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brazilian literature

  • Ausência

    Em um bar uma conversa se inicia. Dois homens, um de mais idade e outro mais jovem.
    - O que você fez quando soube da morte de seu pai? – Perguntou o homem do outro lado da mesa.
    - Não fiz nada, por quê? – Respondeu o jovem vestido elegantemente um terno preto e de chapéu na cabeça.
    - Mas como não, ele era teu pai?!
    - Sim, mas nunca se importou comigo.
    O homem mais velho respirou fundo.
    - Mas ele sempre lhe deu tudo, não entendo?!
    O jovem colocou a mão no bolso enquanto respondia.
    - Sim. Quando criança me encheu de brinquedos, na adolescência pagou meus estudos...
    - E agora na fase adulta ele deu a vida por você. – Concluiu o homem.
    Um sorriso se abriu no rosto do jovem.
    - No entanto tem o principal.
    - Principal?
    - Amor. Você sabe o que é isso?
    A voz do homem era bastante insegura.
    - Amor... Bem, amor é quando um homem gosta de uma mulher, ou vice e versa. É isso?
    O jovem riu contido.
    - É, pode ser. Mas o amor não se restringe a isso apenas. O amor pode ser demonstrado de várias maneiras. Com um bom dia, um sorriso, um abraço. Quando você conta uma história para o seu filho, quando você brinca com seu neto. Existem diversas formas de se demonstrar amor, e esses são só alguns exemplos.
    - E seu pai deve ter feito muito dessas coisas com você, não é mesmo?!
    O jovem acendeu um cigarro, deu uma baforada e olhou para o teto de estrelas.
    - Nunca fez. Ele era um homem ocupado, trabalhava muito.
    O homem abaixou a cabeça e por um breve momento olhou para o chão sujo de bitucas de cigarro.
    - Então você nunca gostou de seu pai
    - Pelo contrário, eu o amava.
    - Mas...
    - Eu não o culpo pela ausência, pela falta de amor e pelos abraços que eu não recebi. Só não entendo porque ele foi tão distante se ele teve a chance de estar comigo todos os dias.
    Os dois se levantaram; o homem mais velho apoiado em uma bengala, o mais novo apoiado na mesa por estar levemente embriagado.
    - Você perdoaria seu velho pai? – Perguntou o homem velho tentando esboçar um sorriso.
    - Acho que sim. Se ele dissesse que me ama e me desse o abraço mais apertado que ele deu em alguém. – Respondeu o mais novo abrindo os braços.
    Com lágrimas nos olhos e a voz fraca o velho disse:
    - Esse abraço apertado pode ser dado pelo pai do seu pai?
    - Pode vô. É claro que pode.
    No mesmo instante em que os dois se abraçaram tudo se transformou. O amor que o homem mais jovem não teve do pai estava sendo trocado pelo amor simples, puro e singelo do avô.
    - Não se preocupe garoto, se teu pai não te amou como você gostaria, tenha certeza de que o velho aqui vai lhe dar em dobro, pode apostar.
    E lá se foram os dois, de braços dados e de corações abertos.
  • B A I I S C T N Â

     

     

                           B                              A

                              I                         I

                                 S               C

                                     T       N

                                         Â

     

     


                         
                        t e l e              v i s ã o

     


                        t e l e             v a z ã o

     


                        t e l e              v a z i o

     

     

     

     

     




    ..................................................................................................................................

    © "Copyright" do Autor, IN: Concursos literários do Piauí. Teresina, 2005, Fundação Cultural do Piauí. 226 p. Página 188.
  • Bailarina

    Sinto seu cheiro
    Faltando no corpo
    Sinto em meus poros
    Deixe-se levar pelo meu sal, meu mar, meu Sol
    Mel, calor, torpor
    Mesmo sem você, acho que estou indo bem
    Um carvalho em meio à rotina das estações
    Âncora, esperando pouso leve
    Suas asas me aprovam
    Na sua rocha sólida, escudo, correm tuas águas
    Diga-me sim
    Bailarina
    Confie em mim
    Sua felicidade é o meu jardim.


    Poema do meu primeiro livro de poesias, Átomo, lançado em dezembro de 2018, com prefácio de Rafael Cortez e apresentação de Thomas Pescarini e disponível em formato físico e ebook na Amazon.
  • Bate-papo [conto]

    [21:23:59] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: Oi
    [21:24:15] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: ola
    [21:24:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tudo bem?
    [21:24:31] M amizade entra na sala.
    [21:24:45] h mama h diz para Todos: algum cara aí afim?
    [21:25:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: sim e vcs?
    [21:25:27] coroa safado entra na sala.
    [21:25:40] Moreno22 diz para Todos: aumente seu pênis de forma natural. {www.penislandia.cz}
    [21:25:47] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tbem
    [21:25:53] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: da onde tcm?
    [21:25:55] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:26:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: ZS e vcs?
    [21:26:07] Carol15 entra na sala.
    [21:26:10] KRALHUDO fala reservadamente para Ele&Ela: 19cm de rola para esposinha e maridão…...afim?
    [21:26:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: ZN
    [21:26:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: quantos anos vcs tem?
    [21:26:47] Hserio entra na sala.
    [21:26:54] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: eu 32 e ela 35 e vcs?
    [21:26:59] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:27:13] Safado CAM1 entra na sala.
    [21:27:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: eu 38 ele 42
    [21:27:32] Coroa safada diz para h34: tenho muita coisa para te ensinar ahahhaha
    [21:27:45] Kzado quer entra na sala.
    [21:27:48] Loirinha sai da sala.
    [21:27:53] Macho sai da sala.
    [21:28:10] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:28:20] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: o q vcs fazem?
    [21:28:33] Gordinho T entra na sala.
    [21:28:47] Einsten entra da sala.
    [21:28:55] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: somos liberais, gostamos de fazer tudo
    [21:29:13] Safado CAM1 fala reservadamente para Ksal Discreto: quer ver um homem de verdade fuder sua mulher seu corno?
    [21:29:33] Mulher entra na sala.
    [21:29:42] Hserio fala reservadamente para Ela&Ele: oi
    [21:29:50] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:29:53] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: legal, mas eu quis dizer no q vcs trabalham rsrsrs
    [21:30:10] Marta ZO entra na sala.
    [21:30:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: rsrsrs eu sou arquiteta e ele é advogado e vcs?
    [21:30:33] h mama h diz para Todos: algum cara afim?
    [21:30:49] Paola entra na sala.
    [21:30:57] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: sou empresário e ela é médica
    [21:31:04] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: vcs tem filhos?
    [21:31:24] Einstein sai da sala.
    [21:31:37] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: temos 2 e vcs?
    [21:31:45] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: legal, nós temos 1
    [21:31:50] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: até por isso a gente quer ser discreto
    [21:32:04] Coroa safada diz para Safado CAM1: vamos
    [21:32:10] Hilda Hilst entra na sala.
    [21:32:17] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: nós tbem gostamos de ser discretos
    [21:32:23] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: não vamos em casas de swing ou coisas assim
    [21:32:30] Maduro entra na sala.
    [21:32:42] H22cm diz para Todos: cavalo comendo famosa sem vaselina {www.animalfuck.jh}
    [21:32:57] Carol15 diz para Todos: alguém quer tc?
    [21:33:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: nós tbem não
    [21:33:10] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: como vc são?
    [21:34:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: eu 1,70m, 65kg, loira e olhos castanhos, ele 1,85m, 93kg, moreno e olhos castanhos e vcs?
    [21:34:25] H pintudo sai da sala.
    [21:34:07] Hilda Hilst diz para Todos: alguém aqui quer só tc?
    [21:34:16] Hserio diz para Hilda Hilst: oi
    [21:34:40] Marcelo sai da sala.
    [21:34:59] Carol15 diz para Maduro: não
    [21:35:05] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: eu 1,80, 80kg, loiro e olhos castanhos, ela 1,75, 68kg loira e olhos verdes
    [21:35:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: o q vcs procuram?
    [21:35:34] h mama h diz para Todos: algum cara aí afim? tenho local na ZN
    [21:35:43] paulo17 sai da sala.
    [21:35:55] Safado CAM sai da sala.
    [21:36:10] H66 diz para Madura CAM: vc é homem seu viado
    [21:36:13] H66 diz para Todos: cuidado!!!! a Madura CAM é uma bixa loca
    [21:36:30] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:36:40] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: uma aventura com um casal discreto e vc?
    [21:37:13] H pintudo entra na sala.
    [21:37:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: isso aí tbem rsrs
    [21:37:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: uma aventura sem compromisso
    [21:37:30] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: vcs já saíram com outros casais?
    [21:38:05] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: não, e vcs?
    [21:38:30] M inversão diz para H66: me dexa em paz seu escroto
    [21:38:40] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tbem não
    [21:38:55] renato bi sai da sala.
    [21:39:03] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: o q vcs quiseram dizer quando disseram que gostam de fazer tudo? rsrs
    [21:39:19] Evangélica amizade sai da sala.
    [21:39:30] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:39:50] M inversão sai da sala.
    [21:40:18] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: nós dois somos bi, gostamos de tudo entre 4 paredes rsrsrs
    [21:40:30] Hserio sai da sala.
    [21:40:47] Mario 47 entra na sala.
    [21:41:09] PAU DURO CAM sai da sala.
    [21:41:30] Moreno22 diz para Todos: aumente seu pênis de forma natural. {www.penislandia.cz}
    [21:41:51] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: do que vcs gostam?
    [21:42:03] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: a gente estava pensando mais em uma troca de casais
    [21:42:13] Caroline entra na sala.
    [21:42:31] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: podemos fazer várias trocas rsrsrs
    [21:42:47] Elton21anos sai da sala.
    [21:43:11] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: não sei, nunca transei com outro homem
    [21:43:21] DotadoCAM entra na sala.
    [21:43:30] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: minha esposa disse que já transou com outras mulheres na faculdade
    [21:43:40] DotadoCAM diz para Mulher Perdida: oi
    [21:43:43] DotadoCAM diz para h passivo: oi
    [21:43:48] DotadoCAM sai da sala.
    [21:44:11] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: as coisas acontecem de forma natural
    [21:44:19] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: o q rolar rolou rsrsrs
    [21:44:32] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: seu marido sai com outros homens sempre?
    [21:44:50] Hilda Hilst sai da sala.
    [21:45:09] Matheus sai da sala.
    [21:45:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: não, a gente tem uns brinquedinhos para se divertir
    [21:45:30] Ninfa diz para Todos: famoso confessa que gosta de transar com cabras {www.semvergonhadacabra.hg}
    [21:45:48] Caroline diz para Ksado43: 18
    [21:46:12] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: desculpem, mas acho que isso não vai dar certo
    [21:46:22] Caroline diz para Ksado43: q nojo
    [21:46:34] Caroline sai da sala.
    [21:47:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tudo bem
    [21:47:22] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:47:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: até
    [21:47:30] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: até
    [21:47:45] Ksal Discreto sai da sala.
    [21:47:55] Ela&Ele sai da sala.
  • Belezas

    A visão do mundo quando bom
    desperta dos estalos das cordas, do som
    assusta-me, como cativa-me...
    bruta como o silêncio anormal
    de um órgão esquecido
    no vazio de sua catedral.

    A visão do mundo quando bom
    una, dona de belas aparências,
    confunde-me, como expressa-me, furiosa e fervente
    melancólica como o escuro azul
    e azul como o fogo mais quente.

    A visão do mundo quando bom
    está no teu calcanhar enquanto te sigo
    ao fim do mundo, o apocalipse, ou à imperdoável morte do meu coração
    e por todos os caminhos, ando contigo
    sem deixar o olhar sequer cair ao chão.
  • Bistância

    tele   visão
    tele   vazão
    tele   vazio
  • Bom dia!

    Que o sol ao nascer te faça sorrir, te mostrando que mais um dia se inicia. Que o vento leve os seus sonhos até Deus e que tudo se realize. Mas, quando entardecer e tudo escurecer, não desamine.
    As estrelas vão brilhar e logo mais a lua aparecerá. Mas, se as nuvens cobrirem o céu, feche os olhos e perceba, que nem todos os dias terminam como a gente quer, mas, podem começar como a gente sonha.


