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  • FELICIDADE

    Felicidade vá embora
    Não me venhas iludir
    Com tuas falsas esperanças
    Que carregas ao partir.

    Nunca fica muito tempo
    Não te importas à companhia
    Deixa na porta o desgosto
    Seja noite, seja dia.

    Sem nenhuma despedida
    Escancara o portão
    Por ele entra apressada
    Tua amiga depressão.

    A senhora é egoísta
    Sem nenhuma comoção
    Ainda manda na ausência
    Tua prima solidão.
  • Filha

    Às vezes não é o programa de TV que é chato e desinteressante. Por vezes é somente o cansaço de um dia cheio no trabalho que faz os seus olhos pesarem logo após o jantar ou do simples petiscar de alguma porcaria aleatória. A sua mente simplesmente parece parar e os olhos com vontade própria começam a fechar. Você até luta contra porque quer aproveitar aquele momento de lazer, mas o sono vem tão gostoso e natural que é melhor somente abraçá-lo.
    Foi o que ela fez após voltar do trabalho cansada, mas feliz pelo final de semana que viria. Os olhos se fecharam e o sono a embalou junto a um cobertor quentinho. Ele somente a deixou quando começou a ouvir vozes a chamando incessantemente “Mãe! Mãe, acorda!”. Mas ela tinha uma filha? Bom, deveria ter! Afinal, abriu os olhos e tinha uma criança de uns 6 anos, muito similar a ela quando mais nova, a encarando. Um turbilhão de pensamentos invadiram a sua mente nesse momento com lembranças de sua filha, mas que por algum motivo pareciam falsas e que entravam em conflito com outras lembranças dela não tendo filha alguma. Apesar disso, dessa sensação de estranheza, era fato que tinha uma filha já que estava parada em sua frente e reclamando que estava com fome. Então se levantou e foi fazer algo para ela comer.
    Com o tempo tudo foi se encaixando e as lembranças de sua filha foram ficando mais fortes. Criou o hábito de levá-la todos os dias ao parque para socializar com as outras crianças. Ao mesmo tempo em que sabia que isso era benéfico para a sua filha, ficava com medo da influência que ela exercia sobre essas crianças e aflita já que nunca chegou a conhecer os pais delas. A sua filha parecia uma líder natural e todas as crianças pareciam estar sob a sua influência, querendo agradá-la e agindo à sua volta. Certo dia, a sua filha ganhou um cupcake de um garoto gordinho com cabelo chanel roxo. A mãe ficava pensando “mas que diabos de criança é essa que usa um cabelo chanel roxo?” Porém, apesar da estranheza, a sua filha deu uma mordida no cupcake.
    Assim que terminou de mastigar, o pai do garoto saiu com lágrimas nos olhos de trás de uma moita. Ele balbuciava repetidas vezes “Isso nunca tinha acontecido até agora!”. Foi então que a mãe da garotinha percebeu pela primeira vez, a fazendo arregalar os olhos e dar diversos passos para trás. O garotinho gorducho de chanel roxo nunca existiu. Era somente a mão do pai dele com uma peruca roxa como se fosse um fantoche. Todas as crianças daquele parque eram somente fantoches controlados pelos pais que interagiam com a sua filha.
    A sua respiração estava curta de desespero, mas mesmo assim ainda havia ar suficiente em seus pulmões para chamar a sua filha para voltar para casa. O problema é que sua filha a ignorava ao saborear o cupcake. Quando conseguiu tomar coragem para ir para frente e pegar a sua filha no colo para sair correndo de lá, viu que derrubou um cupcake no chão. Ao olhar atentamente para a sua mão esquerda, viu um rosto desenhado nela e uma pequena peruca de cabelos pretos sobre as costas da mão. 
    Nesse momento, o seu pulmão simplesmente parou de funcionar. O ar simplesmente não entrava mais e em sua mente passava todos os tipos de pensamento, mas ao mesmo tempo parecia que não passava nenhum. Começou a sentir as gotas geladas de uma chuva que acabara de começar a cair. As gotas pareciam querer perfurá-la com a sua frieza e cada uma que a atingia parecia ir mais fundo. O seu coração batia aceleradamente com o desespero, as últimas batidas antes que o frio o atingisse.
    Quando finalmente o seu peito estava pesado e com uma sensação de esmagamento, ela acordou subitamente em seu sofá desesperada, puxando o ar profundamente e seguidas vezes como se estivesse se afogando. Aos poucos foi se acalmando até que ouviu do corredor “Mãe, tá tudo bem?”. Afinal, ela tinha uma filha?
  • Flama

    para minha amiga Mara Santos (MT)


     
    olho
    aberto sobre
    a tarde em círculo
    ( o círculo da tarde )
    reflete nu espelho azul
    o sou
           l
            o
              posto entre luz e trevas

     

  • Fractal

    images
    Uma nova explosão de energia surge na borda exterior do universo, iluminando-o com cores brilhantes de vermelho, azul e amarelo. Eu observo a criação de uma nova galáxia da escotilha recém-consertada da minha nave enquanto começo mais um turno de reparos no tecido do espaço-tempo. “Uma xícara de café quentinho é a melhor maneira de começar mais um dia solitário nas fronteiras do espaço conhecido”, é o que dizia meu pai.
    Meu trabalho não é dos melhores, costurar tecido de realidade é um serviço tão aquém do que eu realmente gostaria de fazer, que era explorar as zonas externas, mas é o que sobrou para um dos cinco últimos fractais do universo desde que a praga alcançou minha civilização. Penso que não deveria estar aqui porque não sou o mais inteligente dos fractais... minhas notas na academia eram péssimas e de longe eu teria que me ocupar de uma função importante para os milhares de seres que ocupam o espaço.
    Pi! Pi! Pi!
    O bip do alerta de segurança apita, imagino que ainda preciso verificar as condições do tecido residual que se soltou quando um ser interdimensional tentou rasgá-lo ontem. Que droga! Essas criaturas tiram minha paz. Digito o velho código e...! O computador de bordo liga fazendo uma varredura completa do espaço criando um mapa holográfico que indica pontos probabilísticos de um incidente ou outro. Um deles faz a cor do mapa ficar vermelha, é a localização da zona morta da borda interna, um espaço de confinamento para o planeta Fractal, meu lar.
    Imagino que Solafta deveria estar responsável por esse setor. Será que somos apenas quatro agora? Não é possível, ela é uma das veteranas que restaram da colônia de Júpiter no quadrante da Via Láctea. Bem, de qualquer forma só poderei ficar em paz com o alerta se verificar a causa dele.
    – Computador, ligar propulsores para hipersalto, seguir coordenadas da nave de Solafta. Destino: planeta Fractal!
    Minha nave range com a propulsão dos motores de matéria escura. Parece que a carcaça da velha Gideon não vai aguentar muitos saltos pelas realidades. Por isso é melhor reduzir os ciclos para 109. Dessa forma não correrei o risco da minha nave se desintegrar na reentrada da realidade. O computador de abordo anuncia com sua voz mecânica que o salto está pronto e aguardando pelo meu comando.
    – Hipersalto liberado!
    A nave se desloca a 300 mil quilômetros por segundo antes de perfurar o tecido da realidade. Na dimensão de passagem, há apenas um borrão de cores, estou viajando entre as eras espaciais. O rangido da estrutura aumenta consideravelmente. O salto durará 45 segundos, tempo suficiente para que alguns parasitas de matéria corram atrás da nave. Computador, ligue o campo de energia. Eu não quero que nosso combustível acabe no meio da viagem. Os parasitas são um perigo para qualquer viajante do espaço. As esguias criaturas deslizam pelos propulsores, e com aquelas ventosas eles consomem toda matéria que serve de combustível. Quando pequeno, meu pai ficou preso na dimensão de passagem porque sua nave foi infestada de parasitas.
    Perigo! Perigo!
    – O que houve computador?
    Choque iminente! Perigo! Perigo!
    Como esqueci disso, eu não liguei o simulador de colisões hoje. Que droga! Qual a chance de impacto, computador?
    85% - 90% - 95% - 100%!
    Boom!
    O borrão da dimensão de passagem dá lugar a uma infinidade de pedaços de metal retorcido e fios.
    – Computador, qual a situação?
    Realizando varredura... pós-choque!
    Computador inútil, isso eu sei. Abro a escotilha da janela da sala de navegação. Lá fora há uma nave partida ao meio. Centenas de seus pedaços flutuam pelo espaço. Não há planeta próximo, sequer há sinal de galáxia. Como é possível que haja outra raça que viagem entre as bordas? Seria Solafta? Computador, faça uma varredura.
    Procurando forma de vida... confirmado!
    O alerta da Gideon soa outra vez. O velho pi, pi irritante. Qual o diagnóstico, computador?
    Forma de vida baseada em caborno...
    Respiração celular...
    Risco iminente de vida.
    Não acredito que pus a vida de alguém em risco. Computador, envie a direção para meu traje de costura.
    A interface holográfica mostra uma ampulheta girando com a seguinte mensagem abaixo:
    Enviando dados...
    10% - 20 % - 30% - 40% - 50% - 60% - 70% - 80% - 90% - 100%
    Upload completo.
    Saio da sala de navegação e corro para o compartimento de exploração. Passo por um corredor interminável de tubos de resfriamento. A Gideon é uma nave industrial, não é nada confortável morar nela. Entro no vestiário com os trajes pendurados. Coloco primeiro o capacete inteligente, verifico se todas as conexões com a Gideon estão funcionando. Tudo certo. Coloco o resto do traje, um tipo de tecido sintético escuro. Minha roupa foi desenhada para suportar o frio das bordas do espaço. Estou pronto. Sigo para a saída. Abrir escotilha, computador.
    A nave range e algumas luzes piscam, será que houve baixa de combustível? Dou um salto e... pronto. Estou flutuando no espaço. Olho no visor do capacete a trajetória até achar a forma de vida. A coisa está atrás de uma pilha flutuante de destroços. Vou me aproximando e desvencilhando de obstáculos. Sinto que estou suando por causa disso, o que irei encontrar, afinal? Quando me desconcentro um pouco, um pedaço de carcaça vem em minha direção. Sinto o metal bater nas minhas costas. Sou empurrado com o impacto.
    Meu traje avisa que estou fora da rota. Uso minhas mãos para girar em torno do objeto que me acertou e volto a flutuar tranquilamente. O visor do capacete mostra que estou a 50 m – 45 m – 30 m – 25 m – 20 m – 15 m – 10 m – 5 m – 1 m – cheguei.
    Um corpo humanoide flutua preso a uma poltrona ejetada da nave destruída. Aproximo-me e solto seu cinto. A cadeira daquele astronauta segue flutuando pelo espaço. Amarro seu corpo em volta do meu e retorno para minha nave pedindo para que o computador prepare a sala médica. O retorno é relativamente tranquilo, consigo reduzir minha atenção dos destroços. A escotilha da Gideon se abre lentamente, posso vê-la.
    O capacete redondo e o traje branco não são conhecidos do meu catálogo de raças exploradoras. Sem perda de tempo eu sigo para a sala médica. Os equipamentos de suporte à vida estão ligados conforme minha ordem ao computador. Ponho o corpo sobre a mesa, preciso remover seu traje. Retiro o capacete do visitante. Não é possível! Fico assustado com o que vejo: uma humana de cabelos castanhos desmaiada. Pego minha lanterna médica e abro um dos seus olhos. Sua posição revirada indica inconsciência por trauma físico.
    Pi! Pi! Pi!
    – Droga! O que foi, computador? Essa joça não responde nada direito.
    Pi! Pi! Pi! Alerta, alerta.
    Informe o ocorrido, computador. Sem resposta, preciso voltar à sala de navegação. Deixo a humana na sala médica e volto correndo para a sala de navegação. As luzes da nave passam de brancas para vermelhas. A voz mecânica do computador avisa que a Gideon entrará em modo de segurança. O que poderia estar acontecendo?
    Chego na sala de navegação e começo a digitar comandos no painel de controle. O computador abre sua interface holográfica, o pi, pi do alerta de segurança é ensurdecedor àquela altura. A escotilha da janela vai abrindo lentamente. Dou de cara com algo estarrecedor, lá fora, o tecido do espaço-tempo está se desfazendo como papel em chamas. É possível ver galáxias sendo puxadas pelo vácuo do exterior. Computador, qual o diagnóstico?
    Rasgo do tecido do espaço-tempo irreversível.
    Impossível! Eu saí apenas por alguns instantes. Sento em minha cadeira que por anos testemunhou meu trabalho ininterrupto e curvado apoio minha cabeça sobre minhas mãos para pensar.
    O computador de bordo avisa com sua chata voz mecânica: alerta de intruso! Alerta de intruso!
    Dou um salto da cadeira e observo a humana passando pela porta, ela chega perto de mim e em sua língua primitiva, diz:
    – Desculpe-me pelo o que aconteceu.
    Relaxo os ombros e a convido para perto de mim. Ela caminha lentamente enquanto a Gideon dá solavancos. Nos viramos para a janela e, amedrontados pelo o que estamos vendo, choramos silenciosamente juntos pela morte do espaço.
  • Funções e preocupações da vida quantificada.

    — Dezpreocupado; dezafiador; dezenfreado. Eu e você para sempre deztinados. Gostou do meu poema?
    O papel estava decorado com coraçõezinhos nas bordas. Dentro deles os nomes dos apaixonados grafados com delicadeza.
     — Eu amei! Você sempre é tão romântico. É o número Um no meu coração.
    Sorriram e dividiram olhares definitivos.
    Não muito longe, outro casal conversava.
     — Dois dias de sol, dois filmes de terror e pra terminar, uma refeição em duas partes. A sobremesa será bolo de laranja!
    A animação transbordava na voz dele. Falava sobre o fim de semana perfeito.
     — Vamos olhar as estrelas na praia?
     — Depois do filme de terror. Essa semana estreou o Dicionário, volume três!
     — Eu ainda não quero assistir isso. Só de pensar em um filme inteiro cheio de verbetes, pontuações e significados semânticos intermináveis, me arrepia inteiro.
     — Mas combinamos que eu daria a entrevista para o seu blog e você ia comigo ver o filme.
     — Tá bom, mas também não quero bolo de laranja na sobremesa. Tem de ser cookies de chocolate meio amargo.
    As diferenças os unia e distanciava em um paradoxo amoroso instigante e bonito.
     — Nove vezes eu digo, te amo.
    Foi a declaração após decidirem comprar mais protetor solar para o fim de semana.
    Nem todos os relacionamentos são fáceis. Na verdade raramente são. Outro par mais afastado discutia, se olhava e desviava o olhar.
     — Eu sei que você está cheio de indecisões agora, mas eu posso te fazer feliz. Te peço oito mil, oitocentas mil, oitenta milhões de vezes se for preciso, fica comigo.
     — Preciso pensar melhor. Eu te adoro, mas quando ele passa e sorri eu esqueço até de quem sou eu na escala numerada.
     — Ele não te ama, não te completa e não te entende como eu.
     - Me deu três razões para eu não ficar com ele. Foi de propósito? Você não deveria dizer oito razões?
     — Essas são suficientes. Eu sei o que sinto. Basta você me dar uma chance.
     — Não sei...
     — Pense em nós morando em um grande polígono de onze lados. Um jardim triangular para você e uma piscina octogonal para mim. Nas paredes pinturas de pirâmides e nossa biblioteca repleta de livros de equações.
    O sonho era doce e legítimo. Ambos pararam um momento para traçar os ângulos daquela vida futura, mas hipotética.
     — Vou te dar uma chance. Podemos ir em um encontro.
     — Perfeito! Gostaria de ir no cinema?  Amanhã vai estrear o último filme da trilogia do dicionário. Ou será que estreou ontem?
     — Nos vemos lá. Você tem razão, também mereço ser feliz com alguém que me ame com qualidade e não quantidade.
     — Isso mesmo.
     - Além disso, ele é só metade do que você é. Não quero tão pouco.
    Um relacionamento começava e outro era comemorado. Mais uma dupla improvável de tão divergente brindava com taças de vinho.
     — O que estes olhos místicos estão me dizendo? Com certeza o vinho não fez efeito, ou estou errado?
     — Você nunca está errado. Eu só estava pensando na sorte de estarmos juntos. Me diga, por que me escolheu dentre todos os números existentes?
     — Gosto da sua voz sussurrada e misteriosa, do seu olhar cheio de verdades ocultas, do seu magnetismo incomum e dessa sua forma de ver a vida.
     — Tão específico.
     — Não posso evitar, sou assim, o contrário de você. Racional, analítico e previsível. Eu vejo em você tudo o que falta em mim, por isso te amo.
     — Sua racionalidade transborda de sentimentos.
     — Acho que é por tanto tempo de namoro, você me contagiou com sua aura.
     — E se os ventos me levarem para longe? A única coisa previsível na minha vida é este relacionamento e o meu trabalho.
     — Você sabe quem eu sou, espalho aos quatro ventos o quanto te amo e te encontro em alguma bissetriz escura.
    Ambos riram com a cena.
     — O destino nos uniu e eu agradeço por isso. Excelente ideia espiar o que ou quem havia do outro lado da vírgula ao lado da minha casa decimal. Você lembra?
     — Como esqueceria a primeira vez que te vi? Parece que foi ontem.
     — A tarde de setembro mais memorável, saúde meu amor.
     — Saúde!
    Continuaram comemorando, bebendo, comemorando, bebendo.
    O último casal entrou no bar quadriculado, se sentou  nos banquinhos de acento oval e se olharam intensamente apoiados na mesa retangular.
     — Um, dois, três indiozinhos, quatro, cinco, seis indiozinhos.
     — Obrigado, agora essa música vai ficar se repetindo na minha mente durante um mês.
     — Amigos são pra isso.
    Desviaram o olhar e se ajeitaram desconfortáveis. Depois fixaram os olhares outra vez.
     — O que queria me dizer? Essa é a quinta tentativa. Estou ficando muito curioso e preocupado ao mesmo tempo.
     — Tem algumas coisas que são difíceis de admitir.
     — Eu sou seu melhor amigo, vou te ouvir e tentar entender.
     — Nós fazemos uma boa dupla não acha?
    O sorriso acanhado aumentou aos pouquinhos.
     — Isso é óbvio, temos uma conexão única.
     — Eu sei todos os seus medos e segredos e você sabe os meus.
     — Nos conhecemos desde que o Homem aprendeu a contar. Enfim, eu sei de tudo isso. O que tem a ver com o que quer me dizer? Não estou entendendo nada.
    O coração acelerou, as palavras certas tentaram sair, porém se atropelaram e veio a crise de tosse.
    Um gole de água e muitas respiradas profundas depois, a tentativa ficou pairando inacabada.
     — Eu queria te convidar para uma equação muito importante que estou participando. Não confim em mais ninguém para me ajudar a descobrir o valor daquele X teimoso.
    A decepção para alguém que esperava outro convite se fez notar.
     — Eu não sou um número de meias palavras. Você não pretendia me convidar para o projeto. Mas já que a iniciativa deve partir da minha parte eu oficialmente estou te pedindo em namoro. Tem seis segundos para responder. Um...
     — Mas, eu...
     — Dois...
     — Como você percebeu isso?
     — Três...
     — Sou tão óbvio?
     — Quatro...
     — Para de contar e conversa comigo!
     — Cinco.
     — Eu não posso tomar essa decisão em apenas seis segundos!
     — Seis.
     — Eu digo que sim! Quero namorar você desde que ficamos sozinhos entre aqueles parênteses! Você cuidou de mim naquela escuridão.
     — Eu segurei a sua mão e te guiei para os colchetes e depois pegamos as chaves para a saída. Lembra como o Igual quis nos separar?
     — Ele conseguiu por um tempo, mas eu sempre pensei em você do outro lado daquele Igual intrometido.
    Com um amor vindo desde os primórdios e seguindo para a eternidade, os casais estavam feitos.
    Um e Dez; Dois e Nove; Três e Oito; Quatro e Sete; Cinco e Seis.
    Em um canto do bar em uma mesa com vários lados o X  cobriu-se para não perceberem sua presença. Ao lado dele, o zero bebia e paquerava um número imaginário sentado ao lado. De frente para ambos, ou mais ou menos, pois a mesa tinham muitos ângulos, estavam os gêmeos Mais e Menos, depois vinha a Divisão com seu olhar cruel e maldoso, por fim, a Multiplicação mais tranquila, observava os casais.
     — Todos os números estão felizes.
     — O zero tem que ser o mais óbvio sempre. Isso é de propósito?
     — Só citei um fato, Divisão. Me deixe em paz. Não gosto de ver meu gêmeo tão feliz. — declarou o Zero olhando para a outra extremidade do bar.
     — O casal mais estranho é o do seu irmão. Dez e um? Como o Um pode namorar o Dez sendo que o Dez já tem o Um em si mesmo?
     — Cale-se incógnita. Você está criando discórdia.
     — Multiplicação, ninguém aqui tem seu bom coração. Então, cale-se você.
     — Relaxem pessoal. Tudo vai dar certo no final. O Menos e eu trouxemos uns amigos para desestabilizar essa harmonia romântica. – anunciou o gêmeo que só sabia somar.
     — Conta Mais, conta Mais!
     — Calma Divisão, eu vou mostrar. Olhem lá fora pelas janelas espelhadas.
    Lá estavam eles, uma horda de números diferentes e iguais.
     — Vocês criaram os números negativos mesmo! Achei que fosse uma lenda!
     — Não zero, lenda vai ser este dia feliz para os números sentados naquelas mesas. Mais e eu trouxemos esses números de um plano cartesiano diferente do nosso.
     — Isso foi perigoso e imprudente!
     — Multiplicação fica na sua e não atrapalha!
     — Você não manda em mim Divisão!
     — Silêncio! Deixem o Mais contar o plano! Eu quero participar e me juntar aos números negativos para acabar com a alegria desses números naturais!
     — Sim querido X, agora você pode se disfarçar de qualquer um deles e todos nós prometemos dar muito trabalho para os Naturais metidos. Vamos acabar com eles, ou eu não me chamo Menos!
    Multiplicação não queria participar de nada, porém o dever para com a família de operações matemáticas exigia que acatasse as decisões.
    E o grupo brindou pela nova era de bagunça enumerada.
  • G/m2

