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Crime,

  • As Paredes Falam

    Eu deveria estar dormindo
    Papai e mamãe fecharam a porta do quarto deles
    Acho que estavam com muito sono
    Porque conseguiram dormir mesmo de luz acesa
    Mas eu não consigo dormir
    Estou ouvindo vozes
    Talvez eu esteja ficando louca, mas...
    As paredes estão falando
    Estão gritando
    Se continuarem assim
    Brigando
    Vão acabar acordando os meus pais
    Se isso acontecer, papai pode ficar muito bravo
    Ele pode até bater nas paredes
    Do jeito que ele faz com a mamãe
    Agora, não ouço mais vozes
    Apenas tapas estalados
    Seguidos de um choro bem baixinho
    Não sei porque estou chorando também
    Mas odeio dormir com o travesseiro molhado
    Mesmo que isso aconteça todas as noites...
  • Assassinato de Picalho

    NA DELEGACIA

    Passava das 8, quando ouvia-se ao longe o burburinho das faxineiras que conversavam, e Dona Leci, antiga conhecida de todas naquela delegacia de polícia, chegava para limpar a sala do chefe da repartição. Ao colocar a chave na porta, por ser de confiança do Dr. Picalho, era a única que tinha cópia, girou-a adentrando à sala. Alguns segundos depois ouve-se um grito assustado, todas faxineiras correram ao encontro de Leci, e ouviu-se outra salva de gritos.
    Dr. Picalho, estendido no chão, com um leve tom roxeado nos lábios e olhos estatelados, com aquela expressão de espanto, de alguém que viu a morte.
    Algumas horas depois, a polícia já havia preservado a cena, para que a investigação comprovasse as causas do passamento do temido Delegado.
    Encosta diante da delegacia um fusca laranja, conhecido veículo do Investigador Chefe Praxedes, ele desce do carro, olha toda aquela agitação e pergunta a Deco, colega investigador, a razão.
    Deco assustado responde-lhe com admiração:
    _ Não soube ainda?
    _ O quê?
    _ Picalho já era, meu chapa.
    _ Como assim?
    _Estão todos aguardando você, para iniciar as investigações.
    Antes mesmo de terminar a frase, Praxedes levanta os olhos, e vê seu maior desafeto descendo as escadas, que já começa a falar.
    _ Um investigador chefe que não possui celular. O último a saber de tudo.
    _ Bom dia, Diretor.
    _ Boa tarde, meu caro. Vá fazer o seu trabalho o mais rápido possível, antes da chegada da imprensa.
    _ Sim senhor.
    Praxedes era perseguido pelo diretor, embora fosse o melhor investigador de toda região, não se adaptava bem com a tecnologia, e isso irritava o diretor, moço novo, extremamente influente, que alcançou rapidamente o cargo, por conhecer as pessoas certas, e isso desagradava Praxedes pois achava injusto.

    O CORPO

    Praxedes colocou as luvas, e após o trabalho dos peritos começou a colher suas impressões sobre o caso. Embora Picalho colecionasse inimigos, o relacionamento com Praxedes sempre foi bom. Com seu amigo estendido pelo chão, Praxedes encontrou um primeiro sinal que lhe chamou a atenção.
    O cheiro comum, aos conhecidos da vítima, o famoso Vick Vaporub estava no ar, mas não encontrou o frasco. Procurou pela mesa e gaveta, mas nada. Olhou a lata de lixo, e nada da embalagem. Estranhou, anotou este fato, e continuou sua investigação.
    O segundo e último fator que lhe causou estranheza, o sinal em meio a poeira da sala, aparentemente faltava um porta-retratos na estante, tirando isso, tudo permanecia normal.
    Chamou o pessoal da polícia científica e perguntou sobre os dois itens, caso haviam recolhido, o que de pronto lhe responderam negativamente, solicitou então ao perito, colher material dos dedos do cadáver. O perito ficou nada satisfeito, não gostava que lhe ensinassem seu trabalho, mas acabou fazendo mesmo assim.
    _ Morte natural. Falou o perito ao investigador.
    _ Pode ser, afinal Picalho não era dado a cuidar da saúde.
    _ Amanhã lhe entrego o laudo.
    _ Hoje, o mais rápido possível. Precisamos dar uma satisfação a Imprensa.
    _ Impossível, tenho outros…
    Interrompido por um gesto do Investigador, colocando o dedo sobre a boca, indicando silêncio, e na sequência, outro gesto pedido celeridade.
    Ele acenou com a cabeça contrariado e completou.
    _ Verei o que posso fazer.

    VAZA A NOTÍCIA

    Alguns minutos depois da saída do perito, Praxedes estava em sua sala e foi bruscamente interpelado por um repórter que adentrou a sala, perguntando qual o posicionamento da investigação. Mal se levantou, havia uma "manada" de pessoas entrando, e pensou. Começou.
    _ Vou responder as perguntas, desde que se organizem.
    _ Quem matou o Dr Picalho. Perguntou um repórter.
    _ Não há nenhum indício de assassinato. Estamos aguardando o laudo do perito, para identificarmos a causa da morte.
    _ Ele sofreu ameaças? Foi tiro? Houve luta?
    _ Não posso responder a estas questões ainda, mas assim que tiver um posicionamento vocês saberão. Agora por favor saiam da minha sala e me deixem trabalhar.
    Homero, repórter e informante de longa data de nosso protagonista, entra na sala de Praxedes, espalha-se na cadeira a sua frente, e vai logo perguntando.
    _ O que você acha?
    _ Ele foi assassinado. Você sabe alguma “treta” que ele esteja envolvido.
    _ Apenas a de sempre.
    _ Sei, mas será que algo novo aconteceu?
    _ Ah, vindo de Marisa, sempre haverá surpresas.
    _ Eu cansei de avisá-lo que marido traído, qualquer hora pode dar “novidade”.
    _ Não sei, este caso é antigo, se fosse para acontecer algo, já deveria ter acontecido.
    _ É, mas me diga, porque acha que foi assassinato?
    _ Ainda estou agindo pelo instinto, não tenho nada para afirmar minha tese. Assim que sair o laudo, poderei realmente dizer se estou certo.
    _ Pô, Praxedes. Vai esconder de mim?
    _ Não meu Caro, não tenho nada mesmo.

    A LINHA DA INVESTIGAÇÃO

    Praxedes olhava nervoso, o relógio da parede que marcavam 18:30, pensava o porque do perito ainda não ter lhe dado notícias.
    Trimm, toca o telefone que é atendido de pronto.
    _ Praxedes.
    _ Não foi causa natural. Informa Perito Figueroa.
    _ Havia veneno misturado ao Vick Vaporub?
    _ Se você não cometeu o crime, você é um gênio. Exatamente.
    _ Imaginei, porque não encontrei a embalagem.
    _ Ele foi envenenado. Encontramos resíduos nos lábios. Estranho isso não?
    _ Ele sempre teve o hábito de hidratar os lábios com Vick, nunca entendi, mas…
    _ Então foi isso. Alguém envenenou o frasco, e ao passar nos lábios, acabou ingerindo.
    _ Tem como saber, o tempo aproximado que ele possa ter ingerido?
    _ Pela potência do veneno, creio que pouco tempo antes da morte.
    _ A quanto tempo ele está morto.
    _ Pela rigidez do corpo, acredito que ele morreu entre 18 e 19 horas de ontem.
    _ Mais algum detalhe que possa me ajudar.
    _ Creio que tenha tido um encontro, pois há marcas de batom no pescoço e o corpo cheira a perfume feminino.
    _ Interessante. Nada mais.
    _ Não.
    _ Obrigado.
    Agora que tinha certeza sobre sua tese, ele deveria arregaçar as mangas e partir para o trabalho.
    Na manhã do dia seguinte, encontrou Dona Leci na cozinha, e a mesma ainda assustada com o acontecido.
    _ Bom dia, Dona Leci.
    _ Bom dia Seu Praxedes.
    _ Preciso lhe fazer umas perguntas.
    _ Claro, o que quer saber?
    _ A senhora que encontrou o corpo do Dr Picalho?
    A mulher desabou a chorar, e foi amparada por Praxedes.
    _ Calma Dona Leci.
    _ Ele me tratava tão bem. Apenas a mim, ele confiava a chave da sua sala, e agora ele se foi.
    _ Todos sabemos da empatia que Picalho tinha para com a Senhora.
    _ Sim. Como um homem tão bom, pode morrer assim?
    _ Dona Leci, apenas a Senhora tinha a chave da sala, exceto ao Doutor?
    _ Sim, ele só confiava em mim. Vivia falando a todos o quanto eu sou de confiança.
    _ Quando a senhora chegou pela manhã, notou algo diferente?
    _ Não, mas também, não tive nem tempo de perceber, tamanho o susto.
    _ Entendo. A Senhora pode me acompanhar até a sala, por favor?
    _ Ai, não queria entrar lá, mas se for preciso para ajudar.
    _ Sim. Preciso sim.
    Dentro da sala, Praxedes pergunta a Dona Leci, como todas as manhãs fazia a faxina, se sentia falta de algo. Ela passeou os olhos pela sala, e balançou a cabeça negativamente. Praxedes agradeceu e a dispensou em seguida.
    Praxedes começou a juntar os detalhes, o sumiço do frasco, o porta-retratos, a marca de batom, o perfume. Não tinha jeito, teria que intimar Marisa e o seu marido.
    Deco, entra afobado na sala e diz:
    _ Praxedes, fiquei sabendo do laudo, e preciso lhe contar algo que ouvi no bar.
    _ É sobre o caso? Se não for, não tenho tempo agora.
    _É sim. Fiquei sabendo que o Dr Picalho foi ameaçado pelo Senhor Feitosa, diante de muita gente no domingo passado. Parece que tem mulher no meio.
    _ Alguém confirma esta história?
    _ Sim, muita gente viu.
    _ Hum, este caso tá ficando cada vez maior.

    SENHOR FEITOSA

    Homem mais rico da cidade, fazendeiro, viúvo, muito conhecido em toda região, influencia política, nos tempos antigos diriam tratar-se de um Coronel. Dono do jornal da cidade, da Rádio, ou seja, não havia uma palavra publicada ou informada na cidade que não passasse pelo crivo dele.
    Muito mulherengo, havia centenas de histórias envolvendo mulheres.
    Após a conversa com Deco, Praxedes foi tirando tudo que poderia ser útil para a investigação, até que soube que Feitosa estava interessado em Marisa.
    Ele coçou a cabeça, e imaginou que esta investigação seria um precipício.
    Organizou sua agenda, e resolveu começar pelo Senhor Feitosa. Pediu que intimassem o “Sinhô Feitosa” como era conhecido em Queimada.
    A secretaria pediu para confirmar o nome do intimado sabendo ser pessoa tão importante, e Praxedes com sua calma rotineira, ratificou o nome.
    Para espanto de Praxedes, duas horas depois do pedido, a secretaria bate a porta e diz:
    _ O homem tá ai.
    _ Quem?
    _ “Sinhô Feitosa”.
    Praxedes estranha a rapidez e pede a moça para dizer-lhe para entrar.
    _ Praxedes, o nome do Senhor, tô certo?
    _ Sim Senhor Feitosa, por favor, sente-se?
    _ Imaginei que o Senhor quereria falar comigo, devido ao “arranca-rabo” que tivemos no domingo, e com esta tragédia, quis adiantar o expediente. Não tenho nada com o acontecido. Nem tava aqui no dia do crime.
    _ Sei. Mas o Senhor pode me dizer o motivo da ameaça?
    _ Não é surpresa pra ninguém, que o Picalho saia com a Marisa, e eu mais ela, tínhamos tido uma conversa semana passada, e nós estávamos começando a nos entender. E no sábado, ela me ligou dizendo que o Picalho tava insistindo em querer se encontrar com ela, que não queria mais. Não tive dúvida, encontrei-o no bar, e avisei pra ele deixar ela em paz e ele me desrespeitou, foi quando disse, que estava se metendo com o cara errado.
    _ Entendo.
    _ Mas nem precisei fazer nada. Riu Senhor Feitosa.
    _ O Senhor não precisa me mostrar, mas se quiser fazê-lo, eu agradeceria. O senhor tem o registro da ligação da Sra Marisa?
    Feitosa olhou-o de cima abaixo, e com um sorriso maroto no rosto, enfiou a mão no bolso interno da jaqueta, retirou o celular e os óculos, procurou pela ligação e mostrou ao Investigador.
    _ Posso anotar o número para confirmar?
    _ Sim, meu rapaz. Fique à vontade.
    _ Obrigado. Agradeço sua cooperação.
    _ Por nada.

    CERTEZAS INCERTAS

    Já era passado da meia-noite, Praxedes não conseguia dormir, passando os rostos de todos que falou, e como era de costume, ele assemelhava uma investigação a um novelo de lã, enquanto não achasse o fio, ela não servia para nada. Relia suas anotações e alguns fatos não encaixavam, então precisava ficar mais atento, acreditava que todo criminoso, no fundo quer ser pego, então a razão de dar sinais, muitas vezes imperceptíveis para os leigos.
    Na outra manhã, além da investigação, havia muitas rotinas do trabalho que um investigador Chefe deve cumprir, então saltou cedo da cama, tomou um café gelado do fundo da garrafa, e pensou de quando seria, visto que não havia feito no dia anterior. Engoliu com cara nada boa, e partiu para a Delegacia.
    Depois de muito pensar, revirou na sua gaveta uma foto antiga que havia tirado com Dr Picalho, quando recebeu um prêmio do Prefeito pela solução de um caso ocorrido na Prefeitura. Nesta foto estava Picalho, o Prefeito e Praxedes, na sala da vítima.
    Encontrou a foto, e procurou um detalhe na mesma, e encontrou. O porta-retratos desaparecido estava lá, em tamanho minúsculo, mas dava pra entender que era uma foto com muitas pessoas, e antiga. No envelope onde se encontrava a foto, estava o nome da loja confeccionadora da mesma, e partiu para lá no mesmo instante, na esperança de obter mais dados.
    Lá chegando, encontro Zé Fotógrafo, amigo de longa data, colega de infância, e saudaram-se, falaram um pouco do passado até que Zé, lhe perguntou:
    _ O que te traz aqui meu amigo?
    _ Preciso saber se há como aumentar esta foto, ao ponto de reconhecer quem esta neste porta-retratos?
    _ Me lembro deste dia, eu tirei esta foto.
    _ Sim, mas há como?
    _ Difícil dizer, que conseguiremos aumentar, sem problemas, quanto a reconhecer as pessoas, apenas quando estiver pronta.
    _ Por favor, tente.
    _ “Vamô lá”.
    Passado alguns instantes, após procurar nos arquivos, Zé encontrou a foto. Abriu o arquivo e focou no porta-retratos e foi aumentando.
    _ Este é o máximo.
    _ Ótimo, são doze pessoas.
    _ Reconheci quase todas, apenas este aqui, não sei quem é.
    _ Verdade, também não reconheço.
    _ Zé, me ajudou muito. Sexta tomamos uma por minha conta.
    _ Opaaaaa, to dentro.
    _ Um abraço.

    A FOTO

    Das doze pessoas, seis já eram falecidas, três há muito haviam se mudado da cidade e não haviam notícias, um era desconhecido, e dois brilhavam como fogo. O marido da Marisa, e o Senhor Feitosa. Era hora de falar com Bartolomeu, o enganado da história.
    Praxedes tentava traçar perguntas, isentando o fato de saber do caso de Marisa e Picalho. Não seria nada fácil levar este depoimento, mas já se fazia necessário.
    Pediu a secretária para intimar Bartolomeu.
    Um detalhe sobre Bartolomeu, era uma pessoa fora dos padrões normais. Seu apelido era trator, devido a força e tamanho, media aproximadamente dois metros, e pesava em torno de 130 quilos. O homem era um monstro.
    Em sua sala sentado, Praxedes suava frio, ao saber que aproximava a hora da conversa com Bartolomeu, sabido por todos na cidade, ter um ciúme doentio de Marisa. Como bom policial prevenido, deixou a pistola engatilhada na gaveta para o caso de algo sair do controle.
    Bartolomeu chegou a Delegacia sem saber o porque de estar ali, foi conduzido a sala de Praxedes, sentou aguardando uma explicação.
    Praxedes cumprimentou-o e foi logo perguntando:
    _ Bom dia, pedi para que viesse, pois tenho algumas perguntas?
    _ Sobre o que?
    _ A morte de Picalho.
    _ O que isso me diz respeito?
    _ No dia do ocorrido, um porta-retratos da estante do Dr Picalho, desapareceu. Consegui levantar uma foto, onde aparecia o referido, e ao aumentarmos a mesma, reconheci sua presença na foto. Por isso você foi chamado.
    _ Entendo, sou eu mesmo. Mas isso foi a tantos anos, ainda não entendo?
    Praxedes pensou que não poderia de forma alguma dizer-lhe o verdadeiro motivo, pelos menos por enquanto.
    _ Você tinha algum problema com Dr Picalho?
    _ Nunca gostei dele, cara mulherengo, e tenho mulher bonita, sabe como é?
    _ Entendo. Por acaso você o encontrou no dia do crime?
    _ Não. Fazia tempo que não o via.
    _ Certo. Era só isso. Você está dispensado.
  • Assassino de Cameron

    Londres 1840
    A Inglaterra é cheia de lugares com histórias que fazem-nos pensar,mas poucas se comparam ao singular bairro de Holloway,ao norte de Londres.Este aparentemente pacífico local,possuí histórias tão ricas quanto um tesouro,mas muitas destas histórias escondem terríveis segredos.Mesmo sendo um bairro de atividades rurais,tinha em seus prédios uma legítima arquitetura vitoriana,os nobres locais deliciavam-se com o surgimento da cinemateca Odeon,localizada no Park Tufnell.Era também onde residia seu cidadão mais ilustre,o escritor e poeta Eduard Lear.Um local de muitos atrativos,mas também de muitos mistérios.
    Henrick Dupra,era americano e mantinha uma clínica nos fundos de sua casa,neste bairro,na totman 1023,uma rua com chalés brancos e belos jardins,era um morador bastante conhecido na comunidade,um conceituado médico homeopata,que parece ter levado muito a sério quando ouviu a frase”até que a morte nos separe” pois segundo a Polícia, o jovem médico abriu o crânio de sua esposa Edna Dupra com um golpe de machado,ela era uma cantora lírica que se apresentava como Edna Bella.E no final das contas, o ”felizes para sempre”,infelizmente não aconteceu.
    Alguns casamentos são longos,outros mais curtos, mas todos repletos de promessas.O problema é que aqueles em quem confiamos,podem ser os piores traidores.Confiar na pessoa errada pode ser o último e fatal erro.
    Após o cruel assassinato o médico teria ocultado o corpo de Edna no porão de seu chalé e fugido da cidade embarcando em um navio comercial,o Braduck.Segundo os boatos,que correm mais rápido que o rio que corta Londres ao meio,ele estaria acompanhado de sua amante Rose de Levingne,garçonete em uma taverna nos arredores da cidade.Segundo a Polícia,a senhorita Levingne era igual a uma maçã envenenada,doce por fora mas com uma polpa mortal.
    Mas com o sumiço repentino do casal os vizinhos estranharam as janelas sempre fechadas, e o mau cheiro que vinha da casa do médico,e chamaram a Polícia local.
    Após uma testemunha ter afirmado ver o médico nas proximidades do cais londrino na noite do assassinato,o inspetor thormann,responsável pela investigação do caso tomou providências ,e os dois foram capturados dias depois,em Quebec,Canadá,enquanto tentavam passar através do rio Sant Lorence.Henrick foi levado a  prisão estadual de Cameron,no condado americano de Moure,na Carolina do Norte,sua cidade natal,onde aguardava julgamento.
    Sua amante Rose foi enviada de volta a Inglaterra onde seria julgada pela corte inglesa.Mas não havia provas do seu envolvimento no assassinato de Edna.
    Eu e o inspetor Thormann fomos até Cameron para interrogar Henrick ,e saber o motivo do brutal assassinato de sua mulher.É até onde a garçonete Rose estava envolvida.
    Depois de uma.longa viagem chegamos ao entardecer, a escura  noite adensava rapidamente.Fomos diretamente a Goodmann Street 1007,onde ficava o pequeno hotel Dewberry.Um local simples,mas com conforto suficiente para passarmos a noite depois de uma fatigante viagem.Pela manhã iríamos a distante Burke Prision,na estrada Carthage Roout,interrogar o Sr. Dupra.E a partir daí,seriamos levados por um caminho bizarro e bastante confuso.
    Já estava amanhecendo quando saímos no dia seguinte,após algum tempo cavalgando em nossos montarias, desviamo-nos da estrada principal e adentramos em um estreito caminho secundário,que ao fim de uma meia hora,se perdia em um bosque espesso que cobria toda área.Cavalgamos por cerca de duas milhas através dos atalhos que já se tornaram úmidos e por vezes escuros,cobertos por imensas árvores com seus troncos cobertos por  uma ramagem verde,e sentia-se a fétida lama pisoteada pelos cavalos.Após algum tempo,apareceu-nos a penitenciária.Situada em uma clareira,demonstrava ser uma construção muito antiga,muito prejudicada pela ação do tempo,e a julgar pela sua aparência de vetustez e abandono,a muito não recebia qualquer reparo em sua estrutura.Não havia fazendas,nenhum tipo de plantio,nem sequer o menos sinal de alguma atividade ao redor,nem mesmo o latido de um cão ,sugerindo que aquele disforme local era habitado por humanos.
    Mesmo sendo ainda dia,creio eu,que estávamos no meio de uma manhã,aquele fétido local tinha uma bruma escura,como se uma sombra nimbosa encobrisse tudo.Um sentimento aflitivo,angustiante se apossava rapidamente de nós.Cutucando nossa montarias com os calcanhares,apressamos nossa cavalgada,era imperativo sairmos daquele terrífico caminho.
    Um local dantesco,medonho ao extremo.As celas ficavam com suas pesadas portas de ferro diretamente voltadas para o pátio,somente uma pequena abertura com grades permitia a entrada de um minúsculo facho de luz.Toda a construção era com enormes blocos de pedras,e no interior da cela o mau cheiro era quase insuportável,alem de ratos que circulavam livremente por toda parte.No centro do imenso pátio,havia uma enorme guilhotina montada,uma visão mórbida e assustadora.
    .Dentro de uma cela fétida,o assassino de Cameron,como ficou conhecido,já estava a nossa espera. Fiquei surpreso ao ver que Dupra era um homem franzino,muito magro,e imediatamente questionei com Thormann se teria ele realmente força  suficiente para desferir tão pesado golpe,que levou sua esposa a morte.O rosto extremamente pálido,os cabelos escuros e longos totalmente desalinhados.Os olhos circundados por profundas olheiras deixavam evidente que pensamentos terríveis lhe haviam tirado o sono.Ele afirmava nada ter a ver com a morte de Edna,somente queria deixá-la devido a pouca atenção que ela dedicava a ele,e por brigarem diariamente por ela não suportar o seu vício com a bebida.Mas jamais a mataria.Ele realmente pretendia partir com sua nova companheira,e dois dias antes da morte de sua esposa,havia passado todos os seus bens para o nome de Rose de Levigne.
    Ele afirmou não ter motivos para querer a morte de sua esposa,pois nada maios pertencia a ela,a não ser a casa onde moravam,que ele deixará no nome da falecida esposa.   
    Segundo dizia o filósofo Renê Descartes,a paixão freqüentemente nos faz acreditar que algumas coisas são muito melhores e desejáveis do que realmente são.Então quando tivermos tido muito trabalho para adquiri-la,e no caminho tivermos perdido a oportunidade de possuir bens mais genuínos,sua posse nos mostra seus defeitos,e daí vem a insatisfação,arrependimento e remorso.E creio eu,este pensamento tem muito a ver com o que esta acontecendo com o Sr. Dupra.
    Era necessário voltar ao local do crime,precisávamos de indícios que pudessem auxiliar na elucidação deste caso,que a princípio parecia tão lógico,e agora já era um completo mistério.
    Retornamos a Londres,e ao chegarmos a casa do casal Dupra já era quase noite.Adentramos a casa e fomos de imediato a sala de jantar,onde Thormann tratou de acender as velas do suntuoso lustre dourado que pendia sobre a pesada mesa de madeira escura,as tapeçarias que ornamentavam as paredes ondulavam ao sopro de uma leve brisa de final de tarde,vindas dos estreitos e altos janelões do chalé.As velas tremeluziam e esfumavam ao serem tocadas pelo vento.
    Todos os cantos do belíssimo chalé foram vasculhados,na verdade não tínhamos a certeza do que estávamos procurando,e nada que pudesse chamar nossa atenção foi encontrado,a casa estava toda arrumada,sem desordem,nem rastros ou qualquer coisa que pudesse levar a algum ponto de investigação.Nossa infrutífera busca não levou-nos a lugar algum,o Sr. Dupra ainda era o principal suspeito.
    Tanto eu,como o inspetor,não estávamos totalmente convencidos da culpa de Henrich pela morte da esposa,e surgiam em nossa mente uma série de medidas,que ao final,eram desapropriadas aos nosso objetivos e afastavam-nos cada vez mãos da solução do mistério.
    Seria o homeopata realmente inocente?
    E se fosse inocente,que seria o culpado por um crime tão brutal?
    E qual o benefício disto para o assassino?
    O caso tornou-se público,todos queriam respostas,mas só tínhamos perguntas.
    Em uma tarde,ao ver-nos saindo do distrito policial,fomos abordados por um homem velho,que empurrava uma carroça de quinquilharias.Era um mercador de nome Abdul,circulava pela cidade vendendo tapetes,caixas de ébano,bolas de vidro colorido,imagens das mais variadas origens,e uma infinidade de outras extravagâncias.Segundo o que disse o velho mercador,um homem de cabelos claros,muito forte,com aproximadamente 1,80 de altura,e usando longas botas de borracha,como as usadas em pesqueiros e embarcações,saiu rapidamente da casa de Dupra no dia do crime.Abdul disse que o homem estava muito apressado,e subiu em um coche que estava a sua espera pouco mais abaixo,na mesma rua.E foi em direção as docas.
    Imediatamente o inspetor ordenou aos policias que rumassem para o porto,para buscar mais informações sobre o navio Braduck.Porem os marinheiros pouco sabiam,ou não queriam falar.mas uma informação,que nos chegou através do dono de uma bar da zona portuária,caiu como uma luz na nossa ainda nebulosa investigação.O capitão do navio Braduck,Kriss,tinha uma irmão.E para nossa surpresa,descobrimos que ela trabalhava em uma taverna fora da cidade.Não foi necessário muito esforço ligarmos os pontos,um quase perfeito crime,para livrar-se de Edna,a esposa indesejada,e também do amante Henrick,que seria considerado culpado e condenado a morte.Ou na melhor das hipóteses uma prisão perpetua,se é que da pra considerar uma prisão perpetua como melhor hipótese.        
    Parece que o morta triangulo amoroso esta se transformando em um surpreendente quadrado.O nome do capitão do Braduck foi facilmente descoberto por Thotmann,não por coincidência tinha Kriss ele o mesmo sobrenome de rose,Levigne.Isto ficou ainda mais estranho quando Henrick contou que foi sua namorada que providenciou tudo para a fuga,e que após esperar por quase uma hora no cais,em fim ela chegou acompanhada do capitão.
    Tudo parecia estar saindo como planejado,porem os planos de Rose e de seu irmão não incluíam Henrich.
    Novamente me veio a mente a mesma pergunta:
    Quem tiraria alguma vantagem com a morte de Edna e a condenação de Henrich?
    Mas tudo era apenas suposições,não havia provas,a descrição feita por Abdul batia com dezenas de marinheiros do porto de Londres.E os dias foram passando,semanas,o caso não era mais o principal assunto dos moradores do local.Henrick estava por ser condenado por um crime,que segundo ele não havia cometido.E naquele momento,eu e Thormann também tínhamos dúvidas quanto ao autor do assassinato.
    O tempo passou, a policia liberou Rose por falta de provas do seu envolvimento com a morte de Edna.Seu irmão Kriss,deixou o barco em que trabalhava em um porto canadense e não foi mais visto.Um ano depois do crime,Dupra foi julgado e condenado a prisão perpétua e trabalhos forçados pela morte de sua esposa Edna Dupra.
    Após ter novamente sua liberdade,Rose deixou a cidade.Em 1862,seu irmão Kriss,agora usando o nome de Debruhá,foi encontrado morto em um porto em Londres,esfaqueado em frente ao armazém Ocean Bleu.
  • Assassino Familiar

