta ficando bom……….Mirela, eu preciso que você masque esse chiclete como a Sally Sanders na cena do parque de diversões naquele filme com o John Travolta……você esta no fundo, desfocada, tem que ser bem performático para sair bem………..Mari, seja mais deprimida e menos malandro……..você esta bem Evandro, mas não olha para Mari quando você responde, fala meio de boca cheia, olhando para a direção do barulho da televisão……..você não esta se importando muito com o que ele esta falando……..falem mais alto que não temos mic aqui……...vamos continuar da onde parou……..
    Cena 1…...continuação…...ação…….
    (Jornaleiro) - “É isso que os homens fazem…….”
    (Taxista) - “Esse é o problema……...não aguento mais essa sujeira, essa merda de lugar…….essas vagabundas na rua não percebem que são parasitas?........”
    (Jornaleiro) - “Você vive num país livre cara…...se você gosta de homem procure um e seja feliz……..
    (Taxista) - “Cala essa boca seu animal…..não sei porque estou perdendo meu tempo com você……..”
    Fim da Cena 1
    - Talvez tenha ficado legal galera…...vamos arrumar tudo para a próxima……...
    Cena 2
    Resumo - O taxista (Mari) esta na sala da casa de um vendedor de armas (Mirela). Ele tira uma mala debaixo de uma abertura escondida atrás do sofá e os dois começam a negociar.
    [Câmera em plano geral, pegando toda a sala e mostrando toda movimentação dos personagens.]
    {Sons de crianças brincando no quintal do vizinho e adultos gritando.}
    (Vendedor de armas) - “Eu tenho tudo que você precisa…...armas, munição, coletes a prova de bala……..”
    (Taxista) - “Eu quero uma Magnum 44 com seis balas……”
    (Vendedor de armas) - “Esta aqui esta belezinha……..robusta, pesada…….1,3kg de pura destruição…….o que ela acertar ela derruba……..”
    (Taxista) - “Quanto é?”
    (Vendedor de armas) - “Um barão e meio…….”
    (Taxista) - “Com as balas?”
    (Vendedor de armas) - “A primeira é sempre na faixa…….o que você esta pensando em fazer com isso……….”
    (Taxista) - “Nada demais……..aqui esta o dinheiro…….”
    (Vendedor de armas) - “O Tito disse que você era taxista……..que só queria se proteger……..se seus amigos também quiserem posso vender para eles também……...mas nada de falar por telefone, a gente combina e você traz eles aqui……e se alguém me perguntar você nunca me viu……..e é isso que vou falar se alguém perguntar de você……..”
    (Taxista) - “Entendi, eu sei como funciona…….”
    Fim da cena 2
    - Não sei isso esta dando certo. Nessa cena a câmera ficou muito longe de vocês……...acho que não esta legal o som……..
    - Roda aí na câmera mesmo pra gente ver como ficou………
    [Filme rodando]
    - O som esta horrível……..parece que é um banheiro…….
    - Vamos terminar de gravar……..a Renatinha vai melhorar o som no computador e colocar os efeito……..eu estou achando ótimo……..vou arrumar tudo para a próxima cena………..
    Cena 3
    Resumo - O taxista (Mari) esta sentado numa cadeira na cozinha escrevendo um bilhete. A arma esta do lado do papel na mesa.
    [Câmera em plano americano mostrando o taxista escrevendo o bilhete e a arma. Ele acaba de escrever, coloca a caneta do lado do papel, pega a arma e da um tiro na própria cabeça. A cabeça cai do lado do papel, sangrando, e a câmera vai fechando até focalizar o papel em detalhe.]
    {Nenhum som, só o barulho do taxista escrevendo o do tiro.}
    (Recado do bilhete) - “Eu não sou viado”
    Fim da cena 3
    - Adorei!
    - Acho que ficou uma merda.
  • A Esperança de Cada Dia

    No primeiro raio de sol, a esperança
    Do dia nasce mais cedo do que tarde
    Dormem os homens, e o sol, miraculoso,
    Sobre tantos que nascem sob, também morrem
    (Diariamente) juntos, por onde caminhamos.

    [Copiosamente iguais.

    Temo-nos pelos olhares, belos e sedutores:
    À suposição de encanto, que é apenas
    Suposição de encanto. Das vidas pospostas
    Ao raio luzidio, à verdade é íntima, e não menos
    Reveladora ante a cada passo cotidiano.

    Que até o cair da noite! Entre o recuo dos
    Passos, onde cedo, mais que cedo,
    Tornam-se-a dormir pelo amanhã
    Do mesmo dia, tornamo-nos a
    Dormir pelo amanhã do mesmo dia.

    [Copiosamente iguais.
  • À espreita do insólito

    Dentre as diversas antologias das quais participei, a Insólito do selo Cavalo café foi uma das publicações mais aguardadas. A chamada do edital para a coletânea de contos dava prioridade a histórias ambientadas no Brasil, e que se servissem da temática da nossa cultura e folclore para a escrita dos contos. O conceito de insólito abrangia diversos gêneros narrativos da ficção especulativa.
              O livro foi publicado em e-book, e foi disponibilizado para ser baixado gratuitamente no site da Editora Porto de Lenha, de Gramado - RS. Mas como sempre aguardei a versão impressa para ler. Nessa antologia eu publiquei um conto intitulado Angelis Gloria, que conta a história de um nefilim (híbrido de humano e anjo) sendo assediado por demônios, que eu curti muito em escrever. O organizador foi o Maurício Coelho, contista e antologista de primeira qualidade, muito atencioso e profissional. O livro tem capa e ilustrações de Sophya Pinheiro, que mescla bem influências regionais e mangá.
              O Prefácio ficou a cargo de Flávio García, Doutor em Letras. Confesso que o texto não instiga a leitura, é técnico, acadêmico, hermético demais e até maçante para leitores casuais. O autor perde mais tempo fazendo estudo epistemológico e citando outros autores famosos do que tratando da coletânea que ele foi convidado a analisar. Pule e vá logo para o primeiro conto. Mas se você estiver estudando Teoria da Literatura, pode usar esse texto como referência bibliográfica sem medo, afinal, o “Esboço à moda de prefácio” é um rascunho de tese de doutora na área.
              São mais de quarenta contos, de autores das mais diversas idades e regiões. Homens e mulheres que expressaram os seus sentimentos, as suas ideais e suas memórias através da literatura. A coletânea varia muito em ritmo, qualidade dos textos e modos de narrativa. Alguns contos apresentaram bons temas, mas pecaram na abordagem ou na execução. Alguns autores já são meus conhecidos, outros ainda estão amadurecendo a sua escrita. É um livro para explorar os novos autores, esse é o seu maior atrativo. Abaixo eu citarei os três contos que eu mais gostei no livro.
              O primeiro conto que eu mais gostei de ler foi Caixa de Pandora, do autor Gabriel Mascarenhas. Se aproveitando do contexto atual, o escritor explora temas como as bombas midiáticas, as fake news e a alienação para escrever uma fábula contemporânea. Assustadora em seu todo. Nesse texto, uma jovem jornalista descobre da pior forma como a população brasileira é dominada através de recursos que deixarão o leitor assustado.
              Evolução é escrito pelo J. F. Martignori. O conto é ambientado na Ditadura Civil-Militar (1964-1985), mais especificamente em 1966. A trama é sombria e nos remete a incertezas quanto ao relato que estamos lendo. Carlos e Pedro trabalham fazendo cargas num caminhão, e antes de chegarem ao seu destino, são envolvidos em uma nuvem que os lançam em uma realidade surpreendente. Ótimo conto.
              O conto da Margarete Prado, intitulado No escuro da noite, de maneira assustadora, relata uma das nossas maiores mazelas. Kaloana Fernandes está voltando para casa às altas horas da noite. Totalmente vulnerável. Ela escuta uma voz interior que manda ela ir para o hotel. De quem seria essa voz? O que ela estaria alertando? Quem põe a vida de Kaloana em risco?
              Confesso que das obras que adquiri em que o Maurício Coelho organizou, essa é a de menor desempenho. Mas ainda assim guarda boas surpresas, algumas histórias são bem inspiradas. As ilustrações do miolo são muito bem-feitas e ambientam bem os textos. Só acho que os autores deveriam ter polido mais o texto na hora da revisão, ficou notável os erros de ortografia e gramática, além da escrita de alguns textos terem um ritmo inadequado para a narrativa proposta.
              O livro conta com mais de 260 págs. Possui duas orelhas com bibliografia e biografia do organizador. O miolo conta com minibiografia dos participantes da antologia. O papel do miolo é offwhite. É como disse anteriormente, é um livro para você explorar novos autores e se inebriar de contos fantásticos ambientados no Brasil.
              Para adquirir acesse aqui:
              https://www.portodelenha.com.br/produto/464277/insolito
  • A esquina e o fim