    Meu lápis escorrega sobre o papel creme e deixa parte de si naquela folha, os rabiscos de carvão se tornam um só, se completam e ganham vida. Eu posso sentir a vibração do percurso que minha ideia toma, na ponta de meus dedos ao fundo do meu consciente, não apenas o grafite deixando o lápis e se juntando as imperfeições da textura levemente granulada, mas também sinto algo indo e voltando neste papel.
    Eu mal posso definir este momento no tempo ou lembrá-lo com detalhes, percebo ao final que viajei sem interrupções a obra já concluída e repleta de significados. Durante este processo eu posso ter deixado minha mente, navegando por entre os resquícios da borracha.

     

  • Grande Milagre


    Não basta ser!

    Não importa ter!

    O que levamos daqui

    Não cabe em um bolso.

    Para cada momento,

    Devemos em nós reconhecer,

    Com o voar do tempo,

    Da vida não guardar

    Todos seus desgostos.

    Até porque, do mel seu gosto,

    Está bem mais próximo

    Do encontro de nosso céu.

    Somos muito mais

    Que em livro se explica,

    Tudo que se implica

    Ao nosso interior.

    Sejamos todavia mais felizes,

    Com que o temos que aceitar.

    Mudamos o que podemos mudar,

    Porque o impossível seu

    Só se faz imbatível com Deus.

    Confie! Tenha fé! Viva com Alegria!

    Sinta a gratidão em seu coração

    De seu Milagre da Vida.
  • HOJE

    Na minha vida
    Nada combina
    Desatina
    Diverge e termina
    Na minha vida
    Nada combina
    Diverge e termina
    Desatina
    Na minha vida
    Nada combina
    Xadrez com listras
    Na minha vida
    Nada combina
    Minha sina
  • Imaginação, apenas.

    altaltalt
    Quem é o Criador?
    Como ele é afinal?
    Quantas vezes já pensamos nisto não é?
    Acredito que nunca vamos saber a resposta, talvez na morte, mas dai o valor é um tanto menor.
    Como ele procede em seus atos?
    Como cria os mundos?
    Será que é um velhinho resmungão,  que vai jogando sementes de vida saídas de um saco de algodão por onde ele passa?
    Vi em uma revista antiga, a foto de um pescador em sua canoa, e comecei a pensar que talvez esta possa ser a imagem de Deus.
    Esta num barco pequeno, uma canoa que esta  parada num lago.
    O homem parece estar  jogando algo na água.
    Esta água é muito azul,  refletindo na sua pequenez de lago todo o céu.
    Pode ser que para  ele o universo seja um lago e nesta canoa,  ele de vez em quando saia para visitar os mundos que criou.
    Porém, nesta visitinha jogue algumas novas sementes, já que há estrelas morrendo e nascendo o tempo todo...
    É uma imagem muito tranquila que parece dizer que não há tempo ganho ou perdido ali, é só o estar ali naquele eterno momento.
    Ah, mas isto é algo, que nós como seres malucos e inquietos na vida, jamais conheceremos o verdadeiro sabor, o de apenas Ser e Estar naquele momento.
  • Impulso Vital


    impulso vital

    A Mentira Pronunciada Pelos Lábios De Quem Nunca Teve #NadaAPerder São Conjugadas Pelos Meios Mágicos E Sobrenaturais, A Contradição Dos Interesses Ficam A Reboque Dos Acontecimentos, Kudza- Se As Ideias São Transmissíveis Porque Que Não Somos Todos Geniais? Enquanto O Coletivo Pensa Sem Pensar, Kedson Permanece Solitário Perante O#RaciocínioAbstracto Do Eu Platão, O Idealismo Dos Pacifistas Não Toma Precauções Antes De Encorajar, Porque O Sentido Da Palavra É Uma Grosseira Falsificação, O Estudo Da Queda Dos Corpos Restauram As Velhas Teorias Políticas Já As Tendências Do Inconsciente São UmDisparo Acidental As Raríssimas Histórias De Embalar, Kudza- Ainda Assim… Luto Para Me Desencadear Perante Essas Forças Repressivas O Klan É O Nosso Asilo Nosso Minúsculo Oásis Da Felicidade, Eu Sou A Maça Que Já Passou Pela #CaraDaIdade Mas Não Me Deixo Cair Da Árvore, Porque O Fascínio Da Imagem É Uma Frequente Agressão A Minha Falsa Popularidade, A Tua Correspondência Para O Klan É Necessária, Traz-nos Uma Leitura Funcional E Para De Expor As Faltas De Oportunidades E De Informações, Onde Pensas Que Iras Chegar Com Essa Escrita Irresponsável E Indisciplinada Parece Uma Retardada Decomposição Do #LixoBiológico Adulterado Pelas Rotundas Das Minhas Internas Convulsões. 

    “Perdi O Meu Interesse Na Modernidade E Na Sua Solução Inventiva, #PublicasHumilhaçõesSão Rituais Para A Aniquilação Da Alma, As Primeiras Gerações São Ridicularizadas Porque As Músicas, O Vestuário E O Vocabulário Não Alcançam A Altura Do Tempo, Para Todos Que Lutaram Na #LinhaDaFrente, O Vosso Esforço Não Será Esquecido, Para Quem Hoje Não Voltou Para Casa, O Teu Esforço Não Será Esquecido, Por Mais Sofisticada Que Seja Essa Nova Versão, Kedson- Eu Continuo Ocupado Em Tornar O Velho Sonho Realidade” Os Conselhos Que Eu Mais Oiço São Kudza Desiste, Estás Dificuldades Apenas Provam O Quão“#AlexandreOGrande” Eu Sou… Por Isso Kudza Insiste, Quero Conhecer O Meu Poder E O Meu Lugar Neste Percurso Cheio De Inspeções Medievais Sem Seguro, Somos A Pequena Parcela Da Realidade Que Procura #RomperOSofrimento Que Asfixia A Atmosfera! Contem A Respiração Mental Até Que O Plano Volte A Vida, Se Constantemente Evitamos As Diferentes Dificuldades Que Não Podemos Controlar Então… Quem Controla O Nosso Futuro, Kudza- Ninguém Ira Faze-lo Por Ti… Salva A Tua Própria Vida. 

    Se O Hoje É Uma Batalha. Será Que O Amanhã Representará A Minha Ultima Síntese.

    “Amar É Viver Repetindo O Nosso #RefrãoFavorito, Ser Amado É Procurar Memorizar As Letras Da Mesma Canção” O Amor Vulgar Decorre Imediatamente Depois De Fazer Asneira, O Erro Secular É Tentar Dominar A Sua Natureza Com #MeiosTécnicos Em Que O Detalhe É Revalorizado Pela Face Expressão, Kedson- Gosto!!! De Como Ela Se Apresentou Sem Acréscimos Estranhos Talvez Essa Manifestação Cega Tenha Carreira, A Minha Análise De Todos Os Seus Concretos Gemidos De Prazer Elevou O Grau De Aperfeiçoamento Da Sua Beleza, O Movimento Em Espiral Passou-me De Uma Massa Inerente Passiva E Sem Forma Para Um Ser #ApaixonadamenteInvencível Kudza- Ela Foi Basicamente Um Assalto Direto A Minha Fonte De Tristeza, Tu Serás A Base Da Minha Universal Infinita Vontade, Apenas Ama-me De Volta E Positivamente Viverás, O Ultimo Texto Foi Um S.O.S E Sophia Respondeu, Os #EscalõesSuperiores Elucidam O Perturbante Relativismo Entre A Nossa Identidade, Espero Que As Noções Do Senso Comum Tenham Razão! Da Mesma Maneira Que Sophia Respondeu… Espero Que Também Me Responderás. 

    “Para Todos Os Filhos E Filhas Da #ProdigiosaEvolução, Porque Que Têm O Euro No Lugar Da Consciência!!  A Primeira Iluminação Traz Com Ela A Repetição Da Circulação Do Novo Dia, Vou Aprendendo Coisas Novas, E Sigo Evoluindo E Me Contradizendo, Ontem Fui Ao Cemitério Escavar Sonhos, Muitas Das Pessoas Levam O Seu Dom Para A Terra Porque Têm Medo De Seguir O #InstintoDivino, As Tuas Limitações Não São Minhas, O Que Ganhas Em Desistir De Ti Mesmo, Kedson- Confia Em Ti Mesmo! Kudza É O Tipo De Ser Que Corre De#BraçosAbertos Para Todas As Coisas Desencorajadoras Que Afastam Todos Os Navios Menos O Meu, Tudo Isso Porque Ela Decidiu Mentir, Quase Acreditei Que Poderias Ter Sido A Minha Raqiya, Eu Só Quero Amar-te Uma Única Vez… Pois O Tempo Por #NinguémEspera, O Forjador De Toda A Minha Sorte Esta Prestes A Trazer A Origem Dos Tempos Para A Sua Época Atual“

    Sinto A Falta Das #MinhasSaudades… Kudza- Por Favor Voltem, Sinto A Falta Das Tuas Saudades E Sinto A Falta Das Nossas Saudades, Kedson- Essas Por Favor Não Voltem! O Estado Das Coisas Que Oferecem Vantagens Pretendem Desenvolver E Sustentar A Vontade Providencial Dos Fenómenos Materiais Dos #FalsosÍdolos E As Suas Falsas Mensagens, Ela É O Meu Papel Primordial Mas Encontra-se Perpetuada Pela Eterna Transformação Do Mundo, Se Nada Disso É Real Apenas Beija-me Até Que A Morte Pare De Correr Atrás De Mim E Mude O Seu Rumo, Kedson- Falo Neste Exato Segundo! Vivo Questionado Pela Dor Deste #ConfusoCarrossel Que Não Tem Fim, Apenas Deixa-me Abraçar-te Fortemente Antes Que O “Furação Ana” Te Leve Longe De Mim, O Facto De Estar Perto Dela E Saber Que Não A Poderei Ter Isso Já Me Causam Hematomas No Coração, Só Espero Cair Num Sono Profundo Porque A Viração Do Dia Faz-me Derramar Os Oceanos De Sangue Que Foram Consumidos Pela #AtómicaExplosão, Não Deixes As Pessoas Ensinar-te O Que Pensar, A Necessidade De Evitar O Medo E Procurar O Prazer, Fez-me Mergulhar Tão Fundo Nesta Loucura Que Quando Foi A Superfície Respirar… Kesdon- Esqueci-me De Como O Fazer. 

    Podes Levar O Que Quiseres. Eu… Já Não Preciso De Mim.

     A Importância Prática Do Quadro Eloquente Das Minhas Atitudes Redesenha Todas As Dificuldades Anteriormente Assinaladas, Essas Relações Relacionam-se Com Os Condicionamentos Dos Fenómenos Onde A Tua Forma É Determinada Pelo Conteúdo Das Barras Que Por Ti São Interpretadas, Kudza- Ouve-me… Para De Sofrer, Para De Me Fazer Sofrer, E Para De Nos Fazer Sofrer, Kedson- #ApenasPara… E Diz-me Como Posso Eu Te Entreter “Eu Não procuro Ser Umas Destas Estrelas Caídas Danificadas Pelo Brilho Do Seu Próprio Sucesso” Todos Os Avisos De Recessões São Semanalmente Publicados Pelas Redes Sociais Nem São Compreendidos Nem #CorrectamenteDominados, Espero Que O Decreto Presidencial Normativo Ao Criacionismo Venha A Assinar A Minha Dupla Extradição Porque Este Ano Já Estamos Terminados! O Começo Do Inicial Movimento É Uma Prioridade Fundamental Possuidora De Um Dinamismo Interno, As #VirtudesDormitivas Esticaram-me Sobre As Montanhas Da Minha Zona De Aconchego, Kudza E Kedson Duas Realidades Entre Si Distintas Que Procuram Ainda Revelar As Suas Leis Perante A Resistência Que Apoderou-se Do Paraíso E Transformo-lhe No Planeta Inferno, #SeresImaginários Povoam A Órbita Dos Sonhos Porque A Esfera Tem Infinitamente Mais Ego Do Que Tráfego.

     Esse Pensamento É Encarnado De Um Mecanismo Perfeitamente Regulado, Nós Somos O Reflexo De Um #PlanoDivino Segue Em Frente Pois A Prosperidade Vem Do Virar Da Esquina Mantém O Elemento De Discordância Atentamente Desnivelado, Kudza É O Sujeito Pensante Que Telegrafa Fora Das Dimensões Existentes, As Funções Cerebrais São Comandadas Pelo Laço Neural Elas… Juntamente Interrogam A Esfinge Na Esperança De Converter O Idealismo Numa Abstração De Puros Atos Divergentes, Para Aqueles Que Só Chegam Perto Para Poder Espalhar O Meu Falso Testamento Percebi… Melhor Do Que Entendi! Os Barulhos Que Propelam Em Torno Da Minha Agressividade, Só Me Faz Lembrar De Que Quanto Maior For O Meu Desafio, Maior Será #AMinhaVitória, Kedson- Percebi… Melhor Do Que Entendi! Os Testes Titulados Pela Vergonhosa Palavra Da Ordem, Fazem-me Querer Levar Esses Bandalhos Para O Preparatório, Os Seus Fracos Interesses Apenas Visam A Intensificar A Maldade E A Desordem, A Tua Instância É Precária E Frágil, Similar Ao Resto Da Tua Conceção, Essa Sombra É Um Projeto De Um Espírito Notório, Estou Desligado De Todas #EssasCausas, Animais Que Não Dão A Pata Só Abanam As Caudas, Não Curto Deste Tratos Jamais Terão A Minha Fidelização, Kudza- Percebi… Melhor Do Que Entendi, Não Grites Tão Alto Ainda Corres O Risco De Ter Um Android Prematuro As Tuas Costas Só Estão Quentes Porque A Tua Bunda Está A Pegar Brasa, Kedson- Olha… Mais O Passarinho Inseguro Que Já Não Voa Porque Partiu A Asa, Percebi.. Melhor Do Que Entendi!

    Quando Eu Acordar E Vir A Descobrir Que Deus É Um Cientista… Kudza- Eu Juro Que Acabo Com Aquele Velho.

