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  • A união do complexo medo atraente

    Penetrara no karma atual da moderna sociedade virtual em que nasceu, cresceu e ainda vive, mergulhado numa atmosfera de medos e complexos que lhe foi imposto por uma sociedade de valores hipócritas e sentimentos ilusórios. Essa triste “realidade” que até então vivenciava, teve sua extrema abrangência com o poder que lhe foi outorgado através da internet e seus recursos digitais. Passara em muito pouco tempo de um simples telespectador para um aspirante astro internauta autodidata.

    Através da internet e suas redes sociais, como um cyberpunk moderno, percebeu que a espada encantada cravada na grande pedra, não pertencia somente ao lendário e valente Rei Arthur e seus cavaleiros da távola-redonda, como era antes o caso monopolista da grande mídia. Agora sabia que também ele obtivera o direito de possuir sua própria espada mágica, e, foi encantado e possuído por ela.

    No início não podia prever as consequências de tal poder. Tudo era maravilhosamente maravilhoso. Estava perplexo diante dos inúmeros portais mágicos que lhe fora aberto por esses dispositivos radiativamente encantados, onde tudo começou com o poder telepático de enviar e receber nossos pensamentos, desejos e sentimentos nos virtualizando em palavras, falas e imagens. Abrangendo nossas perspectivas limitadas, além dos nossos vínculos sociais mais próximos, alcançando o desconhecido em milésimos de segundos, entre os milhares quilômetros de distâncias. Até o Mago Merlim se aqui entre nós, nesse momento, estivesse, ficaria impressionado com tamanho poder e proeza outorgado a todos.

    Porém, a espada de Arthur continha dois gumes e cortava dos dois lados.

    Percebeu-se ainda, que, não tarde, o poder que lhe foi ofertado pelos deuses tecnológicos exigia de nós sabedoria para possuí-lo. Essa poderosa espada mágica Kaledvouc’h como se outrora pensava, estava inacessível ao grande público há tanto tempo, encrustada na grande pedra, pelo nobre motivo daquele a quem seria o seu possuidor, ter que passar por ensinamentos de vida rigorosos, pelo qual o seu espírito e o seu coração fossem meticulosamente testados. Só assim, teriam a primazia de obter a força dos deuses para puxar a espada da grande pedra. Essa sagrada espada é raramente denominada “Excalibur”, e é retirada por Arthur como símbolo milagroso de sua Nobreza e direito ao trono da Bretanha.

    Entretanto, agora se questionara: Será que todos possui esse direito e nobreza do Rei Arthur?

    Fomos preparados e disciplinados para empunhar tamanho poder?

    Virtualmente, se deparou com os muitos casos de jovens que por uma simples brincadeira nas redes sociais, acabaram causando dor e destruição a si mesmos e aos outros. Como foi o caso da menina russa de 17 anos que morava nos Estados Unidos, que filmou um ato de estrupo em um aplicativo de postagens de vídeos, com duração de nove minutos, só para obter likes. Intentara que naquele momento durante a filmagem, a jovem poderia usar o seu dispositivo para pedir ajuda ligando para polícia, ou um adulto responsável, também notara, que as pessoas que estavam assistindo o vídeo online, em vez de dar likes, poderiam aconselhá-la para impedir aquele ato brutal. Que alcançou milhares de visualizações.

    Daí, meditara, que o poder sem a responsabilidade é cegamente egoísta e brutal.

    Entretanto, dualisticamente, não esquecia ele, que Excalibur é uma espada pontuda afiada de dois gumes que corta, penetra e dilacera. Podendo afastar as pessoas, ou uni-las. Mas, nesse bidimensional mundo de algoritmos binários computacional e ilusório, afirmava ele somente conhecer causas e efeitos mecânicos, e nunca as Sagradas Leis Naturais em si mesmas. Por isso, que ao unir as pessoas, afastava a solidariedade entre elas, em que camuflado e protegido em sua privacidade, por detrás das telas negras caleidoscópicas brilhantes, o indivíduo se julgava ir além do respeito e dos sentimentos fraternos, soltando sua naja língua pensante, em seus rápidos dígitos dedos, envenenada nos seus mais mesquinhos sentimentos obscuros de inveja, cacoetes, ego e porcas maldades. Que no mundo fenomenal das aparências, só percebia bidimensionalmente ângulos e superfícies, e nunca o integral das coisas.

    Obviamente, ele sabia que a dialética da consciência da proximidade física dos corpos pensantes, que tudo entende por intuição, através das palavras audíveis, figuras simbólicas, gestos, movimentos, olhares e expressões voluntárias e involuntárias fora cruelmente ofuscada pela dialética racional do intelecto presente nas redes sócias, fóruns e plataformas proprietárias de mensagens instantâneas baseadas em nuvem, que nada tem de essência natural humana, e sim, apenas o ilusórico poder formulativo de ideias e conceitos lógicos preconcebidos, que por mais brilhante que seja, e por mais que se julgue de qualidade e de utilidade nos inúmeros aspectos da vida prática e cotidiana, nada tem de valor para existência e ecologia humana, resultando apenas em obstáculos subjetivos, incoerentes, torpes e pesados para nossa simbiose como seres fraternais coletivos, e que nada tem de verdade.

    No fim, diante da verdade, percebeu-se sendo o pobre poderoso, precisando de alento (likes, em legais polegares opositores), precisando de algo que o anime (coraçãozinhos vermelhos, e rostos redondos sorridentes amarelados), sentiu-se com o ego demasiadamente forte e personalidade terrivelmente débil, por sua própria mesquinha natureza apodrecida em si mesmo, encontrando-se numa situação completamente desastrosa, e sem vantagens, em que o sono lhe foi roubado, a ansiedade descontrolava as batidas do seu coração, e a vaidade tomara o controle de sua alma, tendo a depressão como amante e companheira.

    E no seu estado deprimente, porém, contemplativo, sabia ele que nos primórdios da nossa existência como uma das muitas espécies que habita esse ecossistema terráqueo, éramos simplesmente um ser coabitando e interagindo com os outros inúmeros seres aqui existentes. Não víamos a natureza como esse belo quadro pintado a óleo ou aquarela, ou como as ‘pixeladas’ imagens digitais no fundo dos nossos desktops eletrônicos e dispositivos móveis. Não ansiávamos pela chegada do tempo limitado do fim de semana para passear com a família nos bosques e pradarias, e nem tão pouco esperávamos a chegada das férias para curtir os muitos lugares paradisíacos, ou nos aventurar em trilhas, escaladas e caminhadas nos ditos ambientes naturais e ecológicos. Essa coisa alheia que hoje denominamos “NATUREZA” era intimamente o único e o primeiro mundo vital e cultural que existíamos. Nossos antepassados não só viviam em contato íntimo com as outras criaturas vegetais, animais e inanimadas, como se comunicavam diretamente com os seus espíritos e coração. Daí que surgem as fabulosas histórias e contos de fadas, gnomos, duendes, devas, ninfas, curupiras, orixás, anjos, caboclos, entre outras inúmeras manifestações do que hoje classificamos como “espíritos inorgânicos da natureza” em diversas culturas humanas espalhadas pelo mundo.

    Por isso, ficou muito difícil para o seu entendimento humano separar a sua espiritualidade, cura e boa qualidade de vida da Mãe Natureza. E, entendeu o porquê dos diversos movimentos esotéricos, xamanísticos, taoístas, hinduístas, budistas, cabalistas, sufistas, gnósticos, wicca, candomblé, entre outros da busca da espiritualidade, como também os movimentos de cura, saúde mental, e medicina ancestral e alternativa se situarem em ambientes naturais abertos e ecológicos.

    Nisso, percebeu que ao longo do nosso rigoroso processo civilizatório, em que gradualmente nos separamos do nosso natural habitar, que o SAGRADO em nós foi naturalmente esquecido. Deixamos de ouvir as MENSAGENS DOS VENTOS, paramos de falar a LÍNGUA DAS ÁRVORES E MONTANHAS, abandonamos o afeto de SENTIR COM O CORAÇÃO, e os nossos olhos se cegaram para o MUNDO INVISÍVEL. E, para piorar mais ainda a sua situação, vira que como espécie se transformara no pior predador que já existiu em todos os tempos, ‘Satânico Aniquilador’ das muitas culturas existenciais em todos os aspectos da natureza, e, dele mesmo.

    Meditara ainda mais profundamente de que como espécie, nos tornamos existências humanas desencantadas, prisioneiras de nós mesmos em frente a uma tela Touch Screen de valores, e, de falsas concepções virtuais, mendigando uma irreal atenção em salva de palmas, likes e emotions de coraçãozinhos vermelhos, rostos redondos amarelados (caras de bolachas) e legais polegares opositores. Vira que as proximidades humanas se basearam em distantes conexões WI-FI, em que ignoramos cruelmente os nossos presentes íntimos entes queridos a nossa volta, em ser um direto participante na criação do Aqui e Agora, para nos tornar um observador e um observado distante do passado alienado dos desejos, anseios, críticas e felicidades do desconhecido “amigo” internauta. Preferimos viver solitários com políticas de privacidade essa virtual ruptura do contato natural, nos separando plenamente do sentido existencial da vivência humana, e minimizando a nossa consciência social, afetiva e emocional ao estado simplista do observador e do observado, e de que a tecnologia não promove e nunca promoverá, assim, como, as propostas da comunidade científica, uma fusão harmoniosa com a existência humana e a natureza. Sua meta desde a revolução industrial é unicamente modificar. Acreditando melhorar, otimizar, maximizar, implantar, oportunizar e assegurar um conceito evolucionário de humanidade ciberneticamente supranatural, onde poderíamos viver sem depender dos recursos naturais e afetos sociais para nossa existência. Para assim, em vez de (como eles acreditam) subsistirmos, ‘sobre-existirmos’ na lua, em Marte, ou em uma cosmológica galáxia distante como prega e aliena a NASA e Hollywood.