    [blitz]
    - Boa noite. Documentos do Senhor e do veículo, por favor.
    - Sim Senhor, aqui estão.
    - Da onde o Senhor está vindo e para onde vai?
    - Estou voltando do trabalho para casa.
    - O Senhor pode descer do veículo, por favor.
    - Claro, algum problema policial?
    - Estamos verificando. São só procedimentos de rotina. O Senhor está de posse de algo ilegal?
    - Não Senhor.
    - Então, por favor, retire tudo dos bolso e coloque em cima do capô.
    - O que está acontecendo aqui? Sou suspeito do que?
    - Não sabemos ainda Senhor, estamos averiguando, são só procedimentos de rotina. Coloque as mãos na cabeça e abra as pernas por favor?
    - Porque estou sendo revistado? Eu tenho direito de saber porque estou sendo revistado.
    - Atitude suspeita, Senhor.
    - E qual foi a minha atitude suspeita? Eu estava no limite da via, usava cinto de segurança, estava com as duas mãos ao volante, o que eu estava fazendo de suspeito?
    - Sua atitude era suspeita, Senhor. O que há no porta-malas do veículo?
    - Não sei, umas caixas, panos, estepe, coisas assim.
    - O Senhor não sabe o que carrega no porta-malas, Senhor? O Senhor pode abrir para mim, por favor?
    - Posso, o que o Senhor está procurando?
    - Ainda não sei, Senhor. O que há naquela maleta.
    - Somente alguns papéis.
    - O Senhor pode, por favor, abrir para mim ver?
    - Claro. Está vendo, papéis.
    - Sobre o que são esses papéis?
    - Planilhas, contas. Sou comerciante, são algumas coisas da empresa.
    - Examine estes documentos Segundo Sargento. Agora nós podemos ver o interior do veículo?
    - Como assim examine estes documentos? O Senhor não pode mexer nas minhas coisas assim.
    - Estou analisando os documentos que o Senhor me mostrou e que foram encontrados numa pasta no porta-malas do seu veículo. Aconselho que o Senhor se acalme e me mostre o interior do veículo.
    - Como assim se acalmar? O que está acontecendo aqui?
    - Se o Senhor tem algo à esconder aconselho que me conte agora, pois nós vamos achar.
    - Do que o Senhor está falando? Quer saber, a atitude do Senhor é que é suspeita. Que procedimentos de rotina são esses? Mas eu não tenho nada para esconder. O que o Senhor quer ver?
    - Abra o veículo, por favor?
    - Estes CDs no porta trecos são do Senhor?
    - É isso, sou culpado por comprar produtos piratas? Pode me prender.
    - Acalme-se Senhor.
    - As MP3 do pen drive também são piratas. Eu me entrego.
    - Irei confiscar esses itens. O Senhor pode abrir o porta-luvas, por favor.
    - (click)
    - O que são esses papéis?
    - A nota fiscal do carro, umas contas, não sei.
    - Posso ver essa nota fiscal?
    - Por que? Eu posso perguntar por que?
    - A sua atitude suspeita, e irônica, diz, segundo o manual, que o Senhor está tentando ocultar algum crime. Já sabemos que o Senhor não respeita as leis de direitos autorais, agora estamos procurando quais outras lei o Senhor não respeita.
    - Eu não tive nenhuma atitude suspeita não. Isso é abuso de autoridade. O Senhor já me revistou, revistou meu carro, e não achou nenhuma evidência de nada suspeito. O Senhor está procurando pelo em ovo, isso que o Senhor está fazendo. Eu tenho meus direitos, e não tenho que te entregar a nota fiscal do meu carro.
    - Por favor Senhor, me respeite. Estou fazendo meu trabalho, que é combater o crime. Sua atitude é sim suspeita, e eu posso prendê-lo por desacato.
    - Olha, eu sou um cidadão de bem. Eu respeito a polícia, acho que o trabalho da polícia é desvalorizado. Mas eu não sou bandido.
    - Então me mostre isso, Senhor. Me entregue esta nota fiscal e me deixe fazer meu trabalho que a verdade aparecerá.
    - Tudo bem, desculpe. Estou um pouco nervoso, é a primeira vez que passo por isso.
    - A loja do Senhor deve estar indo muito bem, este carro é bem caro. Com o que o Senhor trabalha?
    - Acabou, me desculpe. O Senhor é da Receita Federal? Eu não fiz nada de errado, nem tive nenhuma atitude suspeita. Ou o Senhor me leva preso e me deixa chamar meu advogado, ou me deixa ir embora.
    [delegacia]
    - Eu só falo quando o meu advogado chegar.
    - O Senhor que sabe, mas pode estar acabando com as suas chances de um acordo.
    - Um acordo sobre o que? Sou acusado do que? O Senhor não tem nada!
    - Bom, já sabemos que o Senhor não respeita as leis de direito autoral. Podemos provar isso. Também sabemos pelos papéis da sua pasta, e a nota fiscal do seu veículo, que a sua renda é incompatível com seu estilo de vida.
    - Não falo mais nada enquanto o meu advogado não chegar.
    - Viu, isso é uma atitude de quem quer esconder alguma coisa. Nós já sabemos que o Senhor comete algum crime. A sua renda é incompatível. Não preciso de uma evidência, isso é uma prova.
    - Prova do que?
    - De que o Senhor cometeu algum crime para comprar um carro que uma pessoa na sua posição não poderia comprar.
    - Isso é uma suposição, até o Senhor provar o contrário eu sou inocente. Eu comprei o carro com um dinheiro que eu tinha guardado há muito tempo. Trabalho desde os 12 anos e agora não posso ter um carro?
    - Quanto tempo?
    - Desde os 12 anos.
    - Não tem nada haver com sonegação de impostos? Venda sem nota fiscal? Compra de produtos sem origem declarada? Essas coisas.
    - Eu não sei do que o Senhor está falando. Se o Senhor não sabe do que me acusar, como eu vou me defender?
    - O Senhor tem filhos?
    - Tenho, três.
    - Eles estudam em escolas particulares?
    - Eu sei o que o Senhor está querendo dizer. Já disse que não respondo nada até meu advogado chegar.
    - O Senhor já disse isso três vezes, eu só estou querendo ajudar o Senhor a dizer a verdade.
    [conversa com o advogado]
    - Como assim eles podem me manter preso por até três meses?
    - Além de você ter violado as leis de direito autoral, existe um indício de que você cometeu algum crime para ter dinheiro e comprar o carro, por enquanto é só isso. Sei que eles solicitaram junto à Receita Federal sua declaração de imposto de renda, da sua empresa e da sua esposa. Se há algo de errado eu preciso saber agora.
    - Como assim? Eles não podem fazer isso. Era só uma blitz, o documento está em dia, minha carta também. Eu só quero ir para casa.
  • A Extinção dos Gatos

