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mistério

  • Inúmeros ‘eus’ demônios de mim

    Sentia-se cansado depois de um longo dia de trabalho árduo. Tirou seus sapatos, e como de praxe, pendurou-os pelos cadarços em um extintor de incêndio que se encontrava na entrada do acampamento. Fazia isso, todos os dias, para que os insetos nocivos como aranhas e escorpiões não fossem ter seus calçados como abrigo. Tirou suas roupas de trabalho, que mais pareciam como fardas de soldado, e pendurou-as em um barbante que estava esticado ao lado das paredes feitas de pequenas varas de bambu. E ainda vestido com finas roupas brancas de baixo, pegara sua pequena sacola de pano, que comprara em viagem ao Peru, onde cotinha seus produtos de higiene e limpeza corporal, e fora rapidamente para o banheiro tomar uma ducha quente.

    — Finalmente! — exclamara para si mesmo se enxugando e caminhado para vestir sua confortável roupa de dormir.

    Pegou alguns pedaços de madeira, colocou em uma pequena lareira de ferro que se assentava ao solo, colocou um bule com água para esquentar na plataforma da lareira, e fora se sentar numa pequena poltrona ao lado, se aquecendo do imenso frio do inverno desértico israelense. E, com uma xícara de chá de Erva Luíza envolvida pelas suas mãos, para, também, aquecê-las, levava a boca dando pequenos goles em curtos espaços de tempo, onde seus pensamentos rodopiavam com os estalares da madeira incendiada, fazendo uma pequena retrospectiva do seu difícil dia.

    Ao terminar de tomar o seu calmante chá, massageava seus pês com uma solução que fizera com alecrim, azeite de oliva, essência de lavanda, óleo de sementes de uva, óleo de amêndoa e mel.

    Lamentavelmente, pensando, percebera que por falta de sabedoria os seres humanos construíam em suas vivências inúmeros ‘eus’ demoníacos, roubando-lhes suas consciências e alegria de vida. Pensava isso, pelo fato de presenciar nas atitudes de seus companheiros de trabalho, os muitos agregados psíquicos aproveitarem-se de alguns conhecimentos adquiridos para se auto afirmar. Conhecimentos estes, sequestrados pelo mau ego, que tornam o ‘pequeno eu’ perigosamente astuto, capaz de formular os piores crimes emocionais e sentimentais, explorando o homem pelo homem, destroçando as inúmeras capacidades intuitivas, e as diversas expressões artísticas, filosóficas e religiosas do ser.

    Este ‘pequeno eu’ sabotador, que na verdade são múltiplos e se arma de intelectualidade, destrói os verdadeiros valores existenciais que sempre vem sustentando a espiritualidade humana, dando o pior de si mesmo em sua astucia mecanicamente intelectual, para conseguir seus “altos” níveis de prestígios sociais, políticos e econômicos. Imbuído de sua vaidade doentia e arrogante que crê firmemente que em si mesmo e por si mesmo está pensando, sem se dar conta que sendo um pobre mamífero e bípede intelectual, está apenas sendo controlado por seus múltiplos sentimentos e emoções que são subordinados aos seres semelhantes, assuntos e objetos externos, e, não a si próprio.

    Intuitivamente, também, percebera em si mesmo os muitos ‘eus’ agregados e trapaceiros, que apesar de constituir uma só parte, ilusoriamente crera ser o todo em um dado momento. Nessa intuição, vira que quando surgia repentinamente um sentimento de ódio por uma determinada pessoa, pensara erroneamente que a totalidade do seu ser estava odiando, enquanto apenas um determinado eu era o autor de tal sentimento odioso.

    Percebera-se diante de um mundo pluralizado dentro de si mesmo, em que no exterior confeccionava o indivíduo. Inúmeros pensadores que apesar de fazer parte de um só corpo e mente, se crê que é um todo, momento a momento.

    Vira que os seus processos de identificação, empatia, amor, ódio, rejeição e discriminação eram apenas pequenos ‘eus’ interesseiros e oportunistas, em que o fazia de vítima ou vilão de cada situação. E, diante disso, queria sempre se manter alerta, questionando toda e qualquer forma de emoção, pensamento e sentimento autônomo que infortunadamente o dirigisse. Principalmente para o que dizia respeito as intenções, palavras e ações alheias. Não esquecendo, é claro! Que esses inúmeros ‘eus’ mesquinhos e desarmônicos, apoderam-se constantemente de situações que não foram devidamente analisadas e meditadas, que tornava a personalidade vítima das circunstâncias e intenções maldosas alheias.

    Sentado no conforto da lareira, repetia para si mesmo mentalmente, exclamando:

    — Tenho que viver em estado de profundo alerta constante!

    Desejava não mais ser enganado pelos inúmeros ‘eus’ internos que só lhe causavam discórdia, ou pretendia afastá-lo da senda do conhecimento místico espiritual. E, mentalmente dizia para si mesmo:

    — Se eu deixar que esses ‘eus’ demoníacos internos atuem… pensando e sentindo por mim, nunca estarei no real controle. Nunca serei o senhor do meu destino e de mim mesmo. Apenas pensarei estar pensando, sentirei que estou sentindo… enquanto é ‘outros’ agregados que pensa com minha mente, e sente como meu coração. Sendo eu arrastado pelo vento, levado pela correnteza e inflamado pelo fogo.

    Se vira escravo… escravo das circunstâncias culturais que o acorrentaram desde o seu nascimento a um corpo animal cheio de desejos, vícios, medos, traumas, percepções e concepções errôneas do universo e da natureza em seu cotidiano urbano social. Que negativamente se fazia personificado nas associações e identificações mecânicas de si mesmo, e dos demais seres semelhantes no coletivo sentimentalismo mórbido e agregados psíquicos de um mundo em que a fantasia era a realidade do animal intelectual. Amando demasiadamente a si mesmo, se auto vangloriando, imbuído de autoconsideração que o conduzia inevitavelmente à autocomiseração. Pensado ser o “bom-homem”, no papel da vítima, em que ninguém ao seu redor sabia apreciá-lo. Tudo isso graças a má-educação psicofísica, somada a uma pitada de pobreza espiritual e ignorância cultural, que o tornava produto intelectual de formas estereotipadas de reagir sem pensar a toda e qualquer situação adversa, levando as diversas maneiras equivocadas de sentir e pensar nos inúmeros mecanismos autônomos negativos de se entregar a emoções inferiores, e luxuriosas do prazer e a da dor.

    Nisso, percebera a compaixão que tinha que ter com seus semelhantes e consigo mesmo. Não punir, e nem se punir. Não condenar os seus sentimentos negativos e inferiores, e nem condenar esses mesmos sentimentos no seu semelhante. Nem tão pouco procurar motivos para justificá-los, mas, observar e se auto observar em um ato de recordação de si mesmo, na procura de conhecimentos ajudadores dos inúmeros estados que nos levam a tal decadência, e dos equívocos da consciência suprema espiritual. Em que vivemos lamentado o perdido… chorando pelo leite derramado na recordação atormentante dos velhos tropeços e calamidades… odiando o que desprezamos em nós e no outro… manifestando um amor-próprio narcisista exagerado… e em pensar se vamos ser aprovados pelos julgamentos alheios.

    E, essa compaixão nada mais era do que sacrificar os nossos próprios sentimentos, emoções e pensamentos de quem somos. Sacrificar os nossos próprios sofrimentos, medos e complexos. E ser como o céu… que mesmo estando em toda parte, observando e englobando o todo de tudo, nunca pode ser tocado… nunca pode ser contaminado!

  • Janela

    Há pelo menos uma coisa que todos os humanos, sem distinções, fazem com frequência: dormir. Isso é algo bom, saudável e almejado, principalmente depois de um dia longo de trabalho. Entretanto, tudo isso tem um problema. Afinal, como saber como é não estar dormindo?
    A maioria das pessoas acredita saber quando está acordada por simplesmente terem nascido sabendo. Há aqueles que acreditam inclusive que conseguem controlar o sonho, então, se não podem controlar outra realidade, logo não é um sonho. Entretanto, não pode ser possível que a pessoa esteja em um sono tão pesado que ela simplesmente tenha perdido o controle sobre o seu subconsciente?
    João não pensava muito nessas possibilidades. É claro, já estava dormindo menos de três horas pelo quarto dia seguido quando finalmente terminou o seu projeto para a faculdade, então não pensava em muitas coisas fora isso. Não se lembrava ao certo de como acordou, se passou desodorante ou se escovou os dentes, mas isso era normal já que essas eram somente partes corriqueiras do dia e não estavam incluídas na ação do cotidiano. Uma ação que era monótona, mas que movimentava intensamente os seus sentimentos e causava tanta agonia em certos momentos que chegava a se assemelhar a um pesadelo.
    Assim que enviou o arquivo com o seu trabalho para o e-mail do professor, foi dormir. Não queria pensar em mais nada por umas doze horas seguidas e, por isso, somente se jogou na cama, se cobriu com um cobertor que não estava cheirando tão bem e fechou os olhos. Não precisou se dar ao trabalho nem de relaxar os músculos ou ficar pensando em algo para pegar no sono, simplesmente dormiu.
    Quando acordou, não se lembrava de ter sonhado algo. Tudo ao seu redor estava escuro, mas estava sonolento demais para se importar. Ele estava se sentindo bem mais relaxado e totalmente renovado, embora ainda sentisse a preguiça de ter acabado de acordar. No momento exato em que se levantou, todas as luzes acenderam. Não estava mais no quarto em que foi dormir, mas em uma cabine com paredes totalmente brancas. Não havia portas ou janelas, somente as quatro paredes que o confinavam em um espaço minúsculo. A sua respiração se encurtou com o medo e começou a pensar rapidamente nas possibilidades da causa de estar onde estava. Pensou desde abdução até um teste ilegal do governo e só depois disso pensou na possibilidade de ser um sonho. Essa era a resposta, tinha que ser isso. Mas, ao pensar mais um pouco, não parecia ser um sonho. Afinal, tudo parecia real demais, tanto que sentia a textura lisa e macia das paredes ao tocá-las.
    Não conseguia entender nada com total certeza e isso o frustrava. Com os olhos cheios de lágrimas que se recusavam a descer, ficou rodando o minúsculo lugar em que se encontrava para tentar solucionar o maldito quebra-cabeças em que estava. Quanto mais rodava, mais se esquecia dos detalhes daquela realidade que julgava ser a real. Toda a sua família, embora conseguisse ver com clareza o rosto de todos, parecia ser uma lembrança distante e quase tudo que pensava saber sobre eles não parecia totalmente certo. Sobre o seu irmão mais novo, por exemplo, ele se lembrava de ter ido na formatura dele da faculdade, mas agora, por algum motivo, sentia que ele era muito mais novo do que isso. Por não saber mais se poderia confiar na sua memória, a raiva gerada pela frustração começava a aflorar.
    No momento em que pensou que não sabia mais quem era, percebeu que o eu dessa realidade também não se lembrava de muitas coisas. Isso não era muito animador já que podia haver diversos motivos para ter tido perda de memória e aquilo ter sido o subconsciente tentando lembrá-lo de algo por meio de um sonho. Mas, de algum modo sútil, indicava que não podia confiar em nenhuma das duas realidades já que ambas podiam ser verdadeiras, nenhuma delas ou somente uma delas.
    O único jeito de saber no que confiar era testando a realidade em que estava. Não podia saber se o primeiro cenário era real porque agora só estava em suas memórias, mas ele estava no segundo cenário. Buscou em sua mente todas as lembranças sobre coisas que falaram de sonhos, embora não conseguisse saber nem quando, onde ou quem havia dito essas coisas. Lembrou-se de diversas coisas e por elas sabia que era difícil ler em sonhos por tudo estar embaçado e mudar de repente, que normalmente se sonha com locais conhecidos, e que, quando se percebe que está sonhando, é fácil de controlar o que acontece a sua volta. Infelizmente, só restava a última possibilidade já que não tinha nada para ler e com certeza não conhecia o local em que estava.
    Decidiu sentar em cima dos seus joelhos porque sabia que essa era uma das posições de meditação e com certeza iria necessitar da máxima concentração possível nessa hora. Fechou os olhos e imaginou aquelas paredes brancas explodindo e uma ilha paradisíaca surgindo a sua volta. Abriu os olhos estando mais calmo e relaxado. Quando terminou, a decepção caiu sobre a sua mente uma vez que tudo estava exatamente igual. Tentou repetir todo o processo e de diversas maneiras: olhos abertos, em pé, deitado e em mais umas outras dez posições. Nada. Absolutamente nada. Tentou também mudar a realidade dentro do quarto branco ao imaginar objetos e diversos possíveis superpoderes que queria ter. O máximo que conseguiu foi se sentir como uma criança de oito anos após assistir ao x-men e acreditar que talvez também pudesse ser um mutante.
    Todas as tentativas o deixaram exauridos mentalmente e sentimentalmente. A combinação gerou a raiva e essa fez ele começar a esmurrar as paredes com total ferocidade. Depois de uns vinte minutos socando o chão, o teto e cada uma das quatro paredes, atingiu um local que não havia nem encostado até aquele momento. Seria na altura de um interruptor e longe o suficiente da quina formada no encontro das duas paredes para que fosse construída uma porta se essas coisas existissem no quarto.
    No exato momento que atingiu esse suposto interruptor, uma das paredes começou a se levantar. João correu até ela pensando que podia ser uma saída. Entretanto viu que se tratava de um vidro cuja espessura não conseguia identificar. Assim que a parede parou de subir ao atingir o teto, uma vista surgiu através do vidro. Nunca tinha visto uma imagem como aquela. Estava na beira de um penhasco num dia ensolarado, talvez no meio da manhã, e de lá via um rio que vinha atrás de onde aquele quarto branco estava, passando distante o suficiente à sua direita para não simbolizar um perigo. Descia o penhasco em uma alta cachoeira e lá embaixo se tornava uma rápida corredeira até que entrava em uma floresta como um rio calmo e de correnteza não tão forte. Essa floresta não era muito densa, sendo composta principalmente por pinheiros. No fim de um mar verde de árvores, havia uma cordilheira de montanhas com um tom levemente azulado e com neve no topo da maioria delas.
    Ficou admirando aquela paisagem durante alguns minutos. Era extremamente reconfortante enxergar aquilo tudo depois de passar sabe-se lá quanto tempo somente vendo a cor branca. Depois de se acalmar, começou a encostar em cada parte do quarto em busca de algum outro botão. Afinal, se existia uma janela poderia existir uma porta. Provavelmente horas se passaram, mas a única coisa que conseguiu foi o fracasso. Deve ter percorrido todo o quarto umas cinco vezes antes de desistir sem achar nada.
    Após desistir, ficou muito tempo sentado na extremidade oposta a janela encarando a paisagem. Novas questões começaram a atormentar a sua mente: será que isso é mesmo uma janela? Não pode ser uma televisão? Essa seria a saída? Se fosse um sonho, durante a queda ele acordaria? Se não acordasse e morresse no sonho, morreria na sua outra vida? E se essa fosse a realidade, acabaria por se suicidar sem querer? A cada nova pergunta e possibilidade que surgia, abaixava a cabeça e colocava as mãos nos ouvidos os pressionando. Sentia o tormento de ter que tomar uma decisão importante. Então, esperaria para tentar recuperar pelo menos mais um pouco da memória e achar uma outra saída ou se jogaria contra o vidro esperando não se machucar e essa ser a solução para todo o seu tormento?
    Hesitava em tomar uma decisão. Sabia que não tinha como voltar atrás no momento em que pensou nas possiblidades que tinha. Nesse exato instante, soube que a sua mente iria atormentá-lo com as possibilidades que tinha de maneira eterna, principalmente se tomasse a decisão mais errada. E é claro que ele também sabia que não tomar uma decisão também seria somente a escolha de uma possibilidade. Não havia nenhuma chance de escapar disso, pelo menos não depois de ter pensado.
    Infelizmente, quando se tem que escolher por um caminho, não é possível ver o seu interior e também não é possível retornar. Também não se pensa muito no ter que escolher, se focando nos caminhos mais atraentes a sua frente. Talvez seja por isso que João não percebeu que ficou somente encarando aquele vidro e, por um longo tempo, escolheu involuntariamente ficar parado enquanto se perdia em seus pensamentos.
    No meio da bagunça da sua mente, encontrou uma trilha que o levou a uma afirmação. Ele percebeu que não valia a pena ficar parado em sua prisão sem fazer nada e que talvez ir na direção da morte valeria mais a pena do que viver muito em um cárcere agoniante. Embora nem sempre fosse assim, nessa situação tinha convicção de que o risco valia muito mais que a certeza. Por isso, se levantou lentamente e, assim que terminou de ficar em pé, gritou o mais alto que pôde para afastar os seus demônios. Se sentiu mais aliviado e gritou uma segunda vez, mas nessa começou a correr o mais rápido que pode. Atingiu o vidro com o máximo de sua força e usou o ombro como ponta de lança. Cacos de vidro se espalharam para todos os lados e começaram a cair de uma altura gigantesca junto com o corpo de João. Ele sentia o vento frio que entrava em contato com a sua pele quente e a sensação de liberdade que isso criava o fazia crer que podia voar, embora caísse em uma velocidade extremamente alta. Via rapidamente diversas partes da paisagem, tendo rápidas visões do verde da floresta e da queda d’água que estava ao seu lado. Talvez por ter simplesmente se livrado do peso de ter que tomar a decisão ou por algum outro motivo que ele nem sequer entendia, João gritava ao mesmo tempo em que tentava esboçar um sorriso. Com certeza estava feliz nos últimos segundos antes de acordar.
    Abriu os seus olhos lentamente, ainda confuso com tudo o que estava acontecendo. Só conseguia ver luzes e paredes brancas, o deixando com o coração acelerado. Os seus movimentos estavam limitados, mas não entendia o porquê disso. Ouvia vozes que pareciam estar muito distantes e que foram lentamente se aproximando. Depois de um tempo, conseguiu ver uma imagem ainda um pouco desfocada que conseguiu identificar como um médico.
    Aos poucos conforme os seus sentidos melhoravam, as notícias começaram a ser dadas. Depois de umas duas horas que havia enviado o trabalho, o professor havia respondido com as diversas mudanças necessárias. João foi acordado com o aviso do computador de recebimento de e-mail e, como o prazo era curto, resolveu acordar, ir até alguma loja que estivesse aberta e comprar energético, café e qualquer outra coisa que o deixasse acordado. Ele foi de carro, pois a única loja aberta durante a madrugada era a de um posto de gasolina que ficava muito distante. No fim, bastou uma batida para deixá-lo em coma por cinco anos e meio.
    Era difícil não deixar de pensar que podia ter saído do coma a qualquer momento desde que aquela janela apareceu. É claro que ele não tinha total certeza da relação entre as duas coisas já que pode ter tido muitos sonhos e esse ter sido somente um deles, mas os seus instintos tinham a certeza. Talvez muito tempo pudesse não ter sido desperdiçado e o seu corpo não definhado tanto se tivesse feito uma outra escolha. Ele não sabia na época que às vezes o tempo não tinha tempo para se ficar pensando nas escolhas.
  • Jerry Bocchio – Detetive Particular – Capítulo II: O Salão de Beleza

    Por causa de um erro em minhas suposições, eu havia me exposto a Alice Harback. Agora ela sabia que era alvo de uma investigação. Eu sei que as mentes mais brilhantes também erram, por exemplo, o inventor do salpicão de frango quando decidiu colocar maçãs na receita. Só que ao invés de enfiar o erro goela abaixo das pessoas, como fez o inventor do salpicão de frango, eu precisava de uma nova estratégia para corrigir o erro.
    Porém, antes de traçar qualquer estratégia, eu precisava enfrentar um furioso Allan Tresekos, que estava em meu escritório questionando meus métodos:
    – Detetive, como que você não sabia que Jack era o cachorro?
    – Ah, vou te dizer uma coisa também, que mania idiota é essa de as pessoas darem nome de gente pra bicho? Nome de cachorro tem que ser Rex, Totó, Fido etc. Não Jack! Daqui a pouco vão começar a dar nome de bicho pra gente. O cara vai no cartório e registra o nome do filho como Flufy da Silva. Ia ser uma bagunça.
    – Custava você fazer o seu trabalho de detetive e investigar? Meia hora de investigação e você descobriria que ele era um cachorro. Além disso, se você olhasse na internet, veria que aquilo era um cemitério de animais.
    – Não tente ensinar o padre a rezar a missa! Vê se eu fico dando pitaco no seu trabalho? Eu não vou numa construção sua pra falar "você devia fazer melhor seu trabalho de engenheiro tipo... Tipo... Fazer o reboque da parede com gesso".
    – O senhor quis dizer "reboco da parede", detetive?
    – Ué, tem diferença, é?
    – Ai, meu Deus!
    – Sabe de uma coisa, senhor Allan? O senhor parece muito com o meu capitão quando eu era da Polícia. Ele também tinha essa mania de ficar com a mão no rosto falando "ai, meu Deus" pra todo lado. Vocês devem ser muito religiosos.
    – O senhor era da Polícia, detetive?
    – Sim, mas eu saí de lá e achei melhor ser detetive particular. Essas repartições públicas engessam demais pessoas de espírito livre como eu. Eles nunca concordavam com meus métodos.
    – Faço uma ideia do porquê.
    Esse último comentário de Allan me deixou ressabiado. Parece que ele queria dizer algo com aquela fala. Fiquei encarando por alguns instantes em silêncio pensando em uma resposta boa pra ele, mas relevei. Quando eu entro em uma investigação, vou até o fim. Além disso, eu poderia ganhar um bom dinheiro no final.
    – Muito bem, senhor Allan, vamos voltar ao caso. O senhor desconfia que Alice Harback é, na verdade, um homem disfarçado, certo? Bom, pra um homem andar como uma mulher por um dia inteiro sem ser notado, ele precisaria de uma maquiagem ou um profissional de maquiagem de primeira linha. Já que o senhor parece ter tanta intimidade com a família, saberia dizer se a Alice conta com algum profissional assim?
    A feição de Allan mudou, parecia que ele tinha gostado do meu raciocínio. Ele se sentou na cadeira e começou a puxar algo da memória.
    – Bom, Alice Harback sempre foi uma mulher muito vaidosa. E ela tem um salão de beleza de confiança que ela sempre vai. É o Hamilton's Fashion.
    – Poxa vida, senhor Allan! O senhor sabe mesmo bastante detalhes da vida da Alice, hein?
    – O que você quer dizer com isso, detetive?
    – Não, Nada! Só que... Vamos deixar as coisas claras aqui. Todo homem já se apaixonou por uma mulher mais velha, né não?
    – Como é que é?
    – Ah, qual é? Tem problema não. Eu mesmo, quando estava na Academia, tive um relacionamento com uma das copeiras. Ah, ela fazia uma broa que...
    – Senhor detetive! – Gritou Allan, esmurrando a mesa e me assustando.
    – Tá bom! Tá bom! Já não está mais aqui quem falou! Eu vou pra esse salão de beleza pra ver se tem algo que me dê uma pista.
    – Acho melhor eu ir junto pra evitar mais problemas.
    Allan me levou até o local. Durante a viagem, ele me encarava com um olhar sério. Minha intuição me dizia que foi por causa da insinuação de que talvez ele tivesse uma queda pela senhora Alice Harback. Mas, convenhamos: esse cara sabe demais da vida dela. Até o salão de beleza ele sabia. Ah, só pra constar: não vamos mais tocar nesse assunto do meu relacionamento com a copeira, tudo bem? É que não acabou muito bem pro meu lado.
    Chegamos ao salão de beleza. Era um salão muito grande e parecia ser frequentado por mulheres da alta sociedade. A recepcionista veio falar conosco. E pra atrapalhar, ela reconheceu o Allan.
    – Allan Tresekos! Que bom ver o senhor aqui de novo! Faz muito tempo que o senhor não vem. Veio trazer alguém da sua família dessa vez?
    Se todo mundo ficar reconhecendo o Allan assim, meus disfarces vão para o brejo! Afinal, Alice Harback já sabia que era alvo de investigação. Aí alguém fala pra ela que o Allan apareceu lá e pronto! Então, dessa vez, eu resolvi tomar as rédeas da conversa:
    – Não, ele veio me trazer a este local. Meu nome é José Caravejo, sou diretor de teatro.
    – Muito prazer, senhor Caravejo! Quais peças o senhor dirigiu?
    – Como? A senhora não sabe? Não é possível! Eu exijo falar com o gerente! Como que um salão desses não respeita a arte? A arte! – Eu tinha um vizinho que era desse meio e falava todo afetado, foi daí que eu peguei a referência pra esse disfarce. Inclusive a pose com braço esquerdo inclinado pra cima, como se eu estivesse pegando uma fruta da árvore, toda vez que eu falava "a arte" – Me diga seu nome, moça! E chame o gerente agora!
    – Não, não. Tudo bem, acalme-se! Eu prometo que vou me informar. Em que posso ser útil?
    – Pois bem, na minha próxima peça, um dos atores fará um papel de um militar disfarçado de mulher numa família e...
    – Hehehe, Você já vai contar o final da peça, diretor? – Disse Allan, me interrompendo e me dando um beliscão no braço ainda!
    – Pare de interromper a arte, Allan! A arte! Só porque o senhor patrocina a minha peça, o senhor acha que está acima da arte? A arte! Você é o dinheiro e eu sou a arte! A arte! A arte não se interrompe! A arte! Olha só, agora eu perdi a minha linha de raciocínio.
    – O senhor não vai fazer a pose, senhor Caravejo? – Perguntou a recepcionista.
    – Não, só quando eu falo a palavra "arte" na frase. A arte!
    – Nossa! Vocês, do meio artístico são... Bem... Particulares.
    – A senhora está caçoando da arte, moça? A arte!
    – Não, não! Olha, pelo que eu entendi, o senhor precisa de um maquiador para fazer um ator homem se passar por mulher na sua peça, certo?
    – Você é esperta, moça! Os olhos da arte me trouxeram para o lugar certo. A arte!
    – Ai, meu Deus do céu! – Esse Allan não para de fazer oração!
    – OK, vou chamar o nosso principal maquiador aqui. Ele é o que dá o nome ao salão. Aguardem nessa sala de espera que ele já vem.
    A recepcionista nos deixou gentilmente nas cadeiras da sala de espera e saiu em direção à porta de uma sala que ficava no final do salão. Ela atravessou todo o salão, entrou pela porta e fechou rapidamente. O salão estava com todas as cadeiras ocupadas, cada uma com uma mulher sentada enquanto o profissional fazia seus serviços nos cabelos, ou nas unhas, ou na maquiagem de cada uma. Um cheiro de descolorante era forte no ar e o barulho dos secadores de cabelo juntos compunham o ambiente.
    Logo veio até nós o dono do local. Um rapaz sorridente e muito simpático. E, por incrível que pareça, ele também reconheceu o Allan:
    – Allan Tresekos! Há quanto tempo! Não te vejo desde quando a Dona Alice foi internada.
    Opa, opa, opa! Dona Alice seria a Alice Harback? Allan nunca me disse que ela foi internada. Além disso, parece que ele ia lá junto com ela. Então eu precisei intervir:
    – Olá! O senhor deve ser o Hamilton que dá o nome ao salão. Muito prazer, eu sou José Caravejo.
    – O prazer é meu de receber um diretor de teatro tão renomado no meu salão. A propósito, não precisa pronunciar meu nome com sotaque estrangeiro, meu nome é aportuguesado mesmo.
    – Aaaah! Tudo bem. Só uma pergunta: quem seria essa "Dona Alice" à qual você se referiu?
    – Alice Harback, acho que o senhor deve conhecer, já que anda com o Allan.
    Opa, opa, opa e mais opa! Quer dizer que quem anda com o Allan conhece a Alice automaticamente?
    – Allan Tresekos, quando combinamos o seu patrocínio, o senhor ficou de me passar as informações minuciosamente. O senhor quer atrapalhar a arte? A arte!
    – Eeeh... Eu não sabia que isso era importante pra história da peça.
    – Como não? Isso faz parte da história central da peça!
    – Desculpem-me, mas... A peça é sobre a Dona Alice? Ela nunca me disse que fariam isso.
    – Não posso contar a história agora, Hamilton. A arte é um castelo que precisa ser construído aos poucos. A arte! – Muito boa essa analogia, hein?
    – OK... Então, a Manu me disse que vocês precisam de um maquiador para fazer um ator se passar por mulher no palco. Bom, eu posso mostrar pra vocês o meu trabalho? Eu faço uma maquiagem mais simples pra vocês verem, aí vocês decidem se me contratam ou não. Onde está o ator?
    Allan queria acabar logo com a situação, então tentou entrar na conversa. Mas eu precisava de mais informações. E aquele maquiador parecia saber bastante.
    – O ator não pôde vir. Podemos marcar pra outro dia?
    – Não, tudo bem, pode fazer no Allan mesmo!
    – O quê? Cê tá doido?
    – Allan, faça isso pela arte! A arte!
    – Ah, perfeito, senhores! Allan, acompanhe a Manu até a cadeira enquanto o diretor me diz como ele quer que fique.
    – Ei, eu não concordei com isso!
    Pois esse tal de Hamilton faz mesmo uma maquiagem perfeita! O Allan ficou uma modelo fotográfica! Além disso, ele também sabia muito sobre a vida de Alice Harback. Enquanto Hamilton ia trabalhando no Allan, ele ia me dando mais alguns detalhes.
    Parece que Alice Harback contraiu um tumor há dois anos atrás e foi dada como sem esperanças. Mas, meio que milagrosamente, ela voltou e o tumor regrediu. Esses médicos de ricos são muito competentes mesmo!
    Além disso, parece que enquanto o General Ivan Harback lutava na guerra, Alice Harback frequentava o salão de beleza na companhia de Allan. E isso só acabou quando ela ficou doente.
    Mas esse Allan me deve muitas explicações! E não vai ser o rostinho bonito dele que vai me fazer titubear não, viu?
    Continua...
  • Jerry Bocchio – Detetive Particular – Capítulo III: O Cemitério Militar

    Após a visita ao salão de beleza favorito da senhora Alice Harback, acabei descobrindo que Allan Tresekos estava me escondendo informações importantes sobre o caso. No final das contas, fiquei tão intrigado com essa descoberta que esqueci do principal, que era saber como eram os procedimentos do salão em Alice Harback.
    O maquiador conseguia sim fazer perfeitamente um homem se passar por mulher. O Allan teve até trabalho para tirar toda a maquiagem. Porém, isso não era suficiente para comprovar a teoria maluca de Allan. Eu precisava de alguma prova palpável. Algo que demonstrasse que, de fato, tinha um doido que se inspirou em comédias de Hollywood dos anos 90 para executar uma vingança. Mas se o Allan continuar me escondendo informações, será impossível achar. Então, tive de confrontá-lo em meu escritório. Agora era o Allan que ia enfrentar um furioso Jerry Bocchio.
    – Senhor Allan, como você pôde me esconder essas informações? Elas são muito necessárias para o caso! O fato de saber que Alice foi internada sem esperanças de sobreviver muda toda minha linha de investigação. Você acha que eu sou tão burro a ponto de não descobrir?
    – Eu já disse que não sabia que eram importantes para o caso. Além disso, achei você meio burro mesmo desde a nossa primeira conversa.
    Então, Allan achava mesmo que eu era burro. Eu só queria saber o que influenciou essa suposição dele. Mais uma vez eu estava diante de alguém que não tinha confiança em meus métodos. Talvez fosse por isso que Allan gostava tanto de me acompanhar em minhas investigações.
    Allan percebeu que sua fala havia deixado um silêncio constrangedor e ficou incomodado, então tentou retornar ao assunto:
    – Mas me diga, detetive: tem algo mais que gostaria de saber?
    – Eu só quero mais detalhes sobre a internação de Alice.
    – Bom, como amigo da família, eu tentei visitar Alice no hospital. Mas os enfermeiros me diziam que ela não aceitava visitas de ninguém. Eu fiquei sabendo que nem da própria família ela aceitava.
    – Muito estranho, mas justificável. Talvez ela não quisesse que alguém tivesse uma última recordação dela sofrendo numa maca de hospital. Mas antes de ela ser internada, por que o senhor a acompanhava ao salão de beleza?
    – Bom... Ela se sentia sozinha quando seu marido estava lutando na guerra. Eu costumava passar as tardes dando companhia a ela.
    – Você ia até a casa dela?
    – Olha, detetive... Sim! Eu ia pra tomar café com ela. Mas era só isso. Aí, quando era dia dela ir ao salão, eu deixava ela lá e ia pra minha casa.
    – Só mais uma pergunta: ela adoeceu antes de ficar sabendo da morte de Ivan ou depois?
    – Antes. Só que a morte de Ivan aconteceu bem na época da recuperação de Alice.
    – OK, vou encerrar minhas atividades nesse caso por hoje então.
    – Como assim? Não vai investigar nenhum lugar hoje?
    – Olha, senhor Allan, isso foi muita informação nova. Preciso processar tudo um pouco pra traçar uma nova estratégia. E como eu sou meio burro, preciso de, pelo menos, um dia inteiro pra isso.
    – Ai, detetive, sinto muito se você se magoou com o que eu disse. Eu reconheço que você tem métodos de investigação e de raciocínio um tanto quanto heterodoxos, então deveria saber que isso causa um estranhamento nas pessoas.
    – Olha só! Agora fica me chamando de metido a hétero top!
    – O que? Não tem nada a ver uma coisa com a outra! Ah, quer saber? Eu estou achando melhor a gente seguir amanhã mesmo.
    Allan se levantou e saiu do meu escritório. Era exatamente isso o que eu planejava, pois minha intenção, na realidade, não era de continuar no dia seguinte, era de continuar sem o Allan. Allan era reconhecido por todos, isso atrapalhava minha investigação. Além disso, com essa história contada por ele hoje, percebi também que Allan estava muito envolvido no caso. Esse envolvimento afetivo também poderia atrapalhar.
    Com Allan fora do meu caminho, era hora de pensar em alguma outra linha de investigação. Eu poderia tentar o hospital onde Alice foi internada, mas esses médicos não gostam muito de falar sobre seus pacientes. Eles ficam falando que tem a ver com uma tal de ética. Nunca entendi essas coisas.
    Talvez o cemitério onde Ivan está enterrado poderia dar uma pista. Se eu conseguir as informações de quem foi no velório, quem fez o discurso ou quem organizou, talvez eu consiga a informação de alguém estranho aparecendo lá. Alguém que procura vingança, quando fica sabendo da morte daquele que considera ser seu algoz, costuma aparecer no velório pra comprovar. Vi muito isso nos filmes. É só uma suposição, mas é o que tenho pra hoje.
    Eu me lembrei que Allan havia me dito que militares e seus familiares tinham direito a um cemitério exclusivo. Pesquisei na internet qual era na cidade e encontrei o Cemitério Militar. Bem óbvio, não? Ele contava com tudo, inclusive uma administração com um cartório anexo ao lado do cemitério para as certidões de óbito. Então decidi que era lá que eu ia para buscar mais alguma pista.
    Fui à noite para evitar chamar muito a atenção. Pensei que era só chegar lá e procurar o túmulo, mas não, parece que você precisa se identificar também pra administração. Eu não sabia que funcionava desse jeito. Aliás, eu não sabia como nenhum cemitério funcionava porque nunca fui em um. Sempre tive medo. No balcão da administração estava apenas um senhor que era o responsável pela identificação. Ele sempre falava de um modo firme e direto, como um militar. Já começou perguntando o meu nome e o que eu ia fazer ali aquela hora da noite. Então precisei inventar mais um disfarce. Comecei a dar uns soluços e fazer cara de choro. Aprendi a fazer isso num tutorial do YouTube que ensinava a disfarçar tristeza.
    – Meu nome é Rubens Augusto Marchiello. Eu vim aqui prestar homenagem ao General Ivan Harback. Eu fiquei sabendo recentemente sobre a morte dele.
    – O senhor é alguém próximo a ele?
    – Eu não diria próximo, mas ele foi um homem que marcou a minha vida. O General Ivan Harback me tirou do mundo das drogas e me colocou no exército fazendo eu tomar jeito na vida – uma história grandiosa e que agrada o interlocutor sempre ofusca uma mentira, aprenda isso.
    – O General Ivan Harback nunca trabalhou no alistamento – OK, dessa vez não foi do jeito que eu esperava devido a essa informação.
    – Aaaah... É que ele abriu essa exceção pra mim. – Comecei a aumentar a frequência dos soluços – ele tinha esse dom de ver disciplina nas pessoas e ele enxergou isso em mim.
    – O General Ivan Harback era um militar reservado, não gostava de ficar fora de seu gabinete – que cara chato! Ele tem resposta pra tudo. Esses militares...
    – Aaaah... É que eu disse que eu era uma exceção, né?
    – Escute aqui, rapaz, eu só não te chuto pra fora daqui porque o General Ivan Harback não está enterrado neste cemitério.
    Mais uma informação nova escondida de mim. Fiquei tão surpreso que até saí do personagem.
    – Não? Como assim?
    – O General Ivan Harback desertou durante a guerra e perdeu seus benefícios como militar. Agora, senhor Rubens, se é que é esse mesmo o seu nome, dê o fora daqui!
    Além de chato, ele era bem esquentadinho também. Talvez fosse pelo fato de trabalhar à noite. Já vi muitos médicos falando que não se deve trocar o dia pela noite porque aumenta o estresse, eu acho.
    Enfim, durante a guerra que o Ivan lutava, Alice adoeceu e ele desertou. Além disso, no hospital, Alice não deixava ninguém visitá-la. Eu saí do prédio da administração desconfiado de que esses eventos possuem algo em comum. Eu estava na calçada matutando sobre isso quando me assustei com uma voz de uma mulher:
    – Bisbilhotando na minha vida, Jerry Bocchio?
    Era Alice Harback. Dei o azar de ir até lá bem num dia que ela ia visitar o túmulo do marido... Opa! O marido não estava enterrado lá! O que ela estava fazendo ali?
    – Olha, senhora Alice, se a senhora veio visitar seu marido, está perdendo tempo. Ele não está enterrado aqui.
    – Mas você é muito burro mesmo! Você acha que eu não sei onde meu marido está enterrado? Eu vim até aqui porque eu quero saber porque estou sendo investigada. Você tem o dever de me falar!
    Será mesmo que eu conto a teoria de Allan? Ainda bem que eu não sou engessado pelas instituições governamentais.
    – Eu? Investigando a senhora? Não, eu vim aqui porque... porque... eu vim visitar o túmulo do meu superior na polícia...
    – Você foi até o meu clube, depois foi ao enterro do meu cachorro, depois até o meu salão de beleza e agora está na porta do Cemitério Militar, com certeza presumindo que meu marido estivesse enterrado ali. E muitas vezes com aquele enxerido do Allan Tresekos. Aquele idiota fica me mandando mensagem direto desde quando saí do hospital. Você não está pensando que eu matei o meu marido, está?
    Droga! Eu sabia que essas pessoas reconhecendo o Allan iam acabar me atrapalhando.
    – Olha, como eu sou um detetive particular, e não da Polícia, eu não preciso ficar dando satisfação sobre minhas linhas de investigação. Então, se a senhora me der licença, eu preciso voltar ao meu escritório pra encerrar o dia.
    – Está bem então, detetive! Eu vou tomar providências para que o senhor se mantenha longe de mim e da minha família.
    Olha só! Ela veio me ameaçar sozinha, sem nenhuma autoridade por perto. Pelo visto eu estou no caminho certo. E ela está fazendo alguma coisa errada. Tomei meu rumo e voltei pra casa tentando imaginar alguma ligação entre os eventos que eu descobri.
    No dia seguinte, quando fui abrir o escritório, tinha uma pessoa me esperando na porta. Na hora me deu um receio, mas era apenas meu antigo parceiro da Polícia, Thomas Mangalvo. Thomas era o único que entendia meu raciocínio lá dentro e apreciava muito meu jeito de trabalhar. Ele gostava de ser meu parceiro e dizia que nós éramos a dupla de amigos Tom & Jerry, baseado no desenho do gato e rato. Isso indica apenas uma coisa: ele nunca assistiu Tom & Jerry.
    – E aí Jerry, beleza?
    – E aí Tom? O que o traz aqui? A Polícia precisa de ajuda minha? Eu estou num caso mas posso ver um espaço.
    – É, eu tô sabendo. Você está investigando a senhora Alice Harback, né?
    – Ué, como assim? Como você está sabendo disso? E a sua cara ainda me indica que você vai me dar más notícias.
    – É, pois é, Jerry. A senhora Alice Harback foi na Polícia hoje de manhã pedir medidas restritivas contra você.
    – Ai, que droga! Quer dizer que eu vou ter que passar por aquilo de novo?
    A nossa Polícia, quando recebe uma solicitação de medidas restritivas contra um detetive particular, solicita uma sabatina a ele para saber detalhes sobre a investigação. Se ela acha a investigação pertinente, ela autoriza a investigação com supervisão dela, mas se não achar, ela defere as medidas restritivas.
    – Mas não se preocupa não, Jerry! Eu vou fazer parte da sabatina. Como eu já te conheço, eu posso convencer a autorizar.
    – E quem vai ser o outro?
    – O Capitão Gregade.
    Essa não! O Capitão Lester Gregade é aquele que eu disse ao Allan que era meu capitão, que eu falei que também ficava falando "ai meu Deus, ai meu Deus" pra todo lado. Ele sempre foi muito rígido em relação às regras da Polícia. Ou seja, agora eu precisava mesmo de uma prova palpável e convincente.
    – Ah, que legal, Tom! Agora eu me ferrei de vez!
    – Ué, sua investigação tá muito parada?
    – Eu só tenho uma teoria maluca e nenhuma prova.
    – Caramba, Jerry! Então você precisa pôr sua genialidade pra funcionar rápido. A sabatina é depois de amanhã. Eu até me ofereceria pra ajudar, mas vou participar da sabatina, então não posso me envolver.
    E agora? Não pretendo desistir, mas tenho só hoje e amanhã pra conseguir algo. Espero que Tom esteja certo em relação à minha genialidade.
    Continua...
  • Jerry Bocchio – Detetive Particular – Capitulo V: A Sabatina