    Todos estavam festejando e brindando com as suas caras garrafas de champanhe em um pequeno círculo. Era fim de ano e toda a família estava comemorando por estarem bem e juntos em uma bela cobertura de frente para o mar. Não era uma família muito grande, tendo uma esposa e seu marido, que tinham uns 45 anos, e seus 4 filhos: um casal de gêmeos com 20 anos, uma menina com 18 e um menino de 15 anos. Antes mesmo da meia-noite e ainda com vários pratos à disposição para serem devorados, todos estavam dormindo e nem os fogos de artifício que brotavam de todos os cantos foram capazes de acordar essa família.
    O primeiro a acordar foi o jovem de 15 anos. Ele abriu os olhos bem devagar como se as suas pálpebras pesassem dezenas de quilos e percebeu que ainda estava de noite. Ele tentou se levantar jogando um dos braços para a frente para se apoiar no chão, mas não conseguiu e acabou com a cara no chão. Na queda, mordeu a língua e uma dor aguda foi direto para o seu cérebro, fazendo todos os músculos faciais se revirarem. Foi aí que percebeu que os seus braços e pernas estavam amarrados de maneira bem firme, chegando inclusive a doer um pouco. E o cheiro, o cheiro também era forte e confundia os sentidos. Ele vinha de todos os lugares: das roupas, das paredes e da enorme poça em que estava sentado. Finalmente percebeu que estava em uma piscina inflável que nunca tinha visto antes com outras três pessoas ainda desacordadas. Piscou algumas vezes tentando aumentar a velocidade dos seus olhos para fazer com que o seu cérebro pegasse no tranco. Depois de uma dezena de piscadas, percebeu que o cheiro era de gasolina. E que não era pouca, pois parecia que tinha uns três postos à sua volta em um dia bem movimentado de promoção. Sentiu o seu estômago se revirar por causa do cheiro e do medo crescente. Os seus olhos começaram a marejar, mas pouco antes de sua visão ficar encoberta pelas lágrimas identificou que aqueles que estavam ao seu lado eram a sua família com a exceção dos gêmeos.
    Ele não tinha forças o suficiente para voltar a ficar sentado, então foi tentando se virar de barriga para cima para tentar achar os seus irmãos. Quando se virou para o lado oposto, o seu rosto ficou paralisado tentando entender o que estava acontecendo. Ele viu a sua irmã segurando uma faca enquanto encarava o gêmeo que estava amarrado em uma cadeira de madeira. Ela sorria com os seus olhos vidrados no gêmeo, sem desviá-los nem mesmo por um segundo. Ainda deitado no chão, ele tentou falar alguma coisa, perguntar o que estava acontecendo, o porquê disso tudo ou qualquer outra coisa que levasse a algum diálogo, mas só conseguiu balbuciar alguns sons sem sentido. Foi o suficiente para que ela virasse o rosto. Embora os seus olhos parecessem aterrorizados, o sorriso macabro continuava em seu rosto. Ela deu alguns passos em direção a ele e ao resto dos seus familiares amarrados, mas repentinamente e bruscamente parou na metade do caminho. Ficou os encarando por uns 10 segundos antes de começar a falar:
    — Finalmente acordaram para o show! — a sua voz estava trêmula — Não é nada pessoal com nenhum de vocês, só quero me divertir um pouco. Se me deixarem em paz, a vida continuará! — ela voltou a andar na direção deles, levantou o irmão que estava no chão o deixando sentado e depois deu as costas e voltou a encarar o seu gêmeo. Durante toda a fala os olhos dela estavam marejados e assustados, mas o sorriso maníaco não saiu em momento algum.
    Todos da família estavam assistindo atentamente cada movimento que ela fazia sem pronunciar nenhuma palavra. Ela ficou olhando para uma mesa que, pela distância, a sua família não conseguia saber o que tinha nela. Depois de quase um minuto em que ficou quase sem se movimentar, a não ser por uns leves movimentos de não com a cabeça, ela pegou um martelo e um prego de uns 8 centímetros, posicionou o prego no joelho do gêmeo que não parava de repetir a palavra “não”, tomou distância com a mão, disse “sim” e com apenas uma martelada enfiou o prego inteiro bem na articulação do joelho. O gêmeo deu um enorme grito de dor e recebeu um soco por causa disso. Ele chorava como um recém-nascido e, talvez por causa do barulho, ela amordaçou o gêmeo. Os seus pais começaram a implorar para que ela parasse e por isso foram amordaçados também. Os outros dois irmãos não emitiram nenhum som. Eles olhavam, mas não acreditavam. Talvez pensassem que era um pesadelo ou que tinha alguma droga alucinógena no champanhe, aquilo só não podia ser real. Mas para o gêmeo era real e ficava ainda mais a cada minuto que passava e a tortura aumentava.
    Logo quando terminou de amordaçar os pais, voltou para o gêmeo e pregou o outro joelho dele. A família tentava desviar o olhar, mas sempre um acabava vendo alguma parte da tortura. As unhas sendo arrancadas lentamente com alicate ou rapidamente com pedaços de madeira embaixo delas, os diversos cortes feitos pelo corpo, a órbita ocular sendo arrancada com uma colher, a língua sendo arrancada com uma faca quente e as articulações sendo rompidas uma a uma. Essas foram apenas algumas das que eles tiveram estômago para ver. Normalmente elas aconteciam depois de um momento de alívio quando tudo ficava em silêncio. Esse silêncio era a esperança de que o gêmeo tinha morrido e que o seu sofrimento tinha acabado. Mas em todas as vezes ele só tinha desmaiado e em todas elas o gêmeo era obrigado a acordar seja por injeções de adrenalina ou por cheirar amônia, a tortura tinha que continuar.
    Ela só acabou depois de umas duas horas quando ela encharcou o corpo do gêmeo com gasolina e ficou parada na frente de todos com o seu maldito sorriso e com lágrimas saindo dos seus olhos.
    — Todos nos comportamos muito bem e por isso vamos sobreviver. Logo tudo isso irá acabar e poderemos voltar a viver nossas vidas normalmente. — Ela acendeu o isqueiro e ficou com ele no ar de olhos fechados enquanto as lágrimas aumentavam. Depois de uns quinze segundos a sua mão ficou mole e o soltou, caindo em uma poça de gasolina no chão e iniciando um incêndio sobre o corpo do gêmeo. Todos da família assistiam sem acreditar no que os olhos viam, quietos, pasmos. Eles viram o fogo atingir primeiro as pernas do gêmeo, fazendo com que os músculos da panturrilha se contraíssem em meio aos gritos de dor. Quando o fogo atingiu a barriga e o peito, os punhos já estavam fechados, mas os músculos da nuca se enrijeceram forçando o pescoço a virar a cabeça para o alto como se os seus gritos praguejassem contra um deus cruel. Até que um silêncio quase total atingiu a cobertura, a não ser pelos choros e pelo baixo estalar do fogo. O gêmeo agora parecia uma estátua de pedra completamente cinza e sem vida, mas que ainda transmitia a dor e o sofrimento que a artista queria provocar.
    Logo depois que os gritos acabaram, o resto da família foi dopada novamente e posta para dormir. Eles só acordaram quando a polícia chegou e todos esperavam que os policiais dissessem que tinha sido só um pesadelo. Quando era confirmada a realidade, o choro intenso voltava a acontecer. A gêmea também foi encontrada desacordada e quando voltou a consciência não parava de repetir que foi forçada a fazer tudo. Durante os depoimentos da família à polícia, tudo a apontava como culpada, mas ela insistia em sua inocência. Segundo sua versão, ela também foi dopada e acordou um pouco antes de todos. O seu irmão gêmeo já estava amarrado e, por mais que tentasse, não conseguia tirar o sorriso do rosto que parecia pregado na face. Foi aí que começou a ouvir uma voz em seu ouvido direito como se tivesse outra pessoa falando em um ponto nele. Era essa voz que estava ordenando cada ação que ela fazia e, se sequer hesitasse em obedecer, a voz dizia que toda a sua família iria sofrer e morrer por culpa dela. Então ela teve que decidir quantos iriam morrer e ela optou pela opção que tinha menos vítimas.
    Apesar de uma extensa investigação, nenhuma prova que sustentasse a versão dela foi encontrada. Não havia sinal de toxinas em seu organismo que pudessem ter causado o sorriso e nem algum vestígio de qualquer equipamento eletrônico que pudesse justificar as vozes em seu ouvido. Quase toda a sua família acreditava que ela era um monstro, com exceção do seu irmão que se apegava ao terror que viu nos olhos dela no dia do ano novo. Mesmo com o apoio dele, ela foi condenada a quase cem anos de prisão em um hospital psiquiátrico. Será nele onde passará o resto de sua vida como uma vilã sádica para alguns e, para outros, como uma heroína que se sacrificou para que sua família pudesse sobreviver.
  • Bem seja a vossa morte!

    Breves relatos sobre as histórias do leão Nero o palhaço Puppy e a octogenária Catarina.
    Cecília (2003-2018)
               Cecília levantou-se mais cedo naquela manhã domingo. Havia esquecido o cordão de ouro na casa de Maria Júlia e precisava buscá-lo antes que a mãe desse falta da valiosa jóia. O colar foi presente de aniversário da falecida avó Adélia quando Cecília completara quinze anos e trazia  aquela velha história de tradição familiar. “Fora da sua bisavó depois passara a sua avó e que agora passava para neta”. Coisa de uma geração de apegados a bens materiais, pois o colar era de ouro legítimo e valia uma boa nota. O resto era conversa fiada porque aquela baboseira de valor sentimental realmente não procedia.
              Cecília pegou a bicicleta do irmão Miguel por volta das seis e vinte da manhã. Aquele foi o último ano em que o horário de verão fora obrigatório e quando a adolescente saiu de casa o dia ainda não havia amanhecido e a escuridão tomava conta da paisagem. Cecília pedalava rapidamente, assim chegaria mais rápido à casa de Maria Júlia e a mãe nem ficaria sabendo da saída da filha.
              Cecília jamais chegou à casa de Maria Júlia.
                                                                            
    Mariana (2005-2018)
              A celebração da missa era um laivo de pureza naquele mundo lascivo e desregrado. Mas para a adolescente Mariana era entediante.  A menina ainda não trazia dentro de si os vícios de uma mulher adulta. Era pura e virgem e não enxergava qualquer beleza no grisalho e viril padre Julian, com quem a mãe tanto sonhava. Para a menina, o padre era somente um homem simpático e com uma linda voz. Nunca suspirara pela voz rouca do religioso e nunca se deitara sonhando com o padre.
             Mas ela só tinha treze anos.
              Assim que terminou a missa, Mariana logo quis ir embora para assistir Stranger Things, uma série da Netflix que fazia o maior sucesso entre as adolescentes no ano de 2018. A série estava em sua primeira temporada e a menina não perdia um único capítulo e só tivera que parar naquele dia porque a mãe a intimara a comparecer à missa, caso contrário, ela ficaria sem internet durante todo o mês. Depois das ameaças, o jeito foi se enfiar em uma velha calça jeans e partir resignada ao lado da mãe. Rezando para aquele suplício terminar logo e ela possa voltar para se divertir com Mike e seus amigos.
              Na porta da igreja a mãe pegara-se de conversas com o padre Julian e um idoso ajudante de missas, conhecido como Marcelinho sacristão. Mariana pediu autorização à mãe para que ela fosse à frente. A mãe permitiu, não sem antes adverti-la a olhar para todos os lados. Mariana foi embora e o padre Julian pediu licença para se juntar a outro grupo de fofoqueiras que o requisitava há horas.
              Já no sossego de seu quarto, Mariana escutou a gata Serafina arranhando a porta querendo entrar em casa. A menina se levantou para buscar sua companheira de quarto. Aproveitaria também para escovar os dentes, pois trazia na boca, o gosto do vinho artesanal, produzido pela casa paroquial. A bebida tinha gosto de sangue e sentia o estômago embrulhado. Ela bebera do vinho diretamente do cálice de padre Julian, assim que recebera a hóstia das mãos de Marcelinho durante a comunhão. Foi quando uma mão forte na escuridão da sala a agarrou com força a impedindo de chegar até a porta.
               Mariana nunca mais assistiria a nenhum capítulo de Stranger Things. Sob os lençóis da Tinker Bell o notebook ficaria pausado para sempre. Assim como a garota havia deixado.
             Do lado de fora da casa, Serafina jazia decapitada.
                                    
                                             
    Angústia e Desespero
              A notícia do desaparecimento das jovens tomou grande repercussão nacional. O assunto foi amplamente divulgado nas mídias sociais. Jornais sensacionalistas com seus repórteres sedentos de sangue esmiuçaram sem cessar sobre o sumiço das adolescentes. A princípio pensou se tratar de uma peraltice das garotas, mas com o passar dos dias elas não retornaram e nem fizeram nenhum contato. A polícia, com o auxílio de cães farejadores, vasculhou os arredores de toda a cidade. Mas nunca houve uma pista concreta que os levasse até as meninas. Nenhum corpo atirado numa vala foi encontrado. Nenhuma gota de sangue no trajeto percorrido pelas adolescentes foi deixada para trás. Não havia nada, uma pista sequer.  Um mistério que nem Sherlock Homes poderia desvendar.
             O caso permaneceria incógnito por um ano. 

    O aprendiz de assassino
    (1960-1971)
            Ainda moleque,  Luiz Marcel cismara de fugir com o circo dos irmãos Freitas. Era deslumbrado com a balbúrdia que reinava naquele alegre e festivo ambiente. Tinha boa vontade em ajudar e por isso foi bem recebido por todos. A princípio ficara responsável pela montagem do circo. Capinava, roçava o que preciso for para que o circo tomasse forma e despertasse imponente nas pequenas cidades por onde passava. Com o passar do tempo aprendeu malabarismos com Genaro, que além de exímio trapezista, um ótimo malabarista. Sem citar que Genaro enlouquecia as mulheres em um justo macacão branco que usava em suas apresentações. A veste deixava parcialmente a mostra o desenho perfeito de seu corpo moreno.
             O moleque Luiz Marcel era de grande valia para o circo. Malabarista engraçado, trapezista desengonçado, ajudante de palhaço e servia de ponte para as repetidas piadas do astro maior do circo, o palhaço Puppy.  Foi durante as apresentações com o palhaço que Luiz Marcel tomou-se de grande admiração por Adalberto de Freitas, o artista que interpretava o divertido Puppy.
              Adalberto de Freitas era um artista muito experiente e desempenhava com perfeição o palhaço Puppy.  Era o mais velho dos irmãos Freitas e também um dos proprietários do circo. A responsabilidade desde a tenra idade não deixara Adalberto menos alegre e brincalhão. Bem diferente da maquiagem sisuda e assustadora de palhaço que ele trazia estampada no rosto. As crianças tinham um verdadeiro pavor do palhaço Puppy, que se divertia com o medo delas.
              Luiz Marcel tornou se fiel companheiro do palhaço. E foi Adalberto quem ensinou a Marcel, a arte da hipnose, que era o uso do poder da voz para encantar. O moleque aprendiz passou a seguir Adalberto como um cachorro vira-lata, vindo a descobrir mais tarde que o palhaço Puppy nas altas madrugadas saía na escuridão da noite para desempenhar o papel de que mais gostava. A arte de matar.
    As preferidas de Puppy (1938/1971)
    _Sejam bem vindas senhoras
    Vovô, vovó, e o neném!
    Sejam bem vindos compadres!
    A moça bonita e a feia também.
    _Seja bem vindo doutor!
    Comadre Candoca,
    E compadre Nereu!
    O véio cuida das véia
    E das novas quem cuida sou eu!

             Palhaços galhofeiros divertiam o público. Gracejando com o povo que se amontoava em filas para garantir o ingresso para a entrada do espetáculo.   Eles davam piruetas e recitavam trovas divertidas. Encantando a todos e levando alegria ao povo simples do interior.
             Crianças driblavam os vigias, tentando com sucesso, pular a grade que separava o circo do povo e correndo em direção à lona colorida. Que mal pregada no chão era facilmente rompida pelos moleques que acabavam assistindo ao espetáculo de graça.
               O circo era um grande evento naquela época. Não havia televisão e atrações como essas eram novidades e traziam vida e movimento para as pequenas cidades.
             A cada apresentação, deleite e delírio. Ingênuas mocinhas sonhavam em serem trapezistas, imaginando-se vestidas em collants cintilantes que brilhavam mais que as estrelas.  Muitas se apaixonavam pelos artistas e não eram poucas as que acabavam fugindo e se integrando à trupe para viverem àquela vida nômade de circo.
             Puppy surgia no picadeiro trazendo uma pesada maleta de caixeiro viajante. De dentro dela surgiam cuecas de bolinhas, meias furadas e sombrinhas coloridas. Era ali também que ele guardava o mapa da morte. O público aplaudia.
             O palhaço assassino fazia mesuras seduzindo donzelas. E diante delas ele escolhia a sua vítima. O esquema sinistro era tramado naquele instante e sob o olhar de fascínio da platéia.
             Uma garotinha ruiva sorria. Seus seios haviam acabado de desabrochar. Eram tão pequeninos e delicados feitos botões em flor.
             Depois de meia hora fazendo as habituais palhaçadas, Puppy se despedia da multidão. Sua voz grave entrava no ouvido das mocinhas que ficavam a imaginar como seria o rosto do palhaço debaixo da pesada maquiagem. Sua face era feia, assim como sua alma.
             Antes de deixar o picadeiro ele se virava para a plateia e olhava fixamente nos olhos de sua vítima. Parecia dizer com aquele olhar frio: _Chegou a sua vez!
             A garotinha ruiva com um pacote de pipoca nas mãos acenou sorrindo.
             Só mais um pouco.  
             Ao fim de sua apresentação o palhaço assassino tirava a maquiagem e trocava de roupa, esperando pacientemente o espetáculo terminar. Quando, em seu camarim, ele escutava seu irmão caçula Emílio Freitas se despedir do público, ele sabia que havia chegado o momento. Então se espreitava para fora do circo para fazer o reconhecimento do terreno. Naquela época as ruas eram mal iluminadas e tornava-se fácil cometer um assassinato. A certa distância, Puppy observava onde era a morada da jovem que seria assassinada aquela noite. Afinal o leão Nero tinha fome, estava há dias sem comer. E Catarina, cada vez mais branca, ansiava urgentemente por um copo de sangue jovem.
             Ele a viu entrar em casa. Seus cabelos ruivos iluminaram a noite.
             Quando o relógio soava meia noite, ele pegava a maleta e saía em direção à vítima. A machadinha afiada, o acompanhava silenciosa.
             Ah como era gostoso matar! Só de imaginar as suas mãos frias quebrando pescoços jovens e brancos, ficava excitado. Meu deus era tudo tão fácil! Ele, tal qual um anjo da morte espreitava a casa simples, trancada por insignificante tramela. Adentrava silenciosamente no quarto escuro a procura de sua escolhida.
             A lamparina no canto da sala morrera, sorvendo a última gota de querosene. A fumaça preta que se esvaía do pavio queimado reverenciava a morte. E a morte chegava.
             A vítima não tinha tempo de gritar. Uma mão assustadoramente grande já enlaçava o pescoço num só bote, feito uma jibóia, ansiosa em destilar seu veneno.
             O anjo da morte saía levando a jovem vítima desacordada. Numa clareira qualquer, ele depositava seu corpo seminu, mal coberto por mimosa camisola de algodão. A machadinha afiada reluzia o olhar apavorado da donzela.
             E o espetáculo só estava começando.
               Primeiro ele tinha de deflorá-la. O grito de dor na primeira estocada. Muitas perdiam sua virgindade na hora da morte. Como era prazeroso ver o sangue da membrana rompida manchar a camisola. Segundos depois já satisfeito, era hora do rotineiro ritual.
             A machadinha reluzente de lâmina afiada, mal tocava a pele do pescoço e o sangue já começava a brotar na pele alva. Era só um pequenino talho para que ele pudesse colher o sangue que seria tomado por Catarina. A donzela ainda vivia. Ela tinha de estar viva. Deleitava-se em ver o terror em seus olhos.
             Depois de guardar o frasco de sangue na maleta, finalmente era chegado o momento da degola e do desmembramento. Mas antes, ele tinha de sentir o gosto doce do sangue. E enquanto a vítima agonizava, ele lambia com sua língua viperina, o sangue vermelho que escorria do pequeno talho aberto na garganta. Tinha gosto de morte. E ele gozava.
             Fim do primeiro ato. Agora era dar cabo no corpo.
             A cabeça já pendente caía de lado com a primeira machadada. Ali mesmo seria enterrada. Ele gostava de marcar o lugar onde aconteciam os assassinatos e caso houvesse um retorno do circo à cidade, ele saudosamente visitava o local. Isso lhe dava certa sensação de poder. Somente ele sabia onde se escondia a franzina boneca ruiva.
             Ao terminar a degola e já de posse da cabeça, ele, com a precisão e rapidez de um açougueiro, cortava em miúdos seu corpo pequeno. Finda a fúnebre tarefa, amontoava os pedaços e os envolvia em asquerosa lona. Seria poucos dias de comida para o leão Nero. A menina era deveras pequena. A cabeça da vítima com seus olhos esbugalhados assistia ao massacre impiedoso de seu corpo. Agora era só enterrar a cabeça e anotar no mapa a localização do bizarro tesouro. O dia já começava a clarear.

       Enlace infernal (1933)
              Ao completar dezessete anos Adalberto de Freitas engravidara a cartomante Ágata, uma integrante do circo de apenas quinze anos.  Temendo reprimendas do pai da garota, o atirador de facas Damião Rocha, eles se casaram dois meses após a descoberta da gravidez da jovem.
             Quando Catarina nasceu descobriu-se que a menina tinha uma grave doença e que devido à brancura de sua pele jamais poderia se expor à luz do sol por mais de quinze minutos. O curandeiro argentino Tito Salles, diagnosticara que a menina tinha vampirismo e que não sobreviveria por muito tempo contanto que tomasse todo mês um copo de sangue animal, assim como faziam os vampiros.
             Catarina viveu reclusa e sempre protegida pelo pai. A mãe havia desaparecido quando Catarina estava com cinco anos. Na época imaginou-se que Ágata havia fugido com Gegê, um charmoso palhaço peruano, que havia se apresentado por alguns meses no circo Freitas. Gegê foi embora na mesma época do desaparecimento de Ágata, e por isso presumira-se que os dois artistas fossem amantes e que haviam abandonado o circo durante a madrugada. Mas o que jamais souberam era que o simpático Gegê e a cartomante Ágata foram às primeiras vítimas de Adalberto. Sendo enterrados em profunda cova, numa espinhenta mata na região de Curvelo. Onde aconteceram as primeiras mortes. Gegê e Ágata só não foram atirados ao leão Nero porque Adalberto não podia levantar suspeitas, chamando a atenção para a sua pessoa.
             Em ensebado mapa, escondido no fundo falso da maleta, ele marcava com uma pequena cruz, os locais onde ele havia enterrado a cabeça das vítimas. Estranhamente, o desenho maldito dera forma a uma sinistra cruz. Apelidada por ele de Cruzília da morte. Uma cruz formada por crânios enterrados no solo de Minas Gerais.
    Catarina
             Catarina aos trinta e três anos sobrevivera tomando o sangue que se esvaía da cabeça dos cadáveres. A pele continuava sempre alva, mas apesar da saúde frágil o pai a encarregou da alimentação do faminto leão Nero. Nero saboreava cada pedacinho de seu delicioso cadáver a passarinho. Quando indagado pela posse de tão fresca carne, o sinistro palhaço gabava-se de suas habilidades como caçador.
    Laços interrompidos
              A amizade entre puppy e Luiz Marcel ultrapassara a barreira dos anos e por mais de uma década, o aprendiz foi um silencioso expectador da fúria incontida do palhaço.  Até que em uma silenciosa noite de dezembro, enquanto Puppy saía para caçar, Luiz Marcel sozinho com seus pensamentos sentiu-se excitado e como de costume foi à procura do palhaço para convidá-lo a ir à busca de sexo com prostitutas.
              O aprendiz bebeu um generoso trago de cachaça e com a garrafa na mão foi à tenda do palhaço. Ao afastar a cortina rubra, pode apreciar parte da bunda alva de Catarina atiçando ainda mais o seu desejo.
              Sem demora ele pulou como um lobo em cima da mulher, babando em seu pescoço e separando-lhe as pernas com suas mãos ásperas. Catarina acordou assustada com o homem em cima dela.
             Luiz Marcel já lhe rasgava a camisola para consumar o estupro quando o palhaço Puppy surgiu e num salto pulou em cima do aprendiz com seu ódio mortal. Prestes a ser assassinado, Luiz Marcel pegou a garrafa de bebida que trazia, e com toda força que conseguiu encontrar, quebrou-a na cabeça de Catarina que caiu desfalecida. Um afiado caco de vidro reluziu na mão do aprendiz, que com certeira precisão a enfiou fortemente no peito do palhaço, que ferido, caiu morto ao lado da filha, com um punhal de vidro cravado profundamente em seu peito, atingindo-lhe o coração.
              Era o fim de uma era mortal que durante anos levou o terror aos quatro cantos de Minas Gerais. A Cruzília da morte quebrara-se naquela cidade.
              Mas ainda faltava um elo!