    Três gatos morreram e fizeram a tristeza de uma família se juntar à tristeza de milhões de pessoas no mundo que passavam pelo mesmo. Os gatos estavam morrendo por uma doença misteriosa, transmitida pelo ar e que aparentemente os matava sem muita dor, os deixando tontos e cambaleantes por alguns poucos minutos, terminando com um súbito e fatal desmaio. Mas a família ainda sentia muita dor mesmo após semanas em que os três se foram.
    Obviamente os cientistas estavam interessados em achar alguma cura ou vacina já que isso também significava milhões em lucros, mas muitos não demonstravam muito otimismo com a velocidade que a doença se espalhava e o tempo necessário para as pesquisas. Enquanto isso, há cada vez mais relatos de coisas sobrenaturais acontecendo. Aqueles mais ligados ao mundo sobrenatural afirmam que os gatos são guardiões do submundo e por isso esses eventos estão acontecendo. Já os mais céticos falam que tudo isso não passa de um monte de desocupados que espalham desinformação para sustentar uma teoria da conspiração.
    Nicolas, que acabou de perder os seus três gatos, era um dos céticos, enquanto os seus pais eram crentes no sobrenatural. Eles moravam há mais de duas gerações em uma fazenda a uns dez quilômetros de estrada de chão da cidade mais próxima. Quando criança, Nicolas brincava nas árvores que seus avós plantaram em suas infâncias e desde cedo aprendeu os trabalhos na roça, além do respeito aos animais. Cada bicho tinha uma função, seja prática ou espiritual, e por isso tinham que ter a constante presença de todos eles. Por mais difícil que fosse, os gatos tinham que ser substituídos assim que partiram deste plano, então os pais de Nicolas fizeram uma viagem até a cidade para adotar uns gatos de sua tia, castrá-los e comprar alguns suprimentos pra casa. Pela primeira vez, Nicolas ficaria alguns dias totalmente sozinho e seria o responsável por manter toda a plantação e animais vivos. Mas é claro que, depois de acompanhar o seu pai todos os dias por mais de 8 anos, não seria uma tarefa muito difícil. A rotina já estava bem definida há anos e só mudava quando um novo equipamento chegava, então sabia que tinha que acordar bem cedo e ficar alternando entre cuidar dos animais e da plantação. Era algo bem cansativo e até chato em alguns pontos, mas necessário se quisesse sobreviver.
    O lado bom é que quando chegava a noite estava tão cansado que só queria esquentar a janta, que não passava das sobras do almoço, e deitar. O cansaço era tanto que sempre se recusava a acender a luz da cozinha para lavar o seu prato, usando a pouca claridade da sala em suas costas como guia. Assim que levantou a cabeça para abrir a torneira, viu uma sombra humana se formar na parede e se aproximar de suas costas até que não houvesse mais luz e a parede estivesse completamente preta. A sua respiração parou momentaneamente, a barriga se contraiu e os olhos vidrados se esforçaram ao máximo para piscar. Assim que piscou, tudo estava como antes e a luz da sala continuava a iluminar fracamente a cozinha. Nesse instante, soltou de uma vez só todo ar que tinha segurado e respirou fundo algumas dezenas de vezes para se acalmar enquanto a água escorria na sua frente. O seu lado racional tentava convencer o emocional de que tudo não passava da obra do cansaço, afinal não estava acostumado a fazer todo o trabalho sozinho. E, mesmo que não fosse cansaço, não tinha outra alternativa a não ser tentar descansar já que o próximo dia estava perto de começar.
    Como sabia que não ia conseguir simplesmente tirar isso da cabeça e dormir, decidiu deitar no sofá, colocar os fones de ouvido e esperar o sono o pegar desprevenido. É estranho como não se percebe a transição entre estar acordado e dormindo. Sem nem lembrar em qual parte da música dormiu ou até mesmo qual era a música, Nicolas foi para o mundo dos sonhos e se distanciou completamente de sua realidade. Pelo menos até abrir os olhos e perceber que não conseguia mexer nem sequer um dedo. O medo que sentia era perceptível em sua breve respiração e que foi ficando mais curta ao perceber pela sua visão periférica que uma sombra vinha se aproximando. Quando ficou de frente pra ele, percebeu pelo corpo que era um homem alto, mas bem franzino e com uma aparência de que tinha sofrido muito. O corpo todo do homem parecia envolto de uma sombra a não ser pelo chapéu que uma vez já tinha sido bege, mas agora estava preto de tão sujo. Aquele homem sombra ficou encarando Nicolas por alguns segundos, parecendo saborear o medo que ele sentia e que transparecia pelo seu suor, lágrimas e respiração. Nicolas tentava falar, gritar e implorar, mas não conseguia abrir seus lábios. Enquanto batalhava contra o seu corpo, o homem sombra avançou pra cima dele e começou a sufocá-lo com uma força incompatível com o corpo que apresentava. A respiração curta de Nicolas tinha ficado inexistente. No desespero da busca pelo ar, piscou o olho, caiu no chão e começou a tossir. Por alguns minutos ficou olhando de relance para todos os lados tentando achar o homem sombra enquanto revezava entre respirar e tossir. O medo ainda estava em seus olhos e só queria fugir, mas os seus pais haviam levado o único carro que tinha na propriedade. Então, ignorando o cansaço, decidiu andar até a propriedade vizinha a uns três quilômetros e pedir o carro deles emprestado.
    Ele queria e tentava se convencer de que tudo tinha uma explicação. Já tinha tido uma vez paralisia do sono e talvez fosse só isso, embora ela não explicasse a marca vermelha de dedos em seu pescoço. Mas mesmo que de algum modo conseguisse uma explicação racional para tudo isso, não iria adiantar. O medo que sentia era muito grande e, por mais que quisesse, não poderia ignorar isso. Então pegou uma lanterna, a identidade e um pouco de dinheiro, trancou a porta e fugiu em plena escuridão.
    A lanterna ia da direita para esquerda e da esquerda para a direita em uma meia lua interminável, indo ocasionalmente para trás para ver se não havia nada lá. A vista das estrelas já começava a acalmá-lo nesse longo caminho, o que era bom. Já havia pensado na desculpa que usaria com os seus vizinhos: uma pessoa invadiu a casa e o agrediu, mas conseguiu fazer com que ele sumisse. Como tinha medo que ele voltasse sozinho ou acompanhado, queria passar a noite na cidade. Não era a verdade, mas também não era uma mentira. Com tudo isso planejado, podia continuar admirando as estrelas e afastando a imagem do homem sombra de seus pensamentos.
    Tinha acabado de direcionar a lanterna para trás, visto que não tinha nada lá e voltado a mirá-la para a frente quando sentiu um enorme impacto em sua perna esquerda que o fez cair e soltar diversos xingamentos. A dor parecia sair de seu joelho e ir ardendo até a sua mente. Quando olhou para o chão, viu uma pedra do tamanho de um melão banhada em sangue. Tentou se levantar, mas a dor não permitia que o seu joelho sustentasse o seu corpo.
    Devia faltar mais uns quinhentos metros até a casa vizinha, então, como não tinha outra escolha, decidiu começar a se arrastar. Logo depois dos primeiros centímetros percorridos, sentiu uma forte puxada em sua perna machucada que levou a uma nova irradiação de dor. Embora tentasse, não conseguia gritar e, por mais que se esforçasse, só soltava uns grunhidos baixos. Quando começava a se acostumar com a dor, olhou para a frente e viu o chapéu na sombra de um homem. Não conseguiu encarar por muito tempo, pois, cada vez que a dor ficava um pouco mais tolerável, ele puxava com força para dar um tranco na perna e irradiar mais dor para o corpo. Sabia que estava sendo levado de volta para a sua casa. Tentava piscar e se debater para escapar, mas o homem sombra era muito forte.
    A família de Nicolas chegou dois dias depois dessa noite com seis filhotes de gatos, bastante comida e fertilizante. A mancha de sangue na estrada já se confundia com o vermelho do barro e nem foi percebido pelos seus pais. E mesmo que percebessem, provavelmente acreditariam que algum animal tinha caçado e arrastado a carcaça de sua presa. Não estariam certos, mas também não estariam errados. Chegando em sua casa, viram o corpo de Nicolas empalado com o suporte de uma antena e deixado com os braços abertos como se fosse um espantalho bem na escada que dava acesso a porta principal da casa.
    A polícia investigou o caso que teve uma repercussão nacional, mas nunca chegaram a algum suspeito. Segundo os legistas, Nicolas foi empalado vivo, morrendo lentamente de hemorragia enquanto a antena ia atravessando os seus órgãos até chegar ao seu estômago, o fazendo engasgar lentamente com o seu próprio sangue. Mesmo demorando horas para morrer, pela distância entre as propriedades ninguém deve ter conseguido ouvir os seus gritos de dor. Já os seus pais nunca souberam o que o atormentou já que se mudaram antes dos seus novos gatos morrerem pela doença.
  • A lamparina de Luanda