    Sentira que perdera a simplicidade da vida e o seu primeiro amor, e se tornara um ser imediatista, arrogante, conformista, impaciente, tempestuoso, depressivo e penoso. Ignorava suas crianças, e assim, fazia com que elas o ignorassem, transformando-as no subproduto mesquinho dele mesmo. Nisso, vira que ignoramos os nossos semelhantes como nunca antes já vivenciado no mundo, em todos os tempos de nossa comunal existência, ofertando para os nossos irmãos e irmãs o que tem de pior em nós mesmos. E, dessa forma e maneira, acumulamos dores e sofrimentos para o nosso último sopro de vida, e assim, morremos existencialmente porque matamos nossa essência dentro dos nossos filhos e filhas, chegando a tal ponto de não mais nos perpetuarmos nos novos corpos.

    Percebera que a verdadeira expressão para o mundo tecnológico de hoje é ABSOLUTA TRISTEZA. E isso dói na alma… adoecemos! E o pior é de que não sabemos que estamos existindo enfermos. Acumulamos muitos bens do Aqui e pouca coisa do Agora, e a Magia da Alegria abandonou a Morada do Coração, e o Sagrado Entendimento que em tudo dança se ocultou. Então, eis a questão e desafio existencial da nossa cultura humana: ATÉ QUANDO FICAREMOS CALADOS E INERTES, TRANSMITINDO PARA AS GERAÇÕES FUTURAS ESSA GRANDE DEPRESSÃO EXISTENCIAL, PELO QUAL NOS CONVERTEMOS NO TIRANO PROBLEMÁTICO DESTRUIDOR DA BELEZA DE TODAS AS COISAS? Entretanto, quem se movimentará e falará com loucura e paixão para o despertar da grande massa? Quem será esse novo Meshiach e Avatar? Mas, enquanto ELE ou ELA não chegar ficaremos inertes, atrofiando nossa mente e coração nas telas e internet? Imbuído nessas íntimas e totalitárias questões, analisara que os desafios para o retorno do SAGRADO em nossas vidas são tremendamente numerosos.

    E, contemplando todo aquele panorama, se viu com sua poderosa espada na palma de sua mão, a mágica Kaledvouc’h, o espelho negro. E como um pedaço de madeira arrastado pelo rio, tentando resolver as coisas por sua própria conta, reagindo ante qualquer dura palavra, qualquer problema e qualquer dificuldade, lamentavelmente, o medo empoderou o seu ser, fabricando nos cinco cilindros da máquina orgânica, em que lhe compunha e que o seu SER habitara, os inumeráveis multifacetados eus-demônios, aplicativos escravos de si mesmo.

  • A verdade está onde nunca a procuramos — Crônicas do Parque

    Era uma daquelas manhãs escaldantes com temperaturas que variavam de trinta e cinco a trinta e oito graus célsius, com sensação de quarenta a quarenta cinco no centro-norte de Israel. Como de costume me encontrava todos os Yom Sheni (segunda-feira) no parque de Kfar Saba, fazendo manutenção nas piscinas ecológicas.

    Pegava meu bastão de rede, uma caixa plástica preta dessas de armazenar verduras em supermercados, e um balde vazio de comida de peixes ornamentais. Entrava na piscina e submergia até os joelhos no primeiro terraço em que ficava as Nymphoides, espécies do gênero das plantas aquáticas que crescem enraizados no fundo com as folhas a flutuar à superfície da água, de cores brancas, amarelas e variadas tonalidades de flores rosa, da família Nymphaeaceae.

    Prendia meu smartphone pela sua capa ao cordão que ficava no meu pescoço, em que segurava ao peito um Magen David (Estrela de Davi) com um rosto de leão no centro, e colocava uma música suave para iniciar o meu trabalho de cuidar dos nenúfares.

    Em especial, aquela era a piscina ecológica que eu mais gostava dentre todas outras que dava manutenção no centro-norte. Pois além de ser a maior dessa região, estava em um parque bonito e tranquilo arrodeado de belas esculturas. Essa piscina era especial, pois era a única de todas que tinha uma original carpa cinza gigante, espécie de peixe de água doce originário da China, e também havia um canteiro com Lotus Branco (Nelumbo Nucifera), um género de plantas aquáticas pertencente à família Nelumbonaceae da ordem Proteales, e também era lotada de peixes Koi (Nishikigoi), tendo o Higoi (carpa vermelha), o Asagui (carpa azul e vermelha) e o Bekko (branca e preta), que são carpas ornamentais coloridas ou estampadas que surgiram por mutação genética espontânea das carpas comuns (carpas cinza) na região de Niigata no Japão, tendo também outras inúmeras variedades de peixes ornamentais como: peixes dourados, peixes barrigudinho (Guppy) de diversas cores, aruanãs, entre muitos outros.

    Nesse dia em especial, me senti constantemente sendo observado por um senhor de chapéu azul e cabelos grisalhos que aparentava ter a idade de oitenta anos. Estava bem vestido e mantinha sempre um sorriso no rosto. Ele se encontrava sentado em um banco largo que ficava próximo a piscina. E lentamente eu me aproximava dele ao curso do meu oficio de retirar as folhas amareladas dos nenúfares. E ao me aproximar daquela figura atraente, eu o cumprimentei com um Boker Tov (Bom Dia), e ele me respondeu com um Boker Or (Manhã de Luz). Assim trocamos sorrisos, e me voltei novamente para o meu ofício matinal.

    Quando o balde em que colocava as folhas amareladas e flores mortas dos nenúfares se encontrou cheio, me retirei da piscina para esvazia-lo, o despejando na caixa plástica preta que estava perto do banco em que o senhor de chapéu azul se encontrava sentado. E ao me retirar para regressar a piscina, ele elevou a sua doce voz anciã, perguntando-me:

    _ Atah Rotze coz cafeh (Você aceita um copo de café)?

    Então, de imediato lhe respondi:

    _ Ken, efshar (sim, aceito).

    Então, ele retirou de uma sacola de pano um bojão de gás pequeno e enroscou uma pequena boca de fogo nele, acoplando. Colocou o aparato ao solo, e retirou da sacola uma garrafa pet de coca-cola com água, uma pequena chaleira e dois copos de aço inoxidável. E, enquanto ele despejava a água no recipiente e ascendia o fogo com um isqueiro para ferventar, fez um sinal com as mãos para eu me sentar ao seu lado.

    Enquanto a água estava para ferver, nos apresentamos e ele me fazia inúmeras perguntas sobre mim e meu oficio. Perguntas comuns que eu já estava calejado em responder. E depois que ele preparou o café, comecei também a interroga-lo. Para minha surpresa descobri que ele não era judeu, mas árabe. Sendo que falava um bom hebraico sem sotaque e se vestia elegantemente, como um velho Ashkenazi. Além dele ter olhos de uma cor azul claros como o céu que estava sobre nossas cabeças. (…Nós, e nossos pré-julgamentos…).

    Ele me falou que viveu muito anos na Espanha, sendo um mestre sacerdote de Sufi gari (Tasawwuf), uma arte mística e contemplativa do Islão, assim como é a Kabbalah para os judeus. Ele viu o Magen David em meu peito, e disse que era bonito esse símbolo com um rosto do leão no centro. Também, me falou que esse símbolo em que os judeus se apropriaram o colocando em sua bandeira, é de muita importância para o Tasawwuf (Sufismo). E me revelou segredos importantes sobre o significado desse símbolo.

    Conversamos sobre muitas coisas, e eu o interrogava mais e mais, pois vi que esse senhor era muito sábio e ciente de tudo que falava. Ele me revelou coisas sobre a conduta do corpo, como postura e fala. Falou-me sobre pensamentos, músicas e danças místicas, e, sobre alimentação e jejuns para se ter uma vida espiritual equilibrada com o corpo físico. Nesse assunto, eu perguntei a ele porque não se deve comer carne de porco. Até porque eu já tinha perguntado a muitos rabinos e religiosos judeus o porquê de não comer a carne desse animal, e muitos não sabiam me responder ao certo. E os que respondiam, falavam que estava escrito nos Livros da Lei, a Torah, mas não sabiam perfeitamente o porquê.

    Diante da minha pergunta, ele sorriu e me disse algo em que fiquei atônito. Contava ele que os porcos eram seres humanos amaldiçoados, por levar uma vida sexual pervertida na sua última encarnação. Ele me disse que por isso dentre todos os animais o porco era o mais inteligente, e, que seus órgãos internos como fígado, rins e coração são muito parecidos com os nossos, pois na verdade era um ser humano que encarnou nessa condição com a total consciência de sua vida passada, mas que devido ao fato de estar em um corpo animal atrofiado não podia se comunicar para se revelar como tal. Nasceu nessa condição devido a decadência espiritual de sua vida anterior como ser humano, ao se entregar aos prazeres sexuais nojentos e tenebrosos, por isso esse animal pode levar até trinta minutos tendo orgasmos. E assim, veio nessa condição para viver em sua podridão, ao comer seu alimento e dormir misturado as suas fezes, mesmo tendo a inteligência de defecar em um mesmo lugar, são condicionados pelos seus criadores (seres-humanos) a viver junto ao seu excremento. Também, ele me falou que o porco não tem a capacidade de olhar para cima, não podendo ver o céu, e sua pele não pode ser exposta a luz solar por muito tempo, pois não consegue transpirar, e pela falta de umidade decorrente do suor pode sofrer fortes queimaduras. Nasceu para olhar para baixo e se esconder da luz, sendo forçado por essa natureza a viver na lama. Ele também me disse, que o porco é o animal mais amaldiçoado do que a serpente, pois os porcos são invulneráveis às suas picadas venenosas. E concluiu:

    _ É por isso que não se deve consumir a carne desse animal, pôr na verdade ser um ser-humano totalmente consciente em forma atrofiada. _ e, acrescentou me revelando algo_ Você sabia que não a diferença de gosto entre carne humana da carne suína… ambas possuem a mesma textura e sabor.