    O dia amanheceu. Levantei confiante, sem medo do que poderia acontecer na sabatina. O caso ainda não estava solucionado, mas minha intuição, ah, minha intuição, dizia que o que eu estava prestes a fazer era o caminho certo.
    Saí da minha casa e fui andando em direção ao meu escritório. Mas não sem antes passar na Padaria Nova Caledônia e tomar meu café da manhã habitual. O Seu Rogério já chegou me perguntando quando eu ia dar uma entrevista sobre o caso. Eu prometi a ele que se alguma emissora de TV me procurasse, eu iria correndo para a fachada da padaria.
    Cheguei em meu escritório, peguei as cartas que estavam guardadas em uma gaveta com chave. Deixo essa gaveta apenas para minhas coisas importantes, como provas de casos grandes, cartas de ameaças recebidas e cupons de desconto da praça de alimentação do shopping da cidade. Repassei elas mais uma vez e pensei bem no que iria falar na sabatina, afinal, tudo o que eu disser será avaliado pelo Capitão Lester Gregade.
    O Capitão Lester Gregade é um homem que segue as regras à risca. Ele não tolera brechas. Segundo ele, se a Polícia não mostrar que está cumprindo seu papel dentro da lei, a população nunca vai respeitar e colaborar com a Polícia. Eu até concordo em partes com ele, mas e se as regras forem feitas por pessoas que não gostam de seguir regras, como ficaríamos? Por isso que saí da Polícia, às vezes, as regras parecem estar do lado errado da história.
    Peguei minhas coisas e saí do escritório. Fui andando em direção à delegacia onde trabalhei. Quando cheguei lá, vi que poucas coisas haviam mudado. Algumas pessoas novas, muitas pessoas conhecidas, até a cela onde ficavam os presos temporários tinha um rosto conhecido, um cara que tinha um bom advogado. A mesa onde eu trabalhava agora era ocupada por outro investigador, ele me parecia ser bem mais sério do que eu. Talvez seja perfeito para o Capitão Gregade.
    Eu fui até a mesa da secretária e era a mesma, Maria Silveira. Ela é uma pessoa legal, mas às vezes tem a incômoda mania de ser muito debochada. Quando ela me viu chegando, já foi logo falando:
    – Ah, Jerry, você aqui de novo? Nem como detetive particular você se livra de problemas, hein?
    – Que bom ver você também, Maria. Eu estou aqui pra falar com o Capitão Gregade.
    – Já tá todo mundo lá na sala de reuniões esperando você. É só ir lá.
    – Ué, não vai me levar até a sala?
    – Ué, por quê? Você já sabe o caminho.
    Então lá fui eu, na sala de reuniões da delegacia. A porta estava aberta e uma mesa enorme estava ocupada faltando apenas um lugar, que supus que era o meu. Nela, estavam o Capitão Gregade, Thomas Mangalvo, um promotor do Conselho de Justiça, Alice Harback e até o Allan Tresekos e seu advogado. Allan estava com um olhar muito temeroso, afinal, ele acreditava que eu iria expor a teoria maluca dele, de que Alice Harback era um homem disfarçado.
    Assim que me sentei, o Capitão Lester Gregade, sério como sempre, olhou fixamente para mim e começou a falar:
    – Antes de nós começarmos, quero que você me escute bem, Jerry Bocchio. Não é só porque o senhor está fora da corporação que o senhor pode fazer tudo do jeito que deseja. Nós temos leis pra cumprir, todos nós. Investigação não te dá carta branca para importunar ninguém. Estou sendo claro?
    Agora era a hora do show:
    – Sim senhor, sempre tive consciência disso. Mas, em minha defesa, eu gostaria de falar duas coisas: primeiro, que eu não importunei ninguém, a senhora Alice Harback não estava presente em quase nenhum dos lugares onde investiguei, segundo, quando ela ficar sabendo da minha linha de investigação, vai querer retirar a queixa na hora.
    Nesse momento, todos os olhares vieram para mim com curiosidade, até o de Allan. Então, o Capitão Gregade perguntou:
    – Posso saber que informação tão estupefaciente é essa?
    – Segundo as informações que eu já apurei, tenho muitos motivos para acreditar que o General Ivan Harback está vivo.
    Geralmente, num filme, nessa hora todos os personagens fariam um "ooooh" uníssono e a trilha sonora tocaria um "tan, tan, tan" indicando um clímax. Infelizmente, não foi bem assim. O Capitão Gregade fechou ainda mais a cara, Alice Harback começou a rir de deboche e o Allan virou para seu advogado e soltou um "meu Deus", de novo orando.
    – Mas esse detetive é um idiota mesmo, como que vocês, da Polícia, aceitaram um sujeito desse para trabalhar? Eu enterrei meu marido, vi o corpo dele no caixão, como que esse sujeito fala que ele está vivo?
    – Como que o senhor pode fazer uma afirmação dessas, senhor Jerry Bocchio? – Perguntou o Capitão Gregade num tom ainda mais firme.
    Eu peguei as cartas que Allan havia me dado, retirei do maço a carta onde ele dizia que já estava no país e que iria para o hospital e entreguei ela nas mãos do Capitão Gregade.
    – O General Ivan Harback não morreu na guerra, ele desertou. Essa carta escrita por ele diz que ele havia acabado de chegar no país e que iria visitar Alice Harback no hospital.
    – Como você teve acesso a isso? – Perguntou Alice Harback, perplexa.
    – Responda apenas a mim, Jerry Bocchio. Isso não prova que ele está vivo. – Disse o Capitão Gregade, ignorando o espanto de Alice.
    – Eu sei, mas o paradeiro do corpo do General Ivan Harback é desconhecido. Ele não foi enterrado no Cemitério Militar, pois perdeu os direitos após desertar, o que significa que entre a saída dele e sua suposta morte, teve tempo do Exército fazer todo o trâmite de retirada de seus direitos. Além disso, o velório dele foi fechado, apenas a família mais próxima teve acesso ao seu corpo, mais ninguém. E também não existem registros do óbito dele no Exército, ele apenas é dado como desaparecido.
    – Jerry, Jerry. Eu dizia a você desde quando você trabalhava aqui. Você é muito criativo, mas você deixa ela afetar demais o seu trabalho. A sua história está muito mirabolante.
    – Isso mesmo! Prendam ele agora! – Gritou Alice, com uma voz firme e tom de autoridade.
    O grito e a postura de autoridade de Alice causaram um estranhamento no Capitão Gregade. Ele ficou encarando Alice, que logo voltou para sua pose de velhinha rabugenta normal.
    – Mas desta vez, eu vou te dar uma chance. Mangalvo, procure o nome do General Ivan Harback no sistema de controle de óbitos. Veja o que você encontra lá.
    – Sim, senhor! Agora mesmo!
    Thomas saiu da sala correndo, com um ar de confiança, foi até sua mesa e começou a olhar em seu computador. Ficou uns dez ou quinze minutos lá, ele sempre fazia questão de ser detalhista, imprimiu um papel e logo voltou correndo. Durante todo esse processo, Alice olhava tentando disfarçar sua apreensão, mas o suor frio e o tremor nas mãos indicava que ela estava acuada. Ao voltar pra sala, Thomas entregou o papel nas mãos do Capitão Gregade.
    – Senhor, o sistema de controle de óbitos não tem registro do General Ivan Harback.
    – Estranho, será que foi um erro no sistema?
    – Eu vasculhei várias vezes, senhor.
    – Senhora Harback, tem uma explicação que gostaria de dar?
    Os olhos de todos se voltaram para Alice, que agora não tinha mais como esconder seu medo.
    – Nós... Cremamos ele.
    – Mesmo assim, isso estaria constando aqui.
    – É que... Nós... Jogamos suas cinzas no mar.
    O Capitão Gregade foi ficando mais desconfiado ainda das reações de Alice, foi aí que eu aproveitei:
    – Capitão, porque o senhor não solicita a presença da família Harback para depoimento? Eles devem saber de algo que a senhora Harback não sabe. – Joguei verde pra colher maduro.
    – Bom, acho que vou ter que seguir sua sugestão, Jerry. Mangalvo, vá agora...
    – Não ouse incomodar minha família! – Interrompeu Alice, em tom ameaçador.
    – Senhora Harback, acho que a senhora não está compreendendo totalmente o que está se passando. O detetive Jerry Bocchio está me trazendo provas de que seu marido ainda está vivo depois de ter desertado de uma guerra. E as evidências que pegamos aqui estão fazendo esse caminho parecer ainda mais possível. Se alguém de sua família estiver sabendo de algo e escondendo o paradeiro dele, isso pode incorrer em muitos crimes. Se não for verdade, temos que eliminar essa teoria. Então seria bom chamarmos sua família aqui também.
    O Capitão Gregade virou-se para Thomas de novo para dar a ordem quando Alice, desesperada, levantou num movimento brusco da cadeira e interrompeu com outro grito, só que agora com uma voz muito mais grossa:
    – Não! Eu confesso!
    Alice Harback põe uma de suas mãos na cabeça, puxando seus cabelos para trás e tirando-os, revelando que seus cabelos eram, na verdade, uma peruca. Depois disso puxou a pele de seu rosto, revelando que era uma máscara de maquiagem. Após isso, com a peruca em uma mão e a máscara na outra, de cabeça baixa ela, que agora parecia ser mais ele, disse:
    – Eu sou Ivan Harback!
    Todos os outros na sala, falaram um uníssono "ooooooh" e depois logo ouviu-se um "tan tan tan", que eu percebi que era o toque do meu celular indicando que eu estava sem crédito.
    – Hehehe, desculpa aí pessoal, esqueci de colocar o celular no silencioso... Wow! Como é que é?
    – Ivan Harback! Acho que o senhor nos deve muitas explicações. – Disse o Capitão Gregade, ainda perplexo com a situação.
    – A Alice nunca se curou, ela morreu no hospital mesmo. Ela não deixava ninguém visitá-la porque eu estava lá com ela e ela tinha medo que alguém me visse e chamasse as autoridades. Tudo isso foi ideia dela, ela não queria que eu fosse preso depois de passar tanto tempo na guerra, então, antes de morrer, ela falou para eu assumir a identidade dela até que eu conseguisse limpar meu nome no Exército.
    – Como o senhor quer que acreditemos nessa história, General?
    – Primeiro, por favor, não me chame mais de General, não presto mais serviços ao Estado, nem quero prestar mais. Segundo, eu tenho uma gravação feita por ela enquanto estava no hospital.
    Ivan puxou o celular e mostrou um vídeo salvo. Nele, a verdadeira Alice Harback, bem fraca, falava com um pouco de dificuldade para a câmera:
    "Olá, eu sou Alice Harback, se meu marido está mostrando esse vídeo a você, é porque você deve ter descoberto nosso combinado. Eu autorizei meu marido a assumir minha identidade para que ele não seja preso. Eu prometo que quando ele conseguir arrumar a situação dele junto ao Exército, ele vai revelar toda a verdade. Mas eu não quero que ele fique longe mais da nossa família."
    Sua cabeça explodiu agora? Porque a minha, sim. Quer dizer que o doido do Allan tinha razão quanto à Alice ser um homem disfarçado? Só que é ainda mais doido porque o homem é o marido dela. Após o vídeo, Ivan continuou:
    – Eu desertei e voltei porque Alice tinha parado de responder minhas cartas. Então fiquei preocupado que pudesse ter sido o câncer. Mas quando cheguei no hospital, ela tinha acabado de dar entrada, o que significa que ela só não estava respondendo minhas cartas mesmo.
    Nessa hora eu fiquei incomodado com algo. Era um momento de revelação de verdades, eu tinha que falar outra coisa que eu havia percebido. Além disso, eu queria um clímax pra mim:
    – Ela não estava respondendo as cartas porque teve um caso com Allan Tresekos.
    – O quê?
    OK, OK, fiquei empolgado e falei demais. Ivan e Allan estavam querendo me matar e o Capitão começou a falar o clássico "ai, meu Deus" dele. Mas, já que eu tinha começado, né?
    – É, né? É que ela não respondia porque o Allan interceptava o rapaz que entregava as cartas e pegava as cartas pra ele. Percebi isso porque as datas de umas cartas eram anteriores à entrada de Alice no hospital, e o Allan me disse que só fez isso depois, então a conta não fechava. Além disso, Allan sabe muitos detalhes da vida dela, inclusive jeito de andar, de maquiar etc. Mas não sabia o nome do cachorro da família, já que ele não me avisou sobre isso no enterro do Jack, o que indica que ele era íntimo dela, não da família, como ele alegava. Também tem o fato do pessoal do salão de beleza ter reconhecido o Allan e tratado ele como íntimo da Alice. E se você somar isso ao hábito dele de ficar visitando a Alice quando ela estava sozinha em casa, né? Hehehe.
    – Allan Tresekos, seu enxerido, desgraçado! É por isso que você me enchia o saco me mandando mensagem?
    – Eu... Gostava do bolinho de chuva.
    Isso virou uma novela mexicana, né? Depois dessa fala de Allan, um silêncio sepulcral tomou conta da sala. Allan e Ivan me olhavam com vontade de me matar. O Capitão Gregade, depois de perceber isso virou pra mim e disse:
    – Jerry, pra sua segurança, é melhor você ir embora. Mangalvo, acompanhe ele pra evitar mais problemas.
    Enfim, esse foi o meu caso mais estranho até agora. Ivan Harback está respondendo na justiça por falsidade ideológica e ocultação de cadáver, por ter escondido Alice Harback. Allan Tresekos está enfrentando um divórcio e ainda teve todo o caso dele com Alice vazado na internet pela ex-mulher dele, que tava com raiva, viu?
    Quanto a mim, eu não ganhei todo o dinheiro que esperava, afinal eu expus o meu cliente, né? Coisas que acontecem. Mas sigo fazendo o meu trabalho esperando que esse caso me dê mais visibilidade pra eu poder dar a entrevista na frente da Padaria Nova Caledônia.
    Só sei de uma coisa: se eu ainda tivesse na Polícia, esse caso nunca teria chegado até mim.
  • Jerry Bocchio — Detetive Particular – Capítulo I: O caso

    Meu nome é Jerry Bocchio, trabalho como detetive particular. Os clientes que vêm até mim costumam me mandar casos que a polícia rejeita por achar que não tem importância. Porém, todos os casos têm alguma importância: furtos de lojas, gatos de água, luz ou internet, plágios entre outros.

    Naquele dia não foi muito diferente. Estava eu, sossegado em meu escritório, quando um homem aparentemente muito rico entrou na minha sala. Ele estava um pouco assustado, talvez pela luz baixa que eu deixo no meu escritório — eu vejo nos filmes que isso passa uma boa impressão ao cliente.

    Após se sentar na cadeira em frente à minha mesa, ele logo começou a falar:

    — O senhor é Jerry Bocchio?
    — Quem é que me pergunta?
    — Meu nome é Allan Tresekos.

    Allan Tresekos é um importante empreiteiro no país. Dono de muitas empresas que mexem com construção civil.

    — O que um homem como o senhor faz aqui no meu escritório?
    — Infelizmente, a polícia não acredita no meu caso.Estão pensando que estou louco. Então fiquei sabendo de seus trabalhos e me interessei.
    — Conte-me mais.
    — Eu desconfio, aliás, desconfio não, tenho certeza de que uma senhora que frequenta mesmo clube que eu é, na verdade, um homem disfarçado.
    — Opa, Opa! Pode parar por aí! No meu escritório não tem espaço pra preconceito!
    — Como é?
    — Poxa vida, senhor! Estamos no século XXI! Existem mais de dois gêneros, atualize-se!
    — Não é nada disso que eu estou falando, detetive! Eu conheço essa senhora desde quando eu era criança. Só que de uns tempos pra cá eu percebo algo diferente na atitude e na aparência dela.
    — Aaaah! Então tá, pode continuar.

    Para continuar a ouvir, peguei um cigarro e comecei a dar um trago. O problema é que logo depois do primeiro trago eu comecei a tossir demasiadamente.

    — Está tudo bem, detetive?
    — Não, não (cof)... Tá tudo bem (cof)! É que eu não fumo (cof, coooof).
    — Se você não fuma, por que pegou esse cigarro?
    — É que causa uma boa impressão pra um detetive (aaaa-ham). O senhor não vê isso nos filmes (cof, cof)? Mas pode continuar a história (aaaa-ham).
    — Certo... Então, o nome dela é Alice Harback, ela é uma amiga da minha família. Eu estou preocupado porque ela é viúva do General Ivan Harback. Talvez algum inimigo antigo dele tenha aparecido e...
    — Atchim! Atchim!
    — Tossir por causa de cigarro eu vejo muito, agora espirrar, aí é nova.
    — Ai... É que fumaça de cigarro ataca a minha rinite. Mas não se preocupa não porque eu tenho um antialérgico aqui na minha gaveta.
    — Você toma antialérgico assim? Tem a receita pelo menos?
    — Ué, pra que eu preciso de receita se eu posso comprar um pronto na farmácia?
    — Meu Deus, eu não acredito que ouvi isso!
    — Além do mais, deve ser muito caro comprar os componentes e os frascos pra fazer...
    — É receita médica que eu tô falando! Aquele papel que o médico te dá autorizando você a comprar um remédio e instruindo como tomar.
    — Aaaah! É receita o nome disso? Caramba! Pra que dar o mesmo nome, né? Já pensou se a indústria da confeitaria descobre isso? Pra comer bolo, você só vai poder se tiver receita assinada por um confeiteiro. Gente, isso ia ser...
    — Você vai ouvir a história ou não, detetive?
    — Tá bom, Tá bom! Desculpa! Pode falar.

    De fato, a história dele parecia muito maluca mesmo. Ele acreditava que um velho inimigo do General Ivan Harback havia matado Alice Harback e assumido o lugar dela na família para completar sua vingança. Um chapéu de alumínio cairia bem na cabeça desse homem.

    Mas minha intuição, ah, minha intuição, me dizia para pegar o caso. Bom, talvez não fosse tanto minha intuição assim, mas a minha ganância disfarçada, já que era um caso que envolvia a alta sociedade. Mas ouvi minha intuição falando que a voz da intuição que eu ouvi era a minha intuição de verdade e resolvi aceitar o caso. E minha intuição, ah, minha intuição, essa raramente errava.

    O plano era o seguinte: eu iria com Allan até o Clube Cerejeiras na festa de aniversário de um dos membros. Allan diria que eu sou convidado da família dele. Eu, com meu conhecimento sobre a alta sociedade, tentarei sociabilizar com alguns membros pra não levantar suspeitas. Quando eu avistar a Senhora Harback, eu tentaria chegar perto para verificar algum ponto que corroborasse a suspeita de Allan.

    Tudo começou bem como o planejado. Allan veio me buscar em meu escritório, me levou a seu alfaiate para me emprestar um terno e de lá fomos ao clube. Allan me apresentou como Rafael van Treven. Logo chegou um outro frequentador do clube para falar com Allan.

    — Allan, meu amigo! Que surpresa ver você aqui no clube numa quarta feira! Por um acaso esqueceu de pagar a mensalidade e veio quitar a dívida? – Disse o sujeito com um ar completamente esnobe.
    – Não, Marcelo. Na verdade vim aqui para apresentar o clube a um amigo meu. Deixe-me apresentá-lo: Marcelo, esse é Rafael van Treven. Rafael, esse é Marcelo Rubino, dono da Alfaiataria Rubino.

    Chegou a minha hora de brilhar na atuação.

    – Ah, claro, a Alfaiataria Rubino! É um prazer conhecê-lo!
    – O prazer é todo meu! Me diga, van Treven, pelo seu sobrenome, suponho que sua família veio da Europa, correto!
    – Claro! Meu avô era um comerciante muito conhecido na Suécia.
    – Suécia? Pensei que sobrenomes com van vinham da região da Holanda, Bélgica ou próximo.
    – Aaaah! É que ele morava perto da fronteira.
    – Suécia fazendo fronteira com a Holanda?

    Eu não sabia que os ricos gostavam tanto de geografia. Se eu tivesse suspeitado disso na infância, com certeza tinha me esforçado mais nessa matéria e hoje teria dinheiro. Pra minha sorte, avistei Alice Harback sentada a uma mesa perto da janela, completamente isolada e mexendo no celular. Deixei Marcelo e Allan, que por algum motivo estava com as mãos no rosto dizendo "meu Deus", e fui até uma mesa ao lado de Alice.

    Alice pôs o celular no ouvido e começou a falar. O bom de clubes de gente rica é que eles falam muito baixo, então, se eu quiser me concentrar na conversa alheia, é só eu direcionar minha audição, que é muito boa, por sinal. Pra se ter uma ideia, eu consigo localizar uma barata no meu escritório apenas ouvindo seus passos, assim eu consigo fugir mais rápido.

    Alice falava com muita veemência ao telefone:

    – Sim, Jack já foi sacrificado. Não se preocupe, eu sei como ele fazia bem pra família, fiz questão que ele não sofresse mais. Diga às crianças que ele foi para um lugar onde não vai acontecer nada de ruim a ele. Vamos enterra-lo assim que essa reunião do clube acabar. Eu te passo o endereço.

    O maluco do Allan estava certo, ou quase! Aquela mulher havia matado um membro da família e agora queria mentir sobre seu fim. Como foi fácil, eu só precisava pegar o endereço do cemitério onde ocorreria o velório e desmascarar aquela velha na frente de todos.

    O velório aconteceu no Cemitério São Francisco de Assis. Eu chamei Allan Tresekos para vir comigo para testemunhar o caso sendo solucionado. Allan estranhou e disse que aquele cemitério não era o cemitério que a Família Harback costumava enterrar seus membros. Segundo Allan, como Ivan Harback era um oficial do Exército, eles tinham direito a um cemitério exclusivo. Rapaz, agora que eu estou aqui falando com você, eu tô percebendo. Como esse Allan sabe tanto detalhe dessa família?

    Chegamos ao cemitério bem na hora que haviam enterrado o caixão. Os dois netos de Alice Harback, Enzo e Rebeca, choravam em volta da avó. Alice mantinha sua feição seria, com o queixo erguido. Mal sabia ela que eu iria derrubar aquele queixo – no sentido de deixar surpresa, sem violência, ah, você entendeu.

    – Alice Harback, parada! A senhora está presa!

    – Você pode dar voz de prisão, detetive? – perguntou Allan, estragando minha entrada.

    – Posso saber porque estou sendo presa?

    – Pelo assassinato de Jack Harback!

    – Você matou o Jack, vovó? – perguntou Rebeca.

    Agora eu havia pegado ela de jeito, no bom sentido! Então continuei dando seguimento ao meu excelente trabalho de detetive:

    – Sim, ela matou Jack Harback! Ele sabia de algo que ela queria esconder e então ela sacrificou Jack Harback...

    – Pare de chamar ele de Jack Harback! O nome dele era só Jack – Alice me interrompeu de um modo desesperador.

    – Ah, é? Você não considerava ele da família?

    – Não é isso, seu idiota! Jack era o nosso cachorro! – Alice me respondeu apontando para uma placa com o nome do cemitério que dizia: "Cemitério de Animais São Francisco de Assis" – Eu sacrifiquei ele porque ele estava muito doente, mas não queria dizer isso para meus netos! Foi você quem trouxe esse idiota, Allan?

    Allan não conseguia falar outras palavras que não fossem "ai meu Deus". E eu havia cometido um erro. Um silêncio sepulcral tomou conta do ambiente, quando resolvi falar:

    – Aaaah! Bom... Talvez esse cachorro tinha uma segunda família.

    E agora? Por causa de um erro, me expus à investigada. Agora ela sabe que tem um detetive brilhante no pé dela e vai fazer de tudo para atrapalhar minha investigação.