    Kedson
  • Iniciando o pecado

    Por sorte conheci Ângela.
    Era magra, um pouco alta, loura, seus cabelos caiam sobre seus ombros com leves ondulações, era branca, suas bochechas eram rosadas, seu nariz avermelhado e lábios finos com um tom bem claro.
    Era adoravelmente simpática, seu sorriso era bem quadrado, como se fosse uma dentadura. Estava no segundo ano de medicina. Só sabia falar sobre isso.
    Falava como o cheiro hospitalar era viciante. Contava curiosidades sobre o corpo humano. Explicava sobre as partes inúteis do corpo.
    Era engraçada.
    O clima ficou tenso quando começou a falar sobre seu ex. Um cara qualquer. Futuro advogado. Um babaca que queria que ela desistisse da faculdade.
    Eu não me importava com nada que ela dizia.
    Mas queria me importar. Seus olhos claros, verdes ou azuis. Não lembro. Eram tão bonitos, tinham um brilho. Como se a vida dela até aquele ponto fosse tudo perfeito. Mas não era.
    Há alguns meses sua irmã ficará paraplégica num acidente de carro. Algo que me fez sentir mais próximo dela, já que tínhamos isso em comum.
    Seu foco na área, era descobrir um meio de fazer sua irmã voltar a andar.
    Ela tinha fé, mesmo dizendo não acreditar em Deus. Diferente dela, eu tinha uma crença enorme no pai divino. Eu era o escolhido. O filho de Deus.
    Minha avó começou a me levar para a igreja após a morte da minha mãe. Dizia que encontraríamos a paz lá. Encontrei a paz alguns anos depois numa missão divina.
    Ângela me perguntou sobre meu passado. Inventei uma historia, onde eu tinha uma família perfeita, feliz e viva. Contei coisas engraçadas sobre minha mãe. Contei sobre o arroz que ela queimou uma semana antes.
    Tudo mentira. Ângela ria.
    A festa já havia começado. A conversa estava tão boa que nem percebemos.
    Umas trinta pessoas estavam ali. A casa não era grande, tendo apenas um quarto, sala, cozinha e banheiro. Não era muito confortável, os cômodos eram minúsculos. Mas aconchegantes.
    Percebi que Ângela foi conversar com outros amigos. Fico sozinho. Algumas pessoas que passavam por mim, falavam comigo e ofereciam bebidas. Mas recusei. Jamais havia bebido álcool.
    Tentam puxar assunto, mas ignoro-as. Vejo os passos de Ângela, observo aquele sorriso saltar de conversa em conversa. Com a mão direita ela coloca uma mexa do cabelo atrás da orelha. Olha-me e sorri. Então some na multidão.
    A música esta cada vez mais alta. As luzes coloridas fazem minha visão ficar turva. De repente alguém grita ao pé do meu ouvido.
    “Quer ir ao quarto?” – era Ângela, rebolava e bebia uma bebida colorida.
    “Fazer o que?” – Pergunto... Atualmente me envergonho disso.
    Ela se inclina e me responde com um beijo.
    Um beijo de língua, sinto o sabor do álcool, mas não recuo, sinto o calor da sua língua, dança na minha boca.
    Beijo termina. Ela sorri.
    Agarra minha mão me puxa em direção ao quarto. Minúsculo quarto.
    Meu coração estava batendo o mais rápido possível. Ela abre a porta branca e entramos naquele pequeno espaço, com uma cama que tem um abajur na cabeceira, uma arara com diversas roupas espalhadas. Sobre a cama, estava um cara de porte físico bem atlético, junto de uma garota ruiva, totalmente nus.
    Ângela faz sinal para que saiam, foi quando notei, que ela era a dona da casa.
    Os dois obedecem, sem retrucar. Saem e fecham a porta.
    Ângela ri. Começa a dançar.
    Sou virgem. Ela sabe disso. Segura minhas mãos e põe sobre em sua barriga. Estava quente.
    Ainda segurando minhas mãos, sobe devagar sobre aquele seu corpo macio, fazendo com que eu tire sua camiseta. De sutiã preto ela rebola.
    Aquele excesso de informações, misturado com a bagunça que meus hormônios faziam dentro de mim, me deixava meio perdido.
    “O que eu faço?” Pensava frequentemente. Mas Ângela me dava às direções.
    Soltará o sutiã. Aquele belo par de seios do tamanho de maçãs, me fez vidrar ainda mais naquele corpo. Belas maçãs rosadas. Ela continua controlando minhas mãos. Passa elas sobre as maçãs, meu corpo esquenta. Ela mordisca meu lábio e se entrega num beijo estalado. Um beijo forte, com fogo e paixão.
    Ela deita. Olha-me nos olhos.
    Como se meu cérebro tivesse recebido instruções através daquele beijo, ele passa a fazer tudo automaticamente. Passo minha língua naquelas belas maçãs rosadas, desço pela sua barriga e abro seu short. Retiro-o e fico olhando para sua calcinha roxa com lacinho preto.
    Sem pensar duas vezes retiro toda minha roupa, não me importo em ficar nu. Deito sobre aquela garota de seios rosados, ela esta toda nua agora. Faço os movimentos no quadril como se estivesse programado no meu instinto.
    Movimentos repetidos. Corpos quentes.
    Sinto suas unhas arranharem minhas costas. Passo a mão em seu rosto. Em seu cabelo. Em seus braços, peitos. Beijo seu pescoço. Ela me agarra com mais força.
    Acelero o movimento. Ida e volta sem pausa.
    Novamente ela segura minha mão, leva até seu pescoço, o seguro e a beijo. Beijo firme.
    Ida e volta. Vai e vem sem pausa.
    Ela se contorce de prazer. Suas unhas arranham minhas costas, mais e mais. Suas pernas se contraem. Ela geme. Gemido abafado.
    Sinto minhas costas arderem. Seus olhos estão revirados e sua boca aberta.
    Gozo.
    Então foi quando percebi. Ela estava sufocando. Já havia sufocado, estava morrendo. Suas mãos caem sem força sobre a cama.
    Penso em pedir ajuda, mas minha voz não quer sair. Aqueles lábios que me beijavam há pouco tempo atrás estavam arroxeando. Ela não se move. O abajur na cabeceira da cama havia caído por causa do vai e vem.
    Entro em pânico. Corro para o banheiro e vomito. Vomito muito. Sento ao lado do vazo e começo a chorar.
    “O que houve?”
    “O que eu fiz?”
    Essas perguntas varriam minha mente. Eu precisava de ajuda. Ninguém me ajudaria. Minha avó ficaria louca. Choraria sem parar.
    “Você se tornou como sua mãe.” – Diria ela gritando e tentando furar o cerco policial.
    Eu estava sozinho. Ninguém poderia me consolar. Mas no meio daquele choro, tive forças para ficar em pé. Deixo o corpo do meu corpo sobre a pia, enquanto me olho no espelho. Vejo meu reflexo. Aparentava ser bem mais jovem. Cabelos bagunçados, nada de barba e olhos inchados. Aquela imagem me faz rir. Estar totalmente em pânico e não ter nenhuma saída, me fazia rir.
    Rir era a única coisa que poderia me ajudar.
    Penteio o cabelo com um pente que estava ali. Estou mais calmo. Respiro fundo. Mesmo sem entender o que aconteceu. Sorrio para o reflexo e ele me imita.
    Volto para o quarto.
    Ângela ainda esta lá. Nua e linda. A luz reflete sua pele pálida. Deito-me ao seu lado. Aconchego minha cabeça sobre seu ombro.
    “Como isso aconteceu?” – Pergunto a ela.
    “Perdoa-me, ok? Foi sem querer” – Tento me redimir com ela.
    A cubro para que não sinta frio. O som estava bem alto, poderia atrapalhar seu sono.
    Sono profundo.
    Sua boa ainda esta aberta, assim como seus olhos, que mesmo revirados são lindos.
    “O que eu fiz?”
    “o que estou fazendo?”
    Minha mente esta tentando me trazer para a realidade. Matei mesmo aquela garota. Sem motivo algum.
    Matei por ela ser linda? Não.
    Matei por que me apaixonei? Não.
    Não havia explicação, apenas duvidas. Coloco minha roupa e a visto também. Desculpa Ângela. Coloco seu corpo no meio das roupas que estão jogadas na arara. E me despeço. Sinto vontade de beija-la, mas minha sanidade ainda falava comigo. Ainda
  • INTERROGAÇÃO

    Quem eu sou?
    O que me espera?
    A quem vou esperar?
    Posso continuar a perguntar?
    Isso é vida?
    A morte onde está?
    Será que demora?
    Será que nunca virá?
    O passado é uma navalha,
    Que retalha o presente,
    Cicatrizando o futuro.
    A certeza de estar errado,
    É minha única certeza
    Que estou certo!
  • Inúmeros ‘eus’ demônios de mim

    Sentia-se cansado depois de um longo dia de trabalho árduo. Tirou seus sapatos, e como de praxe, pendurou-os pelos cadarços em um extintor de incêndio que se encontrava na entrada do acampamento. Fazia isso, todos os dias, para que os insetos nocivos como aranhas e escorpiões não fossem ter seus calçados como abrigo. Tirou suas roupas de trabalho, que mais pareciam como fardas de soldado, e pendurou-as em um barbante que estava esticado ao lado das paredes feitas de pequenas varas de bambu. E ainda vestido com finas roupas brancas de baixo, pegara sua pequena sacola de pano, que comprara em viagem ao Peru, onde cotinha seus produtos de higiene e limpeza corporal, e fora rapidamente para o banheiro tomar uma ducha quente.

    — Finalmente! — exclamara para si mesmo se enxugando e caminhado para vestir sua confortável roupa de dormir.

    Pegou alguns pedaços de madeira, colocou em uma pequena lareira de ferro que se assentava ao solo, colocou um bule com água para esquentar na plataforma da lareira, e fora se sentar numa pequena poltrona ao lado, se aquecendo do imenso frio do inverno desértico israelense. E, com uma xícara de chá de Erva Luíza envolvida pelas suas mãos, para, também, aquecê-las, levava a boca dando pequenos goles em curtos espaços de tempo, onde seus pensamentos rodopiavam com os estalares da madeira incendiada, fazendo uma pequena retrospectiva do seu difícil dia.

    Ao terminar de tomar o seu calmante chá, massageava seus pês com uma solução que fizera com alecrim, azeite de oliva, essência de lavanda, óleo de sementes de uva, óleo de amêndoa e mel.

    Lamentavelmente, pensando, percebera que por falta de sabedoria os seres humanos construíam em suas vivências inúmeros ‘eus’ demoníacos, roubando-lhes suas consciências e alegria de vida. Pensava isso, pelo fato de presenciar nas atitudes de seus companheiros de trabalho, os muitos agregados psíquicos aproveitarem-se de alguns conhecimentos adquiridos para se auto afirmar. Conhecimentos estes, sequestrados pelo mau ego, que tornam o ‘pequeno eu’ perigosamente astuto, capaz de formular os piores crimes emocionais e sentimentais, explorando o homem pelo homem, destroçando as inúmeras capacidades intuitivas, e as diversas expressões artísticas, filosóficas e religiosas do ser.

    Este ‘pequeno eu’ sabotador, que na verdade são múltiplos e se arma de intelectualidade, destrói os verdadeiros valores existenciais que sempre vem sustentando a espiritualidade humana, dando o pior de si mesmo em sua astucia mecanicamente intelectual, para conseguir seus “altos” níveis de prestígios sociais, políticos e econômicos. Imbuído de sua vaidade doentia e arrogante que crê firmemente que em si mesmo e por si mesmo está pensando, sem se dar conta que sendo um pobre mamífero e bípede intelectual, está apenas sendo controlado por seus múltiplos sentimentos e emoções que são subordinados aos seres semelhantes, assuntos e objetos externos, e, não a si próprio.

    Intuitivamente, também, percebera em si mesmo os muitos ‘eus’ agregados e trapaceiros, que apesar de constituir uma só parte, ilusoriamente crera ser o todo em um dado momento. Nessa intuição, vira que quando surgia repentinamente um sentimento de ódio por uma determinada pessoa, pensara erroneamente que a totalidade do seu ser estava odiando, enquanto apenas um determinado eu era o autor de tal sentimento odioso.

    Percebera-se diante de um mundo pluralizado dentro de si mesmo, em que no exterior confeccionava o indivíduo. Inúmeros pensadores que apesar de fazer parte de um só corpo e mente, se crê que é um todo, momento a momento.

    Vira que os seus processos de identificação, empatia, amor, ódio, rejeição e discriminação eram apenas pequenos ‘eus’ interesseiros e oportunistas, em que o fazia de vítima ou vilão de cada situação. E, diante disso, queria sempre se manter alerta, questionando toda e qualquer forma de emoção, pensamento e sentimento autônomo que infortunadamente o dirigisse. Principalmente para o que dizia respeito as intenções, palavras e ações alheias. Não esquecendo, é claro! Que esses inúmeros ‘eus’ mesquinhos e desarmônicos, apoderam-se constantemente de situações que não foram devidamente analisadas e meditadas, que tornava a personalidade vítima das circunstâncias e intenções maldosas alheias.

    Sentado no conforto da lareira, repetia para si mesmo mentalmente, exclamando:

    — Tenho que viver em estado de profundo alerta constante!

    Desejava não mais ser enganado pelos inúmeros ‘eus’ internos que só lhe causavam discórdia, ou pretendia afastá-lo da senda do conhecimento místico espiritual. E, mentalmente dizia para si mesmo:

    — Se eu deixar que esses ‘eus’ demoníacos internos atuem… pensando e sentindo por mim, nunca estarei no real controle. Nunca serei o senhor do meu destino e de mim mesmo. Apenas pensarei estar pensando, sentirei que estou sentindo… enquanto é ‘outros’ agregados que pensa com minha mente, e sente como meu coração. Sendo eu arrastado pelo vento, levado pela correnteza e inflamado pelo fogo.

    Se vira escravo… escravo das circunstâncias culturais que o acorrentaram desde o seu nascimento a um corpo animal cheio de desejos, vícios, medos, traumas, percepções e concepções errôneas do universo e da natureza em seu cotidiano urbano social. Que negativamente se fazia personificado nas associações e identificações mecânicas de si mesmo, e dos demais seres semelhantes no coletivo sentimentalismo mórbido e agregados psíquicos de um mundo em que a fantasia era a realidade do animal intelectual. Amando demasiadamente a si mesmo, se auto vangloriando, imbuído de autoconsideração que o conduzia inevitavelmente à autocomiseração. Pensado ser o “bom-homem”, no papel da vítima, em que ninguém ao seu redor sabia apreciá-lo. Tudo isso graças a má-educação psicofísica, somada a uma pitada de pobreza espiritual e ignorância cultural, que o tornava produto intelectual de formas estereotipadas de reagir sem pensar a toda e qualquer situação adversa, levando as diversas maneiras equivocadas de sentir e pensar nos inúmeros mecanismos autônomos negativos de se entregar a emoções inferiores, e luxuriosas do prazer e a da dor.

    Nisso, percebera a compaixão que tinha que ter com seus semelhantes e consigo mesmo. Não punir, e nem se punir. Não condenar os seus sentimentos negativos e inferiores, e nem condenar esses mesmos sentimentos no seu semelhante. Nem tão pouco procurar motivos para justificá-los, mas, observar e se auto observar em um ato de recordação de si mesmo, na procura de conhecimentos ajudadores dos inúmeros estados que nos levam a tal decadência, e dos equívocos da consciência suprema espiritual. Em que vivemos lamentado o perdido… chorando pelo leite derramado na recordação atormentante dos velhos tropeços e calamidades… odiando o que desprezamos em nós e no outro… manifestando um amor-próprio narcisista exagerado… e em pensar se vamos ser aprovados pelos julgamentos alheios.

    E, essa compaixão nada mais era do que sacrificar os nossos próprios sentimentos, emoções e pensamentos de quem somos. Sacrificar os nossos próprios sofrimentos, medos e complexos. E ser como o céu… que mesmo estando em toda parte, observando e englobando o todo de tudo, nunca pode ser tocado… nunca pode ser contaminado!

  • James Webb

    O louco que sempre dizia
    Que nada era o que parecia,
    Que tudo está errado,

    Que vice é versa que versa não versaria,
    O James Webb revelou o que nunca foi revelado,
    Futuro é presente sem pretérito do passado

    A única coisa possível ainda de se dizer

    É sim existe poder infinito em você.
  • JUS

    É natural toda a maravilhosa surpresa:
    Meus olhos muito te admiram porque
    eu não sei se Você é feita de beleza
    ou se a beleza é que é feita de Você
     
  • Jus

    É natural toda a maravilhosa surpresa:

    Meus olhos muito te admiram porque

    Eu não sei se você é feita de beleza

    Ou se a beleza é que é feita de você...


    Imagem Ilustrativa para o Poema "Jus"




     
  • Jus

    É natural toda a maravilhosa surpresa:
    Meus olhos muito te admiram porque
    Eu não sei se você é feita de beleza
    Ou se a beleza é que é feita de você..


    peopl088
     
  • La Luna em Beleza e Graça

    Meu Amor!

    Há uma beleza audível e invisível que imerge no íntimo dos puros de coração

    E como a luz da lua cheia em que sua aureola prateada a envolve de encanto místico sagrado… a canção emerge do mais profundo do ser, espiralando no corpo uma aura de graça e áurea de benção

    A uma inocente beleza de pureza e graça iluminada em sua doce voz feminina…

    Voz de pureza musical que penetra arrepiando os fios dos corpos em graça

    Cada tom… cada acorde… cada timbre… cada sopro do teu ser é gracioso em sua voz em graça

    Calmamente vou seguindo os seus passos sonoros no Bendito Amor em beleza e graça

    Tua força audível dança descontroladamente em meu coração

    Tua voz graciosa me arrasta para a Morada da Beleza

    O Sagrado lá me espera…

    A Beleza em tua doce graça penetra meu coração

    Apenas um eco no vento de uma doce voz feminina me embala

    Trançando meus cabelos com pequenos galhos de flores e coloridas folhas, arrastados no sopro íntimo dos teus acordes sonoros em graça

    Como és graciosa Querida!

    Em tua voz fui levado ao divino do meu SER

    Proclamou-se em mim uma semente do Sagrado e Eterno Contínuo ecoando em sua voz em beleza e graça

    Os empecilhos e agregados de minha falsa personalidade evaporaram pelo sopro gracioso do teu iluminado coração, em cura, beleza e graça

    Cante escrevendo para mim Meu Amor, no silencioso do meu ser agora em graça… sopre o teu vento em ondas sonoras, acompanhado pelos acordes percussivos dos grilos, pelos efeitos do rasgar da garganta da coruja em um misterioso grito supersônico, e pela beleza secreta e mística da melodia dos lobos uivantes ao te venerar em luz prateada no céu noturno

    Sento-me solitário na beira do rio Meu Amor… me leve em teus passos sonoros… reflita em minha pele a luz dos teus acordes em brilho e graça… fecho meus olhos com a cabeça erguida voltada para tua face lunar… cruzo minhas mãos abertas em reverência uma sobre a outra, levando-as calmamente ao meu peito, no lado do meu palpitante coração… na sinfonia noturna das pequenas criaturas… em um divino concerto místico onde toda natureza te acompanhava em beleza e graça… tua voz luz em ondas escritas me penetrou… e sozinho, sentado me ergui no doce luminoso bailado… e fui levado pelas cores do invisível sonhar… e na minha singela silhueta, em que fui ofuscado em seu canto de luminosidade coloridamente graciosa, me despi por completo de minha singular, pluralista e dualística personalidade masculina

    Tua mística voz foi jogada ao vento como o sopro no dente-de-leão

    Uma dessas sementes luminosas repousou em meu coração

    E lá nasceu a tua graça… divina… escrita… cantada

    No palco lunar de inefável beleza e bondade mística iluminada

    Assim, Meu Amor… sua voz cantou em graça meu coração

    Beijando com sua luz o meu masculino negro corpo terra, numa voz feminina branca e graciosa lunar canção

  • Labirinto étnico-racial de si

    Diante das variadas questões raciais e exaltação do antifascismo, que nada mais era do que a divulgação, ignorantemente, involuntária no coletivo social de um pensamento e filosofia fascista (regime político-filosófico italiano estabelecido nas primeiras décadas do século XX por Benito Mussolini, fazendo prevalecer o conceito da superioridade de uma raça e seu sistema de governo ditador e autocrático), que se apresentavam naqueles sombrios e acinzentados dias pandêmicos. Resolvera adentrar em si mesmo, na resolução da síntese de sua própria persona etnicamente mal identificada e incompreendida. E, se buscando em cansativas e exaustivas análises na cosmologia da raça humana e nas muitas referências lhes apresentadas em estudos acadêmicos… filosóficos… podcasts, posts e lives… discursos escritos e audiovisuais nas redes sociais e internet…, contudo, não se encontrara. Percebeu-se no mundo dos humanos… um ser alienígena.