    Uau! Diante desses fatos que me foram apresentados por esse velho sacerdote Sufi, eu fiquei estupefato. E, entendi o porquê de George Orwell escolher os porcos para serem os protagonistas da revolução em seu romance satírico (Animal Farm — A Revolução dos Bichos). Provavelmente, ele sabia desse conhecimento do Tasawwuf. E isso me fez pensar, o quanto os antigos sabem do que não sabemos. Essas são respostas que não podemos encontrar no oráculo Google. Respostas de um velho de oitenta e poucos anos sentando em um banco de parque.

    O velho me vendo atônito, colocou seus aparatos de café na sua sacola, levantou-se, despediu-se e saiu sem mais nada a dizer.

    E lá no banco do parque de Kfar Saba fiquei com a mão no queixo, vendo os peixes e as nymphaeas. Tão Ignorado em minha ignorante aquariofilia.
  • A Vida de Outrem

    Na aquiescência do olhar lúbrico,
    Estão os que muito observam
    Em sua grande vontade de estarem
    Sendo vistos, apercebidos do real valor
    De sua presença, sua imagem única de muitas.

    — Ser a única!

    Falar pelo que se expressa na tangibilidade,
    É um denodo raro. Preservar humildemente
    O ato que de melhor pode fazê-lo, sublime,
    Mais admirável, pois não se esquece fácil
    O que se procura diariamente.

    — E é a única coisa que queremos.

    Quem está em não estar,
    Quem diz pela vida de outrem,
    Que não a sua mesma!
    Quem diz pela sua vida,
    Que não a de outrem!
  • A visita da morte

    Acabei de acordar, desculpe. Não percebi que você estava aí. Afinal de contas?  Como entrou em minha casa? Há, a porta estava aberta! Mas isso não é motivo para ir entrando na residência dos outros. Isso é uma grande falta de respeito. Eu duvido que o senhor fosse gostar se alguém adentrasse à sua morada assim sem mais nem menos. Saiba o senhor do susto que tomei. Ouça! Meu coração está disparado! Também pudera, nem o mais jovem dos homens suportaria tamanho susto.
    Se já está aqui... O senhor deseja alguma coisa? Um lanche? Um café? Bem, me lembrei, não poderei lhe servir nada. Como pode perceber a minha casinha é bem pobre e humilde. Veja estas paredes, tão pretas e sujas por causa do mofo. E esses móveis? Velhos, mas que ainda servem para alguma coisa. Faço as minhas refeições aqui, nessa mesa. É. Infelizmente não como faz dias. A última vez que mastiguei algo foi há três ou quatro dias, um pedaço de pão, velho e duro. Tão duro que meu dente caiu. Mas enfim, o que senhor veio fazer aqui?
    Veio me buscar? Mas como assim, me explique, por gentileza? O senhor é a morte! Eu não sabia que a morte tivesse um rosto? Mas o que eu fiz de errado para o senhor vir até mim? Sofri muito na vida! Passei fome! Perdi meus pais quando era apenas um menino que vestia calças curtas e camisa de lã. Você deseja acabar com o meu sofrimento? Não sabia que a morte era assim, tão apressada. Posso ser pobre, mas estou cheio de saúde.
    Como assim a minha saúde vai mal? Sinto fortes dores no peito, mas isso não deve ser nada. Provavelmente é devido ao esforço que tenho feito ao carregar aquelas caixas de maçã lá na feira. Eles pagam pouco pelo serviço, e na minha situação qualquer trocado é bem vindo, pena que não dá nem pra comprar um mísero pãozinho. Em vez de me levar embora, bem que o senhor poderia me dar um pouco de pão e água.
    Para onde o senhor quer me levar tem comida a vontade? Sério? E lá eu não vou passar fome? Há deve estar de brincadeira comigo?! Está falando sério? Bem, se vai ser melhor pra mim, se não vou mais passar fome e frio. Ok! Se for bom pra mim eu aceito.
    Quando vamos? Agora! Mas espere, preciso arrumar as minhas coisas, avisar os poucos que ainda restaram da minha família. Como assim não precisa? Quem é que vai contar a eles da minha partida? Tudo bem, eu entendo. Vamos então!
    Nossa! Aqui é calmo demais, tudo muito quieto por sinal. Na Terra eu me acostumei com os barulhos do dia a dia, as buzinas dos carros, as sirenes das ambulâncias, os gritos dos desesperados, e as rodinhas dos jovens. Mas nesse lugar tudo é tão calmo, sem graça. Perdoe-me, mas a vida nesse lugar deve ser entediante.
    Há tá legal, eu vou me acostumar com o tempo, com o passar dos dias tudo vai ser diferente. Olha lá, eu vou confiar no senhor.
    O senhor já vai embora? Fique mais um pouco, precisamos conversar. Quem é que vai me ensinar sobre a vida aqui no outro lado? Entendi. Vou aprender sozinho, porque tudo na vida é questão de aprendizado, inclusive na morte.
  • Acontece

    Nasci uma centelha divina
    Não tenho culpa se, às vezes, a vida estragou
    Como ela estragou, também estraguei, já emendei
    Nisso, a culpa foi minha.


    Poema do meu primeiro livro de poesias, Átomo, lançado em dezembro de 2018, com prefácio de Rafael Cortez e apresentação de Thomas Pescarini e disponível em formato físico e ebook na Amazon.
  • Acredite em você

    Acredite em você, você tem um potencial incrível, capaz de mudar toda sua realidade, e das pessoas a sua volta, sim você tem todo esse poder, muitas vez por medo ou insegurança não sabe como usar, ou medo de tudo da errado, porém quando saimos da zona de conforto tudo se torna possível, temos um mundo gigante em oportunidades a nossa espera !
  • Afrodite

    Sensualíssima

    Tecido e corpo

    Quero sentir o sabor

    Que o seu tecido esconde.


    Poema do meu primeiro livro de poesias, Átomo, lançado em dezembro de 2018, com prefácio de Rafael Cortez e apresentação de Thomas Pescarini e disponível em formato físico e ebook na Amazon.
  • Airbnb