      Encontro fatal

    Dezembro/2018
             Foi na missa do dia vinte e quatro de dezembro que ela o viu. Fazia anos que não ia à igreja. Devido a um problema circulatório nas pernas deixara de andar e agora só podia se locomover com a ajuda de uma cadeira de rodas. Como gostava de ser independente a presença de acompanhantes deixava-a incomodada. Mas aquela missa era especial para ela, pois além de ser a missa do galo, comemorava-se também o aniversário de seu pai.
               A pele branca estava coberta por uma mantilha preta que ela jogara por cima dos cabelos brancos. E foi graças ao acessório que ele não pôde reconhecê-la. Mas Catarina, jamais se esquecera do aprendiz. O assassino de seu pai estava ali, bem diante dela. Distribuindo hóstias e sorrindo sedutoramente para as jovens beatas. Os cabelos grisalhos lhe davam um ar de santidade. Catarina relembrou o assassinato há mais de quarenta anos. Ela ainda podia sentir as mãos daquele homem lhe abrindo as pernas e o cheiro de cachaça que exalava de sua boca enquanto ele lhe beijava. Como ela ficara desprotegida sem seu pai. Catarina queria ter morrido junto com ele naquela noite.
              Mas Catarina sobrevivera! Ao ser atingida pela garrafa, ela desmaiara e graças a isso não assistira a morte violeta de seu pai, atravessado no coração por um pontiagudo caco de vidro. O aprendiz logo que se deu conta das mortes, pois achara que Catarina sendo raquítica e doente, havia sucumbido igual a seu pai assassino. Fugira do circo para sempre, levando com ele a maleta onde Puppy guardava o mapa da morte.
              Emílio e Antônio de Freitas só descobriram o cadáver do palhaço no dia seguinte e logo depois deste acontecimento decidiram vender o circo e levar uma vida mais tranquila em pequena cidade no interior paulista. Além do mais a polícia andava investigando o desaparecimento de moças e estivera no circo fazendo estranhas perguntas. As famílias das vítimas desaparecidas cismaram que suas desajuizadas filhas haviam ido embora com o circo. E queriam mais informações sobre o paradeiro de seus queridos entes fujões.
               O leão Nero foi abandonado acorrentado a um imenso pé de ipê e lá permaneceu com fome e com sede por mais de dois meses sem nenhuma alma caridosa disposta a sacrificá-lo. E lá ficou até morrer. Catarina com o dinheiro que lhe coube na herança pôde fazer um avançado tratamento em um hospital em Nova York vindo a recuperar sua saúde em pouco tempo. Nunca foi comprovado o vampirismo. Foi diagnosticado que Catarina nascera com albinismo. O sangue humano que bebera durante grande parte de sua vida só agravara ainda mais a sua doença, pois logo ao beber um copo cheio do líquido vermelho e viscoso, Catarina nauseada, vomitava todo o sangue ingerido, perdendo parte das vitaminas de que seu corpo precisava. Mas Catarina nunca contou este fato ao pai, que imaginava que o sangue de suas jovens vítimas fortaleceria a pobre doente. Durante o tempo que ficou em tratamento nos Estados Unidos, Catarina se apaixonou pelo doutor Carl Andrews, sendo correspondida pelo mesmo. Casaram-se assim que ela teve alta e moraram algum tempo nos Estados Unidos. E aos quarenta anos, ela ainda gerou os gêmeos, Melody e Carl Andrews Júnior.
             Em 2015, Catarina decidiu voltar ao Brasil. Morou três anos na capital Belo Horizonte, mas acabou fixando moradia naquela pequena cidade. Onde residia há poucos meses.
             De onde ela estava, podia enxergar através de seu escuro véu o rosto do aprendiz de assassino. E Catarina decidiu que o próximo encontro seria diferente. E saiu da igreja.  

     Fúnebre Homilia (maio/2019)
              No dia cinco de maio seria celebrada uma homilia em homenagem ao aniversário de desaparecimento das meninas, Mariana Figueiroa e Cecília Mendonça. O arcebispo da região juntamente com o padre Julian celebrariam inesquecível sentinela.
              Às sete horas do dia cinco de maio de 2019 o sino tocou bravamente anunciando o início da sentinela. Padre Julian deu início à solene homilia. Uma cadeira de rodas se movia silenciosa pela igreja. Havia chegado o aguardado momento. Após breve leitura do novo testamento, o arcebispo dom Miguel Prado tomou o centro do altar para a recitação do credo.  Foi neste momento de fé e louvor a Deus que um abafado estampido ecoou na igreja tomando a todos de susto e surpresa. Aos pés do arcebispo dom Miguel Prado, jazia morto o aprendiz Luiz Marcel, conhecido como Marcelinho sacristão. Sob as vestes imaculadas do aprendiz, brancas hóstias mancharam-se de vermelho testemunhando o assassinato que fecharia aquele ciclo mortal. O elo que prendia a Cruzília da morte se rompera para sempre.
            Bem em frente ao altar, Catarina assistia ao fim da fúnebre homilia com a pistola descansando em seu colo. Apesar da vista fraca acertara o aprendiz bem no peito, no mesmo lugar onde há quarenta anos, ele apunhalara o pai, tirando-lhe a vida. Enquanto a octogenária era detida por populares ela ainda vislumbrou no altar o fantasma do leão Nero, liberto das correntes que o aprisionavam e junto dele o palhaço Puppy, partindo juntos para o inferno. Adalberto tomava de volta a sua maleta e agora levava aprisionada dentro dela a alma do aprendiz. Adalberto acenou para a filha e desapareceu para sempre.
              Naquela mesma tarde descobriu-se enterrados sob carregadas parreiras da casa paroquial os cadáveres das adolescentes, Mariana Figueroa e Cecília Mendonça. A polícia descobriu ainda, mais dezenove corpos não identificados e caberia minucioso trabalho para a descoberta das vítimas, já que não houve queixas de desaparecimentos nestes últimos anos. O aprendiz havia aprendido com perfeição a lição que o mestre lhe ensinara. E superado há muito, em número de mortes. Além destas belas parreiras, existiam outras mais. O trabalho do mestre não podia terminar.
             Padre Julian, desnorteado, acompanhava o desfecho daquela história macabra. Jamais desconfiara de Marcelinho beato a quem recebera de coração e braços  abertos.
               E de repente ele se deu conta por que as uvas eram tão doces. Foram regadas com sangue de virgens.
                                            
                                                     Fim
    Itaguara 22 de fevereiro de 2018
    Considerações finais:
    Catarina nunca soube que seu pai, um mensageiro de alegrias, fosse o anjo da morte, que durante muito tempo aterrorizou as pequenas cidades de Minas Gerais. O segredo do palhaço morreu com o beato Marcelinho. O aprendiz que aprendeu a matar.
  • BOLSONARO MATOU

    Aonde o Diabo não chegou
    Enviou o Bolsonaro
    E o tal “mito” fracassou
    Isso já ficou bem claro

    Do estrago que causou
    É impossível haver reparo
    Ele nunca se importou
    E nós pagamos muito caro
  • Caçadora

    Já haviam se passado dois dias desde que os sequestros começaram, as delegacias da região estavam lotadas de policiais e informantes, todos desesperados por uma única pista. Nos hospitais seguranças cercavam os berçários, pais nunca deixavam um enfermeiro ficar a sós com seus filhos. Dois dias, quarenta crianças, todas tiradas dos braços das mães em sete diferentes hospitais da cidade.
    Sofia tentara rastrear os sequestradores a partir de câmeras de segurança, mas não conseguiu nada além do que a policia tinha, os bebes eram pegos por enfermeiros que trabalhavam nos hospitais, eles aparentavam estar fazendo seu trabalho de rotina, contudo, nunca chegavam ao destino, desapareciam dentro de um carro junto com a criança, tudo pego pelas câmeras.
    No primeiro dia dez roubos dentro de uma hora, dois recém-nascidos e oito que já estavam a mais de um dia no berçário, quando chamaram a policia já haviam desaparecido, essa primeira onda ocorreu somente em um hospital, os outros trintas seguiram o mesmo padrão no dia seguinte, menos de uma hora e em seis hospitais diferentes. As câmeras de trânsito não conseguiam acompanhar os criminosos, haviam poucas e cobriam somente uma parte pequena das ruas.
    A cidade inteira estava em pânico, a mídia não saia de cima da polícia, os gerentes dos hospitais estavam ocupados demais tendo que atender advogados que ameaçam processos milionários, Sofia sabia que quanto mais alvoroço acontecesse, mais as pessoas deixariam passar os detalhes, então estava na hora dela agir.
    Após assistir as câmeras diversas vezes, juntou os seguintes padrões, o comportamento dos enfermeiros até recolherem as crianças eram normais, nenhum dos quarenta apresentara qualquer sinal de nervosismo, nenhum teve qualquer contato estranho ou incomum entre eles, ou seja, sequestrador com sequestrador, assim como agiram de forma completamente confortável quando saíram do hospital e entraram no carro, o mais provável era que o quer que tenha motivado os roubos tenha acontecido entre os segundos em que as câmeras não pegavam eles, se tornava difícil notar qualquer interação com outros possíveis cumplices nesses momentos, ninguém estranho, tudo em perfeita ordem, parecia completamente inútil.
    O único detalhe que juntava todos os membros como cumplices era que em cada roubo o carro do sequestrador pertencia a outro sequestrador, todos segundo os familiares sem qualquer ligação. Os carros foram encontrados, estavam separados em diversos bairros da cidade, sem GPS, sem os donos, sem pistas.
    No primeiro dia vinte minutos após chamarem a policia as BRs que levavam para fora da cidade estavam fechadas, no segundo dia elas foram reforçadas, a guarda nacional ajudava a cercar a cidade, ninguém passava sem ser visto, pelo menos era isso que eles queriam acreditar, o mais provável era que as crianças ainda estivessem na cidade, a questão era acha-las.
    Sofia pensou em qual seria o próximo passo da polícia, estavam prontos para invadir todo e qualquer lugar que pudesse abrigar quarenta recém-nascidos, quanto tempo demorariam para conseguir a permissão? Algumas horas?! Ninguém conseguiria esconder-se por tanto tempo com esse número de reféns, os planos eram outros, talvez aquelas crianças não tivessem algumas horas.
    Eram quatro horas da manhã, Sofia decidiu que não valia a pena correr atrás de todos os quarenta suspeitos, escolheu um, Carlos Mendonça, quarenta e dois anos, residia no hospital a mais de uma década, casado e com três filhos, um homem normal, pai amoroso e ótimo jogador de cartas segunda a esposa. A casa do suspeito ficava próximo a casa de uma das vítimas, podia ser coincidência ou ele podia estar de olho na gravida a muito tempo.
    A menina esgueirou-se pelo jardim da casa, sempre de olho para que ninguém a visse, escalou até o segundo andar onde sabia por informações recolhidas de conversas com “vizinhas informantes” (fofoqueiras) que ficava o quarto do suspeito e sua esposa. A janela estava fechada, mas era de vidro e por ela podia-se ver uma mulher de idade já avançada deitada na cama em um sono profundo, um sono que conseguira a muito custo, isso era o que indicava os frascos de soníferos ao lado da cama. Outro motivo pelo qual Sofia escolhera aquela família em especial era por que fora uma das primeiras entrevistadas, metade dos familiares de suspeitos ainda estavam na delegacia e a garota preferia fazer seu trabalho longe da polícia.
    Todos na vizinhança dormiam, tão calmos e ao mesmo tempo tão desesperados, Sofia desceu para o jardim, encontrou a porta dos fundos e com um grampo abriu a fechadura como se fosse um jogo de criança.
    Andou pela casa sorrateiramente, procurou pelos filhos, mas eles não estavam, deviam ter sido mandados para os cuidados de algum parente para evitar que comtemplassem a tristeza da mãe, era uma coisa boa, não seria interrompida. Subiu as escadas, fechou as cortinas do quarto, vestiu uma mascara completamente branca que só possuía buracos para os olhos e foi em direção a cama.
    - Cristina! – sussurrou bem perto do ouvido da mulher, mas não surgiu efeito.
    - Cristina! – voltou a repetir, agora mais alto dando um empurrão na dorminhoca.
    A mulher resmungou um pouco, virou-se de frente para a menina e quando abriu os olhos, entrou em desespero, tentou gritar, mas uma mão tapava sua boca. Seu próximo instinto foi pular para fora da cama, novamente frustrada, desta vez devido a faca de caça que repousava em seu pescoço.
    - Não quero ter de usar meios violentos. – disse Sofia – mas não hesitarei um segundo se me obrigar a fazê-lo, estamos entendidos?
    A mulher com os olhos arregalados e cheios de medo acenou com a cabeça de forma afirmativa. Sofia retirou a mão que tapava a boca da vítima, mas manteve a faca,
    sentou-se na cama confortavelmente enquanto era observada pelo olhar amedrontado de Cristina.
    - É... é dinheiro? – perguntou a mulher gaguejando – Te... te... tem no... co... co... cofre, a senha é 2...2... 4...
    - Isso não é um assalto!
    A mulher permaneceu um momento em silencio, então pediu se poderia sentar, Sofia permitiu, contudo, sem remover a faca do pescoço da vítima.
    - É meu marido? – perguntou a mulher com os olhos cheios de lágrimas. – Você é uma parente?
    - Não Cristina, sou só alguém querendo fazer a coisa certa.
    - Com uma faca?
    - Com os meios que a justiça despreza, mas necessita.
    As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto da mulher. – Eu não tenho nada a ver com isso, meu marido também não, é um grande engano, ele é uma boa pessoa.
    - Ele sequestrou um bebe e desapareceu, não é a definição correta de boa pessoa.
    - Você não entende, ele não pode ter feito isso, ele é um homem carinhoso, um pai de família gentil, nunca esquece meu aniversário, continua dizendo que me ama todos os dias mesmo depois de vinte anos de casamento.
    - Parece perfeito demais não acha?!
    - Por que está aqui? Tem alguma pista dele, tem dele algo a mais que os outros? Não conheço todos os envolvidos, mas tenho certeza que assim como meu Carlinhos eles são vítimas de alguém que os manipulou.
    - Acha mesmo que ele é inocente?
    - Eu conheço meu marido!
    - Então consegue imaginar alguma oferta que o teria feito repensar seu estilo de vida? Dinheiro, algum favor especial talvez?
    - Dinheiro? Eu sei que ele é só um enfermeiro, mas dinheiro nunca foi um problema, ele herdou uma fortuna de seus pais, poderia ter pego tudo e ido embora, em vez disso dedica todo dia cada centavo dele para dar a mim e a nossos filhos a vida mais alegre que poderíamos desejar.
    - E onde está sua alegria agora?
    A mulher caiu em prantos e Sofia não demonstrou qualquer sinal de pena diante da cena, assim como sua mão não afrouxou no pescoço da refém.
    - Temos um problema aqui! – disse a menina – Tudo indica que seu marido faz parte de algum grupo de lunáticos que resolveu sequestrar quarenta crianças de uma vez só em um período de dois dias, sabe o quanto isso é insano? Não faz o menor sentido! Sabe, eu gostaria que ele não fosse culpado, acredite em mim, assim eu pouparia uma bala na hora de matar os responsáveis, o problema é que preciso de uma outra teoria que o livre dessa, você tem alguma?
    - Ah...ah... Não sei... ah... Talvez alguém parecido com ele, talvez... eu não sei... – a mulher voltou a chorar, tentou controlar quando sentiu o fio da navalha apertar mais contra seu pescoço.
    - Vamos lá Cristina, eu não tenho muito tempo.
    - EU NÃO SEI! Bolar uma teoria não deveria ser o seu trabalho?
    - Estou sem ideias, preciso de uma segunda opinião, que tipo de grupo é lunático a esse ponto?
    - Tráfico sexual, trabalho infantil, órgãos, EU NÃO SEI!
    - Sabe qual é o problema com esses grupos Cristina?
    - Eu... eu... eles... não fazem escândalo?!
    - Exatamente! Você não está se esforçando para livrar seu marido dessa Cristina.
    - ELE É INOCENTE! Porque não acredita em mim?! Eu não sei de nada, ele era um bom homem, meu deus ele até doava dinheiro para igreja todo mês.
    Sofia suspirou desapontada, retirou a faca da garganta da vitima e a guardou no sapato, as duas permaneceram em silencio por um momento, até que a menina notou algo no que havia ouvido.
    - Vocês são religiosos? – perguntou ela a mulher.
    - Não exatamente! A religião vem de família, mas as doações são nossa única ligação com esse tipo de culto atualmente e é só porque a igreja faz obras de caridade ou algo assim...
    - Está me dizendo que não sabe exatamente para que a igreja usava o dinheiro?
    - Era o... era... meu marido... que... cuidava disso... você... você acha que...
    - Um homem perfeito?! Talvez você esteja certa e não seja nada, mas só por precaução vou checar para onde o dinheiro ia, tem pelo menos o nome da igreja?
    Alguns quilômetros longe dali, dentro de uma cafeteria vinte e quatro horas, Sofia procurava em um dos computadores do estabelecimento, tentando encontrar informações sobre o Centro de fé e contemplação do senhor Jesus Cristo. Era uma comunidade bem grande, muitas propagandas sobre obras de caridade, embora as igrejas deste culto fossem templos pequenos e espalhados em vários pontos da cidade, todos os anúncios traziam consigo a imagem do patrono da religião, o padre
    Deo Missusa, latim, se fosse escrito Missus a Deo significava enviado de deus, Sofia entendia um pouco de latim e essa podia ser novamente só uma coincidência, mas aquele parecia ser um nome inventado, do tipo que artistas usam para parecerem mais chamativos.
    “O que Deus diria disso?!” pensou ela.
    Após alguns minutos de pesquisa encontrou um numero de telefone, sabia que não ajudaria muito, mas resolveu tentar um contato com o próprio “Enviado de Deus”, através da linha de ajuda a viciados. Saiu da cafeteria, encontrou um lugar sossegado e então telefonou, foi quase que imediatamente atendida por uma mulher.
    - Centro de fé e contemplação do senhor Jesus Cristo, que a benção do senhor esteja com você, com quem estou falando?
    Sofia enrugou um pouco a voz para parecer rouca – Meu... Meu nome é Karine, eu... eu preciso de ajuda... eu quero me matar.
    Houve uma comoção do outro lado da linha, outra pessoa assumiu o telefone, desta vez um homem, afinal, a linha era para viciados, não suicidadas. – Boa noite Karine, meu nome é Jeferson, estou aqui para te ajudar, preciso que continue na linha ok? O senhor nosso deus tem um proposito para você, sua vida tem um valor inestimável...
    Sofia resolveu criar um pouco mais de drama – Onde está a mulher? Eu estava falando com uma mulher? – ameaçou um choro – Porque todo mundo me passa para outra pessoa?
    - Karine, eu preciso que se acalme ok?! A irmã Maria está aqui comigo, ela não saiu, eu pedi para assumir o telefone, já lidei com isso antes querida, tem algo que deseje em seu coração?
    - Deo!
    - Como?
    - O padre Deo está ai?
    - Sinto muito querida, o padre encontrasse em seus aposentos, mas Deus fala através de todos nós, pode falar conosco e estará falando com Deus.
    - Por favor! – Sofia fingiu que estava chorando, parecia bem convincente, era uma ótima atriz – eu estava... estava vindo para cá, pronta a pular, pronta a tirar minha vida, então eu vi, eu vi um cartaz, era o padre Deo, é um sinal, meus pais sempre foram religiosos, eu nunca liguei para essas coisas, por favor, eu preciso falar com o padre, ou então não tem porque eu continuar nessa ligação.
    A resposta foi rápida – Tudo bem Karine, eu preciso que prometa continuar na linha, não faça nada precipitado, vamos tentar entrar em contato com o padre, mas enquanto isso, porque você não nos dá sua localização?! talvez o padre possa te encontrar pessoalmente.
    - NÃO! Vocês estão mentindo, vão chamar a polícia, vão me mandar de volta para aquela maldita clínica, EU QUERO FALAR COM DEO OU VOU PULAR!
    - Calma Karine, estamos ligando para o padre agora mesmo...
    A ligação se estendeu por alguns minutos com Jeferson incentivando o tempo todo para que a vitima se acalmasse e tivesse paciência, Sofia por sua vez mostrava cada vez mais sinais de impaciência para que agilizassem as coisas, por fim a ligação foi passada para o “Santo Deo”.
    - Que a benção do senhor esteja com você, o que há em seu coração querida? – perguntou o padre.
    Era hora de decidir bem o que dizer, Sofia queria saber se a igreja tinha algo a ver com os sequestros, pensou em alguns dos sequestradores. – Meu nome é Karine... meu pai era Gregório Castro...
    Sofia não disse mais nada, esperou uma reação.
    - Um dos sequestradores?! – disse o padre.
    “E o peixe morde a isca” pensou a menina, mesmo que tivesse visto todas as notícias seria difícil decorar todos os quarenta nomes, muitos dos jornais nem se deram ao trabalho de citar todos os envolvidos, de novo, poderia ser coincidência, mas a garota chegara até ali com algo extremamente banal como contribuições para caridade, não tinha porque não ir a diante.
    - Ele falava muito da igreja – Sofia continuava com a voz de choro – você o conhecia?
    - Deus conhece todos os seus servos minha querida, mas eu sou só um mortal, não tive a honra de conhece-lo, tenho certeza que era um bom homem...
    - Então porque ele...
    - O diabo as vezes tem vitórias que não conseguimos entender, mas Deus sabe a hora de agir, se seu pai era um bom servo, tenho certeza que Deus perdoara seus pecados.
    - E os seus, padre?
    - Meus?!... meus pecados? Somos todos iguais aos olhos de Deus.
    - Ele sempre doava dinheiro para igreja! – disse Sofia atirando no escuro.
    - Ele era um doador fiel da caridade sim, e Deus ajuda quem ajuda os desfavorecidos.
    Uma ligação, havia uma ligação entre dois suspeitos, ambos doavam para igreja, como sempre sem provas, mas as coincidências continuavam a aparecer.
    - O que está pensando em fazer querida? – continuou a falar o padre – É por isso que está pensando em cometer o pecado do suicídio, por causa dos pecados de seu pai?
    - Como posso viver com isso padre? Minha amiga pensa do mesmo jeito, a mãe dela também fez isso, era uma boa mulher – mais uma tentativa, Sofia pensou em outro
    nome entre os sequestradores - Julia Tália Santos, sempre doava para sua caridade – esperava outra mordida, mas as coisas mudaram a partir daí.
    - Quem é você? – perguntou o padre de forma fria.
    Nesse instante Sofia entendeu que fora descoberta, estava ligando pontos demais, pedindo informações demais, e o líder de um culto só podia ser burro até determinado ponto ou não seria o líder.
    - Onde estão eles? – perguntou a menina.
    - Os sequestradores? Porque eu deveria saber disso?
    - Porque eles trabalham para você, porque sua maldita igreja sequestrou quarenta crianças e posso apostar que não faz parte de um programa de caridade.
    - Dominus tem um grande plano para elas, você é uma criatura sem fé, não entenderia.
    - A policia está ouvindo essa conversa!
    - Não está não! – disse o padre com confiança – essa é uma linha privada, já tenho sua localização e alguém de olho em você, é só uma adolescente metendo o nariz onde não é chamada...
    Sofia desligou o telefone e olhou em volta tentando encontrar os olhos do padre em algum lugar, não havia ninguém, estava sozinha, a rua era silenciosa e ao longe os primeiros raios de sol nasciam, ela suspirou aliviada e ao mesmo tempo sentindo o coração pular para fora do peito.
    Agora que já sabia que a igreja realmente tinha algo a ver com isso ela tinha que encontrar um modo de chegar até eles, estariam em um grande culto ou algo assim, devia haver muita gente envolvida, não que fossem fazer isso em um lugar público, mas devia ter um jeito de chegar a eles.
    Sofia entrou novamente na cafeteria, era a única cliente ali, pensou em pedir algo, passara muito tempo sem comer nada, foi até o balcão e enquanto avaliava as opções notou vários cartões de visita, taxis, livrarias, grupos de ajuda, e lá estava ele, a imagem de Deo “Faça parte da nossa comunidade!” dizia o cartão.
    - Vai pedir? – disse o garoto atrás do balcão assustando Sofia que estava focada nos cartões.
    - Não! – respondeu ela rápido – desculpa, quero dizer, estou escolhendo ainda.
    O garoto sorriu e de forma graciosa fez uma reverencia, Sofia riu e voltou os olhos para o cardápio. Ao fundo ouviu o telefone tocar, o garoto atendeu imediatamente, deixando a menina sozinha com as opções.
    Seria um dia puxado, ela precisava de energia, começara a pensar que se metera com algo muito grande, afinal, estava sozinha, passou os olhos pelo hambúrguer e pela
    torrada, pensou em pedir talvez um pastel, estranhamente estava com vontade de comer pastel.
    - Karine? – perguntou o atendente.
    Sofia ergueu os olhos a tempo de ver um teaser ser disparado contra seu peito, ela tombou no chão com 50 mil volts passando pelo seu corpo, tremia freneticamente, já tinha feito treinamento com armas de choque, não era algo fácil de suportar, conseguiu com muita força arrancar os ganchos que lhe transmitiam a corrente, mas ficou no chão convulsionando. O menino ficou lá, com um olhar catatônico, observando sua presa, após alguns segundos pegou a faca que era usada para cortar os bolos e deu a volta no balcão indo em direção a sua vítima.
    Sofia ainda tremia, mas levar tantos choques nos treinamentos devia valer alguma coisa, pois ela conseguiu se levantar, cambaleou para longe do atacante, mal conseguia se manter de pé, sua única opção era tentar aguentar até que seu corpo tivesse condições de lutar.
    O menino se aproximou rapidamente enfiando a faca no braço de Sofia, ela gritou de dor e voltou a tombar ao chão, desta vez levando uma serie de mesas e cadeiras junto, a faca não entrara muito fundo, acabou caindo durante a confusão. O atendente pulou em cima da pobre garota desferindo diversos socos em um ritmo frenético, a cada golpe a consciência de Sofia ia esvaziando, “como pudera ser tão descuidada?” pensou ela “Não notara um agressor tão próximo, tanto treino, tanto esforço para acabar assim?! Não! ainda não estava acabado”.
    Um movimento rápido entre um dos socos, uma cabeçada, as cabeças se chocaram forte o suficiente para empurrar o garoto para trás. Sofia encontrava-se exausta, afastara o inimigo, mas por quanto tempo? Não tinha mais forças para lutar, para sua surpresa, não precisaria mais lutar.
    O garoto começara a resmungar de dor, perguntando o que diabos tinha acontecido, ficaram ali por alguns minutos, os dois, Sofia em um estado bem pior que o garoto, até que o seu ex-inimigo veio ao seu socorro, ajudou a levanta-la, correu pegar o kit de primeiros socorros quando viu o estado do corte em seu braço e enquanto limpava o ferimento a garota aproveitou para perguntar algo que já imaginava.
    - Você tem alguma ligação com Deo?
    - O cara da igreja? Não!
    - Como conhece a igreja? – perguntou apontando para os cartões de visita.
    - Fiz uma doação! Para um programa de viciados e... a mais ou menos um mês atrás me convidaram para uma comemoração para doadores, era um tipo de palestra, dormi a sessão inteira, me deram os cartões na saída.
    - Soldados russos! – disse Sofia, agora entendia o que havia acontecido, como todas aquelas pessoas tinha sido convencidas a fazer o que fizeram.
    O garoto olhou em volta, somente agora parou para tentar entender o que havia acontecido, o teaser para ladrões estava em cima do balcão, acabara de ser usado, uma faca ensanguentada estava caída no chão, sentiu-se horrorizado, havia feito aquilo com a menina.
    - Não se preocupe, não vou contar para ninguém – disse Sofia – desde que não conte que estive aqui.
    O garoto tinha muitas perguntas, mas foi convencido a deixar que a garota fosse embora sem responder nada, e com o aviso para que não atendesse o telefone.
    Soldados russos, fora isso que aconteceu, os doadores que compareceram a reunião de comemoração foram hipnotizados para serem como soldados russos, ativados com algum sinal, prontos para executar qualquer ordem que lhes fossem dada, seriam necessários apenas alguns segundos para ativar as marionetes durante os sequestros, poderia ser qualquer um a fazê-lo, bastava algum sinal pré-programado. A reunião havia acontecido segundo o garoto no subsolo da decima terceira cede da igreja, todos dormiram na reunião, motivo pelo qual não falavam dela por ai, talvez estivesse erada, mas tinha a impressão que seria lá que o quer que estivesse acontecendo seria realizado.
    Oito horas da manhã Sofia já se encontrava livre de quase todas as dores, sangramento estancado, ferida limpa, estava na hora da caçada. A garota finalmente se vestia para um combate, botas de couro, uma malha que absorvia impactos, duas facas na cintura, duas facas nas botas, cobrira tudo com um sobretudo preto, e a ultima peça era um rife de caça com dardos tranquilizantes que guardou dentro de um case de violão junto com sua máscara, na rua pareceria uma menina comum, quem a via mal sabia que estava indo em direção a uma guerra.
    Passou algumas vezes por frente de televisões que anunciavam a invasão da polícia em vários pontos da cidade, a guarda nacional estava ajudando, vários vídeos eram gravados a partir de câmeras de celular, o perímetro das invasões era sempre evacuado, podiam estar lidando com terroristas, não encontrariam nada e demorariam muito tempo para fazer isso.
    Demorou uns quarenta minutos até chegar a igreja, não havia ninguém ali, não na parte de cima pelo menos, Sofia levou um tempo para achar a entrada do subsolo, lá em baixo parou na escada, ficou abaixada observando a sala, era um lugar imenso, bem maior que o andar anterior, a porta lacrava a sala e impedia que qualquer som saísse de lá.
    Os fieis podiam ainda não estar ali, mas os sequestradores estavam, todos desacordados amarados em cadeiras, vendados e amordaçados. Sofia não conseguia ver os recém-nascidos, mas agora tinha certeza que aquele era o lugar certo. Em um canto do salão arrumando o que parecia ser um palco estavam dois homens grandes vestidos de branco com sinais de cruzes invertidas desenhados em seus trajes, a garota não podia ser burra e enfrentar os dois em uma luta corpo a corpo, seria esperto
    guardar os dardos do rifle para quando estivesse em real perigo, por hora faria tudo com calma, para começar colocou a mascara branca, não podia ser reconhecida.
    Tentando ser a mais silenciosa possível esgueirou-se pelo canto do salão, aproveitando que os dois grandões estavam distraídos em uma discussão calorosa sobre a posição de uma das peças de madeira. Quando conseguiu alcançar o fim do salão, entrou em baixo do palco e de lá engatinhou até que estivesse ao alcance dos calcanhares dos dois, com um movimento rápido puxou as facas da cintura e cortou os tendões acima dos calcanhares, imediatamente os dois homens tombaram de bruços no chão, Sofia saiu do esconderijo e apertou a faca contra a garganta dos monstros de branco, os dois ficaram paralisados com as laminas ameaçando acabar com suas vidas.
    - Onde estão os bebês? – perguntou ela.
    O grandão do lado direito resmungou – Sua vadia, não vamos falar nada, Dominus vai cuidar de você, estará morta assim que Deo chegar.
    A lâminas foram pressionadas com mais força e uma linha de sangue escorreu pelo pescoço.
    - Estão com os fies! – disse o do lado esquerdo em desespero – a gente só banca o segurança, por favor, não me mata.
    - CALADO IDIOTA! – gritou o outro.
    Sofia retirou a faca do pescoço do da direita e com o cabo lhe deu uma coronhada que o fez perder a consciência, enfim, voltou a atenção para o da esquerda. – Continue a falar.
    - Eles separam os bebes, não dava pra manter todos em um só lugar, vai ser hoje ao meio dia, era para ser a noite, mas tiveram que adiantar, todos reunidos... são sacrifícios... para Dominus, nunca foi feito antes, é o maior ritual, eles realmente esperam invocar esse tal Deus hoje...
    - Porque não se livraram dos sequestradores ainda?
    - Eles vão assumir a culpa!
    - Fui atacada fora daqui por alguém hipnotizado, quantos mais há?
    - Não sei, não cuido disso!
    A faca foi apertada mais fundo na carne gorda do pescoço. – Eu não sei, eu juro, sei que são bastante, tem até uns policiais, todos que doaram, e as pessoas doam bastante para essa igreja.
    - Então é provável que se eu ligar para policia vão saber que estou aqui e as crianças somem?
    - Bem provável!
    Sofia fez igual a antes e apagou o grandão com uma coronhada. Amarrou os dois, amordaçou-os e empurrou para de baixo do palco, onde não seriam vistos. Suas opções eram limitadas, precisava derrubar Deo antes de chamar a polícia, procurou pelo lugar coisas que talvez pudessem ser uteis, tomou cuidado o tempo todo, mas felizmente ninguém apareceu, por fim onze horas a portaa da escada se abriram e pessoas começaram a entrar, a menina estava escondida em cima de uma das vigas de ferro do teto junto com as lâmpadas, as luzes estavam viradas para o outro lado de forma que não dava par ver que havia alguém ali, o rifle estava pronto, Deo estaria no palco e seria o primeiro a cair.
    Os minutos iam passando e cada vez mais pessoas chegavam, alguns sem nada, outras com os bebes no colo. Todas as crianças foram colocadas no centro da sala junto com os sequestradores, aparentemente ter o sangue dos recém-nascidos nas roupas dos sequestradores fazia parte do plano.
    Deo foi o último a aparecer, cumprimentava a todos como se não estivessem para sacrificar quarenta crianças em um ritual macabro e insano.
    - Louvado seja Dominus! – disse ele ao se posicionar em seu lugar no palco, todos os fies repetiram em coro, devia ter umas setenta pessoas ali.
    Sofia pegou o celular, pronta a mandar sua localização para a polícia, assim que começasse a atirar ninguém mais poderia impedi-la, bastava um click e a ajuda estaria a caminho, infelizmente um estrondo forte assustou a todos e tomou atenção da garota. Um dos grandões que estava em baixo do palco havia acordado e se debatia feito um peixe fora da água.
    Os fieis se amonturam para tirá-los de lá enquanto outros procuravam ao redor da sala quem fora o responsável por aquilo. Deo parecia furioso, olhava para todos os lados imaginando quem ousaria se intrometer em um dia tão especial, eis que ele viu algo, viu o cano do rifle, viu a tempo de desviar do primeiro disparo, um alvoroço se estabeleceu, todos procuraram um lugar para se esconder e os bebes começaram a chorar em um coro que poderia derrubar um gigante, a confusão só aumentou, as pessoas corriam de um lado para o outro derrubando as cadeiras com os reféns que acordavam desesperados tentando se soltar.
    Sofia apertou o botão de enviar da mensagem e começou a disparar seguidamente os dardos contra Deo que corria de proteção em proteção fugindo dos disparos.
    - ELA ESTÁ NO TETO SEUS IDIOTAS! – gritou ele para seus fiéis.
    Alguém virou um foco de luz para posição da garota, agora todos podiam vê-la, estava exposta, os fieis que já haviam se acalmado começaram a atirar nela coisas que encontravam pelo chão, para sorte da garota todos eram péssimos de mira.
    Dois dos fieis decidiram escalar as paredes para poderem alcançar a posição da atiradora, nesse momento Sofia teve que mudar o seu alvo, derrubar os dois foi fácil, o
    problema é que outros decidiram fazer o mesmo e os dardos estavam acabando, sem falar que Deo ainda estava de pé.
    No centro do salão alguns dos sequestradores soltaram-se das amarras e pareciam estar cientes de sua situação porque não esperaram nem mesmo um segundo para sair dando porrada nos verdadeiros vilões. Deo gritava frases que deveriam ativar a hipnose, mas não funcionava muito, pois assim que alguém recebia um golpe na cabeça voltava ao normal.
    A briga ficava cada vez mais intensa, os sequestradores estavam bem mais irados, contudo estavam em menor número, havia alguns que nem se quer haviam sido desamarrados ainda, sem falar que tinham que sempre levar a briga para longe de onde estavam os bebes, quase ninguém mais se lembrava da menina que começara a confusão, o que fora muita sorte, já que os dardos haviam acabado.
    Deo por sua vez ainda se lembrava daquela pequena criatura, irado com o fracasso do seu plano e notando que sua saída de emergência fora trancada, pôs-se a escalar a parede para derrubar a criança. Ele subia rápido motivado pela raiva, nem esperou estar próximo ao alvo, se atirou agarrando a perna da menina derrubando os dois de cima da viga.
    Sofia ficou pendurada pelas mãos na barra de ferro, Deo estava logo abaixo pendurado em sua perna, era um lugar alto, se caíssem poderiam quebrar muitos ossos ou até mesmo morrer. O padre era bem mais pesado do que aparentava, fazendo com que a garota tivesse que aplicar muita força para não soltas as mãos.
    - O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO PIRALHA?! – gritou o padre.
    - ACABANDO COM UM GRUPO DOENTE DE LUNÁTICOS!
    A garota tentava chutar freneticamente o peso em suas pernas, mas a coisa abaixo dela parecia fortemente motivada a manter-se presa.
    Vendo uma oportunidade única Deo sacou uma das facas que ficavam na bota da menina e cravou em sua perna extraindo um grito de dor da pobre atiradora. Deo retirou a faca e quando estava pronto para mais uma facada a garota soltou a viga, os dois despencaram, o impacto com o chão foi forte, Deo pode ouvir suas costelas quebrando na queda, seus pulmões foram perfurados, sangue jorrou de sua boca, Sofia por sua vez teve a queda amortecida pelo cadáver do padre junto da malha revestida que estava usando, uma ou duas costelas se partiram, ela estava fraca, mancando, mas conseguiu se por de pé encarrando horrorizada o pedaço de carne abaixo dela.
    Os fieis que ainda restavam se desesperaram ao ver a queda do líder, alguns foram nocauteados durante a distração, alguns tentaram correr para fora da igreja, mas os policiais já cercavam o perímetro. Os reféns finalmente controlaram a situação, as crianças continuavam a chorar e depois de tanta baderna ia ser difícil fazer eles pararem.
    Sofia sabia que não poderia estar ali quando a polícia chegasse, teria muita coisa para explicar, sem falar que acabara de provocar a morte de um homem, cambaleou para trás do palco, havia uma porta de fuga que Deo provavelmente teria usado se ela não tivesse trancado antes dele chegar. Antes de sair um dos reféns chamou sua atenção.
    - Quem é você? – perguntou ele perplexo com a salvadora mascarada.
    - Pode me chamar de caçadora! – respondeu Sofia antes de correr para fora da igreja e desaparecer.
  • CARMOND - CAPÍTULO I