    Racialmente, internamente, não se identificava e, externamente, não era identificado a nenhum povo ou etnia.

    Ele era fruto de uma louca, mutante e ‘metamorfósica’ mistura étnica, filosófica, religiosa e cultural. Bisneto de uma índia Pataxó-hã-hã-hães (que já era uma mistura combinada dos Povos Baenãs, Tupinambás, Mongoios, Camacãs, Geréns, Sapuiás, Quiriris, e entre outros… que habitavam o sudoeste do Estado da Bahia) com um cigano oriundo da Grécia (descendente dos Povos Rom, nômades desertores do sistema de casta na antiga Índia, provenientes do noroeste do Subcontinente Indiano, região peninsular do sul asiático que compreende os atuais países da Índia, Paquistão, Bangladesh, Nepal, Butão e as ilhas Maldivas, e, as do Sri Lanka). Neto do fruto dessa mistura, por parte da sua avó, com um judeu sefardita ocidental oriundo da Espanha (que chagara na Península Ibérica nas embarcações fenícias, durante as destruições do Templo de Jerusalém pelas revoltas judaicas e romanas). E, por última consequência, filho dessa mistura, por parte de mãe, com um negro oriundo dos Povos Iorubás (que foram violentamente sequestrados, e criminosamente extraditados da sua terra natal, o Império de Oió, nos meados do século XVI, chegando ao Novo Mundo nos tumbeiros da colonização portuguesa).

    …Assim, nessa complexa linhagem, era bem mal compreendido pela moderna sociedade brasileira, que (por ignorância) ignorava o procedimento decorrente de um intenso processo miscigenatório (classificado por alguns estudiosos acadêmicos brasileiros como: Homo brasilis)…, e incompreendido por ele mesmo nessa atual conjectura e caótica questão racial da sociedade brasileira, e mundial (no que se referia o caso do assassinato de George Floyd)… não sabendo em que lado deveria estar… que partido deveria tomar… e que etnia deveria se classificar… qual dogma e religião poderia declarar como sua verdade filosófica… e, que bandeira deveria sustentar. Porém, sabia ele que a corda sempre parte do lado preto. E nisso, também, enfureceu-se pela cruel morte do homem preto pelo poder estatal do homem branco. Contudo, pôs-se a pensar em que partido, dentro de si, iria tomar…

    De um lado… sua negritude e africanidade imperava, no externo, em sua forma física (corpo marrom, olhos castanhos escuros, traços faciais negros e cabelo crespo). Por outro lado… seu sistema psicológico e intelectual era ‘eurocentricamente’ branco. E, mediando nos seus extremos polos opostos do ‘SER’ e de ser… intentara que seu coração era ‘nativamente’ dos originais povos das Matas Atlânticas sul-americanas.

    Apesar de na sociedade brasileira, americana, asiática e europeia ser comumente discriminado como um negro da diáspora africana, no externo mundo social… Quando viajara ao continente Africano, percorrendo todas as suas regiões geográficas (Norte da África, África Ocidental, África Centro-ocidental, África Centro-oriental e África Meridional) na procura de uma identidade africana… Para seu espanto e surpresa! Fora discriminado pelos próprios negros africanos como um ‘MESTIÇO’. Nisso, se viu desolado… desabrigado… desenraizado. O chão sumiu diante dos seus pés, e caíra em um abismo sem fim na profundidade do seu ser. Na África, seu tapete fora puxado por sua própria descendência africana, caindo esparramado de bunda contra o chão. E, assim, se perguntara: “Quem sou eu?”, “Quem são meus ancestrais?”, “A que casa humana pertenço”. E, em sua existencial miscigenada contradição não poderia negar o Branco, o Preto e o Nativo Americano dentro de si, porém, seria um erro escolher uma dessas partes como política existencial, pois, ao fazer isso, cometeria o equívoco de negar a si mesmo como o todo de tudo. E, se viu sendo: O NOVO! O UM! A UNIÃO! E, também, o esquisito, a anomalia, o invisível.

    Percebeu que a Raça Humana proveio de um único embrião que crescera, multiplicara, evoluíra e se apartara dela mesma, indo explorar e habitar as várias regiões da Terra, e, por consequência, se fragmentara dela mesma, se mutando e se dividindo em si mesma. Daí intentou na concepção do: Retorno para Casa. E, viu que a miscigenação era, nada mais e nada menos do que, a realização natural desse retorno. Então, como ser miscigenado que era, se estudou, observando a si mesmo e seu meio-ambiente comunal e social.

    Não generalizando, mas em proporções e porcentagens maiores do que a média. Percebeu:

    a) que seus amigos negros (filhos de mães e pais negros) eram intelectualmente ignorantes em sua maioria. Não compreendiam, concebiam e nem dominavam a intelectualidade (que é de origem eurocêntrica). Sendo que para isso, necessitavam realizar um esforço energético tremendo, e antinatural, para se enquadrar nos padrões acadêmicos e filosóficos dessa intelectualidade e cultura greco-romana, que não correspondiam as suas realidades e necessidades básicas e existenciais. Porém, em contrapartida, eram seres místicos por natureza. A magia com todo o seu misticismo e conceitos esotéricos já estavam entranhados desde o berço em sua essência de ser. Seus corpos eram esbeltos, sensuais e atrativos. Dominavam toda sensualidade dos gestos dançantes, em toda a associação dos elementos cênicos-dramáticos e místicos da estética da dança e coreografia corporal. Além de serem músicos por natureza, e obterem uma força corporal descomunal, que desafiava as leis físicas e gravitacionais deste plano terrestre. Eram seres conectados à terra, naturalmente formados em simbiose com toda vida e ecologia… conhecedores dos mundos invisíveis e mágicos com seus seres elementais e inefáveis.

    b) que seus amigos brancos (filhos de mães e pais brancos) eram misticamente ignorantes em toda sua maioria. Desconectados da natureza, meio-ambiente e dos seus próprios corpos e espiritualidade ecológica. Sendo pessoas de psicológico e físico fraco, e de baixa autoestima corporal e emocional. Super dependentes das coisas e objetos criados e inventados por eles mesmos, além de possuírem uma dependência doméstica sócio problemática, não sabendo realizar suas tarefas mais simples… e sempre necessitando de uma outra pessoa em seus afazeres diários de higiene, proteção e alimentação. Possuidores de um super Ego (buscando fama, glórias, sucesso, riquezas, poder e luxo e, sobretudo, em poder saciar suas sensações e satisfações instintivas no abuso das drogas, dos esportes violentos e radicais, e, do sexo sem medir consequências) e entregues as coisas mais banais e materiais do sistema social urbano civilizatório. Porém, naturalmente, eram gênios intelectuais. Possuidores de uma mente informática e racional na busca de resoluções de problemas no seu cotidiano. Mestres acadêmicos, políticos, científicos, engenheiros, medicinais, econômicos, financeiros e tecnológicos. Formadores da moderna civilização com todos os seus equipamentos, aparatos e ferramentas… os donos do mundo e de todas as coisas inventadas e padronizadas dessa caótica sociedade humana.

    Já os nativos, ele não possuía um só amigo sequer. Pois, não havia espaço para sua existência na moderna sociedade. Se o nativo abandonar sua terra, tribo e floresta… ele tinha que fazer um abandono de si mesmo, em toda sua essência. Sua língua, cultura, saberes e modo de vida eram totalmente contrarias a todo conceito da sociedade urbana e civilizatória, e de nada valia para essa sociedade no seu conceito funcional. O valor do nativo brasileiro, estava em ser nativo mesmo… vivendo na floresta com seus costumes, modos e crenças.

    Então, observando a si mesmo, meditando e refletindo… se vendo mestiço: sua mente intelectual era branca… seu copo místico-físico era preto… e seu oculto coração-alma era nativo. A Sagrada Trindade em si mesmo… A tríade evolucionária encarnada e manifestada!

    E o mestiço? Qual é o seu valor? Em que se baseia a sua crença e seu papel na sociedade?

    O mestiço (possuindo um pai negro e uma mãe branca, ou nativa… ao contrário, ou vice-versa, tudo junto e misturado) vive um eterno dilema. Apoiado em uma corda bamba, que por incrível que pareça sua parte nativa automaticamente se anulava (pelas questões culturais apresentadas no parágrafo acima), sendo que lhes restava apenas os dois lados da moeda sócio racial: o branco e o preto. E o que determinava essa escolha? Sem dúvida a química orgânica da enzima tirosinase… as altas ou baixas concentrações de melanina e sua principal função da pigmentação da pele, no caso, humana. Que na cultura popular greco-romana as altas taxas de melanina era classificada, como: ‘Sujeira Escura’, e na cultura eurocêntrica colonial era discriminada, como: ‘Sujeira Biológica’.

    Entretanto, se o equilibrista mestiço tiver, no jogo genético do cara e coroa, baixas taxas de melanina: ele perderá seu equilíbrio caindo no lado social branco. E se tiver altas taxas, uma vez possuindo maior quantidade de melanina: perderá seu equilíbrio tombando no lado social preto. Daí, percebera o racismo em sua síntese, em que o mais prejudicado era ele mesmo, pelo fato de ser: O Mestiço!

    Discriminado, sendo tudo, a escolher na atual sociedade em que vive um só partido…

    Mal compreendido e julgado socialmente…

    Pejorado e anulado…

    Tendo que habitar um corpo mutante e alienígena… o X-Man da questão!

    O mestiço é tudo enquanto é nada. Compreende o Misticismo Negro e a Intelectualidade Branca. Mas, não é profundo como o negro no misticismo e como branco na intelectualidade. Sendo raso, no entanto, manifestando: ALGO NOVO!

    Pensando na corda bamba da sua existência, e no discurso do racismo. Viu que toda luta das políticas do ‘movimento negro’, e dos ‘mestiços negros’, era para conquistar o espaço do ‘branco’ na sociedade pós colonial das Américas. E ao contrário do que pregava Marcus Mosiah Garvey, com suas ideias do movimento de retorno da diáspora negra para África. Os ‘negros’ americanos pós-colonial queriam estar nas faculdades e universidades criadas e mantidas pelos ‘brancos’, e estudar sua visão e filosofia cartesiana e eurocêntrica de mundo… batalhavam para estar na televisão do ‘branco’… a usar a moda do ‘branco’… a ter a vida e o sistema econômico do ‘branco’… e nunca lutavam verdadeiramente para resgatar as suas línguas e culturas africanas, que estavam sendo abandonadas… até os próprios ‘brancos’, também, resolverem tomar de assalto as ‘culturas negras’, e em seu empreendedorismo massivo, comercializa-las. Sendo, que Marcus Garvey já dizia no passado: “Eu não tenho nenhum desejo de levar todas as pessoas negras de volta para a África, há negros que não são bons elementos aqui e provavelmente não o serão lá.” E, viu a contradição nas lutas e ideologias de raça, em que as próprias pessoas que se dizem ‘negras’, não sabem e nem se interessam a estudar e falar uma língua nativa africana, além de só saber algumas palavrinhas, mas, ironicamente ficam criticando o ‘branco’ na língua do ‘branco’. Assim, percebeu a hipocrisia, pois a luta do ‘negro’ não é por África e nem racial, e sim, é uma luta de classe econômica disfarçada. (não querendo desfavorecer aqui os direitos e deveres constitucionais de todo cidadão brasileiro, independente de sua etnia).

    Percebera a evolução da raça humana em si mesmo, e sabia que ainda estava no início do início de todo o complexo processo evolutivo. Mas, o diferente e maravilhoso nos dias de hoje é que esse processo pode ser estudado, pensado, analisado e devidamente acompanhado. Sendo, ao que diz respeito a Teoria da Evolução, não seria mais o caso de uma espécie evolutiva sentir a necessidade de exterminar a outra espécie (como foi a do Homo Sapiens em relação aos outros hominídeos). O NOVO! O processo final do Mestiço, se culminaria na mistura das misturas de todas as etnias em união em si mesma.

    Em sua catarse étnica racial, como mestiço que era, se classificou como a união e evolução da raça, pelo qual, automaticamente, se batizou de: Homo existencialis. A síntese da união biologicamente genética existencial, global, virtual, cultural, étnica, religiosa e filosófica de todo o multiverso universal da Raça Humana. E, como filosofia, decidira a partir daquele momento, conscientemente revolucionário, defender e levantar como bandeira a união dos povos, suas diversas etnias e cultura em uma única simbiose natural e ambiental, lutar pela ecologia e pregar a sustentabilidade humana na ‘Consciência Universal Biomática’, como classificara sua nova filosofia, promovendo uma estabilidade de união e amor desenvolvida e adaptada onde nossas múltiplas diferenças possam ser transformadas em ferramentas, para construção de uma nova e moderna sociedade mundial, cujos nossos valores individuais e coletivos se fundam em uma cultura de união contínua, visando enraizar práticas sustentáveis, resgatando, assim, os vínculos humanos de proximidade para crescermos em uma nova perspectiva de PAZ, nos orientando nessa difícil, porém possível, tarefa de estabelecer a HARMONIA em nossa amada Ama Terra.
  • Livrai-nos do mal

    Pai nosso, que estás nos céus

    Santificado seja o teu nome. Venha o teu reino;
     
    Seja feita a tua vontade,
     
    Assim na terra como no céu
     
    Dá-nos hoje nosso pão de cada dia
     
    Perdoai-nos as nossas ofensas 
     
    Assim como nós perdoamos
     
    A quem nos tem ofendido
     
    E não nos deixeis cair em tentação
     
    Mas livrai-nos do mal
     
    Amém"
     
    "Mateus 6:9-13"



    Capítulo 1
     
    Investigação (1990)
     
    1
     
    O tempo se fecha no céu, as gotas se formam nas nuvens enquanto as lagrimas escorem dos rostos familiares em volta de Maria Carolina Ruschel. Seus pais, Sophia Ruschel e José Ruschel, estão sendo sepultados no cemitério atrás da igreja. Maria com apenas 8 anos assassinou eles, um ato que no futuro ela entenderia como vingança. Isso era apenas o começo dos assassinatos da pequena criança.
     
    Todos estavam de preto, alguns seguravam guarda-chuvas, outros lenços, o padre lia uma passagem da bíblia, trovões assustavam os presentes, o vento assoviava entre as folhas, Maria estava congelada de medo, não pelos corpos de José e Sophia, e sim pelo homem de terno preto que sorria logo atrás do padre, era um sorriso de satisfação, de trabalho bem feito. De repente a voz do padre fica cada vez mais distante, o som do vento e do choramingo de seus parentes começa a sumir. Quando o lugar todo fica em completo silencio, o homem começa a gargalhar euforicamente, Maria começa a tremer, suas pernas estão quentes, um liquido estranho esta escorrendo entre elas, ela cai no chão de joelhos, todas as pessoas ao seu redor sumiram, ela está sozinha junto ao homem desconhecido, Maria coloca a mão entre as pernas e sente o liquido grosso e viscoso. Sua vagina está sangrando. Ela começa a chorar, mas não demora muito e para, uma boa sensação toma seu corpo, o homem gargalha em dobro agora. Todo seu corpo começa a formigar, seus olhos ficam brancos, ela geme cada vez mais alto. Neste momento o homem mistura sua gargalhada com gritos.
     
    -ISSO! ISSO! MINHA GAROTA, NÃO RESISTA AO PECADO
     
    Ela tremeu e gemeu por mais alguns instantes e depois desmaiou. O homem estalou seus dedos e Maria acordou, ainda desnorteada limpou a saliva em sua boa, lambeu os lábios e olhou para o homem com cara de dúvida.
     
    -O que aconteceu? Cadê todas aquelas pessoas? Quem é você? –Disse ela rapidamente, se levantou assustada e cruzou os braços sentindo frio.
     
    -Calma minha menina. Quem sou? Bom depende a pessoa, mas para você, saiba que sou seu verdadeiro pai. E aquilo que você sentiu e um presente que dei a todas as pessoas do mundo, e você, Maria, teve a sorte de receber muito cedo. Bom, eu chamo isso que sentiu minha querida de felicidade, já meu pai chama de pecado, e os seres humanos deram um nome diferente, não gosto muito, espero que tenha gostado do meu presente-Ele dizia tudo isso se aproximando dela e gesticulando com as mãos.
     
    Maria agora se sentia bem, de uma maneira que nunca se sentira antes, o homem falava a verdade? Ele realmente era quem dizia ser? Ela não sabia, mas confiava nele. De repente ela sentiu vontade de querer mais, mais calor, mais formigamento, mais sangue, mais felicidade. Ele finalmente chegou ao lado dela, se agachou, colocou a mão em seu ombro-Era um homem muito bem arrumado, tinha um cheiro bom misturado com enxofre (ela amou o cheiro de enxofre) ele tinha uma rosa vermelha no bolso do terno, o cabelo era muito bem penteado, usava um bigode que se enrolava nas pontas, e um sorriso extremamente branco, os olhos eram seu destaque, as vezes vermelhos, as vezes violetas, as vezes roxos, a cor ia mudando sem serem notados.
     
    -Gostou? -Diz ele.
     
    -Sim...
     
    -Quer mais, não quer?
     
    -Sim...
     
    -Bom, é muito simples, é só me obedecer, você vai?
     
    -Sim...
     
    -Ótimo!
     
    O homem então beijou sua testa. Acordou deitada no chão, chuva caia forte agora, todos seus parentes e o padre estavam ao seu redor. O padre quebrou o silencio.
     
    -Menina! Você está bem?!-gritou ele ainda assustado.
     
    -Nunca estive melhor-disse ela sorrindo.
     