    O lugar onde você dorme quando viaja sempre é um lugar que causa sentimentos antagônicos. Em parte traz sensações boas, principalmente pela excitação da viagem, mas também por causa da animação de explorar o novo. Pela outra parte, porém, é um lugar desconhecido que traz o desconforto pelo simples fato de não ter a sua cama e nem o seu banheiro.
    Quando se viaja a lazer, você já vai preparado para o último e, se tudo sair como planejado, só o primeiro prevalece. Para escapar da rotina do trabalho, ele tentava viajar sempre que podia mesmo que fosse para uma cidade próxima. Isso geralmente acontecia a cada duas semanas logo após receber o seu pagamento quinzenal. Mas dessa vez ele tinha recebido uma parcela do 13º salário, então decidiu ser mais ousado e ir mais longe. O quarto que ele alugou era pequeno, mas muito bem localizado, tinha ar-condicionado e uma vista estupefante bem de frente para um mar azul sem fim com um pequeno píer onde os pescadores atracavam seus barcos.
    O dia dele tinha sido incrivelmente relaxante. O tempo estava um pouco frio o que tornava perfeito ficar na varanda lendo um livro enquanto o sol fraco aquecia levemente a sua pele. Depois de almoçar e tirar uma soneca, caminhou um pouco na praia, ouviu um pouco de música e contemplou um pouco o mar já que estava frio demais para entrar na água. Quando voltou para o airbnb, decidiu pedir uma pizza de jantar e assistir a um filme. Cerca de dez minutos depois do entregador chegar, começou a cair uma forte tempestade com raios, relâmpagos e poderosos trovões. Quando ninguém mais era esperado, o interfone toca. Ele deixa dar três toques, esperando que a pessoa perceba que é engano e cancele. Mas, como não parou, ele atendeu.
    – A-alô – a voz trêmula, mas macia, de uma mulher começou a falar – me, me ajuda. N-não tenho para onde ir, tô-tô com frio! Me aj-ajuda!
    Ele não sabia o que fazer na hora já que não esperava, nem nos cantos mais imaginativos da sua mente, que fosse ouvir isso. A sua cabeça começou a trabalhar com velocidade já que precisava tomar uma decisão importante em segundos. Seria um golpe, um assaltante, um sequestro? Ou só seria alguém desesperado implorando por abrigo? Medo ou empatia, qual caminho seguir?
    – Te-tem alguém aí? POR FAVOR! – insistiu a voz com a demora de uma resposta.
    – Desculpe, não posso! – disse ele rápido e secamente, desligando o interfone enquanto os seus olhos marejados torciam para que não fosse só uma mulher com frio.
    Ele ainda ficou alguns minutos em pé encarando o interfone, só respirando. A sua mente não parava de alternar entre o desejo de que o interfone tocasse novamente para mudar a decisão e de que nunca mais tocasse. Silêncio. Era só o que tinha. Silêncio. Depois de alguns minutos, a sua perna permitiu que ele saísse da frente do interfone e fosse beber uma água. Ele decidiu assistir (ela está com frio) um pouco de TV (ela pode morrer) para ver se distraía (a culpa é minha) a sua mente, mas (sozinha, encolhida, sofrendo) era simplesmente impossível (era só apertar dois botões para dar um abrigo a ela). Como não adiantava, decidiu desligar tudo, fechar todas as cortinas e tentar dormir.
    O sono demorou a vir, mas quando veio parecia que o nocauteou. Ele estava dormindo de bruços quando foi acordado por um barulho. No início ele não conseguiu identificar o que era, mas ao ouvir novamente percebeu que era como um soluço de bebê que está prestes a iniciar um grande e interminável choro. Ele tenta se levantar, mas não consegue. A sua respiração fica pesada como se tivesse um peso em seu peito. Ele começa a ouvir o engatinhar de uma criança. Vai ficando cada vez mais rápido. Acelerando. Lágrimas começam a rolar pelo seu rosto involuntariamente. O som vai ficando cada vez mais próximo até que uma mãozinha pequena e gelada agarra o seu pulso, o queimando como ácido com o seu toque. O máximo de movimento que ele pôde fazer foi fechar o seu punho para tentar conter a dor, mesmo isso sendo impossível. 
    O seu pulso ainda ardia quando sentiu a pequena mão largá-lo. O seu alívio, porém, não durou tempo o suficiente. Ainda estava paralisado quando percebeu que pequenas gotas vermelhas estavam surgindo no seu lençol. Elas foram encharcando tudo até transformar o branco em vermelho. As pequenas poças que começaram a se formar confirmaram o seu temor: sangue. As poças foram ficando maiores e maiores até que alcançaram a sua boca. Ele lutava para deixá-la fechada, mas de alguma maneira o sangue entrava e ele sentia o seu gosto ferroso. Uma voz áspera de mulher começou a surgir no quarto e ficava repetindo “O que você mais ama na vida?”. Ele não sabia, não conseguia raciocinar, só queria que o sangue parasse de subir. Mas não parava e já estava atingindo uma de suas narinas, fazendo com que, cada vez que respirasse, um pouco de sangue o afogasse, a tosse se manifestasse e mais sangue entrasse em sua boca. O nojo e o desespero dominavam a sua mente e os seus pensamentos. “O que você mais ama na vida? O que você mais ama na vida? O que você mais ama na vida?”.
    — Viagens, viagens – ele conseguiu gritar cuspindo parte do sangue que estava em sua boca.
    — Agora – começou a responder a voz feminina sem demonstrar nenhum sentimento – o único jeito de você sair vivo será deixando a parte que você mais ama aqui. Nunca mais poderá viajar e, se fizer, morrerá. Aceite o acordo ou morra agora.
    Ele demorou um pouco para responder. Na hora só conseguia lembrar de uma cena de Piratas do Caribe quando Davy Jones pergunta a um tripulante se teme a morte. Sim, ele temia. Sempre temeu desde o momento em que descobriu que ela existia. Então, mesmo com a sensação de que o seu coração estava sendo esmagado por um punho furioso, ele disse “aceito” e, através dos olhos cabisbaixos e marejados, dava para ver que ele temia ter tomado a decisão errada. Depois dessas palavras ele apagou e acordou em sua casa no dia seguinte.
    Assim que abriu os olhos, demorou um longo tempo para processar tudo o que aconteceu. Duvidava se era realidade ou não. Duvidava do que lembrava e do que não lembrava. E, principalmente, duvidava do acordo, mas tinha medo de quebrá-lo. Então, com o medo vencendo a tristeza, decidiu não viajar mais.
    Os dias se tornaram longos e os finais de semana mais ainda. Trabalhava sem propósito, saía sem propósito e ficava em casa sem propósito. Tudo parecia horrível e ele se sentia horrível. Nada mais era bom, tudo era uma merda. Ele se sentia uma merda. Nada que ele fazia parecia certo e seus pensamentos sempre pareciam chatos.  Ele chorava sem motivo porque não parecia ter um motivo para ter vida. Até que um dia, no meio do trabalho, pensou “que se dane”. Saiu, pegou o carro e começou a dirigir.
    Ele pensou que teria um ataque cardíaco ou algo parecido assim que atravessasse a fronteira, mas nada aconteceu. Um pensamento, entretanto, surgiu em sua cabeça como se não fosse dele “assim que você pisar em terra”. Por isso decidiu rodar o máximo possível com a gasolina que tinha. Finalmente, depois de semanas, um sorriso estava surgindo em seu rosto ao ver as paisagens e sentir o vento atingir os seus cabelos.
    Quando chegou na cidade em que todo o seu pesadelo se iniciou, percebeu que tinha dirigido para lá sem se dar conta. Ele foi até a praia onde tinha o píer que via de sua janela e um velho pensamento ressurgiu na sua cabeça: “Você teme a morte?”.
    – Não, a vida – respondeu sussurrando para si mesmo enquanto acelerava em direção ao píer.
    Assim que o carro se chocou contra o mar, a água salgada e gelada começou a inundar o carro. Não havia mais o que fazer, a morte era uma questão de tempo. A luz já não chegava mais onde estava, e o frio começou a se espalhar por todo o seu corpo trêmulo. Ele estava triste por morrer e feliz por estar livre, por isso não dava para definir que tipo de lágrimas saíam dos seus olhos. Quando a água já atingia a sua cabeça, quase a cobrindo, a voz do interfone começou a tocar no rádio em looping “ tô-tô com frio! Me aj-ajuda!”.
  • Alegoria dos Sentidos

    Ao crepúsculo da escuridão 
    Serpentes peroladas vagueiam entre a relva  
    Corvos atravessam silenciosamente o firmamento estrelado  

    Gravita no ar uma seriedade inquisitorial e misteriosa.

    Nessa obscuridade da entropia célere da luz 
    Emergem florestas de heras na alma de um Ser espectador  

    Este mesmo que ouve, sente, tateia e interpreta.

    E sob torpor deste véu difuso 
    Desvanece o tangível, permanece o irreal... 
    Apenas mais uma distorção longínqua, inalcançável e subversiva  
    Uma visão ampliada da parca harmonia 
    Que, aos poucos,  
    Como envenenamento por doses homeopáticas 
    Permeia a percepção do fantástico e do possível 
    Dissolvendo ou realçando as fábulas de infernos e paraísos. 

    Mas qual é a visão, afinal?   
    A obscuridade? O jogo de espelhos com animais sombrios?  
    A magia trágica da paisagem? Ou a parábola destes versos decadentes? 

    Ora, essa é apenas a duplicação boçal da realidade  
    O portal que incita e reflete à dúvida,
    Sobrevive em sua íntima pluralidade selvagem.
  • ALIEN

     
    A beleza é só mais uma ilusão:
    outra forma de dominar o ser,
    encaNcerando-o numa prisão,
    ainda que pelo próprio prazer...




    © do Autor, IN: Concursos literários do Piauí. Teresina, Fundação Cultural do Piauí, 2005. 226 p. Página 177.



  • Amar É...

    Como as águas do mar,
               em balanço louco de vida,
    minhalma vai se encontrar
              na chegada da parte ida...

    Meu peito é mar revolto
    que se deixa navegar,
    que se prende por ser solto
    e que foge ao se espraiar...

    O amor é como o mar:
         nunca está perto nem distante,
    apenas vai sem voltar...
        ...e volta a todo instante...
     
     
     





  • Amor de verão?

    Malas prontas para a viagem de intercâmbio. Meia-noite, três pedrinhas contra a janela. Um abraço, vários beijos e os caninos no meu pescoço. Eu queria mudar de vida e agora consegui. Tenho tempo para fazer intercâmbio em todos os países do mundo com meu eterno namorado, literalmente.

  • Aniversario de um personagem

    sabe a maioridade poética que tanto buscam - eu já tive a tempos. por quê? - eu me pergunto - por quê a tecnologia estraga a inteligencia e a criatividade dos jovens escritores? - um texto cheio de dúvidas que até Foucault teria prazer em ler! - é só isso que tenho a mostrar - no centésimo poema autoral - que de original nada tem - existem pouquíssimas certezas neste vasto mundo - algumas das quais posso dizer agora (1) existe mais chances de você morrer atropelado por uma vaca do que ganhar na loteria - principalmente se você morar perto de uma - (2) ninguém nem mesmo seus heróis foram tão grandes assim - (3) seus pais fazem sexo - e não é só pra te ter e isso vale para seus avós, tios, irmãs, primos “isso se você já não estiver fazendo com nenhum deles”- (4) você não é especial, não importa o quanto fizeram você acreditar nisso - (ultima) se você me acompanha até aqui te garanto uma passagem pro inferno, mas pelo menos teve boas reflexões - ate a proxima
  • ANO NOVO

    Ano novo
    Mais um dia
    Foi o velho
    Noutro dia.

    Zero hora
    Um começa
    Outro termina
    Novo dia.

    Quem espera um ano inteiro
    Ansiedade apinha
    É melhor chorar agora
    Que sofrer por mais de um dia.
  • Antecedente da cicatrização

    Como quando a orelha inflama porque o brinco estava um pouco sujo; ou quando colamos o curativo adesivo que fixa na pele de modo a puxar todos os pelos na hora de sair.
    Mesmo sabendo que no fim iria doer, provoquei. Botei o brinco pra inflamar, colei o curativo pra fazer doer. Queria viver aquilo, nem se fosse por míseros segundos, minutos, horas, dias. Nem sei mais quanto tempo passei imersa naquela banheira de espumas.
    Corria cada vez mais só pra vê-la. Queria era socorro, socorro da própria situação. Socorro de mim mesma. Mas por mais rápido que eu o fizesse, não a alcançava. Dormia sem conseguir descansar. Não sabia como evitar, como não sentir. Era, humanamente, impossível fechar o peito para aquela que, outrora, me visitava com flores e com pele macia a me acariciar.
    Deitada sobre seu peito sentia que a perdia. Procurava sua mão. Meus dedos se entrelaçavam nos dela, mas os dela no meu. Ficava ali parada até o momento em que escorria pelo meu corpo. Indo embora sem dizer adeus.
    Enquanto eu souber que a ferida não será fechada por completo, vou levando. Empurrando com o resto de forças que sobrara do restante da minha alma, que jorrava água escura, afim de fugir do precipício que eu mesma criara.
  • Apesar de tudo, eu te amo