    Continua...
  • Jerry Bocchio e a Ameaça no Reality - Capitulo IV: A Área VIP

    Após um dia longo de conversas com os participantes do reality, estava eu, no dia seguinte, me arrumando de um modo a parecer bem sucedido, mas respeitando o clima do local. Não dava pra ir de terno pra lá. Anne Gonzalo e eu combinamos de nos encontrar no restaurante, na área comum, para repassarmos nossos personagens para entrar na área VIP, onde o representante do patrocinador do reality gosta de frequentar. Nessas horas me faz falta um distintivo, com ele eu só entraria nos locais sem precisar bolar histórias.
    Ao sair do quarto, eu estava trancando a porta quando vi um vulto que parecia se esconder na parede do corredor que cruzava com o corredor onde ficava meu quarto. Minha intuição me chamou a atenção, então fui andando até lá. Pra você ver, né? Todo mundo fala da burrice dos mocinhos dos filmes de terror, mas acaba fazendo igual.
    Esgueirei a cabeça pra ver e era o Roninho. Ele estava com uma cara de criança quando é pega cabulando aula. Um pouco nervoso e parecia estar se escondendo de mim. Por que isso? Eu tive que falar:
    – Roninho, está tudo bem?
    – Detetive! Tá... Tudo bem! Só estou passeando.
    – Passeando dentro do hotel?
    – Não, dentro do hotel não! Eu tô saindo do hotel, na verdade. É que eu... Preferi usar as escadas... Manter a saúde, sabe? Exercícios!
    Roninho parecia muito nervoso. Ele costuma falar gesticulando muito, mas, dessa vez, estava com as mãos nos bolsos da calça.
    – Você tá bonitão, detetive! Não está paquerando nenhuma das participantes não, né?
    – Não! Não é isso não! Isso aqui é porque... Eu não posso falar o porquê agora.
    – Tem a ver com a investigação?
    – Sim! Só o que posso falar por enquanto.
    – Bom, boa sorte pra você então! Eu vou continuar meus exercícios hehehe.
    Ufa! Ainda bem que ele não pediu pra vir comigo. E que medo é esse de eu paquerar uma das participantes? Talvez porque ele queira que o programa dê certo, mas uma das participantes disse que não estava afim de começar um relacionamento no programa. Então, se for pensar assim, não vai dar certo.
    Continuei olhando o Roninho descendo as escadas. Ele descia devagar e virando a cabeça em minha direção com cara de preocupação. Qualquer um com um pouco de noção diria que ele estava fazendo algo suspeito. Mas como eu não queria sair do planejado, só esperei ele sair da minha vista para seguir meu rumo. Quando isso aconteceu, fui até o elevador.
    Cheguei ao restaurante e vi que Anne ainda não tinha chegado. Então fui até uma mesa da área comum pra esperar. Nosso disfarce era que nós seríamos um casal tentando fortalecer o relacionamento com uma viagem. Ela havia me dito que o restaurante contratou um profissional que sabe falar português excepcionalmente pra recepcionar o pessoal da emissora. Menos mal que eu não vou precisar falar em outras línguas de novo.
    Enquanto esperava Anne, vi a influencer Jessy Lins entrando na área VIP. Dez minutos depois, Roninho também entrou, parecia bem mais tranquilo do que parecia quando estava no hotel. Nenhum deles passou por mim, mas, ainda assim, isso não é muito legal, pode estragar o disfarce.
    Alguns minutos depois, Anne apareceu. Ela estava... radiante. Os cabelos pretos dela estavam soltos pela primeira vez desde quando a conheci, ela andava com mais leveza, e o vestido vermelho dela chamava a atenção, não por revelar demais, que não era o caso, mas pela beleza dele e como ele se encaixava perfeitamente nela. Ela me localizou logo e foi até a mesa onde eu estava.
    – E aí, detetive? Pronto pra colocar o plano em ação?
    – Hum... Acho melhor esperar um pouco.
    – Ah, por quê?
    – Aquela influencer e o Roninho estão lá dentro.
    – E o que é que tem?
    – Se você está disfarçado, não é bom encontrar gente que te conhece.
    – É, faz sentido. Mas, e aí? Vamos simplesmente esperar eles irem embora?
    – Bom, não dá pra ficar muito tempo aqui, né? Vamos esperar um pouco e torcer pra eles saírem. Se não saírem, acho que vamos ter que tentar.
    Anne se sentou à minha frente um pouco contrariada. Parece que ela estava bem ansiosa para dar continuidade à investigação. Eu já havia reparado isso nela, a investigação parecia despertar nela uma empolgação. Então, eu resolvi perguntar:
    – Anne, pode me esclarecer uma coisa?
    – Sim, o quê?
    – Você não parece gostar muito do seu trabalho atual, por que continua então?
    Anne me encarou por alguns instantes e resolveu responder:
    – Ah, detetive! De fato, não é o trabalho dos meus sonhos.
    – Pode me chamar de Jerry mesmo. Já somos parceiros nesse caso.
    – Tá bom então, Jerry. Como eu ia dizendo, não é o trabalho dos meus sonhos, mas eu preciso passar por isso pra conseguir um destaque na carreira.
    – Mas você quer mesmo essa carreira?
    – Quero! Eu gosto de trabalhar com o audiovisual. Só não é bem isso. Essa futilidade, essa superficialidade desses realities e programas de celebridades, ter que lidar com gente que não está disposta a ideias novas, só o mais do mesmo, nada disso nunca me conquistou. Mas é como eu te falei, é um degrau que eu tenho que subir. Você nunca teve que passar por isso?
    – Bom, não sei se você sabe, mas eu já fui da Polícia. Eu gosto de ser investigador, sempre foi meu sonho. Mas, quando entrei pra Polícia, vi que não era bem como eu imaginava. Aqueles protocolos, formulários, arquivos... Eles me engessavam, acabavam com a minha criatividade. Então eu pedi pra sair de lá pra me tornar detetive particular.
    – Nossa! Você nunca pensou em subir na sua carreira? Se tornar um tenente, um delegado, um capitão?
    – Quando eu entrei sim, mas eu percebi que eu teria que me submeter a muita coisa que não gosto e abrir mão de muita coisa que eu gosto pra isso. E eu iria subir pra quê? Pra continuar subindo? Pra mim não faz sentido. Tem uma coisa que eu falo pra todo mundo: eu só tento conquistar um prêmio se esse prêmio também me conquistar.
    – Olha, eu acho que não teria essa coragem de desistir da minha carreira por mera convicção pessoal.
    – Mas eu não desisti dela. Você falou de subir degrau, não é mesmo? Então, eu só resolvi subir outra escada. Uma que não tenha paredes dos lados que me forçam a olhar só pra cima, entende? Uma que me deixe aproveitar cada subida de degrau, podendo olhar dos lados também pra apreciar a paisagem.
    Após essa minha última fala, Anne ficou apenas calada, me encarando por alguns instantes. Talvez eu deva ter dito algo que ela não tenha gostado, ou algo que a deixou pensativa, não sei. Confesso que fiquei um pouco desconfortável com a situação, não estou acostumado a receber esse tipo de olhar. Só que, por algum motivo, eu não conseguia pensar em nada pra falar também, minha mente parecia que tinha entrado no modo de descanso de tela. Então, eu fiquei apenas olhando pra ela de volta.
    O cenário ficou desse jeito até que eu ouvi algo na porta da área VIP. O nome Enzo Klozowicz havia sido citado. Enzo Klozowicz era o representante do patrocinador com quem eu queria falar. Segundo as informações passadas por Anne, ele é CEO da empresa de tecnologia Bytex. Essa empresa cria e distribui aplicativos de smartphones, dentre eles, tem aplicativo de namoro e rede social, isso explica a conexão entre um reality de namoro (se é que pode ser chamado assim) e uma influencer de cultura pop.
    Olhei para a porta e vi ele entrando na área VIP, ou seja, ele havia acabado de chegar. Anne também viu ele e me chamou a atenção:
    – Jerry, olha! É o patrocinador!
    – Eu sei, eu também vi. Será que isso dá mais tempo para esperar os outros dois saírem?
    – Não sei. E se eles estiverem lá justamente pra falar com ele?
    – Ai, caramba! Então eu acho melhor a gente entrar pra poder olhar.
    Ela concordou e nos levantamos. Anne segurou meu braço direito, entrelaçando o meu e o dela, como se fossemos um casal, e fomos até o funcionário na porta da área VIP. Chegando até ele, fiz a minha cara de rico que tanto funciona nessas horas.
    – Boa tarde, senhor. Eu gostaria de uma mesa para dois, por favor.
    – Pois não, qual é seu nome?
    – Meu nome é Ricardo Boladazzo.
    Se você quiser se passar por alguém rico, não fique dando detalhes de sua profissão ou suas propriedades etc. Ricos não precisam fazer isso, só o nome com uma palavra parecida com alguma língua europeia e confiança e firmeza na hora de falar. Sempre funciona.
    – Não tem o seu nome na lista, senhor Boladazzo.
    – Hehe! Como não? Eu sou aceito em várias áreas VIP, por que nesse restaurante não?
    – Me desculpe, mas é norma da casa.
    – Como assim, "norma da casa"?
    – Se não tem o nome na lista, não posso deixar entrar. Muitas pessoas gostam de se fingir de rico pra tentar entrar aqui. Fãs, paparazzi, investigadores...
    – Ora, mas que insulto! O senhor, por acaso, sabe quem eu sou?
    Beleza, reconheço que joguei a falsa carteirada nessa. Mas é porque eu fiquei desesperado com a irredutibilidade do funcionário. Só que antes de continuar, a Anne resolveu intervir:
    – Ricardo, não me diga que você esqueceu de fazer as reservas!
    Ela estava entrando no personagem. Resposta rápida, muito bom! Não entendi onde ela queria chegar, então só fui aceitando a proposta:
    – Querida... É... Não é bem assim!
    – Não é bem assim nada, Ricardo! Você nunca faz nada direito mesmo!
    – É que eu não sabia!
    – Ah! Eu devia ter ouvido a minha mãe!
    Foi então que o funcionário se assustou e tentou intervir:
    – Escute, senhora, não se exalte, por favor!
    – Não me exaltar? Já fazem quatro anos que eu estou casada com ele e esse elemento nunca faz nada direito! Ele já esqueceu duas vezes o nosso aniversário de casamento. Teve um aniversário da minha mãe que ele deu um aparelho TV Box!
    – Mas o pessoal da empresa disse que pegava todos os canais.
    – Você fica quieto aí! Vamos voltar pro hotel, de lá, eu vou ligar pro meu advogado.
    – Senhor e Senhora Boladazzo, esperem, por favor! Eu achei o nome de vocês aqui na lista.
    – Sério?
    – Sério? Digo... É sério mesmo! Hehehe! Foi uma brincadeira que eu combinei com ele, Rita! Eu combinei essa cena aqui com o nosso amigo, o...
    – Juan.
    – Juan!
    – Ah, Ricardo! Você e suas brincadeiras! Sempre tentando me fazer rir.
    – Me acompanhem, por favor. Vou levá-los até a mesa.
    Olha, a ideia da Anne deu certo mesmo! Ela tem talento, rapaz! O funcionário nos levou até a mesa, ajeitou a cadeira para Anne se sentar e, enquanto ia ajeitando a minha, ele disse ao meu ouvido:
    – Te entendo, Senhor Boladazzo, também já passei por isso. Vai dar tudo certo!
    O funcionário foi chamar o garçom para nós atender e saiu. Enquanto isso, eu fui reparando no lugar. A área VIP é bem diferente da área comum. Pra se ter uma ideia, tem uma parte coberta com algumas mesas para casais e algumas para grupos. Um bar bem extenso do lado esquerdo de onde ficam as mesas com alguns bartenders que ficam fazendo malabarismo com os drinks. E na frente um portão de vidro ornamentado com uma estrutura de metal bem grande que dá para o lado de fora, a parte descoberta, que tem até uma fonte.
    Eu comecei a vasculhar com os olhos em todo o lugar, mas não achei Enzo Klozowicz. Será que ele havia saído? Anne, pelo visto, percebeu a mesma coisa.
    – Jerry, você está vendo o Enzo Klozowicz por aí?
    – Não.
    – Eu também não estou vendo o Roninho. Será que eles estão na parte descoberta?
    – Não consigo ver tudo daqui. Acho melhor a gente ir até lá.
    Nós dois passamos pela porta de acesso à parte descoberta. Também não encontramos ele lá. Só que nós também vimos que tem uma outra saída do lado descoberto da área VIP. Só faltava eles já terem saído por lá.
    Quando estávamos voltando para nossos lugares, ouvi alguém chamando o meu nome. Era a Jessy Lins. Olhei para trás e vi ela correndo em nossa direção.
    – Detetive! Que coincidência você por aqui! Você está um gato desse jeito, hein? E a Anne também veio... Espera! Vocês estão... Num encontro?
    Anne e eu falamos um "não" sincronizado. Após isso, nos entreolhamos.
    – Não, Jessy Lins, a gente está assim pra conseguir entrar aqui.
    – Ai, detetive, pode me chamar só de Jessy mesmo. Não precisa ser formal comigo.
    – Tudo bem então. A gente só queria... Atchim! Atchim! Ai, tem alguém fumando cigarro aqui?
    – Cigarro, não. Tem só um pessoal com um narguilé alí do lado. Eu estava com eles.
    – Puts, então eu também sou alérgico a... Atchim! Fumaça de narguilé.
    – Jerry, você nunca falou dessa alergia. Tá tudo bem? – Perguntou Anne, parecendo preocupada.
    – Atchim! Tá tudo bem Anne! É só uma rinite mesmo. Eu só preciso pegar meu... Atchim! Antialérgico lá no quarto do hotel.
    – Hum, ela te chama de Jerry, né?
    – Qual é o problema? Olha, eu preciso levar ele de volta pro hotel antes que a reação dele piore.
    – Eu vou com vocês! Eu já estava indo pra lá mesmo.
    Fomos, então, para o carro em direção ao hotel. Eu estava na constrangedora situação de ficar entre as duas, Jessy e Anne, com um lenço tampando o nariz pra evitar cenas mais embaraçosas. Foi quando Jessy continuou a pergunta que fez no restaurante:
    – Então, se vocês não estavam num encontro, o que queriam lá?
    Anne vendo minha situação, resolveu responder:
    – Nós queríamos falar com o patrocinador. O Enzo Klozowicz.
    – Eu também fui lá pra falar com ele. Só que, enquanto eu começava a conversar, o Roninho apareceu e saiu com ele.
    Então foi isso mesmo o que aconteceu: os dois foram embora antes de nós chegamos. Só que uma dúvida surgiu, então fui perguntar, mesmo com o lenço no nariz:
    – O que você foi falar com ele?
    – Eu queria pedir pra sair do reality. Estou meio desconfortável em me imaginar num reality de pegação. Além disso, essa investigação está atrasando o início e eu preciso voltar a fazer conteúdo pros meus seguidores, já que o contrato não deixa eu fazer isso aqui... Quer dizer, não que eu esteja criticando seu trabalho... Jerry.
    – Desde a primeira conversa que a gente teve, você demonstrava que já não estava muito afim de participar, por que aceitou no começo então?
    – Ah, uma mistura de várias coisas: eu estava com raiva do meu ex-namorado, o patrocinador me indicou e eu achei que ia ajudar a me divulgar mais. Além disso, o Roninho é um dos membros do meu fã clube. Eu achei que ele ia me dar uma ajuda.
    – O Roninho é seu fã?
    – É! Mundo pequeno, né? Ele ficou bem surpreso quando eu apareci.
    Foquei na pessoa errada. Era melhor perguntar mais algumas coisas para o Roninho. O modo como ele agiu estranho hoje, bem evasivo, juntamente com essas informações me faz crer que ele tem algo por aí.
    Quando chegamos ao hotel, eu fui subir e Anne veio comigo, ainda um pouco preocupada. Eu tentei tranqulizá-la, mas sem muito efeito. Jessy veio subindo junto, parecia que ela estava nos inspecionando.
    Abri a porta do meu quarto, entrei e tomei meu antialérgico que eu deixei no gaveteiro ao lado da cama. Virei para as duas, que ficaram na porta e elas estavam paralisadas, assustadas por algum motivo.
    – Anne, Jessy, podem se acalmar, é só uma rinite.
    Elas me ignoraram e continuaram olhando assustadas para trás de mim, quando me virei, vi que tinha uma frase escrita em vermelho com letras enormes na parede do quarto: "Jerry Bocchio, caia fora!"
    Que droga, cara! Agora eu também sou o alvo da ameaça. Significa que quem ameaçou está por perto e sabe o que estamos fazendo. Ou seja, ele sabe mais sobre eu do que eu sobre ele. É hora de eu começar a me preparar para ser mais efetivo na minha investigação.
    Continua...
  • Jerry Bocchio e A Ameaça no Reality - Capitulo V: Colocando o Caderno em Prática

    Então agora tem uma ameaça para mim na parede do quarto do hotel onde eu estou hospedado em Aruba. O pretendente a assassino está junto com a produção, ou fazendo parte dela, ou disfarçado entre eles.
    Eu fui em direção à parede onde estava escrita a ameaça e cheguei mais perto para ver. Passei o dedo em uma parte e a tinta pegou no meu dedo. O que quer dizer que a tinta está fresca ainda. O que quer dizer que o sujeito ainda está por perto. Uma coisa que achei estranha é que a tinta tinha um cheiro doce.
    Virei de novo para Anne e Jessy, que estavam na porta do quarto e pedi pra elas entrarem e fechar a porta. Anne fechou tremendo. Ela estava aflita. Eu não aguentei ver o estado dela e fui tentar acalmá-la. Fui até ela, segurei seus ombros e disse, olhando de frente pra ela:
    – Anne, senta um pouco.
    – Jerry, eu esqueci que a gente está investigando um crime. Eu fiquei empolgada em participar, achei esse negócio de investigação e de disfarce legal, mas esqueci que as nossas vidas estão correndo perigo!
    – Não, Anne! Olha, a ameaça tá só citando o meu nome. Sou só eu quem sou o alvo.
    – Mesmo assim, eu também não quero que nada aconteça com você. É melhor eu chamar a Polícia.
    – Se você acha melhor, tudo bem, só tenta se acalmar antes.
    Enquanto Anne e eu conversávamos, eu ouvi a Jessy me chamando:
    – Jerry, isso aqui é batom.
    – Olha, Jessy, a situação agora não é boa pra vender cosméticos.
    – Não, Jerry! Quem escreveu isso aqui usou batom pra escrever. É o batom que eu uso, inclusive... Bom, parece ser o mesmo por causa do cheiro dele.
    Por isso que o cheiro estava doce então. Virei para ela e ela estava na parede olhando a mensagem. Só que tem uma coisa, Jessy disse ser o mesmo que ela usava. Não poderia ter sido ela a ter escrito, não?
    – Jessy, você disse que esse é o mesmo batom que você usa?
    – É, parece, a marca que eu uso é a única que tem perfume de rosas. Eu também faço publis dessa marca nas minhas postagens.
    – Que estranho!
    Jessy desconfiou das minhas perguntas e ficou assustada. Puxou o batom dela de dentro da bolsa, me mostrou e disse:
    – Jerry, não fui eu quem escreveu isso. Olha o meu batom está inteiro aqui comigo. Eu estava no restaurante esse tempo todo, vocês me viram lá.
    Bom, com relação a ela estar com o batom dela na bolsa, só isso não comprova, ela poderia muito bem usar outro, mas não falei nada. Afinal, tinha algo desconexo se fosse Jessy a pessoa que escreveu. Ela não parecia tão burra a ponto de se incriminar desse jeito, muito pelo contrário. Ela também não pediria pra me acompanhar até o quarto e não daria essa informação sobre o batom. Será que alguém estaria tentando incriminar ela?
    Foi então que eu comecei a me lembrar do Roninho. Ele estava extremamente apreensivo na parte da manhã, perto do meu quarto. Quando eu vi ele entrando no restaurante, ele já estava tranquilo, numa questão de meia hora. Além disso, Roninho fazia parte do fã clube da Jessy e... Opa! Foi aí que eu me lembrei que, em nenhum momento, eu interroguei ele.
    – Anne, não ligue pra Polícia ainda!
    – Mas, Jerry...
    – Eu só quero ter mais uma conversa antes.
    Uma hora depois, Roninho apareceu na porta do meu quarto um pouco apreensivo e com as mãos nos bolsos. A porta estava quase toda aberta, então, ele entrou. O quarto estava só com a Jessy chorando sentada na cama. Ele olhou a escrita na parede, olhou a Jessy chorando, chegou até ela e disse:
    – Poxa vida! Isso tá ficando cada vez mais perigoso!
    Jessy, ainda chorando, respondeu:
    – Você não sabe do pior, Roninho. Quem fez isso tá tentando me incriminar!
    – Incriminar? Como assim?
    – Quem escreveu isso usou o mesmo batom que o meu, até a cor é igual.
    – Deve ser só coincidência, Jessynha! Onde está o detetive?
    – Ele e a Anne foram chamar a Polícia pra vir aqui me prender.
    Foi então que Roninho perdeu toda a pinta dele. Ele se sentou do lado de Jessy e começou a falar mais alto:
    – O que você tá fazendo aqui ainda, Jessynha! Dá o fora daqui!
    – Não! Eu vou provar que sou inocente! Foi por isso que eu pedi pra você vir aqui. Você me acompanha direto na internet, você pode servir de testemunha. Me ajuda, por favor!
    – Não, Jessynha! Aquele detetive é burro demais, isso não vai adiantar. Vem comigo, vamos fugir daqui!
    – Não!
    – Vem! Eu te abrigo na minha casa, no Brasil, até isso passar.
    – Não! Eu sou inocente! Eu não vou fugir!
    – Aquele detetive é burro demais! Onde já se viu chegar numa conclusão dessas? Só porque o batom é o mesmo, significa que você é culpada?
    – Pois é, Roninho! Estão tentando me incriminar!
    – Não! Também não é isso! Quem escreveu isso, na verdade, está querendo fazer outra coisa.
    Foi então que eu saí de trás da porta, fechei ela e tranquei. Então eu falei, assustando o Roninho, que deu um salto da cama:
    – É mesmo, Roninho? O que ele queria?
    – Detetive!
    Roninho, que já tinha perdido a pinta de bonzão dele, agora começa a se sentir acuado. Ele encosta na parede como um dos personagens secundários dos filmes de terror prestes a terminar seu papel. Então, eu vou continuando:
    – Me ajuda aí, cara! Eu sou burro demais, não sou bom em suposições.
    – Detetive! Eu... Não... Queria dizer isso. Eu tava nervoso.
    – Bom, talvez a intenção não seja mesmo de incriminar a Jessy, mas de levar ela embora fazendo ela acreditar que tem alguém tentando incriminá-la, só pra fazer o papel de herói.
    – Espera aí, você tá desconfiando de mim?
    – Como você tem tanta certeza do que o mensageiro aí queria?
    Então Roninho começa a forçar um riso malicioso, tira as mãos dos bolsos e as levanta, me mostrando os dedos.
    – Ah, detetive! Você não pensa direito mesmo, né? Olha só, minhas mãos não têm marca de batom! Você não tem provas de que fui eu.
    Ah, como eu amo quando o interrogado vai direto pro "você não tem provas"! É quase uma confissão. Me facilita muito o trabalho. Isso colaria se eu ainda estivesse na Polícia, com todos aqueles protocolos, mas agora não. Eu olhei pra Jessy, que trocou o choro por um sorriso confiante e perguntei:
    – Jessy, em algum momento eu cravei que quem escreveu isso estaria com as mãos sujas?
    – Não, Jerry!
    – Pois é, né? Até porque, depois de todo esse tempo, ele teria muitas oportunidades de lavar as mãos, no hotel, no restaurante, etc. Né não?
    – É! Se ele não lavasse as mãos, ele sim seria burro, hahaha!
    – Além do mais, eu nem sugeri que ele sujou as mãos ao escrever, o que significa que, se foi o Roninho quem escreveu, ele tá quase me dizendo que ele sujou as mãos no processo e lavou durante o tempo.
    Roninho se irrita com o meu deboche e começa a gritar:
    – Qual é, detetive! Eu já disse que você não tem nada contra mim! Você tá tirando essa teoria do seu...
    – Opa, opa! Então vou te dar uma chance de limpar o seu nome, tá? Você ficou o dia inteiro com as mãos nos bolsos, né? Sabe como é a relação entre batom e roupa, só um toque já deixa manchado. Desvira eles aí, se estiverem limpos, pode ir.
    Ele andou até eu, apontou o dedo na minha cara e começou a falar:
    – Eu não vou obedecer um detetivezinho idiota que investiga casos de velhos cornos. Eu sou o diretor dessa emissora, eu faço o que eu quiser! Se você quiser ver meus bolsos, vai ter que pegar um mandato!
    – Eu não sou da Polícia, não tenho que me meter com essa papelada.
    – Então, passar bem! Abra essa porta, agora!
    O problema é que Roninho estava tão nervoso que não percebeu que, enquanto ele passava pela cama pra me dar essa encarada, Jessy desvirou um dos bolsos dele e... Batata! Todo manchado de vermelho. Eu só sorri e apontei para baixo. Ele olhou e virou para Jessy, todo decepcionado:
    – Jessynha, eu achei que a gente estava no mesmo time!
    – Ah, se toca! Você tem a idade do meu pai! Até parece que eu ia querer ficar com um mimado de meia idade!
    Agora era hora de eu finalizar:
    – Então, acho que você deve explicações, Ronald.
    Então, Roninho fica revoltado com os acontecimentos, e acaba respondendo agressivamente:
    – Então tá! Você quer a verdade? Foi eu quem mandou as duas ameaças. Eu não queria que a Jéssica participasse dessa temporada. Era eu quem deveria ser o próximo namorado dela. Mas, não! Aquele patrocinador idiota insistiu na participação dela e a produção aceitou, então eu mandei a primeira ameaça pensando que iam desistir da gravação. Mas, não, de novo! Mandaram um detetive de araque pra investigar. E o que é pior, a Jessica ficou se engraçando com ele!
    – Se engraçando comigo? Mas eu não lembro dela contando nenhuma piada.
    – Cala essa sua boca! Como ousam dizer não para o Roninho? Minha família construiu essa emissora! Ninguém diz não pra mim!
    – OK! Acho que agora é uma boa hora pra chamar a Polícia.
    – Hahahahaha! E com base em quê, detetivezinho? Eu posso me livrar dessa prova agora e negar tudo o que eu disse. Eu tenho advogados. É, isso mesmo! Advogados, no plural. E a única coisa que você tem é uma calça manchada e uma confissão com só uma testemunha suspeita.
    – É verdade isso, Anne?
    Foi então que Anne surgiu de debaixo da cama segurando o celular e mostrando que tinha gravado tudo. Bom, ficou bem claro que a gente combinou isso tudo, né?
    O problema é que isso ativou o lado primitivo de Roninho, ele tentou fugir. Ele me empurrou contra a porta, me pegando de surpresa, o impacto machucou minhas costas. Enquanto eu estava caído no chão, Roninho ficava tentando colocar a mão no bolso onde eu tinha guardado a chave para roubá-la.
    Mas, como Jessy disse, ele é um homem de meia idade filhinho de papai, então eu consegui me recuperar e segurei os braços dele pra não deixar ele roubar a chave. Dei uma rasteira nele e consegui derrubá-lo no chão com facilidade. Então, coloquei algemas nele só pra evitar dele fazer mais besteira. Como foi ele quem veio descontrolado pra cima de mim, eu posso usar as algemas.
    Enfim, a Polícia veio e levou ele embora. Ele seria mandado para o Brasil. Anne, Jessy e eu tivemos de ir também para prestar depoimento. Anne deixou as instruções para a diretora substituta e saiu com o reality em gravação. Eu, sinceramente, não tive a mínima vontade de assistir.
    Roninho responde na justiça por ameaça e lesão corporal dolosa, eu acho que ele vai se safar, mas que ele virou notícia no Brasil inteiro, ah, isso ele virou. Ele foi desligado da Glamour TV e está sendo processado pela Jessy Lins.
    E junto com isso eu também virei notícia! Só que dessa vez, não era mais em sites de fofoca! Tomara que as coisas melhorem a partir de agora.
    Só que eu sentia que faltava alguma coisa, fiquei sem saber o que era por alguns momentos quando me veio as lembranças de quando Anne e eu trabalhamos juntos na investigação. Foi aí que percebi uma coisa: eu meio que me apaixonei pela Anne. Sabe como é, né?
    Eu tentei ligar no contato dela que ela me passou quando veio me contratar. Era o contato do trabalho, mas eu não tinha outro. Porém, ela não atendia. O assistente dela dizia que ela não apareceu lá desde quando voltou.
    Na noite após o meu depoimento, estava eu, tomando meu café em uma das mesas na Padaria Nova Caledônia, um pouco chateado, sabendo que não iria mais ver a Anne, quando eu ouvi o meu nome sendo chamado. Olhei para trás e era a Jessy.
    – Jessy, que mundo pequeno!
    – Oi, Jerry! Eu vim aqui me despedir de você. O seu amigo policial, Tom, me disse que você gosta de tomar café aqui.
    – Esse Tom! Uma hora ele vai falar meu paradeiro pra um inimigo.
    – Hahaha! Enfim, obrigada por me ajudar e por me deixar ajudar, Jerry! Aquela jogada foi muito inteligente.
    – Foi uma que eu tinha anotada na página 115 do meu caderno. Tem anotações de como montar uma armadilha pro investigado escorregar. Tá vendo como ele é útil?
    – É mesmo! Vou começar a fazer um também. Tchau, Jerry! Que você e a Anne sejam felizes!
    – Eu não estou com a Anne.
    – Não? Mas eu vi como vocês dois combinam. O modo como vocês falaram no quarto do hotel, parecia que vocês estavam namorando já.
    – É, acontece, né?
    Jessy abriu um sorriso, puxou uma cadeira da mesa e se sentou à minha frente.
    – Esquece ela! Deixa eu tomar um café com você aqui pra te ajudar a animar.
    Nós ficamos conversando durante umas horas, quer dizer, quando ela não estava verificando o celular. Como ela é influencer, talvez ela precise mesmo ficar mexendo direto, né? Ela falava bastante de festas e se eu gostaria de participar com ela. Eu disse que pensaria, mas na verdade, não sou muito do tipo festeiro. Prefiro ir em festas dos meus amigos mesmo. Além disso, o objetivo dela não foi conquistado, eu não consegui esquecer a Anne nesse tempo.
    No dia seguinte, eu fui até a sede da Glamour TV pra receber o Pix. Quando saí da sala do responsável, olhei para o lado e vi a Anne andando em minha direção. Ela estava com as roupas que costuma usar no trabalho, só que com os cabelos soltos, dessa vez. Ela estava tirando o cordão com o crachá dela e jogando na lixeira. Eu, meio desengonçado, chamei ela:
    – Anne!
    Ela não estava olhando em minha direção. Quando ouviu eu chamando, parou e me olhou na hora.
    – Jerry!
    Eu fui andando até ela.
    – Anne... Eu... Tentei te ligar esses dias e diziam que você não estava.
    – Eu saí da cidade um pouco pra começar um projeto. Você está aqui por quê?
    – Eu vim receber meu dinheiro pela investigação.
    – Já está saindo?
    – Sim.
    – Então vamos, eu te explico no caminho.
    Fomos andando pelos corredores em direção ao elevador. Anne foi me falando:
    – Eu acabei de pedir demissão da Glamour TV.
    – Por quê?
    – Aquele negócio que você me falou das escadas, aquilo meio que me pegou. Eu vi que eu estava aceitando coisas que não gostaria a troco de só continuar subindo.
    – Mas, e aí, você vai fazer o que?
    – Eu saí da cidade pra conversar com uma jornalista amiga minha. Nós vamos começar um podcast true crime.
    – Um o quê?
    – Podcast true crime. É um podcast que a gente expõe crimes que deram o que falar ou que estão sem solução até hoje.
    – Rapaz, pra que esse nome em inglês?
    Chegamos ao elevador e Anne continuou:
    – Eu vou ficar uns tempos fora da cidade pra ajudar a alavancar o projeto. Foi o estúdio que a gente conseguiu por enquanto.
    Ai, caramba! Essa notícia me deixou triste.
    – Você vai embora?
    – É, até a gente conseguir um estúdio aqui na cidade. Pode demorar mas...
    O elevador chegou, nós entramos e Anne reparou na minha expressão.
    – Tá tudo bem, Jerry?
    – Tá, tudo bem. Eu estou feliz por você. Só... Acho que... Vou sentir sua falta.
    Anne se espantou com a minha fala. Ela virou repentinamente pra mim e disse:
    – Jerry! Como assim?
    Nesse momento, as palavras saíam automaticamente da minha boca e eu estava todo desengonçado:
    – Eu gostei de trabalhar com você. Bom... Pra falar a verdade... Eu gostei de você. É...
    – Jerry, eu pensei que você ia ficar com a Jessy.
    – A Jessy? Não! Ela não faz o meu tipo. Eu fui vendo... Na verdade... Que eu gostava de você mesmo.
    – Jerry, eu... Eu também gostei de você.
    Depois que ela me disse isso, eu não conseguia mais falar, apenas fiquei olhando pra ela, que fazia o mesmo. O silêncio tomou conta do elevador e nós fomos chegando cada vez mais perto até que... O toque do elevador apareceu indicando que tínhamos chegado ao térreo, fazendo nós dois voltarmos.
    Saímos do elevador, fomos até a saída e então eu disse:
    – Bom, boa sorte pra você no seu podcast. Me passa o nome que eu indico pro pessoal.
    – Obrigada, Jerry! Tomara que a gente pegue o mesmo caso mais pra frente pra trabalhar junto de novo.
    – É, isso ia ser legal.
    Anne me deu um beijo no rosto e saiu. Eu fiquei parado vendo ela ir embora torcendo pra gente se ver de novo.
  • Jerry Bocchio e A Ameaça no Reality – Capitulo I: O Tédio da Vida Nova

    Meu nome é Jerry Bocchio, trabalho como detetive particular. Costumo pegar casos que a Polícia despreza porque, pra mim, não existe caso sem importância.
    No meu último caso, quando investiguei a rica Alice Harback, as coisas não acabaram tão bem quanto eu imaginava. Afinal, eu expus meu cliente e acabei sem uma boa parte do dinheiro prometido.
    Só que esse caso me deu visibilidade. Um belo dia, perto de chegar no meu escritório, ouvi a voz de uma mulher gritando meu nome do outro lado da rua. Quando olhei, vi que era uma repórter com um câmera ao seu lado. Logo lembrei da minha promessa feita ao Seu Rogério, dono da Padaria Nova Caledônia, de que se alguém fosse me entrevistar sobre o caso, eu iria dar a entrevista na fachada da padaria. Então saí correndo em direção à padaria fingindo que não queria falar, mas com passos não muito rápidos a ponto da repórter não desistir de me alcançar.
    Durante todo o percurso, eu ouvia da repórter a frase "Jerry, só uma palavrinha pra ARTV". Quando estava chegando na padaria, mandei uma mensagem para o Seu Rogério dizendo apenas "É agora". Ao chegar lá, vi o Seu Rogério na porta e parei de correr. Aí começou a minha atuação:
    – Está bem, está bem! Mas vocês da ARTV têm sorte de eu estar com bom humor hoje.
    – Ah, que ótimo, detetive! Eu sou Daniela Malta, da ARTV. Fala aqui pro pessoal de casa sobre o caso da Alice Harback.
    Um jeito meio alegre de abordar uma entrevista num jornal, né? Eu esperava uma pergunta mais formal.
    – É, não posso falar muito sobre o caso, mas consegui descobrir que Ivan Harback ainda está vivo e...
    – Tá, mas e o caso dela com o empresário Allan Tresekos? Teve foto?
    – Por que você está me perguntando isso? Essa é a parte secundária do caso.
    – Nããão, detetive! O pessoal de casa tá doidinho pra saber sobre o romance dos dois.
    – Desde quando o "Alerta Já" se preocupa com isso?
    – Ah, detetive, desculpa! Tá tendo um mal entendido aqui. Eu sou repórter do "Famosos em Foco". Mas conta aí, foi a Renata Tresekos quem contratou você pra investigar o romance deles?
    Que droga, cara! Eu virei notícia de programa de fofoca! Ainda por cima, quando eu voltei pro escritório, liguei meu computador pra procurar meu nome na internet e vi minha foto em um monte de portais de notícias de famosos. Eu detesto programa de fofoca!
    Sabe o que é pior dessa situação? Isso afetou o meu trabalho. Os casos que começaram a aparecer nos dias seguintes eram, em sua grande maioria, de maridos inseguros pedindo pra eu investigar se a mulher estava traindo eles. A maioria deles eram homens ricos bem mais velhos que as esposas, tem até termo pra isso, acho que é "suggar daddy". Eu nunca entendi essa cobrança deles por amor de suas esposas. Como você vai exigir amor numa relação iniciada por meio de um contrato? Aliás, eu desconfio que o sentimento que eles tinham por elas também não era amor.
    E eu vou falar uma coisa pra você, nas vezes que eu descobria que a mulher não estava traindo, não adiantava nada eu mostrar fotos, registros, testemunhas, nada! A paranóia e a insegurança desses caras não deixavam eles acreditar em mim e eu ficava sem receber algumas vezes.
    E assim foi indo durante longos seis meses, eu ficava direto indo atrás de mulheres completamente superficiais em festas, restaurantes, shoppings, bares, academias, salões de beleza... Eu nem precisava variar meus disfarces. A superficialidade dessas pessoas é tão alta que não precisava ser muito criativo nas conversas.
    Como eu sentia falta dos meus casos antigos. Tentar descobrir de qual poste partia o fio do gato de luz, me infiltrar numa empresa pra saber quem estava desviando produtos, saber qual era o sujeito que ficava pichando o prédio, descobrir quem roubou o material esportivo da aula de educação física... Aquela entrevista pra dona fofoqueira me fez muito mal.
    Isso tudo até esse dia. Lá estava eu, sentado, sozinho no meu escritório depois de ter tomado mais um esporro de um senhor de 56 anos que não tinha acreditado que sua mulher, de 32 anos, não estava tendo um caso com o enólogo. A minha mesa estava com várias fotos dela espalhadas e eu, apoiado sobre a mesa com o meu braço esquerdo segurando a minha cabeça, apenas esperando a hora de ir embora. Aí ouvi uma batida na porta. Eu, completamente amoado, soltei pra pessoa:
    – Entra!
    Era uma moça vestindo um blazer e roupa social feminina. Ela aparentava ter mais ou menos a minha idade. Suas roupas, o rabo de cavalo e a maquiagem discreta me davam a impressão de que ela era uma mulher séria. Fiquei um pouco aliviado com a variação do tipo que apareceu no meu escritório. Agora só me falta ela ser a esposa que tá desconfiada do marido mais velho. Conforme ela foi chegando perto da minha mesa eu fui me ajeitando. Ela se sentou e perguntou:
    – Você é Jerry Bocchio?
    – Quem pergunta?
    – Meu nome é Anne Gonzalo, eu sou produtora de TV do canal Glamour TV.
    Ah, pronto! O Glamour TV é um canal de TV a cabo que só passa programas sobre celebridades e realities de gente rica se pegando. Não consegui esconder minha frustração:
    – Ah, não! Programa de fofoca de novo? Eu quero investigar crimes, poxa!
    – Então não se preocupe sobre isso, detetive. Tenho algo aqui que você vai querer.
    Ela puxou o celular da bolsa, abriu o aplicativo de mensagens e deu o play em uma mensagem de áudio. O sujeito da mensagem de áudio falava com uma voz bem grossa, parecia o Darth Vader. Ele dizia o seguinte:
    "Atenção aos produtores da Glamour TV: Não gravem mais o programa "Jantando Com o Ex". Caso contrário, haverá sangue em suas mãos"
    Eu não sabia se ficava com medo ou animado. Era um caso diferente de suspeita de traição aparecendo pra mim, mas era uma ameaça de morte pra uma emissora de TV.
    – Caraca! A Polícia não quis atender vocês por quê?
    – Na verdade, nós decidimos não chamar a Polícia ainda pra evitar tumulto com o público. Aí nós vimos seu trabalho no caso do General Ivan Harback e vimos que você pode nos ajudar a identificar o autor da ameaça antes de começarmos as gravações do programa.
    Opa! Ela disse "caso do General Ivan Harback"! Significa que eles focaram na parte importante do caso antes de me procurar! Me animei, voltei à minha postura de detetive e comecei a mostrar minhas habilidades pra ela:
    – Interessante, muito interessante! Você veio ao lugar certo, moça! Eu, só de ouvir essa gravação, já consigo traçar parte do perfil do suspeito.
    – Sério? O que você notou sobre ele?
    – Nota-se, claramente, que ele é um vocalista de uma banda de death metal.
    – Como você sabe disso?
    – Ora, Anne. Olha a voz gutural que ele está usando na gravação. Só alguém que canta death metal consegue fazer a voz ficar assim.
    – Você sabe que ele está usando um recurso de áudio pra mudar a voz dele, né?
    – Ué, dá pra fazer isso?
    – Sim, hoje tem até aplicativo de celular que faz isso!
    – Aaaah! Nossa, que legal! Acho que vou baixar um desses! Deixa eu pegar aqui meu celular...
    – Ai, detetive! Você aceita o trabalho ou não?
    – Sim, aceito!
    – Ótimo! Então amanhã eu vou mandar um motorista te buscar às 8:00 pra te levar até o aeroporto onde você vai me encontrar...
    – Opa, opa, pera aí! Aeroporto?
    – Sim, você vai comigo no jato da emissora pro Caribe, que é onde vai ser gravada essa temporada. Então faça as suas malas e não aceite mais nenhum outro caso por enquanto. O nosso pagamento vai cobrir sua exclusividade.
    Caraca, eu vou pro Caribe! Eu voltei a ficar empolgado de um jeito que parecia quando eu tinha sido promovido pra ser investigador. Fui correndo pra casa pra me preparar pra viagem. E ainda baixei o aplicativo pra mudar de voz. É muito legal mesmo, tem até voz de esquilo nele.
    Mas tenho que manter o foco! Tem um cara mandando uma ameaça pra uma emissora de TV e eu não sei nem de onde veio e nem a motivação dele. Tenho que ser sério! Mas também o fato de não ser mais suspeita de traição me deixa ainda mais empolgado. Então, vai ser difícil segurar tanta empolgação.
    Continua...
  • Jerry Bocchio e a Ameaça no Reality – Capitulo II: O Programa