    Pouca gente sabe que morei em Luanda, capital de Angola, na África, durante o curtíssimo período de fevereiro de 1977 a março de 1978, com minha família, onde comemorei dois aniversários, o de onze e o de doze anos. Foi esse um fato que se tornou secreto, não sendo comentado nem mesmo nos círculos familiares, e que meus pais, não sem justa razão, fizerem questão e esquecer. Mas o que de mais secreto há nessa história se deve ao meu silêncio, pois nem mesmo meus pais jamais vieram a saber - pois nunca lhes revelei: é que lá conheci Kambami, um feiticeiro, por meio de quem vivenciei um acontecimento estranho, inconcebível mesmo para a mente de um brasileiro, ou talvez para qualquer mente que não seja africana.
    Antes, morávamos no Rio de Janeiro, onde meu pai trabalhava como encarregado de obras numa firma de construção civil. Deu-se, porém, que a firma faliu, e ele ficou desempregado por quase um ano. Ao final desse período, minha avó paterna, cujo pai viera do Congo para o Brasil em 1890, apresentou pela primeira vez ao meu pai a ideia de ir para a África, morar em Luanda, onde vivam dois tios e uns primos dela.
    Mas que futuro melhor alguém poderia esperar, trocando o Rio de Janeiro por Luanda, ainda mais que Angola estava enfrentando um conflito armado desde 1975? No caso de meu pai, havia, sim, um vislumbre de futuro, e, quem sabe, até de um grande futuro: ele tinha sido lapidador antes de entrar para o ramo da construção civil, e Luanda era um grande centro de comercialização de diamantes. E não havia muito mais o que se fazer na cidade. Seja como for, tanto que meu pai pensou nos diamantes, não quis outra coisa.
    Viajamos: eu, meu pai, minha mãe e meu irmão, este mais novo do que eu dois anos. O avião fez uma conexão na Líbia, era uma sexta-feira, às duas horas da tarde, e a primeira sensação que tive ao saltar no aeroporto foi a de que o calor fosse me matar antes que eu pudesse pedir um copo d’água. Mas em Luanda não era tão quente assim, caso em que eu não estaria aqui agora para contar a história.
    Fomos morar num bairro que, lá, era de classe média, mas, aqui no Brasil, não passaria de um cortiço. A casa era péssima; as águas, pestilentas, e eu esperava que ficássemos naquele bairro e naquela casa só provisoriamente, até que arranjássemos outro lugar, em melhores condições. Havia um odor nauseante e contínuo de esgoto a céu aberto, frequentes cortes de energia elétrica e, por conseguinte, falta de água. Dias mais tarde, descobri que em Luanda pagava-se um ano de aluguel adiantado, motivo por que era certo que teríamos de passar pelo menos um ano naquela casa, a menos que meu pai tomasse o prejuízo financeiro referente à quebra de contrato, para mudarmos mais cedo dali. Passou-se um ano que, a mim, pareceu uma eternidade, e, enfim, meu pai chegou com a notícia de que tinha encontrado uma nova casa. Antes, porém, que nos mudássemos, como não poderia deixar de ser, minha mãe quis ir vê-la para dar seu aval, e no dia em que ela foi, eu e meu irmão fomos juntos. Meu pai não estava conosco, pois tinha ido acertar detalhes do contrato de um trabalho que havia conseguido. Aproximando-se da casa, eu e meu irmão nos adiantamos três ou quatro passos, e entramos nela antes de minha mãe. Era uma tarde cinzenta e enxergava-se com certa dificuldade no interior da habitação, mesmo com a chama bruxuleante de uma lamparina que ardia em cima de um baú antigo de madeira escalavrada a um canto da sala. Minha mãe entrou. E foi justo nesse momento, quando nós três achávamo-nos no interior da casa, que ela me fez saber que se passava ali o estranho fenômeno.
    - Quem apagou a lamparina? – perguntou-me ela, com uma expressão muito exasperada.
    Apontei para o meu irmão, que tinha acabado de cair ao chão subitamente, sem nenhum motivo aparente, e havia perdido os sentidos. Com um grito de pavor, depois de apertar o rosto com as duas mãos, minha mãe atirou-se sobre ele, segurou-o pelos ombros e agitou-o loucamente. Mas ele não esboçou reação. Minutos depois ele foi internado, tendo sido levado ainda desacordado ao hospital, por alguém a quem minha mãe pediu socorro.
    Amedrontado, entendi logo que havia uma sinistra relação entre o apagar da lamparina e o mal súbito que se abateu sobre o meu irmão.
    Senti-me aliviado quando, no mesmo dia, minha mãe disse que se recusava a ir morar naquela casa. Meu pai comentou que era bobagem, mas não chegou a interpor nenhuma objeção contra a decisão dela. E, assim, continuamos no mesmo lugar.
    Chegando em casa, minha mãe me chamou e disse que precisava me explicar uma coisa.  Foi então que ela contou o real motivo por que tinha ficado tão desesperada ao ver meu irmão caído. Antes de começar a dizer, ela hesitou, disse que era uma coisa horrível, mas horrível mesmo, e que só Deus podia nos ajudar, então falou: existe uma tradição em uma certa comunidade de Angola, cujo nome ela não conhecia, em que se praticavam rituais satânicos, sacrificavam crianças, que eram postas nuas em cima de chapas de ferro em brasa, bebiam sangue de galinha diretamente no coto do pescoço cortado, comiam cacos de vidro, atravessavam punhais no coração e não morriam, nem sequer sangravam, proibiam seus adeptos de trabalhar ou estudar, colocavam jovens nus e de mãos amarradas às costas deitados em cima de formigueiros, onde ficavam até desmaiar das picadas. E havia também as mandingas, que eram muitas e muito eficazes, entre as quais estava a que consistia em um método para se salvar do inferno a alma de algum homem que morresse com muito pecado, mas que lograsse o respeito e a benquerença da comunidade: com um ato hediondo de bruxaria, lançavam-se os pecados da alma desse homem venerado sobre a alma de alguém, para que pagasse os pecados em seu lugar – pois pecados nunca podem ser extintos, mas apenas passados de uma alma para outra. E o que faziam para passar o pecado de uma para outra alma? Assim que morria o homem pecador, porém idolatrado pela comunidade, acendiam uma lamparina e a deixavam dentro da casa em que ele morara. E aquele a quem o destino se dignasse em enviar para apagar a chama da lamparina, recebia sobre si toda a carga de pecados do morto, vindo a morrer também, pouco depois, de morte feia – pois pecadores não têm morte bonita - indo sua alma para o inferno em lugar do outro. Chamavam esse ritual de Gees Brandm, em africânder, o que significa algo como “espírito que queima” ou “espírito do fogo” ou “espirito em chamas”. Era de prodigiosa emergência para a comunidade a realização desse mister, e muito necessário era que alguém apagasse a chama, pois, em não aparecendo ninguém que o fizesse, e expirando-se oo fogo naturalmente pelo extinguir da combustão, estaria o venerável homem morto irremediavelmente condenado à danação.
    O médico pediu alguns exames, e mamãe lhe disse que ia providenciar o mais rápido possível. Chegando em casa, entretanto, ela disse:
    - Não haverá exame nenhum! Isso não é caso para medicina. É coisa de mandinga. Só se cura com outra mandinga. Ou talvez nem assim... oh, meu Deus...!
    E decidiu que ia procurar Galobé de Prates, um padre curandeiro que vivia num bairro próximo, e que, apesar de católico, batia tambores às vezes.
    - Ele não tem nada – afirmou o padre. - Nada de espiritual, quero dizer. Se quer um conselho, a senhora deveria procurar um médico.
    Mas havia um problema sobre o qual meus pais não haviam pensado antes de mudarmos para Luanda, e que, se tivessem pensado, talvez nunca teríamos saído do Rio de Janeiro: eles não confiariam aos médicos de Luanda nem mesmo o tratamento de uma dor de barriga.
    Em casa, tendo conversado sobre o que o padre dissera, mamãe e papai chegaram à mesma conclusão, e quase disseram a uma só voz que voltaríamos o mais breve possível ao Brasil.
    Foi à véspera de nossa partida de Luanda, que conheci Kambami, o feiticeiro.
    Eu estava em frente a casa, brincando, quando um homem negro muito velho de cabelos brancos, vestindo calça e bata brancas, passou do outro lado da rua e me chamou pelo nome... por nome? De onde ele me conhece? Eu nunca o tinha visto antes, e estava decidido a não ir até ele, mesmo porque mamãe sempre nos ensinara a não conversar com estranhos. Mas, seja como for, uma força estranha me fez atravessar a rua, mesmo sem querer.
    Ele me disse que precisava falar comigo antes que eu fosse embora de Luanda... antes que eu fosse embora de Luanda? Como ele sabia que eu estava para ir embora de Luanda? Pediu-me que eu o seguisse, mas não disse para onde. E fui. Não sei por que, mas eu agia tão naturalmente, que parecíamos velhos amigos, e que não houvesse qualquer perigo em um menino de doze anos acompanhar um estranho a lugar ignorado.
    Chegamos a um largo barracão de madeira enegrecida pela exposição diuturna ao sol e à chuva, coberto de palhas e com uma chaminé fumegante. A área interior era ampla, sem divisórias, e o piso, de chão de terra batida. Kambami me chamou para nos assentarmos num dos bancos de tábua que se instalavam rente às paredes, ao redor de todo interior o salão. Foi somente aí que ele me disse seu nome e o que queria comigo.
    - Você é um escolhido – falou ele, com uma voz de trovão que surpreendeu por ter saído da garganta de um homem tão velho como era Kambami. – Você não sabe, nem seus pais sabem, nem ninguém sabe, mas um escolhido tem direito a um pedido, qualquer pedido, aos nossos bons espíritos.
    Kambami tinha um olho preto e outro branco,  este parecendo queimado com ácido ou fogo, ou seria uma marca de nascença, não sei. O fato é que olhei para os olhos dele e senti um arrepio. Levantei-me do banco e saí correndo.
    Naquela noite eu demorei para pegar no sono e, quando adormeci, tive pesadelos em que vi meu corpo fritando sobre chapas de ferro em brasa, e galinhas sem cabeça rodopiando pelo chão, aspergindo sague pelo coto do pescoço.
    No Hospital de Beneficência Portuguesa do Rio de Janeiro, o médico disse à minha mãe que meu irmão estava imediatamente liberado para ir para casa, pois o seu problema era uma simples anemia, o que seria tratado com vinte gotas de Combiron, duas vezes por dia, durante cinco dias.
    Foi à mesa do jantar que, conversando, meus pais decidiram que não comentariam com ninguém o fato ocorrido na África, pois, de qualquer modo, o ritual de transmissão de pecados de uma alma para outra era, no mínimo, uma coisa esdrúxula, em que as pessoas resistiriam em acreditar, e os tomariam por mentirosos. Mamãe reparou em como meu irmão, sentado à cabeceira da mesa, estava saudável, e disse que, talvez, a história da mandinga do Gees Brandm fosse só uma lenda, ideia essa com a qual meu pai concordou de pronto e disse que era isso mesmo que ele sempre achou. Já tinha dito a ela que era uma bobagem, então não se lembrava?
    Mas a felicidade de meus pais foi duramente golpeada dois dias depois, quando, voltando da escola, ao passar pelo portão, entrando em casa, perdi os sentidos e caí nos braços de minha mãe, que me esperava ali. Minutos depois, encontrava-me no mesmo Hospital de Beneficência Portuguesa do Rio de Janeiro, em que meu irmão estivera, mas, dessa vez, o médico não disse que se tratava de algo simples. Em vez disso, fiquei internado, entrei em coma vinte minutos depois, e os exames, que ficaram prontos vinte e quatro horas depois, indicaram tumor cerebral oligodendroglioma de crescimento rápido e agressivo no lóbulo frontal.
    Parecia não haver no mundo sentimento de consternação maior do que aquele que vi no semblante de minha mãe, quando acordei do coma e ela estava olhando para mim. Dali em diante, eu teria vida por mais alguns meses, talvez um ano ou pouco mais, como fiquei sabendo por ter ouvido o próprio médico contar a meu pai, num momento em que ambos conversavam perto do meu leito, achando que eu estivesse dormindo.
    Se a tristeza de minha mãe era grande, não o era, porém, a ponto de que não pudesse ser aumentada. E foi pensando em poupar-lhe de maior sofrimento, que resolvi me calar, e não revelar-lhe a verdade que eu tinha escondido sobre a lamparina de Luanda: a verdade de que a chama quem apagou fui eu.
  • A Máquina da Ordem