    Apesar de tudo que passamos, de todos os erros, eu ainda te amo.
    Você talvez não saiba disso, dos meus sentimentos, dos meus pensamentos e das minhas sensações. 
    Mesmo depois de tantas coisas, depois de te ver com um "relacionamento sério" com outra no facebook, de após o término eu está lá, ao seu lado, depois de te ver ficando com outra na minha frente, eu ainda estou aqui, por que eu te amo, e a única coisa que eu quero é te ver feliz, estar ao seu lado a todo momento, mesmo que você não me escolha pra ser sua namorada, eu vou estar aqui.
    Eu tento superar, juro que tento fazer esse sentimento sumir.
    Eu tento conhecer outras pessoas, eu tento sair e me relacionar com elas mas, no final, eu posso está com elas fisicamente, mas meus pensamentos sempre estarão em você. 
    Do que adianta eu tentar sair com outras pessoas que não são tão interessantes como você é para mim? e se no final eu sempre vou pensar "não é ele, não é a mesma sensação, não é o mesmo toque, não é o mesmo beijo, não é ele".
    Eu chego em casa devastada e sempre pensando em você, no teu beijo, pensando no que eu errei, no que eu podia ter feito para que o "nós" desse certo e se tornasse real, se eu deveria me entregar mais, demonstrar mais, te chamar pra sair mais vezes, conversar mais, te mandar algumas das minhas cantadas bobas que eu sei que você adora, ou dos meus memes e piadas sem graça.
    Eu só queria uma resposta pra minha incerteza, eu queria saber o que você sente, no que eu posso melhorar, no que eu errei.
    Talvez o erro não seja eu, mas eu não tenho certeza.
    Eu quero ficar aqui com você, te ajudar no que posso, tentar te segurar, fazer piadas só pra te ver sorrir.
    Eu só quero que você saiba que dentro de mim existe um sentimento vivo, eu vou está aqui mesmo depois de perceber que nós nunca vamos dá certo, mas no final eu sempre vou te amar.
    "Eu quero você sem garantia e com defeito pra nunca mais te devolver."
  • Aprisionados em nossos pensamentos

    Aprisionados em nossos próprios pensamentos de derrota mais profundos,não conseguimos nós soltar para coisas grandes alcançar
  • Aquelas Pessoas

    Pessoas
    Que usam pessoas
    Pra valer-se de algo

    Acreditam que são
    Se enxergam demais
    Sentem de menos

    Pessoas
    Que usam pessoas
    Como escudos de ganância
    Sabem dar ordens
    Para o que lhes convém

    Pessoas
    Que usam pessoas
    Padecem de bom senso
    E humildade
    Se já foi ou vai ser
    Tanto faz

    Pessoas
    Que usam pessoas
    Desconhecem o preço
    Que um dia hão de arcar
    Para pagar aquilo
    Que nem mesmo o seu dinheiro
    Pode comprar
  • Arroz com feijão [conto]

    Rafael estava com um problema com seus pais: eles descobriram que ele fumava maconha. O jovem vacilou com uma ponta no carro, e depois que sua mãe abriu o carregador de 12V para plugar o celular, e se deparou com aquele celofane do diabo, o garoto especial já não era tão especial assim. Na verdade era um problema. Aliás, vários problemas. “Quem pois aquela porcaria na boca dele?” “Será que ele está só nisso?” “Onde nós erramos?” Dr. Sampaio e a Sra. Sampaio estavam apavorados. Em estado de choque. A sujeira tinha chegado em casa. Era o primeiro sinal do fim dos tempos.
    Estava tudo abalado. Admiração. Confiança. Futuro. Quando eles chegaram em casa, colocaram aquela ponta na mesa da sala e olharam para Rafael, seu pai foi eloquente: “Não me venha com esse papo de é de um amigo.” “Você fumou isso no carro?” Foi o primeiro questionamento da chorosa Sra. Sampaio. Rafael estava sendo crucificado, e assim como Jesus parecia querer aquilo. Ele olhava para uma e para o outro com o desdém com que Pôncio Pilatos lavou as mãos. Como quem não tem nada para dizer.
    A postura era ultrajante. Inaceitável. “Também não é nenhuma novidade. Olha só para você.” “Depois que começou a faculdade você virou outra pessoa.” Era uma mistura de negação com raiva. “Você não tem nada para dizer?” Que tinha sido um erro. Que estava arrependido. Que não ia acontecer de novo. Que aquela droga maldita tinha pegado ele num momento de fraqueza e com a ajuda de Deus ele ia se livrar daquele terrível mau. Os dois topavam escutar qualquer coisa que soasse como um mea culpa. Assumir é sempre o primeiro passo.
    “Como assim não significa nada?” Significou muita coisa quando Césinha, o primo da Sra. Sampaio, foi preso com dezoito anos fumando maconha na praça. Foram cinco anos de cana. Nunca mais ele se recuperou. Significou muito para o Tio Joe, que começou assim e hoje é viciado em crack. “Que mané planta. Que outros tempos coisa nenhuma.” Vai pra cadeia sim. Não tem essa. É crime. Contra a lei. Vicia. Mata. “A única coisa que mudou  aqui é que você está metido com essa merda.” É coisa de vagabundo. Ninguém nunca viu alguém de bem envolvido com isso. Era como se o apresentador no jornal da noite estivesse narrando a verdade mais verdade de todos os tempos.
    Estupefata era o verbete que melhor definia a Sra. Sampaio. “Me diz que você não vai fazer mais isso, por favor.” Rafael olhou para o outro lado. O Sr. Sampaio bufou. “Conversa com a gente.” Implorou a mãe. E ele dizia: “Eu não deixo de fazer nada por causa disso.” Era um dos primeiros da XXVIV Turma de Biologia da faculdade, tinha um bom estágio, planos. Isso era só diversão, no fim do dia, como uma cerveja. “Como assim?” Não é simples assim. “Você vai precisar de mais, e mais e mais.” Não dá para controlar. É droga. “Em muitos lugares já é legalizado.” “Mas aqui não.”
    Conversa vai, conversa vem. “Meu filho, você não precisa disso.” Agora já parecia possível que o garoto especial fosse um especial com asterisco. “Como eu vou poder ficar tranquilo sabendo que você está por aí com drogas?” O Sr. Sampaio apelava e demonstrava amor ao seu jeito tosco. “Onde você vai para comprar essa porcaria? Olha o tipo de gente que você está se envolvendo.” Se as leis não servem aos interesses da sociedade, ou se as políticas públicas favorecem confrontos sociais, “não são assuntos para serem debatidos em casa”, entre uma família que tenta salvar sua cria. “Isso não é problema seu. Você tem que trabalhar,” finalizou o patriarca.
    Minutos de silêncio. Agonia. Choramingos. “Isso é só uma fase” era a frase que piscava em um luminoso de neon que brilhava dentro da cabeça da Sra. Sampaio. “E enquanto você tiver nessa fase vai ter que se virar sozinho” era a reação que parecia óbvia para um pai, segundo as convicções do Dr. Sampaio. “Tudo bem”, era a forma mais rápida que Rafael via de acabar com a contenda.
    Uma pulga saltou de trás da orelha da Sra. Sampaio gritando: “ele vai embora de casa, ele vai embora de casa.” Dr. Sampaio não se oporia. “Tome um banho que vou arrumar o jantar”, disse a matriarca na esperança de restaurar a harmonia e a família. Rafael levantou e foi para o quarto. O pai olhou para mãe com cara de preocupação, depois ligou a TV. Ela foi para cozinha preparar o jantar.
  • As opiniões de um ignóbil

    O meu tempo nesse mundo parece querer se esvair, não sinto mais a alegria de viver que outrora inundava meu ser. É uma maldição? Poderia eu um dia me olhar no espelho e refletir uma imagem que não passe de desgosto e amargura, sinceramente não sei dizer. Eu nem ao menos quero me ver diferente do que sou, quero apenas que acabe tudo logo, não importo com o que outros pensam sobre mim. Não sei se vão sentir algo quando for para eu partir. Nada me faz querer continuar, minha vontade é fraca, minha força, inexistente. Mal sei dizer se um dia voltarei ao normal - que ideia tola, eu nem sei se posso considerar algo normal.

    Pelas minhas costas encontro verdades imutáveis, tão claro como o sol. Prevejo que minha importância se foi a tempos, mesmo assim, ainda dependo de outros para que continue vivendo. Mas sabe que é engraçado, mesmo tendo tantos inimigos, não temo mais os que tramam contra mim, sei que não sou das melhores pessoas, nem mesmo me esforço para ser. Minha personalidade é fraca, me conformo com pouco, traquejo social, Hump, até parece que estou me esforçando muito. Malditas vidas que eu abomino, continuam a existir nesse mundo odioso, mais tempo vem passando e a cada novo minuto me retraio, cada vez que passa uma quinzena, viso acordar apenas para ser deixado de novo. Humilho-me por restos, me odeio, quero que outros me odeiem, não me importo com suas opiniões, mas desejo muito que me odeiem.
    A vida me parece frágil. Outro dia sem mesmo perceber comecei a torcer para que outro semelhante perdesse tudo o que tinha, apenas para que eu pudesse me sentir melhor. Posso parecer um monstro, desejando que uma pessoa tenha tudo tirado de si. Não ligo para o que essa sociedade cheia de moralistas julguem certo. Quero mais é que se explodam, são todos uns fracos amargurados que só pensam em suas próprias vidas, acham que por terem mais que os outros tem o direito de ter pena de alguém. Absurdo, eles que deveriam ter pena de suas patéticas vidas artificiais, completamente mimados por um sistema feito para empurrar cada vez mais o fraco para baixo e alavancar o forte. Meritocracia é ótimo, principalmente quando seu pai tem uma Ferrari na garagem. Queria vê-los como gado, essa sim é uma vida simples, não precisa ir para lugar nenhum, você se alimenta o máximo que pode, vive na própria merda. O gado, ninguém é diferente, tem aqueles que acordam no pasto verde, ou outros que ficam expostos em prateleiras de supermercado, é um fim que se considera digno, um pobre animal violado, desmembrado para o prazer de outros que nem agradecem por sua comida, olham aquilo como mais um prato em meio a tantos outros. Quem me dera ser como o gado.
    Em meio a tantos pensamentos, começo a me achar um lunático. Quero tantas coisas, mas quero elas de maneira fácil. Não quero me esforçar, nem pensar em ter que lutar por elas, mas no fim dizem que os bens adquiridos pelo fruto de trabalho duro, são mais doces que aqueles que são apenas presenteados - Ninguém fala isso, mas queria conhecer alguém que falasse assim. Chega a ser ironia, eu desprezo os acomodados e os desleixados, mas se houvesse uma competição, em absoluto estaria em primeiro. É assim que são as coisas, posso até ser hipócrita, assim é a humanidade, tem seus surtos megalomaníacos baseados em nada, querem tudo, mesmo já tendo demais, a única coisa que compartilham é a habilidade de cagar, essa vem direto do fabricante, se sua merda é cheirosa, então venda e fatura em cima dos trouxas que vão comprar.