    2
     
    O padre, Joseph Levitt, carrega Maria em seus braços para dentro da igreja, ele tenta se apressar, mas já não é o jovem Bépe faz muitos anos. À chuva deixou o gramado escorregadio, se ele caísse poderia quebrar algum osso e ali ficar por um bom tempo pois os familiares de Maria não estavam por perto para ajudá-lo. Parece impossível levar a garota para dentro. Sua respiração fraca, sua velhice, não faria ele desistir-Bépe nunca foi de desistir das pessoas que podia ajudar. Um passo de cada vez, ele pensava respirando profundamente, chegando bem perto da porta, Joseph, teve o desagradável sentimento de ser observado, ele parou por um instante, seu coração dobrou os batimentos que já estavam acelerados. Por um pequeno instante o pobre padre (misturado aos sons de vento e trovões) ouviu uma gargalhada não muito nítida que parecia vir ao fundo da floresta, ou talvez foi sua imaginação de uma mente que estava em decadência junto com o restante do corpo. Finalmente ignorou todo o resto e entrou na igreja com a menina que estava tremendo de frio. Com dores nas costas, levou Maria para os primeiros bancos que ficavam perto do altar.
     
    Joseph procurou roupas secas nos pequenos armários-onde somente padres, freiras tinham acesso-encontrou um pequeno vestido branco para a menina e uma batina seca para ele. De volta ao altar Bépe trouce um cálice de vinho-agora de roupas secas- e um pão para alimentar a criança. Maria agora acordada sorria para ele ao ver a comida e o vestido. Porém o padre não gostou muito de ver aquele sorriso no rosto de Maria, era desagradável, não era um sorriso inocente e alegre de qualquer criança de sua idade, tinha malicia, uma malicia tão horrível e perturbadora que assustou o pobre senhor de uma maneira que ele teve vontade de jogar tudo no chão e puxar sua bíblia de bolso, mas não o fez, pois era somente uma pequena menina de cabelos longos e loiros com olhos azuis, na verdade até parecia um anjinho. Com toda a calma, Bépe, chamou Maria e mandou ela se vestir em algum dos quartos da igreja e depois voltar para comer o pão e beber um pouco de vinho-ele achou que tudo bem ela beber um pouco para esquentar o corpo, Na Europa e completamente normal crianças desta idade beber alguns goles de vinho, refletiu. A direita do altar existia um pequeno escritório, com bíblias, outros livros católicos, e até mesmo um telefone, em cima da mesa de Joseph. Ele se deslocou até sua mesa, sentou, e começou a pensar no que fazer com a garota. Alguns minutos se passaram e ele teve a ideia de ligar para a delegacia-ele tinha um amigo que era policial e poderia levar Maria em segurança para o orfanato e também escola de freiras da cidade- lá ela vai ter educação, comida e uma nova família, lembrou-se de sua infância. Sim, Madre Bárbara, será perfeito para ela. Com esse último pensamento em ordem, percebeu a escuridão de sua sala então ligou o abajur de sua mesa, no mesmo momento o sino badalou e fez Bépe voltar a realidade, ele viajava em lembranças. Já são sete horas, preciso me apressar. Finalmente pegou o telefone e digitou os números, meio relutante pois o rosto sorrindo de Maria não saia de sua mente, em seus 40 anos como padre, nunca tivera presenciado um sorriso tão maligno. Bépe era o apelido que ganhou por todos que moravam na cidadezinha de Vera Cruz. Uma cidadezinha que habitava dentro de si um mal que crescia a cada ano que passava, pelo menos era como o padre se lembrava. Com o dedo no ultimo digito da delegacia, Joseph ouvia o som do vento e da chuva, parecia que o passado o chamava. Bépe. Agora tremendo um pouco se lembrou de uma frase, não lembrava o contexto, nem onde estava, nem com quem falava. Se algum dia o anticristo nascer, e com ele trazer o apocalipse, Vera Cruz será seu berço. Com isso fez a ligação e após três longos Beeps, ouviu uma voz grossa e rouca sair do telefone
     
    -Alô, delegacia de Vera Cruz
     
    -A-Alô-diz o padre com a voz tremula
     
    3
     
    Vera Cruz nem sempre foi uma cidade onde coisas horríveis acontecem normalmente. Em algum dia no final de maio, o pequeno Bépe descobriria que sua cidade estava amaldiçoada com muito mais do que apenas alguns assassinatos, estupros, e até mesmo animais que simplesmente sumiam, ou morriam de alguma doença desconhecida que apodrecia sua pele e ossos em pouquíssimos dias. Era ainda pior, pode acreditar. 
     
    No verão de 1934, Joseph Levitt completava seus 12 anos, se sentia quase um adolescente agora. Suas primeiras paixões começaram a surgir. Além do futebol, Levitt admirava uma moça ruiva de cabelos longos que passava na frente de sua casa. Essa moça é Rosemary Aine. Sorriso longo, sua pele branca realçava sua boca excessivamente vermelha e pequena. Seus olhos verdes combinavam com seu vestido estilo camponesa alemã. Algumas sardas cobriam suas bochechas e nariz. Tinha seios fartos o bastante para marcar o pequeno decote apertado, e um quadril largo o suficiente para marcar o vestido. Com ela sempre levava uma cesta com flores e alguns vegetais. Rosemary sempre fazia o mesmo caminho ao leste da cidade, onde ficava a famosa vila das bruxas. Lugar onde viviam famílias irlandesas, que no passado foram expulsas de Vera Cruz, por puro e completo preconceito da sociedade na época
     
    Mas elas não são bruxas de verdade, certo? Levitt em um jantar após os pais contarem a ele sobre fogueiras feitas por seus avôs e outros moradores da cidade que na época era muito menor (mesmo hoje em dia a cidade dificilmente chegaria a dez mil moradores). Algumas bruxas foram queimadas vivas. Outras, esfaqueadas, decapitadas, enforcadas e afogadas. Mas no final todas era queimadas para retornarem para o inferno. Os pais-Morgana e Alfonso, Levitt-não contaram a parte mais pesada da história. Um simples coral vindo dos dois- É claro que não – Junto a risadas quase convenceu Joseph, mas sua curiosidade era maior.
     
    Um certo acontecimento mudou um pouco a sua conclusão, e despertou a curiosidade de Bépe em uma manhã fria de começo de inverno.
     
    Joseph, um menino loiro de olhos azuis (esse era um padrão de beleza que chamava a atenção de Rosemary e de muitas meninas, mas esse tempo se foi) de boca sempre aberta quando Rose passavam em frente à sua casa. O garoto usava sempre uma camisa branca junto ao seu macacão. Ele se sentava ao balanço de pinéu-que estava amarado na árvore de família-que o pai tinha projetado para ele. A árvore era da família a gerações, e tinha o nome de Maria, em homenagem a sua tataravó. Bépe brincava no balanço todos os dias após a escola, esperando sempre sua amiga passar para sorrir e alegrar seu coração.
     
    Em uma manhã de sábado, Joseph estava animado, desceu as escadas do seu quarto correndo, levando cobertor e travesseiro. Era dia de assistir desenhos animados. Ele era muito pontual sobre isso, todos os sábados, as sete horas ele estava em frente à televisão. Morgana prepara seu café da manhã, toradas com geleia de morango e leite morno com um pouco de açúcar. Morgana Levitt, era uma mulher muito alegre, cantava todas as manhãs de sábado. Ele comeu as toradas, bebeu seu leite, e riu, riu muito com os desenhos animados, o dia de Joseph Levitt estava perfeito até ele cometer o erro de seguir Rosemary até a casa na colina. Aquele era o dia em que Bépe teria certeza que além de um garoto solitário ele seria assombrado. Ao final dos desenhos, e do café, o garoto só precisava ver o sorriso de sua amada para seu dia ser perfeito. Correu pela sala e para fora de casa, correu ainda mais no gramado, com os braços abertos, se sentia um pássaro livre do cativeiro, livre para conhecer o mundo. Subiu no balanço e se jogou para frente com os pés, para trás, várias vezes, pegou velocidade, vou para longe, para o alto, sentiu o vento gelado, sentiu o sol. De repente vou fora do balanço, fora do gramado, por um instante seu coração quase saiu do peito mas voltou quando sentiu mãos gentis segurarem ele evitando que se quebrasse na calçada, mas não evitou o grito que saiu do fundo de seus pulmões.
     
    -AAAAH!
     
    -Calma garoto, eu te peguei viu? Tudo vai ficar bem-uma voz suave e gentil vinha da pessoa.
     
    -O-obrigado-disse ele envergonhado, porem se colocando no chão e vendo quem era sua salvadora. E agora seu coração realmente quase parrou. Era Rosemary.
     
    -Come se chama garotinho? Você mora aqui?
     
    -S- s -sim, me chamo Joseph.
     
    -A que lindo nome, prazer em te conhecer Joseph, me chamo Rosemary, eu sei parece complicado de lembrar, por isso pode me chamar de Mary, ou Rose se preferir, o que acha?
     
    -Acho legal-Ele estava menos nervoso, ela sorria para ele de uma maneira encantadora
     
    -Tome mais cuidado Joseph, você é um rapaz muito lindo, e sabe de uma coisa, essa cidade é perigosa demais para meninos lindos como você, e se acabar se machucando assim, pode ser difícil de correr do perigo não acha? –Ela disse mantendo o sorriso lindo, porem seus olhos mudaram do verde claro para o vermelho, isso fez Bépe se arrepiar totalmente, e tremer um pouco. Algo estava errado, o coral de vozes dos pais ressoou na cabeça-Claro que não.
     
    Com isso Mary continuou seu caminho. Tremendo um pouco, Joseph começou a seguir ela, ele estava curioso e com medo da história dos pais. Será verdade? Ele parou e esperou um pouco pensando no assunto. Aqueles olhos...
     
    Um menino apaixonado por uma jovem com talvez o dobro de sua idade, e não era só ele, ela seduzia qualquer um. Rosemary Aine tinha algo especial, e também escondia segredos terríveis. Segredos que traumatizariam Joseph. Porem ajudaria ele a descobrir a verdade por trás de toda a maldade de Vera Cruz. Mas naquele momento, ele não sabia de nada, ele só queria desvendar um mistério que atormentava sua cabeça O coral voltou-Claro que não.
     
    Ela começou a ganhar distância do menino, entrando agora no centro da cidade. Joseph morava na última casa da última rua antes do centro. Alfonso Levitt gostava porque podia comprar seu jornal do outro lado da rua todas as manhãs. Era um bairro de ricos, os mais ricos da cidade, se quisessem, juntos somente os pais de Joseph, comprariam toda a cidade e ainda assim sobraria dinheiro (não tinha muito no que gastar). A moça passara a banca de jornal, o jornaleiro gritava algumas manchetes sobre a bolsa de valores, assassinatos, e sobre a peste que estava devastando os animais no interior da cidade. O menino esperou pacientemente Rose se afastar uns bons metros, para que ele avançasse em sua direção. Ele estava realmente determinado em descobrir o que ela realmente era.
     
    Quando Mary alcançou a feira da cidade-onde aos sábados se reunira muitas pessoas em busca de vegetais, frutas, carnes, leite, pois as pessoas achavam que esses produtos que vendiam no mercado não eram saudáveis, apesar que os produtos que vinham do campo eram os que sobreviviam a praga, e outros que eram importados da vila das bruxas- o menino apresou o passo. Pessoas saiam de todas as lojas ao mesmo tempo, ele se esbarrava com muitas delas e pedia desculpa quase automaticamente. Joseph realmente achava que Rosemary não sabia de sua intenção, mas ele se enganava, e com isso ela pensava na forma mais "talentosa" de "impressionar" o menino.
     
    Ao passar a multidão de pessoas na feira, o garoto, seguia sua amada por toda a cidade, com passos minuciosos. Quando finalmente viu para onde Rose seguia caminho, Bépe ficou relutante. A vila das bruxas, no fundo ele sabia que provavelmente era lá que acabaria sua jornada. Mas algo o fez continuar, paixão? Talvez, ele não tinha certeza. Parado em frente a última farmácia de Vera Cruz, vendo a trilha e imensa floresta fechada onde Rose entrava cantarolando como se fosse a chapeuzinho vermelho, o menino tremia de medo da tremenda escuridão que habitava a floresta as dez horas da manhã. Uma escuridão tão densa que parecia que podia tocar e segurar em suas próprias mãos. As árvores, ele ouvia sussurros fracos de onde estava, uma língua desconhecida por Joseph, talvez já ouvira o padre Sebastião falar em uma de suas missas que o menino frequentava todos os domingos. Após um tempo ouvindo as vozes e os galhos sendo esmagados e o cantarolar ser diminuído, Joseph teve coragem o suficiente e se aproximou da floresta que parecia sugar sua alma e felicidade a cada passo que dava em sua direção. Em alguns segundos não existia mais a calçada em seus pés, e sim terra, grama, galhos, e folhas, os sussurros aumentavam. Ao chegar na entrada da floresta fechada, Bépe olhou para dentro, para o coração da floresta, e depois para o alto das árvores e percebeu que o tempo se fechava em cima da floresta, ele começou a ficar com frio, as folhas das árvores começaram a tremer e assoviar.
  • Lua de Meu Existir

    Minha Amada que fertiliza o meu existir.

    Em plena beleza me perco em teu reflexo deitado sobre as águas escuras de minha alma.

    Mesmo com toda calma e mansidão de tua noite em que te revelas nua, cheia e completa.

    Teu reflexo iluminador é tremulo, desconexo e vibrante, intercalado por linhas negras que desconfiguram em saudades meu pobre e solitário coração de poeta.

    Ao subir lentamente cheia, contemplo a tua chegada no meu inabitado lago interior.

    Ao passo que te levantas se abre vagarosamente uma estrada de luz ‘brancamente’ prateada em meu encontro.

    Ó! Doce fonte de luz que me intensifica… ainda que eu possa ser tocado por tua energia iluminada, estás tão ‘lusitaneamente’ longe de mim…

    De súbito me imagino a caminhar em tua prateada e tremula estrada, então, poder ao menos abraçá-la calorosamente, enquanto ainda não flutuastes em mágica para o mais alto dos céus estrelados… tua influência elementar do Sagrado Feminino em mim, desperta a Consciência Mística da intuição emotiva do meu ser, quebrando os meus viciantes padrões interiores em ciclos de transformações ascendentes e decadentes de toda uma existência apaixonada.

    Como eu te amo, Meu Amor!

    Ó! Fruto do meu desejo insaciável…

    Sobes agora livremente… e tua estrada de luz desaparece nas águas de minha emoção, e agora debaixo de tua luz prateada, volto a minha singularidade pequenina e frágil, onde realizo o meu ritual de amor à tua Lua Cheia embelezada em sua aureola majestosa repleta de teu amor.

    Nisso, me vejo sendo irradiado pela luz azul de sua aureola… meu corpo negro encandece inflamado pela sua onda radiativa, tornando-se fosforescente, atraindo toda espécie de pequeninos seres noturnos em divindade graciosa. Pela tua dádiva amorosa, tornei-me um ser luminescente, e… quem me dera ser carregado pelos pequenos vaga-lumes que agora me cercam, no único amoroso objetivo de poder pousar em teu grandioso ventre oculto nos teus misteriosos segredos noturnos.

    Tua pele branca me seduz, teus cabelos de nuvens negras a flutuar me enfeitiçam. Como és bela! Como sou teu!

    Embora possa, eu, ser um diurno ser flamejante, de que me vale toda essa potência… se em minha forte luz te ofusco, ao ponto de nem eu mesmo poder contemplar a tua clara beleza? Estou preso na majestade de mim mesmo, e nisso, sigo meu solitário baile diário.

    Ó! Meu Amor, meu doce Amor… Meu Encanto! Como te imagino e me imagino juntos… ao te contemplar no silêncio de uma tarde em que apareces repentinamente no reflexo espelhado no limpo céu azul… mas, esta linda visão que tenho no dia, bela e cheia de graça… apenas se faz ecoar, ecoando a ecoar… a ecoar.

    Em tua face clara, lusa e juvenil me vejo iluminar. Abrindo meus olhos… retirando de mim as impregnações infrutíferas e residuárias de meu sofrido passado e presente agoniante tedioso.

    No meu mágico ritual… derramo as águas de aquários em uma bacia de prata e deixo exposta à luz de tua Lua Cheia, para que parte de Ti possa se desprender e lá habitar. Ponho minhas mãos sobre as águas e o recipiente, e faço riscos imaginários mágicos escrevendo palavras místicas de amor… em oração Celta na alta voz… dizendo:

    — Ó! Sagrada Mística Sabedoria Lunar… que tua luz fêmea caia sobre essas águas, envolvida na Magia da Prata e, de suas perenes divindades noturnas do Argentum branco e brilhante. Invoco sua áurea iluminada que reflete o poder divino de tua purificação e amor. Ser gigantesco feminino que controla todas as forças ocultas das águas naturais, que constitui todos os seres orgânicos e abarca os seres inorgânicos… se faça aqui fluidamente presente no Sagrado Agora… vem, e me Ilumina!

    Ao terminar meu mágico culto de oração… vi sua luz em forma feminina descer em baile e encanto, se deleitando nas águas… transformando-as em plasma prateado. Ali mesmo sob a luz de tua magnífica e sagrada presença me despi de minhas rudimentares vestes, assim como, também, estavas despida dos teus véus de nuvens negras. Derramei o teu leite prateado em meu corpo nu… pude te sentir me tocando todo e por completo, onde me acariciava com beijos de uma paixão apaixonadamente purificante… a este tocante… me perdi em fluxos energéticos de amor que me fazia flutuar e ecoar… ecoando a ecoar.

    Quando regressei a mim… já tinhas desaparecido, restando apenas a lembrança do teu beijo, teu calor, tua sensação purificadora e teu carinhoso amor, e teu céu noturno no vazio estrelado.

    Minha Amada… silenciosamente fechei meus olhos em reverência, e, de mim, restou lhe dizer:

    — Te amo… Te amo… e Te amo!
  • Lua Escura

    Querida minha

    Hoje passeio em devaneios pela noite escura a sua procura
    Hoje não me contemplaste com tua bela face iluminada, e triste caminho por essa trilha incerta do existir sem ti

    Apenas um vazio em meu coração palpita reclamando a sua presença
    Na tua ausência percebi que o céu era vasto e imenso de estrelas a cintilar
    Porém, vazio do mistério e do segredo de te amar

    Minha Querida
    Onde foste que não me levaste
    Por que de mim te ocultaste
    Sabes que te amo, e sem ti, sou cego em meu solitário noturno caminhar

    Triste, sento-me novamente na beira do meu interno lago, fecho os meus olhos no escuro do infinito abismo de escuridão… de que me importa os olhos abertos se não posso te contemplar fora… volto-me para morada do coração, e lá te imagino a me iluminar com teu claro sorriso.