    Luca Schneersohn
  • Bonança

    Não era apenas a música que as massas ouviam que tinha péssima qualidade.   
    Esse era apenas um dos sintomas de um processo de imbecilização coletiva, um plano de ação contínuo por parte da grande mídia.  
    Todas as classes sociais são afetadas, e para Zími era difícil entender o porquê de tanta falta de sensibilidade diante da necessidade de rejeitar o esdrúxulo, em nome do respeito à própria inteligência.  
    Um plano muito bem sucedido que controla o rebanho humano com facilidade assombrosa. 
     Para esse caso, as massas são controladas pela imbecilidade através de conteúdo imbecilizante.  
    Também são controladas pelo medo, e para esse caso há pastores que vendem até terrenos no céu.  
    Num período anterior à formação de sua banda, o duo Crop Circles, quando ele já atribuía essa imbecilidade coletiva à falta de qualidade humana, sua atual parceira musical Mila Cox o havia tirado, anos antes, de um plano de sociabilidade que beiraria o zero.   
    Ele tramava viver o mais livre possível das pessoas.   
    Sabia que para se aguentar vivo precisava correr na direção contrária àquela que a multidão seguia. 
    Seria para sempre escravo da necessidade de dinheiro, mas jamais formaria uma família tradicional brasileira, tendo em mente que jamais teria filhos, por todos os motivos possíveis. 
    A necessidade de muito mais dinheiro era a razão principal para não constituir uma família nos moldes convencionais, mas todo o resto era também assustador. 
    As crianças que ele via no prédio em que morava lhe pareciam robozinhos de apartamento, protegidos até mesmo de inimigos imaginários, jogando bola no carpete e empinando pipa perto do ventilador, quando não estavam jogando videogame. 
    Entre os excessos e as restrições, os adultos que as condicionam a essa vida viviam cheios de rancor, sob a falsa segurança de garantias trabalhistas, agonizando com a sensação de ter o tempo de vida se esgotando e sem nenhuma perspectiva palpável de felicidade verdadeira. 
    Esse esgotamento nas relações com o senso comum foi sanado apenas pelo acaso.   
    Ele não pensava mais em tentar fazer música.  
    Já havia integrado diversas bandas, muito mais para saciar sua necessidade de diversão do que por acreditar que iria muito longe nessas empreitadas. 
    Queria então se tornar escritor recluso e publicar livros apenas para que de alguma forma a arte desse sentido à vida de copywriter, que pagava suas contas.   
    Bandas também davam despesas, brigas e chateações de vários tipos. 
    Zími queria escrever sobre quão ridículos considerava os anseios da sociedade, individual e coletivamente.   
    A ideia de se juntar a Mila Cox e formar os Crop Circles partiu dela, e a princípio parecia tão absurda para ele, que foi aceita, só para que ele visse onde podiam chegar.   
    Nenhuma outra pessoa seria capaz de convencê-lo.  
    Ela tinha um gigante descontentamento com a sociedade paternalista e autoritária em que viviam, algo que Zími não via nas pessoas jovens e alienadas da idade dela, que tinha dezenove anos quando se uniram para fazer música. 
    Mila Cox era uma garota que Zími poderia reconhecer de tão longe quanto pudesse enxergar, apesar de ela ter um metro e sessenta e cinquenta quilos. 
    Zími não via também tal inconformismo nas pessoas de sua idade, uma geração estagnada no conformismo e na escravidão assalariada que era regra para que se considerassem dignos de se declararem cidadãos. 
    Juntos eram uma dupla que tocava sem guitarrista, com ela tocando seu Fender Jazz Bass azul a frente de um sintetizador e ele com seu kit minimalista de bateria que era tocado de pé, e ambos se alternando nos vocais. 
    Desde então, trataram de temas como liberdade, vergonha alheia, políticos escrotos, pastores vigaristas e descascando os charlatões de um modo geral.   
    Dividindo a autoria das canções com Mila Cox, Zími conseguia dar alguma vazão às suas pretensões literárias, confrontando a xenofobia e o provincianismo, que fizeram com que o melhor da música produzida no país ficasse restrita ao underground.   
    Havia uma banda chamada The Sun Also Rises, que fazia um indie rock genérico e imitava o Echo and the Bunnymen, e que tocaria no aniversário de Thurston, agitador cultural conhecido de Mila Cox, que era chamado assim por sua semelhança com Thurston Moore. 
    Foi apenas por gostarem do nome da banda que Mila Cox e Zími resolveram marcar um show naquele fim semana, que anteriormente estava reservado para folga das atividades musicais da dupla.   
    Acharam que os nomes das duas bandas ficavam bem no mesmo flyer, e além disso o amigo e vizinho uruguaio Silvano estava livre dos compromissos extramusicais fazendo carretos, e teria sua kombi disponível para transportá-los. 
    O evento aconteceu em Mauá, e reuniu os Crop Circles, a apresentação solo de Silvano e as bandas The Sun Also Rises e Lombra.  
    Era uma casa ampla, que fora adaptada para esse tipo de evento, e embora fosse evidente que não tivesse qualquer alvará para que shows fossem realizados ali, contava com o apoio dos vizinhos, que sempre faziam parte considerável do público presente. 
    Tinham sorte de conhecerem algumas pessoas que pensavam como Thurston, já que muitos lugares que outrora foram focos de alguma efervescência cultural alternativa estavam agora gourmetizados e hipsterizados. 
    Naquele sábado, Silvano fez o show de abertura, uma banda de um homem só, que tocava guitarra sentado para que pudesse fazer a parte percussiva com os pés. Era algo que resultava numa intersecção entre o punk e o blues.  
    A banda Lombra, que parecia tentar imitar o Circle Jerks, fez o segundo show, seguido pelos Crop Circles e com a banda The Sun Also Rises encerrando o evento, pouco antes das dez horas da noite. 
    Um típico dia de show para Mila Cox e Zími. 
    O que havia de especial para eles nesses dias não era glamour. 
    Tratava-se de um exercício de resistência contra o triste destino pré-programado da maioria das pessoas que os cercavam. 
  • BREVE HISTÓRIA DO IMPÉRIO EM TEOMAKIA

    No continente de Éos, mais precisamente na região central, localiza-se o Império Sagrado. Este, estabeleceu-se numa vasta região, onde se localizavam dezenas de tribos, com idiomas bastante similares, que eventualmente foram unificadas em 8 pequenas nações. Como era natural que ocorresse, essas nações acabaram por se tornarem em monarquias rudimentares, as quais entravam em constantes guerras e alianças. No fim desse período, numa fase semelhante a baixa antiguidade, quatro reinos restaram, tendo cada um anexado um dos demais por meio de casamentos e/ou tratados de unificação. Havia uma peculiaridade nesses reinos.
    Haviam quatro portadores de poderes sobrenaturais que passavam seus poderes para sucessores. Não se sabia exatamente como isso tudo funcionava, mas eles naturalmente tornaram-se generais em seus respectivos reinos. Tradicionalmente, esse poder, conhecido como "A Virtude" no Reino do Sul e regiões próximas e como "O Legado" nos demais reinos, era transmitido somente dentro de determinadas tribos, que tornaram-se clãs. A influência de cada um desses clãs aumentou ao ponto de que, adentrando aquela civilização em uma condição social de feudalismo, tornaram-se todos esses clãs, em seus respectivos reinos, famílias tradicionalmente nobres. Assim que cada um dos 8 reinos se unificou a um outro, os tratados tenderam para centralizar o poder na figura do portador do Legado. 
    Passados mais alguns anos, a religião comum de toda essa região, a Doutrina, passou a ser ameaçada por religiões de povos do leste. Foi então iniciado um processo de unificação forçada, visando um esforço de defesa. Ocorreu que a falta de articulação entre os reinos resultou em uma derrota quase absoluta: um vasto território de quase 3 milhões de km² foi tomado de assalto por centenas de inimigos com habilidades sobrenaturais, liderados por dois generais imortais, sendo um homem e uma mulher. Acredita-se que eram deuses. Todos os 4 portadores foram eliminados, sendo substituidos por seus herdeiros aprendizes. Entretanto, sendo ambos ainda muito jovens, preferiu-se uma estratégia de menos enfrentamento e de poupar suas populações. Os quatro reinos foram reduzidos a uma pequena parte do norte do antigo Reino Ocidental. Foi então firmado um tratado de paz com os deuses. 
    Na pequena parte reduzida dos quatro reinos, eles foram unificados em um, com um monarca eleito entre os líderes de clãs. Foram criadas também as cátedras, títulos militares dados aos portadores. Mais sete anos e iniciou-se um processo de retomada do território. Os quatro Catedráticos lideraram os exércitos em consecutivas vitórias, reconquistando quase metade do território perdido em cerca de cinco décadas. Seus sucessores retomaram quase o mesmo território dos anteriores em cerca de três décadas. Estes, por sua vez, escolheram aprendizes jovens. Os quatro jovens escolhidos foram os últimos até o início da história contada de Teomakia. Após a reconquista de tão vasto território, estabeleceu-se a capital real numa região ao sul do continente, Augusta. Foi estabelecido o Senado, tendo presença de cada um dos chefes dos clãs tradicionais, os quais eram responsáveis pela eleição do Prínceps (o monarca, o primeiro cidadão). Ao Prínceps, após coroação da Doutrina, é dado o título de Imperator. 
    O atual Imperator é Tiago Primeiro, Prínceps, Imperator e Rei de Australis, Occidentalis, Orientalis e Septentrionalis. Os catedráticos no início da história são: Aidan Silva, Barão da Colina, Herói de Australis e Catedrático do Fogo; Éolo Piero, Duque de Sol, Paladino e herdeiro de Orientalis e Catedrático do Ar; Orlando Mercio, Marquês do Ocidente, Protetor de Occidentalis e Catedrático da Terra; e Adriano Gelo, Duque de Fluvius, Defensor e herdeiro de Septentrionalis e Catedrático da água. 
    A Cátedra é tradicionalmente passada a um nobre, do sexo masculino, de clã reconhecido, puro de ascendência filho legítimo.
  • Caçadora