    Parte 2: Só mais um babaca, você ainda está lendo isso?

    Lembro que quando era jovem via as pessoas com um olhar mais inocente, “ dizer o obvio parece ser uma de minhas qualidades, o que não significa muita coisa, já que todos são assim”, aposto que até os maiores filósofos da história já sentaram um dia em seu urinol de barro e pensaram: “acho que vou bater uma só para relaxar”. Quem nunca, eu com toda certeza entro nessa categoria, “a de punheteiro, não de filosofo”. É bizarro, mas gosto de imaginar como as pessoas fazem suas coisas quando estão em sua privacidade. Quero dizer, logicamente existe aquele momento em que uma enxurrada de hormônios inundam o corpo e você só tem que descarregar. Agora eu imagino Hitler, Mussolini, Trotsky, e outros babacas de esquerda. “ Pois é, não sou da cartilha, nem me considero conservador e essas viadagem, na minha opinião a única coisa que os difere é a vontade de sair dando o rabo com a de pôr em prática.
    Bem na verdade eu quero mais é que tudo acabe logo, mal posso esperar para chegar o tão amado apocalipse bíblico, finalmente essa galerinha do velho barbudo que não é o papai noel vai sossegar. Realmente espero que deus exista, assim posso dar um soco na cara dele, “Por favor cristão, não leve a mal, mas deus é um otário se ele existir”, não é por nada, mas eu seria um deus melhor, sou obtuso em meus questionamentos, mas quero ter certeza de que se fosse para ter essa trabalho, eu seria melhor que meus professores do estadual. Me vejo usando uma toga branca que vai até minhas sandálias de couro persa, depois ia soltar dois macacos na terra e ver eles se fuderem até brotar essa bosta que é a humanidade. Sendo bem sincero, eu com toda certeza iria me divertir no juízo final. Fazia questão de criar várias instâncias e protocolar milhões de pedidos, só para essa galera ficar batendo um papo no limbo.
    Quem sabe um dia eu ainda possa fazer isso, a tecnologia está aí, porque não? Star Trek me prometeu que no século 24 haveria dobra espacial, desmaterialização e até holo-salas, o que difere deus de um grande inventor que pensou simplesmente para deixar seus espermatozoides em alguma poça.
    Uma beleza são as mulheres, é claro, as que realmente importam, sendo mães, esposas, tias, primas, irmãs e amigas. Não quero aquelas que te olham com superioridade e um aspecto vazio na voz, apenas desejo conversar com as que eu realmente me sinto próximo, aquelas que têm a capacidade de zelar e amar, sem medo de serem desprezadas. As mulheres que não vem com papinho vitimista tentam fazer de leis sua loja de conveniência, sendo franco, porque existe feminicídio, o que difere isso de homicídio, esse país louco chamado Brazolia. Onde o povo que realmente merece respeito não fica na internet ou cuidando da vida do outro, “parece que estou me contradizendo, mas não odeio realmente toda a humanidade, é claro, poucos são aqueles dos quais respeito, mas ainda assim, existem alguns que eu queria ver prosperar”.
    Homens por outro lado, podia ser só 20% da população, competição não é comigo, sou mais do tipo que pega a amiga gorda se ela já está sem opção, mesmo assim ainda existem uns São Jorges que tentam dificultar para mim. Isso sim irrita uma feminista, um cara que pensa em pegar mulher, na cabeça delas eu imagino que os homens seriam grandes sacos reprodutivos que não agregam em nada, mas quer saber é só a minha opinião, “quer saber de outra coisa? Eu não ligo para o que você pensa”.
    Fugindo um pouco o papo triste de desilusão e emo viado, “Lgbtqgasifasf, ou tanto faz a sigla que essa galera esta usando agora”, eu sinceramente não entendo o cara vir na minha frente, falar que é gay e querer meu respeito por isso, eu estou cagando se você da o rabo, ou se apenas esfrega a lampada do gênio. Quando que o cu de alguém virou palco para debate e discussão. Agora, além dessa galera turbinada no gatorade, tem uma outra que define como Xenomorfo, ou sei lá o que, quero dizer, realmente você atestar que gosta de uma coisa, ou desgosta de outra é tão importante assim. Vamos supor que é, por um breve momento, vamos supor que as escolhas individuais sobre sexualidade são realmente importantes. O que mudou no mundo? Viramos uma sociedade mais inclusiva apenas por aceitar que alguém quer dar para o megatron? Ou será que é mais relevante levar em conta como essas pessoas se aceitam e quiçá, aceitam outras pessoas? Lógica é algo que não funciona bem no mundo de hoje, e quer saber, quero que todos se fodam, meu respeito por essa galera acabou a partir do momento que qualquer coisa e é literalmente qualquer coisa pode ser um gênero. Eu sinceramente compreendo o fetiche, isso é normal do ser humano, mas da forma que foi escalonado, parece piada da revista Mad.
  • As Palavras

    As palavras são próprias de si,
    Cuja significação não é pelo feito
    Eloquente, mas de seu efeito,
    Fala em conteúdo, qual causa
    Precedeu a delicada escrita.

    As palavras são vidas, por
    Todos que estão à preamar, e
    No beira-mar a morte desavisada dos
    Poetas, ela que é muito dos encontros
    Abismáticos. As palavras, que são extensões.

    — Porém, é em nós que cessa seu misterioso sentido.
    O que há de ser cumprido, escrito, descrito.

    [E narrado no mais íntimo.

    Pela expressão de cada uma delas. São muitas
    As formas de amor, também de amar.

    [De ser mais que!

    O persuasivo ideal idealizado.
    Que temos, — e nos tem frustrados.

    O facundo sonho sonhado,
    Que temos, — e nos tem iludidos.

    O verboso desejo desejado,
    Que temos, — e nos tem rejeitados.

    A grandíloqua vida, ela, toda,
    Vivida, desperdiçada. Estrepolia dela
    Que nos convence. Da espécie humana,
    No que eu digo, como é! Me tornando
    Palavras, somente elas: palavras.
  • As Três Maravilhas

    Os dias passaram o arrastando por trombadas de sentimentos incontroláveis. Pensava ele estar acima das suas emoções, porém, por pensar estar acima, tirara a mão do mastro, e fora arrastado pelas tempestades sentimentais. Forças destrutivas o empurraram novamente a lama, e se sentira energeticamente imundo. Abrira a porta escrotamente para o mal de si, e violara a regra de sua santidade e perfeição. O mal o rondara, e percebera-se insano.

    Não podia crer que novamente tropeçara… o mesmo ciclo vicioso… a cobra que morde o próprio rabo… a mordida na própria língua.

    Entretanto, o Sagrado com toda a sua Mística o amava. E como uma mulher estéril que sorriu de felicidade pelo fim de sua improdutividade, ao ter um varão, na sua velhice… o Sagrado, assim, pacientemente, e rigorosamente, o educava com AMOR.

    O Místico Amor…

    O Amor do Amante e do Ser Amado… que faz do dois, três, e das três maravilhas uma só PRESENÇA.

    Havia entre eles compreensão e trabalho mútuo… era o pequeno e O GRANDE… o fraco e O FORTE… o encarnado e O IMANIFESTO…, que se despontavam em duas formas distintas, o inferior e O SUPERIOR. Contudo, um dependia do outro para ser visivelmente revelado.

    A Inteligência Superior a ele ofertada o fazia diferente dos demais, por isso, ao cair se levantava rapidamente… O SAGRADO compreendia que os tempos atuais eram ofuscados por uma sombra de trevas e ignorância, e que a LUZ teria como trabalho romper a cápsula de ignorância em que o SER AMADO nasceria, pois não tinha como nascer numa poça de lama sem estar melado por ela… só que ele mesmo (O Ser Amado) estava cansado dessas repetidas quedas na poça suja. Suas quedas eram mínimas em sua totalidade, nada que magoasse alguém, nada que ferisse… nada que matasse… nada de inveja, cacoetes, ou avareza… nada de arrogância, intolerância e cinismo… nada de extrema ignorância ou alienação. Caía contra ele mesmo… caía em sua perfeição, em sua santidade.

    E assim, se magoava e se autopunia, porquanto, almejava o principado. Por isso, os cavaleiros sombrios o perseguiam, e caía, quando, enganado pelo pequeno eu, amante da luxúria, cega e apaixonadamente o dominava. Entretanto, sabia quem era o inimigo, o estudara, o observara… e, também, o compreendeu… e dele mesmo teve compaixão.

    Vira os seus pequenos filhos que ao longo do seu nascimento no mundo das ilusões, nascera de suas traumáticas experiencias. Todos eles estavam berrando e choramingando por comida. O seu filho Medo tinha como iguaria a egoística proteção e isolamento, e a culpa era sua sobremesa favorita; Já a sua filha Ambição se deliciava de glamour, com biscoitos recheados de estrelismos. Porém, o que mais lhe preocupava, era seu filho mais velho Desejo, que crescera além da conta, e, trouxera sua amante Luxúria para habitar em sua morada, e juntos se deliciavam no doce picante chocolate da paixão.

    Notara que alimentar esses filhos seus era trabalho de sua personalidade mecânica e falsa, habitante dos infra mundos, cultivada exatamente por todas as coisas que contraiu e aprendeu em toda sua vida social metropolitana, fixa pelas teias de pontos de vistas alienados a uma realidade criada nos padrões ilusórios do pensar, sentir e agir mecanicamente.