    Naquela praça deserta os jardins eram perfeitos, os bancos perfeitos, as árvores perfeitas. Um lugar perfeito. No centro, a Máquina transmitia boletins informativos de utilidade pública através de uma de suas telas espalhadas pela cidade. Era um dos serviços sociais prestados pelo Estado.
    Um homem esquálido, cambaleante, sentou-se num dos bancos, esgotado pelo calor intenso. Tinha andado já um bocado. Precisava aliviar a dor dos pés inchados apertados dentro do sapato. O cheiro do pão quente saído da padaria em frente o torturava, mas não mais que a sede. Do dinheiro que ganhou com o trabalho temporário que arranjara naquele mês, não tinha sobrado nada.
    Ouvia distraidamente os boletins informativos da programação do dia quando um guarda municipal, bem uniformizado e com ar de autoridade, abordou-o:
    — O que faz aqui?
    ― Estou só descansando um pouco ― explicou pensando em tirar o calçado.
    ― De onde o senhor vem?
    ― Lá da fábrica de papel.
    ― Aonde o senhor vai?
    ― Ao posto da Assistência Social. Disseram-me que fica para aquele lado de lá — disse apontando uma direção.
    ― Então vá para aquele lado de lá. Não pode ficar aqui vagabundeando.
    O homem esquálido ergueu-se lentamente e atravessou a praça chegando a um ponto de ônibus. O banco ali era coberto e o protegeria dos malditos raios de sol que pretendiam cozinhá-lo lentamente. Continuou ouvindo os boletins transmitidos pela tela da Máquina atrás dele.
    Naquele momento, uma menina chegou ao local trazida pela mão de uma jovem mulher. Pela rosadinha, cabelos louros, parecia um anjinho. Devia ter uns seis anos. A filha dele que morrera junto com a mãe no parto teria a idade dela. Ele nunca soube o que causou a morte de ambas. Nenhum médico apareceu para lhe explicar o que tinha acontecido. A limpeza do hospital era impecável, os funcionários estavam alegres, tudo estava em ordem e, apesar da demora, não podia negar que sua mulher fora bem atendida.
    Sua filha não se pareceria com a menina loura. Era mais provável que fosse pretinha, como a mãe. Ah minha pretinha...
    Divagava olhando a menininha enquanto a jovem mulher, em pé na beira da calçada, olhava-o com desconfiança. O guarda municipal que vinha da guarita da esquina se aproximou dela e trocou algumas palavras. Em seguida, empertigou-se, franziu o cenho e se voltou para o homem esquálido.
    ― O senhor de novo?! Está assediando os transeuntes. Vamos! Circulando.
    Antes de partir, o homem esquálido acenou para a menininha que se agarrou à mulher e, por de trás dela, tombou a cabecinha espiando-o assustada.
    Caminhou por mais quarenta e cinco minutos e chegou ao posto. Na entrada do prédio, um recepcionista uniformizado portando uma arma lhe pediu identificação. Em seguida, foi informado que deveria pegar uma senha de atendimento antes de passar pela porta com um dispositivo de detecção de metais.
    — Pode me dar uma garrafinha de água daquelas? — perguntou apontando para a geladeira na recepção.
    — Tem de colocar uma moeda ali — explicou o recepcionista.
    No salão de espera, havia poltronas estofadas, cinco pessoas atrás de computadores num balcão e um vigilante de pé num canto.
    Longos minutos se passaram até que o visor apitou mostrando o número de sua senha. No balcão, uma moça sorridente lhe fez uma série de perguntas para preencher uma ficha e pediu que ele aguardasse um pouquinho para falar com o assistente social.
    O homem esquálido voltou a se sentar e decidiu tirar os sapatos para aliviar a pressão insuportável que exerciam sobre os pés inchados.
    — O senhor não pode tirar os sapatos aqui — disse o vigilante se aproximando. Olhou com reprovação para o pé do homem esquálido do qual começou a escorrer um líquido cinzento e fétido pingando no chão. Então mandou que ele saísse dali imediatamente.
    — A Máquina informou que eu precisava do encaminhamento do assistente social para ser atendido no hospital.
    — O senhor está fazendo sujeira. Dê um jeito de calçar e sair daqui.
    Uma senhora que ouvia a conversa dos dois, tocou levemente o ombro do homem esquálido e disse que ele poderia passar na frente dela.
    A atitude da mulher encheu-lhe de gratidão e ele a agradeceu diversas vezes enquanto trocava o bilhete com ela. Em seguida, dobrou a parte de trás dos sapatos, calçou-os como se fossem chinelos e seguiu para a sala indicada na senha da mulher.
    — O senhor não é Jussara de Souza — disse o jovem sorridente que conferia os dados pelo número da senha no computador.
    — Estou com dor e uma senhora me deixou passar na frente dela.
    — Bem, mas não posso atendê-lo com o nome dela. Devo atender pela ordem das fichas. Saia e aguarde sua vez. — ordenou o jovem mantendo o sorriso.
    — Tenho pressa, moço — arriscou dizer o óbvio, mas incerto se o rapaz compreenderia, explicou: — Está saindo pus do meu pé.
    O jovem fez uma expressão de nojo e perguntou:
    — O senhor não acompanha as informações da Máquina? Deveria saber que tudo aqui funciona perfeitamente dentro da ordem. E todos devem obedecer às regras. Insisto que saia e aguarde sua vez.
    O homem esquálido sentiu suas forças se agigantarem com o sentimento de indignação. Num impulso insólito, certamente movido pela dor lancinante, bateu com violência no monitor do computador que se espatifou no chão.
    O assistente social apertou um botão vermelho na parede ao lado dele. Imediatamente o vigilante apareceu e rendeu o homem esquálido imobilizando seus braços, algemando-os para trás. Em seguida, tomaram a viatura da polícia que fazia plantão no local e foram para a delegacia.
    Não teve de esperar muito para ser atendido.
    — O que o senhor fazia no posto? — perguntou o delegado.
    — Fui buscar um encaminhamento para receber assistência médica gratuita.
    — O relatório diz que o senhor infringiu regras da instituição, desacatou o segurança, agrediu um funcionário e depredou patrimônio público. Correto?
    — Eu só... — tentou dizer o homem esquálido interrompido pela fraqueza e a dor que o assolavam novamente.
    — O senhor não observou as orientações da Máquina. — continuou o delegado. —Tudo é organizado para garantir a ordem e melhor servir à população. Os desordeiros devem ser imediatamente punidos. O senhor vai ficar preso para seguir o programa de reeducação social da penitenciária até que prove que está apto para conviver novamente em sociedade.
    — E os meus pés?
    — Isso não é comigo. É com o médico.
  • A nova onda cyberpunk