    Já haviam se passado dois dias desde que os sequestros começaram, as delegacias da região estavam lotadas de policiais e informantes, todos desesperados por uma única pista. Nos hospitais seguranças cercavam os berçários, pais nunca deixavam um enfermeiro ficar a sós com seus filhos. Dois dias, quarenta crianças, todas tiradas dos braços das mães em sete diferentes hospitais da cidade.
    Sofia tentara rastrear os sequestradores a partir de câmeras de segurança, mas não conseguiu nada além do que a policia tinha, os bebes eram pegos por enfermeiros que trabalhavam nos hospitais, eles aparentavam estar fazendo seu trabalho de rotina, contudo, nunca chegavam ao destino, desapareciam dentro de um carro junto com a criança, tudo pego pelas câmeras.
    No primeiro dia dez roubos dentro de uma hora, dois recém-nascidos e oito que já estavam a mais de um dia no berçário, quando chamaram a policia já haviam desaparecido, essa primeira onda ocorreu somente em um hospital, os outros trintas seguiram o mesmo padrão no dia seguinte, menos de uma hora e em seis hospitais diferentes. As câmeras de trânsito não conseguiam acompanhar os criminosos, haviam poucas e cobriam somente uma parte pequena das ruas.
    A cidade inteira estava em pânico, a mídia não saia de cima da polícia, os gerentes dos hospitais estavam ocupados demais tendo que atender advogados que ameaçam processos milionários, Sofia sabia que quanto mais alvoroço acontecesse, mais as pessoas deixariam passar os detalhes, então estava na hora dela agir.
    Após assistir as câmeras diversas vezes, juntou os seguintes padrões, o comportamento dos enfermeiros até recolherem as crianças eram normais, nenhum dos quarenta apresentara qualquer sinal de nervosismo, nenhum teve qualquer contato estranho ou incomum entre eles, ou seja, sequestrador com sequestrador, assim como agiram de forma completamente confortável quando saíram do hospital e entraram no carro, o mais provável era que o quer que tenha motivado os roubos tenha acontecido entre os segundos em que as câmeras não pegavam eles, se tornava difícil notar qualquer interação com outros possíveis cumplices nesses momentos, ninguém estranho, tudo em perfeita ordem, parecia completamente inútil.
    O único detalhe que juntava todos os membros como cumplices era que em cada roubo o carro do sequestrador pertencia a outro sequestrador, todos segundo os familiares sem qualquer ligação. Os carros foram encontrados, estavam separados em diversos bairros da cidade, sem GPS, sem os donos, sem pistas.
    No primeiro dia vinte minutos após chamarem a policia as BRs que levavam para fora da cidade estavam fechadas, no segundo dia elas foram reforçadas, a guarda nacional ajudava a cercar a cidade, ninguém passava sem ser visto, pelo menos era isso que eles queriam acreditar, o mais provável era que as crianças ainda estivessem na cidade, a questão era acha-las.
    Sofia pensou em qual seria o próximo passo da polícia, estavam prontos para invadir todo e qualquer lugar que pudesse abrigar quarenta recém-nascidos, quanto tempo demorariam para conseguir a permissão? Algumas horas?! Ninguém conseguiria esconder-se por tanto tempo com esse número de reféns, os planos eram outros, talvez aquelas crianças não tivessem algumas horas.
    Eram quatro horas da manhã, Sofia decidiu que não valia a pena correr atrás de todos os quarenta suspeitos, escolheu um, Carlos Mendonça, quarenta e dois anos, residia no hospital a mais de uma década, casado e com três filhos, um homem normal, pai amoroso e ótimo jogador de cartas segunda a esposa. A casa do suspeito ficava próximo a casa de uma das vítimas, podia ser coincidência ou ele podia estar de olho na gravida a muito tempo.
    A menina esgueirou-se pelo jardim da casa, sempre de olho para que ninguém a visse, escalou até o segundo andar onde sabia por informações recolhidas de conversas com “vizinhas informantes” (fofoqueiras) que ficava o quarto do suspeito e sua esposa. A janela estava fechada, mas era de vidro e por ela podia-se ver uma mulher de idade já avançada deitada na cama em um sono profundo, um sono que conseguira a muito custo, isso era o que indicava os frascos de soníferos ao lado da cama. Outro motivo pelo qual Sofia escolhera aquela família em especial era por que fora uma das primeiras entrevistadas, metade dos familiares de suspeitos ainda estavam na delegacia e a garota preferia fazer seu trabalho longe da polícia.
    Todos na vizinhança dormiam, tão calmos e ao mesmo tempo tão desesperados, Sofia desceu para o jardim, encontrou a porta dos fundos e com um grampo abriu a fechadura como se fosse um jogo de criança.
    Andou pela casa sorrateiramente, procurou pelos filhos, mas eles não estavam, deviam ter sido mandados para os cuidados de algum parente para evitar que comtemplassem a tristeza da mãe, era uma coisa boa, não seria interrompida. Subiu as escadas, fechou as cortinas do quarto, vestiu uma mascara completamente branca que só possuía buracos para os olhos e foi em direção a cama.
    - Cristina! – sussurrou bem perto do ouvido da mulher, mas não surgiu efeito.
    - Cristina! – voltou a repetir, agora mais alto dando um empurrão na dorminhoca.
    A mulher resmungou um pouco, virou-se de frente para a menina e quando abriu os olhos, entrou em desespero, tentou gritar, mas uma mão tapava sua boca. Seu próximo instinto foi pular para fora da cama, novamente frustrada, desta vez devido a faca de caça que repousava em seu pescoço.
    - Não quero ter de usar meios violentos. – disse Sofia – mas não hesitarei um segundo se me obrigar a fazê-lo, estamos entendidos?
    A mulher com os olhos arregalados e cheios de medo acenou com a cabeça de forma afirmativa. Sofia retirou a mão que tapava a boca da vítima, mas manteve a faca,
    sentou-se na cama confortavelmente enquanto era observada pelo olhar amedrontado de Cristina.
    - É... é dinheiro? – perguntou a mulher gaguejando – Te... te... tem no... co... co... cofre, a senha é 2...2... 4...
    - Isso não é um assalto!
    A mulher permaneceu um momento em silencio, então pediu se poderia sentar, Sofia permitiu, contudo, sem remover a faca do pescoço da vítima.
    - É meu marido? – perguntou a mulher com os olhos cheios de lágrimas. – Você é uma parente?
    - Não Cristina, sou só alguém querendo fazer a coisa certa.
    - Com uma faca?
    - Com os meios que a justiça despreza, mas necessita.
    As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto da mulher. – Eu não tenho nada a ver com isso, meu marido também não, é um grande engano, ele é uma boa pessoa.
    - Ele sequestrou um bebe e desapareceu, não é a definição correta de boa pessoa.
    - Você não entende, ele não pode ter feito isso, ele é um homem carinhoso, um pai de família gentil, nunca esquece meu aniversário, continua dizendo que me ama todos os dias mesmo depois de vinte anos de casamento.
    - Parece perfeito demais não acha?!
    - Por que está aqui? Tem alguma pista dele, tem dele algo a mais que os outros? Não conheço todos os envolvidos, mas tenho certeza que assim como meu Carlinhos eles são vítimas de alguém que os manipulou.
    - Acha mesmo que ele é inocente?
    - Eu conheço meu marido!
    - Então consegue imaginar alguma oferta que o teria feito repensar seu estilo de vida? Dinheiro, algum favor especial talvez?
    - Dinheiro? Eu sei que ele é só um enfermeiro, mas dinheiro nunca foi um problema, ele herdou uma fortuna de seus pais, poderia ter pego tudo e ido embora, em vez disso dedica todo dia cada centavo dele para dar a mim e a nossos filhos a vida mais alegre que poderíamos desejar.
    - E onde está sua alegria agora?
    A mulher caiu em prantos e Sofia não demonstrou qualquer sinal de pena diante da cena, assim como sua mão não afrouxou no pescoço da refém.
    - Temos um problema aqui! – disse a menina – Tudo indica que seu marido faz parte de algum grupo de lunáticos que resolveu sequestrar quarenta crianças de uma vez só em um período de dois dias, sabe o quanto isso é insano? Não faz o menor sentido! Sabe, eu gostaria que ele não fosse culpado, acredite em mim, assim eu pouparia uma bala na hora de matar os responsáveis, o problema é que preciso de uma outra teoria que o livre dessa, você tem alguma?
    - Ah...ah... Não sei... ah... Talvez alguém parecido com ele, talvez... eu não sei... – a mulher voltou a chorar, tentou controlar quando sentiu o fio da navalha apertar mais contra seu pescoço.
    - Vamos lá Cristina, eu não tenho muito tempo.
    - EU NÃO SEI! Bolar uma teoria não deveria ser o seu trabalho?
    - Estou sem ideias, preciso de uma segunda opinião, que tipo de grupo é lunático a esse ponto?
    - Tráfico sexual, trabalho infantil, órgãos, EU NÃO SEI!
    - Sabe qual é o problema com esses grupos Cristina?
    - Eu... eu... eles... não fazem escândalo?!
    - Exatamente! Você não está se esforçando para livrar seu marido dessa Cristina.
    - ELE É INOCENTE! Porque não acredita em mim?! Eu não sei de nada, ele era um bom homem, meu deus ele até doava dinheiro para igreja todo mês.
    Sofia suspirou desapontada, retirou a faca da garganta da vitima e a guardou no sapato, as duas permaneceram em silencio por um momento, até que a menina notou algo no que havia ouvido.
    - Vocês são religiosos? – perguntou ela a mulher.
    - Não exatamente! A religião vem de família, mas as doações são nossa única ligação com esse tipo de culto atualmente e é só porque a igreja faz obras de caridade ou algo assim...
    - Está me dizendo que não sabe exatamente para que a igreja usava o dinheiro?
    - Era o... era... meu marido... que... cuidava disso... você... você acha que...
    - Um homem perfeito?! Talvez você esteja certa e não seja nada, mas só por precaução vou checar para onde o dinheiro ia, tem pelo menos o nome da igreja?
    Alguns quilômetros longe dali, dentro de uma cafeteria vinte e quatro horas, Sofia procurava em um dos computadores do estabelecimento, tentando encontrar informações sobre o Centro de fé e contemplação do senhor Jesus Cristo. Era uma comunidade bem grande, muitas propagandas sobre obras de caridade, embora as igrejas deste culto fossem templos pequenos e espalhados em vários pontos da cidade, todos os anúncios traziam consigo a imagem do patrono da religião, o padre
    Deo Missusa, latim, se fosse escrito Missus a Deo significava enviado de deus, Sofia entendia um pouco de latim e essa podia ser novamente só uma coincidência, mas aquele parecia ser um nome inventado, do tipo que artistas usam para parecerem mais chamativos.
    “O que Deus diria disso?!” pensou ela.
    Após alguns minutos de pesquisa encontrou um numero de telefone, sabia que não ajudaria muito, mas resolveu tentar um contato com o próprio “Enviado de Deus”, através da linha de ajuda a viciados. Saiu da cafeteria, encontrou um lugar sossegado e então telefonou, foi quase que imediatamente atendida por uma mulher.
    - Centro de fé e contemplação do senhor Jesus Cristo, que a benção do senhor esteja com você, com quem estou falando?
    Sofia enrugou um pouco a voz para parecer rouca – Meu... Meu nome é Karine, eu... eu preciso de ajuda... eu quero me matar.
    Houve uma comoção do outro lado da linha, outra pessoa assumiu o telefone, desta vez um homem, afinal, a linha era para viciados, não suicidadas. – Boa noite Karine, meu nome é Jeferson, estou aqui para te ajudar, preciso que continue na linha ok? O senhor nosso deus tem um proposito para você, sua vida tem um valor inestimável...
    Sofia resolveu criar um pouco mais de drama – Onde está a mulher? Eu estava falando com uma mulher? – ameaçou um choro – Porque todo mundo me passa para outra pessoa?
    - Karine, eu preciso que se acalme ok?! A irmã Maria está aqui comigo, ela não saiu, eu pedi para assumir o telefone, já lidei com isso antes querida, tem algo que deseje em seu coração?
    - Deo!
    - Como?
    - O padre Deo está ai?
    - Sinto muito querida, o padre encontrasse em seus aposentos, mas Deus fala através de todos nós, pode falar conosco e estará falando com Deus.
    - Por favor! – Sofia fingiu que estava chorando, parecia bem convincente, era uma ótima atriz – eu estava... estava vindo para cá, pronta a pular, pronta a tirar minha vida, então eu vi, eu vi um cartaz, era o padre Deo, é um sinal, meus pais sempre foram religiosos, eu nunca liguei para essas coisas, por favor, eu preciso falar com o padre, ou então não tem porque eu continuar nessa ligação.
    A resposta foi rápida – Tudo bem Karine, eu preciso que prometa continuar na linha, não faça nada precipitado, vamos tentar entrar em contato com o padre, mas enquanto isso, porque você não nos dá sua localização?! talvez o padre possa te encontrar pessoalmente.
    - NÃO! Vocês estão mentindo, vão chamar a polícia, vão me mandar de volta para aquela maldita clínica, EU QUERO FALAR COM DEO OU VOU PULAR!
    - Calma Karine, estamos ligando para o padre agora mesmo...
    A ligação se estendeu por alguns minutos com Jeferson incentivando o tempo todo para que a vitima se acalmasse e tivesse paciência, Sofia por sua vez mostrava cada vez mais sinais de impaciência para que agilizassem as coisas, por fim a ligação foi passada para o “Santo Deo”.
    - Que a benção do senhor esteja com você, o que há em seu coração querida? – perguntou o padre.
    Era hora de decidir bem o que dizer, Sofia queria saber se a igreja tinha algo a ver com os sequestros, pensou em alguns dos sequestradores. – Meu nome é Karine... meu pai era Gregório Castro...
    Sofia não disse mais nada, esperou uma reação.
    - Um dos sequestradores?! – disse o padre.
    “E o peixe morde a isca” pensou a menina, mesmo que tivesse visto todas as notícias seria difícil decorar todos os quarenta nomes, muitos dos jornais nem se deram ao trabalho de citar todos os envolvidos, de novo, poderia ser coincidência, mas a garota chegara até ali com algo extremamente banal como contribuições para caridade, não tinha porque não ir a diante.
    - Ele falava muito da igreja – Sofia continuava com a voz de choro – você o conhecia?
    - Deus conhece todos os seus servos minha querida, mas eu sou só um mortal, não tive a honra de conhece-lo, tenho certeza que era um bom homem...
    - Então porque ele...
    - O diabo as vezes tem vitórias que não conseguimos entender, mas Deus sabe a hora de agir, se seu pai era um bom servo, tenho certeza que Deus perdoara seus pecados.
    - E os seus, padre?
    - Meus?!... meus pecados? Somos todos iguais aos olhos de Deus.
    - Ele sempre doava dinheiro para igreja! – disse Sofia atirando no escuro.
    - Ele era um doador fiel da caridade sim, e Deus ajuda quem ajuda os desfavorecidos.
    Uma ligação, havia uma ligação entre dois suspeitos, ambos doavam para igreja, como sempre sem provas, mas as coincidências continuavam a aparecer.
    - O que está pensando em fazer querida? – continuou a falar o padre – É por isso que está pensando em cometer o pecado do suicídio, por causa dos pecados de seu pai?
    - Como posso viver com isso padre? Minha amiga pensa do mesmo jeito, a mãe dela também fez isso, era uma boa mulher – mais uma tentativa, Sofia pensou em outro
    nome entre os sequestradores - Julia Tália Santos, sempre doava para sua caridade – esperava outra mordida, mas as coisas mudaram a partir daí.
    - Quem é você? – perguntou o padre de forma fria.
    Nesse instante Sofia entendeu que fora descoberta, estava ligando pontos demais, pedindo informações demais, e o líder de um culto só podia ser burro até determinado ponto ou não seria o líder.
    - Onde estão eles? – perguntou a menina.
    - Os sequestradores? Porque eu deveria saber disso?
    - Porque eles trabalham para você, porque sua maldita igreja sequestrou quarenta crianças e posso apostar que não faz parte de um programa de caridade.