    Sim! Ao se observar e autoanalisar a sua personalidade induzida…, sem sombra de dúvidas em sua mecânica ambiguidade, se percebera homem-máquina… um mero robô-humanoide que trabalha, se alegra, sofre, se droga, goza, come e dorme. E, pensara na etimologia da palavra robô, provinda do russo Работа (rabota), que quer dizer: trabalho, algo meramente mecânico, e percebera que seu instinto não passava disso… uma mera programação… pronta para executar as suas funções animais de prazer e dor. Graças a uma ignorante educação equivocada, que o adestrou a atuar, desde infância, em um frágil mundo de mentiras, em razão dos múltiplos episódios exteriores e de choques aleatórios, que abrolham em seu interior algumas mudanças quase sempre errôneas, ou não coincidentes com o evento em tese.

    E, assim, oculta e perspicazmente se sentara na poltrona da sua existência…, e vira seus malcriados filhos, que, insistindo em crescer em sua persona, desde cedo, assumir o controle da condução de sua vida mecânica, pois, estes, veio a existência unicamente por causa da pressão dos dramas, tragédias e comédias que se apresentam nas telas e palcos da vida. Claramente vira, que por culpa dessa mecanicidade do ser, O SAGRADO perdera sua essência e fragrância, despossibilitando a sua santa e perfeita manifestação harmoniosa, em sua vivência material orgânica. Já que toda forma de ação conscientemente mística-divina, fora substituída pelo automatismo mecânico do individuo social… o chamado cidadão comum.

    Analisara que sua débil e frágil personalidade mecanizada e controlada pelos ‘eus’ criados de si se adaptava a ambientes e pessoas. Escaneando e criando autoimagens em costumes e hábitos moldáveis pelo intelecto, utilizando de discursos e palavras, pensamentos e movimentos ilusórios, que utilizavam de hipnose consciente para o adormecimento da própria consciência.

    Ao se perceber mecanizado, resolvera ir a fonte de tudo que o programava… sentou-se em profundo silêncio, fixando os olhos ao chão… fizera uma pergunta ao universo do seu ser… e, prometera a si mesmo levantar-se, apenas com a resposta. Fixo em sua empreitada, o tempo, destruidor de todo gênero e criações humanas, ali parou. E, percebeu a expansão do seu próprio Ser Divino, além matéria, e viu o quanto era amado e protegido por essa Absoluta Grandeza. Também, junto a essa visão divina, se culpava por não se dedicar totalmente a esse Primeiro Amor… era o Ser Amado, porém, por não ter o Divino Amante por primazia, ainda não o conhecia. E, por ainda não o conhecer em sua Divina Essência, não se tornou o instrumento musical de suas harmoniosas canções… não alcançando ainda o Imanifesto que manifesta tudo.

    Em sua meditação sabia que a viagem era longa, e o trabalho pesado, a vida corpórea orgânica e encarnada tinha que enfrentar o mundo para se livrar de suas rédeas e freios. Sabia que o mundo material não passava de uma escola da alma, por isso, o alienado entretenimento social não o sequestrava.

    E, clamando silenciosamente orou: “Ó Sagrada e Mística Essência Divina que se assenta no trono de meu coração; Grande Sol Central Esplendoroso, mais radiante entre todas as luzes desse plano material; Magnifica Lua Cheia que ofusca as luzes cintilantes de todas as estrelas no imenso escuro dos céus; Consciente Inteligência do Eterno Sentido Divino; Grande Oceano pelo qual desagua todos os rios; Soberano entre as fontes de todos os néctares nascentes; Leão de todas as selvas e pastagens. Ó tu de olhos abertos em todos os lugares, fala-me diretamente sem intermediações, pois, tenho sede de ti. Como poderei eu te conhecer… aqui sentado e meditando?”

    Ali, parado, meditando por horas afinco, nada ouvira… nada vira… e não deslumbrara nada.

    Portanto, sabia que para poder receber as ondas de vibrações harmoniosas do SUPERIOR, primeiro tinha que se domar: educar todos os seus sentidos… peneirar todos os seus pensamentos… frear todos os seus sentimentos… adestrar todas as suas emoções. Se conhecer e ser o senhor de si mesmo, deixando de alimentar os seus ‘eus’ criados, e, assim, matá-los de fome e sede, para que educadamente perceba a superioridade do Pai, e possa o servir com frequente piedade e fé inquebrantável.

    Intentara evolutivamente que a melhor riqueza e nobreza do ser humano é a FÉ. Que seguindo a missão de sua existência no aqui e agora, atrairia a verdadeira felicidade que é independente e indiferente a ter alguma coisa, e ser algo ou alguém de sucesso para viver. Que, interiorizando e espiritualizando cada ação, até o ato de limpar uma fossa de merda pública em reverencia e gratidão, chegaria à maestria e principado. Degustara o doce mel da verdade, e queria obter os melhores dos bens e serviços devocionais, vivendo a vida sabiamente vivida purificando todas as maldades suas e dos demais. Descobriu que pela Fé… atravessaria as tormentas, pela Sinceridade… o mar dos egos e, pela Bonança e compaixão… o outro lado do reino da morte.

    De repente, em sua meditação, o espírito destruidor que o tentava, o inundou de maus pensamentos, gerando em sua mente maus sentimentos. Vira claramente a face do Anjo da Destruição, prateada como a lua em sua feminina forma tentadora, que faz lançar a culpada alma nos infra mundos infernais, e que goza de toda desolação. Ela estava deslumbrantemente irresistível, e cheirava paixão e luxúria. Seu sexo molhado de gozo tentador estava exposto, e latejando desejo o chamava. Sua boca parecia doce como mel, melados de néctar do prazer. No entanto, um pensamento de morte passou como vulto em sua consciência… e, meditando profundamente, enquanto se via nos braços demoníacos da luxúria, freou sua paixão, e disse, dessa vez, em voz audível: “Ó Dona de meu Desejo, como és bela e tentadora, estou agora ardendo de paixão e tesão por ti, porém, sinto seu calor arder como brasa, se me entrego a ti queimarei minha alma em sua chamas mortíferas. Ó Espírito de Tentação! Penso agora em minha morte, e tenho ela agora como fiel companheira. Você não tem mais lugar em mim”. Falando isso, o Tentador se dissolveu diante de seus olhos como um monte areia a esparramar pelo chão.

    A partir daquele dia as três maravilhas abundou o seu ser… de um que era se tornou vários; de vários, um; manifesto ou invisível atravessa sem resistências as paredes, as rochas como se penetrasse uma queda d’água de cachoeira; submergia na terra, e tornava a subir como se fosse o mar; caminha nas águas como se fosse terra firme; voava pelos ares como os pássaros, e sentava nas nuvens como os seres inefáveis; até a lua e o sol inflamados de calor, Ele acariciava com suas mãos, e no mundo dos deuses e semideuses se manifestava em glória; conhecia os homens e lia os seus pensamentos, sabia dos caminhos de sua alma, aquilo que faz elevar e tropeçar, dizendo: “Esse é o seu pensamento e desejo. Isso ou aquilo está em seu espírito. Este é o destino que te espera.”; E tinha sabedoria e inteligência para instruir e adestrar qualquer alma vivente.

    E assim, se manteve calmo e sereno em sua iluminação. O AMOR do AMANTE envolveu o SER AMADO, purificando de todas as impurezas acumuladas em seus centros orgânicos. O humanoide de programação emocional, deletou sua atividade efemeramente mecânica, transcendendo o corpo biológico, que agora era o receptáculo do SAGRADO em si mesmo.

    Nada mais o afetava, livrou-se do medo… fez da morte física sua companheira, e matou-se a si mesmo, renascendo das cinzas do sofrimento, se purificando nas águas do arrependimento, emergindo no ar do Sagrado Conhecimento… não por estar isento de emoções e sentimentos. Mas, unicamente por se livrar do corpo mortificado do desejo… que, ilusoriamente se ajoelhava perseguindo o prazer, e alienadamente orava fugindo da dor.
  • Às vezes no barulho da noite…

    Será se ele olha pra elas como quem está apaixonado?

    Será se ele faz planos com elas de casar em Vegas altamente chapado?

    Será se ele pensa nelas durante o dia, ou melhor, durante o barulho da noite?

    Será se ele procura nelas a paz que não se encontra por aqui?

    Será se ele quer envelhecer do lado de alguma delas? 

    Será se o peito dele não aperta quando escuta “eu te amo” sabendo que não tem nada de amor ali? 

    Será se ele pensa em mim quando está com elas? 

    Será se ele vai me ligar um dia só pra dizer que está com saudades? 

    Será se ele já tá bem resolvido com ela e não precisa de mais nada? 

    Será se existe ela? 

    Será se essa cacofonia vai embora na noite que vem? 

    Será se ele vem? 