    Te vejo nos meus amorosos pensamentos deitada sobre o teu céu escuro na cama ilustrada de planetas errantes e estrelas, em pequenos passos lentos e silenciosos vou ao teu encontro, e vejo que dormes encoberta pela sombra da terra. Apenas silenciosamente te contemplo, admirando o teu sono profundo… estou aqui contigo Meu Amor

    Em minha meditação adentro em teus mágicos sonhos… como estás bela a dançar com tuas guirlandas de estrelas. De repente, nossos olhos se encontraram, e não entendi porque ficaste estagnada com minha sutil presença, e lágrimas vi cair em seu lindo rosto que se evaporaram em uma cortina de serenos noturnos… de súbito repentino, me vejo te abraçando… e novamente nada entendi, porque evaporaste súbita e repentinamente dos meus braços como uma gota d’água a tocar uma superfície aquecida… e solitário me vejo, também, chorando, culpado por interferir em sua intimidade.

    Ó! Meu Amor… que maldição é essa que nos prende ao estar separado e nos separa ao estar preso?

    Te vi triste Meu Amor, e em tristezas doloridas estamos
    Dançamos juntos de mãos dadas ao som dessa música melodiosamente triste
    Nossos corpos chorando se juntam embalados por essa solidão
    Que segredos o seu coração guarda?
    Que mistérios esconde a tua face oculta?
    Do que sabes que não sei!?
    Por que tamanho silêncio?
    Não percebes que estou aqui para ti!
    Por que me abandonaste hoje?

    Somos tocados pela dor da separação…, mas, haveria tanta beleza se estivéssemos agora juntos?
    O que separa o Criativo do Receptivo senão a beleza do caminhar separado, ao se unir no imaginário! Então, caminhemos eternamente juntos com nossas mãos dadas na doce solidão a imaginar

    Quero te ouvir, que tristeza melodiosa canta seu coração
    Neste céu silenciosamente noturno, em que ansiosa volta tua face iluminada para baixo… o que pensas?
    Quero te compreender… me fale de tua tristeza, pois sei que a oculta quando enxuga suas lágrimas rapidamente em gotículas de sereno

    Por que só te revelas para mim em parte, se para você sou o todo de tudo em toda face?

    Te vi sentada no trono da noite
    Suas mãos acariciavam o rio do Nilo celeste
    E sentada sobre os seus calcanhares na taça da flor de lótus, o rio luminoso em que tocas arrasta infinitas flores estrelares
    Estás festivamente adornada de luminescências e cintilantes aureolas Meu Amor

    Vi uma beleza sobrenatural no seu amável rosto…, e, uma tristeza oculta… um mistério!
    Em sua majestade vejo que rege a Estrela Mágica, e oito vezes com sua foice crescente a decepaste do noturno céu enviando-a para mim, como a linda Estrela da Manhã. Porém, oito vezes com sua foice minguante, novamente decepaste do céu agora diurno, tomando-a de volta para si, como a linda Estrela Vésper… Essa Estrela é a nossa Mensageira do Amor… de nosso solitário Amor

    Dorme tranquila Meu Amor
    Em sua luz encoberta de encantamento na paz de tua força interior

    Sinto seu amor… Meu Amor… pleno de força plena
    Sua atmosfera mágica me envolve no frescor de seu sereno carinhoso pelo qual solitário me condena

    Hoje! No breu da noite
    Estudarei em meditação as tuas leis celestes
    Na sombra terráquea em que dorme te vestes

    E, nesse céu em que hoje de mim te ocultas
    Esperarei no amanhã a sua doce poesia
    Pelo qual me revela a sua face oculta
    Na companheira doce tristeza do meu amargo solitário alegre dia

  • LUNA .

    Olá,meu nome é Kieran Luna Bellini. 
    Tenho a sensação de que te conheço...bom ,preciso te avisar que minha história não é sobre como eu queria morrer nem como foi a minha vida mas como eu te encontro nela.
    Não prometo romance nem acasos,tudo aqui é preciso e real muito real,o mundo que você conhece nunca mais será visto com os mesmos olhos.
     
     
    " -  Apagar as luzes para mim não é uma 
    escolha e sim minha realidade."
     
                               

    PRÓLOGO

     


    Rio de Janeiro,2001

    Apagar as luzes para mim não é uma escolha e sim minha realidade.
    Abri os olhos e vi somente uma imensa escuridão,sem saber ao certo o que tinha acontecido só sentindo meu corpo inerte,frio e molhado ,mas tenho que te contar o que aconteceu antes de você me conhecer aqui.
     
    - Kieran ! Acorda que preciso adiantar as coisas para amanhã . - Camila ,gritou.
     

    Meu nome é Kieran,tenho 8 anos e nesse exato momento te digo que minha melhor parte da vida é quando venho para a casa da minha irmã Camila .
    Na manhã seguinte será o aniversário da nossa tia então era correr contra o tempo para ajeitar tudo e eu amo essa parte!

    - A Triz vai dormir aqui pra nos ajudar ,e os meninos estão te chamando lá fora . - Minha irmã disse,como sempre tudo pra última hora.
    Comecei a organizar as coisas quando vi Tiago e Jean chegando.
    A amizade é uma coisa muito louca,por exemplo, minha amizade com o Tiago começou no alto de um monte de barro em frente a casa da minha irmã,ele me empurrou,me sujei e amizade feita. Desde então nunca mais nos desgrudamos,já o irmão dele Jean foi diferente...não sei se existe amor a primeira vista mas se existe ele foi meu primeiro amor porém meus pés são bem no chão e me contentei com a sua amizade.
    Final da tarde chegou e a fome bateu como sempre,me despedi dos meninos e fui correndo lanchar e esperar a minha prima Triz chegar.
    30 minutos depois ela chegou, era muito bonita,alta,13 anos e cabelos levemente ondulados e que eu saiba já tem lá seus namoradinhos e desde que chegou aqui não desgruda do celular.
    - Oi prima! Você está enorme,uma mocinha! Estava com saudade. - E eu super animada pra brincar e aprender crochê que ela prometeu me ensinar.
    Estava aqui na casa da minha irmã mas meus pensamentos estavam na minha casa,meus pais brigam muito e eu fico muito preocupada,vir pra casa da minha irmã é uma válvula de escape.
    - Ky ,vem jantar e depois disso as duas podem arrumar a cama de vocês na sala,aqui estão os lençóis,travesseiro e passa o repelente que tem muito mosquito- Gritou ,Camila.Ela arrumou tudo e foi deitar.
    Esperei a Triz terminar de tagarelar no celular,eu quando tiver meu namorado acho que não vou falar tanto assim no celular,que tanto papo é esse,prefiro minha tv globinho. Enfim ela desligou o celular,arrumamos as camas e eu só queria uma boa noite de sono e aproveitar o dia seguinte.
    - Boa noite Triz . - me virei e fechei os olhos esperando o sono vir ,quando estava quase pegando no sono senti uma mão passeando no meu corpo e na hora parasilei. A mão foi descendo até chegar no meu bumbum e eu queria gritar a irmã mas não saia nada ,e comecei a sentir muito medo.
    - Você gosta disso?. - Triz! mas porque ela está fazendo isso? Eu quero correr daqui mas não consigo fazer nada a não ser esperar ela terminar e ir dormir.
    Fiquei ali parada de olhos fechados suando frio esperando que ela iria parar mas não,ela continuou,me virou de frente pra ela deitada e tocou minha parte íntima,muito rapidamente apalpava os meus seios como se fosse algo normal e eu permanecia ali travada sem saber o que fazer mas eu sabia que aquilo que ela estava fazendo era errado.
    - Agora não se mexe ,eu já vou terminar- Ela falou e subiu em cima de mim esfregando sua virilha na minha muito rápido segurando meus seios,senti muita ânsia de vômito mas fechei os olhos,senti sua boca encostar na minha e tranquei a boca para não receber beijo,que nojo! Porque ela fez isso?.
    Não sei quanto tempo passou mas eu só pedia muito que terminasse ou que minha irmã escutasse os grunidos dela e viesse me ajudar mas isso não aconteceu ela terminou e eu só consegui falar .
    - Amanhã eu vou contar tudo a minha irmã.
    - E você acha que ela vai acreditar em você? Todos não vão acreditar,minha mãe amanhã vai chegar é a sua também! Acha que a minha tia vai acreditar? Vai ser maior escândalo,alguém pode até morrer! Você quer que sua mãe passe mal?
    O que eu fiz foi porque te amo muito mas não vou fazer de novo,amanhã você vai ficar quieta senão eu vou contar do meu jeito e você quem vai apanhar
    Chorei em silêncio tentando entender o que tinha acontecido e me sentindo muito culpada. Não consegui dormir,apenas cochilei querendo muito que tivesse sido um pesadelo.
    Amanheceu,ela levantou como se nada tivesse acontecido,arrumei os lençóis da cama improvisada,lavei o rosto e tentei encarar a minha irmã pra tentar dizer tudo que tinha acontecido mas não consegui. Todos chegaram,o povo aqui de casa é animado,tudo é churrasco! Segui aquele dia como se não houvesse acontecido nada.
    Tudo correu bem e todos se divertiram,eu brinquei e não consegui dizer nada. A partir desse dia eu nunca mais fui a mesma.

     
    1∆
    SOLAR

    Cansada. Me debrucei na mesa e apoiei a testa no pulso,não tinha dormido direito a noite inteira pensando em como iniciar esse ano.
    Já fazia 3 anos que eu havia me mudado para Portland,minha mãe decidiu vir pra cá já que minhas tias moravam aqui..depois que meu pai faleceu não havia mais motivos para ficar no Brasil.
    Até agora estava em modo automático tentando processar os fatos,a proposta de trabalho da mamãe,o falecimento do papai...esse segundo fato de alguma forma me trazia um certo alívio ,depois de tudo que aconteceu seria um descanso pra todo mundo e particularmente não sentia falta dele. Ele já não morava mais com a gente depois de tentar matar mamãe,vamos dizer que Alexsander precisava urgentemente de um psiquiatra mas  dizia não precisar,acabava que eu e mamãe pagamos o pato juntas e isso me irritava ao ponto de não querer mais ficar na mesma casa ,então fiquei morando em um quartinho nos fundos.
    Observando como ainda não tinha conseguido sair do poço,não me sentia muito eu e me sentia tão só mesmo com pessoas a minha volta,isso me fez lembrar quando conheci Skylar,sorri e voltei a me escorar na mesa pra acompanhar a minha lembrança.
    Eu estava chegando na cidade e não conhecia ninguém,respirei fundo e caminhei até o pátio da escola olhando toda aquela muvuca que me causava fobia,passei por todo mundo o mais rápido que eu pude quando alguém me jogou na parede.
    - Ei! Não olha por anda?. - Falei esfregando meu braço inconscientemente  como se a dor fosse passar. Quando me virei pra ver quem era a maluca que quase arrancou meu braço,me deparo com uma menina de cabelo preto e curto na altura dos ombros,fui descendo o olhar e  cheguei no seu rosto que exibia um sorriso debochado juntamente com uma maquiagem elaborada demais pra ser usada de dia...
    - Não? E tá me olhando assim por que? Vai me beijar? Sei que sou linda e etc mas te manca!
    Fiz um "O" com a boca enquanto a metade do colégio nos observava,ela falou tantas palavras ao mesmo tempo! Como alguém conseguia falar tanto em tão pouco tempo? Não queria confusão logo no meu primeiro dia então resolvi deixar pra lá tratando logo de me resolver com essa estranha.
    - Tudo bem, não está doendo mesmo. A propósito meu nome é Kieran Luna e não,não quero beijar você. - Torci o nariz e fiz uma careta pra tentar descontrair.
    A observei e vi sua carranca imitando algo como uma vilã,ela parecia ser muito teatral. Fiz sinal de que iria continuar meu caminho já que ela não se identificou,quando sinto um catucão.
    - E o meu é Skylar Kanda e sobre me beijar realmente  não deveria,é um vício. Sinto que vamos ser melhores amigas,garota! Unha e carne com toda a certeza,mas sou vegetariana só pra constar.
    Sai rindo da minha lembrança e vendo que a vida não tinha sido tão ingrata pra mim ,de alguma forma pelo menos Skye eu consegui ter na minha vida.
    - Cara,você devia relaxar. - Skyie falou baixinho para o professor não escutar. Tomei um susto saindo dos meus devaneios .
    - Skylar Catherine Kanda se você me assustar mais uma vez eu juro que te mato. -falei dando pequenos tapas no rosto pra tentar acordar.
    - E se você me chamar meu nome todo de novo eu te enterro nos fundos do Forest Park.
    Revirei meus olhos por causa da ameaça da Skyie e tentei me concentrar na aula do Professor Hall ,quem sabe não esqueceria toda aquela história.
    Hoje o dia se arrastou, não pensei que iria fazer tantas amizades mas devo ter um ímã pra gente maluca porque Skylar ,Evrett ,Deon e Mayo não eram normais . Em uma semana estavam me colocando em cada furada...vivendo perigosamente em Seattle. Skye era a pior mas suas intenções eram sinceras porque queria me animar então relevava.
    Estudava em casa e minha mãe achou que seria melhor interação humana para Ky,assim ela disse dando pulinhos pela casa.

    Minha cabeça estava muito pesada então resolvi ir pedalando ao Cook Park,mandei mensagem para mamãe e no grupo de amigos.
    Cheguei ao parque e estranhamente estava vazio então deixei minha bicicleta encostada na árvore e andei até o lago.
    - Você tem sérios problemas ,sabia?. - Disse Skye quase me fazendo cair dentro do lago.
    - E você é outra que tem uns bem gigantes,quer me matar de susto? Por pouco não tomei um banho de graça agora. - Peguei uma pedrinha e joguei no pé dela .
    - Ai! Eu não quero te matar mas você pelo visto...quando vi sua mensagem corri o máximo que eu pude, veio fazer o que aqui nesse breu?
    Cheguei mais perto do lago novamente,na verdade nem sei o que fui fazer ali... então algo na minha cabeça começou a apitar, será que ela tinha razão? Eu estava pensando em me matar?Olhei para a Skyie que estava me olhando preocupada.
    - Eu não sei,acho que só queria ficar pouco sozinha pra pensar. - Balancei os ombros como quem não quer nada,mas não sentia muita segurança no que estava falando.
    - Então dá próxima vez pense no seu quarto amada! Eu não sei se você percebeu mas eu não sou atleta pra ficar correndo a cidade inteira atrás de você,sossega esse seu bumbum senão eu espeto ele. - Falou colocando a mão na cintura e quase me engolindo viva.
    Ri,ela é definitivamente a melhor amiga que tenho nesse momento mas o sorriso não durou muito tempo,tinha que dar um jeito nisso.
    - Você vem? Eu marquei com os meninos na lanchonete Bar da Darla.
    - Pode ir,daqui a pouco chego lá. - Não muito animada pra ir mas se não fosse eles iriam me encher a semana inteira.
    - Ok , então...eu apostei uma cerveja que você iria então não me decepcione.
    - Não acho que você deveria beber , não está cedo demais?. - Levantei a sobrancelha ,não sei como alguém consegue engolir isso.
    - Abri aqui minha mochila por favor?
    - Pra que?. - Abri achando que era algo urgente .
    - Pra saber aonde eu coloquei aqui " Preciso da opinião da Kieran".
    - HA HA HA,nossa você é muito engraçada. - Joguei a mochila longe.
    - Eu sou mesmo e você deveria me valorizar mais,te espero lá. - Ela pegou a mochila e saiu correndo em direção a estrada.
    Esperei ela sumir do meu raio de visão e continuei olhando na direção do lago,algo me chamou atenção...será que estava ficando louca? Eu juro que vi alguma coisa girando no meio do lago. Cheguei mais perto ,era como um imã que puxava cada vez mais pra perto.
    - Oi ,Luna. - dei um pulo correndo pra longe da margem tropeçando em uma pedra.
    - Quem é você?. - Ok! Eu estava falando com...o que era aquilo mesmo?.
    De repente começou passar o filme da minha vida inteira sobre os meus olhos,quando parou exatamente na parte que mais me machucava .
    - Já chega!. -Gritei com todas as minhas forças,senti as lágrimas queimando sobre as minhas bochechas e muita raiva.
    - Eu preciso que você esteja preparada para o que vai acontecer,aliás já está acontecendo só você ainda não percebeu criança,abra os olhos pra saber quem realmente é seu destino.
    Da mesma forma que a voz apareceu ,sumiu e eu fiquei ali no chão tentando decifrar o que tinha acontecido. Tirei a sujeira da roupa em vão e comecei a sair da floresta ,meus amigos devem estar preocupados.