    CAPÍTULO UM

    Foi em meados de junho e o inverno era um dos mais rigorosos já vividos no vilarejo, até aquele ano. Na noite em que o jovem médico chegou à pequena e distante Carmond, além do frio, caía uma chuva torrencial.
    _ Aqui é sempre tão frio assim? Ele perguntou ao simpático motorista que o havia buscado, na estranha estação ferroviária, algumas horas atrás, e agora, o ajudava a retirar suas malas do carro.
    _ Sim, e é bom ir se acostumando, doutor! Lá pro final do mês tende a ficar pior, muito pior. Às vezes chega a nevar.
    Augusto sorriu e pensou tratar-se de uma brincadeira do homem que caminhava apressadamente à sua frente em direção à porta da pensão. A única do local.
    _ Porque está sorrindo, doutor? Acha que estou de brincadeira?
    _ Então é sério? Oh meu Deus! Isso é inacreditável, lá na capital quase nunca faz frio.
    _ Nem mesmo no inverno?
    _ Muito pouco, meu amigo.
    O motorista colocou a última mala na recepção, deserta, e tocou algo parecido com um sino.
    _ Espere só mais uns dias e verás o que é frio, meu doutor. É de trincar os dentes.
    Nesse momento, os dois ouviram passos apressados no chão de madeira que vinham em direção a eles e não demorou a surgir uma senhora baixa e rechonchuda que carregava um castiçal com velas acesas. Só então, Augusto se deu conta que todo o vilarejo estava na escuridão. Estranhou, mas, imaginou que a chuva fosse a responsável pela falta de luz elétrica.
    _ Boa noite, meus senhores!
    _ Boa noite, Xica. Demoramos, mas, chegamos.
    _ Já estava mesmo preocupada, Piu. Essa chuva toda e vocês à deriva nessas estradas perigosas.
    _É, minha amiga! Realmente o trajeto não foi fácil, penso que o doutor nunca tinha enfrentado uma chuva dessas na vida. Mas, ele teve sorte em ter esse velho aqui como motorista. Além disso, ele está estranhando muito o frio aqui da região, não é mesmo, doutor?
    _ Pois não? Augusto perguntou meio perdido, pois ficara observando o casal conversando e imaginando há quanto tempo eles se conheciam. Na maioria das vezes e em lugares pequenos como Carmond, as pessoas se conhecem de uma vida toda.
    O motorista tocou em seu ombro e repetiu parte do diálogo:
    _ Estava a dizer para Xica que o senhor não está acostumado com o frio que faz por essas bandas.
    _ Ah sim! É verdade, dona...?
    _ Francisca, mas eu prefiro que me chamem de Xica.
    _ Como quiser, dona Xica! Pois então, eu realmente não estou acostumado com tanto frio. Lá na capital a temperatura está sempre muito elevada.
    Xica e Piu trocaram um sorriso cheio de cumplicidade, como quem queria dizer: “É bom se preparar” e ela que havia deixado o castiçal sobre o balcão, voltou a pegá-lo e pediu que eles a seguissem.
    _ Não posso me demorar, Xica. Agora que o doutor está entregue, sã e salvo, preciso ir pra casa descansar pro dia de amanhã.
    _ Nada disso, Piu. Você não vai embora sem antes tomar um prato daquela sopa que você adora e que está ali quentinha esperando por vocês.
    Augusto entendeu que não seria necessário a dona da pensão insistir, Piu tomou suas malas nas mãos outra vez e foi seguindo dona Xica através do imenso corredor cheio de portas, até que ela parou diante de uma delas e entregando o castiçal para Augusto, retirou do bolso uma chave.
    _ Este é o seu quarto! É tudo muito simples, mas muito bem cuidado, doutor.
    Mesmo com a pouca claridade, Augusto percebeu que o quarto, apesar de simples, era aconchegante.
    _ Tem tudo o que eu preciso aqui! E sendo assim, não poderia ser melhor, podem acreditar!
    _ Fique tranquila, Xica. O doutor aqui não é cheio de frescuragens como aquele último que esteve no vilarejo. Não é mesmo, doutor Augusto? O motorista perguntou enquanto terminava de colocar as malas alinhadamente num canto do quarto.
    _ Não se preocupem comigo, tenham a certeza que ficarei muito bem acomodado. Só preciso tomar um banho e trocar essa roupa que está um pouco úmida.
    _ Aqui nessa cômoda tem toalhas limpas e passadas, e o banheiro é logo ali no final do corredor. Vou acender algumas velas para ajudá-lo.
    _ Por falar em acender, o que houve com a luz? É por decorrência da chuva?
    _ Não, meu doutor. A chuva não tem nada haver com isso. Todas as noites, após as oito horas, a vila fica na escuridão. Com chuva ou sem chuva.
    _ Como assim? O que há com a eletricidade daqui?
    Piu se posicionou ao lado de Xica na porta do quarto e os dois trocaram um olhar de cumplicidade que deixou ainda mais claro para Augusto o quanto aquele casal se conhecia.
    _ É uma longa história, meu jovem. Por ora, tome o seu banho e venha nos fazer companhia na cozinha. Estaremos te esperando para tomar uma sopa deliciosa, modéstia à parte, eu sempre acerto na sopa. Não é mesmo, Piu?
    _ Tenha a certeza disso, doutor Augusto. Não existe sopa melhor, nem na capital, nem no mundo inteiro.
    Augusto sorriu e os dois deixaram o quarto indo em direção à cozinha. Enquanto o barulho dos passos ia se distanciando, o médico ficou a pensar na questão da luz elétrica e inevitavelmente as histórias que seus amigos haviam lhe contato sobre a vila retornaram à sua memória com força total.
    Não! Pensou ele. Todas aquelas histórias eram bobagens dos meus amigos, que não queriam que eu viesse à Carmond.
    E foi tentando afastar esses pensamentos que Augusto seguiu para o banheiro do final do corredor.
  • CARMOND - CAPÍTULO II

    O convite para ir à Carmond chegou um ano após Augusto ter retornado da Europa, onde havia se formando em medicina. E talvez tenha sido isso a causa de seus amigos colocarem tantos empecilhos na sua decisão de aceitar a proposta. Na certa, queriam aproveitar mais a convivência, uma vez que haviam passado tanto tempo distantes.
    _ Você não pode está falando sério que aceitou ir para aquele fim de mundo. Só pode ser uma brincadeira e, convenhamos, de muito mau gosto. O Silva falou enquanto eles dividiam uma cerveja num bar qualquer no centro da cidade.
    _ Porque todo esse espanto, Silva? Serão só alguns meses. É só o tempo do velho ficar bom ou...
    O Silva acabava de virar o último gole do copo e enquanto falava, voltou a enchê-lo.
    _ Você sabe muito bem da fama daquele vilarejo, Augusto. As histórias que chegam de lá são horripilantes.
    _ Como assim? Eu não sei do que está falando?
    _ Não se faça de desentendido, meu amigo. Sabes tão bem quanto eu que pouquíssimas pessoas viajam para aquele lugar e é ainda menor o número que retorna de lá.
    Nesse momento, Augusto não conseguiu conter o riso e isso pareceu deixar o Silva um pouco irritado.
    _ Vais rindo, doutor Augusto, depois não adiantará dizer que não o avisei. Como já diz o bom e velho ditado: Quem avisa amigo é.
    _ Não podemos acreditar em tudo que essa gente diz, meu amigo. Essas histórias são tão verdadeiras quanto o coelho da páscoa ou o papai Noel.
    _ Bom, eu como acredito que tudo é possível nesse mundão de meu Deus, se estivesse no seu lugar, não iria.
    No instante em que Augusto iria dar continuidade à conversa, os dois foram surpreendidos com a chegada de César e Rafael, ambos, amigos de longa data.
    _ Que maravilhosa coincidência! Veja que sortudos que somos! Quatro amigos se encontrando casualmente para tomarem cerveja e jogar conversa fora.
    O Silva, ouvindo as palavras de César, foi logo adiantando:
    _ É bom aproveitar mesmo este momento. Pode ser um dos últimos que passamos assim: os quatro juntos.
    _ Não entendi, alguém aqui irá morrer?
    _ Não leve a sério as palavras do Silva, meus caros. Ele já bebeu um pouco além da conta.
    Todos já estavam acomodados ao redor da mesa e o garçom, com uma competência invejável, servia cerveja aos recém chegados.
    _ Não estou bêbedo coisa nenhuma, rapazes. A verdade é que nosso amigo doutor acabou de fazer uma das maiores burradas da sua vida.
    _ Não seja exagerado, Silva. Desse jeito eles irão achar que eu engravidei alguma daquelas donzelas que visitam meu consultório semanalmente.
    Enquanto César e Rafael sorriam curiosos, Silva continuou com uma expressão de desaprovação e retomou a conversa:
    _ Antes fosse isso. Um filho com uma daquelas donzelas seria muito melhor que se enterrar naquele maldito vilarejo.
    A última palavra proferida por Silva ficou vagando no ar entre os quatro rapazes por um breve instante, enquanto os dois últimos a chegarem encaravam Augusto, espantados.
    _ Vilarejo? Isso quer dizer...
    Antes que completasse a pergunta, Silva adiantou-se:
    _ Isso mesmo: VI-LA-RE-JO, disse pausadamente, enfatizando cada sílaba. _ Augusto acaba de aceitar a proposta de ir para Carmond, tratar de um velho, que segundo informações, já deveria ter partido dessa pra melhor há muito tempo.
    César e Augusto, que até então estavam acreditando que tudo não passava dos dramas habituais do Silva, agora pareciam estar totalmente de acordo com ele.
    _ Sou obrigado a concordar com o Silva. Você só pode estar louco para aceitar ir para aquele lugar. Um vilarejo que fica a não sei quantos mil quilômetros, que só passa trem a cada quinze dias... Não! Você só pode estar de brincadeira.
    _ Calma, meus caros! Vocês estão fazendo confusão num mísero copo d’água, ou melhor, de cerveja. Sorriu e continuou. _ É verdade sim que eu irei até Carmond tratar da saúde de um velho que está a padecer. Ponto. É só isso. É o tempo de ir, tratar do enfermo e estarei de volta ao meu consultório, as minhas fiéis pacientes e aos meus amigos medrosos e queridos.
    Os três ainda continuaram questionando e listando o quanto ele perderia se afastando da cidade naquele momento. César apressou em dizer que ele mal havia aberto as portas do consultório que o pai, com tanto zelo, havia o dado de presente assim que Augusto retornou da Europa.
    Rafael alertou que as donzelas procurariam outros consultórios, e aí quando ele retornasse, se retornasse, não teria mais pacientes lindas e calientes implorando para serem consultadas.
    E por fim, o Silva, que já não encontrava mais argumentos, continuou insistindo na história de que o vilarejo era mal assombrado e que quem viajava até lá, dificilmente retornava.
    Porém, mesmo com todos esses argumentos, Augusto não se deixou persuadir, e dois dias após aquele encontro no bar, despedia-se dos amigos e da família, e embarcava no trem com destino à longínqua e misteriosa Carmond.
    Passadas algumas horas do embarque, uma chuva torrencial começara a cair, e quando o trem parou num lugar qualquer da estrada deixando Augusto, sozinho, esperando pelo motorista que lhe fora prometido na carta, o jovem médico começou a refletir se os amigos não estavam, de fato, com razão.
  • CARMOND - CAPÍTULO III

    CAPÍTULO TRÊS
    O ponto de parada onde fora deixado era diferente de todos os outros já conhecidos e imaginados por Augusto. Ficava num lugar qualquer da estrada e não havia nenhum sinal de vizinhos, ou ainda, nenhum bar ou qualquer outro tipo de estabelecimento como são de costumes nesses lugares.
    A chuva não dava tréguas e tudo que ele fez foi correr até uma velha tapagem, já bem deteriorada pelo tempo, e ficou lá aguardando pelo motorista, no meio da chuva e do nada. Essa espera, permeada pelas lembranças da conversa que havia tido com os amigos, durou mais de uma hora, até que, finalmente, ele viu surgir bem distante, os faróis de um carro que deslizava nas estradas enlameadas.
    Graças a Deus! Ele balbuciou e já foi tratando de ajeitar as malas nas mãos na expectativa de deixar o quanto antes aquele lugar.
    _ Por acaso o senhor é o doutor que está vindo da capital para tratar do Coronel? O motorista perguntou de dentro do carro e com o vidro do lado direito entreaberto.
    _ Sim, sou eu mesmo! Me chamo Augusto.
    _ Prazer, doutor! Sou seu motorista. Pode me chamar de Piu. Venha! Saia dessa chuva.
    Augusto realizou o embarque rapidamente e os dois tomaram o caminho de volta até Carmond, o vilarejo que tanto amedrontava seus amigos.
    _ Demoraremos muito para chegarmos?
    O homem sorriu meio desanimado.
    _ Um cadinho, doutor. Ainda mais com essas estradas ruins como estão. O senhor tem pressa?
    _ Não trata-se de pressa. Acho que é apenas curiosidade mesmo! Já passei o dia todo dentro de um trem, penso que mais algumas horinhas viajando não me farão mal.
    Piu sorriu novamente e ergueu as sobrancelhas indicando o banco traseiro.
    _ Tem uma garrafa e dois copos aí no banco de trás. Faço o favor de pegá-los e servir um chá pra gente, se não for incômodo, é claro.
    Augusto achou aquilo maravilhoso. Estava precisando mesmo tomar alguma coisa quente, depois do banho de chuva que tomara enquanto aguardava.
    _ Não é incômodo algum, ao contrário, será um prazer. O senhor parece ter lido meus pensamentos.
    _ Eu nunca saio sem a minha garrafa, principalmente em noites como esta. Um chazinho quente é sempre uma excelente companhia para quem vive tão solitário.
    Augusto encheu um dos copos e entregou para Piu que segurando-o com a mão esquerda, continuava a guiar o veículo com a direita.
    _ Posso lhe fazer uma pergunta, doutor?
    _ Depois desse chá você pode perguntar o que quiser.
    Sorriram os dois.
    _ Pois bem, o que levou o senhor a aceitar o convite para vir até o nosso vilarejo?
    Inevitavelmente Augusto lembrou-se dos amigos.
    _ Por que isso parece tão estranho? O que há de errado com o seu vilarejo, meu senhor?
    _ Carmond não é o melhor lugar do mundo para se estar, doutor. Tudo lá é muito difícil, desde o acesso, como o senhor mesmo está podendo constatar, até nas outras coisas mais simples.
    _ Por exemplo?
    _ Qualquer coisa que é normal em outro lugar, lá o senhor verá que se torna difícil.
    _ E porque isso acontece?
    _ Pelo visto o doutor não conhece nada mesmo do nosso vilarejo, né?
    Augusto balançou a cabeça negativamente e virou o último gole do chá.
    _ Não, meu senhor. Tudo que sei são as histórias, ou melhor, as lendas que as pessoas inventam e acabam chegando até a capital.
    Piu entregou o copo para ele e voltou a segurar o volante com as duas mãos. Nesse instante estavam passando sobre a velha ponte que já havia sido carregada duas vezes em enchentes que atingiram a região, e fora restaurada pelos próprios moradores.
    _ Boa parte dessas lendas são verdadeiras, meu jovem. As pessoas podem até aumentar, mas elas nunca inventam, já diz o ditado.
    _ O que há de errado em Carmond? O que acontece por lá?
    Piu reduziu a velocidade e olhou para o rapaz.
    _ Saberás logo logo, meu doutor. Afinal, o senhor foi contratado para cuidar do maior de todos os problemas desse vilarejo.
    Augusto percebeu que as últimas palavras foram pronunciadas com certo rancor e ao mesmo tempo tristeza, e isso deixou-o ainda mais curioso.
    _ Então está me dizendo que o problema todo, ou melhor, a maior parte dele provém do Coronel? Mas até onde sei esse homem está à beira da morte.
    _ Não acredito que ele vá morrer tão facilmente, seria sorte demais, e o povo de Carmond aprendeu desde cedo que a sorte parece não gostar muito daqui.
    E foi com a cabeça cheia de interrogações que Augusto seguiu o restante da viagem e nem se deu conta ao entrar no vilarejo que tudo estava escuro, a única luz acessa eram as dos faróis que cortavam a chuva e iluminava a rua diante deles.
  • Cartas de Sofia: cap.1/ A partida

    Talvez você não saiba, mas essa é uma estória verídica que ocorreu na região Oeste, no sul do Brasil. O que aconteceu no passado desse lugar mudou completamente o futuro desse homem que acabou se tornando um grande amigo meu. Quando relatei que colocaria tudo aquilo num livro, ele me pediu que não revelasse seu verdadeiro nome. Foi ele quem me deus todos os detalhes até o retorno para casa. Não se engane. Mesmo as partes mais impossíveis e inacreditáveis dessa estória, realmente aconteceram. Eu posso garantir. Muito aconteceu quando eu também estava lá.