    No dia em que Anne Gonzalo, produtora da Glamour TV, me contratou para investigar uma ameaça a uma emissora de TV a cabo, fiquei muito empolgado. Confesso que foi até difícil pegar no sono, o que me ajudou foi o aplicativo que altera vozes que eu baixei no meu celular. Eu ficava dizendo frases e mandando o aplicativo alterar minha voz nas gravações. Eu achei bem engraçado, ajudou a aliviar minha ansiedade.
    No dia seguinte, estava eu, em meu escritório, aguardando o motorista da emissora. Ele chegou na hora combinada. Se apresentou, provou para mim que era mesmo da emissora, pegou minhas malas para guardar no porta malas do carro e me levou até o aeroporto. Durante a viagem ele não falava nada. Geralmente, motoristas particulares são assim mesmo. Deve ser coisa de gente rica, não gostar de conversa, então só contratam gente calada.
    Chegando ao aeroporto, não precisei passar por todos aqueles trâmites comuns que um eu passo quando compro uma viagem parcelada. Foi bem mais rápido. Perto do embarque estava Anne me esperando conforme o combinado. Embarcamos no avião e ela também ficou calada. Só mexendo do tablet dela. Só que eu precisava de algumas informações, eu nunca assisti esse reality show. Então, tentei puxar assunto:
    – Escuta, Anne. Esse programa "Jantando Com o Ex", do que se trata?
    Sem tirar os olhos do tablet, ela foi respondendo:
    – Você nunca assistiu, detetive?
    – Não. Não sou muito fã de realities. Nem de fofoca, celebridades etc.
    – Não é fã de fofoca, mas ficou famoso por causa delas. Bastante irônico, não?
    – Olha, acho que vai ser mais fácil se me falar como funciona. Talvez tenha alguma relação com a ameaça.
    – Nós convidamos homens e mulheres que saíram recentemente de relacionamentos. Eles passam um tempo num lugar turístico se conhecendo pra tentar uma nova relação. Aí, se der indícios de que os casais estão se formando, eles vão para um encontro final num jantar pra saber se vai ser definitivo. Durante os jantares no restaurante os ex deles aparecem lá.
    – Pra que isso?
    – Pra dar conflito.
    – Caramba, isso é um pouco sádico, não? Por que alguém aceitaria participar disso?
    – Tudo é show business, detetive.
    Essa última frase meio atravessada de Anne, junto com sua postura de que não tava muito afim de assunto, me convenceram a terminar a conversa. Mas daí pode ser o começo da minha linha de investigação.
    O avião chegou ao local. Eu disse que ia pro Caribe, mas não especifiquei o local, né? Nós desembarcamos em Aruba. Anne me disse que lá é onde ocorreriam as gravações. Eu não detalhei porque sempre pensei que o Caribe fosse um lugar só, não vários países e ilhas juntos. Eu deveria mesmo ter estudado geografia na infância.
    Nós fomos ao restaurante onde ocorreriam os tais "conflitos" que o programa tanto busca. Anne me disse que o diretor do programa nos encontraria lá porque queria me conhecer. Quando entrei lá, vi um ambiente um pouco descolado pra ser chamado de restaurante chique. Tinha um bar com alguns barmans fazendo drinks, umas mesas com temas praianos espalhadas pelo salão, garçons andando pra lá e pra cá e uma porta grande com um segurança ao lado indicando ser um espaço VIP.
    Anne me disse que o diretor não estava lá no momento, mas que iria chegar em instantes, então ele reservou uma mesa para que aguardássemos ele. Anne falou com um garçom que nos acompanhou até a mesa e logo foi puxando a maquininha pra anotar algum pedido. Anne ia dispensá-lo, mas eu estava com sede durante toda a viagem, além disso, eu também queria mostrar minhas habilidades como poliglota. Puxei minha apostila do curso de espanhol que precisei fazer pra investigar um caso e falei:
    – Holá... mesero... Yo quiero una... Cueca Cuela con pedritas de hielo... Por favor.
    Depois disso, o garçom ficou olhando pra mim igual aquele rapaz do meme que não entende nada. Aí Anne interveio:
    – A Coke with ice, please.
    Aí o garçom foi embora e eu é quem não estava entendendo mais nada:
    – Eles falam em inglês aqui, é? Caramba, eu trouxe a apostila errada!
    – Não, eles também falam em espanhol aqui. Acontece que isso que você falou não era nada! "Cueca Cuela"? Que negócio foi esse?
    – Aaaah! Nossa, será que era por isso que aquela moça mexicana que eu precisei investigar mês retrasado dizia que me achava engraçado? Eu achei que meu disfarce tava indo bem, olha só! E pensar que eu fiz um curso intensivo de dois meses de espanhol pra investigar esse caso!
    – É sério que você achou que ia aprender espanhol em dois meses?
    – Era o que eles prometiam, ué! E era um curso intensivo. Como eu vi "intensivo" na propaganda do Google, eu pensei que estava aí a minha solução. Tá certo que eu não vi todo o material, mas...
    – Olha lá, detetive, ele vem vindo.
    Olhei para trás e vi um homem um tanto excêntrico andando em direção à nossa mesa. Ele andava com passos ritmados, como se estivesse num videoclipe, só que sem música. Talvez na cabeça dele devia estar tocando alguma. Não julgo, às vezes acontece comigo também, só que com músicas muito chatas. Ele é aquele típico homem de meia idade que não aceita a chegada do tempo: cabelos tingidos, um topete chamativo, óculos escuros dentro de um ambiente e uma roupa parecida com as daqueles figurões de Las Vegas. Quando chegou perto, já foi falando num tom muito alto, quase gritando:
    – Ah, Anne! Está aí com o nosso detetive! Por que não me apresenta?
    Com uma feição um pouco contrariada, Anne se levantou e disse:
    – Ronald, esse é o detetive que eu comentei, Jerry Bocchio. Jerry, esse é o diretor do programa, Ronald Barros Junior.
    – Jerry Bocchio, muito prazer! Pode me chamar de Roninho. Eu vi muito sobre o senhor quando investigou o romance entre Alice Harback e Allan Tresekos. Foi um trabalho excepcional!
    Ai, que droga! O pessoal só me conhece por isso?
    – O prazer é meu, Ronald.
    – Roninho, por favor. Faço questão.
    – OK então. Roninho, o prazer é meu. Só que é o seguinte, nesse caso eu também descobri que o General Ivan Harback está vivo. A parte do romance é a parte secundária do caso.
    – Ah, detetive! Isso o que você chama de "secundário" é o que o público gosta de verdade. O público gosta de ver casais em crise logo depois de começar um relacionamento, briga com gente alcoolizada por motivos passionais, talvez até com agressão física, descobertas de traição, tudo isso. Eu até queria te perguntar se você não tem mais casos assim, detetive. Quem sabe a gente não faz um programa novo com isso, não é mesmo?
    Foi então que Anne interveio de novo:
    – Na verdade, Roninho, eu trouxe ele aqui pra investigar a ameaça que a gente recebeu.
    – Poxa vida, Anne! Você está mesmo querendo continuar com a produção do programa? A gente recebeu uma ameaça, é melhor cancelarmos essa temporada. Pessoas aqui correm perigo!
    Que estranho! O mesmo cara que, instantes atrás, disse que não liga de expor vidas e humilhar pessoas em prol da audiência agora fala de proteger vidas? Tem uma dualidade aí.
    – Então, Roninho, eu já tinha te dito na última reunião que não depende só de você. A emissora quer o dinheiro do patrocinador, que quer essa temporada. Então eu trouxe o Jerry Bocchio aqui por enquanto. Caso ele descubra algo, a gente chama a polícia.
    – Ai, ai, viu? Eu estou com um mal pressentimento sobre isso! Ainda acho melhor cancelarmos essa temporada. Bom, de qualquer modo, foi um prazer conhecê-lo, detetive. Eu preciso conversar com o dono do restaurante pra combinar como tudo vai ser gravado. Até mais!
    Roninho saiu e eu não aguentei ficar sem falar nada:
    – Que sujeito excêntrico, hein Anne?
    – Ai, detetive, a gente não escolhe o patrão. Mas, enfim, você já tem algum plano em mente?
    – Bom, nesses últimos seis meses que eu fiquei trabalhando só com casos de supostas traições, porque não apareciam outros, eu vi que esse negócio de ex aí pode dar muito problema. Acho bom dar uma olhada nesses ex aí. Se eu der sorte, já mato a charada logo de cara, se não, já tiro isso da frente, pelo menos.
    – Então, detetive, temos um problema. Os ex ainda não estão aqui e só o pessoal do casting sabe quem são eles. E os participantes.
    – Bom, então me deixa falar com os participantes. Eu posso conseguir informações sobre o relacionamento anterior deles.
    – Está bem então. Mas eu vou com você.
    – Ué, por quê?
    – Depois daquela do "vocalista de death metal", é melhor eu estar junto pra ajudar. Tome, aqui está a chave do seu quarto do hotel. É o mesmo de onde a equipe toda está instalada. Amanhã eu junto os participantes para você conversar com eles.
    – É um caso envolvendo ameaça, pode não ser seguro.
    – Não se preocupa comigo não, detetive. Agora termina aí sua "Cueca Cuela" pra gente ir pro hotel.
    Eita, que coisa, viu? Tá parecendo o Capitão Gregade comigo. Ela parece bem chateada com o trabalho dela também, aquela conversa com o diretor deu pra perceber um toque de insatisfação.
    Agora é se preparar pra amanhã, quando vou interrogar os participantes do reality. A minha intuição diz que tem coisa quente aí. E vou tentar convencer a Anne a não se envolver muito para a própria segurança dela. Ela parece ser firme na decisão dela, mas eu tenho que tentar.
    Continua...
  • Jerry Bocchio e a Ameaça no Reality – Capitulo III: Os Participantes

    Cá estou eu, no Caribe, mais precisamente em Aruba. O dia mal amanheceu e eu já estou acordado no quarto do hotel me preparando para os interrogatórios que vou ter com os participantes do reality. O reality se trata de romances, mais especificamente, romances que deram errado. Então preciso ser cuidadoso com minhas abordagens.
    Para isso, eu estava dando uma repassada no meu caderno de como fazer interrogatórios, com anotações pessoais que fui fazendo durante minha experiência como investigador da polícia e particular. Tá, e também tem algumas anotações baseadas em filmes e séries que eu assisto... OK, eu confesso, tem mais anotações referentes a filmes do que da minha experiência. Enfim, eu estava dando uma olhada nesse caderno quando meu celular tocou. Era Anne Gonzalo. Ela pedia para eu encontrá-la na recepção do hotel para irmos até o estúdio de gravação onde eu conversarei com os participantes.
    Peguei meu caderno, minhas coisas, e pensei em pegar minha jaqueta. O problema é que em Aruba faz muito calor e eu não aguento ficar com uma jaqueta num calor desses. Eu não gosto de ficar sem a minha jaqueta porque isso atrapalha minha imagem de detetive. Aliás, quando eu me tornei detetive particular, minha intenção não era nem comprar uma jaqueta esportiva, era comprar um sobretudo mesmo. Poxa, todos os detetives na TV usam algo desse tipo e andam com as mãos nos bolsos dos casacos, o Kojak, o Columbo, o John Constantine, o Sherlock Holmes em algumas adaptações... Mas o clima no Brasil não deixa eu ter estilo.
    Desci na recepção do hotel e Anne estava me esperando lá com o motorista. Ela estava com a cara menos amarrada do que das outras vezes que conversei com ela. Um indício de que ela possa estar com um bom humor. Talvez agora eu consiga fazer ela entender que não deve se envolver muito no caso, para a segurança dela mesma.
    – Bom dia, detetive! Preparado para conhecer os participantes?
    – Bom dia, Anne! Sim, tenho tudo o que preciso aqui no meu caderno.
    – Não vai me fazer sentir vergonha alheia de novo, hein?
    – É, então... Sobre isso... Esse é um caso de ameaça que a gente não faz ideia de quem mandou. Pode ser qualquer um. Pode ser um fã, um ex dos participantes, pode ser da produção, da emissora, pode ser até o motorista aí...
    Então, percebi que o motorista me olhou assustado.
    – Não que eu esteja desconfiando de você, hehehe. É só uma suposição, fica tranquilo. Então, Anne...
    – Ah, já sei! Você quer que eu fique de fora pra minha segurança, não é?
    – É... Pelo visto você entendeu, né? Pode ser perigoso.
    – Olha, detetive, não se preocupa comigo não que eu sei me virar, tá bom? Além do mais, seu sucesso nesse caso garante o meu também, já que fui eu quem te indicou pra diretoria da emissora. Eu vi como você descobriu sobre o general que assumiu a identidade da mulher dele. Então, acho que a gente tá nessa juntos.
    Uma coisa que eu não tinha reparado: Anne foi a única que prestou atenção na parte certa do meu outro caso. Além disso, ela me parecia empolgada. Parecia com a mesma empolgação que eu sentia quando ia investigar meus primeiros casos após ser promovido na Polícia. Um outro indício disso era que era ela quem me fazia as perguntas durante a viagem até o estúdio.
    – E então? Como você procede?
    – Ué? Como assim?
    – Você tem algum tipo de método pra saber se a pessoa é suscetível, se está mentindo, etcetera?
    – Não, eu só pergunto o que a pessoa sabe. A única coisa que eu mudo é a abordagem.
    – Mas e se ela estiver tentando te ludibriar? Eu vejo em vídeos que as pessoas dão sinais quando estão mentindo, você não detecta nenhum?
    – Nah! Eu não me concentro muito nisso não. Se você fica muito preocupado com isso, acaba se perdendo. Só se for algo bem escancarado. Além disso, as provas falam mais do que os investigados.
    – Nossa! Achei que era diferente. Bom, como já estamos chegando, deixa eu te adiantar: os participantes homens e as mulheres não podem se ver antes das gravações. Então, na parte da manhã você falará com os homens e depois do almoço falará com as mulheres.
    – Quantos participantes são?
    – Três homens e três mulheres.
    – Bom, tenho muita conversa pra hoje.
    Quando chegamos ao estúdio, nos encontramos com Roninho, o diretor do reality. Ele disse que faria questão de acompanhar também os interrogatórios. Eu acho um pouco limitador tanta gente observando. Mas, como o trabalho deles envolve ficar acompanhando pessoas por vinte e quatro horas, vou ter que aguentar isso.
    Eu me sentei em uma mesa posta no meio do estúdio e Anne, sem falar nada, se sentou ao meu lado. Eu pedi para Roninho chamar o primeiro participante. Ele chamou e logo entrou na sala um homem com pinta de modelo ou astro de Hollywood. Ele andava de forma nada discreta, como se estivesse naquelas propagandas de perfume para homem. Ele se sentou à minha frente e eu logo comecei:
    – Nome e profissão, por favor.
    – Meu nome é Marco Polo Alfinco. Sou empresário. Você é que é o cara que vai investigar a ameaça, é?
    – Então, você também está sabendo.
    – Tá todo mundo sabendo. Notícia como essa espalha fácil, cara!. Mas não se preocupa que não fui eu.
    – Na verdade, Marco, eu queria saber mais sobre sua relação com a ex. Vocês eram o quê? Namorados, casados ou outro tipo?
    – Haha! Você tá achando que foi ela? Por minha causa?
    – Olha, vai ficar mais fácil se você responder minhas perguntas, Marco.
    – Eita! Um detetive linha dura! Beleza então! Ela é minha ex-noiva.
    – Ex-noiva? Por que terminaram? Quem terminou?
    – É, desgaste na relação. Foi um rompimento mútuo.
    Quando um cara desses fala que foi "mútuo" é porque foi ela quem terminou, pode apostar. Além do mais, chegou a ser noiva. Pra ter um rompimento num noivado, muito provavelmente, algo aconteceu, não só "desgaste na relação". Mas, sabendo como é complicado esse negócio de romance, não vou descartar totalmente por enquanto.
    Roninho mandou entrar o segundo. Achei curioso quando ele entrou. Era um senhor de idade usando roupas de turista. Eu não aguentei e perguntei para Anne:
    – Não são apenas os jovens que participam?
    – É que nessa temporada a emissora quis apostar em um homem com sabedoria. Eles estão vendo a tendência de professores e palestrantes virando influenciadores e acharam que seria bom colocar um para participar.
    Diferente, não? Pensei que eles davam valor só pra pegação. Ou será que eles teriam... É melhor eu não terminar a pergunta.
    – Quer dizer que o senhor é professor? Qual é seu nome?
    – Professor, historiador e filósofo. Meu nome é Augusto Cyran
    – Certo, Professor Cyran. Como era sua última relação e como terminou?
    – Era uma relação maravilhosa que eu tive com minha esposa. Foram 40 anos de casados. Infelizmente acabou porque ela faleceu.
    Ué? Como? Se o programa tenta criar conflito com ex, como vai fazer isso com um viúvo? O espírito dela vai aparecer? Esse pessoal do show business não sabe o que inventar mesmo.
    Eu até poderia detalhar a conversa com o terceiro participante, mas ele era exatamente igual ao primeiro. Presunçoso, superficial, andava como se estivesse num filme de ação, ostentava suas roupas. Até o jeito de falar era igual. Na hora do almoço eu falei sobre isso com a Anne:
    – Vocês selecionaram dois caras completamente iguais pra participar.
    – Ai, detetive, nem me fala! Eu tive que participar da seleção e vi mais dez iguais a eles.
    – Não dá muita diversidade pras mulheres escolherem, né?
    – Calma que você ainda vai falar com elas. Aí depois você me fala.
    Então começaram as conversas com as participantes mulheres. E mais uma chuva de superficialidade, presunção e ostentação com as duas primeiras. Meio que como uma fosse a outra depois de trocar de corpo. Depois que a segunda saiu eu olhei para Anne que me olhou fazendo uma expressão como quem diz: "Eu não disse?" Eu, simplesmente, não entendo como ela aceita esse trabalho que faz ela passar por isso. Ela passa a nítida impressão de que não gosta daquilo.
    Roninho mandou entrar a terceira participante. Uma moça que parecia um pouco mais jovem que as outras duas. O braço direito dela tinha uma tatuagem que ela fazia questão de deixar à mostra. Parecia ser um pouco diferente das outras duas, um pouco mais enérgica. Os cabelos vermelhos dela chamariam a atenção até mesmo no meio de uma torcida do Internacional. Ela se sentou à minha frente e foi ela quem começou:
    – Uau! Jerry Bocchio! Você é quem é o detetive?
    Opa, Ela me conhece! Um começo diferente como esses merece uma abordagem diferente. Então consultei meu caderno e respondi:
    – Sou eu quem faz as perguntas aqui, mocinha! Ah, não, pera... Abordagem errada, desculpa o grito. Deixa eu ver a página certa do meu caderno aqui... Hum, deixa ver... Ah, achei! Sim, cara testemunha, eu sou um detetive... Ah, não eu acho que ainda tá errado.
    – Gente, eu tô confusa. O que tá acontecendo aqui?
    – Liga não Jéssica, esse detetive sempre dá uma dessas. Mas ele o detetive sim. – Disse Anne, se metendo no meio da conversa.
    – Quer saber? Vou deixar meu caderno de lado e vou voltar pra abordagem padrão. Nome e profissão, por favor.
    – Nossa! Você não me reconhece? Eu sou a Jessy Lins!
    – Não tô lembrando de você não, desculpa. De onde nos conhecemos?
    – Não é isso! Eu sou influencer de cultura pop! Nunca viu meus vídeos nas redes sociais?
    – Aaaah! Eu não sou muito de ficar em redes sociais. Esse negócio de ficar rolando a tela pra cima me dá tontura.
    – Você devia ver mais, então. Você está bem famoso nelas por causa do caso do empresário com a velha rica que está morta.
    – Ah, não! Que saco! Essa não era a parte principal do caso, gente!
    – Pelo visto você não queria essa fama, né? A internet é assim mesmo. Por que você está aqui então?
    – Bom, como todo mundo aqui já sabe, eu vou falar: alguém enviou uma ameaça para a produção do programa e eu fui chamado pra investigar.
    – Uau! Eu vou fazer parte de uma investigação que nem aquelas dos filmes? E com você como detetive? Então eu vou ajudar. Voltando do começo: Meu nome é Jéssica Lins e eu sou influenciadora digital.
    A decisão repentina de colaboração dela me deu ânimo pra continuar:
    – Eu queria saber sobre sua última relação. Vocês eram namorados, casados ou outra coisa?
    – Namorados.
    – Quem terminou a relação e por quê?
    – Ah, nem gosto de falar. Aquele babaca! Eu mal terminei com ele e ele já está com outra.
    – Pelo visto, teve problema então. Você acha que ele seria capaz de se vingar caso te visse com outra pessoa?
    – Ele? Pfff! Ele tem só pose! Que nem um baiacu. Além disso eu não vim aqui pra encontrar outro relacionamento, só vim porque o meu patrocinador é o mesmo do programa.
    Por algum motivo, Roninho achou que iria poder se meter na conversa, aí, enquanto ele falava, eu fui dando uma olhada no meu caderno pra saber se eu tinha alguma anotação sobre essa situação.
    – Jessy, você já veio com essa ideia pro programa?
    – Ai, Roninho! Cansei desse tipo! Eles não valem nada! Eu estou começando a ver um pouco de valor mais em alguns lobos solitários, mais especificamente, alguns que evitam até redes sociais.
    – Ah, mas esse tipo também não...
    – Sou eu quem faz as perguntas aqui, rapaz! A-ha! Agora eu acertei a abordagem! Então, Jessy Lins, como ele ia falando, esse negócio de sair com lobos pode ser perigoso mesmo, além do que, pra adotar animais selvagens precisa de umas autorizações especiais. Não sou especialista nisso.
    – Detetive, você entendeu o que ela...
    – Olha, Roninho... Quer que eu passe pra página 90 do meu caderno?
    – Hahahahaha! Você é engraçado, Jerry! Quando acabar esse caso, você não quer dar uma entrevista no meu canal? Eu posso te ajudar a mudar a sua imagem.
    Então, foi a vez de Anne interromper de novo:
    – Na verdade, a emissora não pretende passar isso pra imprensa... Coisas dos bastidores.
    – Não vai gritar com ela que nem você fez comigo, detetive?
    – Gente! Isso aqui já tá parecendo o Superpop já, com tanta gente interrompendo. Quer saber? Jessy Lins, pode ir, está dispensada. Qualquer coisa eu te chamo de novo, beleza?
    Depois de todas essas conversas, estava eu tentando tomar meu café com um pão na chapa, que nem eu faço na Padaria Nova Caledônia, pra tentar organizar meus pensamentos. O problema é que, no Caribe, eles não sabem fazer isso. Então estava tentando reproduzir o ambiente com um expresso mesmo. E eu vou te falar: que café ralo!
    Enfim, estava eu lá quando Anne apareceu e se sentou à mesa junto comigo.
    – E aí, detetive? Já tem algum palpite?
    – É, foi difícil tirar alguma informação relevante desse pessoal. Mas, eu tenho a impressão de que Jessy Lins tem algo interessante para nós.
    – Por que ela?
    – O relacionamento dela foi o único que acabou em problema, quer dizer, problema passional, né? Já que um deles virou viúvo. Mas, como eu não acredito que o espírito da mulher dele tenha amaldiçoado o programa, eu acho que Jessy Lins é a que tem mais chance.
    – Então, você crava que o motivo é passional.
    – É, então, ainda estou no começo. Talvez possa não ser esse motivo. Pra dar continuidade, eu queria mais informações sobre o patrocinador. Você disse pro Roninho que o patrocinador quer a temporada desse programa independente de ameaça ou não. Por que ele tem tanta confiança que vai dar certo? Eu conseguiria falar com ele?
    – Vai ser difícil, ele só fica na área VIP do restaurante. Poucas pessoas têm acesso.
    – Então, vou bolar um disfarce para nós tentarmos entrar amanhã.
    – Nós, detetive?
    – Sim. Você não disse que a gente está junto nessa?
    Anne se empolgou com a minha decisão. Parecia que ela estava gostando de trabalhar como investigadora. Ela pediu um café também para ir combinando comigo como nós iríamos fazer para entrar na área VIP do restaurante.
    Então, agora eu tenho uma parceira para investigar o caso. Espero que nós sejamos uma dupla entrosada para que o trabalho flua melhor.
    Continua...
  • Jerry Bocchio e o Rapto de Batz – Capítulo I: Como Era Antes

    Meu nome é Jerry Bocchio. Sou detetive particular. Costumo pegar casos que a Polícia rejeita...
    Bom, você já viu essa minha introdução três vezes, né? E agora que você me conhece um pouquinho melhor, tem um pouco mais de intimidade comigo, acho que eu te devo uma explicação. Afinal, como isso tudo começou?
    Só que eu já vou te avisando: essa história é um pouco... Como eu posso dizer? Pesada. É, talvez "pesada" seja a palavra que mais se encaixa.
    Bom, como eu estava dizendo, eu sou um detetive particular que pega casos que a Polícia rejeita, mas não foi sempre assim. Eu trabalhava na Polícia antes de ser detetive particular.
    Eu estava há uns quatro anos trabalhando como investigador. Já tinha tido o meu choque de realidade, ou seja, eu sonhava que teria um trabalho na Polícia, mas a realidade me mostrou algo bem diferente.
    Quando eu sonhava em ser investigador, eu imaginava que seria alguém que iria solucionar crimes, procurar pistas, interrogar suspeitos... Até tinha esse trabalho, mas não com a frequência que eu esperava.
    Muito do que eu fazia lá era preencher formulários. Recebia um chamado? Formulário! Ouvia testemunha? Formulário! Encontrava pista? Formulário! Interrogava um suspeito? Mais formulário! Visitava a cena de um crime? Bom, você já entendeu.
    Nós também tínhamos reuniões todo início do mês para combinar a escala. E naquele 4 de maio de 2015 não foi diferente. Quando não tinha uma situação emergencial acontecendo na nossa jurisdição, o Capitão Lester Gregade distribuía as tarefas semanais para as duplas de investigadores. Podia ser fazer ronda, verificar casos em andamento ou parados, ou atender pessoas na parte das ocorrências. Adivinha qual foi a tarefa para Tom e eu realizarmos aquela semana:
    – Mangalvo e Bocchio, vocês vão atender ocorrências.
    Rapaz, como eu detestava aquilo. As pessoas íam lá só pra fazer boletim de ocorrência e ir embora. Raramente saía um caso bom de lá. Já Tom, nem tanto. Mas eu acho que sei o porquê. Naquela época, ele ainda estava de paquera com a Maria Silveira, a secretária do Capitão Gregade. Naquela época, porque hoje os dois já são casados. Tom aproveitava quando o Capitão Gregade tinha que sair pra ir falar com ela, mais ou menos no estilo Jim e Pam, do The Office. A diferença é que Tom não tinha nem um pouco da desenvoltura do Jim pra falar com ela.
    Tom e eu saímos da sala de reunião em direção às nossas mesas e Tom tentava me animar:
    – Ah, Jerry! Toda vez você fica desse jeito. Não é tão ruim assim.
    – Você só fala isso porque aqui você pode ficar perto da Maria.
    – Fala baixo, poxa! Ela tá olhando!
    – Ué, você não gosta dela? Por que tá incomodado dela olhar?
    – Não, não é isso! É que eu não quero que ela pense que eu sou um cara pegajoso.
    – Como assim, "pegajoso"? Você sua muito quando tá perto dela?
    – Não, Jerry! Não é isso que quer dizer. É que eu... O que aquele menino está fazendo aqui?
    Quando nós chegamos às nossas mesas, um menininho estava sentado, nos esperando. Ele estava muito agitado, tremendo. Estava usando uma roupa azul escuro e uma capa parecida com as dos super-heróis. Aquela roupa me lembrava um super-herói, mas eu não conseguia puxar na memória. Nós olhamos mais perto dele e vimos os olhos dele vermelhos, como se estivesse chorando. Os cotovelos dele também estavam machucados, como se ele tivesse caído e os ralado. Aquela cena nos preocupou.
    Nós dois fomos correndo até ele. Tom se ajoelhou do lado da cadeira onde o menino estava sentado e eu continuei em pé, mas me curvei em direção a ele. Tom já foi logo perguntando:
    – Menino! Você está bem?
    O garoto, com a voz soluçando, respondeu:
    – Não! Meu cachorro foi roubado!
    O cachorro foi roubado? Naquela época, a moda de pais de pet começava a ganhar força, mas ainda assim, não era algo que aparecia comumente na delegacia. Só que não explicava os ferimentos no menino, então eu tive que perguntar sobre isso. A resposta do menino foi:
    – Porque os bandidos me empurraram pra roubar o meu cachorro. Aí eu caí no chão.
    Tom continuou perguntando:
    – Com quem você veio?
    – Eu vim sozinho.
    – Menino, precisamos chamar alguém aqui para te acompanhar. Pode me falar o telefone da sua mãe ou do seu pai?
    Então, o menino levantou a voz de um modo irritado:
    – Não! A gente tem que pegar esses bandidos! Vamos antes que eles matem o Batz!
    – Olha, é que você é menor de idade. A gente precisa...
    – E daí, policial? Eu, sozinho, fui derrotado por eles, mas nós três juntos podemos salvar o Batz. Eu lembro da placa do carro deles. É TUE-0020.
    Como você pode ver, o menino ainda não tinha saído da fantasia, afinal, ele disse "nós três juntos". Eu percebi essa nuance e entrei na fantasia dele:
    – Como é seu nome, menino? Digo... Nome de pessoa mesmo, não alcunha de super-herói.
    Tom olhou para mim de modo esquisito, mas o menino respondeu:
    – Daniel.
    – Olha, Daniel, talvez seja melhor você confiar na Polícia pra isso mesmo. Você deve se preocupar mais com os seus afazeres de super-herói.
    – Mas o Batz também é parte dos meus afazeres. Nós temos que ir, vamos aproveitar que ele ainda não morreu.
    – Como você sabe que ele ainda não morreu?
    – O fantasma dele ainda não apareceu aqui.
    Aí o papo começou a ficar mais estranho.
    – Qual super-herói você é?
    – Eu sou o Doutor Estranho!
    Bem que eu tava achando que aquela capa não era do Superman.
    Tom se levantou e cochichou na minha orelha. Ele falou que, já que eu já tinha criado uma conexão melhor com o Daniel, era pra eu fingir pegar o depoimento do menino só pra pegar informações enquanto Tom ia procurando um responsável. Depois o responsável faria e assinaria o boletim de ocorrência. Eu concordei e assim fizemos.
    Daniel ainda insistia em nós irmos com ele e falava que não dava tempo. Mas, a cada diálogo, ele soltava uma informação nova. O nome dele é Daniel Caezário. Ele tinha 11 anos nessa época. Ele disse que estava brincando com seu cachorro, Batz (nome dado por causa do cachorro do Doutor Estranho), um mestiço de São Bernardo, no Parque Campos Rosados. De repente, dois homens saíram de um carro preto, o empurraram, fazendo com que ele caísse de costas, enfiaram seu cachorro numa gaiola e levaram embora.
    Antes que você me pergunte, sim, eu sei que o nome do cachorro nos quadrinhos termina com "s", não com "z". O menino deu o nome correto para o cachorro, eu só troquei as letras aqui na história porque, vai que tem alguém que trabalha na Marvel lendo isso, né? Eu já estou com medo só de mencionar o fato de Daniel ser fã do Doutor Estranho.
    E sobre o papo do fantasma: até onde eu sei da história do Doutor Estranho, que foi só o que Daniel me falou, o super-herói adotou um cachorro em uma de suas histórias, que é o Bats. O cachorro foi defender seu dono numa luta contra o vilão Loki e morreu, aí o Doutor Estranho começou a viver com o fantasma desse cachorro. Era daí que Daniel acreditava que, se seu cachorro, Batz, morresse, o fantasma dele apareceria.
    Conforme eu ia conversando com Daniel, eu ia percebendo o quanto ele gostava dessas histórias. Acabou lembrando a minha infância, quando ganhei um livro do Sherlock Holmes do meu avô. Eu também queria ser que nem o detetive, eu até andava pra lá e pra cá com uma lupa na mão e um cachimbo de brinquedo que soltava bolhas de sabão. Isso me rendia muita esculhambação na escola. Enfim, eu me identificava enquanto ouvia o menino falar.
    Logo, Tom voltou com Maria ao seu lado e disse para Daniel:
    – Daniel, sua mãe está aqui te esperando.
    Daniel ficou muito bravo com a informação:
    – Nós temos que ir atrás do Batz!
    – Calma, Daniel. Você já passou as informações pro detetive Jerry, certo? Ele é muito bom nisso, não se preocupa. Agora acompanha a gente até aquela sala ali pra gente colocar um curativo nos seus braços antes de ir embora.
    Sim, a gente tem uma enfermaria com curativos básicos na Delegacia. A gente é policial, tem que correr atrás de bandido, carro em alta velocidade etc. Você acha que a gente não se machuca?
    Tom e Maria levaram ele à enfermaria. Enquanto isso, eu, só pra desencargo de consciência, fui ao meu computador para pesquisar a placa de carro mencionada por Daniel. Eu entrei no sistema do Departamento de Trânsito e, adivinha só, a placa não existe.
    Antes que eu pudesse levantar para ir falar com Tom, ele mesmo já tinha chegado e disse, de um jeito meio conformado:
    – Ai, Jerry! É uma pena a gente não ajudar esse menino, viu?
    Eu fiquei espantado com a fala:
    – Como assim, Tom? O menino disse que foi agredido e roubaram o cachorro dele!
    – Ah, Jerry! Eu também estou com esse sentimento, mas o Capitão nunca vai deixar a gente ir atrás de ladrões de cachorro.
    – Ah, é? E se eu disser que a placa de carro não consta no sistema do Departamento de Trânsito? Sabe o que isso significa, né?
    – Eles podem ter adulterado a placa. Mas porque roubariam um cachorro mestiço? E adulto? Se fosse com pedigree, até teria uma explicação.
    – Isso é o que a gente tem que descobrir.
    – Lá vem aquele brilho no olhar de novo. Acho melhor falar com o Capitão antes.
    – Ai, tá bom! Tá bom! Chatice isso, viu?
    E lá fomos nós falar com o Capitão Lester Gregade. Eu expliquei toda a situação e a resposta foi óbvia:
    – Negativo, Bocchio!
    – Mas, Capitão, essa história não está estranha?
    – Bom, talvez o menino confundiu alguma letra ou número da placa. Lembre-se que ele estava sob estresse e caído no chão.
    – Como que ele estava sob estresse se ele não trabalha? A não ser que tenha um esquema de trabalho infantil. Então...
    – Ai, meu Deus!
    – Eita, de novo o senhor com essa conversa religiosa.
    – Bocchio, o caso não parece ter materialidade suficiente para uma investigação. Além disso, parece que você se envolveu emocionalmente com a vítima. Não está autorizado! Vou divulgar o desaparecimento do cachorro e, se alguém tiver informações, eu mando um policial.
    – Tá, tá bom! O senhor poderia me explicar só mais uma coisa antes de voltar para o meu posto, Capitão?
    – O que seria?
    – O que é "materialidade"?
    O Capitão Lester Gregade tinha, e ainda tem, uma mania muito chata de falar difícil. Aí, sempre que eu perguntava o significado da palavra, ele achava ruim. Vê se pode uma coisa dessas?
    Enfim, a mãe de Daniel, uma professora chamada Elisângela Caezário, pegou ele na Delegacia. Daniel saiu chorando, talvez pela decepção sobre o fato da Polícia não ir com ele atrás dos raptores de Batz, como ele gostaria.
    Naquela hora eu estava confuso. Eu não sabia se era porque eu fiquei com muita dó do menino ou se era porque eu achei toda aquela situação estranha demais. Mas algo me dizia para investigar aquele caso e, quem sabe, recuperar o cachorro do menino.
    O problema é que o Capitão Gregade não queria isso. Ele só soltou a informação que Batz estava desaparecido e considerou o suficiente. Se eu quisesse investigar, teria que ser de um jeito que o Capitão, e até mesmo meu amigo, Tom, não ficassem sabendo.
    Quando ninguém estava vendo, eu peguei o endereço que Daniel me deu quando eu fazia o boletim de ocorrência dele e copiei em um post-it. Guardei o post-it na minha carteira e segui normalmente minha rotina na delegacia. Minha intenção era visitar a casa de Daniel depois do expediente para coletar mais informações.
    Tom, às vezes, me olhava meio torto. Parece que ele desconfiava do que eu queria. Mas ele não me perguntou nada pelo resto do expediente, então, fui agindo normalmente.
    Após o expediente, fui para a minha casa. Fiz isso porque não queria levantar suspeita nenhuma de que iria à casa de Daniel. Quando cheguei, troquei a roupa de trabalho por uma mais casual, peguei meu caderno e fui. Saí de noite, por volta das 19:30.
    Não liguei antes porque não queria que a família dele perguntasse algo para a Polícia. Então, fui indo torcendo para que eles estivessem em casa.
    Quando cheguei no prédio onde Daniel morava, uma surpresa: Tom estava na esquina, saindo de seu carro. Eu fiquei um pouco irritado com a situação, não precisava ficar de tocaia, me esperando. Mas, quando Tom me viu, pareceu que ele ficou um pouco surpreso também. Eu fui até ele para falar, já querendo pôr um fim na conversa:
    – Olha, Tom. Eu já sei que você vai falar pra eu não pegar esse caso. Mas não dá, tá bom? Isso aí tem algo por trás que me deixou encafifado.
    – Jerry! É... Não é isso não!
    – Como não? Por que você tá de tocaia aí então? Foi o Capitão que mandou?
    – Na verdade... Eu estava indo na casa do menino...
    – Ué? Pra quê?
    – Eu também fiquei encafifado com essa história. Além do que, né? Coitado do menino.
    – Aaaah! Por que você não me falou que viria então?
    – Eu não queria chamar a atenção de ninguém. E você?
    – Eu também não!
    Bom, parece que nós dois tivemos a mesma ideia. Vai ver era por isso que Tom ficava me olhando torto daquele jeito. Ele devia estar com medo de eu suspeitar de algo e falar para o Capitão. Sinceramente, não sei o porquê. Eu não faria isso com ele. Se bem que, pensando bem, acho que ele também não faria isso comigo.
    Nós dois fomos até a portaria do prédio e tocamos o interfone. Enquanto a mãe, Elisângela, descia para nós atender, eu olhei para Tom e perguntei:
    – Pronto pra desobedecer uma ordem direta do Capitão?
    Um pouco apreensivo, Tom olhou para mim de volta e respondeu:
    – Seja o que Deus quiser.
    Continua...
  • Jerry Bocchio e o Rapto de Batz – Capítulo II: Tem Algo Estranho Aí