    Diferente do que afirmam os críticos, a morte do cyberpunk foi anunciada com certos exageros. O pós-cyberpunk, movimento no qual a tecnologia e a sinergia entre homens e máquinas é considerada algo possível, ao menos até o momento continua sendo uma utopia cibernética e não uma realidade concreta. A alta tecnologia e a baixa qualidade de vida é algo muito mais palpável. O cyberpunk não cria ilusões, revela fatos diários.
                Quando a Darda Editora se propôs a explorar esse subgênero da ficção científica, o mundo e a liberdade criativa para criar histórias nessa realidade foi imensa, e também envolvente. No total, oito autores foram selecionados. Já conheço até o trabalho de alguns deles, pois já fui seus colegas em outras antologias. Recomendo esse livro pelas novas abordagens, dramáticas e catárticas nesse livro.
                O primeiro conto é escrito pela Aline Cristina Moreira, e se chama Ilusões. Esse texto nos mostra como a tecnologia é muito frágil para substituir as relações humanas, cada vez mais artificiais. Não posso falar mais, senão correrei o risco de revelar o final da história. Foi uma leitura assustadora.
                O segundo conto é o meu, Assalto ao Banco Genoma, um hacker baiano recebe uma bolada em criptomoedas para assaltar um banco de registro de DNA para um nobre europeu. Mas enquanto ele invade o BG, uma força tarefa chega ao seu quartel general. Não gosto muito de comentar meus próprios contos, mas eu fiquei muito satisfeito com esse aqui.
                O conto do Cesar Luis Theis, o Nuances da cyber-sociedade, a alta tecnologia tem o mesmo status de uma droga, pois o seu uso é viciante, gera dependência e problemas psíquicos no seu usuário. Foi o trabalho mais coeso, com começo, meio e fim bem claros. Ficou muito nítido em qual mundo a narrativa se desenvolvia, o conflito entre hacker e máquina foi sensacional, usando xadrez como plataforma de combate. Melhor conto.
                Sangue e circuitos de Fabiana Prieto trouxe uma narrativa deja vú, a história parece se repetir em seu final, se tornando um anticlímax. Pareceu mais um prólogo de um romance do que um conto, ao menos me pareceu assim. O conto tem uma ótima ambientação, e se peca pelos personagens com pouca personalidade, a autora tem um ótimo argumento em mãos para desenvolver uma prosa maior.
                Jonnata Henrique é um dos poetas e contistas mais prolíficos que conheci, e um dos mais talentosos também. A história de O setor 469 também tem um ótimo cenário, uma típica distopia com um plano de fundo cyberpunk. Depois de uma Terceira Guerra Mundial, a população diminui para metade e ocorre a chipagem dos seres humanos. O setor 469 usa um programa de testes de robôs militares, e para isso, usa presidiários. Apesar do conceito ser instigante, a obra é muito curta, e termina com muitas pontas soltas. Careceu de um melhor desenvolvimento.
                Fuga na Cidade de Neon de Rafael Danesin trouxe a narrativa mais dinâmica e final mais aterrador da coletânea. Joh Haarp (que devido a flexão de dois gêneros não tive certeza se era um homem ou mulher) está fugindo de sua crio-prisão. Como um lobo solitário fugindo dos caçadores, o fugitivo causa um grande estrago na cidade, sempre com tiradas satíricas e sagacidade.
                Suellen Silva traz Vida de Cão. A história é simples, tem um cão-robô como protagonista. O cyberpunk é um gênero permeado pelo conflito entre o homem e tecnologia, o indivíduo e a sociedade, corporações umas contra as outras. Trazer esse conflito através de um novo olhar nos tira da zona de conforto.
                Fantasy and Dreams é o conto do Tauã de Lima Verdan Rangel, e fecha a antologia. Confesso que de todos esse foi o conto que eu menos gostei. Embora ele seja o de maior quantidade de páginas, não em pareceu que ela foi desenvolvida muito bem. A narrativa em primeira pessoa deixou vários pontos em branco. Personagens foram citados como numa lista de supermercado, mas não tiverem desenvolvimento de personalidade ou ações claras na trama. Outro conto que parece um prólogo de uma narrativa maior.
                Esse é o meu primeiro livro publicado com a editora, não sei porque, mas o livro demorou muito para ser editado. O livro tem apenas oito contos, eu sempre espero que a antologia tenha no mínimo cem páginas, esse é o maior pecado da antologia. A diagramação do livro não está ruim, mas uma segunda edição necessitará de uma melhor revisão, me pareceu que o livro foi editado às pressas, mesmo com cinco meses de produção e apenas 60 páginas. Inclusive eu achei que eles mudariam a capa, ele não instiga muito a leitura. O livro te orelhas, marcador de página exclusivo. Miolo em papel offset 70, capa papel cartão 200. Se você quer acompanhar mais um dos meus trabalhos ou se você gosta mesmo de cyberpunk o livro é sua pedida.
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  • A polícia do sonho