    “O sino! Nunca deixe de tocar o sino antes de entrar”
     
    Acorda! Jônatas ouviu seu reflexo no espelho lhe dizer sem nem mesmo mexer os lábios, "Acorda!" Ele repetiu com mais ira. Claramente era isso. Essa era a única explicação para tudo o que estava acontecendo... só podia ser um grande e terrível sonho. De fato, só pareceu acordar quando as batidas sobre a porta retornaram tão opacas e distantes quando a voz que repetia a mesma pergunta incessantemente do outro lado da madeira, "Jô! Você está bem? Amor!" O corpo dele estremeceu por alguns segundos por conta da repulsa que o gosto amargo causou ao brotar de sua garganta e ser expelido com o vômito, Urgh. Sentindo sua cabeça um tanto zonza, respirou fundo buscando fôlego e o próprio reflexo no espelho embaçado pelo vapor do banho que havia recém tomado. Droga de cansaço! Assim como sua falta de apetite, estava se tornando quase uma rotina a presença daquela exaustão. Jogou contra o teto um sopro longo o suficiente para se desfazer de todo aquele ar preso dentro do seu pulmão adoentado. "Amor?" A voz persistiu lá fora.

    Os murros na porta continuaram, frequentes, preocupados. Jônatas deduziu que provavelmente foram seus rugidos alados quem dedurara sua péssima condição matinal. Formando uma concha ao juntar as mãos, jogou uma dose de água sobre rosto e para dentro da boca. Gargarejou dando uma última cuspida para se desfazer do restante de escarro. Secando o rosto, mirou pela pequena janela os raios de sol que transpassavam a neblina que se desfazia sobre o bairro, as montanhas ali perto. Fleches de luz que cruzavam entre o vão entre aberto e também chegavam exatamente ali, escaneando parte de seu semblante como se fosse um presságio angelical, avisando que tudo já estava traçado e que o mais sensato era aceita-lo como tinha de ser.  E de fato ele já aceitara. Estendeu a toalha sobre o ombro direito e abriu a porta. Imediatamente se deparou com o olhar tenso e impaciente de sua esposa.

    Estava ficando cansado daquilo. Cunhado, sogro, mãe e todos que estavam a par de seu diagnóstico pareciam a espera de uma repentina fatalidade. Ainda que não os condenasse por isso, incomodava vê-los determinados a fitá-lo abertamente com imensa piedade. Não se preocupe, querida! Vou escolher um lugar melhor para morrer. Disse dentro de si inspirando outra dose de ar. Pensando bem, sabia que essa seria uma ótima oportunidade. Passar um tempo longe desses conhecidos olhares o ajudaria a sentir-se menos vigiado.
     
    — Foi só um enjoo. — Mentiu tentando descredibilizar a situação. Cruzou por ela e
    seguiu em direção ao quarto enrolado no roupão.
    Helena o acompanhou de olhar atento antes de segui-lo de fato.
    — Jônatas. — Em poucos passos alcançara o cômodo onde ele estava. — Você sabe que eu não gosto nada dessa ideia.

    Ele, melhor do que ninguém, sabia que se existisse alguém no mundo com tamanha facilidade para ficar extremamente preocupada essa pessoa era sua esposa. Desfez-se do roupão bege-escuro e ficou nu.

    — Essa é a única ideia que temos à disposição. — Respondeu tranquilamente enquanto pendurava a vestimenta no cabide junto a imensa veneziana. Afastou os vidros da janela que mais pareciam duas portas transparentes.

    Boa parte do quarto já era tomado pela luz da manhã e se havia alguma dúvida, o vendo úmido que vinha das montanhas e planícies da serra gaúcha batendo levemente em seu corpo deixara claro que o inverno havia chegado. Estranho. Ainda que tivesse nascido naquela região, Jônatas não enxergava coisa que mais detestava. Maldita estação do ano! Ainda assim, pelo visto, faria um belo dia. Ante a janela, permitiu que o calor do sol banhasse seu corpo por alguns segundos.

    — Não é verdade. — Helena escorada ao marco da porta. — Você sempre teve tanto serviço quanto precisa aqui na cidade. — Observando seu marido ainda imóvel, de braços estendidos revelando sua intimidade ao vale que se estendia distante, reparou o quanto ele emagrecera. Os músculos que ainda se moldavam, mas não expressavam o mesmo vigor, agora, também eram cobertos por uma pele mais esbranquiçada, combinando com a leve palidez de seu rosto quadrado. Tudo ficou ainda mais evidente depois que ele resolvera manter um corte de cabelo raspado. — Não tem que fazer isso.

    Rapidamente seu queixo parou próximo ao ombro quando buscou fitá-la.

    — Não tenho? — Respondeu de uma forma que a fizesse reavaliar o que tinha dito. — Sabe que precisamos desse dinheiro. — Deixando seu breve banho de sol aproximou-se da cama. Catou a cueca junto as outras peças de roupa que sua esposa estendera sobre o colchão.
    — Posso falar com meu pai. Você sabe que ele…
    — Chega, Helena! — A interrompeu irritado. — Esse é o meu trabalho! Essa é a minha casa e é assim que mantenho a nossa vida. Não tenho que pedir nada ao seu pai! — Deu de mãos nas calças e depois de vesti-las sentou-se para calçar as botas. — Tem algum inválido nessa casa?

    Permaneceram em silêncio. Jônatas vestiu a camiseta e depois de encobri-la com uma camisa flanelada jogou por cima um colete negro de gola alta. Prendeu o velho relógio prateado em seu pulso.

    — Você ficar tão longe que me incomoda. A gente não sabe se… — Freou-se. Sabia que aquelas ideias não reverteriam a decisão que ele tomara e muito menos lhe pareceu sensato relembrá-lo da própria condição.

    Sem tirara os olhos de sua esposa Jônatas catou seu boné, mas não o colocou. Tossiu apertado. Puxou fôlego e soltou lentamente. Não era hora para um conflito. No fundo, sabia que ela tinha medo, não que ele não tivesse, mas haviam coisas mais importantes em jogo e pretendia dar cabo de suas obrigações antes que o inevitável acontecesse. Seguiu em direção a porta.

    — Esse maldito câncer não acabar comigo. — Ainda não, refletiu. Fingindo acreditar na própria mentira soltou uma risada que teve forças para ficar apenas junto aos dois. — Sabe porquê? — Colheu as mãos dela e fez com que envolvesse seu pescoço. Cobriu os lábios dela com um beijo ressecado. — Tem alguém que quero ver nascer… — tocou a barriga de sua esposa. — … crescer… ver se formar e, Deus do céu que demore ainda mais tempo, me tornar avô. É por causa de tudo isso que tenho que ir. Algumas semanas longe não é nada perto da ajuda que vamos ter com toda as nossas despesas. — Abraçou Helena. Teve certeza. Ali estava algo que jamais se cansaria de apreciar. Inspirou o perfume leve e adocicado que exalava dos cabelos loiros dela. — Nunca vou receber uma oferta como essa aqui na cidade.
    Percebendo o quanto aquilo significava para o seu marido, Helena decidiu não ser um estorvo.

    — Ainda acho que você não deve ir, mas se quer fazer dessa forma...
    — É. Quero fazer dessa forma. — Buscou os olhos verdes dela. — Vai dar tudo certo.
    — Foi exatamente o que me disse quando decidimos morar juntos. — Ela relembrou.
    — E como tenho me saído?
    — Fazendo dar certo.
    — E vai continuar sendo assim. — A libertou de seu abraço e calçou o boné. — Ainda me pergunto quando foi que me apaixone por você. — Adiantou-se e depois de atravessar o corredor a esquerda chegou à cozinha.
    — Bom… Eu sei perfeitamente quando isso me aconteceu. Foi quando conversamos pela quarta vez e percebi que era só com você que eu conseguia sorrir.
    — … Sempre me achei um cara emburrado. — Serviu-se uma dose pequena de café.
    — E você é. E até certo ponto tinha receio de você. Sempre estava nos cantos, nunca no meio como a maioria dos rapazes. — Pôs sobre a mesa um prato com sanduíche em fatias.
    — Descrição sempre foi meu ponto forte. — Abocanhou um pedaço do desjejum e desistiu do resto.
    — Responsável. — O corrigiu. — Esse é o seu ponto forte. Apesar de ser um pouco esquecido. Então, pelo amor de Deus! Vê se lembra de tomar os remédios.
    — Todos eles. — Terminando o restante do café deixou a xícara na pia. Em seguida, deu de mãos na maleta com suas ferramentas junto ao sofá.
    Helena o acompanhou até a saída.
    — Que horas você chega?
    Ele buscou as horas no pulso. Quase oito.
    — Final do dia, talvez antes. — Acomodou suas coisas na caminhonete. — Te ligo. — Recebeu um beijo de despedida antes de embarcar.
    — Descansa e se alimenta direito. — Ela ainda ordenou da porta.

    Antes de dar a partida, em resposta, Jônatas bateu continência. Engatando a marcha ré amparou sobre a manga de sua camisa uma tosse seca que arranhou sua garganta. Abanou para Helena e alcançou o asfalto ignorando as gotículas de sangue que expelira sobre a flanela. Eu vou conseguir! Eu tenho que conseguir! Seguiu em direção a saída da cidade.
  • Caso Noir

    A pálida luz do luar iluminava os sinuosos becos da cidade, as notas do sax ecoavam enquanto o piano encorpava o som boêmio, a bateria marcava o ritmo dos lascivos corações. Os bares estavam cheios dos amantes e na rua reverberava as vozes excitadas e alteradas pelo álcool. O cheiro do uísque era quase palpável naquela taciturna noite.
    Wesley se afastava da área boemia e conforme penetrava no obscuro lado da cidade os sons alegres diminuam e davam lugar a sussurros, latidos e uivos. A atmosfera ébria tornou-se carregada com os aromas de suor, lama e mijo. Por onde passou notou que alguns olhos o seguiam, e os mais ousados lançavam insultos, mas ele já aprendeu a ignorar esses tipos de julgamento e no momento tinha algo mais importante a fazer. Procurar e interrogar o suspeito do esquartejamento da rua 2.
    Há 15 dias foi encontrado o corpo de uma jovem a beira do rio que passa sob a ponte na saída da cidade. A vítima estava dentro de uma mala de viagem com os membros cortados depositados nos bolsos menores enquanto o tronco se encontrava no compartimento maior. Apesar do estado de decomposição, os legistas estimam em 15 dias, foi possível identificar a garota.
    Wesley entrou em mais um beco e finalmente se deparou com a casa de número 52. A frente tinha uma cor esverdeada pelas ervas que cresciam e dominavam quase toda parte frontal. Há pelo menos uma semana que chove, então o musgo estava molhado. Era perceptível para Wesley que a casa deveria ser usada para outros fins que não seja viver nela.
    Wesley deu três batidas na porta e depois de um longo tempo uma mulher abre somente o suficiente para colocar a cara para fora.
    — Pois não? — A mulher deve estar entre seus 35 a 40 anos, ou então não se cuida muito. Seus cabelos, cor de palha estavam desalinhados, as olheiras marcavam bem seus olhos (ela provavelmente não dormia bem há dias), seus lábios estavam ressecados e Wesley notou pequenas rachaduras neles.
    — O senhor Marvin se encontra? — ele sabia que sim, estava na cola de Marvin Reis há um tempo. A pergunta era para saber o nível de envolvimento da mulher.
    — Não mora ninguém aqui com esse nome- a voz, os dentes amarelados e o hálito dela entregavam que ela era fumante. — E o que alguém como você quer aqui na minha casa? — ela pronunciou cada palavra lentamente e colocou um peso maior no “você”.
    — Quero apenas conversar com ele- Wesley não se deixou abalar com o insulto.
    — Eu já disse que ele não está aqui, está surdo?
    — Você não acabou de dizer que não morava ninguém aqui com esse nome? E agora ele não está? — Wesley não conseguiu conter o sorriso de canto de boca.
    — Eu me confundi, só isso. Vá embora logo. Vá procurar sua gente, ou eu chamo a polícia.
    A porta se fecha com um estrondo. “Porque eles nunca colaboram?” pensou enquanto se afastava da fachada para ter uma visão geral da casa. “Agora terei que recorrer a meios não ortodoxos”.
    A estrutura era simples e de um andar, toda ela se mesclava em tons de verde e preto. Na parte de cima uma janela com um vidro quebrado e outra com as tabuas podres. Observando, ele não via como subir, não tinha uma escada e nem muro e o musgo molhado dificultaria muito escalar. E agora começava a chover de leve. Na casa ao lado tinha uma escada que ele poderia usar para pular para a casa de Marvin, era arriscado, mas não tinha outra alternativa.
    Wesley subiu com facilidade a úmida escada, tomou uma certa distância e se lançou na sacada da casa do Marvin aterrissando quase sem nenhum barulho. O chão molhado quase o derrubou, mas ele conseguiu manter o equilíbrio. Wesley se aproximou da janela com tabuas podres, encostou as costas na parede e com cuidado aguçou os ouvidos. Por um tempo só ouvia as gotas de água caindo na rua e no telhado, molhando seu casaco e seu chapéu. Após minutos no frio ele ouve “vou ao banheiro”, pela voz ele reconhece a mulher que falou mais cedo com ele.
    Cuidadosamente ele se movimenta até a janela com vidro quebrado e tenta observar no quarto, a janela tinha uma cortina para proteger a chuva de molhar o recinto, mas o vento a mexia e ele conseguiu ver. No escuro quarto somente uma vela em cima do criado mudo iluminava, na cama Marvin fumava, de costas para a janela, um cigarro e lançava para o alto fumaças em círculos irregulares. Ninguém mais no quarto. Era sua chance. Wesley pega sua pistola e de um ímpeto se joga no quarto, rápido como um gato ele já estava em cima de sua presa. Marvin nem teve oportunidade, quando deu por si, tinha um homem negro alto de cerca de 1,80 com as roupas encharcadas e com uma arma apontada na sua cara.
    Marvin tenta falar, mas uma mão calejada tapa sua boca e o pressiona contra a cama. Ele tenta se debater, mas o homem estava sobre suas pernas e ele era muito pesado. Pouco tempo depois Marvin reis estava rendido, ele não conseguiria fugir então desistiu de tentar.
    — Tenho algumas perguntas para você-Wesley percebendo a desistência do outro sai lentamente apontando a arma.
    — Que barulho foi esse? — a voz da mulher vinha abafada do banheiro.
    — N... nada não, eu só deixei cair o cinzeiro- Marvin respondeu com o frio cano em sua têmpora.
    — Pois trate de limpar, não vou dormir com o quarto fedendo a cinzas.
    — Vamos para aquela mesa, ficaremos mais confortáveis- Wesley apontou com a cabeça para uma mesa que ficava no canto.
    — Então senhor Marvin, o que estava fazendo no dia 8 de janeiro? — perguntou Wesley após sentarem a mesa.
    — Como assim? E eu lá vou saber. Primeiro, quem é você? E porque invadiu a minha casa? — A voz de Marvin era grave e entregava seus 50 anos de idade.
    — Sou eu que faço as perguntas aqui e você me responde. Mas já que isso aqui na minha mão (ele balança a arma) não é prova o suficiente disso- Wesley tira do bolso um distintivo dourado preso a uma corrente prateada, cravado nele com letras negras dizia “detetive criminal”.
    — Agora que estamos devidamente apresentados me fale. Onde estava no dia 8 de janeiro senhor Marvin?
    — Já disse que não faço ideia, não lembro o que comi ontem. Como vou lembrar disso? — O suspeito falava rápido.
    — Suponho que seja mais fácil lembrar de um assassinato do que de uma sopa de camarão acompanhada de meia porção de arroz que servem no restaurante Flor do Lar, não acha senhor Marvin? — Wesley se deleitou com o espanto do homem.
    — Com... você anda me seguindo? — os olhos dele pareciam dois ovos de tão abertos que estavam.
    — Esse não é meu trabalho, senhor Marvin? Mas já que o senhor tem a memória tão curta assim, vou refrescá-la — Wesley tira do casaco um envelope e coloca na mesa.
    No dia 8 de janeiro o senhor foi visto no bordel vermelho, testemunhas dizem que saiu de lá com uma jovem. Conhece essa pessoa da foto? — Wesley tira do envelope algumas fotos e mostra para o suspeito a de uma jovem de 20 anos, com cabelos escuros e rosto oval.
    Sem resposta. Marvin olha para a foto e depois de um longo tempo de silêncio diz:
    — Sai com essa prostituta sim, lembro agora.
    — Essa jovem não retornou para o bordel naquela noite e nem nas noites seguintes. Ela foi encontrada dentro de uma mala próxima ao rio, o que me diz sobre isso?
    — E eu lá sei. Uma meretriz pode ter mil outros clientes. Eu a deixei, depois que o programa acabou, na fonte da rua principal. Vai saber com quem ela saiu depois
    — Reconhece esse símbolo aqui? — o detetive aponta para um pentagrama talhado com uma lâmina nas costas da jovem.
    — Um pentagrama, o que deveria ser isso? — Wesley percebe uma mudança na voz e no rosto do suspeito, ele esboçou o que parecia uma expressão de contentamento.
    — O senhor poderia facilitar as coisas aqui- Wesley estava ficando impaciente.
    — Não falarei mais nada, exijo um advogado- ele falou com pompa na voz.
    — Ora, ora, e não é que um ex-vagabundo começou a entender da lei, mas receio que a situação aqui não é formal o suficiente para atendermos os parâmetros legais. Então, vamos facilitar as coisas. O senhor confessa o assassinato e eu consigo uma proteção para você na cadeia. E sim, foi o senhor que a matou. Para mim, é mais que claro.
    — EU NÃO PRECISO DE PROTEÇÃO NENHUMA.
    Quando Marvin exalta a voz a mulher que estava no banho sai com os cabelos molhados e com a toalha envolta do corpo, ela ia falar algo, mas antes de formar qualquer frase viu Wesley a mesa, e seu rosto se contorceu todo em medo. Wesley levanta e apontando a arma para Marvin tenta acalmar a mulher, ele não queria perder o controle da situação.
    — Mantenha a calma senhora, eu e meu amigo aqui estamos tendo uma conversa civilizada. Se a senhora puder nos fazer o favor de voltar ao seu banho ficaremos grato- A mulher não tirava os olhos da arma.
    — Marvin o que esse sujeitinho faz aqui? — as palavras saiam tremulas.
    — Barbara, volte para o banheiro agora. Isso não lhe interessa!
    A mulher relutando volta para o banheiro e se tranca lá. Wesley volta a atenção para o suspeito.
    — Então? Ah sim! A proteção. Marvin, Marvin. Você ascendeu ao poder muito rápido não foi? Há poucos meses era apenas um bandidinho comum, vivia do que recebia do Carlos. Lembra-se dele? O antigo chefe do tráfico dessa região, ouvi falar que ele foi traído por um homem que ele confiava, homem esse que estava começando a ficar importante. Carlos, dizem, não está nada feliz e anda reunindo os poucos que ainda estão ao seu lado. Sim, ele está na cadeia, mas infelizmente um homem do cacife do Carlos consegue se comunicar mesmo na cadeia.
    — Essas suas ameaças não são nada para mim, tenho dinheiro. Se eu for preso não vou ficar um dia lá, logo serei solto. Esse é o poder que o dinheiro tem detetive- realmente Marvin acreditava nisso.
    — Devo admitir que o senhor está certo. Não irá durar um dia lá. Deixa-me lhe contar algo. Eu tenho um amigo no departamento, Golias, ele é o responsável pelos trâmites legais e meu senhor, como ele é lento. Uma papelada simples ele demora dois dias para resolver, isso sem ninguém o atrapalhando, agora imagina um pedido de habeas corpus de um assassino, o quão demorado vai ser?
    — Eu... eu irei amanhã com o meu advogado até a delegacia- a voz do homem estava vacilando.
    — Senhor Marvin, você irá agora comigo e... — Ele não concluiu a frase porque foi atingido com um pedaço de madeira na cabeça.
    Wesley viu o mundo girando por um segundo até recobrar o equilíbrio, mas o tempo foi o suficiente para Marvin se lançar sobre ele na tentativa de pagar a arma. Eles estavam em uma luta de cobras, rolando no chão um por cima do outro. Wesley leva uma joelhada no abdômen e fica sem ar, mas retribui com um soco na boca de Marvin, o suspeito estava quase tomando sua arma quando ele recebe outro golpe do pedaço de madeira e só não perdeu a consciência por sorte, a mulher não tinha tanta força assim. Ele finalmente empurra o homem para longe, mas no processo a arma cai no chão e Marvin vê a oportunidade, corre para a janela e se defenestra.
    — NÃO SE MEXA, NEM MAIS UM PASSO! — Wesley ofegante aponta a arma recém-recobrada para a mulher que já estava pronta para outro golpe. Ela abaixa o que parecia ser o pé de algum móvel e recua até o canto.
    O detetive corre rápido para a janela e, na escuridão, avista Marvin mancando tentando fugir. Wesley respira fundo e pula, mas com experiência e treinamento ele consegue aterrissar quase ileso, só mais tarde quando estiver em casa ele vai perceber a dor no joelho. Agora a adrenalina movia seu corpo. Ele corre em direção ao assassino e quando o mesmo estava próximo à esquina Wesley lhe passa uma rasteira e com a arma em mãos pega o homem.
    — Quietinho aí senhor Marvin, o senhor está preso- E com a arma ele golpeia Marvin e o algema.
    ***
    Ele acordou com uma dor de cabeça enorme e os remédios tomados horas atrás não fizeram efeito. Sentia dores por todo o corpo e ao se levantar seu joelho deu uma fisgada forte. “Porque eu ainda faço isso?” ele sempre se pergunta isso, e até hoje não encontrou uma resposta, mas também não consegue ficar parado. Ele ia voltar a dormir quando o telefone tocou. Do outro lado o chefe da polícia solicitava sua presença com urgência na delegacia.
    Depois de um banho rápido ele chega à delegacia, o horário era cedo então poucos policiais estavam lá, somente os mais disciplinados deles, e isso era difícil hoje em dia. “Por mim também não estaria aqui essa hora”.
    Entrou na sala do delegado e o velho estava na sua habitual cadeira, na mesa papeis e mais papeis. A sala era simples, somente a mesa e um armário a decorava.
    — Marvin confessou, mas ainda estamos com problemas legais, aparentemente ele chegou aqui machucado- o delegado tinha lá seus 70 anos e mantinha os cabelos brancos como um troféu da profissão, poucos policiais envelhecem tanto assim.
    — Realmente a cidade está perigosa, nem um assassino está livre da violência urbana.
    — Sem gracinhas. Seu trabalho era trazer o suspeito para interrogatório e não o fazer por conta própria, mas sua visita o amoleceu. Ele já confessou e deus os detalhes, quer saber?
    — Depois. Me chamou aqui só para me repreender? Está muito cedo e estou todo quebrado, a repreensão sempre é mais tarde.
    — Não foi só por isso. Ah! E a mulher que lhe deixou assim também está presa, mas não ficará por muito tempo. Aparentemente ela não tem vínculo com o assassinato. — O delegado mexe em uns papéis na mesa- O curioso é esse símbolo que ele desenhou nas costas da vítima, ele disse que não é nada de mais, fez por fazer.
    — Hum!
    Wesley vira-se ao ouvir uma balbúrdia vinda de fora da sala. Matheus entra na sala com pressa.
    — Senhor, encontraram o corpo de uma mulher próximo à casa de repouso, ela está dentro de uma mala...
    — Wesley vai com você investigar- O semblante do delegado estava carregado.
    ***
    Após uma hora de viagem ele chega até a cena do crime. A casa de repouso é o local onde se abriga as pessoas sem casa. Um prédio de cinco andares mais acabado que se estivesse abandonado.
    — Já sabem quem é? — Wesley pergunta para o jovem forense que chegou antes dele.
    — Jovem, provavelmente 20 a 25 anos. Morta recentemente, não deve fazer nem seis horas ainda- o jovem era promissor, tímido, mas entendia um cadáver como ninguém.
    — Senhor Wesley, o mais estranho é isso aqui- o Jovem retira o pano negro por cima do corpo e deixa a mostra a mão pálida da vítima, e nela, estava talhado o desenho de um pentagrama.
  • CASOS E DESCASOS

    CRUEL SENHORIO
    O casal dormia profundamente.
    O sol, que já ia alto, aquecia fortemente a telha de cimento amianto do teto do pequeno barraco da rua Um, número 530, na favela do Jardim DS, Zona Leste de São Paulo.
    Maria dos Santos Roberto Guedes, de 26 anos, e seu companheiro, Chico Boió, de 40 anos, pedreiro de profissão, ainda estavam entorpecidos pela cachaça barata ingerida até a madrugada e mal tiveram tempo de levantar-se, da malcheirosa cama.
    Foram surpreendidos pelo operário Donato Pereira Gomes, de 55 anos, que empunhava uma faca de 15 centímetros.
    Vários golpes, tudo muito rápido.
    A perícia técnica não precisou ainda quantos, nos dois corpos que caíram no chão de terra batida, umedecendo-a.
    A mulher recebeu mais facadas, sem piedade do criminoso.
    Donato Pereira Gomes se vingava assim, do casal que não queria desocupar seu barraco, apesar dos insistentes pedidos.
    O assassino não suportava mais as brigas dos amásios em sua casa, quando se embriagavam.
    Ele, Donato, também costumava beber com Maria e Chico Boió, nos bares da favela e no próprio barraco, quando se recolhiam para dormir, sempre acompanhados da garrafa de pinga mais ralé encontrada nas biroscas da favela do Jardim DS.
    O convívio do trio começou há mais ou menos dois meses, quando Donato conheceu o casal bebericando, num animado e barulhento forró.
    Fizeram amizade rapidamente e o pernambucano, ao saber que Maria e Boió não tinham onde dormir convidou-os para seu barraco até que arrumassem uma acomodação.
    No começo, Donato Pereira Gomes se deu bem com os novos inquilinos.
    Ele ia para o trabalho em uma fábrica de plásticos, enquanto o casal permanecia em casa, dormindo.
    À volta do operário, já no começo da noite, os três iam para os bares tomar seus aperitivos preferidos.
    Pelo menos uma garrafa da "mardita branquinha” era consumida de várias maneiras e, embriagados, se dirigiam para o barraco.
    Ali, tomavam mais aguardente barato, até que o sono  pesado chegasse.
    A bebida foi influenciando negativamente na amizade entre o casal e Donato, dia após dia.
    Eles brigavam muito e o operário perdoava muitas coisas, até que resolveu pedir que desocupassem seu barraco.
    Dos pedidos, Donato passou a exigir que Maria e Boió se mudassem com o que o casal não concordava.
    As discussões foram sucedendo-se, até que o pernambucano tomou uma decisão.
     - Não suporto mais vocês aqui! Ou mudam, ou jogo os dois na rua!
    De nada adiantou a advertência, ela entrou por suas orelhas e saiu sem nenhuma atenção, do casal.      
    Eles continuaram no barraco, não se importando com Donato, que começou a se torturar raivosamente.
    - Se eu sou o dono disto, tenho de pôr ordem na casa! Vou agir!
    Chegou a comentar, com os vizinhos.
    A favela estava em silêncio na manhã do dia 27 passado, José Bentão retornava das compras em uma venda da Vila Rica, principal bairro da região da favela do Jardim DS, quando encontrou o amigo Donato com uma mala na mão.
    - Bentão, matei aqueles dois que moravam comigo e por isso vou viajar!
    Disse o operário a Bentão, que não acreditou muito nas palavras do amigo, mas resolveu ir até o barraco.
    Ali, o quadro de terror, Maria estava com a barriga toda retalhada.
    Boió também estava repetidamente esfaqueado.
    Os dois mortos e totalmente cobertos de sangue já começando sua coagulação.  
    José Bentão saiu do barraco desesperado e saiu à procura de Donato, que já desaparecera pelas estreitas ruas da favela, encoberto pelos latidos dos cães.
     - "Não me disse para onde ia! Deve ter ido para sua terra! Era um homem bom, o Boió, um grande amigo”.
    Disse José Bentão ao escrivão interessado Peixoto, da Delegacia em Vila Rica, quando era interrogado.
    José Bentão foi quem avisou a polícia sobre o duplo assassinato e é a principal testemunha do inquérito; ainda aberto, sem solução, como milhares de outros.
     