    Então, lá estávamos nós, Tom e eu, na portaria do prédio onde morava Daniel, aguardando a mãe dele, Elisângela Caezário, aparecer. Um prédio até que bonito, num bairro de classe média da cidade. Estávamos fazendo aquilo sem que o Capitão Lester Gregade soubesse. Afinal, o Capitão não achava que um caso de um rapto de um cachorro não tinha "materialidade" (ou seja, importância) suficiente para mover uma investigação.
    Elisângela apareceu na portaria e já ficou com uma cara de desconfiada assim que nos viu. Eu tentei dar um sorriso pra dizer que estávamos querendo ajudar, mas a situação deixou o sorriso meio amarelo. Elisângela chegou perto de nós dois e já falou:
    – Policiais, vocês estão investigando o sequestro do Batz?
    Tom e eu nos entreolhamos. Tom ainda estava sem jeito. Eu respirei fundo e decidi ser franco:
    – Então... – Eu e minha mania de começar as frases com "então" – Na verdade... Nós estamos meio que fazendo isso por conta própria hehehe.
    – Por conta própria? Quer dizer que isso não é oficial?
    Tom já falou tentando tranquilizá-la:
    – Não, mas a nossa intenção é que se torne oficial. A gente viu alguns detalhes curiosos no depoimento de Daniel e viemos pegar mais alguns detalhes, só isso.
    Um pouco ressabiada, Elisângela pegou o celular e conversou com o marido. Ela tentou falar baixo, mas, como a minha audição é espetacular, eu consegui ouvir tudo. Ela disse que se nós três não chegássemos em dez minutos sem explicação, que era pra ele trancar as portas e chamar a polícia. Eu, sinceramente, entendo o lado dela. Se dois policiais falassem algo do tipo pra mim, eu também faria o mesmo, quer dizer, se eu fosse casado, né? Ah, você entendeu!
    Elisângela não quis subir de elevador conosco, fomos pelas escadas. Não liguei, é bom pra fazer exercício. No caminho ela foi dizendo que Daniel ainda estava muito abatido com o ocorrido e que, se não fôssemos amáveis, ela iria nos pôr pra fora. Se tivesse um detetive metido a durão lá, com certeza estaríamos ferrados.
    Paramos no terceiro andar. Até que foi de boa. Pra quem costuma ir para as estações Pinheiros ou Vila Prudente do Metrô de São Paulo, isso aí não é nada. A não ser que seja uma daquelas pessoas que ficam paradas em todos os lances das escadas rolantes, eu, sinceramente, não tenho paciência. Escadas rolantes, pra ficar parado, só em shopping, ou se a pessoa tiver problema de locomoção, lógico. E aquela estação Paulista então? É tanta caminhada pra fazer baldeação, que eles até colocaram esteiras rolantes. Sim, esteiras rolantes! E tem gente que fica parada. E ocupando o lado esquerdo ainda, que raiva! Ah, é! Deixa eu voltar pra história.
    Chegamos ao apartamento 32, onde a família de Daniel morava. Elisângela entrou e segurou a porta para nós entrarmos. Assim que passamos pela porta, nós deparamos com o pai de Daniel, Haroldo Caezário, forçando uma cara de durão. Haroldo é um bancário, daqueles que ficam nas mesas de atendimento quando alguém tem um problema com a conta. Geralmente, Tom e eu gostávamos de tirar uma de quem tinha essa atitude com a gente, mas como essa era uma situação onde a gente não podia errar, ficamos quietos. Quem falou por nós foi a Elisângela:
    – Querido, não precisa disso não! Chama o Dany lá pra falar com a gente.
    Haroldo, ainda tentando manter a imagem, falou com uma voz meio áspera:
    – Tá bom, mas quero respeito na minha casa!
    É meio besta, mas tiro o meu chapéu pra criatividade dele. Geralmente, esse tipo tenta fazer uma voz grossa, a mais grossa que consegue, pra tentar intimidar a gente. Ele apostou na voz áspera. Mais ou menos como o Batman fala nos filmes do DCEU. Deu um tom sombrio. Foi fora da caixinha.
    Haroldo voltou com Daniel. De fato, Daniel parecia bem abatido. Perder o bicho de estimação é um baque enorme, ainda mais pra uma criança. Daniel estava sem a fantasia. Pra mim, era uma boa hora para falar com ele, já que ele não estava mais no mundo de super-herói dele. Quer dizer, não sei bem como é, mas me parecia uma boa hora.
    Daniel se sentou no sofá. Como ele não levantava muito a cabeça, escolhemos nos ajoelhar na frente dele. Então, Daniel perguntou:
    – Vocês ainda não acharam o Batz, né?
    Tom e eu nos entreolhamos de novo. Mais uma vez, eu respirei fundo e falei:
    – Ainda não, Daniel. Mas estamos procurando. Só precisamos que... Você nos... Fale mais algumas coisas do que aconteceu.
    Essas minhas pausas foram para procurar palavras que não fossem jargões de investigadores. Afinal, nós estávamos falando com uma criança.
    Elisângela já interrompeu, irritada:
    – Vocês vão pedir pra ele falar tudo de novo? Ele já disse até a placa do carro!
    Tom respondeu a ela:
    – Então, senhora. É que a gente precisa de alguns outros detalhes pra saber onde começar a procurar. Além disso, a placa do carro informada não consta no sistema do Departamento de Trânsito.
    Foi a vez de Haroldo interromper, agora com sua voz normal:
    – Vocês procuraram a placa?
    Que pergunta estranha! Foi o que Tom havia acabado de dizer. Eu respondi:
    – Sim, ué! Quando a gente não acha, é porque pode ter havido uma confusão ou a placa pode ter sido adulterada.
    Daniel gritou, irritado:
    – Eu não confundi nada!
    – Tá bom! Tá bom, Daniel! Eu acredito em você. Só fala pra gente algumas coisas. Por exemplo, em qual parte do parque você estava quando os dois sujeitos apareceram?
    Elisângela não gostou da pergunta, mas Daniel respondeu:
    – Onde eu sempre fico quando estou sozinho lá. Do lado da quadra, atrás da guarita.
    – Atrás da guarita? Quer dizer que tinha vigia lá?
    Elisângela respondeu essa pergunta:
    – A gente conhece o vigia que trabalha naquele horário. Ele trabalhava na escola onde dou aula. Eu peço pro Daniel brincar lá naquele pedaço pra ficar mais fácil para o Seu Elias olhar ele.
    – Me desculpe a intromissão, senhora Elisângela, mas por que o Seu Elias saiu da escola? Ele foi demitido?
    – Ele foi transferido para esse parque. Ele pediu a transferência por que lá é menos agitado.
    Anotei na hora que seria bom conversar com esse Seu Elias.
    – Certo, Daniel! Você lembra se os homens estavam com máscara ou encapuzados?
    – Eles estavam todos de preto, com capuz. Um deles parecia o Fanático e o outro parecia o Mercenário.
    – Fanático e Mercenário são vilões da Marvel?
    – É lógico, policial! Você não lê quadrinhos?
    – É, eu tenho que melhorar nesse aspecto.
    – Você deveria ler! Ia te ensinar a pegar bandidos de um jeito melhor.
    – OK, obrigado pela dica! Quando você diz que eles pareciam os dois, você diz só na forma física? Digo... No tamanho?
    – Não! Eles também eram maus! Igual aos vilões. Só o que parecia o Fanático parecia um russo falando. O Fanático não é russo. E o que parecia o Mercenário parecia um francês falando. O Mercenário não é francês.
    Opa! Um parecia um russo e o outro um francês falando? Isso já é uma coisa. E não venha me falar que é uma criança, pode confundir as coisas e pi-pi-pi-pó-pó-pó. Existem crianças inteligentes, podia ser o caso dele. Anotei que precisava pesquisar quem eram Fanático e Mercenário. E que também eu deveria conhecer mais sobre quadrinhos pra falar com ele, já que esse parecia ser o parâmetro dele.
    Aquilo era tudo o que conseguimos dele. Saímos do apartamento e Elisângela foi nos acompanhando até a portaria. Mais uma vez pelas escadas. Tom aproveitou para perguntar mais algo:
    – Senhora Elisângela, agora que terminamos com o menino, poderia responder só mais umas perguntas?
    – Depende de quais. Lembrem-se de que isso não é oficial.
    – Vocês receberam algum pedido de resgate pelo cachorro?
    – Não! Senão já teríamos pago ou avisado a polícia, pelo menos.
    – Certo! O cachorro incomodava algum vizinho, ou colega por aí?
    – Bom, a síndica não gosta dele. Se bem que aquela mulher não gosta de nada. Por isso que eu achava melhor o Daniel brincar com o Batz no parque.
    – A senhora acha que ela seria capaz de dar fim no cachorro?
    – Do jeito que ela é, não duvido.
    – Pode falar quem ela é?
    – É a Dona Iolanda que mora no 44. Eu não acho certo falar, mas, se foi ela, ela merece.
    Mais uma coisa anotada: conversar com a síndica, Dona Iolanda.
    Muito bem, agora tínhamos um ponto de partida. No dia seguinte, era o nosso dia, na escala, de fazer as rondas na região. Então, nós combinamos de ir até o Parque Campos Rosados para conversar com o Seu Elias.
    Só que antes de nós sairmos, eu resolvi pesquisar quem são os dois personagens que Daniel disse que se pareciam com os ladrões: Mercenário e Fanático. Eu vou falar aqui rapidamente porque, né? Vai que tem alguém da Marvel lendo? Aí eu sou acordado por advogados.
    Fanático é um vilão muito grande, que veste uma armadura que parece um projétil, achei feio pra caramba. O poder dele é uma força além do normal e parece que, quando ele corre, ninguém consegue parar. Talvez seja por isso que a armadura dele pareça um projétil, acho que eu entendi a intenção. Mercenário é outro vilão que tem um tamanho... normal, digamos assim. O poder dele é ter uma pontaria perfeita. Tanto é que a roupa dele tem um alvo desenhado na testa. Também achei feio. Mas, né? São vilões. Aparência não deve ser uma prioridade. Aliás, acho que nem pra heróis também.
    Enfim, as imagens deles me lembrou de uma dupla muito conhecida da Polícia. Só que eles eram ligados a contrabando e tráfico de drogas. Chamei o Tom para mostrar. Tom olhou as fotos dos vilões e me perguntou:
    – Tá! E aí? O que você quer dizer?
    – Tom, você não acha que esses dois não estão lembrando o Tampinha e o Samurai?
    – É, sim. Mas não acho que seriam eles nesse caso. Eles mexem com algo muito maior. Além disso, não esqueça que Daniel é uma criança ainda, talvez ele distorça algumas coisas.
    – Todo mundo distorce coisas, Tom, independente da idade. Isso foi uma coisa que eu aprendi aqui. Além disso, Daniel disse que eles pareciam um russo e um francês falando, lembra? Seria referente aos sotaques dos dois.
    – Sei não, Jerry. Por que eles fariam isso?
    Tampinha e Samurai eram uma dupla de contrabandistas. Alexis Savalovic, o Tampinha, seria o cara que se parece com o Fanático, ele era um imigrante russo. Jean Pierre Mastilho, o Samurai, seria o cara que se parece com o Mercenário, ele era um imigrante francês. Ambos ilegais. Os dois vieram ao Brasil comandar um grupo de criminosos em nome de um traficante internacional conhecido apenas como "The Gamer".
    Podia ser que Tom tivesse razão? Sim! Mas eu não sou do tipo que descarta hipóteses assim. Além do que, eu não conhecia nenhuma outra dupla de criminosos com essas características. A não ser que fosse alguém novo nesse "mercado", claro.
    Do nada, ouvi a voz do Capitão Gregade falando atrás de nós dois:
    – O Mercenário e o Fanático saíram dos quadrinhos para atacar a cidade? Espero que não tenha envolvimento do Norman Osborn nisso.
    Opa, opa, opa! O Capitão lê quadrinhos? É convivendo que a gente conhece, né? Enfim, eu precisei inventar uma desculpa rápido:
    – É... Oi, Capitão! Eu... Tô pesquisando sobre eles porque eu... Comprei um gibi pro meu sobrinho.
    O Capitão fez uma cara de enojado na hora:
    – "Gibi"? Quando se trata de Marvel, é "HQ" ou "quadrinhos" que se fala, fui claro?
    Sim, o Capitão Lester Gregade lê quadrinhos!
    – Agora me responda, Bocchio: qual história você comprou que eles aparecem juntos? X-Men, Vingadores, Vingadores Sombrios, Thunderbolts?
    Tom e eu nos espantamos com o conhecimento do Capitão Gregade sobre histórias de super-heróis. Eu tentei jogar verde pra colher maduro. Como eu vi que um deles era vilão dos X-Men, eu chutei, gaguejando um pouco:
    – X-Men?
    A resposta do Capitão foi imediata, apontando o dedo indicador na minha cara:
    – Errado! Vingadores Sombrios! Vocês estão investigando o roubo do cachorro, não é?
    Rapaz, como o Capitão chegou nessa conclusão?
    – Escutem bem, rapazes, eu vou ser franco com vocês dois. Eu também fiquei sentido com o menino em busca de seu cachorro. Só que vocês são investigadores! Os casos que vocês devem pegar exigem materialidade maior.
    Lá vem ele com a materialidade de novo.
    – Eu preciso seguir as regras aqui, caso contrário, a Polícia vai perdendo credibilidade diante da população. E nós precisamos que a população confie em nós.
    Depois de ouvir esse discurso do Capitão, Tom perguntou:
    – Mas, Capitão, se nós recuperássemos Batz, isso também não traria credibilidade?
    – Você tem um ponto, Mangalvo. Mas, infelizmente, não fui eu quem fez as regras, e as pessoas valorizam mais quem segue regras do que quem põe seus valores à frente delas.
    Eu vou confessar uma coisa pra você: eu demorei um mês pra entender essa última frase do Capitão Gregade. E o pior é que ele tem um pouco de razão. Por mais que tenha um ou outro gato pingado por aí falando que põe seus valores acima de tudo, quando a situação aperta, aí eles cobram que todos andem de acordo com leis ou normas, mesmo que neguem isso. É só ver esse pessoal que acompanha esses advogados do consumidor na televisão.
    Mas não era isso que Tom e eu pensávamos na hora. Quando o Capitão saiu, foi como se aquilo que ele disse tivesse entrado por um ouvido e saído por outro. Nós fomos para a viatura combinando como seria a conversa com o Seu Elias.
    Tinha algo errado nessa história, algo que deixou Tom e eu com a pulga atrás da orelha. Além disso, Batz precisava da nossa ajuda e tinhamos que ser rápidos.
    Continua...
  • Jerry Bocchio e o Rapto de Batz – Capítulo III: Saindo da Rota

    Depois de ouvirmos – e ignorarmos – o sermão do Capitão Lester Gregade, Tom e eu fomos até a nossa viatura dar início à nossa ronda. Nossa intenção era sair um pouquinho, pouquinho mesmo, da rota para passar no Parque Campos Rosados conversar com o tal do Seu Elias.
    Nossas perguntas para ele seriam simples: O que ele viu? Por que não chamou a polícia? E, principalmente, por que ele não acudiu o menino e deixou que ele fosse sozinho para a delegacia? Afinal, ele tinha combinado com a mãe dele de olhar o menino, segundo a própria.
    Quando Tom e eu chegamos ao parque, já fomos procurar pela guarita. A guarita ficava exatamente onde Daniel falou, do lado da quadra poliesportiva do parque. Uma coisa me chamou a atenção: Nós chegamos mais ou menos no mesmo horário que aconteceu o roubo do cachorro. Só que tinham algumas pessoas fazendo cooper, caminhada, tinha até gente jogando futebol na quadra. Como ninguém reparou no que aconteceu? Será que esse dia, ou o dia anterior, era um dia anormal?
    Chegamos na guarita. A guarita não é como aquelas que ficam nas ruas por aí, um mero cilindro de metal, que mais parece um banheiro químico com uma portinha. Não, era uma guarita até que grande, cabiam umas quatro pessoas lá dentro. Tinha uma mesinha acoplada em uma das paredes com um monitor mostrando imagens de uma câmera de segurança. Tinha também uma televisão pequena, uma cafeteira... Olha, eu entendi porque esse Seu Elias trocou a escola por lá.
    Estava lá um homem de meia idade, usando só uma camisa polo cor de vinho e uma calça jeans – ou seja, não era o uniforme – estava sentado assistindo a televisão quando chegamos. Eu já pus o pé na guarita e falei:
    – Senhor Elias Santana?
    O homem quase caiu da cadeira com o susto que levou. Então ele respondeu:
    – Sim, sou eu... É... É que é meu horário de almoço.
    – Não é sobre isso que nós viemos falar. Nós queremos saber o que o senhor viu ontem.
    – Ontem? Como assim?
    Como assim "como assim"? Me pareceu na hora que ele não sabia o que aconteceu. E, pelo visto, para Tom também, pois ele já foi perguntando:
    – O senhor estava trabalhando na guarita por volta deste horário ontem, senhor Elias?
    – É... Siiiim!
    O Seu Elias estava totalmente intimidado com a nossa presença. E, claramente, estava tentando nos enganar. Então eu resolvi colocar as cartas na mesa:
    – Olha, não precisa tentar nos enganar senhor Elias. O que aconteceu ontem aqui foi que um menino foi atacado por dois homens e teve seu cachorro roubado. O nome Daniel Caezário lhe é familiar?
    O Seu Elias esbugalhou os olhos trocando a feição de medo para feição de preocupação:
    – O Daniel foi atacado? Como ele está?
    – Ele está fisicamente bem agora. O problema é que logo após o ataque e o roubo do cachorro, ele foi à delegacia sozinho com feridas no corpo.
    Após a minha fala, Seu Elias pôs a mão na testa, fazendo um rosto de agoniado. Aquele gesto assumia algum tipo de culpa. Então, Tom perguntou de novo:
    – Senhor Elias Santana, vou repetir a pergunta: o senhor estava aqui na hora que aconteceu essa ocorrência?
    – OK, OK! Eu não estava aqui nessa hora. Eu fui ao mercado comprar umas besteiras.
    – Você tem autorização pra sair a hora que quiser, é?
    – É... Não! Mas aqui nunca acontece nada. É um bairro nobre no meio da tarde. Quem ia ser doido de fazer algo aqui? Ainda mais que esse parque é cheio de câmeras de segurança.
    – Você não só não cumpre com o seu trabalho como também não cumpre com a palavra que deu para a mãe do menino...
    Enquanto Tom ia dando esse esporro no Seu Elias, eu me toquei das câmeras de segurança e vi o monitor em uma das mesas. Então eu interrompi Tom e perguntei:
    – Escuta, Elias, você consegue as gravações dessas câmeras?
    – Sim. Eu só preciso do mandado pra solicitar pra empresa.
    Aí ferrou. Como que íamos pedir um mandado na delegacia sendo que estávamos investigando isso por fora? E o Capitão ainda nos deu ordens expressas pra não investigar. Tom e eu logo nos calamos e nos olhamos, preocupados. Seu Elias, vendo o silêncio, perguntou:
    – É só vocês ligarem na delegacia. Façam isso aí e eu já solicito.
    Tom e eu continuamos sem falar. Eu não sei no que ele estava pensando na hora, mas eu queria inventar uma desculpa pra pedir a gravação. Então eu acabei falando:
    – Aaaah! Só tem esse jeito mesmo, né?
    – Pra eu passar pra terceiros, sim. Vocês também trabalham pro governo, sabem como é esse negócio de burocracia.
    – Tá certo, deixa eu pegar meu celular aqui então.
    Eu enrolei pra pegar o celular e pra ir digitando. Eu queria pensar em algo pra driblar essa situação sem ter que sair de lá. Seu Elias logo desconfiou:
    – Vocês dois são policiais mesmo ou são detetives particulares?
    Tom respondeu automaticamente:
    – Somos policiais! Aqui o distintivo.
    – Estranho! Por que essa demora pra ligar para a delegacia então? Pensando bem, se o Daniel está bem, por que a investigação do roubo do cachorro?
    Aí foi a minha vez de falar automaticamente:
    – Quanta insensibilidade! E estranho é você! Fica aí cabulando o trabalho e agora vem falar de burocracia?
    – "Cabulando o trabalho"?
    – É, isso mesmo!
    Seu Elias se recostou em sua cadeira giratória e cruzou os braços, de um modo mais malicioso:
    – Ah, acho que eu tô entendendo! Vocês estão investigando sem a autorização do seu superior, não é?
    Que saco! Será que ele já passou por isso antes pra matar a charada desse jeito?
    – Se preocupa não, se preocupa não! Eu posso pedir as gravações pra ver aqui na guarita com vocês. Afinal, eu também me preocupo com o Daniel. Só quero uma condição: Nada de me delatarem pro meu chefe!
    Tom e eu nos olhamos de novo. Não tinhamos pra onde correr, afinal, também estávamos desobedecendo ordens. Acabamos aceitando as condições. Se o Capitão Gregade ficasse sabendo...
    Seu Elias virou a cadeira giratória, pegou o telefone e disse:
    – Beleza! Me passem o local e o horário pra eu pedir. Enquanto isso, podem se sentar aí e pegar um café e umas bolachas. Vai demorar mais ou menos uma hora e meia pra ficar disponível. Enquanto isso a gente vai batendo um papo nesse lugar monótono. Mi casa és su casa.
    Uma hora e meia? Nós iríamos ficar uma hora e meia a mais fora da nossa rota! Durante a espera, Seu Elias ficava puxando assunto com a gente, falando de futebol, de política e de como os jovens não respeitam as tradições. Tom e eu ficávamos apenas dando algumas respostas aqui e acolá, pois nossa preocupação maior era com o tempo de espera na guarita. A torcida para que não acontecesse nada nunca foi tão grande.
    Depois desse tempo todo, Seu Elias recebeu a ligação dizendo que estava disponível. Ele colocou no monitor e nos chamou para ver. Minha intenção na hora era ver se os dois homens que atacaram Daniel cometeram algum erro que ajudasse a revelar sua identidade.
    O vídeo mostrava Daniel chegando com Batz, seu cachorro, para brincar. Daniel estava vestido do mesmo jeito que apareceu na delegacia naquele dia. Ele ficava brincando com Batz até que, por algum motivo, Batz começou a ficar muito agitado, latindo e abanando o rabo para a direção da saída do parque. Quando Batz deu a entender que ia correr, Daniel percebeu e segurou sua coleira. Depois de muito esforço, Daniel conseguiu amarrar a coleira num dos postes de iluminação do parque.
    Foi então que os dois sujeitos apareceram em cena. Ambos encapuzados e com roupas furtivas pretas. O grandão estava com uma peça de carne na mão direita, explicando, talvez, a agitação do cachorro. Além disso, mostrando que eles foram lá justamente pra roubar o cachorro.
    Daniel se pôs na frente, mas o grandão jogou a carne longe e empurrou Daniel para frente, fazendo ele cair de costas no chão. O outro puxou uma katana, cortou a corrente que prendia Batz e levou ele embora. O grandão correu atrás. Daniel ficou caído no chão até que uma senhora, que fazia caminhada, o acudiu e o levou para fora da área de gravação. Fim de cena.
    Eu, sinceramente, não entendia porque isso não era caso de polícia. Embora o roubo não tivesse a tal "materialidade" que o Capitão tanto se referia, o modo como ele foi feito foi brutal. Um deles agrediu uma criança, empurrando ela pra longe e o outro levou uma katana. Uma katana! Pra quê alguém levaria uma katana pra isso? A não ser que fosse um lunático.
    Foi então que eu me dei conta e falei para Tom:
    – Tom, você percebeu que o cara usou uma katana pra cortar a corrente, né?
    – Sim, mais um ponto pra sua suspeita. Vamos atrás também daquela peça de carne que o outro jogou pra longe. Vai que tem alguma coisa nela.
    Tom lembrou outro ponto importante do vídeo. Também teve a senhora que acudiu Daniel, mas para identificar quem era, precisaríamos do vídeo, e consequentemente, do mandado. Então fomos torcendo pra ser o suficiente.
    Nós três saímos da guarita para procurar a peça de carne. Tom, Seu Elias e eu. Não pedimos para Seu Elias ajudar, mas ele já se considerava nosso amigo. Esses trabalhos onde a pessoa fica isolada devem deixar muito carente.
    Fomos procurar em um lugar aproximado de onde o grandão teria jogado a carne. Não demorou muito e achamos ela jogada no meio de um canteiro de flores. Tom abriu o saco de evidências e eu coloquei a carne lá dentro, depois de calçar minhas luvas, claro. Era uma peça de contrafilé com a capa de gordura aparada. Estranho, foi preparada justamente pra isso?
    Enfim, nos despedimos do Seu Elias e voltamos à nossa viatura para terminar a ronda. Iríamos chegar atrasados na delegacia, então seria bom combinarmos uma desculpa menos esfarrapada possível. O Capitão Lester Gregade é muito bom em pegar mentiras.
    Só que, por algum motivo, eu estava empolgado com esse caso. Nós simplesmente interrogamos uma pessoa e coletamos uma prova, sem formulário nenhum. Sem dar satisfação, sem protocolo...
    Tom, por outro lado, estava nervoso. O rosto de apreensão dele enquanto dirigia demonstrava que descumprir ordens diretas do Capitão Gregade era um desafio.
    Porém, nós dois tínhamos um objetivo em comum: nós tínhamos que resgatar Batz.
    Continua...
  • Jerry Bocchio e o Rapto de Batz – Capitulo V: Uma Ajuda Tardia

    O caso do sequestro do cachorro Batz tomou proporções que nem eu esperava. Batz morreu por causa de um ato impensado de Tampinha. E agora, os dois seqüestradores, Tampinha e Samurai, também estão mortos. Isso indicava ser queima de arquivo.
    Só que, naquele momento, Tom e eu estávamos chocados ainda com toda aquela situação. Além disso, eu também estava irritado com o Capitão Lester Gregade. Ele se opôs à nossa investigação desde o começo por causa da tal "materialidade", e agora que o caldo azedou, ele vem oferecer ajuda.
    Nós voltamos para a delegacia. Tom e eu fomos para as nossas mesas tentar esfriar a cabeça. Enquanto isso, o Capitão Gregade ia dando continuidade à sua rotina como se nada tivesse acontecido. Aquilo me irritou. Eu me levantei e fui para a sala dele. Agora ele ia ouvir:
    – E aí, Capitão? Não tem mais nada pra falar pra gente?
    – Jerry, agora não é hora pra isso.
    – Como não é hora pra isso, Capitão? Dois capangas foram mortos, provavelmente, por queima de arquivo. Isso mostra que o caso do Batz não tinha essa falta de materialidade assim.
    – Bem, você não está errado.
    – Aha! Tá vendo como o senhor precisa confiar mais no meu trabalho de detetive, Capitão? Eu sei que qualquer caso pode ser importante pra pegar alguém maior. Que nem aquele americano lá, o Tony Soprano, que foi pego porque não pagava direitos trabalhistas.
    – Na verdade foi Al Capone. E ele foi pego por sonegar impostos.
    – Aaaah! Mas o senhor entendeu onde eu quero chegar.
    – Jerry, eu entendo a sua revolta. Só que nós, da Polícia, temos protocolos a seguir para mostrar que somos confiáveis. Além disso, assim como você se reporta a mim, eu também tenho superiores a quem devo me reportar. Se eles virem que estamos quebrando os protocolos, pensarão que nossa delegacia é uma bagunça.
    – E qual o problema de ser bagunçado? Desde que a gente faça o nosso papel, não tem problema uma ou outra regra ser quebrada. Ainda mais quando a regra se trata da importância de um caso.
    – Olha, Jerry, você e o Tom se envolveram demais nesse caso. Tirem uma meia hora pra tomar um café, esfriar a cabeça e depois voltem aqui para planejarmos os próximos passos da investigação.
    Essa atitude não era comum no Capitão Gregade. Pelo visto, ele tinha consciência de seu erro, mas não queria admitir por causa de sua posição como chefe. Então, sem discutir mais, saí da sala do Capitão, fui até a mesa do Tom e chamei ele para irmos até a Padaria Nova Caledônia. Tom resisitiu um pouco no começo, mas quando eu expliquei que foi uma sugestão do próprio Capitão, ele foi.
    Quando chegamos na padaria, nos sentamos em uma das mesas perto da janela. Aí o Seu Rogério veio nos atender:
    – Opa! Se não são os meus investigadores favoritos de volta! O que aconteceu? Tão de greve?
    Hoje, quando eu chego na Padaria Nova Caledônia, o Seu Rogério me chama apenas de J.B. Mas quando eu trabalhava na Polícia, ele falava em alto e bom som, pra todo mundo ouvir que eu era investigador. Como isso criava um clima ds apreensão no ambiente, vez ou outra eu pedia pra ele não falar isso tão alto, mas nesse dia eu estava nervoso, então, apenas fiz o meu pedido pra evitar de descarregar nele:
    – Olha, Seu Rogério... Só um pingado e um pão na chapa, vai.
    – Xiiii! Pedindo o café da manhã depois de já ter tomado café da manhã? O caso tá difícil?
    – É, tá complicado mesmo! Mas por enquanto eu só quero... Atchim! Atchim!
    – Ô Zé Maria! Tá fumando perto da chapa de novo, rapaz?
    Enquanto eu ia espirrando descontroladamente por causa da minha alergia ao cheiro do cigarro do Zé Maria, Tom foi falando por mim:
    – Ele tá irritado porque o Capitão não deixou a gente investigar um caso que ele achava sem importância...
    – Atchim!
    – Agora esse caso desgringolou numa coisa gigantesca e, aí sim, o Capitão resolveu oferecer ajuda. Confesso que eu também estou bastante chateado.
    Seu Rogério ficou preocupado após essa fala do Tom:
    – Tá envolvendo assassinato?
    – Atchim!
    – É... Eu acho que a gente não tá autorizado a falar muitos detalhes.
    – Xiii! Então, tem isso envolvido, sim!
    – Atchim!
    – Rapaz, você nunca pensou em tratar isso num otorrino não? Vai encher a minha mesa de meleca aí.
    – Ai... O que é isso?
    – Otorrinolaringologista. Médico que cuida do nariz, garganta, ouvido... Toda essa região aí. Essa sua alergia a fumaça de cigarro não é normal, cara!
    Naquela época, eu não tinha passado ainda no médico. Até porque eu não sabia em qual médico ir. Otorrinolaringologista, pra que um nome desses? Uma palavra com tantas letras deveria ser proibida.
    Após mais alguns espirros, veio também uma situação constrangedora de várias pessoas estarem olhando meu nariz escorrendo. Sim, eu sei, eu deveria ter ido ao banheiro pra evitar o constrangimento, o problema é que eu não estava raciocinando direito na hora. O Seu Rogério me deu um pano para limpar e enquanto eu ia limpando, eu fui desabando mais um pouco:
    – O pior não é isso, viu, Seu Rogério? Quando a gente estava investigando o caso por fora, a gente ia ter uma pista muito boa. O problema é que íamos precisar de um mandado.
    Foi quando Tom levantou a cabeça subitamente, olhando para mim surpreso e perguntou:
    – Você fala do vídeo gravado pela câmera de segurança do parque?
    – Sim, esse mesmo.
    – Jerry, agora a gente pode conseguir um mandado! O Capitão Gregade tá ajudando agora.
    Minha mente clareou nessa hora:
    – É mesmo! Vamos falar com o Capitão logo... após eu tomar o café que está chegando.
    Engoli o café e o pão na chapa e voltei correndo com o Tom para a delegacia. Fomos direto à sala do Capitão Gregade e contamos essa história a ele. Com os detalhes que lembramos da gravação a tudo. O Capitão Gregade ouviu tudo e foi raciocinando em seguida:
    – Quer dizer que teve uma testemunha que viu tudo e ainda foi socorrer o menino, Bocchio?
    – Sim, Capitão! O que estamos suspeitando é que deve ter sido ela quem trouxe Daniel para a delegacia.
    – E por que ela não entrou com ele? Ou por que não chamou os pais para vir?
    – Pois é, isso é o que não encaixa.
    O Capitão sentou à sua mesa e pegou o telefone:
    – Eu vou emitir o mandado pra vocês. Vão atrás dessa gravação enquanto eu contato a família do menino para ver se ele pode vir identificar a senhora da gravação.
    Após a emissão do mandado, eu o peguei com o Capitão e fui com o Tom para o Parque Campos Rosados mais uma vez. Uma coisa que eu fui me tocando no caminho é que, voltando para lá, nós íamos ter de falar com o Elias mais uma vez. Fui lá torcendo para que a carência dele não nos atrapalhasse de novo.
    A ajuda do Capitão Lester Gregade veio, bem tarde, mas veio. Naquela hora eu sentia que, agora sim, nós iríamos pegar o mandante do crime. E Batz iria descansar em paz.