    2∆
    PERSEGUIÇÃO

    Ainda estava atordoada com o que tinha acontecido, não sabia de quem era a voz , aliás queria me internar e usar uma camisa de força urgente. Caminhava em passos lentos até o bar aonde meus amigos me esperavam, entrei já me sentando e pedindo um copo com água bem gelada .
    - Kieran ?. - Deon me chamou com os olhos arregalados.
    - Ky? Mulher ! parece que você viu Pennywise!. - Skyie falou praticamente gritando chamando atenção do bar inteiro.
    Eu deveria ter ido pra casa,minha cabeça está latejando,coloco a mão na testa esfregando tentando me livrar em vão da dor chata que ficou morando ali.
    - Oi Deon e Oi pra você também Skyie, alguém pode pedir um saco de gelo por favor?. - Olhei para a mesa e vi faltando alguém.
    - Bellini está achando que isso aqui é o delivery do McDonald's? Gelo a vontade? Isso é um bar mas vou quebrar esse gelo pra você...nossa essa foi péssima. - Skylar pediu o gelo rindo do trocadilho péssimo que fez ,Skylar sendo Skylar.
    Olhei em volta e vi as pessoas animadas,algumas no canto solitário bebendo sua cerveja outros cantando no karaokê ,hoje definitivamente o clima estava estranho.
    - Aqui,gelo saindo para a garota da Floresta. - Skylar e sua língua grande.
    - Floresta?. - Deon falou virando pra mim preocupado.
    - Sim...eu resolvi dar uma volta no Forest Park.
    - Sozinha? Poderia ter nos chamado, até poderíamos ter ido a praia. - Assenti colocando o saco de gelo na testa .
    - Deon não se preocupe,eu estou bem. - Falei sem ter realmente certeza de que estava bem.
    - Esse papo tá muito down pelo amor,vamos! Estou aqui pra me divertir,anda logo Ky!. - Sky já levantou me puxando para o mini espaço para dança.
    Estávamos dançando,eu tentando dançar. Mayo e Deon já tinham encontrado um par pra dançar enquanto Skye se divertia dançando com Evreet e eu me vi dando passos soltos na pista sozinha quando vi uma menina entrando e então a observei.
    Os cabelos longos e cacheados ,o rosto sereno foi o que pude observar na iluminação do ambiente,tive uma sensação de dejavú...dei mais umas esticadas com as mãos e resolvi ir ao banheiro,quem sabe um pouco de água gelada no roso ajudasse,o dia estava sendo difícil.
    Entrei no banheiro que estava vazio...estranho,fui direto para a torneira lavei o rosto e quando abri os olhos vi uma menina me olhando,continuei o que estava fazendo tentando a ignorar.
    - Oi,sou nova na cidade...estou procurando a casa da minha tia e acabei me perdendo,poderia me ajudar?
    Olhei o rosto dela que me parecia familiar,de repente começou a crescer um sentimento de amizade mas ignorei ,pisquei os olhos sem entender nada mas a respondi.
    - Ah...claro,meu nome é Kieran...e o seu é?
    - Samantha Tala,mas pode me chamar de Samy.
    Ela estava sorrindo pra mim? E porque eu estava com esse sorriso idiota no rosto também?
    - Entendi...meus amigos estão lá fora ,quer me acompanhar? É bom que você já se enturma.
    Saímos do banheiro indo em direção a mesa esperando o pessoal voltar.
    Todo mundo voltou pra mesa desconfiados e curiosos com a garota do meu lado mas não fizeram nenhuma pergunta creio que eu que esperando alguma explicação educadamente...
    - E então? Quem é você?. - Skye falou dando uma golada na décima caneca de cerveja.Olhei pra ela emitindo um sinal de aviso com olhos,mesmo assim ela me ignorou e assentiu para a Samantha se explicar. Respirei fundo e cutuquei a garota pra falar logo.
    - Meu nome é Samantha,estou procurando a casa da minha tia...sou nova na cidade e meio que entrei aqui primeiro porque estou morrendo de fome e também preciso de informações.
    - E aonde entra a gente nessa história?
    - Skye!. - Todos falaram juntos.
    - O que? Só estou perguntando o óbvio. - Quando isso tudo terminasse eu iria dar uns cascudos nessa moça.
    Todos pararam para analisar com muita atenção Samantha que agora estava devorando um hambúrguer com um copo imenso de refrigerante. Esperamos ela terminar de comer pacientemente.
    - Como eu disse, preciso de ajuda para encontrar a casa da minha tia e a Kieran disse que vocês iriam me ajudar.
    Coloquei a mão no rosto já esperando a revolta de todos juntos,realmente procurar casas pela vizinhança não era o melhor programa da tarde.
    - Por mim tudo bem. -Mayo foi o primeiro a se voluntariar,claro que com as suas segundas intenções.
    - Nós também. - Deon e Evreet juntos concordaram só restando uma pessoa...
    - Bom ,não é o meu programa preferido mas se todos vão eu tenho que ir. - Skylar falou como se estivesse sendo levada para a guerra.
    Pagamos a conta,nos despedimos do Alfred o dono do bar e seguimos em direção a rua. Eu estava no automático até agora,não digerindo o que tinha ocorrido mais cedo. Coloquei na minha cabeça que aquilo foi fruto da minha imaginação misturado com meu desgaste emocional.
     - Kieran eu preciso falar com você urgente. - Samy me puxou pra perto da calçada enquanto os outros  do outro lado da rua tentavam descobrir aonde era a casa da tia Haven.

    Olhei de soslaio e vi Mayo,Deon e Evreet concentrados em achar o endereço por meio do gps ,mais a frente observei uma Skylar revoltada dando "pequenos" socos no celular e xingando palavras nada educadas então retornei meu olhar para a Samy. Não ignorando o que passei mais cedo,essa semana estava sendo complicada pra mim e com toda certeza quando colocasse meus pés em casa seria banho e cama.
    - Sim?. - Perguntei desinteressada,estava cansada.
    - Não existe tia Haven. - Ela disse mas eu só consegui arregalar os olhos e comecei a pensar se isso tinha alguma ligação com o que aconteceu mais cedo. Dei dois passados para trás e fechei os punhos involuntariamente.
    - Espera! Me deixa explicar primeiro. - Samy estendeu as mãos em sinal de rendição,então eu decidi manter aquela pequena distância para escutar.
    - Eu juro que quero entender e que seja rápido. - Olhei rapidamente de lado e vi que Skye nos observava mas estava dividida entre ver o que eu fazia e o celular ainda que parecia estar travado.
    - Me expressei errado,ela existe mas eu sei aonde ela mora. Inventei essa história porque eu precisava de um tempo pra falar com você,é sobre mais cedo..lembra?
    - Não do que você está falando,aconteceu exatamente nada. - Sai correndo em direção aos meus amigos deixando ela para trás e nem me atrevi a olhar.
     
  • Maestro infernal: capítulo 1

     
    A chuva batia no para brisa do corola 2008, como se fosse um pianista profissional tocando uma sinfonia maravilhosa de Beethoven. Sem dúvidas Rodrigues, babava em cima do volante, trabalhar de detetive particular nas horas vagas, e manter seu trabalho na polícia estava acabando com ele. Mas, ele precisava. Vento forte, trovões, pancadas de chuva, até mesmo a própria buzina que tocava eventualmente, não o acordava, dava pequenos pulos no banco, de hora em hora, não adianta, seu sono era pesado, e a chuva ajudou a tranquilizar o homem, vivia a base de pão do 3 dia e café de má qualidade. Dias em claro atormentavam sua cabeça. O rádio da polícia toca, aparentemente um terrível assassinato aconteceu, homicídio duplo, menina abandonada ao meio do sangue, isso sim o despertou novamente. Rodrigues era por natureza um predador de casos bizarros e sem sentido, amava seu trabalho, sempre se sentia um tal de Sherlock do sobrenatural, o próprio Scooby-Doo farejador de corpos esquartejados e dilacerados, mofados sujos, nojentos. Bom, Rodrigues não amava o banho de sangue, mas, amava e fascinava pelo sobrenatural. Nesses cenários complicados, sem pistas normais, sempre existia algo do outro lado, do mundo invertido, purgatório, seja lá como preferir chamar, era a única explicação pra alguns casos de mortes extraordinárias sem marcas. Quando criança Rodrigues vira vultos e etc. Porém ninguém acreditava nele, hoje em dia muito menos. Ele se sente ligado a esse mundo de monstros, fantasmas, bruxas, homens que pulam em uma perna só ou de pés invertidos, seu pai sempre contava a história de que um menino dos pés ao contrário e cabelos de fogo vigiava a floresta, era pra assustar o pequeno Gui, hoje em dia, esse se pergunta, eram só histórias? Algumas poderiam ser mesmo, outras ele não tinha certeza. Com um belo solavanco, Gui pulou, pegou o rádio, e ouviu com atenção. “Dois corpos na mansão Volkman, na colina do Dia bom, certamente identificados como Senhor Paulo Volkman e senhorita Valeria Volkman, ambos com 43 anos, aparentemente os dois tiveram todos os ossos quebrados, porém sem hematomas graves externos. Encontrada na cena somente a filha única, Clarisse Volkman, em prantos, nenhum outro parente da menina foi localiza...” Gui ouvirá suficiente, ligou o corola, partiu a todo vapor pra colina Dia bom. Rodrigues esperou a movimentação acalmar, queria investigar sozinho a cena, policiais iam e viam, lanternas nas mãos, capas de chuva, guarda-chuva sirenes e luzes pra todo lado. Rodrigues deixou o carro na mata, e seguiu caminhando o resto da colina, se esgueirou, escondido vigiava, coberto pelo seu sobre tudo preto e uma capa de chuva provisória. Aparentemente ninguém o notara, avistava com um binóculos, dois policiais conduziam uma pequena menina de olhos claros e cabelo loiro curtinho estilo chanel e encaracolados linda como uma margarida, mas murcha, pela chuva, e pelas lagrimas. Os policiais largaram a menina no banco traseiro da viatura, parecia tentar consolar a menina. Não funcionou, continuava cabisbaixa. Percebendo que nada iria mudar na menina, se afastaram e continuaram seu trabalho. Rodrigues notou a oportunidade perfeita e se aproximou da viatura, deveria fazer perguntas, ele era ótimo com crianças, não exatamente crianças mesmo, mas seus dois gatinhos, franjinha e bolota amavam ele, crianças não deveriam ser diferentes, somente mudava o tipo de petiscos oferecidos, e sem caixinhas de areias, definitivamente crianças eram mais fáceis de lidas, sem sombra de dúvidas. A barra parecia limpa, Rodrigues chegou perto suficiente do vidro da viatura escura e fria, cutucou a janela cuidadosamente, tentando ganhar atenção da menina, mas alerta para não ser percebido. Com um pulinho do banco a maninha encarou aquele projeto de sem teto esquisitão, sorrindo de orelha a orelha, acenando como se a garota fosse uma nova espécie de macacos australianos. Clarisse torceu o rosto, mas não gritou, o homem tinha olheiras fundas, barba por fazer, fios brancos na barba e na cabeça, topete mal feito pele branca e dentes amarelos de café expresso de má qualidade, o bafo deveria ser terrível, pensou a menina. Cuidadosamente, ela abaixa o vidro e pergunta. -O que você quer? Não me resta mais nada, sem esmolas hoje senhor, por favor se retire. Sentia-se enojada só de encarar aquele projeto de homem das cavernas. -Muito mal educada você, uma menina tão linda com uma boca suja assim, desse jeito não vai ganhar mais meu chocolate superespecial-Rodrigues fala isso fazendo uma cara emburrada e um biquinho esnobe. Clarisse fica intrigada. -Qual sabor? -Chocolate ao leite com avelã e castanhas caramelizadas. -Mentira! -grita escandalizada, batendo o pé, cruzando os braços com força- esse chocolate não existe, nunca vi em lugar nenhum, e já fui a muitas lojas diferentes, com chocolates importados da Bélgica, Suíça, Alemanha, e nunca vi esse sabor, além de feio o senhor e mentiroso. Rodrigues tira do bolso do sobretudo um envelope dourado, um chocolate muito aromático, como ele descreveu, e da uma baita mordida, enchendo a boca. -Huhummmm-exclama Rodrigues, muito satisfeito e saboreando seu chocolate perfeito e inigualável. -Deve ser um chocolate qualquer, você não me engana- Clarisse esnoba o detetive. -Certeza? Por que não prova? Com um estalar crocante, como se um lenhador quebrasse uma tora ao meio próprias mãos, o chocolate é partido, ele estende ate a menina encolhida no canto. Ela encara com curiosidade, avança a mãozinha e pega, olha, cheira e morde a pontinha, incrédula com o sabor irresistível e maravilhosa chuva de sabores na boca, a garotinha, funga e chora um pouco, seca as lágrimas no rosto com a manga da blusa lilás. Ainda choramingando, confessa. -Lembra meu papai. Rodrigues fica sério em silêncio. Retoma a conversa com um tom mais sério. -Qual seu nome menina? -Clarisse, porque te interessa? Eu não sou ninguém pra você, eu não sou mais ninguém agora. Rodrigues da um longo suspiro e continua -Clarisse, certo? Tudo bem, pode me chamar de Gui, apelido na escola. Olha eu sei que você perdeu tudo hoje, não sou a melhor pessoa com conselhos, mas, preciso saber o que você viu lá dentro, tenho algumas ideias mas não a certeza, preciso de ajuda, da sua ajuda, você é muito inteligente, tenho certeza- Termina dando sorrindo meigo. -Gui, qual é seu nome, tipo, completo? -Rodrigues, faz sentido pra você? -Não exatamente mas tudo bem- Ela para, e respira fundo- Se contar pra você, promete não rir? Os policiais riram, e debocharam, disseram que eu estava alucinando, “demônios, monstros? Isso é história de criancinha” fiquei muito envergonhada. -Clarisse, vem comigo, pode contar a sua história, já vi milhares de coisas esquisitas, acredito em cada palavra sua. Mas tive um ideia, vai ser melhor, me segue por favor. Rodrigues abre a viatura e estende a mão- Vem vamos, no caminho me conta tudo oque lembra, ouvi no rádio parte dos acontecimentos. A menina fica desconfiada, mas segue o policial esquisitão, esgueirando se pelas viaturas, pelo mato até a entrada dos fundos da mansão, ao entrar Rodrigues e Clarissa se depararam com uma enorme cozinha, mesa de jantar, tudo completamente arrumado e limpo, deveria caber dez, doze convidados na longa mesa preta se ornamentada , pia de mármore, geladeira de duas portas, Gui fica maravilhado ao se deparar ao bar da família, taças, vinhos importados, e oque mais chamou sua atenção, uma cafeteira de expresso, provavelmente italiana, profissional, o mais puro café que jamais tomaria. Peças de queijo, salames espalhados pendurados sobre o teto, uma variedade de uísques importados. Se existem um céu certamente era parecido, Rodrigues imaginava. Clarisse ficou confusa com o homem babão olhando todo aquele banquete, estalou os dedos o mais próximo do rosto dele, dando pulos, puxando a manga do seu braço e exclamando, parecia estar em transe. - Gui, ei acorda! Nada. -EII ALOU. A menina impaciente chutou sua canela. -Aiii! Clarisse, calma. Esfregava seu calcanhar que podia inchar futuramente. -Acorda por favor, preciso que fique atento, estou com medo de voltar aqui, mas ainda assim estou curiosa, preciso entender que aconteceu com eles. Ela aponta pra saída da cozinha/sala de jantar. -Onde eles estão? Na sala? -Papai, piano. -Certo. Começam a caminhar em direção a cena mais aterrorizante de Clarisse até hoje, inimaginável, passos largos e frios, chuva ainda batendo, coração acelerado e ansioso , Rodrigues nunca tinha ouvido de algo assim antes, ossos quebrados, sem machucados visíveis...Precisava ver, precisava sentir o paranormal novamente o chamar, aquilo o...E chegaram, os dois atirados, dois buracos no rosto de Paulo, onde deveria estar seus olhos, enormes, quase como duas bocas, isso era novo certamente, faixas da polícia por todo lado, o piano no centro da sala a mãe, Valéria, jogada no tapete enorme, poucos passos da poltrona onde sentava, parecendo querer chegar no marido, se arrastou com os últimos suspiros. Paulo estático, se tivesse os olhos ainda, certamente estariam vidrados na partitura em cima do piano, Gui reconhece a música que tocava, pelas notas marcadas em preto, como se alguém queimou as exatas notas da nona sinfonia de Beethoven. Clarisse não entrou, notou Gui, olhou para os lados, sumiu, voltou à cozinha, sentada a pequenina na ponta da enorme mesa, assim como um líder mafioso. -Eu entendo, querida, não precisa ver a cena novamente, me conta pelo menos oque aconteceu. Dizia Rodrigues puxando uma cadeira e sentando-se próximo da garota, inquieta balançando as perninhas. -Certo. Uma pequena pausa, parecia estar juntando todas as informações pra não ter que reviver mais vezes a mesma cena-Papai, estava na sala tocando varias músicas de piano, como sempre fazia aos sábados a noite, nada anormal, enquanto mamãe lia seus romances gigantescos. Eu estava no quarto, vendo alguns vídeos no meu Ipad, Felipe Neto, conhece? Ele e muito engraçado. -Ah, sim eu tenho alguma ideia, mas continue por favor. Clarisse, deu um breve sorriso e continuou. -Então de repente, ouvi minha mãe batendo na porta, e me chamando, ela falou alguma coisa relacionada à meu pai precisar de mim, queria minha opinião sobre uma música que aprendera a tocar, desci e, bom, sentei no colo dele atentamente ouvindo ele tocar, estava bonita a melodia, como sempre. Rodrigues sorri. -Desculpe mas, você e muito educada com seus pais, parabéns. Pode continuar. -Obrigada-Clarisse levemente corada-E difícil encontrar homens assim gentis, e você é, assim como meu papai- Ela para desconfortável com oque acabou de dizer, a realidade dos fatos era difícil de encarar ainda-Deixa pra lá, vou acabar logo com isso. Enfim, como ia dizendo, a música estava agradável, era uma nova certamente, mas logo as coisas ficaram estranhas. Uma pequena pausa novamente, a menininha olhava fixamente a mesa. -Aos poucos a melodia foi mudando, ficando sombria, meu papai me segurava cada vez mais forte, não queria me deixar sair, comecei a gritar, estava assustada, chamei minha mãe e. Parou novamente, começou a lagrimejar. -Os olhos dela, totalmente pretos, vibravam-Abanava os braços com força, e começou a chorar- Me...me...meu pai, não parava cada vez mais rápido a tocar, falar coisas estranhas em alemão. -Que coisas? Entendeu alguma palavra? Em prantos, ela fungava e secava as lágrimas. -Sim, mas só uma coisa, transferência de receptáculo, repetia inúmeras vezes. Ela tomou fôlego tentando se focar para acabar logo. -Depois disso, eu juro por todos os ursinhos carinhosos, que vi os dedos dele pegarem fogo, mais e mais rápido, a boca retorcendo e falando coisas incompreensíveis, provavelmente ainda alemão, mamãe caiu no chão, um brilho na nuca dela em vermelho, fumaça ou gosma preta saiu dela, tomou a forma de serpente, cobra, não lembro perfeitamente, desmaiei, foi isso. Acordei e eles estavam assim. A menina banhava-se nas lágrimas, a dor de ver aquele rostinho sem esperança apertou o coração de Rodrigues. Ninguém deveria presenciar evento algum assim, era deprimente. Levantou, anotou tudo com sua caneta e caderno de bolso, guardou novamente, e deu um leve abraço na garotinha mais miúda e cabisbaixa do que nunca, fungava e soluçava. Ele compreendia sua dor. -Pronto, acabou, você é incrível garota. Abraçava e dava pequenos tapinhas nas costas de Clarisse, que estava imóvel. Movimentação vinha da sala de estar, piano voltou a tocar, em um susto, a dupla investigadora correu para investigar, totalmente rígido, Paulo dedilhava ferozmente, fogo se ascendia nos dedos, exatamente como Clarisse relatou. A chama subiu e consumia seu rosto, entrava nas cavidades oculares, queimando sua carne de dentro para fora. Certamente não era Beethoven, sons melodiosos horríveis, entravam na mente do detetive e da menininha, latejavam seus crânios, como se estivem em chamas também. Clarisse se encolheu no chão, suplicando que a música infernal para-se de imediato, mas, não parou, aumentou, mais e mais, a sensação de enlouquecer estava próxima. Rodrigues, tentou se concentrar, buscou o revolver ao bolso, levantou lentamente ao Sr.Volkman, que agora parecia o verdadeiro maestro infernal, respirou fundo, tremendo puxou o gatilho, uma, duas, cinco vezes. Os disparos foram abafados pela sinfonia diabólica, mas, cessou. A caveira de Paulo, ainda em chamas cai de bruços sobre o piano incendiando. Porém, a sensação de alivio durou pouco, o maestro, agora sem pele nas mãos e na cabeça, levanta, o fogo cessa. O maestro infernal levantasse e caminha na direção da menina e do detetive. Passos lentos mas firmes, que ecoam pelo salão. Rodrigues congela, tenta disparar mais vezes, mas o tambor está vazio. Começa a recuar puxando Clarisse. -Clarisse vamos! –Exclama Rodrigues desesperado. Clarisse não move um musculo, alguma coisa mudou, a menina encara o próprio diabo em sua frente fixamente. Medo talvez? Não fazia sentido. De repente a caveira ambulante para, e começa a falar, apontando em linha reta. - Der Teufel hat sich in dich eingeschlichen Fez-se silencio por um momento, depois a criatura repetiu a mesma coisa, mudando as vezes para”der Teufel ist in dir” e depois “die Schlange des Chaos erwacht wieder”. Rodrigues não entendia, nada fazia sentido, mas decidiu esperar e observar. De repente, as coisas ficariam ainda mais absurdas. Clarisse jogou o rosto pra cima, muito abruptamente, tinha quase certeza, “Quebrou o pescoço”, um estalo forte veio da menininha, flutuava, nada que Rodrigues não presenciara antes, o paranormal, imprevisível até mesmo com criancinhas. Ele mesmo tinha poderes assim, de qualquer forma, não era todo dia que criancinhas saiam voando por ai. Desconforto, uma presença maligna tomava conta do local, não era o senhor caveira ambulante, não, algo mais forte, a fonte dessa energia caótica deixava-o tremendo de ansiedade. Clarisse emanava caos, emanava destruição. Diferente de tudo, uma energia poderosa capaz de matar tudo e todos que a tocassem. Mas a garotinha segurava esse poder na palma de suas mãos. Clarisse no ar, finalmente proclama mais coisas incompreensíveis. -Verstanden, Ruhe Soldat. E como se a pequena garota fosse o comandante superior, o maestro infernal bate continência e se desfaz em cinzas no ar. Clarisse cai, Rapidamente, já esperando, Rodrigues corre e pega a garota no ar. Desmaiada nós seus braços, suspira, e senta, tentando recuperar o folego. Noite estranha e gente esquisita acabavam com ele. A última lembrança de Clarisse antes de cair na total escuridão foi seu pai, esquelético, caminhando em sua direção, falando coisas estranhas, e então, sua visão escureceu. Acordou em outro lugar, não reconhecia aquele lugar, casas com arquitetura germânica medieval, uma igreja ao longe badalava um sino, várias pessoas, camponesas seguiam em direção a um grande poço no centro do vilarejo. Resmungavam coisas em alemão, ela entendia parcialmente. Tentou chamar por ajuda, mas todas as pessoas passavam pela menina como se não existisse. Um circo de camponeses, com tridentes, foices, até mesmo livros de couro preto ou marrom com um símbolo cravado no centro, vermelho como sangue. Certamente um culto maluco, agora se juntavam ao circo, homens e mulheres encapuzados, máscaras de serpentes, o mesmo símbolo, parecia escorrer sangue atrás das capas. Clarisse estremecia, mas curiosa se juntou, sentia-se ainda invisível na multidão. Uma canção, ou oração começou a ser proclamada, todos de livros abertos, os símbolos brilhavam em fogo. Cada um dos encapuzados se aproximou do poço, doando seu próprio sangue, a canção de invocação aumentou, todos juntos em um rito de dar inveja aos seguidores de Satã. Sons começaram a serem ouvidos no poço, uma mare latejava e borbulhava, e como nascida do sangue e do lodo dos mortos, se levantou, uma espécie de cobra, dragão, serpente do mar, ensanguentada. Abocanhou, e pela metade ficou o camponês mais próximo do monstro do poço. Estranhamente ninguém se mexeu, todos hipnotizados pela carnificina. O estômago da serpente rugiu, não saciado, mas sim com sede de sangue e destruição. Clarisse, tenta fugir daquela insanidade, dando passos para trás, ainda encarando, um por um dos camponeses sendo devorados, uns tinham cabeças arrancadas outros metade do corpo, braços, pernas. Finalmente o horror tomou conta do povoado, gritos e desespero por todo lado, a serpente perseguia e devorava tudo que se mexia em sua frente. Clarisse acordou com sangue respingando em seu rosto e correu, “Não é real, não é real” Era impossível, era horrível. Por que tinham invocado um demônio pra destruí-los? Um sonho, terrivelmente real, só podia ser. Correu o mais rápido possível, mas não adiantou, serpente alcançara Clarisse, mas não atacara, e sim, chamou. -Clarissssse, não fuja, nosss somos iguais, somos parte um do outro, não fui eu quem matou todos eles, foi você, não entende? Olhe pra baixo, está ensanguentada. -NÃO! –Clarisse se joga no chão chorando, balançando, desejando que tudo acabasse, E acabou, acordou nos braços de Rodrigues. Desnorteada e com medo, confusa. Viajou no tempo? Não fazia ideia, sentia a cabeça latejando. Rodrigues estendeu uma xícara de chocolate quente para menina, ela agora se encontrava enrolada em um cobertor, mas não em sua casa. Uma cozinha pequena, luz fraca. Sentada em uma pequena mesinha redonda de madeira, um lindo gatinho encarava a menininha, mesclado preto e branco. -Franjinha e o nome.Rodrigues inicia a conversa, sentado do outro lado da mesa bebericando café, obviamente, deveria se passar da meia noite, mas não se importava, ele precisava daquele café, afastaria os sentimentos ruis daquela noite. -Onde estou? Você me trouxe aqui, certo? -Exatamente, bom, pensei que como estava desmaiada e bom, você sabe… -Sozinha- A garotinha corta secamente- Eu entendo, por quê se preocupar com uma garota estranha, que não te deve nada? -Não podia te deixar lá para morrer né? Que tipo de ser humano eu seria? Deve ter aprendido a ajudar os outros, certo?- Tenta dar seu melhor sorriso, mas não sente que se saiu bem. -Onde vai me levar? O quê aconteceu lá, eu simplesmente apaguei, vi meu pai morto vivo caminhar na minha direção, e teve aquela música, e bom, tive um pesadelo horrível com.. - A serpente? -S-sim- uma pequena pausa, desceu o olhar triste- Rodrigues, Gui, estou com medo, a cobra, o monstro seja lá o que for, me acusou, disse ,"nós somos iguais" não entendo. Eu sou um monstro pra você? -Clarisse, vou te explicar uma coisinha- Dá um grande gole final no café,e bati levemente a caneca na mesa, imitando um bêbado afogando as mágoas- Esse mundo, não é um conto de fadas e nem mesmo um mar de rosas, inclusive, qual sua idade mesmo? -11, mas faço 12 mês que vêm, 31 de janeiro -Bom, como imaginei, muito nova , grande poder. Clarisse estremece ao ouvir "poder". Rodrigues continua. -Alguém em algum momento na sua família fez uma grande besteira, e agora vai ter que segurar o fardo, mas vou te ajudar, não te levei pra lar de adoção, pois, não iam saber lidar, você Clarisse, tem poderes sobrenaturais. Essa frase não parecia fazer nexo nenhum com a realidade, e não fazia de maneira alguma, insanidade, no mínimo, ecoava em sua pequenina cabeça. -Eu sei, pode me colocar no hospício, sou maluco, mas, é a verdade. Conhece demônios, certo? Existem, lobisomem, vampiros, todo tipo de criatura maligna que consiga imaginar, bom, testemunhou hoje com teus próprios olhos. Crianças como você, tem um lugar certo, frequentei praticamente na tua idade, matei bruxas velhas, vampiros feiosos, espíritos vingativos, devo ter topado com o próprio diabo nesses anos de caçador. Clarisse pulou com um pequeno susto, outro gatinho se arrastou entre suas pernas, ronronando, esse laranja, um alívio calmante naquela noite. -Escola preparatória contra as artes das trevas, ou EPCAT, sim é uma sigla horrível, mas é um lugar ótimo, outras crianças com e sem poderes sobrenaturais vivem lá, vai fazer amizades e estudar e combater bastante, bom, e claro se você tiver interesse, e um dia vai entender o'que sua família fez, ou de onde veio poderes sobrenaturais e absurdamente fortes. -Gui, eu, matei ele? O maestro ? -Transformou ele em cinzas… Ficou corada, impressionada, estava sonhando, mas ao mesmo tempo, destruiu uma criatura. Seu próprio pai, naquele ponto, já não existia Paulo Volkman ali, Clarisse não entendia isso ainda. -Vão me ajudar? -Vão, e vai ser a melhor caçadora paranormal, sobrenatural do mundo-Agora sim Rodrigues deu um sorriso satisfatório- Acho melhor você descansar, deve estar caindo de sono, não tenho exatamente um quarto ou cama, mas o sofá é perfeito, tenho cobertas travesseiros pode se aconchegar , os gatinhos podem te fazer companhia. Agora dando uma olhada melhor no apartamento, Clarisse nota os sofás de couro marrom, bem cheios e arranhados, um tapete e uma mesinha de centro com livros empilhados, Agatha Christie, Stephen King, Poe , e muitos outros. Tudo na sala e na coy pareciam mais antigos, anos 90 talvez, mas a televisão era muito recente, tela plana 43 polegadas, ao lado do sofá central uma caneca, e outra ao lado da televisão , em cima da mesa da cozinha, canecas no geral se espalharam pelo apartamento,isso e os livros e algumas anotações espalhadas, explicavam as olheiras de Rodrigues. Ele se levanta e vai em direção ao quarto no corredor. Volta trazendo cobertas e travesseiros. -Bom, qual sofá? Geralmente o do centro e dos gatos. Clarisse ainda meio confusa, perdida nos pensamentos, balança a cabeça voltando a realidade. -Pode ser, esse mesmo, não me importo em dormir com ps gatinhos. -Perfeito, vou arrumar pra você. Rodrigues ajeita a coberta e os travesseiros e com um sinal, chama a garota. -Clarisse, uma coisinha importante que precisa saber, primeiramente, tem onde ficar? Algum outro familiar? As aulas da EPCAT só começam em fevereiro. -Não- responde friamente. -Olha pra mim, se importa de ficar comigo nesse meio tempo? Nunca cuidei de crianças, mas sei que você é muito inteligente , vejo isso. Clarisse olha para Rodrigues meio cabisbaixa, mas não tinha para onde correr, perdera tudo, ele era sua única esperança por enquanto. -Gostei daqui- dá um sorrisinho. -Ótimo, prometo que vou fazer tudo para que fique bem até as aulas, Dorme bem garota, boa noite. Rodrigues espera uma resposta, mas a garota caiu no sono.
                    