    - Dominus tem um grande plano para elas, você é uma criatura sem fé, não entenderia.
    - A policia está ouvindo essa conversa!
    - Não está não! – disse o padre com confiança – essa é uma linha privada, já tenho sua localização e alguém de olho em você, é só uma adolescente metendo o nariz onde não é chamada...
    Sofia desligou o telefone e olhou em volta tentando encontrar os olhos do padre em algum lugar, não havia ninguém, estava sozinha, a rua era silenciosa e ao longe os primeiros raios de sol nasciam, ela suspirou aliviada e ao mesmo tempo sentindo o coração pular para fora do peito.
    Agora que já sabia que a igreja realmente tinha algo a ver com isso ela tinha que encontrar um modo de chegar até eles, estariam em um grande culto ou algo assim, devia haver muita gente envolvida, não que fossem fazer isso em um lugar público, mas devia ter um jeito de chegar a eles.
    Sofia entrou novamente na cafeteria, era a única cliente ali, pensou em pedir algo, passara muito tempo sem comer nada, foi até o balcão e enquanto avaliava as opções notou vários cartões de visita, taxis, livrarias, grupos de ajuda, e lá estava ele, a imagem de Deo “Faça parte da nossa comunidade!” dizia o cartão.
    - Vai pedir? – disse o garoto atrás do balcão assustando Sofia que estava focada nos cartões.
    - Não! – respondeu ela rápido – desculpa, quero dizer, estou escolhendo ainda.
    O garoto sorriu e de forma graciosa fez uma reverencia, Sofia riu e voltou os olhos para o cardápio. Ao fundo ouviu o telefone tocar, o garoto atendeu imediatamente, deixando a menina sozinha com as opções.
    Seria um dia puxado, ela precisava de energia, começara a pensar que se metera com algo muito grande, afinal, estava sozinha, passou os olhos pelo hambúrguer e pela
    torrada, pensou em pedir talvez um pastel, estranhamente estava com vontade de comer pastel.
    - Karine? – perguntou o atendente.
    Sofia ergueu os olhos a tempo de ver um teaser ser disparado contra seu peito, ela tombou no chão com 50 mil volts passando pelo seu corpo, tremia freneticamente, já tinha feito treinamento com armas de choque, não era algo fácil de suportar, conseguiu com muita força arrancar os ganchos que lhe transmitiam a corrente, mas ficou no chão convulsionando. O menino ficou lá, com um olhar catatônico, observando sua presa, após alguns segundos pegou a faca que era usada para cortar os bolos e deu a volta no balcão indo em direção a sua vítima.
    Sofia ainda tremia, mas levar tantos choques nos treinamentos devia valer alguma coisa, pois ela conseguiu se levantar, cambaleou para longe do atacante, mal conseguia se manter de pé, sua única opção era tentar aguentar até que seu corpo tivesse condições de lutar.
    O menino se aproximou rapidamente enfiando a faca no braço de Sofia, ela gritou de dor e voltou a tombar ao chão, desta vez levando uma serie de mesas e cadeiras junto, a faca não entrara muito fundo, acabou caindo durante a confusão. O atendente pulou em cima da pobre garota desferindo diversos socos em um ritmo frenético, a cada golpe a consciência de Sofia ia esvaziando, “como pudera ser tão descuidada?” pensou ela “Não notara um agressor tão próximo, tanto treino, tanto esforço para acabar assim?! Não! ainda não estava acabado”.
    Um movimento rápido entre um dos socos, uma cabeçada, as cabeças se chocaram forte o suficiente para empurrar o garoto para trás. Sofia encontrava-se exausta, afastara o inimigo, mas por quanto tempo? Não tinha mais forças para lutar, para sua surpresa, não precisaria mais lutar.
    O garoto começara a resmungar de dor, perguntando o que diabos tinha acontecido, ficaram ali por alguns minutos, os dois, Sofia em um estado bem pior que o garoto, até que o seu ex-inimigo veio ao seu socorro, ajudou a levanta-la, correu pegar o kit de primeiros socorros quando viu o estado do corte em seu braço e enquanto limpava o ferimento a garota aproveitou para perguntar algo que já imaginava.
    - Você tem alguma ligação com Deo?
    - O cara da igreja? Não!
    - Como conhece a igreja? – perguntou apontando para os cartões de visita.
    - Fiz uma doação! Para um programa de viciados e... a mais ou menos um mês atrás me convidaram para uma comemoração para doadores, era um tipo de palestra, dormi a sessão inteira, me deram os cartões na saída.
    - Soldados russos! – disse Sofia, agora entendia o que havia acontecido, como todas aquelas pessoas tinha sido convencidas a fazer o que fizeram.
    O garoto olhou em volta, somente agora parou para tentar entender o que havia acontecido, o teaser para ladrões estava em cima do balcão, acabara de ser usado, uma faca ensanguentada estava caída no chão, sentiu-se horrorizado, havia feito aquilo com a menina.
    - Não se preocupe, não vou contar para ninguém – disse Sofia – desde que não conte que estive aqui.
    O garoto tinha muitas perguntas, mas foi convencido a deixar que a garota fosse embora sem responder nada, e com o aviso para que não atendesse o telefone.
    Soldados russos, fora isso que aconteceu, os doadores que compareceram a reunião de comemoração foram hipnotizados para serem como soldados russos, ativados com algum sinal, prontos para executar qualquer ordem que lhes fossem dada, seriam necessários apenas alguns segundos para ativar as marionetes durante os sequestros, poderia ser qualquer um a fazê-lo, bastava algum sinal pré-programado. A reunião havia acontecido segundo o garoto no subsolo da decima terceira cede da igreja, todos dormiram na reunião, motivo pelo qual não falavam dela por ai, talvez estivesse erada, mas tinha a impressão que seria lá que o quer que estivesse acontecendo seria realizado.
    Oito horas da manhã Sofia já se encontrava livre de quase todas as dores, sangramento estancado, ferida limpa, estava na hora da caçada. A garota finalmente se vestia para um combate, botas de couro, uma malha que absorvia impactos, duas facas na cintura, duas facas nas botas, cobrira tudo com um sobretudo preto, e a ultima peça era um rife de caça com dardos tranquilizantes que guardou dentro de um case de violão junto com sua máscara, na rua pareceria uma menina comum, quem a via mal sabia que estava indo em direção a uma guerra.
    Passou algumas vezes por frente de televisões que anunciavam a invasão da polícia em vários pontos da cidade, a guarda nacional estava ajudando, vários vídeos eram gravados a partir de câmeras de celular, o perímetro das invasões era sempre evacuado, podiam estar lidando com terroristas, não encontrariam nada e demorariam muito tempo para fazer isso.
    Demorou uns quarenta minutos até chegar a igreja, não havia ninguém ali, não na parte de cima pelo menos, Sofia levou um tempo para achar a entrada do subsolo, lá em baixo parou na escada, ficou abaixada observando a sala, era um lugar imenso, bem maior que o andar anterior, a porta lacrava a sala e impedia que qualquer som saísse de lá.
    Os fieis podiam ainda não estar ali, mas os sequestradores estavam, todos desacordados amarados em cadeiras, vendados e amordaçados. Sofia não conseguia ver os recém-nascidos, mas agora tinha certeza que aquele era o lugar certo. Em um canto do salão arrumando o que parecia ser um palco estavam dois homens grandes vestidos de branco com sinais de cruzes invertidas desenhados em seus trajes, a garota não podia ser burra e enfrentar os dois em uma luta corpo a corpo, seria esperto
    guardar os dardos do rifle para quando estivesse em real perigo, por hora faria tudo com calma, para começar colocou a mascara branca, não podia ser reconhecida.
    Tentando ser a mais silenciosa possível esgueirou-se pelo canto do salão, aproveitando que os dois grandões estavam distraídos em uma discussão calorosa sobre a posição de uma das peças de madeira. Quando conseguiu alcançar o fim do salão, entrou em baixo do palco e de lá engatinhou até que estivesse ao alcance dos calcanhares dos dois, com um movimento rápido puxou as facas da cintura e cortou os tendões acima dos calcanhares, imediatamente os dois homens tombaram de bruços no chão, Sofia saiu do esconderijo e apertou a faca contra a garganta dos monstros de branco, os dois ficaram paralisados com as laminas ameaçando acabar com suas vidas.
    - Onde estão os bebês? – perguntou ela.
    O grandão do lado direito resmungou – Sua vadia, não vamos falar nada, Dominus vai cuidar de você, estará morta assim que Deo chegar.
    A lâminas foram pressionadas com mais força e uma linha de sangue escorreu pelo pescoço.
    - Estão com os fies! – disse o do lado esquerdo em desespero – a gente só banca o segurança, por favor, não me mata.
    - CALADO IDIOTA! – gritou o outro.
    Sofia retirou a faca do pescoço do da direita e com o cabo lhe deu uma coronhada que o fez perder a consciência, enfim, voltou a atenção para o da esquerda. – Continue a falar.
    - Eles separam os bebes, não dava pra manter todos em um só lugar, vai ser hoje ao meio dia, era para ser a noite, mas tiveram que adiantar, todos reunidos... são sacrifícios... para Dominus, nunca foi feito antes, é o maior ritual, eles realmente esperam invocar esse tal Deus hoje...
    - Porque não se livraram dos sequestradores ainda?
    - Eles vão assumir a culpa!
    - Fui atacada fora daqui por alguém hipnotizado, quantos mais há?
    - Não sei, não cuido disso!
    A faca foi apertada mais fundo na carne gorda do pescoço. – Eu não sei, eu juro, sei que são bastante, tem até uns policiais, todos que doaram, e as pessoas doam bastante para essa igreja.
    - Então é provável que se eu ligar para policia vão saber que estou aqui e as crianças somem?
    - Bem provável!
    Sofia fez igual a antes e apagou o grandão com uma coronhada. Amarrou os dois, amordaçou-os e empurrou para de baixo do palco, onde não seriam vistos. Suas opções eram limitadas, precisava derrubar Deo antes de chamar a polícia, procurou pelo lugar coisas que talvez pudessem ser uteis, tomou cuidado o tempo todo, mas felizmente ninguém apareceu, por fim onze horas a portaa da escada se abriram e pessoas começaram a entrar, a menina estava escondida em cima de uma das vigas de ferro do teto junto com as lâmpadas, as luzes estavam viradas para o outro lado de forma que não dava par ver que havia alguém ali, o rifle estava pronto, Deo estaria no palco e seria o primeiro a cair.
    Os minutos iam passando e cada vez mais pessoas chegavam, alguns sem nada, outras com os bebes no colo. Todas as crianças foram colocadas no centro da sala junto com os sequestradores, aparentemente ter o sangue dos recém-nascidos nas roupas dos sequestradores fazia parte do plano.
    Deo foi o último a aparecer, cumprimentava a todos como se não estivessem para sacrificar quarenta crianças em um ritual macabro e insano.
    - Louvado seja Dominus! – disse ele ao se posicionar em seu lugar no palco, todos os fies repetiram em coro, devia ter umas setenta pessoas ali.
    Sofia pegou o celular, pronta a mandar sua localização para a polícia, assim que começasse a atirar ninguém mais poderia impedi-la, bastava um click e a ajuda estaria a caminho, infelizmente um estrondo forte assustou a todos e tomou atenção da garota. Um dos grandões que estava em baixo do palco havia acordado e se debatia feito um peixe fora da água.
    Os fieis se amonturam para tirá-los de lá enquanto outros procuravam ao redor da sala quem fora o responsável por aquilo. Deo parecia furioso, olhava para todos os lados imaginando quem ousaria se intrometer em um dia tão especial, eis que ele viu algo, viu o cano do rifle, viu a tempo de desviar do primeiro disparo, um alvoroço se estabeleceu, todos procuraram um lugar para se esconder e os bebes começaram a chorar em um coro que poderia derrubar um gigante, a confusão só aumentou, as pessoas corriam de um lado para o outro derrubando as cadeiras com os reféns que acordavam desesperados tentando se soltar.
    Sofia apertou o botão de enviar da mensagem e começou a disparar seguidamente os dardos contra Deo que corria de proteção em proteção fugindo dos disparos.
    - ELA ESTÁ NO TETO SEUS IDIOTAS! – gritou ele para seus fiéis.
    Alguém virou um foco de luz para posição da garota, agora todos podiam vê-la, estava exposta, os fieis que já haviam se acalmado começaram a atirar nela coisas que encontravam pelo chão, para sorte da garota todos eram péssimos de mira.
    Dois dos fieis decidiram escalar as paredes para poderem alcançar a posição da atiradora, nesse momento Sofia teve que mudar o seu alvo, derrubar os dois foi fácil, o
    problema é que outros decidiram fazer o mesmo e os dardos estavam acabando, sem falar que Deo ainda estava de pé.
    No centro do salão alguns dos sequestradores soltaram-se das amarras e pareciam estar cientes de sua situação porque não esperaram nem mesmo um segundo para sair dando porrada nos verdadeiros vilões. Deo gritava frases que deveriam ativar a hipnose, mas não funcionava muito, pois assim que alguém recebia um golpe na cabeça voltava ao normal.
    A briga ficava cada vez mais intensa, os sequestradores estavam bem mais irados, contudo estavam em menor número, havia alguns que nem se quer haviam sido desamarrados ainda, sem falar que tinham que sempre levar a briga para longe de onde estavam os bebes, quase ninguém mais se lembrava da menina que começara a confusão, o que fora muita sorte, já que os dardos haviam acabado.
    Deo por sua vez ainda se lembrava daquela pequena criatura, irado com o fracasso do seu plano e notando que sua saída de emergência fora trancada, pôs-se a escalar a parede para derrubar a criança. Ele subia rápido motivado pela raiva, nem esperou estar próximo ao alvo, se atirou agarrando a perna da menina derrubando os dois de cima da viga.
    Sofia ficou pendurada pelas mãos na barra de ferro, Deo estava logo abaixo pendurado em sua perna, era um lugar alto, se caíssem poderiam quebrar muitos ossos ou até mesmo morrer. O padre era bem mais pesado do que aparentava, fazendo com que a garota tivesse que aplicar muita força para não soltas as mãos.
    - O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO PIRALHA?! – gritou o padre.
    - ACABANDO COM UM GRUPO DOENTE DE LUNÁTICOS!
    A garota tentava chutar freneticamente o peso em suas pernas, mas a coisa abaixo dela parecia fortemente motivada a manter-se presa.
    Vendo uma oportunidade única Deo sacou uma das facas que ficavam na bota da menina e cravou em sua perna extraindo um grito de dor da pobre atiradora. Deo retirou a faca e quando estava pronto para mais uma facada a garota soltou a viga, os dois despencaram, o impacto com o chão foi forte, Deo pode ouvir suas costelas quebrando na queda, seus pulmões foram perfurados, sangue jorrou de sua boca, Sofia por sua vez teve a queda amortecida pelo cadáver do padre junto da malha revestida que estava usando, uma ou duas costelas se partiram, ela estava fraca, mancando, mas conseguiu se por de pé encarrando horrorizada o pedaço de carne abaixo dela.
    Os fieis que ainda restavam se desesperaram ao ver a queda do líder, alguns foram nocauteados durante a distração, alguns tentaram correr para fora da igreja, mas os policiais já cercavam o perímetro. Os reféns finalmente controlaram a situação, as crianças continuavam a chorar e depois de tanta baderna ia ser difícil fazer eles pararem.
    Sofia sabia que não poderia estar ali quando a polícia chegasse, teria muita coisa para explicar, sem falar que acabara de provocar a morte de um homem, cambaleou para trás do palco, havia uma porta de fuga que Deo provavelmente teria usado se ela não tivesse trancado antes dele chegar. Antes de sair um dos reféns chamou sua atenção.
    - Quem é você? – perguntou ele perplexo com a salvadora mascarada.
    - Pode me chamar de caçadora! – respondeu Sofia antes de correr para fora da igreja e desaparecer.
  • Calidoscópio