    Continua...
  • Jerry Bocchio e o Rapto de Batz – Capitulo VI: Dúvidas e Mais Dúvidas

    Tom e eu fomos o mais rápido possível para o Parque Campos Rosados falar com Elias. Agora, com o mandado na mão, vamos poder ter acesso à gravação do dia em que o cachorro Batz foi sequestrado e, enfim, saber quem era aquela senhora que acudiu o menino Daniel, o dono do cachorro. O problema que não contávamos – se bem que eu já contava um pouco – era a carência de Elias.
    Elias passava todo o seu expediente sozinho na guarita do parque. Então, sempre que aparecia alguém pra falar com ele, ele dava um jeito de segurar a pessoa lá. Hoje eu até entendo o lado dele. Trabalho sozinho no meu escritório uma boa parte do expediente e isso já me deixa agoniado. Depois que eu conheci a Anne Gonzalo naquele caso do reality show, então... digo... deixa isso pra lá! Voltando para o caso, a reação de Elias quando nos viu chegando na guarita foi imediata:
      – Tom e Jerry, a dupla de investigadores que tem nome de desenho!
    Sim, foi daí que Tom pegou a ideia de chamar nós dois de "Tom e Jerry". Ele nunca tinha assistido o desenho, só foi na do Elias mesmo.
    Minha reação foi só mostrar o mandado para ele e falar:
      – Senhor Elias Santana, não temos tempo para conversas. Aqui está o mandado, solicite o vídeo para a empresa de segurança para levarmos à Polícia. 
      – Rapaz! Teve reviravolta no caso, é? 
      – Senhor Elias Santana, por favor!
      – Calma, detetive! Eu vou pedir, sim! Só me fala o que aconteceu.
      – Não estamos autorizados a falar.
      – Teve assassinato?
    Por que toda vez que a gente fala que não está autorizado a dar detalhes do caso, a outra pessoa já parte pra suposição de assassinato? E o pior é que dessa vez tinha.
    Tom ficou um pouco irritado com a atitude de Elias e entrou na conversa:
      – Senhor Elias Santana, faça logo o que tem que fazer ou vamos te enquadrar por obstrução da justiça!
      – Eita! Tá bom, tá bom!
    Elias foi até a sua cadeira resmungando:
      – Policial é tudo igual mesmo! Uma hora, são baita amigos, depois, vão só com formalidades e ameaças.
    Não sei de onde que o Elias tirou que queríamos ser amigos dele. Enfim... Elias ligou para a empresa de segurança, solicitou a gravação e depois que desligou o telefone, virou para nós e disse:
      – Eles disseram que vai demorar uma hora e meia pra gravação ficar pronta. Enquanto isso, podem se sentar aí, pegar um café, bolachas... mesmo vocês estando tão carrancudos desse jeito, eu ainda sou gentil.
    Eu acho até hoje que o Elias inventava esse tempo de espera só pra ficar conversando com a gente na guarita. Como não tínhamos muita opção, ficamos lá. Mandei uma mensagem para o Capitão Gregade falando que ia demorar e me sentei em uma das cadeiras. Elias, que estava com vontade de falar, continuou falando:
      – Por isso que eu me dou melhor com detetives particulares. Eles não têm essa formalidade toda e esses protocolos todos, então, conversam mais amigavelmente.
    Eu achei curioso esse negócio de detetive particular não ter protocolo. Eu tentei manter minha seriedade na hora, mas a minha reação à fala de Elias foi com uma pergunta que não escondia minha curiosidade:
      – Humpf! Não tem protocolo, é? 
    Tom achou estranho. Me olhou com a mesma cara do rapaz que não estava entendendo algo no meme. Enquanto isso Elias continuou falando:
      – Sim, isso mesmo! Vocês dois provavelmente estão aqui desse jeito porque aconteceu algo no caso que fez com que a Polícia tornasse ele oficial. Porque eu lembro que da outra vez vocês vieram aqui investigar sem a autorização, tanto é que nem ligaram pedindo um mandado. Agora aparecem com o mandado na mão. 
    Esse Elias é bom de suposição, hein? Talvez ficar vigiando crianças desenvolva essa habilidade. Afinal, sabe como as crianças são imprevisíveis, né? Ele continuou:
      – Mas eu entendo essa carranca de vocês dois. O capitão, delegado ou sei-lá-o-quê não deixa vocês falarem por protocolos internos. Mas se fossem detetives particulares, teriam falado e eu até poderia ajudar.
    Não, ele não poderia ajudar. Ele só queria um motivo pra interagir com pessoas. Mas essa informação de detetives particulares não precisarem seguir protocolos me deixou curioso. Foi nessa hora, meus amigos, que a semente da dúvida foi plantada em minha cabeça. 
    Depois da tal uma hora e meia, Elias salvou a gravação num pen drive e nos deu. Se despediu de nós como se fossemos colegas de sinuca de longa data e, aí sim, voltamos para a delegacia. 
    Durante o caminho de volta, na viatura, Tom dirigia meio ressabiado. Ele olhava para o caminho, mas me olhava de lado de vez em quando, como quem queria me dizer algo. Eu não aguentei tanto incômodo e falei eu mesmo:
      – O que foi, Tom? Por que tá com essa cara? 
      – Nada... nada de mais. Eu só estranhei algo.
      – Pode falar o que é.
      – Essa história de detetive particular. Você não tá interessado não, né? 
    Quando seu parceiro vira seu amigo, é difícil esconder algo dele. Principalmente se ele for um investigador que nem você. 
      – Não, Tom! Eu só fiquei curioso com esse negócio de não seguir protocolos. 
      – Olha, Jerry! Você tá muito apegado com isso, viu? Regras também podem ser boas. Pelo que eu já vi do meu trabalho, se elas não existissem, muitos colegas nossos seriam extremamente abusivos. Aliás, alguns desses detetives particulares são assim também. Se não existirem limites, aí quem pode acabar cometendo os crimes somos nós. 
    Tom tinha um ponto que eu não tinha levado em consideração. Eu também já vi muitos colegas que se achavam justiceiros. Nem mesmo o Capitão Gregade tinha me falado sobre isso. Mas eu também achava meu argumento válido.
      – É, eu sei, Tom. Só que, sei lá, e se estiverem pegando pesado demais nessas regras? Olha o nosso caso, por exemplo: por causa de uma regra besta, que não deixava que investigássemos oficialmente, o caso saiu do controle. Agora temos dois assassinatos em mãos pra investigar. Bom, três, né? A gente ainda não sabe o mandante do sequestro.
    Tom continuou dirigindo e, depois de uma bufada, só me disse isso:
      – Olha, Jerry: como seu amigo, eu só te digo para pensar muito bem antes de tomar uma decisão dessas na sua carreira. Do mesmo jeito que os detetives particulares não precisam seguir os protocolos da Polícia, eles também não têm a proteção e os benefícios. 
    Depois dessa fala de Tom, nós ficamos em silêncio pelo resto do caminho até a delegacia. Ele tinha outro ponto, isso colocou mais dúvidas na minha cabeça.
    Quando chegamos à delegacia, fomos direto à sala do Capitão Gregade levar o pen drive com a gravação da câmera de segurança.
    O Capitão Gregade pegou o pen drive e disse para nós o acompanharmos até a sala de depoimentos, onde já estariam Daniel, seus pais e o advogado da família. Bom, pelo menos deveriam estar lá, né? Porque assim que saímos da sala do Capitão, Haroldo Caezário, o pai de Daniel, interrompeu nosso caminho até a sala de depoimentos. 
    Haroldo não estava mais com o ar imponente que ele apresentou na primeira vez que falamos com ele. Muito pelo contrário, ele parecia bem apreensivo. Não veio mais falar com a voz do Batman, estava falando baixo:
      – Olha, policiais... Vocês... vão insistir nessa investigação mesmo?
    O Capitão, sim, respondeu de modo imponente:
      – Vamos sim, senhor Caezário. Com licença. 
    Mais uma vez, Haroldo impediu a nossa passagem e falou quase num tom de súplica:
      – Não precisa não! O meu filho já passou por bastante estresse nessa história toda. Era só um cachorro, pra que isso tudo?
    O Capitão Gregade olhou Haroldo com mais firmeza.
      – Senhor Caezário, por que toda essa comoção para tentar impedir o nosso trabalho?
      – Não, Capitão! Nada! É que... o meu filho...
      – Então sugiro que saia do nosso caminho para que possamos continuar. 
    O modo como o Capitão Gregade falou deixou Haroldo acusado. Ele, sem dizer mais nada, mas ainda com um semblante muito preocupado, liberou o caminho.
    Eu percebi que Haroldo se comportava estava muito estranho. Eu entendia que talvez fosse mesmo a preocupação com a saúde mental do filho. O problema é que a atitude dele indicava algo além disso. Eu fiquei um pouco encucado com isso na hora.
    Só que não tive muito tempo pra refletir isso na hora. Logo chegamos à sala de depoimentos. O Capitão Gregade abriu a porta e lá estavam Daniel Caezário, sua mãe e o advogado da família. Daniel parecia bem triste mesmo, afinal, se passaram poucos dias da morte de seu cachorro.
    Também notei que Daniel não estava mais vestido como super herói. Sinceramente, eu estava confuso na hora. Se por um lado, Daniel saiu um pouco do mundo de fantasia, por outro, essa saída se deu por causa de algo trágico. Então, não dava pra saber se a conversa com ele seria mais fácil ou não. Além disso, também tinha a presença do advogado, que provavelmente ia tentar podar nosso trabalho. 
    Além disso, a conversa que tive com Tom no carro ainda ecoava na minha cabeça. O trabalho na Polícia que eu tinha não era do jeito que eu havia imaginado, mas Tom me deu um bom motivo do porquê desse excesso de protocolos.
    Eram muitas dúvidas na minha cabeça. Eu esperava que a conversa com Daniel e sua família poderia sanar algumas.
    Continua...
  • Jerry Bocchio e o Rapto de Batz – Capitulo VII: Tudo Vai Ficando Estranho

    Já estávamos todos nós na sala de depoimentos: o Capitão Lester Gregade, Tom, Daniel Caezário, sua família, o advogado da família e eu. Ninguém falava nada, apenas observávamos o Capitão Gregade colocando o pen drive no computador e deixando o video pronto para mostrar. Quer dizer, quase todos, Daniel não esboçava reação.
    Após vários cliques no mouse, o Capitão deixou o video no momento em que a senhora aparece para acudir Daniel. O Capitão Gregade virou o monitor para todos na mesa e disse:
    – Muito bem, o vídeo esta no momento certo. Eu só preciso que Daniel me fale se reconhece a senhora do vídeo.
    Ainda cabisbaixo, Daniel só disse:
    – Ela mandou eu não falar.
    Eita, como assim? Ela estava tentando se esconder da Polícia? Pra ter uma atitude dessas, só se for essa a explicação mesmo. Elisângela, a mãe de Daniel, interveio na conversa:
    – Daniel, acho que já passou da hora de você falar quem era a mulher que foi te acudir na praça.
    – Mas, mãe... ela disse que se eu falasse ia acontecer algo ruim comigo!
    – Ela te ameaçou? Daniel, você subiu no carro de uma estranha que te ameaçou e não me disse nada?
    Ela ameaçou o menino! Significa que tem coisa aí. O Capitão Gregade foi o próximo a falar:
    – Daniel, pode falar agora. A Polícia está no caso agora.
    Tão compreensivo quanto um robô, não? Mesmo com essa abordagem a lá atendimento eletrônico, Daniel seguiu falando que não. Além disso, ele se recusava firmemente a olhar para a imagem no monitor.
    Haroldo, o pai de Daniel, por sua vez, ficava insistindo para que terminássemos. Ele dizia que estávamos pressionando demais Daniel.
    Eu comecei a pensar na cena que estava vendo. Elisângela questionou Daniel sobre ele ter aceitado a carona de uma estranha. Só que Daniel pareceu sempre ser obediente à sua mãe, tanto é que nunca deixava de brincar no espaço sugerido por ela no Parque Campos Rosados. Então, eu perguntei, só por desencargo:
    – Daniel, essa senhora era uma estranha mesmo ou você já conhecia ela?
    Daniel ficou apreensivo, como se tivesse escondendo algo mesmo. Talvez fosse um indício de que eu estava no caminho certo. Então eu sugeri ao Capitão:
    – Capitão, por que não rodamos o video para a senhora Elisângela mesmo? Vai que ela conhece a pessoa.
    – Bom, não custa nada tentar. Você aceita, senhora Caezário?
    – Pode ser.
    O Capitão Gregade deu o play no vídeo, mesmo com os protestos de Haroldo. Aquilo já tinha passado dos limites. Elisângela olhou bem para a tela e, no momento em que a senhora se vira, no vídeo, Elisângela solta:
    – A Dona Iolanda!
    Dona Iolanda era a síndica do prédio onde a família morava. A Elisângela falou dela na primeira vez que falamos com eles. Eu tinha anotado no meu caderno que deveria falar com ela, mas devido a tudo o que foi acontecendo no caso, acabei não fazendo. Elisângela continuou:
    – Bem a cara mesmo dessa mulher. Carrancuda, mal humorada. Aposto que ela pediu pra não ser citada porque fazer boas ações deve corroer a alma dela.
    Bem, já deu pra perceber que a Elisângela não vai muito com a cara dela, né? Mas o motivo da Dona Iolanda ter feito tudo aquilo, com certeza, não era o sugerido pela Elisângela. E pelo visto, o Capitão Gregade também pensava assim:
    – Talvez não, senhora Caezário, vamos precisar falar com ela. Por enquanto, vocês estão dispensados.
    – Mas, Capitão, ela ameaçou o meu filho! Se vocês aparecerem lá, ela vai supor que o Daniel falou dela pra Polícia. E se ela resolver fazer algo?
    – Não se preocupe com isso, senhora Caezário. Vou te passar algumas instruções quanto a isso.
    Enquanto o Capitão ia conversando com a Família Caezário sobre os procedimentos para evitar alguma represália, eu tive um estalo:
    – Capitão, acho melhor a gente deixar o senhor Haroldo por mais uns instantes.
    – Eu? Por quê? Eu não fiz nada!
    – Senhor Haroldo, o senhor me desculpe, mas o seu comportamento aqui na delegacia foi um pouco fora do normal. Eu sei que o senhor se preocupa com a sua família, mas aquilo foi exagerado.
    – Eu preciso voltar pro trabalho, policial. O meu gerente não vai gostar de saber que eu fiz um depoimento na delegacia. Ainda mais num caso envolvendo assassinatos.
    O Capitão Gregade já estava meio aborrecido com as tentativas de Haroldo de impedir o depoimento de Daniel. Mas, depois dessa última fala de Haroldo, aí que ele se encasquetou também:
    – Senhor Caezário, quem te falou sobre assassinatos?
    – Foi... o senhor, ué?
    – Não, nós não estamos divulgando os detalhes do caso ainda. Bocchio e Mangalvo, foi algum de vocês que disse?
    – Eu, não!
    – Negativo!
    O Tom fala assim mesmo perto do Capitão até hoje. O Capitão Gregade só deu a ordem:
    – Bocchio e Mangalvo, preparem a sala. Senhor Caezário, vamos lhe fazer mais algumas perguntas.
    Um pouco assustada com a situação, Elisângela saiu e levou Daniel com ela para fora da delegacia para ficarem esperando Haroldo. Haroldo continuou na sala, sentado à mesa, com a mão na testa, parecia que ele previa algo ruim vindo.
    O advogado da família, que até então, não tinha falado nada, soltou um "comporte-se", meio discreto, para Haroldo. Após essa fala do advogado, Haroldo tirou a mão da testa e ficou sentado reto na cadeira.
    Tom e eu fomos desconectando o computador e colocando no carrinho serviço. Tom levou o carrinho para fora da sala enquanto eu ia colocando mais duas cadeiras na mesa. Enquanto eu ia fazendo isso o advogado, Rubens Cobrelucci, ia cochichando no ouvido de Haroldo. Agora ele resolveu trabalhar, né? Ao ver a cena, o Capitão não aguentou:
    – Está boa a conversa?
    O advogado Rubens resolveu falar pela primeira vez:
    – O senhor não tem o direito de caçoar do meu trabalho, sabia?
    – Não estou caçoando. Só avisando que essa atitude repentina torna tudo muito suspeito.
    – Suspeito de quê? Tem alguma acusação contra o meu cliente? Alguma prova?
    Eis aí o tal "você não tem provas" ou similares. Quem já leu meus outros casos, sabe o que eu penso dessa frase. Porém, dessa vez, não tinha muito o que provar mesmo. O advogado continuou, de um modo meio arrogante:
    – Vocês aqui não têm nada na sua investigação, não é mesmo? Estão tentando tirar alguma informação do meu cliente na base da intimidação?
    O Capitão Gregade tem um certo tipo de casca contra esses advogados mais abusados. Ele não sai do sério tão fácil. E, nessa ocasião, não foi diferente:
    – Eu só quero saber como o senhor Caezário ficou sabendo dos assassinatos, sendo que não estamos divulgando detalhes da investigação. Foi como eu falei anteriormente: nós só vamos fazer mais algumas perguntas.
    – Todo mundo viu no jornal aqueles dois mortos!
    O Capitão Gregade ia falar algo, mas eu, depois de ter terminado a minha parte na arrumação da sala, achei que precisava falar:
    – Quais dois?
    O advogado Rubens Cobrelucci, provavelmente, se tocou do ato falho que cometeu e que eu o percebi. Acontece que Haroldo apenas disse que o caso envolvia assassinatos, não disse de quantos ou quem. O que significa que ele sabia detalhes, sim. Depois dessa, o advogado Rubens só falou:
    – Meu cliente se reserva ao direito de não falar.
    Ah, como eu detesto advogados! Sempre que são pressionados, saem com essa. Parecem aquela coreana que enfrentou a Rafaela Silva no judô, nas Olimpíadas de 2024. A Rafaela chegava perto, a safada se jogava no chão fazendo aquela posição de falta de combatividade. E não tomou uma punição sequer.
    Mas eu não estava afim de aceitar só isso. Eu tentei de novo:
    – Escutem bem, senhores, vocês acabaram de mostrar que Haroldo possa saber mais detalhes sobre o caso...
    – O senhor tem alguma acusação contra meu cliente, policial?
    – Não, só que...
    – Então, meu cliente se reserva ao direito de ficar em silêncio.
    Foi um saco! E foi estranho ao mesmo tempo. Essa atitude de Haroldo e de seu advogado estavam muito suspeitas. Como não tinha mais o que tirar de lá, o Capitão Gregade acabou dispensando os dois também.
    Nosso foco, então, era falar com a Dona Iolanda. Eu torcia para que ela colaborasse conosco.

    Continua...
  • Jerry Bocchio e os Ratos na Padaria - Capítulo V: Conseguindo um Atestado

    Eu acabei de descer do carro do Tom. Eu estava microfonado e com um ponto no ouvido indo em direção à clínica do Doutor Álvaro Boa Morte. Minha jaqueta de moletom com um gorro disfarçava tanto o microfone, quanto o ponto. Os óculos escuros foram só pra completar o disfarce. O plano era flagrar o médico dando um atestado falso para que Tom possa levá-lo à delegacia.
    Virei a esquina e me deparei com a placa da clínica: "Clínica Boa Morte". Cara, tá de brincadeira, né? Tá certo que esse é, provavelmente o sobrenome do cara, mas esse nome não combina com uma clínica médica. Não dá, não encaixa! Quem, em sã consciência, vai tratar uma doença na num lugar chamado "Clínica Boa Morte"? Só se for pra pegar atestado falso mesmo.
    Enfim, entrei na clínica. Cheguei na recepção e a recepcionista já foi perguntando, como quem não estava afim de conversa:
    – Nome e horário marcado.
    Nessa hora, Tom disse no meu ponto:
    – Jerry, foi mal! Esqueci de falar no carro. Você é Jefferson Barbera e tá marcado para as 19:30.
    Jefferson Barbera? Eu não aguentei. Virei o rosto para trás e cochichei próximo do microfone, fingindo que estava bocejando:
    – Você não baseou esse personagem em um dos criadores do "Tom & Jerry" não, né?
    – Se você tivesse me falado antes sobre o desenho, eu não teria feito isso.
    A recepcionista não gostou muito da demora da minha resposta e falou mais alto e com um tom ainda mais ríspido:
    – Nome e horário marcado.
    Então eu entrei no personagem. Engrossei um pouco o tom da minha voz e comecei a falar de um jeito meio marrento:
    – Foi mal aê, mina! Eu sou Jefferson Barbera, tô marcado pras sete e meia.
    – O senhor tem cadastro na clínica, senhor Jefferson?
    – Não sou chegado nesses bagulho de cadastro não, tá ligado?
    Nessa hora, Maurício, por algum motivo, falou no meu ponto:
    – Detetive, não exagera no disfarce!
    Após isso, eu só ouvi a voz do Tom falando "me dá isso aqui". Aí a recepcionista continuou:
    – Olha, não sei quem você é, mas aqui todo mundo tem que responder o cadastro. Vamos fazer ou o senhor vai ficar parado com essa pose fajuta?
    – Firmeza então! Mas só porque eu fui com a tua cara, tá ligado?
    – Oh, como estou lisonjeada! Agora senta aí pra responder.
    Não gostei do tom sarcástico da recepcionista, mas eu tinha uma missão e precisava cumprir. Então, sentei na cadeira à frente do balcão e ela começou as perguntas:
    – Profissão.
    – Num tenho.
    – Como você vai pagar a consulta então?
    – É que eu tenho outra fonte de renda.
    – Do "tá ligado" pra "outra fonte de renda". Você é mesmo da quebrada, hein?
    – Cê num sabe da missa, um terço, mina!
    Por algum motivo, ela começou a rir com tom de deboche. Mas depois, continuou:
    – Ah, que se dane! Qual é a sua fonte de renda?
    – Num posso falar.
    – Olha, eu preciso colocar a sua atividade para o doutor saber se isso afeta a sua saúde.
    Eu me curvei mais perto do balcão e falei baixo:
    – Tem a ver com internet.
    – Você é hacker?
    – Fala baixo, mina!
    Nesse mesmo instante, Tom me disse pelo ponto:
    – Jerry, você está tentando fazer papel de hacker?
    A recepcionista começou a gargalhar incontrolavelmente. Enquanto isso, Tom ia me falando pelo ponto:
    – Jerry, hackers não costumam falar desse jeito. Eles não gostam de chamar atenção.
    Então, ficaram, quase ao mesmo tempo, a recepcionista e o Tom falando comigo:
    – Ai, ai! Tá explicado! Você deve ter começado ontem, né?
    – É, Jerry, nessa ela tem razão. Hackers não costumam se vestir desse jeito na rua, só quando fazem vídeos ameaçando na internet mesmo.
    – Aposto que você começou com isso porque viu num desenho. Ah, desculpa, num anime! Hahahahahaha.
    – Além disso, aquela voz que você ouve nos vídeos não é a voz real deles, é uma voz distorcida eletronicamente.
    Eu fui ficando confuso com a situação, até que não aguentei. Acabei deixando escapar um grito:
    – Dá pra parar vocês dois?
    Um ato falho que pode comprometer tudo. A recepcionista ficou me olhando com cara de desconfiada. Tom deixou escapar um "eita" no ponto. Então a recepcionista me perguntou:
    – "Vocês dois"?
    Eu não tinha muito o que falar na hora. Eu não ia falar pra ela que eu estava com um ponto no ouvido. Por causa do nervosismo, acabei dizendo a primeira coisa que veio na minha cabeça, que foi:
    – É que eu vejo espíritos... Aí tinha um... Atrás de você... Também tava dando risada...
    Talvez fosse melhor eu falar do ponto. Percebi isso depois do palavrão que eu ouvi do Maurício. Mas, para minha sorte, a reação da recepcionista foi:
    – Ah, dane-se! O Doutor Álvaro que se vire com você. Quem sabe ele não te dá um remédio pra esquizofrenia, não é mesmo?
    Ah, funcionários infelizes com o trabalho! Sem eles, o país não anda. Se bem que, se eles estivessem felizes, talvez o país andasse mais, né? Mas nesse caso, não. A infelicidade laboral da recepcionista fez com que ela não chamasse a Polícia para mim, só pra passar a bucha pro patrão dela.
    Sentei na sala de espera e dei uma boa olhada no lugar. Não tinha muita gente além de mim. Apenas uma senhora idosa com um andador e um homem de uniforme de empresa sentado com os braços cruzados. A clínica seguia o estereótipo das clínicas médicas, pois havia uma mesa de centro com várias revistas velhas. Uma delas falava sobre a final da Copa de 1998. Não peguei pra ler porque esse dia foi muito traumático pra mim (até a Copa de 2014, lógico).
    O médico chamou primeiro a senhora, depois de uns 20 minutos, chamou o homem uniformizado. Aí, depois de menos de 10 minutos, me chamou. O fato da consulta do homem uniformizado ter demorado menos da metade do tempo da consulta da senhora me chamou a atenção.
    Passei pelo Doutor Álvaro, que ficou parado na porta, e entrei no consultório. Um consultório simples, com uma maca, uma mesa com um computador e alguns aparelhos médicos que eu não sei dizer o nome. Eu me sentei na cadeira reservada para pacientes, na frente da mesa. O Doutor Álvaro passou por mim, se sentou em sua cadeira e começou a mexer no computador. Então ele começou:
    – Senhor Jefferson Barbera, certo?
    Eu mantive meu modo marrento de falar:
    – Certo!
    – A Suellen colocou no seu cadastro que você está com suspeita de esquizofrenia. Desde quando você suspeita disso?
    Essa recepcionista não foi com a minha cara mesmo.
    – Tá me tirando, mano? Essa mina tava de zoação com a minha cara o tempo todo.
    Então, Tom disse no meu ponto:
    – Jerry, você vai insistir nesse jeito de falar mesmo?
    Eu tive que usar a estratégia do bocejo de novo pra virar a cara pra trás e cochichar no microfone:
    – Deixa eu, Tom! Eu sei o que estou fazendo!
    O Doutor Álvaro continuou:
    – Se não é isso, porque está aqui então?
    Eu me virei pra ele de volta, me inclinei pra perto da mesa e falei:
    – É o seguinte, mano: eu preciso justificar umas faltas pro meu patrão, tá ligado?
    – Mas aqui está falando que você não trabalha com uma profissão legalizada, só como hacker.
    – É... Que eu faço parte de um grupo de hackers.
    – E mesmo assim precisa de atestado?
    – É que eles são rígidos... Digo... São dureza.
    O Doutor Álvaro me olhou com um olhar de desconfiança:
    – Você não é um policial disfarçado não, né?
    – Quê? Cê é louco? Eu tenho nojo de polícia!
    Essa pergunta dele indica que ele já deve ter passado por isso antes. Sem falar nada, ele foi pegando um bloco de papel impresso da gaveta dele, sem tirar o olho de mim. Ele pegou sua caneta e me perguntou:
    – Qual é o período das faltas?
    Rapaz, tão fácil assim?
    – Desde terça feira da semana retrasada.
    Ele olhou no calendário dele.
    – Desde o dia 8 então. Muito tempo. Vou falar que você teve uma pancreatite e precisou ficar internado.
    Enquanto ele ia escrevendo, eu precisei falar algo que estava corroendo a minha mente naquele momento:
    – Então, eu também tenho um nome pra disfarce.
    – Como assim?
    – É, eu sou o Jeff Barbeiro.
    – Bom, primeiro, se sua intenção é não ser detectado, não é um bom nome. Segundo, o que isso tem a ver?
    – É que o seu nome, né?
    – Como assim?
    Eu acabei desabafando de um modo um tanto escandaloso:
    – Boa Morte, poxa! Como que um médico vai se chamar Boa Morte? Pelo amor de Deus!
    O Doutor Álvaro não gostou nem um pouco da cena. Ele só me deu o papel e me disse, falando firme e com uma certa raiva, apontando o dedo indicador:
    – É por causa de pessoas que pensam como você que eu me vi obrigado a fazer esse tipo de serviço. Ou você acha que, quando eu saí da faculdade de medicina, meu objetivo era sair distribuindo documentos falsos? Isso é preconceito, sabia? Lá em Portugal, esse sobrenome é comum, teve até um jogador que jogou Copa do Mundo pela seleção portuguesa com esse nome. Mas, não! Aqui é gente que acha que eu vou matar a pessoa só por causa do meu sobrenome!
    Foi uma confissão dele, mas, sei lá, nessa hora me deu um certo peso na consciência. O Doutor Álvaro continuou:
    – Agora pega essa porcaria desse atestado e paga o que deve pra Suellen.
    O Doutor Álvaro terminou a frase e logo aparece Tom, arrombando a porta do consultório, com uma arma empunhada:
    – Doutor Álvaro Boa Morte, o senhor está preso por distribuir atestado falso! Ah, e sinto muito pelo que o senhor passou.
    O Doutor Álvaro Boa Morte se entregou sem resistência. Tom o algemou e nós três fomos saindo do consultório. Ao passarmos pela recepção, o Doutor Álvaro se virou pra recepcionista e disse rapidamente:
    – Suellen, liga pro meu advogado. Aconteceu de novo.
    – Então o playboy da quebrada aí é um policial disfarçado?
    Eu fui me gabar pra recepcionista:
    – Policial, não mais, sou um detetive particular. E você caiu no meu disfarce! Haha! Quem está rindo agora?
    – Imagino o porquê de te mandarem embora da Polícia.
    Antes de eu retrucar essa frase dela, Tom me apressou para irmos embora. Tom foi levar ele à delegacia em seu carro Maurício Porteau e eu acompanhamos no carro do Maurício.
    Ao chegarmos na delegacia, Tom já levou o Doutor Álvaro para o Capitão Lester Gregade, que mandou irem para o interrogatório. O Capitão não queria que Maurício e eu fôssemos junto, mas Maurício insistiu dizendo que aquilo interessa ao caso dele. Então o Capitão deixou nós acompanharmos apenas na sala com a janela de vidro, onde as testemunhas ficam pra reconhecer os suspeitos.
    Maurício e eu entramos naquela sala. A janela de vidro dava para a sala de interrogatório. Nela, estavam Tom e o Capitão Gregade sentados de frente para o Doutor Álvaro e seu advogado, que já estava esperando na delegacia.
    Tom pôs o atestado falso que o Doutor Álvaro havia me dado em cima da mesa junto com um pen drive. O pen drive, provavelmente, teria a gravação da minha conversa com o Doutor Álvaro. Só que antes de Tom falar algo, o advogado do Doutor Álvaro interrompeu:
    – Olha, policial, a gente já sabe o que tem aqui. Eu sei de toda a história, sei desse detetive particular aí e o porquê dele ter ido atrás do meu cliente. É por causa do fechamento daquela padaria que foi sabotada com ratos. E ele tem razão, tem algo muito maior aí por trás.
    Caramba! Como ele sabe de tudo isso? Ele continuou:
    – Meu cliente vai entregar a pessoa que pediu o laudo fraudado dos pêlos de rato, se vocês deixarem ele só com a fiança mínima, em liberdade.
    O Capitão Gregade, duro como uma pedra, simplesmente respondeu:
    – O caso da Padaria Nova Caledônia é um caso particular do detetive Jerry Bocchio e não tem nenhuma relação com a Polícia. Não tem o que negociar aqui com isso.
    O advogado do Doutor Álvaro não perdeu o sorriso de alguém que está trucando:
    – Ah, Capitão! O senhor está deixando um peixe grande ir embora em troca de uns atestados pra faltar no serviço?
    – Se é um peixe grande desse jeito, porque seu cliente não teme uma represália contra ele?
    – Digamos que uma represália iria expor ainda mais a pessoa em questão.
    Tom e o Capitão saíram da sala por uns instantes e vieram falar comigo e com Maurício. Maurício, por ser o advogado da padaria, insistiu que eles aceitassem o acordo, já que o documento fraudado era a prova crucial. Eu sugeri o acordo porque tinha certeza que o nome da Vidente Solange seria dito (é, eu sei, ela sumiu da história até aqui, mas ainda tenho algo contra ela). Além disso, se o advogado disse que uma represália iria expor ainda mais, ou seja, a pessoa deve ser alguém da mídia.
    O Capitão pensou por mais um tempo e resolveu aceitar, com algumas ressalvas:
    – Muito bem, Doutor Álvaro, vamos aceitar o acordo. Porém, o senhor terá o passaporte apreendido até o fim da investigação e, se não for verdade, o senhor também será indiciado por obstrução da justiça.
    Mais uma vez, o advogado falou pelo Doutor Álvaro, enquanto o mesmo assinava o acordo:
    – Perfeito, Capitão! É muito bom negociar com vocês!
    – Sem enrolação, quem ordenou a confecção do laudo falso?
    – O homem que vocês procuram é um corretor de imóveis chamado Jorge Abílio.
    Jorge Abílio? O cara que queria comprar a padaria? O mesmo que tinha mandado o Zé Maria colocar os ratos na cozinha. O advogado continuou:
    – Ele costuma praticar esse negócio de especulação imobiliária num nível bem elevado, ou melhor, num nível bem baixo. Ele faz de tudo pra abaixar o preço do imóvel que ele quer comprar. No caso em questão, ele mandou um rapaz com intolerância a lactose comer na Padaria Nova Caledônia uma coisa com muita lactose pra fazer ele passar mal. No hospital, ele mandou o meu cliente assinar esse laudo fraudado dizendo que o rapaz tinha comido algo com pêlos de rato. Ele usou esse laudo tanto pra chamar a Vigilância Sanitária, quanto como prova no processo contra a Padaria Nova Caledônia, fazendo o preço do imóvel despencar.
    Cassetada! Que plano diabólico! O Capitão Gregade saiu correndo da sala de interrogatório e expediu mandados de busca e apreensão contra o Jorge Abílio e o cliente que processou a padaria. O advogado Maurício Porteau saiu correndo com o celular na mão pra falar com o Seu Rogério sobre o caso. Enquanto isso, eu fiquei lá, só pensando que talvez ainda tinha uma peça faltando.
    Jorge Abílio é um corretor de imóveis. O imóvel não vai pra ele, e sim para quem o contratou. Será que não é essa pessoa, ou empresa, que o contratou quem está por trás de tudo? Um mandante? Eu fui para a casa com essa dúvida ainda. Mas deixei que a Polícia se encarregasse do caso. Tom e o Capitão Gregade são competentes pra tocar isso. Se houver um mandante, eles vão descobrir.
    No dia seguinte, fui ao meu escritório. E, do lado de fora, me esperando, estava o Seu Rogério, com uma cara não muito boa. Preocupado com o caso, eu já fui perguntando:
    – Seu Rogério! O que aconteceu? Ainda não retiraram o caso?
    – Não, J.B.! A promotora retirou a queixa. Estamos só esperando a Vigilância Sanitária emitir a papelada pra reabrirmos a padaria. Provavelmente na semana que vem.
    – Que ótimo, Seu Rogério! Por que essa cara então?
    Seu Rogério pegou o celular dele, deu o play num vídeo e virou o celular para mim. Era um vídeo do programa da Vidente Solange. Ela estava muito exaltada falando com o apresentador:
    – Antes de eu começar o programa, eu preciso falar uma coisa pra vocês. Fernando, você já ouviu falar daquele detetive particular chamado Jerry Bocchio, né?
    – Aquele que foi responsável pela prisão do Roninho? Sim, conheço.
    – Pois então, os astros me disseram que ele é um homem que tem pacto com encostos. É assim que ele consegue prender gente importante. Minha dica pra essa semana é: não contratem serviços do detetive Jerry Bocchio! Caso contrário, um encosto vai entrar na sua vida e permanecer para sempre. E não existe simpatia para reverter essa situação.
    Que droga! Nunca pensei que ser parecido com o John Constantine seria tão ruim para os negócios!
    Continua...
  • Jerry Bocchio e os Ratos na Padaria – Capítulo I: Tudo Bem (ou Quase)