    Para Magrão, guitarrista da banda de punk rock Secreção, não era a graça, a beleza, o carisma e nem o Fender Jazz Bass azul que mais o impressionava em Mila Cox, a baixista e vocalista dos Crop Circles. 
    De acordo com ele, em conversa com Zími, baterista, vocalista e parceiro musical de Cox, o que realmente lhe roubou o coração foi a forma como as pontas do cachecol batiam em seus joelhos, enquanto caminhava ao chegar no local do evento. 
    Magrão dizia que esse detalhe exibido sem querer, mas de forma tão charmosa e espontânea, lhe tirou do sério. 
    Era uma festa junina com bandas do underground, evento que segundo Mila Cox, demorou a ser compreendido pelos síndicos, tamanha a falta de familiaridade dessas pessoas com esse tipo de evento.  
    Era um deles pela realização do evento, contra a resistência de outros quatro. 
    Havia muitas crianças do condomínio de classe média que nunca tinham visto uma guitarra de perto. Instrumentos musicais pareciam causar muito mais medo em alguns pais do que armas. 
    Uma garota que morava ali propôs a escalação dos Crop Circles, pois os havia visto tocar em Limeira, em 2022. 
    Magrão e seus colegas haviam encerrado a apresentação do Secreção quinze minutos antes, e agora a banda de glam rock Silvícolas se preparava para fazer o último show daquele domingo. 
    Já era noite de domingo quando iniciaram o show. 
    Era o quarto e último show daquele dia, daquela festa em São Caetano. 
    Esse rolê foi programado para acabar por volta das dez da noite. 
    Três shows já tinham acontecido antes dos Silvícolas: o uruguaio Silvano, banda de um homem só, foi o primeiro, seguido dos Crop Circles e do Secreção. 
    Zími já havia conversado com Magrão à tarde, antes de tocarem. A princípio parecia um cara bastante coerente no que falava. Nada indicava que ele fosse louco. Então Zími logo ficou curioso para saber se depois ele havia tomado algo para ficar louco. 
    Minutos depois de Magrão contar essas coisas a Zími, Mila Cox os avistou debochando cruelmente dos Silvícolas, que estavam no palco naquele momento. 
    Riam alto e até apontavam para eles, em meio a gargalhadas de deboche. 
    Nada disso abalou aqueles posers espalhafatosos, uma banda que misturava Glam e Hair Metal de maneira bastante original, até o ponto em que isso é possível, e não pareciam simples cópia das bandas do gênero, e que foram varridas pelo grunge trinta anos antes.  
    Fizeram o show até o fim e aparentemente agradou, pelo menos de acordo com a reação do público, com cerca de cento e cinquenta pessoas. Apenas duas pessoas zombavam deles. 
    A maioria das pessoas presentes assistia com curiosidade aquela banda que, apesar de a princípio parecer uma simplória mistura de Ratt e Europe, tinha personalidade. 
    Depois do show, Mila Cox estava furiosa e foi em direção à dupla de fanfarrões. 
    Cabelos lisos até o ombro, com tintura laranja, saia xadrez, um pesado par de botas e camiseta do Bikini Kill. 
    Ela falou: “Que porra é essa? Onde está o respeito pelos caras?” 
    Quando Magrão a viu a dois metros de distância, e brava, sua cara empalideceu rapidamente e ele emudeceu. 
    Zími falou: “Não estamos desrespeitando ninguém. Fizemos nosso show, agora estamos assistindo essa banda. Eles têm algo de humoristas. Há algo satírico tanto no som como no visual desses caras. 
    O vocalista parece o Marinho Chagas. Com uma camiseta do Cheap Trick. Nós, inclusive vamos parabenizar esses heróis pela coragem e competência. Divertiram dois caras que não riem de qualquer coisa. Depois de três shows em que a temática dos artistas era muito mais política, detonando políticos escrotos e pastores picaretas, salientando que insegurança alimentar é um apelido fofo pra fome, que atinge metade desse país medonho, finalmente entendemos porque essa banda foi escalada pra encerrar o rolê. Afinal é uma festa junina e é preciso que haja alegria.” 
    Mila Cox: “Vocês apontavam pros caras e davam risada! Com a idade que você tem, já deveria ter aprendido a manifestar com mais clareza o que pensa!” 
    Ela olhava para Zími e aparentemente ignorava a presença de Magrão. Só o conhecia pela internet e não tinha intimidade, mas para o caso de a carapuça servir, então estava dito. 
    Zími falou: “Quando um cara sobe ao palco e vê que causou reação à plateia, qualquer que seja essa reação, é algo mais satisfatório que a indiferença. Quando as pessoas saem para buscar cerveja no meio do show, aí sim o artista tem que reavaliar seu trabalho. Eu não sou um daddy rock que ouve clássicos do rock e fica falando que no passado a música era melhor. Autenticidade é tudo, e caso você consiga fazer algo novo, esteja preparada pra ser imitada e copiada. Há o lado revoltante, e há também um reconhecimento pelo trabalho.” 
    Acabou naquele momento o show dos Silvícolas, então Mila Cox, Zími e Magrão silenciaram por um tempo curto para olhar a festa que faziam entre eles pela sensação de missão cumprida. 
    Eles levaram garotas e amigos, que pareciam ter saído de 1988, pouco antes dos posers dos anos oitenta serem varridos da cena. Zími se perguntava onde aquelas pessoas andavam em dias comuns da vida cotidiana. 
    Também havia hipsters no meio do público, possivelmente por conta da publicidade feita por Mila Cox. Em shows dos Crop Circles sempre havia hipsters. 
    Pessoas se dispersaram e grupos se desfizeram com o encerramento do último show e Zími logo sugeriu a Cox que procurassem Silvano para irem embora. 
    Silvano e os Crop Circles tocaram no dia anterior, em outra festa junina, na Casa Verde. 
    Zími sempre se dizia estafado quando tocavam em dois dias seguidos, e mal podia esperar para deitar no banco traseiro da kombi de Silvano, e acordar na garagem do prédio em que moram, no centro de São Paulo. 
    Magrão não tinha esperança de que sua proximidade com Mila Cox passasse de coincidências na agenda de shows ou eventuais conversas na internet. Mas ele sabia que ela estaria policiando sua conduta até mesmo em seus sonhos.  
    E isso aconteceria por desejo dele. Aderir a uma cartilha que se não fosse seguida, o faria temer pelo repúdio de gente coerente. 
  • A primeira ação quando a quarentena acabar será...