    para tia Francisca Miriam

    Do outro lado    odal ortuo oD

    Ohlepse on ameop o    o poema no espelhO

    Não esconde nada    adan ednocse oãN

    Sarvalap sa euqrop    porque as palavraS

    São apenas um jogo    ogoj mu sanepa oãS

    Oãça-snegami ed    de imagens-açãO

     

     

     

     

     

     

     

     





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    © "Copyright" do Autor, IN: Concursos literários do Piauí. Teresina, 2005, Fundação Cultural do Piauí. 226 p. Página 192.
  • Calidoscópio

    Para Tia Francisca Miriam


     
                 Do Outro Lado    odaL ortuO oD

     ohlepsE oN ameoP O    O Poema No Espelho

        Não Esconde Nada     adaN ednocsE oãN

        sarvalaP sA euqroP    Porque As Palavras

    São Apenas Um Jogo     ogoJ mU sanepA oãS

          oãçA-snegamI eD     De Imagens-Ação
     
     
     

     

  • Calor

    Calor

    Inferno

    Inverso

    Do inverno.



    Poema do meu primeiro livro de poesias, Átomo, lançado em dezembro de 2018, com prefácio de Rafael Cortez e apresentação de Thomas Pescarini e disponível em formato físico e ebook na Amazon.
  • Capiitura involuntaria

    Epílogo do Capitulo 1.
    15 de julho de 1974 -Segunda feira, 06 : 50 h. O Jorge Luiz finalizou o seu primeiro dia de trabalho na Base Aérea e caminha para a parada do ônibus quando é surpreendido com a ocorrência, uma aeronave que passou veloz pela cabeceira da pista quebrando o muro do aeroporto e parando entre a calçada e a avenida. Refeito do susto correu para o local do acidente e para a sua surpresa verificou que estava se aproximando da aeronave uma equipe de militares em 02 veículos, um jipe e um caminhão com vários soldados, antes da chegada das equipes de socorro do aeroporto. Foi possível perceber que os uniformes e os veículos não possuíam identificações e o militar que comandava a equipe ao se aproximar foi logo perguntando para o Jorge o que ele estava fazendo no local pois não foi permitido a qualquer militar da Base Aérea participar daquela operação e o Jorge estava fardado quando a caminho da parada do ônibus.
    Os comentários do Jorge não foram aceitos e recebeu ordem de detenção daquele oficial e foi levado com o indivíduo que foi capturado dentro da aeronave estando desacordado para um outro veículo, o qual surgiu em transito na avenida, aparentava ser um veículo civil do tipo caminhão baú e ao ser aberto as portas traseiras identificou ser um veículo frigorífico e comportava em seu interior o que parecia ser uma unidade médica uti sob os cuidados de uma equipe de 04 pessoas com roupas especiais do tipo utilizada na contenção de vítimas contaminadas.
  • CAPÍTULO II – BOXE E RELIGIÃO.