    Jerry Bocchio e os Ratos na Padaria – Capítulo I: Tudo Bem (ou Quase)
    Meu nome é Jerry Bocchio. Eu sei que já falei isso aqui antes, mas, se essa é a primeira vez que você vê uma história minha, eu sou um detetive particular. Costumo pegar casos que a Polícia não dá importância. Brigas de vizinhos, gatos de água, luz e internet, pichadores, árbitros de futebol envolvidos em esquemas de apostas, coachs quânticos etc.
    Meu nome começou a ficar mais em evidência depois que eu descobri e ajudei a expor um diretor de TV que queria sabotar o próprio programa. Eu comecei a ser chamado para casos cada vez mais interessantes, mais desafiadores, e não apenas casos de suspeita de traição. O problema é que, juntamente com essa alavancagem do meu nome, veio também uma paixão.
    E por que isso seria um problema? Porque, mesmo parecendo ser correspondido, ela teve que se mudar para outra cidade para alavancar a carreira dela. Como ela é uma pessoa tão espírito livre quanto eu, não tentei impedí-la. Talvez dois espíritos livres não sirvam pra viver juntos mesmo. Enquanto isso, fico apenas eu aqui, com a minha rotina de detetive.
    Todo dia, antes de ir para meu escritório, eu dou uma passada na Padaria Nova Caledônia para tomar meu café da manhã: um copo de café com leite e um pão com manteiga na chapa. Um café da manhã com todos os nutrientes necessários para um dia de investigação. O dono da padaria, o Seu Rogério, me atende com toda camaradagem que só um dono de padaria tem pelos seus clientes.
    Um belo dia, fui seguir a minha rotina matinal normal. Cheguei na padaria e vi que o lugar estava cheio. Seu Rogério veio até mim para atender, já com o meu pedido na ponta da língua. Eu, vendo toda a movimentação da padaria, comentei com o Seu Rogério:
    – Olha, até que a padaria vai bem mesmo depois daquela gafe que eu cometi com o programa de fofoca.
    – Que isso, J.B.! Aquilo ajudou a padaria a atrair ainda mais clientes.
    – Como?
    – Agora tem muito paparazzi e fã de fofoca consumindo aqui. Eu até coloco nesses programas matinais de TV, ao invés de noticiários.
    – Que legal, hein, Seu Rogério? Pelo menos pra alguma coisa aquela aparição em programa de fofoca serviu.
    – É, mas não foi só isso não. Quando aquela sua amiga influenciadora veio aqui atrás de você, ela atraiu seguidores pra cá também. Eu tive até que deixar duas mesas do lado da janela arrumadas pra parecer mesas de novela só pra eles tirarem fotos pro tal do Instagram.
    Seu Rogério apontou para as mesas ao lado da janela. Acima da janela havia um aviso escrito "mesas instagramáveis". Ele voltou a dizer, dando risada:
    – Quem deu essa ideia foi a Renatinha, do caixa. Essa molecada inventa cada coisa, né?
    Nós dois estávamos conversando enquanto eu ia tomando café. Eu contava para ele as descobertas do meu último caso quando uma senhora chegou ao meu lado. Era uma senhora de idade já, parecia ter uns 60 anos, tinha o cabelo curto ao estilo Joãozinho, tingido de loiro, meio gordinha e andava com um ar de autoridade forçada, como se ela fosse um personagem do programa "Vai Que Cola". Eu estava reconhecendo ela, ela parecia ser aquela vidente que viralizou na internet pelo modo ranzinza como ela fala com as pessoas que ligam na rádio onde ela trabalha pra pedir conselhos. O nome dela é Solange Maria, mas a rádio a apresenta como a Vidente Solange.
    Ela chegou cortando o assunto entre o Seu Rogério e eu querendo falar com o Seu Rogério:
    – O senhor é o dono do estabelecimento?
    – Vidente Solange! Que prazer recebê-la! Sou eu sim!
    – Tá, tá, tá bom! Olha, deixa eu ir direto ao assunto. Eu recebi uma mensagem dos espíritos falando que você tem uma oportunidade de ganhar dinheiro em vista.
    – Eles estão afiados, hein? Só que pra isso eu teria que abrir mão da padaria, então eu não aceitei.
    – Você é idiota, é? Esse lugar aqui é cheio de encosto! Sai daqui antes que a oportunidade vai embora.
    Rapaz, essa mulher é ranzinza mesmo! Pensei que era só uma personagem. Eu acabei entrando na conversa pra ver se a mulher se acalmava:
    – Olha, dona vidente, talvez esse negócio de encosto não seja tão ruim.
    – Como não? Você é lesado, é?
    – Bom, aqui tem bastante encosto nas cadeiras pras pessoas não curvarem tanto as costas. Já é um alívio.
    A Vidente Solange me olhou no fundo dos olhos como uma professora dos anos 80 que acabou de pegar o aluno colando na prova, pronta pra dar a reguada, e o Seu Rogério caiu na gargalhada. Depois de se recuperar do riso, o Seu Rogério disse para a vidente:
    – Não se preocupa com isso não, o único encosto que eu tenho aqui é o Zé Maria. Né não, Zé Maria?
    Zé Maria, o chapeiro da padaria, solta um riso meio constrangido. A Vidente Solange volta a falar:
    – Você foi avisado.
    Ela simplesmente pegou as coisas e saiu. Essa cena ligou o meu alerta. Durante meus anos de experiência como investigador, eu já vi muita cena parecida que se tratava de uma ameaça disfarçada. Então, pra tirar a dúvida, eu perguntei para o Seu Rogério:
    – Seu Rogério, do que se tratava esse aviso dela?
    – Olha, J.B., eu vou te falar porque você é amigo aqui, mas não espalha pra ninguém, beleza?
    – Tudo bem!
    – Um cara veio aqui semana passada me fazendo uma proposta pra comprar a padaria. Ele me ofereceu trezentos mil.
    – Rapaz! E você fez o que?
    – Eu recusei, lógico! Primeiro, porque o valor que ele me ofereceu foi muito abaixo do que a padaria vale. Segundo, porque eu não quero me livrar da padaria, aqui é a minha vida. E terceiro, se eu mandar todo mundo aqui embora, do nada, como eles ficam?
    – Que estranho! Como que essa vidente sabia disso?
    – Ué, J.B., ela é vidente! Ela deve ter mesmo esse negócio de paranormal aí, senão, não tava na rádio.
    – Não, Seu Rogério! Esse negócio de paranormal aí não existe. Ela só está na rádio porque as pessoas gostam de acreditar que a vida pode ser resolvida simplesmente escrevendo o nome de uma pessoa amada num pedacinho de papel, ou bebendo água com limão, ou esperando o dia onde os astros se alinham etc. Quer saber? Me dá a conta aí! Vou dar uma pesquisada sobre ela no meu escritório.
    – Eita! Esquenta com isso não, J.B.!
    – Não, não, Seu Rogério! Essa mulher ligou um alerta na minha cabeça.
    Voltei para o meu escritório para procurar algo sobre essa Vidente Solange. Durante o dia não deu tempo, pois eu trabalhava em mais dois outros casos: Um músico frustrado que desconfiava que sua música foi plagiada por uma outra banda, também não tão conhecida assim, e um vendedor ambulante que desconfiava que seus aparelhos TV Box estavam sendo furtados.
    No final do expediente foi onde eu consegui tirar tempo pra fazer a pesquisa. A pesquisa levou mais tempo do que eu esperava, eu demorei uns dois dias para ajuntar todas as informações que consegui. Mas eu descobri algumas coisas interessantes.
    Nos anos 90, a Vidente Solange havia sido desmascarada ao vivo, em um programa de auditório de domingo, no horário nobre. Levaram ela para um suposto presídio desativado onde ela dizia ver coisas horríveis. Ela fazia caras e bocas, gritava, babava e suplicava como num filme de terror. No final, o dono do local disse que aquilo não era um presídio desativado, era um shopping center desativado.
    Após esse episódio, ela sumiu por um bom tempo, mas, por incrível que pareça, tinha alguns seguidores de suas dicas astrais que a tratavam como o novo Messias. Aí, com a chegada das redes sociais, ela começou a fazer vídeos, fazer mais seguidores que, ou se esqueceram do episódio nos anos 90, ou inventavam desculpas esfarrapadas pra justificar o mico. Depois de um tempo, foi contratada pela Rádio Aurora Brasil, onde trabalha atualmente.
    Aqueles tais "encostos" que ela se referia seriam espíritos maus que gostam de atrapalhar a vida das pessoas. Só que nunca fica claro quem seriam esses "encostos". Seriam almas de pessoas ruins durante a vida? Ela sempre deixa ambíguo.
    A linha de raciocínio dela também é bem ambígua: Uma gororoba de astrologia, com psicologia positiva, com aliens, com rituais de várias religiões diferentes. Algo muito parecido com o que faziam na serie "Supernatural". A diferença é que "Supernatural" se vende como ficção e não fica mandando o público seguir seus conselhos.
    Eu acho que já ficou bem claro aqui que eu não acredito nisso, certo? Não que eu tenha algo contra quem acredita, mas não gosto quando quem acredita fica obrigando as pessoas ao redor dela a agirem de acordo com a crença dela. Se existe mesmo alguma força cósmica superior, isso sim seria algo que a irritaria.
    Porém, parece que as pessoas que usam as redes sociais dessa Vidente Solange agem exatamente assim. Vi depoimentos de pessoas que terminaram relacionamentos, terminaram amizades, demitiram funcionários ou pediram demissão da empresa, mudaram seus filhos de escola, alguns até mesmo diziam ter expulsado familiares por causa das crenças no tal do "encosto".
    Vi até mesmo um divulgador científico, que também era influenciador, que fazia vídeos refutando muitas coisas que a Vidente Solange divulgava. Só que ele tinha poucos vídeos e sumiu depois de um tempo. E ele era muito odiado pelos seguidores da Vidente Solange, diziam que ele fazia os vídeos com a ajuda do "encosto". Esse ser, pelo visto, é onipotente.
    Depois de anotar tudo isso, deixei para ir falar com o Seu Rogério. Esperei o dia amanhecer e fui na Padaria Nova Caledônia no horário de sempre. Só que, quando eu cheguei lá, uma surpresa desanimadora: a padaria estava fechada! E na porta havia um aviso que ela foi fechada pela Vigilância Sanitária.
    Não pude acreditar de primeira, então, fui até uma das janelas para olhar se havia acontecido algo dentro da padaria. As luzes estavam quase todas apagadas e o Seu Rogério estava no balcão, cabisbaixo, conversando com um homem de terno e gravata.
    Eu gritei o nome do Seu Rogério. Ele disse que não queria falar comigo no momento, mas eu insisti. Seu Rogério é meu amigo e eu não queria deixar ele sozinho nessa situação. Depois de muita insistência, Seu Rogério abriu a porta de trás para eu entrar. Enquanto ele ia me levando até o balcão, eu perguntei o que aconteceu e o Seu Rogério, após dar um grande suspiro, me respondeu:
    – Um cliente chamou a Vigilância Sanitária falando que ingeriu pelo de rato na comida e pegou uma infecção alimentar.
    – Nossa, Seu Rogério! Como isso aconteceu? Eu vejo você ligando pra dedetização frequentemente.
    – Sim, semana passada mesmo eu contratei, mas, por algum motivo, a Vigilância Sanitária achou um ninho de ratos dentro do meu estoque, onde eu guardo a farinha de trigo.
    Seu Rogério e eu chegamos ao balcão, onde o homem engravatado aguardava. Ele era um homem alto, com o cabelo raspado, um cavanhaque e segurava uma maleta. Na frente dele, em cima do balcão, um calhamaço de papéis que parecia ser um contrato. O homem me reconheceu por algum motivo e foi se apresentando:
    – Detetive Jerry Bocchio! Que prazer em conhecê-lo pessoalmente! Meu nome é Jorge Abílio, sou corretor de imóveis.
    Ele me deu a mão e eu o cumprimentei, mas depois me toquei de uma coisa:
    – Seu Rogério, você vai vender a padaria?
    Seu Rogério viu minha cara de preocupação e respondeu:
    – Sinto muito, J.B., eu não tenho muito o que fazer nessa situação. A família do rapaz está processando a padaria.
    – Mas você disse que trezentos mil é muito abaixo do valor real da padaria.
    Então, o corretor se intrometeu na conversa todo pomposo:
    – Não é mais trezentos mil. A gente está comprando por cem mil agora. Economia é assim, né?
    Seu Rogério, tentando tirar graça da situação, e falhando por causa de falta de forças pra isso, respondeu:
    – É, J.B., bem que a Vidente Solange me avisou, né?
    Nesse momento, vendo o Seu Rogério abatido e o corretorzinho de meia tigela dando risada, juntamente com a menção àquela picareta, que eu já odeio só pelo fato de tudo resultar nisso, eu fiquei irritado. Eu precisava fazer algo para impedir isso. Eu olhei no fundo dos olhos do Seu Rogério e disse:
    – Seu Rogério, não venda a padaria!
    – Mas, J.B.! Como não?
    – Eu vou livrar você dessa. Eu tô sentindo cheiro de coisa errada no ar, e não é esse perfume de cara metido a macho que o corretor tá usando não.
    O corretorzinho se meteu de novo:
    – Qualé, detetive! Eu sei que você é bom no que faz, mas não tem o que investigar aqui não. A Vigilância Sanitária achou o ninho dos ratos e o cliente fez o exame que detectou os pêlos de rato. Pelo que eu ouvi da história que o Seu Rogério me contou, a Vidente Solange acertou de novo. Você deveria ouvir o programa dela, te ajudaria a alavancar sua carreira de detetive.
    – Eu não estou dizendo que ela errou não, Jorge. Ela havia dito que tem encosto nessa padaria. Ela só não contava que o encosto sou eu.
    – Hahahaha! Você é muito engraçado, detetive! Só toma cuidado que os encostos não gostam de ser desafiados.
    – Você, pelo visto, conhece bastante do assunto, Jorge.
    – Claro! Eu sigo as recomendações dela e estou aqui agora.
    – Destruindo sonhos dos outros? Os astros, ou espíritos ou os sei-lá-o-quê devem sentir muito orgulho de você.
    – Olha, eu não destruí sonho de ninguém. Foi dado um aviso a ele e ele não ouviu. Eu sou só o executor, não tenho culpa nessa. E então, Seu Rogério? Falta só a sua assinatura.
    Essa última fala do corretorzinho irritou o Seu Rogério. Ele pegou o contrato de cima do balcão e o rasgou no meio.
    – Dá o fora da minha padaria, seu moleque!
    Num tom meio debochado, o corretorzinho se virou e foi embora.
    Seu Rogério e eu ficamos um tempo sozinhos na Padaria Nova Caledônia. Pra agradecer a minha ajuda, ele pediu um café da manhã por delivery para entregar lá para nós dois. Quando chegou, nós sentamos em uma das mesas para tomar e o Seu Rogério, um pouco mais em si, começou a falar:
    – J.B., e agora? Você acha mesmo que consegue? O julgamento é daqui a algumas semanas.
    – Tem algo muito errado aí, Seu Rogério. Você dedetizou a padaria na semana passada e já apareceram ratos com ninho feito e tudo? Além disso, o tal do corretor aí é seguidor da vidente, é muita coincidência.
    – Ah, mas ela tem muitos seguidores.
    – Seu Rogério, eu não acredito nessa papagaiada. Tem coisa errada aí e eu vou descobrir.
    Seu Rogério abriu um sorriso amigável e respondeu:
    – Muito obrigado, J.B.! O que eu puder fazer pra te ajudar, é só me falar.
    Eis aí meu novo caso. Alguém quer prejudicar meu amigo e eu preciso saber quem.
    Continua...
  • Jerry Bocchio e os Ratos na Padaria – Capitulo II: Uma Visita Não Tão Inesperada

    Jerry Bocchio e os Ratos na Padaria – Capitulo II: Uma Visita Não Tão Inesperada
    Quando eu saí da Padaria Nova Caledônia, fui até meu escritório já pensando em uma estratégia de investigação no meio do caminho mesmo. Seu Rogério estava quase desistindo do que ele considera ser a sua vida ideal e é meu dever ajudá-lo.
    Eu já vi alguns casos que envolvem pessoas com supostos poderes sensitivos e, sinceramente, nunca me convenceram. Essas pessoas mais atrapalham do que ajudam, pois, quando metem essa explicação metafísica, as outras pessoas simplesmente desistem de continuar procurando.
    Quando cheguei ao escritório, comecei a pensar em cenários para o acontecido. Lembrando que, uma semana antes dos ratos aparecerem, Seu Rogério havia mandado dedetizar a padaria. Então, como esse ninho de ratos apareceu lá? Tentando imaginar cenários para esse acontecimento, escolhi começar por investigar conversando com os funcionários da padaria. Talvez eles teriam algo a dizer, testemunhado algo etc.
    Falar com aquele cliente que ingeriu os pêlos de rato e ficou com infecção alimentar também seria uma boa.
    Liguei para o Seu Rogério e pedi para ele tentar chamar seus funcionários para conversar, mas ele não estava atendendo na hora. Quando o Seu Rogério retornou a ligação, uma meia hora depois, ele estava empolgado pra saber se eu já tinha algo:
    – Alô.
    – Alô, J.B.? Aqui é o Rogério. Você tinha me ligado. Já tem novidades?
    – Ainda não, Seu Rogério. Eu estou só no começo da investigação.
    – Então por que me ligou?
    – Eu queria começar falando com os seus funcionários. Será que o senhor poderia reunir eles pra eu fazer umas perguntas?
    – Xiiii, depois de tudo o que aconteceu, acho difícil. Alguns já estão até tentando arrumar um novo emprego. Você acha que foi um deles?
    – Não! Só pra saber se alguém notou algo estranho ou testemunhou alguma coisa.
    – Tá bom, então. Vou ver o que consigo fazer. Venha pra padaria daqui umas duas horas.
    Ótimo! Agora já tenho por onde começar. Além do Seu Rogério, trabalham também na padaria o chapeiro, Zé Maria, a recepcionista de caixa, Renatinha, o garçom, Rodolfo, as duas atendentes do balcão, Valéria e Marisa, e os auxiliares da cozinha que ajudam o Seu Rogério, Tião e Caçula.
    Enquanto preparava minhas coisas, ouvi uma batida na porta. Poderia ser um cliente, mas, como já me comprometi a ajudar o Seu Rogério nessa, fui abrir a porta para dispensar a pessoa. No momento que eu abri a porta, uma surpresa: era a Vidente Solange.
    Ela agora estava com um ar menos agressivo do que a primeira vez que eu a vi na padaria. Porém, ainda de um jeito muito intrusivo, apenas me deu um "boa tarde" e foi entrando sem minha autorização. Passou pela porta, sentou-se à minha mesa, ficando de costas para mim, que estava na porta, e começou a falar:
    – Detetive Jerry Bocchio, você está investigando o que aconteceu na Padaria Nova Caledônia, não?
    Eu não fui até a mesa, fiquei parado na porta pra ver se ela entendia que eu estava de saída. Falei pra ela de lá mesmo:
    – Sim, senhora Solange. Inclusive eu estou indo até lá agora mesmo.
    – Suas habilidades são inúteis para esse caso, detetive. Estou aqui para te alertar para não dar prosseguimento à investigação.
    – Olha, eu sei que muita gente gosta do que a senhora fala e tudo mais. Só que eu não acredito nessas coisas de encosto aí não.
    – Pois não adianta nada você não acreditar. Eles agem do mesmo jeito.
    Esse pessoal é estranho. Quando é pra acontecer coisas boas, tipo ganhar dinheiro, arrumar um romance, melhorar a saúde, dormir oito horas por dia ou poder comer besteira todo dia sem sofrer consequências, aí você tem que acreditar direito. Se você tiver um pingo de dúvida, não acontece. Agora, pra acontecer coisas ruins, aí nem precisa acreditar que acontece. O Deus dessas pessoas deve ser um vilão de novela, só pode.
    – Posso saber o que esses tais "encostos" farão?
    A minha pergunta fez a Vidente Solange se levantar e virar de novo para mim, com o pescoço curvado para frente, fazendo uma posição de corcunda. Ela começou a falar mais agressivamente, parecendo que queria me impor medo. Foi de um modo tão brusco que acabou me assustando:
    – Nossa! Um deles te possuiu agora?
    – Detetive, não caçoe da situação! Os encostos são ardilosos! Não se pode saber o que passa na cabeça deles!
    – Aaaah! Eles têm cabeça?
    – Sim, oras! Eles são espíritos maus.
    Não entendi a relação entre ser espírito mau e ter cabeça. Mas ela disse de um modo tão convincente que, na hora, parecia ter lógica. Aí eu fiz mais uma pergunta que eu julgava importante:
    – Ué, então porque não chama eles de "espíritos maus" logo? Esse negócio de "encosto" deixa um pouco confuso.
    – Eu que costumo chamar eles de "encosto".
    – Mas por quê?
    – É porque... Porque... Ah, não interessa! O que interessa é que se você prosseguir nessa investigação, eles vão entender como desafio.
    – Olha, dona Solange...
    – Vidente Solange!
    Pera aí! Ela faz questão que chamem ela de "Vidente Solange"? Vidente virou coisa tipo doutor, professor, juíz etc.? Ai, fazer o quê, né?
    – Tá, tá bom! Vidente Solange! Há alguns segundos você me falou que não dá pra saber o que se passa na cabeça deles. Agora você me diz que eles vão entender como desafio? Agora eu estou entendendo menos ainda.
    A Vidente Solange parou por uns instantes com o dedo indicador no queixo, como se estivesse tentando lembrar de algo. Quando ela voltou pra conversa, só foi pegando a bolsa dela e disse, ou melhor, gritou, do mesmo jeito que ela faz com os ouvintes da rádio:
    – Ah, pare de fazer perguntas! Que saco! Você quer saber de tudo, é? Me dá licença que eu preciso... Preciso... Ir pra rádio.
    – Ué, seu programa só passa de noite.
    – Pare de fazer perguntas!
    – Mas isso não foi uma pergunta.
    – Chega! Olha só, você me irritou tanto com as suas perguntas que eu quase esqueci uma coisa.
    A Vidente Solange olhou no fundo dos meus olhos com um olhar sério e disse de forma dramática, como se fosse um apresentador de um programa de mistérios, tipo "O Homem do Sapato Branco":
    – Você foi avisado!
    Após isso, ela foi embora, batendo com força a porta do escritório. Confesso que o modo como ela falou me assustou um pouco. Ela é bem convincente no modo de falar essas coisas, afinal, já são vários anos trabalhando com isso, não é mesmo?
    Mas eu não me importei. Nem ela parecia direito saber o que são esses tais "encostos". E pra ser bem sincero mesmo, eu já estava meio que esperando essa visita da Vidente Solange no meu escritório. Não sei especificar direito o porquê disso, talvez seja porque ela quer garantir que acertou a previsão dela na padaria não deixando ninguém investigar. Além disso, ela já foi desmascarada ao vivo anteriormente, talvez um investigador cause um certo trauma nela... Ou será que eu também tenho "poderes sensitivos"? Uuuhh! Mirei no Sherlock Holmes e acertei no John Constantine!
    Brincadeiras à parte, olhei no meu celular que já estava quase na hora de eu sair. Peguei meu caderno, não peguei minha jaqueta porque estava um calor infernal (já falei que o clima do Brasil não deixa eu ter estilo?) e fui em direção à Padaria Nova Caledônia.
    Continua...
  • Jerry Bocchio e os Ratos na Padaria – Capitulo III: Confissão Cedo

    Eu fui até a Padaria Nova Caledônia depois daquela visita estranha da Vidente Solange. Aquela visita dela me deixou assustado na hora, mas no meio do caminho fui pensando sobre aquilo e me pareceu mais uma ameaça do que um aviso.
    Enfim, quando cheguei na padaria, Seu Rogério estava me esperando na porta, do lado de fora, ao lado de um homem de um terno grafite, gravata azul, cabelo penteado pra trás, uma pasta marrom na mão e um sorriso típico de advogado. Se você não reconhece sorrisos advocatícios, eu não posso ensinar, somente detetives experientes, como eu, conseguem identificar um de longe. Quando encontrei com o Seu Rogério, ele me apresentou o homem:
    – E aí, J.B.! Que bom que você veio! Esse aqui é o doutor Maurício Porteau, ele é o advogado da padaria.
    – Boa tarde, detetive! É um prazer conhecê-lo. O Seu Rogério me falou muito bem de você.
    Advogados! Eu não gosto de fazer meu trabalho com um deles por perto. Eles ficam toda hora me censurando. "Ain, não pode pressionar tanto o interrogado"; "Ain, isso é fazer ele criar provas contra si mesmo"; "Ain, você é uma pessoa só, não tem como fazer a estratégia do 'tira bom e tira mau'". Mesmo com a tentativa de lisonja e a mão estendida do advogado, não aguentei e falei para o Seu Rogério:
    – Poxa vida, Seu Rogério! Você trouxe um advogado?
    – Ele me disse que seria melhor pra não cometermos excessos com os funcionários.
    – Era justamente isso o que eu temia.
    – Mas ele tá certo, J.B.! Agora cumprimenta ele aí pra não ser mal educado!
    – Ah, tá bom! Igualmente.
    – Cumprimenta direito!
    Acabei tendo que apertar a mão do advogado.
    – O prazer é todo meu.
    O advogado só deu uma risada e disse:
    – Não se preocupa que eu não vou te atrapalhar.
    – Hum... Isso é o que veremos.
    Nós três entramos na padaria. O lugar estava apenas com algumas luzes acesas na área das mesas, onde estavam todos os funcionários lá. Zé Maria, Renatinha, Rodolfo, Valéria, Marisa, Tião e Caçula, todos sentados às mesas da padaria, conversando entre si. Todos eles me pareciam preocupados. Com o quê? Aí eu já não consigo dizer.
    Seu Rogério parou à frente de todos e chamou a atenção deles, que se silenciaram quase que instantâneamente. Foi então que ele começou a explicar a situação:
    – Pessoal, olha aqui. Eu sei que todo mundo aqui conhece o J.B., ele é um detetive particular que está investigando sobre o incidente com os ratos. Ele tem dúvidas sobre o que aconteceu e quer falar com vocês se vocês viram algo estranho no dia.
    Logo após as palavras do Seu Rogério, a Renatinha, a caixa da padaria, falou para mim num tom de conformismo:
    – Olha, Jerry, eu sei que você é amigo do Seu Rogério e quer ajudar, mas isso só aconteceu porque o Seu Rogério não deu ouvidos pra Vidente Solange. Isso é coisa dos encostos.
    A fala da Renatinha foi a deixa pra eu começar:
    – Renatinha, você é fã da Vidente Solange?
    – Sim, sigo ela em todas as redes sociais. Você nunca viu o que eu compartilho dela?
    – É, eu evito ficar nas redes sociais porque a rolagem da tela me dá tontura. Enfim, isso o que a Vidente Solange fala é só mídia e...
    Então, o advogado Maurício, dando uma de advogado, me interrompeu:
    – Detetive, desculpa interromper, mas não é bom ficar duvidando da fé das pessoas, hehehe. Pelo menos não agora.
    Ah, mas como esses advogados são enxeridos! Eu não aguentei a interrupção e acabei respondendo:
    – Eu sabia que uma hora ou outra você ia acabar fazendo isso.
    – Não, detetive! É que pode dar mais problemas pra padaria.
    – Então se eu vejo ela sendo ludibriada por alguém eu fico impedido de avisar?
    – O senhor não tem provas da enganação.
    – Como não tenho provas? É só olhar o passado dessa vidente. Ela foi desmascarada ao vivo na TV aberta. Além disso, ela foi no meu escritório hoje, antes de eu vir pra cá e tentou usar essa mesma história pra cima de mim.
    A Renatinha deu um grito, assustada com o que eu disse:
    – Ai, meu Deus! Os encostos estão atacando todo mundo! Eu preciso me benzer!
    Eu precisei voltar pra falar com a Renatinha, pra tentar acalmá-la:
    – Não, Renatinha! Não cai na conversa dessa mulher! Nem ela sabe explicar o que é um encosto. Quando você pergunta algo, ela se irrita e sai correndo.
    Então o advogado interrompeu de novo:
    – Detetive, você suspeita que a Vidente Solange está envolvida com isso tudo?
    – Sim! É muita coincidência isso tudo acontecer assim, não?
    Foi então que Rodolfo, o garçom, tomou a palavra:
    – Eu acho que você tá desconfiando da pessoa errada, Jerry. Eu ficaria de olho é naquele moço que estava tentando comprar a padaria.
    – Por quê?
    – Uns dias antes dele fazer a primeira proposta pro Seu Rogério, ele veio aqui, pediu só um refrigerante e ficou uma hora inteira só com o refrigerante. Ninguém bebe um refrigerante em uma hora inteira. Então eu vi que ele ficava só sentado, tirando fotos com o celular.
    Seu Rogério falou logo em seguida:
    – Poxa vida, Rodolfo! Você viu o cara tirando foto aqui e não me disse nada!
    – Ele estava no cantinho instagramável. Não falei porque tem um monte de gente que tem mania de fazer isso lá. Se eu soubesse que ia terminar nisso, teria falado.
    A revelação de Rodolfo me deixou um pouco frustrado. Não sei, algo em mim queria que a Vidente Solange fosse a culpada. Aí eu iria desmascará-la mais uma vez. Mas enfim, pra ter mais certeza, perguntei a Rodolfo:
    – E por que você acha que devemos suspeitar dele?
    – É que teve mais gente que viu ele depois. Eu vi o Zé Maria conversando com ele depois de sair do trabalho outro dia.
    Caçula, um dos ajudantes de cozinha, tomou a palavra também:
    – É! Agora que eu me lembrei, ele tentou me abordar pra falar comigo também, mas eu estava com o fone de ouvido e o ônibus tinha acabado de chegar no ponto. Então eu só ignorei e fui embora.
    Zé Maria, o chapeiro, estava encolhido. Parecia que não queria falar nada. Como Rodolfo disse que ele falou com o corretor imobiliário, eu precisei chamá-lo pra conversa:
    – Zé Maria, o que o tal corretor disse pra você?
    Zé Maria, relutante, respondeu:
    – Nada, eu não dei atenção pra ele.
    Bom, parece que eu estava errado. Depois de perguntar se mais alguém tinha algo a dizer e não obter resposta, chamei o Seu Rogério e o advogado pra falar. Seu Rogério dispensou os funcionários e agradeceu pela ajuda.
    Todos foram se levantando e saindo, menos o Zé Maria. Parecia que ele ainda queria dizer algo. Ele esperou todos os outros funcionários saírem e depois veio até nós três, Seu Rogério, o advogado e eu. Ele parecia muito acanhado e com cara de arrependimento. Seu Rogério percebeu o modo como ele estava e perguntou:
    – Zé Maria, está tudo bem?
    – Não, Seu Rogério. Na verdade, eu queria falar sobre a minha conversa com o corretor. Só que eu queria que o senhor me escute até o fim antes de qualquer coisa.
    – OK, sem problemas.
    Zé Maria deu um suspiro e começou a falar:
    – O corretor veio falar comigo dizendo que percebeu que eu ficava irritado com as piadas que você ficava fazendo comigo. Eu tentei falar que não ligava muito, mas ele insistiu. Falou pra mim que entendia de psicologia e mais umas outras coisas. Ele acabou me convencendo a querer dar o troco. Então ele me deu uma caixa e mais quinhentos reais e disse pra eu deixar ela aberta na cozinha. Eu não aceitei de primeira, mas ele ficou insistindo de novo, falando que era só uma brincadeira e coisa e tal. E eu acabei aceitando. Eu coloquei a caixa aberta e só depois que eu vi que saíram dois ratos de dentro dela.
    Então Zé Maria juntou as mãos em forma de prece e olhou de um modo dramático para o Seu Rogério:
    – Eu não sabia que ia acabar nisso! Desculpa aí, por favor!
    Seu Rogério pareceu chocado com a confissão de Zé Maria. O silêncio de Seu Rogério induziu o advogado a perguntar:
    – Zé Maria, quando isso aconteceu?
    – Foi dois dias antes da Vigilância Sanitária aparecer. Eu juro que não sabia o que tinha na caixa!
    Esses advogados são muito frios! Num momento desses esse cara vai perguntar sobre data? Seu Rogério só se sentou numa cadeira e disse:
    – Zé Maria, é melhor você ir pra casa agora. Depois eu te chamo pra conversar.
    Zé Maria só foi embora deixando nós três na padaria. Foi então que o advogado tentou começar o assunto:
    – Olha, Seu Rogério, isso não é tão ruim quanto parece. O detetive Jerry Bocchio, no final está certo, alguém veio sabotar a padaria. É só termos como provar e eu consigo convencer o rapaz a cancelar o processo. Foi bom o detetive ter pedido isso.
    Eu precisei dar a minha opinião sobre o assunto:
    – Não sei não, doutor Maurício! Isso ainda está estranho, parece que está faltando algo.
    – Você ainda está desconfiado da vidente, detetive?
    – Não sei, eu só não consigo enxergar uma motivação pro corretor fazer isso do nada.
    – Como não? Ele queria baratear o preço da padaria porque o Seu Rogério não quis vender. Isso aí é uma coisa que alguns corretores imobiliários desonestos, pra não dizer criminosos, têm costume de fazer.
    – Sim, eu sei. Só que eles fazem isso a mando de alguém, alguém que talvez esteja de olho na padaria.
    – Hum... Acho que eu sei o que está acontecendo. Você está frustrado porque a solução foi fácil demais. Bom, eu não tenho tempo pra discutir teoria da conspiração. Eu vou correndo pro meu escritório pra encomendar uma reunião com os representantes do rapaz que está processando a padaria.
    Então o advogado pegou a pasta dele e foi embora. Eu só fiquei vendo o Seu Rogério sentado, com cara de decepção com o que havia ouvido. Achei melhor acompanhar o Seu Rogério até sua casa e encerrar o dia por ali mesmo.
    Durante a ida até a casa do Seu Rogério, ele me disse que não sabia o que fazer em relação ao Zé Maria. De um lado, ele entendeu sobre as piadas irritarem ele. Mas por outro, ele disse que o Zé Maria além de ser um funcionário um pouco displicente, ainda ter aceitado aquilo deixou o Seu Rogério irritado.
    Eu só fui para o escritório no dia seguinte. Eu ainda estava com aquela sensação de que estava faltando algo no caso. Parecia que tinha uma conexão que eu estava deixando de lado. Mas, como sugeriu o doutor Maurício, talvez fosse só um desejo de que tenha algo mais mesmo, devido a tudo ter se resolvido muito fácil.
    Eu estava matutando sobre isso no meu escritório quando, lá pelas dez da manhã, ouvi um batido forte na minha porta. Fui atender e era o doutor Maurício, com uma expressão mais séria. Eu me espantei com a presença dele.
    – Doutor Maurício! Deu tudo certo lá?
    – Eu preciso falar com você, detetive!
    – Eita, que cara é essa? Eu não fiz nada não, só levei o Seu Rogério pra casa.
    – Acho que você está certo, tem algo mais nessa história.
    Depois que ele disse isso, eu deixei ele entrar. Nós fomos até minha mesa, ele pôs a pasta dele em cima e puxou um papel de dentro.
    – Eu fui falar com os representantes do rapaz que está processando a padaria. Eles disseram que não iriam retirar o processo. Então eu pedi as provas que eles teriam e eles me deram uma cópia do exame que ele fez.
    – Aquele que dizia que ele ingeriu pêlos de rato?
    – Esse mesmo! O exame não detalha muita coisa, mas olha o responsável pelo exame.
    – Nossa! Ele tem um número no lugar do nome!
    – Não! Esse é o número do registro no Conselho de Medicina dele!
    – Aaaah! E isso quer dizer o quê?
    – Eu pesquisei esse número e vi que é o Doutor Álvaro Boa Morte. Ele já teve problemas na justiça anteriormente.
    – Também, com um nome desses! Quem vai confiar num médico que se dá o nome de "Boa Morte"?
    – "Boa Morte" é um sobrenome real. Tem origem portuguesa.
    – Sério? Caraca, que família é essa? Devem ser a inspiração da Família Addams.
    – Olha, detetive, concentra aqui! Esse médico tem problema com a justiça por falsificação de atestados.
    Opa! Quer dizer que o documento tem chance de ser falso? Isso me mostrou um novo caminho para continuar a investigação.
    – Bom saber! Eu vou dar um jeito de falar com esse médico. Onde ele atende?
    – Numa clínica no centro da cidade. Mas eles não devem ser muito receptivos com detetives particulares ou policiais.
    – Ah, não se preocupe, doutor Maurício! Eu sou um mestre dos disfarces.
    O doutor Maurício ficou um pouco em silêncio e respondeu depois.
    – Olha, talvez seja melhor eu ir junto.
    Ai, que saco! Acho melhor tentar convencê-lo do contrário:
    – Doutor Maurício, não que eu tenha algo contra você, mas eu não gosto de trabalhar com advogados do lado.
    – Não se preocupa que eu não vou te atrapalhar.
    Ele já disse isso antes. Enfim, agora eu tenho uma nova pista e isso me deu um ânimo. Vamos ver se esse médico ainda está bom em falsificação. A visita não vai ser do jeito que eu queria, mas é melhor do que nada.
    Continua...
  • Jerry Bocchio e os Ratos na Padaria – Capítulo VI: Os Astros Talvez Não Mintam, Mas...