  • Mais uma vez, tudo igual e novamente

    Mesmo com a história não sendo um looping interminável, às vezes as repetições, coincidências ou seja lá do que você queira chamar, parecem inacreditáveis. Sempre tomando as mesmas atitudes e presos sempre aos mesmos sentimentos. E o pior de tudo: passamos desatentos por isso e, mesmo quando percebemos, continuamos. Não podemos mudar? Não queremos? Ou não conseguimos?
    Um dia, quando caminhava para o seu trabalho, ele viu um caminhão com uma grua e um trabalhador consertando alguma coisa em um poste. Isso só chamou a sua atenção porque houve uma intensa torcida para que o prédio onde trabalhava estivesse sem energia. Infelizmente, não estava e trabalhou o dia inteiro com seus estresses e tédios, resolvendo coisas que, na realidade, não importavam em nada. Mas achou estranho que, após ir embora depois de nove horas, ainda estavam trabalhando no mesmo poste. Mesmo assim, só ignorou e seguiu em frente.
    Acordou no dia seguinte pronto pra refazer tudo mais uma vez. Na realidade, “pronto” não seria a palavra certa. Tinha que refazer porque era o jeito que sabia viver. Caminhou mais uma vez ao trabalho e mais uma vez eles estavam lá, trabalhando naquele mesmo poste. Isso atormentava a sua mente como uma coceira que não conseguia coçar. No fundo da sua mente, sabia que havia algo errado. Coçava. Atormentava. Dominava a sua mente. E continuava a coçar.
    A primeira coisa que fez quando chegou ao trabalho foi pesquisar para saber se tinha alguma notícia na internet sobre isso, porém não viu nada de novo. Tentou começar a trabalhar, mas tudo se mostrou inquieto porque a sua mente não o deixava focar. Mesmo assim, tudo estava ocorrendo normalmente a não ser por várias ligações mudas que o obrigaram a tirar o telefone do gancho. Isso acalmou um pouco a sua mente já que provavelmente era isso que estavam consertando nos postes. Quando deu o seu horário, arrumou as suas coisas e estranhou que a recepcionista que ia embora antes dele ainda estava lá sentada, rolando a tela do celular sem parar mesmo com o smartphone desligado. Como não era problema dele e eles não se davam tão bem, só se despediu e continuou andando mesmo sem ter tido uma resposta.
    No caminho de volta, viu novamente aquelas pessoas trabalhando no mesmo poste. Por algum motivo, talvez esgotamento emocional, ficou com raiva ao vê-las e decidiu atravessar a rua e perguntar o que estava acontecendo. Quando chegou perto, estancou e não conseguiu mais andar. A sua mente tentava entender o que estava acontecendo porque aquilo que via não parecia certo. O funcionário que estava no chão ficava movimentando as mãos como se estivesse desenrolando algo, mas não tinha nada perto dele. Quando olhou para cima, o funcionário da grua estava com uma ferramenta fingindo apertar algo que não existia. A sua respiração estava pesada e os seus pensamentos voavam em sua mente, buscando alguma lógica, algum pensamento confiável que explicasse tudo. Isso fazia com que a sua mente parecesse cheia e vazia ao mesmo tempo. Não tinha nada ao que se apegar, então, com os olhos arregalados como se tentasse ver algo que ainda não tinha visto, foi recuando lentamente para a outra calçada para retomar o caminho para a sua casa. Foi o único pensamento em que pode se apegar: ir para a casa. Como se lá pudesse esquecer tudo. Mas não podia.
    No dia seguinte não acordou porque não conseguiu sequer dormir. Era sábado. Deveria estar dormindo. Mas a sua mente não deixava. Ela pensava e não parava de pensar. Se pelo menos fossem pensamentos felizes, talvez não ligasse tanto. Mas eram pensamentos que davam medo e o deixavam inseguro. E isso o atormentava.
    Como não tinha dormido e já eram sete da manhã, decidiu ir na padaria para comprar um café e ver se pelo menos a sensação de sono passava. Quando chegou ao balcão, não havia ninguém para atendê-lo. Como não queria ficar esperando, pegou um pó de café superfaturado na estante e foi até o caixa para pagar. A moça que estava lá não fez contato visual com ele e nem o cumprimentou. Apenas pegou o café, passou pelo sensor, largou do outro lado e continuou fazendo o movimento de passar as compras mesmo não tendo mais nada. Ele tentou falar que acabou e a forma de pagamento, mas ela continuava o ignorando. Assustado, ele passou a mão na frente dos olhos dela e encostou em seu ombro, porém não conseguiu tirar nenhuma reação dela que continuava fazendo os mesmos movimentos sem parar. Com os olhos marejados de medo e a respiração rápida, pegou a nota de 20 que deixava na carteira para emergências, a deixou em cima do balcão, pegou o café e saiu.
    Lá fora, sentou no meio-fio para tentar controlar a respiração e colocou as mãos na cabeça como se segurar a mente fosse ajudar a capturar o pensamento certo. Foi quando se lembrou dela, a mulher pela qual tinha uma paixonite. Ela tinha sido sua caloura na faculdade de administração e trabalhava em uma lotérica para pagar as mensalidades. Ele ainda pagava os seus boletos lá, ao invés de usar o aplicativo, só para poder vê-la e conversar um pouco com ela. O brilho nos olhos dela quando olhava para ele era hipnotizante e único. Era como se eles tivessem luz própria, iluminando até mesmo o ambiente mais escuro. E, para completar, quando ela sorria era impossível não sorrir de volta. Era como se fosse levado para um outro mundo onde só havia os dois. Aquele sorriso trazia uma paz e uma leveza que, se fosse colocado em um telão para todos verem, a paz mundial seria alcançada em segundos. O efeito que ela causava nele era inacreditável e então ele percebeu que aquilo era a única coisa que queria, não, que precisava naquele momento. Então foi até a lotérica buscar a sua salvação. O seu pedaço do paraíso.
    Chegando à porta, seus passos se tornaram hesitantes e ele teve que respirar fundo para ter um último ímpeto de coragem. Não havia fila e foi direto no caixa dela. A primeira coisa que viu foi o seu cabelo castanho. Não conseguiu evitar de soltar um sorriso de canto de rosto que não surgia em seu rosto há algum tempo. Ela estava olhando para o computador, digitando algo e não percebeu a sua presença. Ele a chamou, mas ela não o ouviu. Ele deu umas batidas no vidros, como se batesse numa porta, mas ela continuava digitando sem parar. Lágrimas começaram a se juntar em seus olhos e suas mãos começaram a ficar mais rígidas como se acumulassem uma raiva surgida a partir do desespero. Antes que se desse conta, estava esmurrando o vidro, a chamando, mas mesmo assim ela continuava digitando. E digitando. E digitando. Sem parar. Com uma expressão séria. Olhos opacos. Quando se deu conta, estava chorando, ajoelhado no chão.
    Levou algum tempo até que as lágrimas se represassem novamente em seus olhos, mas, no momento em que isso aconteceu, se levantou e fez tudo igual ao que sempre fez. Colocou a mão no vidro, como se fosse bater um high-five, mas dessa vez deixou a mão lá. Falou a mesma coisa que sempre dizia “Obrigado. Até a próxima!” e se afastou devagar, caminhando de costas até perder a visão dela. Quando ela estava quase fora de vista, piscou lentamente como se para guardá-la em uma foto mental. Assim que abriu os olhos, já não conseguia mais enxergá-la. 
    Sem saber o que fazer, ficou andando pelas ruas durante um bom tempo até que percebeu que só tinha uma coisa que podia fazer. Mesmo sendo sábado, foi até o escritório. Viu a recepcionista e alguns outros colegas realizando os mesmos gestos sem parar. Sentou em sua cadeira e começou a trabalhar. Quando deu o seu horário, foi para casa. Depois voltou para o trabalho. Depois para casa. Depois para o trabalho. Depois para casa. E foi vendo todos definharem lentamente à sua volta, inclusive a si próprio. Depois ia para casa. Depois para o trabalho. Depois para casa. Depois para o trabalho. Novamente, novamente e novamente. Até que tudo chegasse ao fim.

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