    Meu primo, aquele que costumava me levar ao fliperama, não era tão diferente de mim em certos aspectos, ele também morava só com sua mãe e não conheceu o seu pai. O relacionamento que tinha com a mãe não era dos melhores, tal qual eu mesmo, mas, o estranho, era que minha própria mãe via nele o filho que nunca teve, e posso dizer que os dois se completavam e, por se darem tão bem assim, é que o rapaz acabou se refugiando da família em minha casa e, e talvez fosse pelos maus tratos, que descontava em mim. Então, quando se tornou maior de idade, não houve nada que ninguém em sua antiga casa pudesse fazer para impedi-lo de se mudar para a minha. Na época, ele já era um pouco mais alto do que sou hoje em dia e de constituição forte, se comparado a maioria das pessoas, tinha cabelos e olhos negros, pele clara e cara espinhenta enfeitada com um nariz em forma de gancho pra lá de esquisito, ele também costumava usar um boné em sua cabeça que ostentava um logo bordado de um campeonato de artes marciais da região, mas que já estava velho, gasto e rasgado, tão rasgado que mais parecia o boné de um sem-teto, porém, como ficava bem acima de uma eterna carranca urbana1, o rapaz nunca sofria com as gozações quanto a sua aparência, ao menos, não enquanto ainda estava presente no local… Infelizmente tenho de lhe dar algum crédito em minha formação, afinal, como era praticante de boxe, além do fliperama, acabei sendo arrastado também para treinar com ele, e este treino seria algo extremamente necessário para mim, embora eu ainda não soubesse disso, mas, não foi por um simples acaso do destino que recebi aquelas aulas, não, ainda haveria um combate a ser travado no futuro, uma luta mortal, a qual, não é nenhum exagero dizer que o destino do mundo inteiro dependeria de meu desempenho, para sua ruína antes do tempo, ou para que todos vivêssemos um pouco mais!
    Treinávamos num velho salão comunitário cedido pela prefeitura a um lutador aposentado que morava por perto(em cidades pequenas, o que não falta são salões abandonados para serem emprestados a projetos de bairros), e, a princípio, era ele quem nos instruía e meu primo era seu assistente, sua sombra, e o imitava em tudo o que podia. E era bem engraçado ver o exagero do senhor em tudo o que dizia, bem, acho que preciso lhe dar um exemplo para que compreenda melhor:em todas as vezes que velho professor dirigia suas orientações aos alunos, dizia algo como:
    – Foi por treinar assim todos os dias, que me tornei um campeão nacional, depois de derrotar cento e vinte e oito adversários, e vocês também podem conseguir isso!
    Ou
    – Se seguirem esse treino, que foi criado e patenteado por mim mesmo, um dia, também serão campeões mundiais, como eu mesmo fui depois de derrotar cento e quarenta e dois oponentes!
    Em seguida a seus comentários motivacionais, o senhor sempre puxava um saquinho de amendoins do bolso, enchia uma das mãos com seu conteúdo e o enfiava vorazmente na boca, de modo que não conseguia falar mais nada, ele apenas podia mastigar…
    Devido a amizade que surgiu entre os dois, meu primo acabou tomando conta do local a partir do momento em que o autoproclamado campeão universal, se afastou completamente dos treinos, e meu primo passou a se orgulhar muito de ter o título de professor de boxe, qualquer coisa era motivo para demostrar seus socos.
    Eu era ainda uma criança quando comecei a treinar, acho que tinha oito ou nove anos, e mesmo que estivesse sempre o convidando, ainda levaria algum tempo para que Batata também me acompanhasse, masquando finalmente o fez, foi motivadopelos jogos que ainda jogávamos juntosnos fins de semana epreciso dizer que, eu também pensava exatamente como ele… Assim, para alcançar nosso objetivo, o de nos tornarmos iguais aos personagens dos games é que intencionalmentenos esquecemosdo comportamento passado de meu primo, na verdade foi fácil fazer issodevido ao episódio anterior (no dia em que ganhei meu videogame de presente) não ter se repetido, porém o único motivo dessa não-repetição, era simplesmente o fato deAna estarpresente em todas as ocasiões em que nos reuníamos, mesmo que o videogame,em nada a atraísse!
    Nas aulas, haviam pessoas de todas as idades, embora treinassem separadamente; a primeira coisa que aprendemos foi como fazer uma guarda, esta devia permanecer sempre com os punhos erguidos, como se formassem uma barreira a frente do rosto; Batata precisou de algumas tentativas para acertar, principalmente depois de ter perdido a concentração ao ouvir pela primeira vez uma palavra de incentivo do instrutor dirigida a mim:
    – Muito bom Snow!
    Na etapa seguinte, ele nos mostrou uma sequência simples de golpes, primeiro o jab, e depois o direto. Esta combinação consistia em atacar com um soco rápido com o punho que estivesse mais próximo do adversário (o jab), normalmente esse golpe não alcança uma grande potência e é mais usado para medir a distância do oponente a fim de que, se siga algum outro movimento, neste caso, atacar-se-ia com o punho que estivesse mais distante, com o qual é possível empreender maior poder, num golpe direto. O instrutor também nos mostrou como trocar as bases de acordo com os movimentos de nossos próprios golpes ou do oponente, e conduzidos por ele, todos os alunos praticaram socos no ar por alguns minutos. Seguindo a aula, nos mostrou como deixar a guarda que havíamos aprendido antes, no caminho, ou seja, entre nós e os golpes recebidos por um adversário imaginário. A próxima etapa foi separar os praticantes em duplas e instruí-los a treinar um com o outro: um dos parceiros deveria golpear de maneira encenada contra o companheiro que, por sua vez, bloquearia o golpe, e então, repetiriam os movimentos algumas vezes alternando o atacante. Nesse ponto os parceiros escolhidos foram obviamente Batata e eu, o que foi uma sorte, mas que acabou imediatamente quando fomos postos ao lado de um par de garotas que atraíram completamente a atenção de Batata. Meu primo dirigiu-nos um a frente do outro corrigindo nossa guarda e em seguida dizendo:
    – Quero que dá só jabs por enquanto, num tenta fazê outra coisa, ou vai machuca!
    E assim sucedeu, trocamos alguns socos de forma tímida, principalmente porque a atenção de meu amigo estava dividida entre executar socos rápidos e leves que morriam em minha guada e em observar as duas garotas bonitas, embora um pouco mais velhas, que estavam do nosso lado direito e que faziam tentativas muito desajeitadas de executar os golpes propostos pelo professor. Batata se encontrava especialmente encantado com uma garota loira cujo nome eu apenas conheceria anos mais tarde, de tal maneira que se esquecia que deveria se defender dos golpes que eu mesmo executava, e quase sempre se aproximava perigosamente de mim, arriscando-se a levar um golpe, só para observá-la melhor e por isso, ele quase foi atingido por muitas vezes.
    Então, com um misto de deboche e orgulho, vendo a dificuldade que enfrentávamos durante o exercício, nosso professor exclamou olhando para mim:
    – Não é tão fácil fazê isso que nem é no videogame, é?
    O interesse de Batata nas garotas bonitas era tanto que precisei cutucá-lo fortemente, enquanto não só o professor percebia a distração, como também as duas garotas, para que finalmente desse atenção a aula e acenasse com a cabeça para o instrutor em resposta. Ele nos observou por um tempo enquanto praticávamos, mas assim que meu primo se virou e caminhou para outra dupla que precisava de auxílio, Batata murmurou com a mão ao lado da boca para que ninguém mais ouvisse olhando em minha direção:
    – Na verdade, é sim. E acho também que vou gostar muito destas aulas, que bom que te acompanhei Vaniel!
    E se virou novamente para as garotas ao mesmo tempo que disparou dois golpes rápidos com peso maior que os anteriores e que quase me atingiram. Pensei em silêncio:
    – Será que eu deveria chamar Ana para dar um jeito nele também?
    Pensando bem, provavelmente eu devesse realmente tê-lo feito, pois a coisa piorou tanto que, agora meus golpes faziam com que os braços do garoto, o atingissem no rosto a cada soco, então, vendo que não deveria continuar pelo próprio bem dele, fiz uma pequena pausa para também observá-las. A outra garota era morena e um pouco mais alta, de cabelos curtos e negros, muito bonita e socava bem melhor do que a garota loira que Batata estava encantado, mas esta, de forma alguma era menos bonita que a anterior, na verdade seus cabelos loiros contrastavam lindamente com as luvas vermelhas que usava e suas roupas curtas, se é que posso chamar atenção para este fato, mas esta pausa em que as estivemos observando foi novamente interrompida quando nosso instrutor falou em voz alta:
    – Agora dá um soco direto no seu companheiro mais, cuidado pra não acertá!
    E, ao ouvir o comando, meu movimento simplesmente saiu num tipo de “modo automático”, mesmo que eu ainda estivesse observando as duas e isso, somado ao fato de que o Batata continuava mais distraído do que eu, e resultou que, meu soco acabou atingindo em cheio seu nariz, fazendo-o perder o equilíbrio e cair sentado para trás com lágrimas prontas para descer de seus olhos. Olhei atentamente para seu rosto em busca de qualquer coisa que fosse da cor vermelha mas não havia (felizmente):
    – Antes lágrimas do que sangue… – pensei comigo mesmo o examinando e em seguida, disse:
    – Batata… Batata, me desculpe, me distraí e não percebi que você também não estava concentrado o bastante para se defender!
    Estendi a mão para o ajudar a se levantar e, ao aceitar a ajuda, ele comentou o mais alto que pôde:
    – Já ouvi dizer que garotas loiras sempre fazem amigos brigarem… – em seguida abaixou o tom de voz para que somente eu ouvisse – mas não achei que era assim que acontecia!
    Provavelmente seus comentários foram, na verdade, um esforço monumental para disfarçar a dor de ter seu nariz atingido em cheio por um bom golpe e também toda a situação que se formou aos olhos do resto dos participantes.
    – Sinto muito, não queria te acertar… – acrescentei – só que… tive a impressão que você também se inclinou para frente ao mesmo tempo em que meu golpe ia em sua direção…
    – M-me… me desequilibrei… – gaguejou ele e, ao se levantar, fez ainda mais força para impedir que uma lágrima, que agora estava perigosamente inclinada, descesse pelo fundo (totalmente) vermelho que, felizmente, era apenas o seu rosto constrangido. Com a ameaça de que todos começassem a rir… ou melhor, fizessem com que as risadas baixas se tornassem ainda mais audíveis, o instrutor exclamou levantando uma das mãos:
    – Pessoal, não ri de seu amiguinho não, todos pode tomar algum golpe sem querê, o importante é levantá depois dele!
    O instrutor se aproximou de nós para examinar o rosto de meu amigo, colocou uma de suas mãos no queixo de Batata e a outra em sua testa, em seguida virou-o com violência para direita e depois para a esquerda, como se procurasse algum outro ponto que tivesse sido atingido além de seu nariz, até que percebeu que não havia nada de errado (além da cena em si…), provavelmente apenas o orgulho deletinha sido ferido, então meu primo se virou para mim e disse:
    – Toma mais cuidado pra não acertá o Batatinha, cês tem que olhá é pro que tá fazendo, não pra outro lado!
    Após me dizer isso, meu primo pareceu pensar por um instante com a boca semiaberta, provavelmente estava dividido entre a zombaria e algum outro conselho que brotava em sua mente. Finalmente depois de algum tempo parado, de tal forma que acreditei que estava aguardando a entrada de alguma mosca, ele abriu-a totalmente para dizer:
    – Acho que vô te inscrevê no campeonato regional, cê podia ganhá ele.
    Ele falava sobre o mesmo torneio que havia bordado no boné rasgado que, nem mesmo para os treinos, saía de sua cabeça e que era realizado na região aberto a vários estilos (inclusive ao boxe); meu primo, seus amigos e alunos, estavam sempre comentando sobre este assunto durante cada uma das aulas, aliás, quase todos que treinavam na cidade tinham a intenção de participar dele algum dia, e talvez eu devesse ter ficado mais feliz pois todo aquele tempo sendo usado como boneco de testes acabou me ajudando a ter uma noção maior daquilo, tanto que acredito que meu primo tenha dito tal coisa com sinceridade, mas participar do torneio era a última coisa em minha mente naquele momento, eu apenas pensava no golpe que havia acertado por acidente em meu amigo, me senti tão mal por isso que me desculpei por tantas e tantas vezes, que cheguei ao ponto de irritá-lo. Provavelmente tenha sido por minhas desculpas insistentes e não pelo golpe, que Batata tenha desaparecido dos treinos a partir do dia seguinte. Entretanto, a coisa mais curiosa que aconteceria neste dia, não seria um golpe acidental que quase feriu um amigo, tampouco a descoberta de minhas habilidades ocultas como lutador, mas sim que, de alguma maneira desconhecida que ainda me assombra, a notícia de que havia atingido um companheiro de treino acabou chegando em minha casa muito antes de mim. E quando entrei pela porta da cozinha na companhia de meu primo, fui recepcionado por uma pequena equipe, formada por meus avós e minha mãe que buscavam interceder por mim, já que não acreditaram que havia sido eu a golpear um amigo, mas o contrário, que tinha levado uma terrível surra e que mal conseguiu caminhar de volta para a casa, minha mãe então disse:
    – Cê num é capaz de acompanhá essas coisa, olha só a cara branca que cê chego de susto, num adianta querê lutá, se cê num sabe dá um soquinho, vai ficá ino lá só pra apanhá assim toda vez?
    – Cê é mole dimais pra isso!
    Um grande discurso repleto de invencionices sobre minha incapacidade foi escrito naquela noite, com a participação de todos, foi também neste dia que ouvi de meus avós, epela primeira vez, duas frases que nunca mais cessaram de repetire de incrementar em todas as vezes que eu saísse para treinar, não importando quantos anos haviam se passado:
    – Isso tudo, essas coisa de luta, é coisa do demônio!
    – Quando alguém pega espíritos, fica dando uns pulos igualzinho cê tava fazendo lá!
    Além de me dizerem isso e de sacudirem seus dedos furiosamente para todas as direções quando começavam com seus discursos, nenhum deles jamais assistiria nenhum de meus treinos, o que é óbvio, considerando suas opiniões, mas é como um desabafo para mim ressaltar este fato, nem lhes importavam que recebessem um convite formal para algum dos eventos dos quais eu ainda participaria e, voltando à aquela noite, depois de me “aconselharem”… por horas… quanto aos riscos de continuar treinando, minha avó falou:
    – É melhor cê ir dormi agora, vamo continuá pensando no que fazê e conversamos amanhã!
    Ela sempre me mandava ir dormir para não ouvir o que chamava de conversa de adulto, mas em todas as vezes pude ouvir claramente, de meu quarto, as discussões, já que todos falavam alto de mais, assim como ouvi naquela noite também os longos discursos que se seguiram. Eles falaram e falaram, até que finalmente encontraram um meio para combater a influência de meu primo e de suas praticas demoníacas: meus avós decidiram que me levariam a igreja sempre que os dias das reuniões e dos treinos coincidissem (não que exista algo de errado em se conhecer um pouco de religião, mesmo que não se tenha a intenção de segui-la, só que, na época, eu era apenas um adolescente que havia sido castigado por ser bom no boxe com uma boa dose de igreja, então não pensei dessa forma na ocasião) e mesmo que meus sentimentos de adolescente possam ser até questionados por alguns e por mim mesmo, não posso negar que tenho, até hoje, um certo orgulho de dizer que acabei sendo mais esperto do que eles e os vencendo em seu próprio jogo!
    Embora eu estivesse apenas sendo forçado a ir em ambos os lugares desde o início, primeiramente a ir praticar boxe e logo em seguida a igreja para combater o primeiro, as coisas seguem um certo propósito na vida, e ambos eram passos necessários para minha jornada futura, na qual, eu teria de lutar para conseguir um pouco mais de tempo para todo este mundo. Sem perceber, nos dias em que estive sentado no banco da igreja e ao lado de meu avô com a pior cara de garoto emburrado que consegui fazer, passei a me interessar muito pelos temas discutidos no púlpito o que, certamente, elevou o nível das discussões que tinha com Ana por entre os escombros do Túnel do Dragão:
    – O universo é coeso e auto suficiente, sendo um produto da criação perfeita de Deus, ele tem a capacidade de evoluir e de se adaptar sozinho e isso inclui toda espécie de vida que nele habita.
    – Não está pensando em colocar essa frase em nosso trabalho não é Snow!?
    – O assunto é astronomia e não religião!
    – E por que não Ana?
    – Você não acha incrível perceber que nosso sistema solar encontra-se em um vão, ou seja, um ponto vazio onde não existem outras estrelas ou corpos celestes que possam nos perturbar, gravitacionalmente falando, assegurando o nosso delicado equilíbrio?
    – Até temos nosso próprio guardião interestelar: p planeta Júpiter, que atrai para si a maioria dos asteroides ou rochas que vagueiam pelo espaço e ocasionalmente se aproximam do centro do sistema. Assim ele protege os planetas que estão mais ao centro de impactos mortais, tal como aquele que destruiu os dinossauros, é provável que Júpiter já tenha poupado nosso planeta de inúmeras repetições desse mesmo desastre, todo este zelo é uma prova irrefutável da existência de Um Criador!
    Ana também encontraria sua religião no futuro mas, por hora, apenas se contentava com os dizeres de sua mãe e repetiu o mesmo que ela (a mãe de Ana) sempre dizia a meus avós:
    – Isso não é prova alguma da existência de Deus, é só matemática, até aquele livro a que você se refere, foi escrita por um homem e provavelmente ele estava bêbado!
    – Ficaremos com o que eu mesma já escrevi: “este é só mais um em uma infinidade de outros planetas e universos, que podem ou não conter vida”.
    – Esta perfeição de que fala é uma simples questão de probabilidades, e não é apenas isso, a própria evolução é uma prova de que Deus não existe!
    Minhas tentativas de gaguejar alguma coisa para refutar a afirmação de Ana não adiantaram de nada, afinal, eu não era suficientemente esclarecido quanto ao assunto naquele tempo e apenas pude encarar a expressão triunfante da garota por ter ganho o debate, na verdade, levou muito tempo para que eu realmente formasse um pensamento mais adequado sobre isso: as Testemunhas de Jeová2 são um exemplo bastante interessante para se levar em conta aqui, pois citam os leões como criaturas doceis e gentis com as quais será possível, até mesmo, se brincar (após o término deste mundo), o que tem lá sua coerência, afinal teria mesmo Deus os criado como predadores carnívoros desde o início?
    Se não, o que teria provocado tamanha mudança em seu comportamento?
    A Teoria daEvolução de Charles Darwin3, realmente seria capaz de explicar isso?
    As Escrituras nos dizem que a queda do homem foi o estopim que gerou (atraiu) todo o mal deste ponto em diante, e assim sendo, foi ele mesmo (o homem), também o responsável indireto pela criação da cadeia alimentar. A partir de então, os animais começaram a se devorar, devido a Adão ter cedido o domínio da Terra (pois o homem fora feito para dominá-la) a espíritos sedutores que, por sua vez, foram os responsáveis por impor sua vontade a certas espécies, tornando-as predadoras, hora, não queria lúcifer ser semelhante a Deus?
    É aceitável pensar que tenha também tentado fazer (modificar) a natureza a fim de vê-la como se fosse sua própria criação, de tal forma que a linha que distingue o verdadeiro do falso se tornou indizível a nós. Seriam estes, os animais citados como malditos ou imundos?
    Haveria, por acaso, Deus criado qualquer coisa que fosse impura no início?
    Mas como não fui capaz de dizer nada disso naquele dia, tive apenas de suportar Ana desdenhando:
    – Por que não escreve o livro: As Filosofias de Vaniel?
    – Ou melhor ainda: Vaniel o Caçador de Dragões!
    – Ao menos, em seu próprio livro, poderia ser o protagonista e matar o dragão que lhe perseguiu no sonho, em vez de acordar e fugir!
    Sob certo ponto de vista, é ofensivo ter suas crenças e verdades mais sagradas, aquilo que move sua vida, chamadas (simplesmente) de filosofias, ainda mais num tom de deboche como Ana fizera, contudo, olhando por um outro ângulo, é exatamente o que estou fazendo neste momento, e por isso, gostaria de abraçá-la e dizer, se pudesse, que acabei seguindo o conselho e agradeço-o imensamente. Mas, a conversa que estávamos tendo, foi perturbada quando meu primo passou pelo corredor atrás de nós, pudemos ver que carregava consigo sua mochila jeans e um par de luvas negras muito brilhantes, balançando a vista de quem quisesse ver, ele sequer nos olhou, obviamente devido à presença de Ana, mesmo que estivesse escondida atrás dos escombros; a passagem do rapaz, além de arrebatar meu olhar para as luvas, também me fez recordar do compromisso imposto por minha família, algo que, mesmo que eu não gostasse, poderia me dar algum argumento para rebater Ana e, por isso, exclamei (com tom desanimado):
    – Preciso ir, vou ao culto com meus avós, eles sempre querem que eu vá nos mesmos dias em que meu primo vai treinar, para que não possa mais ir com ele.
    Anarespondeu:
    – Deve ser muito chato ter de ir a um lugar assim, não quero nunca ter que entrar numa igreja!
    – Não acho tão chato como você diz – respondi – as vezes falam coisas muito legais, há também algumas histórias sobre dragões como aqueles que enfrentamos na Bíblia4…
    – Pode ser – respondeu ela – ao menos, não precisa ir praticar luta com seu primo, isso realmente não combina com você e, com certeza, você não tem jeito nenhum para lutador Vaniel, sei que das outras vezes, você levou uma baita surra e mal conseguiu caminhar de volta para casa, como pode seu primo te levar só para apanhar assim?
    – Alguém como você não conseguiria ganhar luta alguma, mesmo que treinasse por muitos anos e que o destino do mundo inteiro dependesse disso!!!
    As vezes as palavras que ouvimos se tornam um tipo de estopim, pois, naquele momento, um sentimento completamente novo despertou dentro de mim, desejei profundamente lhe provar o contrário, retornar aos treinos e ser tão bom quanto pudesse ser e, quem sabe, até mesmo ganhar aquele torneio do qual tanto se falavanos treinos!
    – Não é bem assim Ana, ele (o professor) sempre diz que sou muito bom, aliás, fui eu quem fez o garoto chorar com golpe certeiro a alguns dias!
    Ana riu ruidosamente e exclamou:
    – Tudo bem então Vaniel, espero que o garotinho não tenha ficado muito machucado!
    O silêncio em que caí, preenchido pelas risadas, apenas foi quebrado quando a voz de minha avó se ergueu chamando por mim com certo ar autoritário, o que fez a garota apenas dizer:
    – Até mais tarde boxeador!
    E ir embora com um ataque de riso ainda maior…
     