    O CAMINHONEIRO E O TRAVESTI
    Válber da Silva Teixeira, 30 anos, caminhoneiro, tinha se instalado no bairro do Bixiga, em São Paulo, nos anos 70, passando a frequentar o bar e café Grappa de Lucio Montanari, de 28 anos, localizado no centro do bairro.
    Com a compra do local, Lucio chamou seu irmão, Pietro, de 25 anos, para que também viesse tentar a sorte em São Paulo, deixando a localidade de Casella (Gênova), onde ambos eram cozinheiros.
    Pietro dormia no bar e cuidava da casa, nos horários em que o irmão estava fora, fazendo pagamentos.
    No domingo à tarde, Lucio estava de folga e o rapaz ficou responsável pelo estabelecimento.
    Para defender-se de possíveis assaltantes, sob o balcão, guardava um revólver calibre .38, carregado.
    O bar e café, contendo um balcão, mesas com banquinhos e uma mesa de bilhar, foi comprado pelos dois irmãos há menos de dois meses.
    Nem Lucio e nem Pietro conheciam Válber, apesar do mesmo, frequentar o estabelecimento antigo, já há algum tempo.
    No entanto, desde que haviam adquirido o negócio, o caminhoneiro nunca havia ido lá.
    Dez ou doze pessoas estavam no bar e café Grappa, naquela tarde ensolarada e abafada.
    Pietro, irmão do proprietário, se encontrava atrás do balcão e alguns fregueses em torno da mesa de bilhar.
    O delegado Tanaka e o escrivão Jair, do Distrito Policial da região, só sabem o que aconteceu através de testemunhas.
    Entre elas, Pasquale de Santis, antigo morador da redondeza.
    Válber chegou por volta das 18:00hs.
    Embriagado, agressivo.  
    Pietro Montanari, embora não o conhecesse, já sabia de sua fama de desordeiro.
    Preveniu-se e deixou o revólver à mão.
    Válber, que quando ficava embriagado, se apresentava como Matilde e, nos "inferninhos" frequentados por travestis, se vestia como mulher, ruiva e sedutora, e já estava bastante alcoolizado. 
    Queria beber mais e participar do jogo de sinuca, mas, como estivesse incomodando os demais fregueses, com seus palavrões, acabou sendo advertido por Pietro e intimidado a se retirar.
    O caminhoneiro travesti não se conformou, franzindo sua feição, horrendamente.
    Forte e completamente embriagado, Válber já estava fora de si.
    Inconformado quando foi intimado a sair do Grappa, simplesmente começou a quebrar tudo.
    Primeiramente, jogou no chão copos e garrafas e, em seguida, agarrando uma das mesas com os braços fortes, avisou que iria tombá-la.
    Pietro pediu que se acalmasse.
    Válber não escutou e cumpriu a ameaça.
    Sem esforço algum, tombou a mesa e ameaçou continuar o quebra-quebra geral.
    Pietro não pretendia atirar.
    Intimidado com a fúria do desordeiro, ele primeiro dá um tiro em direção do chão, acertando a coluna que separa duas das três portas do local.
    Nem assim Válber se intimida e tenta avançar contra o comerciante, gritando, completamente alucinado.
    Sem opção, o rapaz italiano agora trêmulo, aponta o revólver para o agressor e aperta o gatilho, mais duas vezes.
    Válber esboça uma reação de surpresa, observa abismado os dois tiros em seu peito, cospe muito sangue e cambaleia, como um boneco de pano.
    Tenta desesperadamente, agarrar-se ao balcão e cai.
    Está agonizando, praticamente morto.
    Ainda vivo, é socorrido pela guarnição de radiopatrulha que foi chamada para verificar, o que havia acontecido ali, mas morre, ao chegar ao hospital.
    O inquérito segue os trâmites legais.
     
    O SACO PLÁSTICO
    O motorista do ônibus, que faz a linha Santo Amaro-Taipas (São Paulo), virou-se para a mulher idosa que acabara de descer e disse-lhe.  
    - "Minha senhora, esse saco é seu?!"
    Viviane Rocha soltou um grito e entrou desesperada, no coletivo.
    No afã de tirar o saco plástico decorado, que já estava na mão do cobrador, ela deixou o seu conteúdo cair no chão, bruscamente.
    Pedro Silveira, o motorista ficou visivelmente boquiaberto; enquanto Jacinto dos Santos, o cobrador, quase desmaiou: na frente dos dois, a seus pés, havia dois crânios humanos, e algumas peças de roupa, que haviam caído do saco, que pertencia àquela simpática velhinha.
    O condutor do veículo, então, fechou as portas do coletivo e seguiu para o Distrito Policial mais próximo, apesar dos protestos ininterruptos de Viviane, e o espanto de outros dois passageiros.
    Na delegacia, interrogada pelo delegado Tavares, a idosa passageira, deu mostras de teimosia.
    Ela garantiu que estava vindo de Andradina e se dirigia, para casa de um filho.
    Teria pernoitado de 5 para 6 de janeiro no terminal rodoviário Tietê.
    Nervosa, gesticulando muito, ela somente não sabia explicar, a origem dos crânios, que ainda possuíam um grotesco resto de cabelos grudados.
    O mais estranho, eles estavam enfeitados com penas coloridas de galinhas.
    Os peritos do Instituto de Criminalística foram prontamente chamados.
    Examinaram detalhadamente o macabro encontro, mas não conseguiram chegar a nenhuma resposta plausível.
    Somente no dia seguinte, 6 de janeiro, é que os legistas do IML chegaram a uma conclusão definitiva, eram dois crânios pertencentes a pessoas do sexo masculino.
    Dona Viviane Rocha continuou detida, por não conseguir explicar a procedência dos crânios.
    Os policiais divagaram em teorias, mas descartaram a hipótese de que os crânios fossem de vítimas de homicídios.
    Realmente nem Agatha Christie, a renomada escritora britânica, teria uma imaginação tão grande, apesar da versatilidade incrível mostradas nos seus inúmeros romances policiais.
    Matar alguém (no caso duas pessoas), esperar a decomposição e carregar seus crânios decepados por dias seguidos, até mesmo dentro do coletivo é algo imaginável até mesmo para o mais fantasioso dos mortais.
    O que acabou também descartando a possibilidade do homicídio foi o fato de que não houve, por aqueles dias, nenhum crime em que fossem encontrados cadáveres sem cabeça, não identificados, após minuciosa busca.
    Afastada a possibilidade de assassinato, restava aos investigadores checar a história bizarra da velhinha.
    Logo, descobriu-se que ela não morava em Andradina, mas sim, aqui mesmo na capital.
    Em seguida, uma informação anônima, confirmada mais tarde, falava a respeito do envolvimento daquela inocente senhora em cultos de magia negra.
    Os policiais passaram a acreditar então, que os dois crânios foram retirados de algum cemitério da cidade para servir em trabalhos de despacho.
    A certeza é praticamente consolidada, pelo fato de os dois crânios estarem adornados, com penas.
    Dona Viviane, contudo, não confirmou a versão aventada pelos policiais.
    Ela, inclusive, chegou a negar que o saco plástico fosse seu, apesar do testemunho apavorado do motorista, do cobrador e de dois passageiros traumatizados, que se encontravam dentro do coletivo.
    Quando foi "apertada" durante o interrogatório, a velhinha repentinamente ajoelhou-se e passou a rezar, gritando.
     - "Vocês querem comprometer-me! Deus é justo e vai provar que sou inocente! Isso é demais para uma mulher da minha idade! Eu não posso acreditar, ingratos, isso é pecado, sabiam?!"
    Depois dona Viviane, fingiu um suposto “desmaio”.
    Os investigadores, pacientemente, esperaram que ela "recobrasse" os tais sentidos, jamais perdidos.
    Continuaram as insistentes perguntas, mas ela também continuou insistindo em negativas.
    Finalmente, ela foi dispensada na tarde do dia 7. 
    Mas, foi indiciada e iria responder a inquérito por violação de sepultura e profanação, seguida de roubo de cadáveres e afins.
    Um caso estranho, curioso e mórbido.
    Um fato até mesmo incrível, pelo seu inusitado, dois crânios adornados, roubados de um cemitério qualquer, para serem usados em trabalho de magia negra.
    Um acontecimento até mesmo engraçado, não fosse trágico, dentro da violência da capital.
    Em tempo, a estranha e simpática "vovozinha" não conseguiu responder ao inquérito, desapareceu, uma semana após o acontecido; assim como surgira, do nada.
    Domicílio ignorado, dizem os policiais; o caso foi arquivado.
     
    A MORTE É BONITA E USA BATOM
    Aquele local do Guaraú, próximo ao Grêmio dos Reservistas do Forte Itaipu, em Peruíbe, litoral sul de São Paulo, convenhamos, é bastante deserto.
    A rua Sete é apenas uma pequena cicatriz rasgada no ventre da mata virgem.
    Pouquíssimas casas por perto.
    Por isso, quase ninguém viu quando o táxi Lada vermelho placa ZZ-1530 estacionou ali, naquela noite de sexta-feira, 13 de agosto.
    Quase ninguém viu, também, uma pequena fogueira que insistia em arder durante muito tempo.
    Uma fogueira macabra, que as árvores e arbustos em volta mal disfarçariam se houvesse espectadores.
    No dia 17 de agosto, um domingo, os poucos moradores da localidade, descobriram o que alimentava as chamas, dessa fogueira.
    Era o cadáver carbonizado de um homem jovem.
    Pouco restara daquele corpo, além de um pequeno tufo de cabelos, parte do rosto e tórax, dos braços e das pernas.
    O trágico encontro abalou os humildes moradores, caminho obrigatório a quem se dirige à Barra do Una.
    O corpo (mais ossos torrados, do que carne) estava semienterrado à margem da rua.
    Sobre ele, alguns galhos queimados.
    Nas proximidades, as sobras de um saco plástico contendo as roupas e documentos do infeliz.
    Ao ser avisada do achado, a polícia da região viu-se de mãos amarradas.
    Não sabia quem era e praticamente, não tinha meios para identificar a vítima.
    O chefe dos investigadores, Clodoaldo Leite Pereira, passou dias percorrendo as redondezas onde foi encontrado o corpo.
    Até que obteve a primeira pista concreta: às 19h30 daquela sexta-feira; um táxi Lada cinza havia sido visto nas imediações do Grêmio dos Reservistas.
    Dentro dele, nada mais, nada menos do que integrantes da turma do Fiapo, um dos mais conhecidos grileiros de terra de Peruíbe, envolvido em homicídios e chefe de uma quadrilha, cuja extensão de atividades, nem a polícia local conhecem.
    Dessa informação, à detenção dos cinco ocupantes do taxi e daí à elucidação do crime, foram passos curtos.
    O cadáver quase que totalmente carbonizado, era o de Francisco Coelho Filho, 20 anos.
    Ele havia sido assassinado, com dois tiros na cabeça, por sua amante, Paula Pontes Silva, 34 anos, loura oxigenada e muito bela, anos atrás, proprietária de uma barraca de bebidas e petiscos na praia de Peruíbe, a famosa "PPP".
    Francisco teria sido morto por vingança; Paula não suportava mais as agressões e ameaças, que o amante fazia a ela e ao seu filho menor.  
    Os cinco membros da turma do Fiapo (incluindo o próprio), entraram na história, apenas para desovar e dar sumiço ao corpo.
    - "Eu conhecia a Paula há dez anos. Nós éramos muito apegados. Quando ela me pediu para desaparecer com o corpo, eu não pude recusar. Se fizemos coisa errada, está feito".
    Disse Porfírio Costa Machado, 30 anos, o Fiapo.
    Dono de um ferro velho por lá, Fiapo é mais conhecido na região e fora dela, do que a desvalorizada nota de R$1,00 real.
    E temido também.
    Já foi processado por homicídios, lesões corporais e furto de energia elétrica, inclusive sua fiação.
    Mas anda calmamente pela cidade, bebendo de graça onde quer e sempre cercado de muita gente estranha.
    Uma espécie de "Don Corleone brazuca", se isso possa existir realmente, claro.
    De uma de suas últimas aventuras, Fiapo ostenta no alto da testa a cicatriz chamativa de bala.
    Foi num tiroteio travado com agentes da Polícia Federal.
    Simplesmente porque ele estava grilando a área de terra, onde deverá ser construída a futura usina nuclear de Peruíbe.
    Fiapo não é flor que se cheire não, comenta-se na cidade.
    Nem a própria Paula pode confiar nele.
     - "Ela disse que assumiria toda a responsabilidade pelo que aconteceu. Se não assumir, vai ser a próxima da lista. Sabe como é eu também tenho as minhas fontes, dotô", ameaça.
    Paula conheceu o Francisco no Carnaval deste ano, quando ele foi trabalhar para ela na barraca de bebidas.
    Passado o Carnaval, ambos começaram a viver juntos.
    Mas era uma convivência bastante difícil, eles desentendiam-se bastante.
    Qualquer coisinha, ele quebrava-lhe a cara, dava-lhe surras homéricas.
    Teve um dia aqui na minha frente, ele ameaçou matar ela e o menino, explicou o delegado.
    Fui obrigado a atuar-lhe em flagrante, por ameaça.
    Ele passou dez dias preso, mas quando saiu os dois voltaram a viver juntos.
    Acho que ela fez isso por desespero, raciocina o delegado Waldomiro Passos, titular do DP.
    No dia 6 de agosto, Paula procurou o Fiapo, contou-lhe que iria matar o amante, por não suportar mais, e pediu-lhe uma arma.
    Fiapo recusou-se.
    Não se sabe onde, depois, ela conseguiu uma pistola automática calibre 7.65.
    Na noite de 10 de agosto, ela matou Francisco, filho de um comerciante, Dario Coelho.
    Não tendo como desfazer-se do corpo, colocou-o dentro de um saco plástico e enrolou o volume, num cobertor.
    Tirou o colchão da cama de casal e colocou o cadáver, sobre o estrado.
    Dois dias depois, Paula procurou o Fiapo.
    - "Fiz a história. Matei o cara".
    Disse muito calma.
    Prometeu R$1.500,00 reais para que ele desse um fim ao corpo.
    Fiapo não pensou duas vezes.
    Chamou seu empregado BGHI, 14 anos, o Filé, e Jacinto Gomes, 35 anos, o Xuxão.
    Chamou também o amigo Pedro Silva dos Anjos, 30 anos, o Pato.
    Às 18h de um dia chuvoso, os quatro chegavam a uma padaria (A Mirante das Praias), nas proximidades da estação da FEPASA de Peruíbe, para um lanche regado obviamente a cerveja, muita cerveja gelada.
    Só então Fiapo explicou a eles o trabalho que seria feito.
    Fiapo ainda procurou por ali uma perua Kombi para transportar o cadáver.
    Sem êxito.
    A única solução foi valer-se do táxi de Gilberto de Souza, 24 anos, o "GS", espécie de motorista particular de Fiapo.
    Às 19h, o quinteto chegava à casa de Paula, na rua Senador Domingues, 37, centro.
    Enquanto Gilberto manobrava o carro, os quatro foram ao interior da casa para retirar a "encomenda", mais um pacote com suas roupas e documentos e um galão com dez litros de gasolina.
    Como o corpo não coubesse inteiro dentro do porta-malas do veículo.
    - "Pato, muito doidão, porque tinha bebido demais", sentou-se com ele e o foi segurando.
    - "Fizemos a operação toda em cinco minutos", vangloriava-se Fiapo.
    Depois, o carro Russo rumou para o Guaraú.
    A cerca de 500 metros do Grêmio dos Reservistas do Forte Itaipu, o corpo de Francisco Coelho Filho, foi depositado à beira da rua Sete, coberto por gravetos e pelas próprias roupas.
    Filé despejou o galão de gasolina, no presunto, mas ninguém assume ter acendido o fósforo fatal.
    Durante alguns minutos, o grupo iluminado, ficou admirando a fogueira arder.
    Depois, retirou-se, com a tarefa já cumprida.
    No dia seguinte, Pato voltou ao local e, com um pedaço de madeira, fez uma cova muito rasa para ocultar o que sobrara do infeliz rapaz.
    Todos já foram detidos.
    Prestaram depoimento, no inquérito instaurado pela Delegacia local e foram postos em liberdade.
    Paula apresentou-se em seguida e negou o homicídio.
    - "Eu, não suportava mais viver com ele, mas não o matei senhor delegado. Ele é que iria suicidar-se. Quando entrei no quarto, ele estava com a arma encostada já, na orelha. Para evitar que ele se matasse, dei-lhe um tapa na mão. E o revólver, disparou então duas vezes”.
    Defende-se.  
    A já não tão bela assim, Brigitte Bardot de Peruíbe assume, porém, somente a ocultação e o pagamento a Fiapo para o desaparecimento do cadáver.  
    As investigações prosseguem, vagarosamente.
     
    O LOBISOMEM DE PARIS
    Se o inspetor Maigret pudesse sair do retiro forçado, que lhe foi imposto por seu genial criador Georges Simenon, certamente não reconheceria mais a velha Pigalle e Montmartre boêmias, que por noites a fio, palmilhou no encalço dos assassinos comuns, que infestaram Paris e seus arredores.
    As ladeiras íngremes e estreitas, calçadas com pedras irregulares, molhadas pela chuva fina, fervilhantes de gente até a madrugada, hoje estão vazias.
    Os verdadeiros cafés parisienses, as brasseries e bistrôs, onde, longe dos catálogos para turistas, se come a boa comida o bom queijo e se toma bom vinho, buscado em adegas de origem desconhecida, estão misteriosamente desertos.
    Um criminoso, como os que Maigret perseguia, está aterrorizando o bairro.
    A imprensa apelidou-o de o "Lobisomem", porque, desde que começou a agir, no começo de outubro, em cinco semanas assassinou impiedosamente, nove mulheres idosas e solitárias.
    Cinco desses nove crimes, antecedidos por sevícias e cometidos com extrema brutalidade, seguidos de pequenos roubos, aconteceram, coincidência ou não, na fase da lua cheia.
    Pigalle, onde está o Moulin Rouge, dezenas de outros cabarés famosos e outros tantos restaurantes, mais famosos ainda, fica na famosa rive gauche (margem esquerda) do rio Sena.
    Ali, incluindo também célebre Montparnasse, os velhos casarões transformados em apartamentos e suas águas-furtadas, transformadas em ateliês, desde a primeira metade do século passado, começaram a atrair os artistas inconformistas de todo o mundo.
    Ali viveram, beberam absinto, se drogaram, passaram fome, foram execrados e se tornaram gênios figuras como Baudelaire, Rimbaud, Modegliani, Toulouse-Lautrec, Picasso e tantos outros, famosos ou desconhecidos.
    Boêmios e irreverentes, seria bem natural que no labirinto de ruas estreitas, proliferassem a sua volta as adegas, com o chão coberto de serragem, cheirando a vinho novo derramado e taverneiros, sorridente, protegidos por aventais não muito limpos, do peito aos pés.
    Com os gênios, ébrios, boêmios e malditos os infortunados de toda a espécie, os marginalizados pela lei ou pela vida, fizeram fugir os derradeiros bons burgueses, fazendo também a delícia do turista embasbacado.
    Lado a lado com os artistas, obviamente os infelizes.
    Velhos solitários, cujas pensões minguadas ou a usura de filhos e netos indiferentes, só dão mesmo para pagar os cômodos e águas-furtadas, de aquecimento precário e banheiro fétido comum.
    Rodeando a todos, as floristas tristes que passam as madrugadas, de primavera ou inverno, à porta dos cabarés, tentando ganhar o café do dia seguinte, ambulantes de toda a espécie e a partir da segunda década do século, migrantes de todas as partes da Europa, América e África.
    Ali age sorrateiramente o assim chamado, Lobisomem, a besta desconhecida.
    Suas vítimas, velhas solitárias e miseráveis, surpreendidas durante a noite em seu leito, amarradas, golpeadas a facadas com selvageria e depois roubadas em alguns francos, uma ou outra joia barata de família. 
    Sem que, até agora, ninguém haja escutado um grito, um barulho fora do comum, ou um pedido de socorro, nada.
    O mistério e o terror, que extravasaram as fronteiras do bairro para tomar conta da cidade, tornaram-se objeto, de escândalo nacional e objeto de investigações também de jornalistas e curiosos fofoqueiros.
    Enquanto isso, os comissários, da Polícia Judiciária, andam às tontas e em desespero, tentando juntar as peças desse verdadeiro e enigmático, quebra cabeça.  
    A população do bairro e principalmente as mulheres idosas, tem medo de deixar seus pardieiros, mesmo para ir até a agência de Correios mais próxima, receber seus magros cheques mensais de pensionistas.
    Nas ruas, as pessoas olham-se com desconfiança e andam rapidamente e quando escurece dificilmente se encontrará uma prostituta sequer nas esquinas.
    As vítimas se sucederam em um ritmo ordenado, macabro e monótono, que nada indica haver terminado.
    No dia 5 de outubro, encontra-se o corpo de Gabrielle Foucoult.
    A ela seguem-se os cadáveres de Ilona Juneaut, Anne Pasteur, e assim sucessivamente as demais.
    Todas, entre 80 e 90 anos de idade.
    Quem iria querer fazer-lhes mal?
    O pouco dinheiro roubado justificaria a tortura a que foram submetidas?
    Os agentes acreditam que não, talvez algo de incontrolável mesmice, ordena o seu cérebro doentio.
    Se já estavam amarradas, sua morte só se justifica para um louco ou para que não reconheçam o assassino.
    A princípio a polícia pensou que fosse um dos muitos jovens viciados em heroína, que perambulam por aqueles bairros e que cometesse os crimes no desespero para conseguir dinheiro fácil e comprar o tóxico.
    No entanto, a aparente invisibilidade do assassino parece desmentir totalmente, essa fraca hipótese.
    Dificilmente, alguém tão dominado pelo entorpecente (tudo indica que seria assim, se o caso fosse esse) teria sangue frio para evitar qualquer deslize, nove vezes seguidas e tudo, num horrendo banho de sangue. 
    Outro detalhe intriga a polícia Francesa; por que o matador age apenas naquelas ruas restritas a um exíguo raio de quilômetro e meio, a partir de Montmartre?
    Isso parece dar convicção aos agentes que, em vez de vagabundo, alcoólatra ou toxicômano que vaga desesperado pelas ruas, o maníaco sangrento, mora ou tem ocupação fixa na área delimitada.
    Um ambulante, talvez.
    Mais jovem que suas vítimas, mas, certamente, tão amargo e desiludido, quanto elas.
    Um vendedor de bugigangas qualquer, que vê a vida monótona passar a sua frente, ignorando suas frustrações recalcadas.
    Quem sabe até amargando a lembrança de uma mãe indiferente, alcoólatra ou prostituta, tão idosa e solitária como suas próprias vítimas.
    A mente humana é perturbadora, altamente complexa e muito pouco estudada ainda.
    Um ambulante que, durante todo o dia, colocado à frente de sua banca ou percorrendo sempre as mesmas ruas para oferecer aos gritos, sua mercadoria barata, nem sequer é notado.
    Não o notam, mas ele pode observar calmamente tudo e todos, com seus olhos dissimulados, de predador faminto, caçando.
    Pode escolher calmamente sua próxima vítima, precisar seus horários, ter certeza de que não haverá um porteiro para reconhecê-lo, um vizinho para interromper a execução, ou uma testemunha qualquer, para identifica-lo. 
    Anônimo antes do crime transfigura-se medonhamente, apenas quando já está diante de sua vítima, para voltar ao anonimato logo que fecha a porta atrás de si e deixa sobre uma cama pobre, mais um vulto disforme e farrapos banhados em sangue e fúria.
    No dia seguinte, ele poderá estar no bistrô mais próximo, tomando uma sopa quente de legumes, para combater o frio do inverno e depois, nas calçadas sujas e apinhadas pela chusma que sai para o trabalho, talvez até sorria malignamente para outra anciã solitária que, no fundo de seu cérebro doentio, por uma razão desconhecida, já escolheu como a próxima vítima, novamente sedento, como um verdadeiro; Lobisomem.
    Nada de conclusivo, foi apurado naquela época e o caso foi esquecido.
     