    A situação estava ruim para o meu lado. Eu tinha acabado de ajudar a descobrir um esquema de especulação imobiliária daqueles bem safados e, por consequência, salvei a Padaria Nova Caledônia de fechar as portas. Mas, por algum motivo, a Vidente Solange, aquela lá do começo da história, que tinha falado para o Seu Rogério vender a padaria e depois me dito para não investigar o caso, do nada disse para todo o mundo que eu tenho "pacto com encostos".
    De onde essa mulher tirou essa ideia? Nem ela sabe dizer o que é um encosto quando perguntam isso pra ela. E por que ela resolveu falar isso de mim sendo que a pessoa que foi presa pelo esquema foi outra?
    Eu lembro que quando eu falei com Jorge Abílio, o corretor imobiliário preso, pela primeira vez na Padaria Nova Caledônia, ele havia me dito que era seguidor da Vidente Solange. Eu lembro também que, num acesso de raiva, eu havia dito que "o encosto sou eu". Será que isso teve influência?
    Eu fui fazendo essas ligações na minha cabeça. A Vidente Solange apareceu na padaria para incentivar o Seu Rogério a vendê-la depois da aparição do Jorge Abílio. Até aí é lógico, não teria como ela aparecer antes – essa conversa mole de vidente, paranormal e astros não me convence, viu?
    Depois ela veio ao meu escritório falando para eu não investigar a aparição dos ratos após uma conversa minha com o Jorge Abílio. De novo o Jorge Abílio precisou aparecer antes dela. Como ela sabia da minha pretensão de investigar? Será que Jorge Abílio tinha uma ligação com ela?
    Tem uma chance de aparecer um padrão aí. Mas só duas coincidências não fazer um padrão. Então, sentei em minha mesa e liguei para o Tom, enquanto mexia no computador:
    – Tom, me tira uma dúvida: a Polícia divulgou a prisão do Jorge Abílio para a imprensa?
    – Ainda não.
    – Nem tinha repórter?
    – Também não. Por que você tá perguntando isso? Tem a ver com o vídeo da Vidente Solange?
    – Você também viu, é?
    – A Maria segue ela nas redes sociais. Ela mostrou o vídeo pra mim. Você deve ter alugado um apartamento mesmo na cabeça dessa vidente, viu? A Maria disse que ela não postou os conselhos dela ontem à noite e chegou hoje falando justo sobre você.
    – Ontem à noite? Você diz na hora que a Polícia foi atrás do Jorge Abílio, né?
    – Mais ou menos por aí. Você ainda tá desconfiando dela, né?
    – Você nem imagina o quanto, Tom.
    Enquanto eu falava com Tom, eu ia procurando na internet alguma notícia sobre a prisão de Jorge Abílio. Sem resultado nenhum. Nem mesmo nas redes sociais dele tem alguma postagem do tipo. Então eu perguntei ao Seu Rogério, que ainda estava no meu escritório, vendo toda a situação:
    – Seu Rogério, ela fala alguma coisa mais sobre mim no vídeo?
    – Não, só isso mesmo.
    Isso ainda não provava minha teoria, que começava a tomar corpo.
    – Você sabe que horas começa o programa dela, Seu Rogério?
    – Umas três horas.
    Levantei e peguei minhas coisas correndo. Seu Rogério perguntou:
    – Onde você vai, J.B.?
    Eu, já chegando na porta, virei para ele e falei rapidamente:
    – Preciso consultar o meu futuro.
    Seu Rogério e eu saímos do meu escritório. Sem falar muito, me despedi dele e fui correndo até a rádio onde trabalha a Vidente Solange, a Rádio 88. Ela faz parte de um programa chamado "Tarde Astral", onde ela e um outro apresentador chamado Fernando ficam falando aquelas baboseiras todas.
    Cheguei na entrada para o estacionamento da Rádio 88. Havia uma cancela e uma guarita ao lado. Tentei passar pela cancela como quem não quer nada, mas o segurança logo saiu da guarita e gritou:
    – Parado aí, rapaz! Cadê a sua identificação?
    Eu precisava inventar algo rápido. Se eu falasse quem eu era, ele provavelmente não deixaria eu entrar.
    – Eu... Vim para uma entrevista de emprego.
    Porém, o segurança deu um sorriso malicioso e me respondeu:
    – Você não me engana não, viu? Você é aquele detetive Jerry Bocchio. Aqui você não é bem vindo. Dá o fora daqui, anda!
    Eu não sou bem vindo? Talvez aquela vidente não queira que eu apareça pra falar com ela mesmo.
    Pra evitar mais problemas, e porque o segurança já tinha chamado mais gente no rádio dele, eu decidi sair pra pensar em algum outro plano. O segurança ficou me olhando até eu virar a esquina mais próxima do estacionamento da rádio, saindo do campo de visão dele.
    Eu me sentei na calçada mesmo, ao lado de uma banca de jornal. Fiquei com a cabeça baixa, tentando pensar em algo, quando eu recebo uma mensagem no celular. Era o Tom falando para eu olhar para o outro lado da rua. Quando eu levantei a cabeça, vi o carro dele estacionado. Fiquei surpreso com o que vi. Então me levantei e fui até o carro.
    No carro estavam Tom, vestindo um uniforme da Padaria Nova Caledônia e o Seu Rogério. Tom destravou a porta de trás e disse pra eu entrar no carro. Entrei ainda chocado com a situação. Tom, antes que eu dissesse algo, virou para trás e resolveu falar:
    – Eu imaginei que você viria até aqui, Jerry. Bem a sua cara mesmo fazer esse tipo de coisa.
    – Tá, mas, por que você está aqui também? E vestido desse jeito? E trouxe o Seu Rogério junto?
    – Como eu disse, eu imaginei que você viria depois que nós conversamos pelo telefone, então, eu saí correndo da Delegacia para o seu escritório pra evitar de você fazer alguma besteira. Só que, quando eu cheguei lá, você tinha acabado de sair correndo. Aí eu vi o Seu Rogério, que estava lá, e nós conversamos.
    – Sei. E vocês vieram pra me convencer a não fazer isso. Mas não explica porque você está com o uniforme da padaria.
    Foi então que o Seu Rogério também virou para trás e interveio na conversa:
    – Aí é que você se engana, J.B.! A gente veio te ajudar a entrar.
    Tom continuou:
    – É, você deve ter ficado nervoso com a Vidente Solange, mesmo, Jerry. Até esqueceu de bolar um disfarce pra entrar.
    E o Seu Rogério finalizou:
    – Mas não se preocupa que a gente pensou nisso. Aí do seu lado tem uma sacola com uma camisa, um avental e uma redinha de cabelo da padaria. Se troca aí no banco de trás mesmo e a gente vai tentar passar pelo segurança.
    Ao terminarem de falar isso, os dois se viraram para a frente de novo. Eu vi a sacola do meu lado e comecei a pegar a roupa que estava dentro. Enquanto eu ia me trocando, eu perguntei:
    – Tom, você não vai se encrencar com o Capitão?
    Com um ar meio de confiança, meio de desprezo, Tom respondeu:
    – Humpf! Quando eu aparecer lá com a Vidente Solange algemada, ele vai esquecer tudinho.
    – Você tem tanta certeza assim que vai dar certo, Tom?
    – Digamos que eu já vi você fazendo isso antes, Jerry.
    Eu coloquei a roupa e Tom deu a partida no carro. Eu perguntei o plano e ele só disse "segue o fluxo". Uma coisa que nós costumávamos falar um ao outro quando éramos parceiros na Polícia.
    Chegamos à cancela do estacionamento da Rádio 88. O segurança saiu da guarita e veio em direção a nós. Tom abaixou apenas o vidro do lado dele. O segurança chegou até a janela de Tom e disse:
    – Identificação.
    – Nós somos do Delivery. A produção do programa "Tarde Astral" encomendou três sanduíches de metro, um bolo, uma torta holandesa e três refrigerantes.
    Caramba! Isso deve ter saído caro!
    O segurança tentou olhar para mim no banco de trás. Eu abaixei a cabeça fingindo mexer no celular pra tentar enganá-lo, com muito medo de não dar certo. Por sorte, a escuridão do carro e o Insulfilm nas janelas do carro de Tom conseguiram convencer o segurança. Ele pediu para Tom esperar e voltou para sua guarita. Depois de uns cinco minutos, ele voltou para falar com Tom:
    – Eles disseram que não encomendaram nada!
    Tom, atuando, virou para o Seu Rogério e disse:
    – Ih, rapaz! Será que a gente cometeu um erro chefe?
    – Que droga! Vamos ter que aplicar a política de entregas erradas da padaria.
    O segurança, curioso, perguntou:
    – Que raios de política é essa?
    Tom virou para ele e respondeu:
    – Quando a nossa padaria faz uma entrega errada, a pessoa tem direito de ficar com todo o produto de graça e sem pagar a taxa de entrega.
    – Vocês estão de brincadeira com a minha cara, é?
    – Não, seu guarda! É sério!
    – Deixa eu ver o porta malas!
    Tom saiu do carro e foi com ele ao porta malas. Pelo que eu ouvi da conversa, afinal eu não queria virar o rosto para o segurança não me identificar, o segurança conferiu e estava tudo lá, como Tom havia descrito.
    Nessa hora eu me emocionei. O Seu Rogério abriu mão de uma boa produção dele pra me ajudar a limpar meu nome. Olha, se eles não são meus amigos, eu não sei do que os chamar.
    Tom voltou para o carro e o segurança voltou para a guarita. Depois de mais uns cinco minutos, ele liberou a cancela. Quando Tom passou pela guarita, o segurança deu as coordenadas para ele e disse que uma pessoa da produção estaria nos esperando na porta de entrada.
    Dito e feito, quando Tom passou pela entrada, justamente o apresentador, Fernando, estava nos esperando. Tom e Seu Rogério desceram do carro e, quando eu ia descer, o Seu Rogério só olhou pela janela e disse:
    – Opa! Jaime, dá só a baixa no aplicativo antes de descer do carro, beleza?
    Pelo que eu entendi, esse Jaime era eu e era pra eu esperar mais um pouco antes de descer. Então, fiquei no carro e só ouvi a conversa:
    – Olá! Namastê! Eu sou o Fernando, apresentador do Tarde Astral, tudo bem?
    – Oi, eu sou o Rogério! Muito prazer! Minha filha acompanha muito o programa de vocês!
    – Ah, que ótimo! Bem que a Vidente Solange disse que iríamos ganhar um presente dos astros hoje. Olha como os astros não mentem, não é mesmo?
    Tom abriu o porta malas e simplesmente jogou as sacolas com os refrigerantes no peito do Fernando.
    – Meu Deus! Como sou descuidado! Você se machucou, senhor Fernando?
    – Ai! Não muito! Nada que um banho de sais com cúrcuma não resolva, não é? Hehehe!
    Seu Rogério apareceu na cena:
    – Poxa vida, Rubens! Pare de ser desastrado desse jeito!
    Bom, pelo visto, o Tom é o Rubens. Fernando, vendo a bronca encenada do Seu Rogério no Tom, digo... Rubens, interveio:
    – Senhor Rogério, não faça isso com ele, coitado! Isso atrai energias negativas. Temos que ter mais gratidão! Olha, eu sou grato por ele ter batido com essa sacola no meu peito porque é uma prova que eu tenho saúde pra aguentar pancadas.
    Pelo amor de Deus! Esse povo é muito, mas muito esquisito!
    Seu Rogério pediu desculpas, pegou as sacolas com os refrigerantes e a torta holandesa e perguntou se Fernando poderia levar para que ele pudesse levar o bolo. Fernando, mesmo depois da pancada no peito, aceitou. Os dois foram indo na frente. Aí sim, Tom me chamou para ajudar a levar as caixas de sanduíche de metro. Tom ficou na frente e eu fui seguindo ele, de cabeça baixa, só dando uma olhada para saber onde estávamos indo. O problema é que um dos sanduíches era de salame, e o cheiro estava me abrindo o apetite.
    Fernando, como é um sujeito super otimista, ficava apresentando todas as salas para nós no caminho. Mal sabia ele que a nossa intenção era a de questionar a Vidente Solange. Já pensou se um sequestrador aparecesse lá? Ele não teria nenhum trabalho... Bom, talvez com o segurança.
    Chegamos à sala onde deveríamos deixar a encomenda. Segundo Fernando, era a sala de som do programa. Haviam duas mulheres na sala que tinha uma mesa de som, uma janela que dava para um estúdio, um tripé com uma câmera apontada para a janela, provavelmente a câmera que grava os vídeos para a internet, e uma mesa redonda grande no centro. Infelizmente, a Vidente Solange não estava lá. Fernando foi apresentando as duas moças:
    – Gente, esse aqui é onde a gente trabalha quando não estamos no ar. Aquela ali é a Luna, nossa técnica de som. Fala oi para os nossos novos amigos, Luna!
    – Namastê!
    – E aquela é a Sol, nossa diretora. Oi, Sol!
    – Namastê!
    O que significa "namastê"?
    Tom me cutucou e apontou para o estúdio. A Vidente Solange estava lá, se maquiando. Eu precisava sair escondido, mas precisava de uma deixa. Foi quando a diretora, Sol, disse:
    – Por que vocês não ficam conosco um pouquinho para celebrar esse presente que os astros nos deram? Os mensageiros também precisam ser recompensados.
    Olha, é sério! Se alguém com más intenções quiser fazer algo com esse pessoal... Nem vou terminar a frase.
    Tom e eu colocamos os sanduíches de metro na mesa do centro. Aí Tom virou para os três e disse:
    – Uau! Uma mesa de som! Eu sempre quis ver uma de perto!
    Os três produtores levaram Tom e o Seu Rogério para mostrar a mesa de som completamente empolgados e eu fiquei lá, parado, sozinho na mesa do centro. Aí que eu me toquei: era a deixa! Saí de fininho da sala, não sem antes pegar um pedaço do sanduíche de salame, e fui em direção à porta do estúdio onde estava a Vidente Solange.
    Geralmente, eu levaria mais tempo para achar a porta correta, mas o tonto do Fernando foi apresentando tudo pra nós no caminho, né?
    Tirei aquela redinha do cabelo, o avental e abri a porta. Logo já fui ouvindo da Vidente Solange:
    – Ai, Fernando! Já disse que não é pra entrar enquanto eu estiver me maquiando! Isso atrai... Ora, Ora! Se não é o Jerry Bocó! Largou a carreira de detetive pra trabalhar na padaria, é? Hahahaha!
    Conforme eu fui entrando, eu fui falando:
    – Pensei que você seria mais grata, a exemplo dos seus colegas.
    – Pffff! Eu, hein? Aqueles otários!
    Após entrar, fechei a porta e continuei:
    – Por que "otários"? A senhora não compartilha das ideias deles?
    – Qual é? Sejamos francos! Você passou um tempo com eles, não foi? Cinco minutos já bastam pra ver como eles acreditam em maluquices!
    – Inclusive as que você fala?
    – Bom... Aí... Já são outros quinhentos, né? Tem coisa que a gente tem que falar pra agradar. Mas, enfim... Você está aqui porque quer limpar seu nome né? Esquece isso! Você me prejudicou, então eu acabo com a sua carreira!
    Opa, opa, opa! Como assim eu prejudiquei ela?
    – Eu te prejudiquei? Como? Por acaso a senhora teria ligação com o Jorge Abílio?
    – Não sei! Só sei que você disse que era um encosto. Agora vai pagar pelo que disse.
    Haha! Falou besteira!
    – É, de fato, eu disse isso! Mas eu disse isso para o Jorge Abílio, não para você. Como você sabia?
    – Eu sou uma vidente, esqueceu?
    – Ué, não foi você que acabou de dizer que isso era maluquice e que dizia essas coisas "pra agradar"?
    A Vidente Solange, que eu vou, a partir de agora, me recusar a chamá-la desse jeito, me dando o direito de chamar apenas de "Solange", se calou com uma feição de preocupação. Sabe de uma coisa? A certeza de impunidade faz as pessoas cometerem atos falhos com muita frequência.
    Solange voltou a sorrir maliciosamente e disse:
    – Ai, Jerry Bocó! Você quase me pegou nessa. Só tem um probleminha.
    – Qual?
    – Você não tem como provar nada disso! Jerry Bocó! Hahahaha!
    Yes! É isso aí! Rapaz, como eu amo quando um suspeito diz essa frase! "Você não tem como provar" é quase uma confissão!
    Durante o riso descontrolado de Solange, a voz de Tom apareceu no estúdio dizendo:
    – Gente, me perdoa! Eu sou muito desastrado! Eu apertei o botão que colocava o programa no ar sem querer e ele transmitiu toda essa conversa de vocês dois ao vivo!
    Solange mudou a feição dela de uma risada descontrolada para um medo embranquecedor, como um personagem de um filme de terror que acabou de encontrar o fantasma cara a cara. Deve ter sido rápido, mas eu vi tudo como se fosse em câmera lenta.
    Ao olharmos para a janela que dava para a sala de som, vimos Tom e o Seu Rogério nos olhando com um olhar de satisfação e os três produtores decepcionados. Foi então que Tom falou ao microfone de novo:
    – A propósito, Solange Maria Abraão, a senhora está presa!
    Fernando estava certo? Talvez. Afinal eles ganharam um presente bem grande, se livraram de uma charlatã. Pode até ser que os astros não mintam, mas as pessoas que dizem que os lêem, aí é outra história.
    Solange foi investigada pela Polícia pelo envolvimento com a especulação imobiliária de Jorge Abílio e descobriram mais do que isso. Solange era a dona da empresa que contratava Jorge Abílio e que, além dele, a empresa também mandava em vários outros corretores agindo do mesmo jeito pela cidade. Também descobriram lavagem de dinheiro e outros golpes que ela praticava se valendo das crenças das pessoas.
    O problema é que ainda existem pessoas que acreditam na palavra dessa mulher. Mesmo presa, mesmo com tanta coisa saindo na mídia. Não são mais tantas quanto antes, mas ainda existem.
    O Doutor Álvaro Boa Morte perdeu de vez a licença dele para praticar medicina. Porém, ele agora tem um canal no YouTube dando dicas sobre saúde. E o pior é que o nome dele foi o que chamou a atenção do público para o canal: "Boa Morte pra Você". Esse povo da internet também é bem esquisito.
    Quanto ao Seu Rogério e a Padaria Nova Caledônia, eles reabriram. Seu Rogério perdoou Zé Maria por ele ter colocado os ratos e prometeu não ficar fazendo tantas brincadeiras mais com ele. A Renatinha, depois do ocorrido, largou de mão da Vidente Solange. Na festa de reinauguração, eu conversei com o Seu Rogério:
    – Seu Rogério, muito obrigado pela ajuda. Você abriu mão de uma boa parte do seu estoque pra me ajudar.
    – Não, J.B.! Eu tava com a padaria fechada. Eu comprei quase tudo aquilo. Só os refrigerantes que eu tinha.
    – Aaaah! Mesmo assim! Deve ter sido caro.
    – Que isso, J.B.! Aquilo foi pouco ainda! Você me ajudou a recuperar a padaria, rapaz! E tem mais! Meu filho tinha um escritório num prédio comercial perto de onde você trabalha. É um escritório bem maior do que o seu. Eu ia alugar ele, mas eu deixo você ficar lá, só precisa pagar o condomínio e as despesas. O valor fica quase o mesmo do que você paga atualmente.
    – Que isso, Seu Rogério! Eu não preciso de escritório maior não!
    – Ué, e quando você tiver seu ajudante? Seu escritório fica pequeno!
    – Mas eu não tenho condições de pagar ajudante.
    – Ah, J.B.! Do jeito que você é bom, daqui a pouco vai precisar contratar um. Hehehe.
    Esse Seu Rogério tem uma confiança em mim que até eu mesmo me espanto. Bom, espero que ele tenha poderes sensitivos, né?
  • La Luna em Beleza e Graça

    Meu Amor!

    Há uma beleza audível e invisível que imerge no íntimo dos puros de coração

    E como a luz da lua cheia em que sua aureola prateada a envolve de encanto místico sagrado… a canção emerge do mais profundo do ser, espiralando no corpo uma aura de graça e áurea de benção

    A uma inocente beleza de pureza e graça iluminada em sua doce voz feminina…

    Voz de pureza musical que penetra arrepiando os fios dos corpos em graça

    Cada tom… cada acorde… cada timbre… cada sopro do teu ser é gracioso em sua voz em graça

    Calmamente vou seguindo os seus passos sonoros no Bendito Amor em beleza e graça

    Tua força audível dança descontroladamente em meu coração

    Tua voz graciosa me arrasta para a Morada da Beleza

    O Sagrado lá me espera…

    A Beleza em tua doce graça penetra meu coração

    Apenas um eco no vento de uma doce voz feminina me embala

    Trançando meus cabelos com pequenos galhos de flores e coloridas folhas, arrastados no sopro íntimo dos teus acordes sonoros em graça

    Como és graciosa Querida!

    Em tua voz fui levado ao divino do meu SER

    Proclamou-se em mim uma semente do Sagrado e Eterno Contínuo ecoando em sua voz em beleza e graça

    Os empecilhos e agregados de minha falsa personalidade evaporaram pelo sopro gracioso do teu iluminado coração, em cura, beleza e graça

    Cante escrevendo para mim Meu Amor, no silencioso do meu ser agora em graça… sopre o teu vento em ondas sonoras, acompanhado pelos acordes percussivos dos grilos, pelos efeitos do rasgar da garganta da coruja em um misterioso grito supersônico, e pela beleza secreta e mística da melodia dos lobos uivantes ao te venerar em luz prateada no céu noturno

    Sento-me solitário na beira do rio Meu Amor… me leve em teus passos sonoros… reflita em minha pele a luz dos teus acordes em brilho e graça… fecho meus olhos com a cabeça erguida voltada para tua face lunar… cruzo minhas mãos abertas em reverência uma sobre a outra, levando-as calmamente ao meu peito, no lado do meu palpitante coração… na sinfonia noturna das pequenas criaturas… em um divino concerto místico onde toda natureza te acompanhava em beleza e graça… tua voz luz em ondas escritas me penetrou… e sozinho, sentado me ergui no doce luminoso bailado… e fui levado pelas cores do invisível sonhar… e na minha singela silhueta, em que fui ofuscado em seu canto de luminosidade coloridamente graciosa, me despi por completo de minha singular, pluralista e dualística personalidade masculina

    Tua mística voz foi jogada ao vento como o sopro no dente-de-leão

    Uma dessas sementes luminosas repousou em meu coração

    E lá nasceu a tua graça… divina… escrita… cantada

    No palco lunar de inefável beleza e bondade mística iluminada

    Assim, Meu Amor… sua voz cantou em graça meu coração

    Beijando com sua luz o meu masculino negro corpo terra, numa voz feminina branca e graciosa lunar canção

  • Labirinto

    O sonho era bonito. Estava deitado na praia e sentia o sol bater na face direita do seu rosto. Já ardia de tão quente, mas não era uma ardência ruim ou angustiante. Trazia prazer sentir aquilo e o barulho das ondas do mar se quebrando trazia a tão querida paz. Porém, como é por diversas vezes costumeiro nessa vida, o sonho acabou e tudo se tornou um pesadelo. O despertador tocou as 05:30 da manhã, sinal de que ele tinha que sair da sua sonhada praia e começar a se arrumar para ir ao seu odioso trabalho.
    Tudo ocorria exatamente como ele detestava nos inícios da manhã. O seu café estava velho e ele colocou o número errado de colheradas de açúcar. O pão já estava duro, mas não o suficiente para que fosse impossível de comer. A programação da televisão era um lixo e, mesmo que achasse algo bom, não daria tempo de assistir tudo. Era assim todas as manhãs, mas o horário já avisava que não tinha como ser melhor.
    O cotidiano dos seus tormentos se modificou assim que abriu a porta. Tudo estava escuro. Somente por causa de uma luz, que estava distante dele uns 50 metros, era possível perceber que o que levava até ela era um corredor. Ele continuava na beira da porta com a sua chave na mão. Tentava entender o que estava acontecendo. Tentando achar alguma explicação lógica para aquilo. Tentando se convencer de que tudo não passava de um sonho. Tentando não se frustrar. E tentando criar coragem para ir até aquela luz.
    Os seus primeiros passos foram feitos sem muita convicção, mas a curiosidade de saber o que tinha lá fez com que a coragem viesse lentamente e seus passos foram se tornando mais firmes. Chegando lá, percebeu que tinha algo escrito na parede iluminada. “Bem-vindo ao meu labirinto! Direita ou esquerda? Direita.”. O que já era confuso para a sua mente se tornou ainda mais depois dessa frase. A única coisa que tinha convicção de que sabia era o que era um labirinto, mas não sabia de quem era ou de que maneira tinha parado ali já que sabia que não existia nenhum na porta de sua casa quando foi dormir. De qualquer maneira, seguiu para a direita com calma e sem nenhuma coragem.
    As paredes eram brancas e feitas com grandes tijolos de concreto, mas já estavam sujas e com trepadeiras crescendo nelas. Via a sua sombra o acompanhando apressadamente enquanto andava. Não havia luz o suficiente para que uma sombra fosse gerada. Percebeu isso quando um rato passou correndo por ele e nem sequer gerou uma imagem borrada. Quando chegou em uma bifurcação, continuou para a direita assim como ordenara o aviso. Finalmente, viu uma luz no final do corredor em que estava. Seguiu apressadamente, ansioso para saber o que estava escrito. Enquanto andava pensava somente em coisas boas, acreditando que podia ser uma saída ou pelo menos uma explicação do que estava acontecendo.
    O branco da parede começou a ter respingos de vermelho. Os respingos viraram manchas. A sua sombra se ajoelhou em prantos, ele não. Os seus passos estavam mais lentos como se quisessem impedir que os seus olhos vissem uma desgraça. Como se pudessem ver o futuro. E como se antecipassem a dor.
    Antes de ler o que estava escrito, viu o seu gato de estimação, chamado Simão, caído no chão. Ele repousava sobre o próprio sangue retirado por meio de uma degolação. Ainda dava para perceber o rabo com os pelos todos eriçados, mostrando que ele sofreu e sentiu medo em seus últimos minutos de vida. Assim que a sua ficha caiu, o que demorou poucos segundos, sentiu como se uma adaga tivesse sido fincada no peito. Não acreditava que, depois de passar doze anos ao lado do seu gato, ele teria que o perder dessa maneira, sem conseguir entender nem onde está e o porquê de estar lá.
    Quando finalmente conseguiu fazer com que as lágrimas saíssem da frente dos seus olhos, leu o que estava escrito na parede. “Eu disse direita? Esse nunca é um bom caminho, mas fique com esse presente. O reencontro com um animal de estimação é sempre emocionante. Siga ao norte e depois vá para a esquerda.”. Ele decidiu ir para o norte já que essa era a única opção além de voltar, mas viraria a primeira a direita que visse.
    Assim que começou a seguir pelo caminho planejado, viu que a sua sombra estava indo para trás. A sua mente estava perplexa com aquilo que via e isso só aumentou quando viu uma outra passar pela parede logo em seguida. Olhou para os lados e viu mais umas outras três sombras fazendo o caminho contrário. Decidiu ignorá-las, acreditando que esse seria somente outro truque do labirinto para desviá-lo do verdadeiro caminho.
    Como prometeu para si mesmo, virou a primeira a direita. O caminho parecia ser longo já que caminhava durante horas e não chegava a nenhuma parede que o impedisse de continuar. A sua mão já estava muita arranhada por ter que andar encostando na parede uma vez que a iluminação ia diminuindo lentamente e quase imperceptivelmente. Para ele, o labirinto insistia em tentar o convencer a seguir o outro caminho. Via diversas sombras voltando ou entrando em diversas bifurcações que levavam ao norte ou a noroeste, mas continuava firme em sua promessa.
    Finalmente chegou no terceiro aviso. A luz estava fraca e tremula. A escuridão a sua volta não o permitia ler direito. Quando olhou para a sua esquerda, viu diversas sombras parando uma atrás da outra. Não conseguia ter um bom pressentimento daquilo. Assim que a última sombra parou, todas passaram a correr em círculos. As sombras começaram a sair das paredes. Ele sentia o vento delas correndo em volta dele e o impedindo de respirar fundo. O seu coração disparou enquanto gritos estridentes de sofrimento começavam a ensurdecê-lo. Os seus olhos latejavam com o som e suas mãos foram instintivamente para os seus ouvidos, mas os sons já estavam dentro da sua cabeça. A dor que as sombras pareciam sentir invadiram o seu corpo e se concentravam em seu peito. Parecia que todas as angústias, sofrimentos, medos e dores, tanto físicas como emocionais, que as sombras sentiam estavam sendo transferidas para ele. A sua mente não aguentava aquilo e ele implorava para que a morte chegasse logo. O seu sofrimento deve ter durado horas ou pelo menos era isso que o seu cérebro estimava.
    A dor não cessou instantaneamente, mas foi reduzindo aos poucos, igual aconteceu com as luzes enquanto caminhava. No momento em que tudo se tornou suportável, viu que a luz presa na parede estava mais forte e com brilho firme. Leu cada palavra muito lentamente para tentar driblar a dor e impedir que ela não o faça entender a mensagem corretamente. “Você é retardado ou só não passou do maternal quando ensinaram direções? Eu falei esquerda e é melhor seguir as minhas ordens.”. Quando leu a palavra “ordens”, uma raiva subiu a sua cabeça que foi o suficiente para ignorar todo o resto da dor que sentia. Ele adorava desafiar autoridades e achava que, se continuasse para a direita, conseguiria a liberdade, então assim foi como ele fez.
    Ele foi um pouco para o norte e logo virou à direita. A dor misturada com a raiva o deixou com um aspecto de maluco. Às vezes, enquanto caminhava, sorria do nada com algum xingamento aleatório ao labirinto e seu criador como se estivesse prestes a ganhar uma luta difícil. Os seus passos agora eram inegavelmente firmes e sem nenhuma hesitação. Não havia muitas sombras a sua volta, somente três.
    A caminhada até o outro aviso não durou tanto como a anterior, mas ainda assim foi longa. Os seus pés já doíam, principalmente porque os sapatos que usava não eram feitos nem mesmo para caminhadas curtas. Mesmo assim conseguiu chegar ao quarto aviso e, no momento em que estava perto o suficiente para ler, se ajoelhou para que conseguisse descansar um pouco. Na parede estava escrito: “Você está saindo da área de influência dos meus poderes. Parabéns,”. Depois de ter sentido medo, tristeza e dor, esse foi o primeiro aviso que trouxe alguma felicidade e esperança. Pelo menos foi isso o que ele sentiu na primeira parte, mas a vírgula no final da frase o deixou apreensivo. Queria acreditar que era só um descuido numa pichação apressada. E, como quis acreditar dessa forma, assim acreditou e decidiu continuar o seu caminho para direita.
    Não demorou muito para encontrar outra bifurcação na sua tão querida direção. Depois de ter dado uns vinte passos, o caminho que estava atrás dele se fechou e o chão cedeu até a metade dos seus passos. A luz que iluminava aquelas áreas só durava o bastante para que ele visse toda o chão ceder com um estrondo aterrorizador e sumir diante dos seus olhos, se tornando nada além de escuridão. A cada passo que dava para frente, um pouco mais de chão era perdido atrás. Não tinha percebido antes, mas agora só tinha uma única sombra o seguindo, somente a sua.
    Os seus passos estavam tão lentos como os de um velho de noventa anos. Queria correr até o aviso, mas os seus joelhos estavam travados de medo. Queria acreditar que continuava no caminho da saída, porém não conseguia se convencer de que a liberdade tinha um caminho tão amedrontador. Os seus sorrisos desafiadores agora não passavam de um rosto que se segurava para não chorar com as suas pálpebras e lábios tremendo. Toda a força que fazia não foi o suficiente para segurar as suas lágrimas enquanto lia o aviso. “, você cavou a sua própria cova, então agora aceite a sua morte. Nos vemos no inferno.”. No exato segundo em que os seus olhos viram o ponto final, todo o ar a sua volta sumiu. Não havia mais luz no labirinto enquanto ele sufocava até a morte. Em seu sofrimento, os seus olhos pareciam vazios, embora seu coração estivesse cheio de decepção.
  • Lua de Meu Existir

    Minha Amada que fertiliza o meu existir.

    Em plena beleza me perco em teu reflexo deitado sobre as águas escuras de minha alma.

    Mesmo com toda calma e mansidão de tua noite em que te revelas nua, cheia e completa.

    Teu reflexo iluminador é tremulo, desconexo e vibrante, intercalado por linhas negras que desconfiguram em saudades meu pobre e solitário coração de poeta.

    Ao subir lentamente cheia, contemplo a tua chegada no meu inabitado lago interior.

    Ao passo que te levantas se abre vagarosamente uma estrada de luz ‘brancamente’ prateada em meu encontro.

    Ó! Doce fonte de luz que me intensifica… ainda que eu possa ser tocado por tua energia iluminada, estás tão ‘lusitaneamente’ longe de mim…

    De súbito me imagino a caminhar em tua prateada e tremula estrada, então, poder ao menos abraçá-la calorosamente, enquanto ainda não flutuastes em mágica para o mais alto dos céus estrelados… tua influência elementar do Sagrado Feminino em mim, desperta a Consciência Mística da intuição emotiva do meu ser, quebrando os meus viciantes padrões interiores em ciclos de transformações ascendentes e decadentes de toda uma existência apaixonada.

    Como eu te amo, Meu Amor!

    Ó! Fruto do meu desejo insaciável…

    Sobes agora livremente… e tua estrada de luz desaparece nas águas de minha emoção, e agora debaixo de tua luz prateada, volto a minha singularidade pequenina e frágil, onde realizo o meu ritual de amor à tua Lua Cheia embelezada em sua aureola majestosa repleta de teu amor.

    Nisso, me vejo sendo irradiado pela luz azul de sua aureola… meu corpo negro encandece inflamado pela sua onda radiativa, tornando-se fosforescente, atraindo toda espécie de pequeninos seres noturnos em divindade graciosa. Pela tua dádiva amorosa, tornei-me um ser luminescente, e… quem me dera ser carregado pelos pequenos vaga-lumes que agora me cercam, no único amoroso objetivo de poder pousar em teu grandioso ventre oculto nos teus misteriosos segredos noturnos.

    Tua pele branca me seduz, teus cabelos de nuvens negras a flutuar me enfeitiçam. Como és bela! Como sou teu!

    Embora possa, eu, ser um diurno ser flamejante, de que me vale toda essa potência… se em minha forte luz te ofusco, ao ponto de nem eu mesmo poder contemplar a tua clara beleza? Estou preso na majestade de mim mesmo, e nisso, sigo meu solitário baile diário.

    Ó! Meu Amor, meu doce Amor… Meu Encanto! Como te imagino e me imagino juntos… ao te contemplar no silêncio de uma tarde em que apareces repentinamente no reflexo espelhado no limpo céu azul… mas, esta linda visão que tenho no dia, bela e cheia de graça… apenas se faz ecoar, ecoando a ecoar… a ecoar.

    Em tua face clara, lusa e juvenil me vejo iluminar. Abrindo meus olhos… retirando de mim as impregnações infrutíferas e residuárias de meu sofrido passado e presente agoniante tedioso.

    No meu mágico ritual… derramo as águas de aquários em uma bacia de prata e deixo exposta à luz de tua Lua Cheia, para que parte de Ti possa se desprender e lá habitar. Ponho minhas mãos sobre as águas e o recipiente, e faço riscos imaginários mágicos escrevendo palavras místicas de amor… em oração Celta na alta voz… dizendo:

    — Ó! Sagrada Mística Sabedoria Lunar… que tua luz fêmea caia sobre essas águas, envolvida na Magia da Prata e, de suas perenes divindades noturnas do Argentum branco e brilhante. Invoco sua áurea iluminada que reflete o poder divino de tua purificação e amor. Ser gigantesco feminino que controla todas as forças ocultas das águas naturais, que constitui todos os seres orgânicos e abarca os seres inorgânicos… se faça aqui fluidamente presente no Sagrado Agora… vem, e me Ilumina!

    Ao terminar meu mágico culto de oração… vi sua luz em forma feminina descer em baile e encanto, se deleitando nas águas… transformando-as em plasma prateado. Ali mesmo sob a luz de tua magnífica e sagrada presença me despi de minhas rudimentares vestes, assim como, também, estavas despida dos teus véus de nuvens negras. Derramei o teu leite prateado em meu corpo nu… pude te sentir me tocando todo e por completo, onde me acariciava com beijos de uma paixão apaixonadamente purificante… a este tocante… me perdi em fluxos energéticos de amor que me fazia flutuar e ecoar… ecoando a ecoar.

    Quando regressei a mim… já tinhas desaparecido, restando apenas a lembrança do teu beijo, teu calor, tua sensação purificadora e teu carinhoso amor, e teu céu noturno no vazio estrelado.

    Minha Amada… silenciosamente fechei meus olhos em reverência, e, de mim, restou lhe dizer:

    — Te amo… Te amo… e Te amo!

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