    Na curta caminhada de casa até o culto, estive tão distraído com a lembrança das risadas de Ana que não conseguia pensar em outra coisa, senão na sensação de grandes luvas vermelhas acolchoadas em minhas mãos, na satisfação que costumava se apoderar de mim, quando observava o saco de areia se afastar levemente de sua posição quando era atingido por um fraco golpe, dos incetivos de meu primo que, sem que nenhum de nós soubesse, também eram sua contribuição para que o mundo fosse salvo através de mim anos mais tarde.
    – Ana está errada… eu vou mostrar pra ela!
    – Fica em silêncio Vaniel! – repreendeu-me meu avô gesticulando com o dedo sobre a boca quando, sem querer, pensei alto demais sentado num dos grandes bancos de madeira envernizada, durante a reunião. Do lado esquerdo do salão em que estávamos, apenas haviam homens, enquanto que minha avó se encontrava do lado oposto, a uma grande distância e tinha sua cabeça coberta com véu de renda branco, não sei dizer bem o porque, mas sempre gostei de vê-la naquele lugar, acho que apenas ela realmente se preocupava comigo, mesmo que não soubesse se comportar de maneira muito diferente do resto; parecia envolta em tanta paz e calma que, apenas por observá-la naquele dia, uma genial inspiração brotou em minha mente!
    Mas para executar o plano que concebi com perfeição, tive de antes, me focar no que dizia o pregador, que naquele momento falava sobre as grandes batalhas enfrentadas pelos filhos de Deus e memorizar cada capítulo, cada versículo por ele citado, para que, quando chegasse em casa, pudesse apanhar uma das velhas Bíblias de meus avós, já que eles tinham várias versões para fins de estudos, num ato que até os encheu de felicidade, e fazer algumas anotações a fim de formular melhor a ideia. Mas, precisei repetir o processo por mais alguns dias (já que a facilidade de uma busca no computador ainda não era acessível a todos), mas finalmente o terminei e, foi então que o tiro disparado por meus avós saiu pela culatra, quando lhes apresentei os motivos Bíblicos, pelos quais, eu deveria ter permissão de retornar aos treinos:
    – Tomemos como meu primeiro exemplo, os anjos de Deus, já que grande parte (senão todos) são guerreiros, e isso é atestado quando encontramos que eles carregam espadas, assim como o querubim que guarda a entrada do Jardim do Éden com uma espada flamejante; eles também usam escudos e vestem armaduras, permitam-me citar dois exemplos de versículos:
    Números 22:31 – “E, nesse momento, Yahweh abriu os olhos de Balaão. E ele pode contemplar o Anjo do Senhor posicionado no caminho, empunhando sua espada. Então Balaão inclinou sua cabeça e prostrou-se com o rosto rente ao chão.” (King James Atualizada 1999) 1 Cronicas 21: 15 – “Então Davi olhou para cima e viu o Anjo de Yahweh entre o céu e a terra, tendo na mão sua espada desembainhada e voltada contra Jerusalém. Em seguida, vestidos de luto, com panos de saco, Davi e os anciãos de Israel, prostraram-se com o rosto em terra.” (King James Atualizada 1999)
    – Não são apenas de anjos, mas há muitos outros guerreiros formidáveis nas Escrituras, como o rei Davi, Sansão, ou mesmo, Moisés, o profeta Hebreu que é tido como um grande general segundo algumas linhas de teologia, por sua inteligência. Moisés foi criado como um egípcio e, sendo da família real, é natural que também tenha recebido algum tipo de treino militar ou de combate já que essa prática era bem-vista, aos olhos do mundo antigo…
    O semblante de meus avós exibia cada vez mais desgosto a cada trecho que eu citava:
    Êxodo 2:12 - “Então olhando para todas as partes, e vendo que não estava por ali ninguém, matou ao egípcio, e o escondeu na areia.” (Padre Antônio Pereira de Figueiredo)
    – Moisés, de forma pensada investiu contra um guarda que, certamente, estava armado, venceu-o e em seguida teve a frieza de encobrir prontamente o corpo, provavelmente, tamanho controle das emoções sejam o produto de algum tipo de treinamento!
    – Mais Vaniel – interrompeu meu avô – Moisés usou o que sabia pra virá assassino, ele podia até tê estudos (teologia), mais não tinha revelação de Deus…
    Bem, isso fazia algum sentido, mas na época, não dei atenção, na verdade, sequer prestei atenção ao que meus avós diziam e continuei:
    – Em seguida temos:
    João 18:10 - “Então Simão Pedro, que tinha espada, desembainhou-a, e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. E o nome do servo era Malco.” (Almeida Revista e Corrigida 1969)
    – É certo que Pedro tinha o conhecimento de como usar uma espada, ou não a carregaria, nem mesmo teria sido tão estratégico (se é que posso dizer desta maneira) ao usá-la, pois teve a malícia de impor, propositalmente, uma restrição a Malco, para que este não se tornasse sumo sacerdote, já que, a tradição ditava que a posição somente poderia ser ocupada por alguém sem defeitos físicos ou quaisquer outros tipos de deformidades, então ao lhe impor a falta de uma orelha, Pedro também destruía o sonho de Malco, sem dúvida, uma estratégia de um guerreiro!
    Enquanto me ouviam, meus avós estavam simplesmente boquiabertos e eu apenas havia chegado a metade de meu discurso, então, eles me interromperam mas ficaram em silêncio durante alguns minutos, pensando no que deveria ser feito, ou em algo para me contradizer, depois da pausa, meu avô disse:
    – Então tá bom, se cê quer aprendê a batê nos outro, aprende, cê tá achando que Deus vai usar isso que cê tá fazendo pra salvá o mundo?
    – Não vai!
    Em seguida, eles me darem um castigo, de quase um mês sem videogame, mas suspenderam suas tentativas de me afastar de meu primo, deixando, a partir de então, que eu mesmo escolhesse onde gostaria de estar. Então pude voltar a frequentar os treinos de boxe, mas não sem que algum outro empecilho fosse colocado em meu caminho: certamente, aquilo que acontecia agora, em absolutamente todas as vezes que me dirigia ao treino, era uma outra tentativa de me desencorajar e ao mesmo tempo, uma forma de retaliação que sofri de minha mãe, digo isso porque as aulas tinham início as dezenove horas, de modo que, por acompanhar o professor, sempre cheguei no local alguns minutos antes do horário marcado, para ajudar a abrir e organizar o que quer que precisasse ser organizado, ou seja, meu primo ficava sentado me dizendo o que fazer… Fosse como fosse, essa história de treino, se transformou num conflito com minha mãe, pois costumeiramente, deveria ser eu a ir até o bar próximo a nossa casa a fim de buscar o refrigerante de Cola que ela tanto gostava (ou mesmo, qualquer outra coisa), isso porque minhã mãe jamais entrava em estabelecimentos comerciais, ao menos não enquanto eu “me dispunha” a ir por ela e, a partir do momento em que comecei a frequentar os treinos com mais afinco (logo após ter contrariado meus avós), ela passou a dar muito mais importância as ocasiões em que eu acabava saindo antes de comprar seu refrigerante. Na realidade, de minha parte, se tratava de um simples esquecimento, mas, após sair da aula e enfrentar a caminhada de volta para casa na (excelente) companhia de meu primo, eu deveria também abaixar minha cabeça e ouvir a bronca e, muitas vezes, os insultos por não haver lhe trazido aquilo pelo qual minha tia angariava fundos involuntários de meus avós!
    Muito mais do que a constante repetição da situação, o que certamente agravou minhas lembranças, foi o sentimento provocado na única vez, em que, farto de tantas acusações, tentei questionar:
    – Mas, por que tenho sempre de ir comprar isso eu mesmo, se não estou em casa nesse horário?
    – Não seria mais fácil que alguém fosse buscar o refrigerante, o bar é no quarteirão do lado, ou que, pelo menos, me lembrassem mais cedo, em vez de me atacar tanto quando volto?
    Mas, ao ouvir minhas palavras, minha avó saltou a minha frente com uma disposição que seria muito útil num treino de boxe e começou a apontar e sacudir seu dedo em frente ao meu nariz com grande velocidade e energia, enquanto gritava:
    – Vaniel, pra sua mãe é uma dificuldade falá com outras pessoa, tem que ser o cê, SEMPRE TEM QUE SER O CÊ!
    Palavra por palavra, isso ficou gravadona minha mente, principalmente pelo fato de que, por mais que tente me lembrar, nunca vi ninguém rir sem sequer disfarçar a situação, ou tirar sarro da cara de qualquer uma delas antes mesmo que dissessem qualquer palavra, tal qual eu mesmo já tive de suportar por tantas vezes devido a cor de meus cabelos – vai querê o quê, tiozinho? – realmente havia alguma dificuldade nisso para ela?
    Essa situação não passava de um grande esforço coletivo, em que usavam de desculpas para descontar sua raiva, a fim de, me afastar do treinamento; pensaram que eu, certamente, me cansaria de ter que discutir sobre o assunto a cada vez que voltava para casa, mas, o mais irônico de tudo isso, é que na época eu não tinha (quase) nenhum gosto por lutas, mas, por ter tantos empecilhos, tantas pessoas trabalhando para me impedirem, sem querer, eles me deram a ideia de que, se haviam esses obstáculos, aquele deveria ser um caminho correto, um caminho que eu precisava trilhar, não importando o que acontecesse, até passei a me achar como sendo algum tipo de escolhido; era também minha forma de me rebelar contra tantas injustiças, assim como qualquer adolescente normal, que tenta se rebelar contra os pais em dado momento.
    Os dias de igreja porém, não foram em vão, já que, em seguida a minha deserção, alguns acontecimentos muito especiais (e sobrenaturais)também contribuíram para vindicar minha suposta eleição, para o que exatamente, eu ainda não sabia, masos fatos se repetiram inúmeras vezes ao longo de minha vida. O simples ato de, se obter o conhecimento, ou melhor dizendo, de se receber a Verdade, equivale a encontrar uma chave que destranca uma porta no universo. Muitos daqueles que as vezes abrem tal porta, têm algo em comum, eles têm em si algum (ou alguns)dons Divinos, mas, a verdade é que, tais dons podem até ser herdados dentro de uma família, como foi em meu caso. Isso porque,dons não necessariamente significam bondade e verdade,pelo contrário, muitos dos que são cheios de dons, estão tão longe da Verdade quantose poderia estar, mas sobre isso eu não sabia ainda… Após quase um ano de treino ter se passado, minha vida já havia mudado bastante, principalmente pela presença de meu primo na casa, e como não tínhamos mais quartos, dormíamos no mesmo cômodo eeste,havia se tornado bem menor, pois agora acomodava duas camas em frente a janelaenferrujada, que mal podia ser aberta, em vez de uma. As camas ficavam de lados opostos, e abaixo, aos pés, logo após o corredor de entrada, estava um pequeno guarda-roupas e uma estante torta, com uma televisão bem pequena em que ficava meu videogame, já que este havia sido banido da sala de estar e da TV grande. Mas,meu colega de quarto, também se incomodava muito com o barulho dos jogos, portanto,o aparelho passou a ficar desligado durante todo o tempo em que ele estivesse em casa, o que sempre coincidia com a realização dos velhos campeonatos que Batata, Ana e eu organizávamos. Minha desaprovação com tudo isso, de fato existia, mas fora abafada pelos acontecimentos seguintes, quando surgiu meu primeiro sonho, dentre muitos que eu teria nos próximos anos e que, se tornariam realidade: em meio a uma escuridão tão densa e sufocante, que parecia sugar todo o ar para si mesma (como se respirasse), vaguei sozinho por muitos passos, hora me sentindo pesado para caminhar, hora disparando por alguns metros rumo ao breu que preenchia toda visão. Uma voz feminina e extremamente aguda, mas que lembrava a de minha mãe, subitamente surgiu, e ela repetia constantemente:
    – Vô te destruí. Vô te destruí. Vô te destruí!
    A sensação de presença maligna aumentava com a mesma intensidade que as palavras se tornavam mais altas e repetitivas, até o ponto em que se transformou numa imagem visível, mas escura, que passou do sonho para a realidade materializada ao meu lado; de um pulo, me pus de pé para fora da cama. A presença havia se formado exatamente na direção em que se encontrava meu colega de quarto então, temendo, mas com grande curiosidade em saber o que se passava, caminhei alguns passos contornando a cama, me perguntando o que haveria de ver após apertar o interruptor na parede e a luz preencher o local. Nada de mais na verdade!
    Tudo estava em seu devido lugar, ou seja, as roupas jogadas ao chão continuavam no chão, o console e a TV sobre a estante torta também, alguns bonecos de ação na parte superior ainda permaneciam de pé vigilantes, e tudo mais se encontrava onde sempre esteve… um típico quarto de adolescentes desorganizados. Contemplei o local por um instante e em seguida, apaguei a luz novamente, mas ao fazê-lo, as palavras ecoaram em minha cabeça como uma reação a tomada das trevas no local:
    – Vô te destruí. Vô te destruí. Vô te destruí…
    Acendi a luz novamente e procurei pela dona da voz, mas não havia nada.
    – Quem ou, o que, quer me destruir? – questionei a mim mesmo.
    – Se cê não apagá essa luz, vai sê eu a te destruí! – coaxou meu primo, então prontamente a apaguei, mas não pude adormecer mais; ao menos, ele não se recordou do ocorrido, pois nada comentou no dia seguinte, quem sabe tenha acreditado que se tratava de um simples sonho. Durante o próximo ano, fui atormentado por sonhos semelhantes e uma certa angustia, então, para não aborrecer o que quer que pudesse ser aborrecido, é que refreei minhas reclamações com a situação em que me encontrava. As coisas porém, começaram a, de fato, acontecer, a partir do momento em que, ouvi em uma pessoa, a mesma voz de meu sonho, e, a partir disso, é que as coisas caminharam para me trazer a este quarto de hospital, onde estou escrevendo estas palavras em total sigilo, numa escuridão tão perturbadora como a daquele sonho…
    O que aconteceu, foi que, meu primo levou uma garota para nossa casa, apresentando-a como sua namorada e disse que ela passaria alguns dias conosco devido a qualquer empecilho que havia na própria casa; era uma garota baixinha e desajeitada, loira mas de cabelos tingidos, longos e crespos, parecia que havia tomado seu penteado dos anos oitenta, o que não combinava em absolutamente nada com a garota, pois tinha uma cabeça anormalmente circular, dessas que esperamos encontrar em pessoas apelidadas de cara de bolacha… Toda a gentileza e cumprimentos que adornaram sua simpatia a primeira vista, logo desapareciam completamente quando não havia ninguém mais da família além de mim (e meu primo obviamente) por perto. Ela sempre me pareceu que queria se apropriar do lugar, infelizmente esta impressão não era só imaginação, pois, tenho certeza de que foi ela, quem deu a sugestão inicial do plano que visava diminuir ao máximo minha presença: sei que já estávamos ficando velhos demais para isso, mas não importava, idade não era impedimento para que Batata, Ana e eu continuássemos a nos aventurar por terras distantes em busca de espadas encantadas e de caçar dragões, claro, isso tudo dentro de nossa imaginação e brincadeiras de RPG, mas, não tínhamos mais como cenário, a minha casa, não, o ambiente havia se tornado hostil demais, então nos reuníamos agora na casa de um dos meus dois amigos. E foi exatamente num destes momentos de ausência, que organizaram uma (muito) oportuna reunião de família, e após algumas discussões, a garota sugeriu algo que foi imediatamente acatado por todos, e ficou estabelecido que eu dormiria, a partir deste dia, na sala de visitas… se é que se podia chamar aquele cômodo mal acabado, empoeirado e repleto de badulaques, de sala, ou no meu caso, a partir de então, de quarto… Na verdade, era só um local de despejo nos fundos, onde se jogava tudo que era indesejável (inclusive eu, ao que parece). Ficava logo após o corredor que saía da verdadeira sala de visitas, ao menos, havia um sofá-cama para mim, pois minha própria cama havia também sido confiscada. Então me instalei, devidamente oculto atrás da pilha de caixas cheias de objetos quebrados mas que não eram jogados fora porque minha mãe estava prestes a se tornar uma acumuladora, e o grande destaque da pilha, sua formidável utilidade era, sem dúvida, me manter longe da vista de todos.
    E foi só quando retornei de minha recente expedição a serviço do rei, que fui informado dos novos costumes e de que me havia sido vetado o direito de opinar sobre o assunto… Após o incidente, por muito tempo, mergulhei numa tristeza tão profunda que beirou a depressão, e provar o que quer que fosse para Ana, havia perdido toda a importância, o boxe, pelo qual tanto lutei antes, eu o esqueci!
    Me refugiei nos sonhos estranhos que comecei a ter, nas aventuras que imaginava durante nossa brincadeira de RPG eno livro que escrevia, muito embora, nem isso tenha durado, mas, por um tempo, me mantiveram distraído.Esta foi apenas, a primeira etapa de algo muito maior, uma jornada que seguiria desde o sofrimento até o aprendizado, passando antes por algumas visões, meus sonhos: de repente, me vi sozinho caminhando por uma velha estrada tão longa e reta que sua visão se perdia no horizonte, em cada um dos lados, contrastando com sua morbidez cinzenta, havia um lindo e vivo gramado. Surgindo de lugar algum, um carro passou por mim e foi em direção ao horizonte, mas veio a bater alguns metros a frente, em qualquer objeto que também aparecera sem nenhuma explicação, tal qual qualquer bom sonho têm. Me apressei e corri até o local, onde observei, dentro do veículo, uma figura escura indecifrável puxar o próprio braço de debaixo da direção e, em seguida, erguê-lo ao ar, mas a mão e os dedos caíram sobre o próprio peso. Surpreso, tentei ver de quem se tratava novamente mas sua identidade continuou oculta. Na manhã seguinte, soube que meus avós haviam ido juntos a uma consulta médica na cidade vizinha (no mesmo lugar abominável em que me encontro), eles haviam tomado carona com qualquer conhecido que iria ao mesmo destino, e aconteceu que, durante o trajeto, uma vaca apareceu – Como que, caiu do céu – como disse meu avô, na frente do veículo e uma colisão foi inevitável, entretanto, como estavam em baixa velocidade por acabarem de sair de uma curva perigosa, não foi um acidente fatal. Ao saber disso só pude pensar que a imagem de meu sonho se repetiu, tendo seu desfecho aplicado diretamente a minha avó que quebrou seu braço, era ela a figura que não pude reconhecer durante a visão. Mas, o mais estranho, é que meus sonhos nunca foram exatamente claros quanto a quem se destinavam e, as vezes, nem mesmo sobre as circunstancias e só, ao vê-los cumpridos, é que entendia perfeitamente de que se tratavam, talvez isto acontecesse porque eu ainda não estava suficientemente esclarecido nos assuntos espirituais, esclarecimentos estes, que ainda levariam muitos anos para chegar.
    1 CARRANCA URBANA – Apelido atribuído a expressão facial adotada por pessoas que geralmente vivem em cidades grandes e desejam evitar pedintes.
    2 TESTEMUNHAS DE JEOVÁ – Seu início, se deu com Charles Taze Russell (Ministro Cristão Americano – 16 de Fevereiro de 1852 a 31 de Outubro de 1916) quando fundou uma organização de estudos chamada Estudantes da Bíblia, na década de 1870. Mais tarde, fora registrada como Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados da Pensilvânia (1884); porém, foi Joseph Franklin Rutherford (8 de Novembro de 1869 a 8 de Janeiro de 1942), o segundo presidente da sociedade, quem promoveu as mudanças que, de fato, dariam forma as Testemunhas de Jeová (nome adotado em 1931). Uma de suas doutrinas mais fundamentais é a proibição ao combate e isso levou Ruherford e seis colaboradores a serem presos por interferirem nos esforços de guerra dos EUA, porém pouco tempo depois do fim da primeira guerra, foram libertados sob fiança.
    3 CHARLES DARWIN – Nascido em 12 de Fevereiro de 1809 na cidade de Shrewsburry, Inglaterra, e falecido dia 19 de Abril de 1882. Contra todos os credos da sociedade do período em que vivera, baseou-se em diversas observações do reino animal feitas em suas explorações para formular sua teoria, mas temeu publicá-la abertamente, devido as autoridades religiosas, tanto que, na verdade, em A Origem das Espécies (publicado em 24 de Novembro de 1859), existe uma única e breve divagação sobre a evolução do homem, em sua última página.
    4 Comentários sobre o assunto: APÊNDICE 9 – SOBRE OS DRAGÕES.
  • Cascas de Semente