  • Assassino Familiar

    Todos estavam festejando e brindando com as suas caras garrafas de champanhe em um pequeno círculo. Era fim de ano e toda a família estava comemorando por estarem bem e juntos em uma bela cobertura de frente para o mar. Não era uma família muito grande, tendo uma esposa e seu marido, que tinham uns 45 anos, e seus 4 filhos: um casal de gêmeos com 20 anos, uma menina com 18 e um menino de 15 anos. Antes mesmo da meia-noite e ainda com vários pratos à disposição para serem devorados, todos estavam dormindo e nem os fogos de artifício que brotavam de todos os cantos foram capazes de acordar essa família.
    O primeiro a acordar foi o jovem de 15 anos. Ele abriu os olhos bem devagar como se as suas pálpebras pesassem dezenas de quilos e percebeu que ainda estava de noite. Ele tentou se levantar jogando um dos braços para a frente para se apoiar no chão, mas não conseguiu e acabou com a cara no chão. Na queda, mordeu a língua e uma dor aguda foi direto para o seu cérebro, fazendo todos os músculos faciais se revirarem. Foi aí que percebeu que os seus braços e pernas estavam amarrados de maneira bem firme, chegando inclusive a doer um pouco. E o cheiro, o cheiro também era forte e confundia os sentidos. Ele vinha de todos os lugares: das roupas, das paredes e da enorme poça em que estava sentado. Finalmente percebeu que estava em uma piscina inflável que nunca tinha visto antes com outras três pessoas ainda desacordadas. Piscou algumas vezes tentando aumentar a velocidade dos seus olhos para fazer com que o seu cérebro pegasse no tranco. Depois de uma dezena de piscadas, percebeu que o cheiro era de gasolina. E que não era pouca, pois parecia que tinha uns três postos à sua volta em um dia bem movimentado de promoção. Sentiu o seu estômago se revirar por causa do cheiro e do medo crescente. Os seus olhos começaram a marejar, mas pouco antes de sua visão ficar encoberta pelas lágrimas identificou que aqueles que estavam ao seu lado eram a sua família com a exceção dos gêmeos.
    Ele não tinha forças o suficiente para voltar a ficar sentado, então foi tentando se virar de barriga para cima para tentar achar os seus irmãos. Quando se virou para o lado oposto, o seu rosto ficou paralisado tentando entender o que estava acontecendo. Ele viu a sua irmã segurando uma faca enquanto encarava o gêmeo que estava amarrado em uma cadeira de madeira. Ela sorria com os seus olhos vidrados no gêmeo, sem desviá-los nem mesmo por um segundo. Ainda deitado no chão, ele tentou falar alguma coisa, perguntar o que estava acontecendo, o porquê disso tudo ou qualquer outra coisa que levasse a algum diálogo, mas só conseguiu balbuciar alguns sons sem sentido. Foi o suficiente para que ela virasse o rosto. Embora os seus olhos parecessem aterrorizados, o sorriso macabro continuava em seu rosto. Ela deu alguns passos em direção a ele e ao resto dos seus familiares amarrados, mas repentinamente e bruscamente parou na metade do caminho. Ficou os encarando por uns 10 segundos antes de começar a falar:
    — Finalmente acordaram para o show! — a sua voz estava trêmula — Não é nada pessoal com nenhum de vocês, só quero me divertir um pouco. Se me deixarem em paz, a vida continuará! — ela voltou a andar na direção deles, levantou o irmão que estava no chão o deixando sentado e depois deu as costas e voltou a encarar o seu gêmeo. Durante toda a fala os olhos dela estavam marejados e assustados, mas o sorriso maníaco não saiu em momento algum.
    Todos da família estavam assistindo atentamente cada movimento que ela fazia sem pronunciar nenhuma palavra. Ela ficou olhando para uma mesa que, pela distância, a sua família não conseguia saber o que tinha nela. Depois de quase um minuto em que ficou quase sem se movimentar, a não ser por uns leves movimentos de não com a cabeça, ela pegou um martelo e um prego de uns 8 centímetros, posicionou o prego no joelho do gêmeo que não parava de repetir a palavra “não”, tomou distância com a mão, disse “sim” e com apenas uma martelada enfiou o prego inteiro bem na articulação do joelho. O gêmeo deu um enorme grito de dor e recebeu um soco por causa disso. Ele chorava como um recém-nascido e, talvez por causa do barulho, ela amordaçou o gêmeo. Os seus pais começaram a implorar para que ela parasse e por isso foram amordaçados também. Os outros dois irmãos não emitiram nenhum som. Eles olhavam, mas não acreditavam. Talvez pensassem que era um pesadelo ou que tinha alguma droga alucinógena no champanhe, aquilo só não podia ser real. Mas para o gêmeo era real e ficava ainda mais a cada minuto que passava e a tortura aumentava.
    Logo quando terminou de amordaçar os pais, voltou para o gêmeo e pregou o outro joelho dele. A família tentava desviar o olhar, mas sempre um acabava vendo alguma parte da tortura. As unhas sendo arrancadas lentamente com alicate ou rapidamente com pedaços de madeira embaixo delas, os diversos cortes feitos pelo corpo, a órbita ocular sendo arrancada com uma colher, a língua sendo arrancada com uma faca quente e as articulações sendo rompidas uma a uma. Essas foram apenas algumas das que eles tiveram estômago para ver. Normalmente elas aconteciam depois de um momento de alívio quando tudo ficava em silêncio. Esse silêncio era a esperança de que o gêmeo tinha morrido e que o seu sofrimento tinha acabado. Mas em todas as vezes ele só tinha desmaiado e em todas elas o gêmeo era obrigado a acordar seja por injeções de adrenalina ou por cheirar amônia, a tortura tinha que continuar.
    Ela só acabou depois de umas duas horas quando ela encharcou o corpo do gêmeo com gasolina e ficou parada na frente de todos com o seu maldito sorriso e com lágrimas saindo dos seus olhos.
    — Todos nos comportamos muito bem e por isso vamos sobreviver. Logo tudo isso irá acabar e poderemos voltar a viver nossas vidas normalmente. — Ela acendeu o isqueiro e ficou com ele no ar de olhos fechados enquanto as lágrimas aumentavam. Depois de uns quinze segundos a sua mão ficou mole e o soltou, caindo em uma poça de gasolina no chão e iniciando um incêndio sobre o corpo do gêmeo. Todos da família assistiam sem acreditar no que os olhos viam, quietos, pasmos. Eles viram o fogo atingir primeiro as pernas do gêmeo, fazendo com que os músculos da panturrilha se contraíssem em meio aos gritos de dor. Quando o fogo atingiu a barriga e o peito, os punhos já estavam fechados, mas os músculos da nuca se enrijeceram forçando o pescoço a virar a cabeça para o alto como se os seus gritos praguejassem contra um deus cruel. Até que um silêncio quase total atingiu a cobertura, a não ser pelos choros e pelo baixo estalar do fogo. O gêmeo agora parecia uma estátua de pedra completamente cinza e sem vida, mas que ainda transmitia a dor e o sofrimento que a artista queria provocar.
    Logo depois que os gritos acabaram, o resto da família foi dopada novamente e posta para dormir. Eles só acordaram quando a polícia chegou e todos esperavam que os policiais dissessem que tinha sido só um pesadelo. Quando era confirmada a realidade, o choro intenso voltava a acontecer. A gêmea também foi encontrada desacordada e quando voltou a consciência não parava de repetir que foi forçada a fazer tudo. Durante os depoimentos da família à polícia, tudo a apontava como culpada, mas ela insistia em sua inocência. Segundo sua versão, ela também foi dopada e acordou um pouco antes de todos. O seu irmão gêmeo já estava amarrado e, por mais que tentasse, não conseguia tirar o sorriso do rosto que parecia pregado na face. Foi aí que começou a ouvir uma voz em seu ouvido direito como se tivesse outra pessoa falando em um ponto nele. Era essa voz que estava ordenando cada ação que ela fazia e, se sequer hesitasse em obedecer, a voz dizia que toda a sua família iria sofrer e morrer por culpa dela. Então ela teve que decidir quantos iriam morrer e ela optou pela opção que tinha menos vítimas.
    Apesar de uma extensa investigação, nenhuma prova que sustentasse a versão dela foi encontrada. Não havia sinal de toxinas em seu organismo que pudessem ter causado o sorriso e nem algum vestígio de qualquer equipamento eletrônico que pudesse justificar as vozes em seu ouvido. Quase toda a sua família acreditava que ela era um monstro, com exceção do seu irmão que se apegava ao terror que viu nos olhos dela no dia do ano novo. Mesmo com o apoio dele, ela foi condenada a quase cem anos de prisão em um hospital psiquiátrico. Será nele onde passará o resto de sua vida como uma vilã sádica para alguns e, para outros, como uma heroína que se sacrificou para que sua família pudesse sobreviver.
  • Atonais

    Um frango feliz, estampado numa caixa de nuggets.
    Era o que Zími pensava sobre quase todas as pessoas que conhecia.
    E essa imagem bizarra virou uma camiseta usada por sua parceira musical Mila Cox.
    A sensação de certa segurança e conforto que vivia nesse ano ainda não era familiar o suficiente, 
    A sua paranóia consistia no medo que tinha de voltar às condições precárias em que vivia até o ano anterior.
    Zími beirava os cinquenta anos, e entendia que atualmente sua faixa etária poderia significar o fim da linha, ou alguém que resistia a um declínio mais triste.
    A qualidade de vida dependia mais do que nunca de uma segurança financeira insustentável para a maioria.
    Essa maioria se recusava a pensar.
    Eram os frangos felizes na caixa de nuggets.
    Então ele entrou no apartamento que eles dividiam na Rua da Glória, e a viu com a camiseta.
    Estava sentada no sofá assistindo youtube na TV.
    Mila Cox tem vinte e três anos.
    A vizinhança especula muito, mas ninguém sabia nada sobre eles.
    Zími achou a camiseta dela legal, mas nem sabia que Cox havia se inspirado em algo que ele havia comentado usando o frango para ilustrar a cena descrita.
    Zími sempre voltava da rua com o saco cheio.
    Vestia uma camiseta gasta do Husker Dü, e falou:
    "O inferno é acordar e perceber que o mundo ainda é o mesmo."
    Ela respondeu:
    "Mas pelo menos algumas coisas loucas aconteceram num período curto de tempo. Temos uma banda chamada Crop Circles, e quando escolhemos esse nome, era impensável que Donald postasse aquela foto dele com o ET."
    Zími então falou:
    "Donald está no bico do corvo, logo estaremos livres daquele cretino."
    Então entrou no banheiro, e olhou no espelho enquanto mijava.
    Ele sabe que a grandeza do homem consiste na sua decisão de ser mais forte que a condição humana.
    Sabia também que uma tumba mais fria e úmida que os quartos de pensão em que viveu até o ano anterior era o destino inevitável de todos.
    Agora moravam juntos num apartamento médio no bairro da Liberdade.
    Mila Cox fazia café e Zími captou o aroma enquanto lavava  as mãos.
    Ambos desconfiavam que os dois são autistas, mas nunca falam do assunto.
    Preferem saborear silenciosamente a delícia de não serem o frango na caixa de nuggets.

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