    As vezes o pensamento flutua em retrospectiva, olho para trás e questiono minha caminhada até aqui. Estou beirando os quarenta, alguns sonhos, poucas oportunidades mas firme, desistir jamais! A vida era normal regada de esperança por dias melhores.

    Inimaginável colapso, mundo às avessas, sofrimento e agonia. Uma pandemia fortuita trazendo destruição. Sendo emergentes o óbvio, governança pífia, brecha para espoliação de verbas e desrespeito, pois há sempre incrédulos não querendo entender a real complexidade. Em meio a reveses como sonhar? Tendo esposa, filha, a missão seria garantir renda e orar por luz no fim do túnel. A trajetória não se mostrava fácil, isolamento, reaprender a conviver, trabalhar enfim inúmeros detalhes.

    Sou do Rio de Janeiro, cidade maravilhosa, estado praticamente falido, décadas de corrupção, violência urbana expandindo e as chances menores. O tempo passava, não me iludi achando ser imediata a resolução. Diferente de outros estimando um, talvez dois meses para voltar ao normal. Imaginava no encerrar da quarentena o que faria ? Qual a prioridade ? Para muitos curtir aquela noitada, boteco, temos os viajantes, cinéfilos, etc. No entanto a meu ver projetar o simples bastaria.

    O recorde negativo país a fora seguia avassalador. Mais uma vez os cariocas eram destaque. Parte da população ignorava a doença sendo alheia as medidas protetivas e indignava aqueles buscando agir corretamente. Acreditei estar fazendo papel de bobo cumprindo a reclusão, mas buscava ter equilíbrio emocional para disseminar bons fluídos. Pensava nos entes queridos, estar longe simbolizava cuidado, respeito e acima de tudo amor.

    Todos os dias quando colocava minha filha para dormir sem hipocrisia rezava agradecido. Uma menina saudável, linda e forte. Por ter dois anos, ainda não estudar e conviver socialmente facilitou alguns pontos. Lembram da retrospectiva ? Valeu a pena estar aqui nesse exato momento! Deus vem sendo generoso proporcionando estar empregado para garantir o conforto da família. Não posso reclamar e me fazer de infeliz, seria injusto. Os sonhos vão retornando gradativamente e na hora certa se tiverem que acontecer estarei pronto. Até lá, sigo trabalhando firme. Ah! Faltou dizer, após a quarentena desejo levar minha filhota em um lugar para correr bastante! A garota adora! Ser pai trouxe outro sonho vê-la crescer.

    Estou ciente das adversidades, turbulências e desafios pós pandemia. Mas estamos vivos e ainda há tempo. Muito obrigado SENHOR por essa vida! E benção para todos vocês.

    LUTE E NÃO DESISTA!

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