    Era um sábado quando vi nuvens de tempestade se aproximando. Ventos fortes atingiam a cidade em um fim de tarde, e a escuridão que se aproximava estragou o lindo pôr do sol que estava prestes a acontecer. Pássaros cantavam enquanto voltavam para as suas casas em busca de proteção.

    A chuva é boa para diversas pessoas, mas ruim para muitas outras. Infelizmente, não tinha como pensar nessas pessoas quando a chuva estava vindo, afinal não tinha nenhuma delas por perto para me lembrar disso. Ao contrário de boa parte da cidade, estava abrigado quando trovões soavam e raios eram vistos no meio dos relâmpagos. Porém eu ainda podia pensar em algo. Antes dos trovões, quando a tempestade ainda estava para chegar, era possível ver uma árvore da janela da qual eu estava perto. Ela estava carregada de grandes cascas de sementes, a maioria seca, com tons amarronzados, duras e velhas. O vento forte venceu quase todas, exceto duas. Elas não pareciam mais jovens do que as outras, eram simplesmente normais. Estavam no mesmo galho, mas eu não conseguia crer que só sobraram elas. Procurei por um longo tempo, examinando cada parte da árvore, porém não tinha nada além delas.

    Agora, já de volta com os raios e relâmpagos, fiquei me perguntando sobre o porquê de duas e somente essas duas tentarem resistir a uma tempestade mortífera. Elas podiam estar com medo de se soltarem e do que viria depois disso. Esse medo pode ter paralisado elas, impedindo que se juntassem as outras que já estavam no chão. Talvez também quisessem ver mais uma vez a paisagem lá de cima antes de serem jogadas para todos os lados pelo vento forte. Porém há uma outra explicação que particularmente me encanta: as duas cascas de semente, mesmo já estando velhas e terem visto muito isso, queriam apreciar o seu último pôr do sol que ocorreria no dia seguinte, já que este lhes fora surrupiado. Pode ser que, em sua morte, elas só queriam ver o sol sumindo devagar mais uma última vez enquanto uma brisa suave, e não um vento violento, as retirava calmamente de seu galho.

    Essa última hipótese me cativou tanto que de cinco em cinco minutos olhava pela janela para verificar se elas continuavam lá. Não queria fazer isso, lutava contra essa vontade de ficar observando elas para poder me concentrar em outros afazeres, mas simplesmente não conseguia. Percebi, então, que eu estava torcendo pelas lindas cascas de semente. Queria que elas sobrevivessem para que pudessem ver o seu pôr do sol.

    Peguei no sono antes da tempestade terminar e a primeira coisa que fiz quando acordei foi olhar pela janela. Lá estavam elas, as duas grandes sobreviventes. Esperei até o sol começar a dar tchau e me sentei embaixo da árvore para comemorar essa vitória com as cascas de semente. Depois disso, não quis mais olhar pela janela, pois não queria ver a morte das minhas duas heroínas.
     
  • Céu

    Risco cinza
    No céu fundo azul
    A engrenagem segue
    Os ponteiros com pressa
    Na esquina recordamos tudo
    Presente, até o futuro
    Passado
    A luz chega
    O ódio pode quase tudo
    O amor é absoluto
    Mas sem o negativo, ódio
    Talvez fosse obtuso
    Acho que não
    Estou certo, estou errado.


    Poema do meu primeiro livro de poesias, Átomo, lançado em dezembro de 2018, com prefácio de Rafael Cortez e apresentação de Thomas Pescarini e disponível em formato físico e ebook na Amazon.
  • Chá das Cinco



    Peço às visitas que entrem
    Entrem, mas apenas se forem ficar
    Pois, senão, que sozinha me deixem
    Basta de ir embora antes de chegar.

    A porta está sempre aberta e espera
    Espera muito, se precisar
    Até que finde a primavera,
    Não há problema em demorar.

    Leve muito tempo, mas venha certo
    Certo que ao puxar a cadeira
    Ficará do outono ao próximo inverno
    Ou até que floresça a última videira.

    Pois quero viver uma vida inteira
    Inteira, de verdadeiros sentimentos
    Da lua cheia ao raiar da aurora,
    Não apenas de breves momentos.
  • Ciclo

    — Temos mesmo que ir? Eu estou com medo, mamãe.
    — Estarei bem do seu lado, além disso, não podemos resistir, filhinho.
    O vento empurrou com força. Não conseguiram mais segurar. Caíram.
    Com a descida cada vez mais rápida, sentiram antes mesmo de acontecer, que se separavam.
    Lá vinha o telhado. Como poderia ser tão aterrorizante? Uma telha era tão grande assim? Seria muito dura?
    Descobriu mais cedo do que imaginava. Bateu na telha, rolou por ela e caiu outra vez.
    Foi aterrissar em algo macio; perfumado; alaranjado. Parecia uma cama.
    Enrolou-se como em um cobertor e dormiu. Esqueceu do medo.
    Acordou com uma sacodida violenta. O medo voltou! Escorregou pelo caule e foi para o chão.
    Um buraquinho na terra com outras conhecidas.
    — Mamãe! Te encontrei!
    — Blin! Você está bem! Eu nem acredito.
    O sol brilhou e Blin sentiu-se estranho.
    — Mamãe, o que está acontecendo? Estou desaparecendo! Me ajuda!
    Viraram vapor juntos e foram subindo para o céu outra vez.
    Blin não queria ir. Tinha medo de altura.
  • Ciclos M - MOÇA

    Moça, os tempos não são fáceis, né ? 
    A mente parece ter dado nó, parece que tudo está fora do lugar.
     
    Moça, se levante dessa cama 
    Tome um banho de água fria 
    Volte a sorrir !
     
    Moça, tempestades são constantes 
    Mas ao início do outro dia o sol volta a surgir.
    Pare de sofrer pelos tombos 
    veja quantas vezes tu já ressurgiu como fênix. 
     
    Moça, esquece os erros do passado 
    Pense no futuro que te espera alí a frente.
    Esquece das tuas dores e lute pra chegar lá !
     
    Moça, não decepcione a Menina
    Moça, torne a Mulher real
    Moça, eu confio em você
    Moça, não desista de si mesma !
  • Ciclos M - MULHER

    Mulher, espero que tenha recuperado aquele lindo sorriso que tanto encantava.
    Espero que seu amor próprio seja maior do que arranha céu
    Pois sempre foi linda, apenas não reconhecia.
     
    Mulher, ressurgir como fênix é bom
    Mas espero que sua alma não se desconstrua nunca mais.
     
    Mulher, espero que tenha compreendido que sua felicidade depende exclusivamente de você.
    Espero que olhe pra trás e veja que todos os tombos foram necessários.
     
    Mulher, espero que a Menina se orgulhe por ter chegado longe.
    Mulher, espero que a Moça se orgulhe por não ter desistido.
    E eu me orgulharei juntamente 
    pois finalmente a lagarta se transformou em borboleta. 
    Dando asas pra sonhos, e se libertando de tudo aquilo que lhe impedia de voar !
  • Ciladas na calada da noite

    Na calada da noite as ciladas
    são coladas às trevas, nu séu papel
    de tornar mais belas elas, as estrelas ilhadas
    rfoubando da vida um mundo inteiro, INvisível...

    312870a8c0ace3bef8419371f15c6424
  • Círculo

    Para a Poetisa Diana Pilatti

     

    Palavra: fetiche

    Palavra: fantoche

    Palavra: feitiço

    Palavra: fantasma

     

     

     

     

     

  • Clic

    Poema Clic

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                 A s s o m b r a

             A s     S o m b r a s                  




  • Coisas

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    falada,

    calada

    palavra

     

    Palavra

    calada,

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