    O GUERREIRO DO SOL NASCENTE
    A ira dos antigos samurais fez o velho japonês Toshiro Watanabe, de 70 anos, voltar aos seus tempos de guerreiro.
    A época em que pertencia ao Exército Imperial do Japão. Watanabe, agora, era o rapaz de vinte e poucos anos, o soldado que lutava contra os americanos na Segunda Guerra Mundial.
    Podia até sentir o cheiro da pólvora, os ouvidos zumbindo com as explosões das bombas.
    Tempo e espaço se entrelaçavam.
    - "Banzai!"
    O grito de guerra, em honra ao imperador do Japão, ecoou com ferocidade.
    Watanabe lamentava não estar armado com sua metralhadora.
    Faltavam também a "takaná" e o "tantô", respectivamente, a espada e o punhal dos guerreiros do Japão feudal.
    Tempo e espaço continuavam se misturando na mente do ex-combatente.
    O destino pôs em suas mãos, um prosaico tridente de agricultor, como a arma do seu último combate.
    E foi com a imagem de sempre, que Watanabe avançou, contra os inimigos.
    Dois contra um, uma luta desigual, logo encerrada num lance desleal.
    Watanabe não conseguiu desviar-se do botijão de gás de cozinha, arremessado à traição, e caiu golpeado na cabeça.
    Depois, o inimigo desferiu uma machadada no pescoço do ex-soldado.
    Toshiro Watanabe sobrevivera em Okinawa.
    Para morrer nas mãos de um garoto de 15 anos, num barraco miserável de Santo André, no grande ABC paulista.
    Toshiro Watanabe morava sozinho, naquela casa humilde, porém imaculadamente limpa.
    Ao lado de uma viela, entre duas ruas maiores, no Jardim Jacatuba, bairro pobre do município de Santo André.
    O local é ermo e cheio de mato.
    A família do ex-soldado, mulher e dois filhos, há muito o abandonara, mudando-se para outra cidade.
    A segunda Guerra Mundial deixara marcas terríveis em Watanabe.
    Sua mente, perturbada, tornara-se uma pessoa de comportamento estranho, aliás, como todo o sobrevivente, de qual guerra seja.
    Às vezes, passava horas e horas, olhando para o céu infinito, como se esperasse bombas despejadas.
    Watanabe tinha até razão ao se considerar cercado por inimigos.
    A viela malcheirosa e o quintal eram permanentemente ocupados por marginais de todos os tipos, que ali se escondiam, para fumar algo ilícito, ou repartir produtos de roubos.
    O velho militar, inofensivo, segundo seus vizinhos, não gostava dos intrusos.
    O cérebro do ex-soldado, transformava o matagal, numa revolta praia do Pacífico.
    Ele via os navios no horizonte.
    Os canhões disparando, bolas de fogo.
    As grandes barcaças encalhando na areia branca, desembarcando os fuzileiros.
    Não eram os Marines Americanos.
    Era apenas um menino de 15 anos, conhecido como Ratão, que mais uma vez voltava a invadir o quintal do oriental, para furtar limões.
    Watanabe já estava cansado de pedir que não fizessem mais isso.
    Então, naquela manhã de névoa, perdeu a paciência.
    Municiou uma velha espingarda com sal e acertou o ladrão.
    Disparou duas vezes. 
    Ratão correu sangrando, foi obrigado ficar acamado 10 dias, até sararem as feridas, causadas pelos disparos.
    Enquanto se recuperava, Ratão jurava.
    - "Um dia, ainda acerto aquele japa, com certeza!".
    No inverno, Ratão estava de volta às ruas.
    A ideia de como se vingaria, surgiu quando ele passou diante da casa do japonês.
    Encontrou-se com um conhecido, identificado apenas pelo apelido de Sanduba e fez uma proposta tentadora.
    - "Eu vi que ele tem botijões de gás na casa. Se você me ajudar a roubá-los, eu lhe dou um".
    Os dois garotos invadiram a casa, em que o Watanabe não se encontrava no local.
    Mas foram flagrados por ele, quando acabavam de empilhar roupas e outros objetos.
    O japonês partiu para cima deles empunhando seu tridente como se fosse uma antiga baioneta.
    - "Aaaahhh! Banzai! Banzai!"
     Sanduba ficou apavorado.
    Ratão mais tarde, juraria para a polícia, que aquele era o primeiro delito, do companheiro.
    Só o Ratão ficou na sala, esquivando-se, graças à sua habilidade e juventude, das estocadas de Watanabe.
    Aí pegou o botijão de gás e acertou em cheio, o guerreiro do sol nascente.
    Ratão diria também à polícia, que resolveu matar o oriental, para evitar ser preso.
    E fugiu, levando as roupas do japonês.
    Escondeu-se na casa de uma irmã.
    Mas, não resistiu ao impulso de voltar ao local do crime, no dia seguinte.
     - "O japa ainda estava lá gemendo. Não sei se me reconheceu não seu “dotô”. Tenho a impressão de que ele me pediu ajuda, mas eu não fiz nada, fui embora".
    Ratão, contudo, não esquecia a imagem do ex-soldado agonizante e voltou uma segunda vez a casa.
    - "Ele já estava morto, fedia! Estava enrolado num cobertor".
    O menor contou, então, que teve medo de que a polícia encontrasse suas digitais na casa.
    Para apagá-las, resolveu incendiar o barraco.
    Tocou fogo no colchão e num monte de espuma de borracha, que encontrou numa caixa.
    Só não destruíram os R$100,00 reais em notas, que caíram de uma das caixas.
    O incêndio, o encontro do cadáver semicarbonizado do oriental, a morte violenta dele que se transformara num ancião estranho, porém pacífico, comoveram todo o bairro.
    E a solução do crime, se tornou um ponto de honra, para a maioria das delegacias de polícia do Grande ABC.
    Mas, simplesmente, foi o remorso quem resolveu o caso.
    Ratão não conseguia mais dormir.
    Passava os dias escondido num ferro-velho, desconfiava até da própria sombra.
    Dormia no interior de uma velha enferrujada e suja Kombi branca ano 76.
    O grito de guerra do ex-soldado, não o deixava em paz, tinha constantes pesadelos.
    O garoto fez a primeira confissão para o próprio pai, Severino Soares Souza, que, incrédulo, se limitou a dizer.
    - "Se for verdade, não apareça mais em casa, seu moleque".
    Ratão também confessou o crime, para os amigos.
    Não acreditaram.  
    - "Mentiroso! Você não seria capaz disso, cara. O velho Watanabe conhecia artes marciais. Ratão, você é que estaria morto, agora, se o tivesse enfrentado, é!".
    O remorso desesperava e corroía o assassino.
    Já estava pensando em se entregar à polícia, quando foi detido por investigadores, do Distrito Policial da região.
    Os investigadores tinham ouvido um comentário sobre a fantástica história que Ratão, repetia aos amigos e resolveram checá-la.
    O menor contou tudo, com detalhes, foi colocado à disposição do juiz Corregedor de Menores.
    Ele é reincidente.
    Estivera detido na FEBEM, por porte ilegal de arma.
    Mas Ratão era um assaltante.
    Gostava de atacar, jovens de classe média.
    Tirava os sapatos e as roupas de suas vítimas e as afugentava, disparando para cima; um revólver de brinquedo, com espoleta, o assim chamado “simulacro” juntamente com seu amigo Sanduba, o qual nunca viu uma arma, em sua vida.
    Armadilhas da vida de periferia turbulenta, das grandes cidades, atualmente.
    Que o guerreiro descanse em paz, a sombra de uma cerejeira florida, velado por seus companheiros de combate. Sayonara, Toshiro!
    O inquérito foi finalmente concluído.
     
  • Clow Senderstein o palhaço de Elm Street parte 2: Senhoras e senhores

       Aós o incidente no Garden hotel, varias investigações começaram a ser feitas e vários circos foram proibidos de terem acesso a elm street.
    Pessoas ficaram desesperadas e se trancaram em suas casa. Com temor que nem a mídia poderia deixar de forma sutil, vários cidadãos se comprometeram a ter vigilância uns com os outros. Em estado de medo e alienação pura, os governadores se reuniram na câmara para  discutir sobre a situação e panico causado por Clow Senderstein. No noticiário, Senderstein aparece novamente e fala ao povo:

    - Atenção todos. Nesta noite, haverá um assassinato no apartamento 369 no edifício da rua Enter day 6766. Os próximos ataques serão realizados a prédios e hotéis de luxo. no mês que vem, em casas e condomínios. E lembrem-se do meu aviso: todos os que forem contra mim serão mortos. Assim como ocorreu com os policiais de ontem. 

     Unidades e viaturas começavam a cercar o prédio em quantidade imensa. Ninguém mais podia passar pela rua novamente. Os apartamentos estavam cheios de policiais por dentro e por fora. Helicópteros cercavam os edifícios e condomínios nesta rua. Policiais entraram no apartamento 369 e encontraram a família chacinada no chão e as crianças foram encontradas com um tiro queima-roupa no peito. Foi encontrado no chão também, um bilhete escrito:

    -SENHORAS E SENHORES, PREPAREM-SE PARA UM ESPETÁCULO.

     Quando um dos policiais leu isto em voz alta, o edifício explodiu. Senderstein apareceu no edifício ao lado e disse:

    -Ha ha ha ha ha ha ha, podem se tremer a vontade, pois outros ataques como este irão acontecer. e desapareceu na fumaça.

      Após isso, houve uma explosão de pipoca que se espalhou pelo chão da rua. Mas as pipocas eram apenas bombinhas que expeliam uma fumaça tóxica, e milhares de policiais morreram.
  • Como chegamos a esse ponto?

    Durante meu almoço fui perturbado pelo som da televisão, era o plantão da cubo, a apresentadora, que claramente queria estar almoçando com o seu chefe, anunciava o vazamento de uma doação feita pelo nosso querido presidente. Ele acabara de doar 500 milhões de dólares para a caridade e havia suspeitas de que outros políticos estivessem envolvidos.
    Como a nossa sociedade chegou a esse ponto? Ate ontem tínhamos estradas não sendo construídas, verbas sendo desviadas, viadutos caindo. Só pode ser o nosso fim. Antes que a apresentadora continuassem falando como o muro que separa o México dos EUA, uma das melhores coisas que já fizeram desde o muro de Berlim, seria quebrado saboreie a minha carne que deliciosamente me lembrava dos pacotes da minha mudança e aceitei que o mundo estava acabando.
  • Contos da urbe paulistana // Lapa - A história de Lulinha

    - Dia Das Mães Macabro
    Reza a lenda que ele teria nascido num segundo domingo do mês de maio. Portanto num dia das mães. Não se sabe se isso é verdade. Quando nasceu já tinha sido abandonado pelo pai. Na verdade quando o pai soube que a mulher estava grávida, abandonou-a alegando que o filho não era dele. A mãe não negou, disse que o filho, com efeito, não era dele e tampouco era dela também... Ninguém entendeu nada. E ficou tudo por isso mesmo.
    Durante a gestação a mulher tentou abortar várias vezes. Não conseguiu e a criança acabou nascendo e, mais tarde, recebeu o nome de Luiz Carlos Scifer.
    Conta-se, ali em Jaboatão dos Guararapes, que no dia do nascimento de Luiz Scifer, foi preciso quatro homens para segurar a mulher que tentava, de todas as formas, nega luz ao filho, mantendo as pernas cruzadas e gritando a plenos pulmões que aquela criança não podia vir ao mundo. Se não fosse pela intervenção dos quatro homens, a quem ela chamou na época de: os quatro cavaleiros do apocalipse, talvez o pequeno Luiz não houvera nascido. Quando conseguiu pular para fora da mãe, a pobre criança estava roxo. Não obstante, o pequeno Luiz gozava de plena saúde como vieram a constatar os médicos, em exames posteriores. Na verdade durante toda sua vida nunca se soube que estivera doente. Um resfriado ou uma gripe vez ou outra, mas doente, doente mesmo, nunca.
    Apesar da constante vigilância a que ficaram submetidos mãe e filho, a mãe tentou afogar o filho quinze dias após o parto, colocando a cabeça do pequenino dentro de um balde cheio de água. Surpreendida pela irmã ela largou o menino dentro do balde. A tia em desespero conseguiu salvar o menino da iminente morte.
    Quinze dias depois a mãe tentou outra vez matar o menino afogado, desta vez na pia da cozinha entre pratos e talheres sujos. Quando a irmã pegou a mãe segurando o menino pelos pés em vias de bater com a cabeça da pequena criança contra a parede do quarto, tomou-se então a decisão de afastar o menino da mãe. Não havia outra solução. A mãe desesperou-se. Chamando a irmã de prostituta do diabo, dizia que aquela criatura - a criança - não podia viver. Todos iam pagar por esse erro, dizia a mãe, na sua loucura pós-parto.
    A criança então foi mandada para São Paulo, escondido da mãe é claro, para a casa de uma meio parenta do pai do menino. Parenta essa que morava no aconchegante e funcional bairro da Lapa. O menino então foi criado como filho legítimo do casal, junto com duas meninas que o casal já tinha.
    A mãe ainda o procurou, por alguns dias, provavelmente para dar cabo da vida dele. Depois esqueceu e nunca mais falou na criança. Casou-se outra vez e teve três crianças, que apesar da preocupação de todos, criou com todo o amor, carinho e respeito que uma mãe pode dar a um filho.
    Quando Luiz completou sete anos, sua adorável mãe resolveu, para economizar tempo e dinheiro, fazer a festa de aniversario no domingo dia das mães. Assim comemorariam as duas datas juntas.
    Quando comunicou sua decisão aos outros membros da família Scifer, foi visível a decepção do pequeno Luiz.
    No domingo quando as irmãs de Luiz preparavam o café para levar para a mãe na cama, numa forma carinhosa de homenagear o dia das mães, Luiz se negou a participar.
    Quando Bianca e Beatrix entraram no quarto dos pais, dona Jana, ficou excitadíssima. Feliz, abraçou as filhas, encheu as meninas de beijos. Era a mãe mais feliz do mundo. Exceto...:
    _Que é de Lulinha? - perguntou dona Jana sorrindo.
    As filhas não responderam nada.
    _Amor, busque ele pra mim, busque! - disse a mãe para o pai.
    Quando o pai, seu Eloah, chegou na sala, o menino estava sentado vendo televisão.
    _Luiz, sua mãe chama! - disse o pai.
    O garoto não respondeu nem fez menção de levantar-se. O pai o pegou no colo.
    _Me larga! Eu não quero ir. - protestava o menino se debatendo nos braços do pai.
    _Vamos lá Lulinha, seja razoável - disse o pai 'jogando' o menino na cama.
    _Olha ele ai! - disse a mãe abraçando-o - tá com raiva da mamãe filhinho?
    Luiz olhando para o rosto magro da mãe e se afastando disse:
    _Você não é a minha mãe de verdade!
    Qualquer outra mãe tiraria aquilo de letra. Brincaria com o filho e contornaria a situação sem se abalar. Mas não dona Jana. Essa ficou extremamente abalada. Havia uma certeza nos olhos do pequeno que a deixou desconcertada.
    O pai. vendo o mal estar que aquilo causara na mulher, tomou-lhe as dores e puxou a orelha do menino levantando-o uns três metros do chão.
    _É assim que você fala com a sua mãe! - disse o pai, irritadiço.
    Todos esperavam que o menino caísse no choro, como seria natural, no entanto, para a surpresa de todos o menino sentou-se na cama próximo à mãe. Pegou um garfo da bandeja de café da manhã preparado com amor pelas meninas, então partiu um pedaço do bolo de cenoura com cobertura de pudim de chocolate que estava em um dos pratos e levou à boca da mãe com extrema delicadeza de gestos.
    _ Ta vendo como é fácil Lulinha, doeu alguma coisa ser gentil com a sua mãe? - disse o pai com satisfação. 'As vezes uns cascudos resolve', pensava ele em sua cabeça de militar.
    A mãe abriu a boca e fechou os olhos como que para sentir melhor o gosto da deliciosa iguaria. Suspirou de prazer. Quando abriu os olhos o menino enfiou-lhe o garfo pelo olho esquerdo gritando:
    _Você não é a minha mãe!
    Dona Jana soltou um grito pavoroso que fez revoar as pombas do mercado municipal. Possivelmente foi ouvido em todo o bairro da Lapa. Mas ignorado ao se misturar e se confundir com o estridente barulho dos trens de subúrbio.
    Luiz puxou o garfo com um movimento rápido trazendo junto o olho da mãe. Correu para a cozinha. La jogou o olho pela janela. Beros o cão da família que não tomara café ainda, não teve demora, sem cerimônia nenhuma engoliu o olho de dona Jana. Sem se dar ao trabalho de mastigar.
    O sargento Eloah não sabia se corria atrás do menino, se acalmava as filhas que gritavam e choravam ao mesmo tempo, ou se socorria a mulher que gemia sobre a cama. Por fim resolveu socorrer a mulher. Meteu a mulher no carro, de roupa de dormir e tudo, e tocou para o H C Sorocabana.
    Dona Jana passou quatro dias hospitalizada. Voltou para casa com um grande curativo onde costumava ficar o olho esquerdo. Todos esperavam para ver a reação de Luiz... Esse limitou-se apenas a ficar no seu quarto.
    Depois de um tempo a mãe resolveu ir até o quarto do filho. Chorando abraçou a pequena criança.
    _Desculpa! desculpa meu filho! - dizia a mãe entre lagrimas e soluços.
    Luiz ficou quieto, não disse nada, não chorou. Nem mesmo retribuiu o abraço da mãe.
    Quando a mãe, ainda chorando, saia do quarto o filho a chamou. A criança foi até a mãe com um embrulho nas mãos e o ofereceu a dona Jana. Dona Jana pegou o presente beijou novamente o filho. Quando ia se retirar ouviu o menino dizer:
    _Você não vai abrir?
    Luiz olhava fixo para o único olho de dona Jana. Atitude que deixou a magra senhora desconfortável. Desembrulhou o presente sob o olhar atento de Luiz. Era um pequeno livro.
    Dona Jana leu o título do livro com a voz embargada:
    _A caolha de Júlia Lopes de Almeida. Tu...! como tu...! Quem comprou esse livro p'ra você? - queria saber a mãe.
    O menino sorriu para a mãe e disse num tom de voz que quase fez parar o coração da pobre dona Jana:
    _Você não é minha mãe. Eu vou fazer com que você confesse isso!
    ***
  • CORRELAÇÃO DO INDEFERIMENTO DA PRODUÇÃO DE PROVA TESTEMUNHAL E A SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA NO PROCESSO CIVIL

    Notemos que via de regra o Juiz é o responsável por delimitar a produção de prova e da mesma forma a parte possui o direito de empregar todos os meios legais e moralmente legítimos, mesmo que não especificados em lei para comprovar seu direito.
    Outrossim, não é incomum na prática jurídica nos depararmos com o indeferimento da produção de provas necessárias ao deslinde efetivo do feito.
    Ao contrário do Direito do trabalho, no processo civil não existe a busca pela verdade real, mas sim a primazia da verdade processual. Quem nunca ouviu a famosa frase: “se não está nos autos não existe no mundo”.
    Neste vezo, se sabe que o simples fato de a parte entender ser a prova imprescindível não à torna, sob pena de realização de atos processuais inúteis, que causam morosidade e elevam os custos finais do processo, principalmente em tempos onde a Justiça Gratuita ainda reina. Mas até qual ponto o magistrado pode limitar a produção de uma prova?
    Impera no atual momento o cão completo no poder judiciário. Secretarias com poucos profissionais, elevada quantidade de processos, poucos magistrados e poucos recursos sendo investidos em mudar isso.
    Atualmente, temos a pretória ideia de que o Juiz é o destinatário da prova, mas não é bem assim. Por esta ideia, pode o juiz decidir ao relento sobre quais provas pretende produzir.
    Por outro lado, mesmo em se tratando da “prostituta das provas”, em alguns casos a prova testemunhal se mostra imprescindível a comprovação do acontecimento de alguns fatos e que geram a comprovação de existência de direitos.
    Não são poucas as vezes que nos deparamos com o indeferimento da produção de prova testemunhal e mais, após isso, no final da lide, a sentença nega ou acolhe o pedido por ausência de provas.
    Neste caso, a produção de prova testemunhal, seria a única forma que a parte possuía para comprovar seu direito, motivo pelo qual o seu indeferimento necessariamente implica em claro cerceamento do direito de produção de provas.
    Ora, se a parte tem o direito de empregar todos os meios legais de produção de provas seu indeferimento necessariamente implica em grave violação, não somente a este direito, mas ao devido processo legal, foge por completo do conceito de ser justo e de se buscar a justiça, além de ser incentivador de más condutas.
    Outrossim, o simples ato de haver indeferido pleito que a parte julga necessário, pode denotar eventual preguiça do poder jurisdicional em trabalhar, ensejando desconfianças – não só das partes – com relação a lisura do processo.
    Indo além, acarretam também uma maior interposição de recursos gerando maior carga processual nos tribunais superiores, gerando elevação da morosidade também nestes.
    Em termos práticos, os magistrados de piso, com o indeferimento desmotivado da produção de prova com o fito de redução de atos a serem praticados, acaba gerando efeito contrário.
    O próprio STJ no AREsp 1527879 decidiu que o indeferimento de prova somente configura cerceamento quando não houver demonstrado no feito o objeto de indeferimento da prova.
    AgInt no AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL Nº 1527879 - SP (2019/0178837-7) RELATOR : MINISTRO ANTONIO CARLOS FERREIRA AGRAVANTE : ROSILENE PAULA DA SILVA SANTOS ADVOGADO : SAULO BONAT DE MELLO - SP391816 AGRAVADO : LOCALFRIO S.A. ARMAZENS GERAIS FRIGORIFICOS ADVOGADOS : ALINE BAYER DA SILVA - SP330606 THIAGO TESTINI DE MELLO MILLER - SP154860 } EMENTA PROCESSUAL CIVIL. CIVIL. AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AÇÃO INDENIZATÓRIA. CERCEAMENTO DE DEFESA. JULGAMENTO ANTECIPADO DA LIDE. UTILIZAÇÃO DA FÓRMULA 'E SEGUINTES'. SÚMULA 284/STF. FALTA DE PREQUESTIONAMENTO. SÚMULAS N. 211 DO STJ E 282 DO STF. REEXAME DO CONJUNTO FÁTICO-PROBATÓRIO DOS AUTOS. INADMISSIBILIDADE. INCIDÊNCIA DA SÚMULA N. 7/STJ. DANOS MORAIS. FALTA DE COMPROVAÇÃO. REVISÃO DE MATÉRIA FÁTICA. SÚMULA 7/STJ. DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL NÃO DEMONSTRADA. DECISÃO MANTIDA. (...) 3. "Os princípios da livre admissibilidade da prova e da persuasão racional autorizam o julgador a determinar as provas que repute necessárias ao deslinde da controvérsia, e a indeferir aquelas consideradas prescindíveis ou meramente protelatórias. Não configura cerceamento de defesa o julgamento da causa sem a produção da prova solicitada pela parte, quando devidamente demonstrada a instrução do feito e a presença de dados suficientes à formação do convencimento" (AgInt no AREsp n. 1.457.765/SP, Relator Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, TERCEIRA TURMA, julgado em 19/8/2019, DJe 22/8/2019).
    Ainda assim, existem casos em que a prova testemunhal pode ser utilizada com vistas a desconstituir a prova documental. É o entendimento reverberado nos Recursos Especiais de n°1.493.745/SC e 979.129/RJ dentre outros mais. Virou até Informativo do Respectivo Tribunal, vejamos:
    OITIVA. TESTEMUNHAS. INDEFERIMENTO. CERCEAMENTO. DEFESA. Trata-se de REsp em que se pretende a anulação de processo cuja sentença, confirmada pelo acórdão, foi desfavorável aos autores, ora recorrentes, ao argumento de ocorrência de cerceamento de defesa pelo fato de o magistrado sentenciante ter indeferido produção de prova testemunhal, a qual seria imprescindível ao desate da controvérsia. Sustenta-se que os documentos colacionados aos autos pela empresa ré, ora recorrida, consistentes em fotografias do local do atropelamento não refletem a verdade dos fatos à época do acidente. Nesse contexto, a Turma deu provimento ao recurso, reiterando o entendimento de que, em casos de atropelamento por composições férreas, a aferição quanto ao cenário do local do acidente é ponto nodal para determinar a quem deve ser imputada a culpa, porquanto cabe à empresa prestadora do serviço impedir que pedestres invadam a área destinada ao trânsito férreo. Isso se dá, por exemplo, com a vigilância e cercamento de áreas propícias a tais infortúnios, notadamente as de grande concentração urbana, como é o caso. Assim, torna-se relevante a argumentação dos recorrentes no sentido de que o desenho fático do local do acidente não seria exatamente o descrito nas fotografias acostadas aos autos pela recorrida. Desse modo, é de suma importância a produção da prova testemunhal requerida em tempo oportuno, com vista a desconstituir a prova documental consistente em fotografias produzidas unilateralmente pela parte adversa. Ressalte-se que houve prejuízo aos recorrentes em razão da conclusão a que chegou o juízo sentenciante, posteriormente confirmada pelo Tribunal a quo, julgando improcedente o pedido inicial ao argumento de que não teria sido demonstrada a culpa da empresa ré e, ao mesmo tempo, indeferindo prova testemunhal, a qual, em tese, poderia comprovar a culpa da concessionária, ou, ao menos, afastar a culpa exclusiva da vítima. Precedentes citados: EREsp 705.859-SP, DJ 8/3/2007, e REsp 798.079-MS, DJe 23/10/2008. REsp 979.129-RJ, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 2/4/2009.
    Assim, sendo o pedido de produção da prova realizado a tempo e modo, bem como, havendo a pertinência quanto a produção da prova, há limitação de que o Juiz indefira a produção da respectiva. Denota-se necessidade de reversão destas decisões judiciais esdrúxulas, por todos os fatores.
    E na mesma toada, já decidiu que há cerceamento do direito de produção de provas, quando o Juízo julga improcedente o pedido, por ausência de provas cuja produção foi indeferida no curso do processo. Hipótese em que a reforma pode até mesmo haver em sede de análise de recurso de apelação, ao invés do popular Agravo de Instrumento.
     
    Art. 370 - CPC - Caberá ao juiz, de ofício ou a requerimento da parte, determinar as provas necessárias ao julgamento do mérito.
    Art. 369 – CPC - As partes têm o direito de empregar todos os meios legais, bem como os moralmente legítimos, ainda que não especificados neste Código, para provar a verdade dos fatos em que se funda o pedido ou a defesa e influir eficazmente na convicção do juiz.
    Informativo do STJ 0389 - Período: 30 de março a 3 de abril de 2009.
    Recurso Especial 1.493.745/SC – Min. Paulo De Tarso Sanseverino, Terceira Turma, Julg. 17/08/2018, DJe de 10/09/2017.
  • CORRUPÇÃO BOLSONARISTA

    Sabe aquele homem honesto que iria combater a corrupção? Pois é... era mito. Se você cria cobra debaixo do seu travesseiro, saiba que um dia ela sai e te pica na cara. A familícia Bolsonaro é a quadrilha organizada mais cruel que o Brasil já teve; eles são os mais corruptos da “nova política” de extrema direita. O governo Bolsonaro está mais sujo do que poleiro de galinheiro. Um odor fétido de podridão exala por onde passam o presidente da República, seus filhos, seus funestos ministros e todos os apoiadores desta horda. Sim, temos um presidente gangster e seu bando no poder. Por enquanto.
    Em tempos de tantos preconceitos inúteis, julgamentos injustos e polarização rancorosa das ideias, está cada vez mais evidente o atraso evolutivo do ser humano. É inacreditável, mas a moda agora é ser mal. O certo é defender o que é errado. Como pode isso? Genocídio e ecocídio não incomodam os cegos e ignorantes. Mais de meio milhão de pessoas morreram pelo descaso do governo. As florestas estão sendo dizimadas pelos capatazes deste governo. O que Bolsonaro tem na cabeça é aquilo que o gato enterra; e isso é nítido. Mas ele só pensa em uma maneira de garantir sua reeleição.
    Ele não entende que menos pessoas, são menos trabalhadores, menos eleitores. Quanto menos árvores, menos chuvas, menos água, menos reserva para geração de energia elétrica. Mas não tem problema, é só cobrar mais caro do povo. Sobe o preço! Energia elétrica, gasolina, gás, alimento; indo para as alturas. Você consegue imaginar onde vamos parar? Não se faça de bobo. Não seja estúpido. Estamos todos morrendo... a saúde, a economia, a educação, a natureza, a moral, a dignidade, a cultura. Na mão deste carrasco presidente que só deseja o poder, falta pouco para dizer: aqui jaz o Brasil.
    Como diz um ditado antigo: “cada enxadada, uma minhoca”. Todos os dias os “arqueólogos” descobrem mais “ossadas” deste holocausto bolsonarista. As evidências já são óbvias, são gritantes; agora é só uma questão de tempo para organizar, documentar e apresentar as provas para o povo. O Bolsonaro é a segunda maior vergonha do Brasil... a primeira é quem defende esse corrupto. Dizem que na vida, antes das coisas melhorarem, sempre pioram muito. Sendo assim presidente... já deu! Pode ir embora; para que as coisas finalmente melhorem na República Federativa do Brasil.
  • Crime de violência psicológica contra a mulher

    O Código Penal  tipificou  o crime de violência psicológica contra a mulher, prevista agora no artigo 147-B.
              O crime foi introduzido ao Código Penal Brasileiro por força da Lei 14.188/2021, editada em julho de 2021.
                          Esta Lei Modificou:
    1) O Código Penal brasileiro ( tipificando a conduta do crime de violência contra a mulher no art.147-b , cominando pena para esta infração penal e ainda, trouxe uma qualificadora no crime de lesão corporal, a ser aplicada quando houver dano psíquico à mulher) ;
     2) O Código Eleitoral ( que agora traz  crime  quando a mulher sofre violência psicológica quando está na fase de campanha eleitorial ou quando está no exercício da atividade legislativa
                   O novo crime  supre lacuna da Lei Maria da Penha, que  apenas define os ´´tipos de violência sofrida pela Mulher ´´ mas não tipifica crimes e contravenções penais, muito menos penas..
                 Diante deste fato, salvo melhor juízo, era difícil Promotores oferecerem denúncia contra pessoas que praticavam violência psicológica contra a mulher , já que não tínhamos crime específico previsto no Código Penal ou outra Lei Penal extravagante.
          Muitos Juízes, em razão disso, rejeitavam denúncias do Ministério Público e por isto não havia a deflagração da ação penal, pois o princípio da taxatividade é imperativa para configuraçao de qualquer infração criminal.
         Com a mudança legislativa, agora sim, temos o crime previsto no Código penal, sendo perfeitamente possível o oferecimento de denúncia contra estes infratores.
           Assim restou redigido o tipo penal do artigo  Art. 147-b do Código Penal:
    ´´ Causar dano emocional à mulher que a prejudique e perturbe seu pleno desenvolvimento ou que vise a degradar ou a controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, chantagem, ridicularização, limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que cause prejuízo à sua saúde psicológica e autodeterminação:Pena - reclusão, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa, se a conduta não constitui crime mais grave´´.
    Exemplos de condutas que podem causar a violência psicológica contra a mulher:
    A)ameaça: promessa de mal injusto ou grave
    B)constrangimento: insistência importuna contra a mulher
    C)humilhação: rebaixamento moral da vítima
    D)manipulação: manobra para influenciar a vontade
    E)Isolamento: impedimento da convivência com outras pessoas
    F)Chantagem: pressão sob ameaça de utilização de fatos criminosos ou criminais, verdadeiros ou falsos;
    G)ridicularização: Escarnecimento, zombaria, que não passa de uma forma de humilhação
    H)limitação do direito de ir e vir: restrição da livre movimentação da vítima
    *Quanto a expressão contida no preceito secundário do tipo, onde prevê a pena, o  legislador trouxe a  seguinte expressão:
    ´´Ou qualquer outro meio que cause prejuízo à saúde psicológica e autodeterminação da mulher´´:
                Da dicção legal, podemos extrair duas premissas:
    1)temos uma cláusula genérica , sendo necessário que o Magistrado(a) deverá verificar no caso concreto se esta outra forma de conduta se amolda no tipo de violência psicológica contra a mulher;.
    2) O rol  de condutas que está contido no artigo 147-b é um rol meramente exemplificativo, podendo haver outras condutas que caracterizam o crime em comento.
                 Quanto ao contexto geográfico, o Crime de Violência Psicológica contra a mulher pode ser praticado:
        1)No  âmbito doméstico e familiar , aplica-se a Lei Maria da Penha ( e a Lei Maria da Penha proíbe qualquer instituto despenalizante contido na Lei 9099/95,  ou seja:  a  transação penal, a suspensão condicional do processo e o acordo de não persecução penal.
         2) Fora  do âmbito doméstico e familiar, aí sim, pode-se fazer uso da Lei 9.099/95 e aplicar as medidas despenalizantes ( na verdade, acordos com o Ministério Público).
    *Quem pode praticar  ou cometer o crime:
        
             A)Quem pode praticar o crime (sujeito ativo): Qualquer pessoa, homem ou mulher.
              O crime é classificado como Crime Comum , portanto pode ser praticado por qualquer pessoa, de qualquer sexo.
              B)Quem pode sofrer o crime (sujeito passivo-vítima):
               A resposta é: Somente a mulher.
               
                Aqui, vale ressaltar que o Supremos Tribunal Federal e demais Tribunais de Justiça do País  decidiram exaustivamente  que o conceito de mulher  alcança os trangêneros (bastando que a pessoa seja conhecido como tal pela sociedade).
                Quanto aos Transgeneros, não se exige: 1) cirurgia para mudança de sexo;2) retificação de documentos , nada disso.
                     Basta que a vítima  seja conhecida como mulher.
                      O agressor deve saber disso, se não souber, não responderá por este crime específico ( mas por outro).
    *O homem pode ser vítima do crime de violência psicológica e  consequentemente, protegido por este novo crime?

           Neste caso, o crime será outro previsto no Código Penal, mas não este (seu direito é tutelado pelo Código Penal, mas não por este crime).
            Este artigo de Lei  protege apenas e somente  as mulheres.

    *Conclusão pessoal ( mera opnião), respeitando opniões contrárias:
    Acredito que seja do conhecimento de todos que a mulher sempre foi tratada como de forma desigual   em relação ao homem.
    Eu vejo  que muita coisa mudou ao longo de décadas e mais décadas, hoje o cenário é outro.  A mulher tem galgado conquistas ao longo dos dias , e isto é muito importante para  uma sociedade e para um Estado que se diz democrático de direitos.
    Eu vejo que o Estado tem feito a sua parte, principalmente: 1) por meio do  Poder Legislativo: com edição de Leis protetivas e; 2) por meio do  Poder Judiciário: que, por intermédio de Magistrados,  vem aplicando a Lei aos casos concretos .
                          Além dos dois Poderes acima citados,  temos a atuação proativa do Poder Executivo, Autoridade Policial, Ministério Público e a Ordem dos Advogados do Brasil.
                           A legislação avança no sentido de tutelar os direitos da mulher, e que assim prossiga.



    Obs: Este assunto foi tratado em uma live que ocorreu no dia 05 de outubro de 2021.
    A live contou com a participação do Advogado Leandro Borba Ferreira Nascente e o Psicólogo Guliver Nogueira, Professor universitário, na graduação e pós graduação.
    Para assistir a live completa, basta acessar os seguintes canais:
    *youtube: Leandro Borba Ferreira Nascente
    *Instagran: @advogadosborbaenascente
    *Facebook: Leandro Borba Ferreira Nascente.
  • Crime na favela

     
    E lá estava o corpo estirado
    espaldas têm perfuradas
    Chão de sangue encharcado
    Respostas a serem encontradas.
     
    Na investigação nenhuma pista 
    Tudo vago resta sem solução
    uma testemunha à vista
    Vem a cargo uma resposta então
     
    A vítima quem havia pensado
    Não era só vítima mas também culpado
    pois se dissera na comunidade
    teria feito muita maldade.
     
    A autoridade então deliberou
    Se encontre sim o increpado 
    Pois quem debalde atirou
    Deve ser por fim julgado.
     
    Não se justiça gente com a própria mão
    O Estado forte é para tal mais preparado
    entidade mesma que fugindo a obrigação
    a comunidade à sorte havia legado.
     
    Encontrar o autor a polícia consegue
    na delegacia o caso desfeito é concluso
    o vil criminoso finalmente feito ocluso
    E na favela a sevícia da morte prossegue.
  • Crime na Riachuelo

    A moça não tinha muita experiência, procurava um emprego de secretária. Bem ali, na Riachuelo, foi abordada por um bêbado vacilante, que não conseguia se comunicar sem enrolar a fala.  Ela não sabia se vestir muito bem, blusa vermelha decotada, a saia acima dos joelhos e o scarpin velho prateado pareciam adequar-se ao deprimente cenário local. Soubesse antes não tinha se vestido assim para ir justamente à Riachuelo.   Desviou-se do homem, teve quase que empurrá-lo. Estava indo para uma entrevista de emprego, o número do prédio era 78, primeiro andar, sala 13. Achou a rua um pouco esquisita, mas não se importou muito.
     Na sala de espera não tinha ninguém, nem secretária, um bom sinal, afinal, essa era a vaga anunciada.  Os móveis já estavam desgastados e dava para ouvir alguém ao telefone na outra sala. Decidiu esperar um pouco para ver se a conversa parava, não evitou ouvir, o homem falava sobre horários perdidos, dinheiro à toa, falta de senso de responsabilidade. Parecia ser uma pessoa muito dura com as palavras, talvez ela tivesse que se acostumar com aquilo. “HM Representações Artísticas”, esse era o nome da empresa.
    “Maria da Glória é você?”. O homem a surpreendeu, sentada, dormindo no sofá da recepção, uma hora depois de ter chegado. Pediu desculpas pela demora em atendê-la e mandou que entrasse em sua sala. A entrevista foi rápida, o salário acertado e na manhã seguinte, já estava trabalhando.  Sua função era apenas atender às artistas que ligavam marcando horário com o Sr. Augusto, e manter a sala da recepção em ordem. Na sala do Sr. Augusto era claramente proibida de entrar, mas também não fazia questão. Toda vez que alguma mulher estava lá, as palavras do chefe não eram muito amigáveis. Essas artistas não eram gente conhecida, celebridade, mas agiam como se fossem.  Algumas vezes chegou a ouvir alguns móveis se arrastando, copos quebrando, mas no final das discussões parece que elas sempre saíam satisfeitas, ou, conformadas.
    A rotina não durou muito, apenas quinze dias depois, numa manhã de terça-feira, Augusto chegou muito agitado ao escritório. Não a cumprimentou, a atmosfera ficou sombria. O telefone tocou, ele não autorizou a transferir a ligação nem a fazer agendamentos no dia. As artistas estavam ficando irritadas, queriam ser atendidas.  Não eram famosas, mas agiam como se fossem, intransigentes, impacientes.
    Faltavam alguns minutos para o meio-dia, quando dois homens entraram na sala. Não a cumprimentaram, a atmosfera ficou mais pesada, foram direto para a sala do Sr. Augusto, não deu para ouvir nada, parece que ninguém realmente falou nada. Os dois saem rapidamente, batem a porta. Deviam ser fiscais ou algo assim.  O telefone tocou novamente, as entrevistas continuaram suspensas até segunda ordem.   

    A polícia chegou somente no outro dia de manhã.  Sr. Augusto não gostava de ser incomodado, por isso Maria da Glória sequer falou com ele durante todo o dia anterior. A verdade é que ele não havia se manifestado mais depois que os dois homens foram embora. A verdade também, é que a única pessoa no local da morte era ela, Maria da Glória, 20 anos, sem muita experiência. Na sua gaveta, uma Nove Milímetros, de uso exclusivo das Forças Armadas. Jamais usaria uma arma daquela, a polícia sabia, a imprensa também sabia. As artistas da Riachuelo perderam mais um agente, e isso era o que importava. Não dá para ficar sem artista na região, não gira o comércio. A HM Representações fechou e o ponto está sem dono. Vai ficar para alguém da polícia, ou da imprensa, quem sabe. Não se sabe se Maria foi presa, não se falou mais no assunto.

    Aqui, na sala comercial ao lado da antiga HM, só se ouve agora um telefone tocar: o meu. Muitas artistas agendando horário, intransigentes, impacientes. Não dá para ficar sem artista na região, não gira o comércio.
  • Crime Perfeito

    Perina se levantou e foi até a cozinha, queria transformar toda a sua raiva em uma ideia de vingança, precisava encontrar uma forma de ridicularizar sua inimiga.

    Abriu os armários, seus olhos fixos e atentos a qualquer insinuação, a qualquer sugestão para um crime perfeito.

    “Cozinha é o melhor lugar para se premeditar um crime. Aliás, uma mente criminosa com certeza nasce ou se desenvolve aqui.”

    Pensou ela determinada, enquanto abria as gavetas.

    Um objeto atraiu seu faro, seus olhos fixaram-se nele, pura concentração, nada era mais importante naquele momento, nada que conseguisse quebrar aquela atração. Uma força magnética criou-se ali.

    Pegou-o, caminhou até a sala, sentou-se no sofá e explorou-o primeiro com os olhos e depois com os outros sentidos. Consumiu-o completamente, e depois daquela experiência intensa e voraz, deixou seu corpo cair cansado, deitando-se no sofá.

    Suas mãos sem forças se abriram e soltou a prova do crime, o objeto escorregou pelo sofá e caiu no chão, o conteúdo devorado até o final, sobrava apenas a embalagem daquela deliciosa e intensa experiência.

    Passado o torpor, Perina se sentia péssima, novamente foi dominada por aquela força e impetuosamente comeu toda a barra de chocolate. Daquela forma, jamais conseguiria colocar em ação sua vingança.

    Pra isto precisaria pensar como uma verdadeira criminosa. Saiu atrás de uma ideia assassina e o que conseguiu foi acrescentar mais colesterol à sua coleção devorando aquele tablete inteiro de chocolate.

    Perina era compulsiva, desde pequena, por sorte não tinha tendência a engordar, mas tinha problemas com o espelho e com a autoestima, o que afetava e muito suas relações. Eram sempre superficiais.

    Já havia pensado em procurar um médico, chegara até a marcar. Mas sempre desistia, não era fácil abrir mão daquela liberdade gastronômica.

    Mas agora era diferente, precisava começar a pensar com a cabeça, ou emagrecê-la, sim porque de tanto pensar em comida, achava que sua cabeça já estava gorda.

    Trabalhava atualmente numa loja de utilidade doméstica. Foi lá que conheceu Junia, uma mulher magra, linda, desenvolta... mas uma cobra, que além de colega de serviço era também vizinha, morava três casas depois de Perina.

    Junia era má por natureza, inventava mentiras, colocava amigo contra outro, fazia as maiores armações e saia de boazinha. Com Perina então, ela vivia aprontando.

    E desta vez Junia tinha passado dos limites, aprontou uma que Perina evitava até pensar, falar com os outros sobre aquilo então, de jeito nenhum.

    Ela injetou corante num chocolate que Perina amava e aqueceu – o um pouco. Quando Perina foi comê-lo ele estava todo derretido, e gulosa como era, se lambuzou toda. E o resultado, mesmo depois de lavar ficou com o rosto e as mãos todos manchados, deixando claro pra quem quisesse ver que tinha, como uma criança recém-nascida se sujado inteira para comer.

    As pessoas que já conheciam bem sua compulsividade, chegavam a olhar com dó pra ela, e fingiam não perceber aquela catástrofe.

    Aquilo despertou em Perina o que ela tinha de pior. Iria controlar sua fome para satisfazer seu ideal mais profundo: a vingança.

    Precisava de uma ideia.

    Abaixou e pegou a embalagem de chocolate e foi pra cozinha preparar o jantar. Ali pensando no que fazer... Veio o insight:

    “Lógico, comida envenenada, como não pensei nisto antes, uma comida irresistível e envenenada. A mesma arma da inimiga.”

    Escolheu a receita, planejou tudo. Tinha todos os ingredientes, faltavam apenas os morangos. E ela queria colocar numa travessa floral que tinha na loja que trabalhava, que aliás, ainda estava aberta. Resolveu dar um requinte de crueldade à sua vingança, ligou para Junia e pediu para que ela trouxesse morango frescos e a travessa quando viesse do trabalho. Falsa como era, ela se prontificou imediatamente.

    A quantidade de veneno tinha que ser bem dosada, senão poderia até matar. Decidiu colocar todo o frasco, porque sabia que Junia comeria um pedaço pequeno, assim teria uma baita dor de barriga e mais alguns incômodos. Era uma vingança arriscada, mas valia a pena.

    Lavou toda a louça, pôs o lixo pra fora e sentou no sofá para descansar.

    Mas enquanto descansava pensou melhor e desistiu da vingança, aquilo nada tinha a ver com ela, Junia era do mal, ela não.

    Estava decidida, pela manhã iria jogar a sobremesa fora e depois procurar um médico e começaria um tratamento, tudo aquilo já estava começando a mexer com seu caráter.

    Mas tinha sido bom pensar e executar até ali aquela vingança, era como um desestressante. Agora ia seguir com sua vida.

    Estava tão cansada que dormiu ali mesmo assistindo televisão.

    Perina acordou assustada, tivera um sonho tenso, mas delicioso. No sonho ela levantara e encontrara um pavê embrulhado pra presente em sua geladeira e comera quase todo.

    De tão intenso o sonho, ela se sentia até sem ar. Levantou-se e sentiu o corpo pesado, a cabeça girando, e muita tontura. Com muito esforço, foi pegar um copo de água.

    Abriu a geladeira e lá estava a sobremesa desembrulhada e comida quase toda.

    “Não foi um sonho!”

    Tentou entender, mas seus sentidos foram sumindo e seu corpo pesando até que caiu morta no chão.

    A faxineira chegou mais tarde e chamou a polícia. Encontraram o pavê envenenado e na investigação descobriram que foi Junia quem comprou os morangos e a travessa floral.

    A conclusão da polícia foi a óbvia: Junia fez uma sobremesa envenenada e deu pra Perina.

    Junia chegou algemada á delegacia.

    -Não fui eu, eu juro, ela que me encomendou a travessa e os morangos.

    Mas o delegado, que era gordinho estava enfurecido com tamanha maldade.

    -Você vai pagar pelo mal que fez a esta moça. Tentou um crime perfeito, seu álibi até que é bom, mas vou te alertar.

    -CRIMES PERFEITOS NÃO EXISTEM!

  • Cyber Athena II

    Hermes ganhou esse nome por causa da sua velocidade no campo de batalha, ele tinha o braço direito todo feito de titânio graças a o vírus, Hermes era musculoso, alto, negro tinha pouco cabelo, seu braço tinha a habilidade de virar uma arma de 120 tiros e uma espada de plasma que cortava tudo, Hermes liderou um grupo de refugiados que fugiam dos ant-cybers ( pessoa que caçavam os Cybers) eles fugiram para o início liga que os aceitavam o clã HADES.
    Anos se passaram e Hermes conheceu uma humana chamada Sayoku. Sayoku uma mulher linda, cabelos longos e negro, tinha a pele clara como neve, olhos verdes e brilhantes, seios fartos e o corpo bem definido.
    Sayoku era super inteligente era formada em biotecnologia e técnica em nano robótica, ela e Hermes se conheceram na capital de Hades, a cidade 236. Sayoku e Hermes logo se apaixonaram e foram morar juntos.
    Durante 10 anos os Cybers viveram no clã HADES em paz, até que em 02 de julho de 2119 em um noite chuvosa, com nuvem escura, um barulho fez com que Hermes se levantasse e desse até  a parte de baixo de seu apartamento, estava escuro - Hermes andava em silêncio, passos leves, Hermes vai até a cozinha e ver no canto da geladeira, uma sombra na forma de um adolescente. Hermes pergunta.
    - Quem está aí ?
    E a forma responde.
    -  Sou eu pai ! Vim pegar um copo de água, vc se assustou pai?
    Hermes meu nervoso e trêmulo por causa do susto, respondeu meu rocu - não filha. termine aí e vá pra cama tá ?
    - Ta bom papai !
    Logo após 5 anos de casado com Sayoku, Hermes teve uma filha chamada Athena. Athena era uma menina linda muito inteligente, tinha a inteligência da mãe, ela tinha o cabelo escuro, uma voz doce e delicada, mas não se engane, Athena tinha a bravura do pai.
    Graças ao vírus que hospedava o seu pia Athena teve a pele mesclada, partes clara como a da mãe e partes negras como a do pai. Sayoku passou os outros 5 anos trabalhando em uma nova tecnologia chamada  Cerberus .
    Essa Tecnologia inventada pelos centro tecnológico do clã HADES, que tinha os melhores cientistas dos 3 clãs e os melhores equipamentos e muito recursos, trabalhavam nessa nova tecnologia que tinha como base o mesmo princípio do cybe. De restaurar células danificadas. Sayoku a cientista chefe, é sabia muito bem como usar essas tecnologias.
    A cidade onde Hermes e Sayoku moravam com sua filha Athena era a cidade 236. a cidade era linda belas luzes de néon, grades outdoor eletrônicos, motéis de inteligência artificial  bares como realidade aumentada, carros voadores e é claro tinha vários Cybers por toda parte.
    Hermes trabalhava como segurança de um bar só dentro de 236, em um bar de realidade aumentada. Nesse bar pessoas vem para curtir e ter um bela noite de amor com belos hologramas. O bar funcionava assim, pessoas escolhiam o seu holograma iam para um cabine, colocam um óculos de realidade virtual e o resto a máquina fazia, tinha uma grande variedade de opções, podia escolher o que quisesse branco, negro, asiático, magro, alto, gordo, homem, mulher...
    Mas a vida de Hermes ia muito bem, ganhava seu dinheiro tinha seu trabalho tudo estava bem.
    Um homem gordo e baixinho foi até Hermes e disse - Ei cara o movimento foi baixado hoje, não foi ?
    - foi mano !
    Hermes meio ansioso, queria ir para casa logo, disse .
    - Senhor Buky, posso sair mais cedo hoje? Porque minha Athena faz 10 anos!
    O homem gordo e baixinho ficou calado, respirou fundo e falou meio bravo - Pode Hermes, mas vai ser descontado do seu salário.
    - Está bom senhor buk !
    Hermes saiu apressado do trabalho, queria chegar logo em casa, ao chegar deu um grande abraço em sua menininha.
    - Minha garota está com 10 anos tá Ficando velha em ?
    - Oi amor, você trouxe o bolo ?
    - Sim Say, o preferido dela, de chocolate branco né ? Eu nunca iria esquecer !
    A família Hermes fizeram uma festa linda, mas a vida continua. No dia seguinte Hermes foi para o bar logo cedo, ele tinha que recuperar as horas que perdeu na noite passada. Logo ao chegar ele viu uma dupla de caras, um musculoso e o outro magrelo e alto... Hermes já ficou preocupado, foi direto para seu posto e ficou observando a dupla
    Outro homem chegou no bar, dessa vez o homem tinha uma marca no pescoço ele tinha um C é um  número, os Cybers de primeira geração tinha sua numeração de 0 a 5000, mas o número do homem que entrou no bar era 5008 era um ant-cybers.
    Os ant-cybers tinha uma letra é um número perto da orelha, quando Hermes viu aquele número ficou muito aflito e nervoso, mas a numeração que estava no pescoço de Hermes era bem visível assim como em todos os Cybers .
    Os Cybers quando eram feitos tinha seu pescoço marcado e seu cabelo cortado, não importava se eram mulheres ou homem, mas todos tinham essa número, a de Hermes era Z-2870.
    Hermes saiu rápido do bar pela porta dos fundos e se escondeu no bar do lado, Hermes sabia que não podia da pista que ele era um Cyber, porque isso colocaria sua caminhada em perigo, então pedia ao dono do bar ao lado para ficar lá escondido.

    (Continua...)
  • Delivery

    Feito o pedido no aplicativo a comida chega à delivery. São 13h, o entregador buzina da rua em frente a casa e uma mulher vai atender, o motoboy abre o zíper da mochila térmica e entrega o pedido em uma sacola contendo a marmita. O almoço é porco, está quente, bem assado e suculento, mas um pouco duro demais para carne suína, ainda assim de lamber os dedos. Então não há reclamações.

    Naquela noite ao fim do expediente o motoboy tem uma última tarefa, o cozinheiro do restaurante em que trabalha faz o pedido da carne para abastecer o estoque. Assim ele dirige até o lugar de sempre, entra pela porta que se tranca às suas costas. É atendido pela dona do abrigo de quem compra algumas peças gordas, ela aperta sua mão, recebe o pagamento, tão logo o homem se vai. Então retorna dirigindo a motocicleta com a mochila térmica nas costas, de cor vermelha com a logo do aplicativo de cor branca, em seu interior as peças cortadas pela própria mulher que o atendeu, com o cutelo cortes lisos pela experiência em esquartejar. Com o sangue frio como a noite o motoboy deixa o orfanato para trás carregando consigo as peças de carne para os almoços que serão entregues no dia seguinte.

  • Desatino

    Lealdade 
    Liberdade em relação ao ser 
    Fora da legalidade
     

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