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DULCINEIA - 2a parte

SINOPSE DE DULCINEIA - a minissérie

2ª parte



Dulcinéia - minissérie ambientada no Colégio Magnata é feita de episódios independentes entre si, embora existam laços na trama, entre os personagens. As ações giram em torno de roubos que aconteceram em joalherias da Europa, tendo como nicho a cidade de Budapest.

Para uma melhor compreensão da trama, vou falar um pouco sobre cada personagem.



1 - FELÍCIO GALVÃO - o professor. Criado na Itália, onde viveu até os 22 anos, quando perdeu os pais. Retorna ao Brasil e se torna "o braço direito da diretora CLARICE".



2 - ANDIE - a lourinha que misteriosamente aparece no colégio procurando emprego.



3 - DULCINÉIA - a copeira.  Sempre se mete em encrencas. Quer viver um grande amor. Na sua vida está aparecendo CAIO, um motorista de ônibus.



4 - TINA - filha do Ministro.   É uma patricinha, a "menina má" da trama e amicíssima de Andie.



5 - JÚLIA - mãe de Tina.  Acha que o dinheiro compra tudo. Usa e abusa desse artifício.



6 - YANA BAHRA -  atriz radicada no exterior e que vem ao Brasil para gravar um vídeo. 



7 - A condessa FLORA DI GARMIGNON - sofisticada mulher da sociedade italiana. Está sempre no Brasil e é amiga de Júlia.



8 - WENDERSON - o porteiro do colégio. Negro, mulherengo, fanqueiro...



E OUTROS:

- que embora tenham papéis fundamentais na trama, entram e saem dos episódios rapidamente.





 EPISÓDIO 21

 - 1ª parte



NO SALÃO DA JÔ

O rapaz estava sentado num canto lendo uma revista de modas. Sua colega, do outro lado, lixava as unhas. Ambos sem nada pra fazer, quando a porta foi empurrada e adentrou o recinto uma mulher, cabelos desgrenhados, trajando uma saia de tecido barato e camiseta de propaganda de banco.

O rapaz, com voz naturalmente afetada, se apressou:

- Posso ajudar?

- Eu vinha andando, tropecei num buraco da calçada e minha sandália arrebentou a correia.

Gesticulando, agora sem encará-la, o rapaz disse impaciente.

- Aqui é um salão de beleza, meu bem!

A mulher, humildemente, esclareceu:

- Falei bobagem. O que quero mesmo é mudar a cor dos meus cabelos. Pra louro!

Aí o rapaz, ajeitando os colares que adornavam o pescoço até à cintura, encarou-a. Em seguida, voltou-se para a colega que ainda lixava as unhas.

- Jô!

Jô olhou-o com cumplicidade. Depois disse à mulher:

- Senta aqui!

A mulher, arrastando a sandália arrebentada, sentou-se.

- Louro? Seu cabelo foi tingido recentemente. Não podemos descolorir agora!

- Que pena! Eu queria tanto fazer uma surpresa para o meu marido!

Disse fitando o rapaz através do espelho, o qual continuava folheando a revista sem lhe dar atenção. A mulher observava os seus cabelos mal tingidos e empastados de gel, quando a voz da cabeleireira desviou a sua atenção.

- Vamos tentar outra cor? Quem sabe caju, avermelhado... Não prometo milagres!

Ouvindo a sugestão, o rapaz levantou-se, colocou as mãos na cintura, girou sobre os calcanhares e censurou: 

- Jô, você não disse a ela o preço!

A mulher, com voz humilde, retrucou.

- Preço não tem problema! Saí do emprego. Recebi meu FGTS. Acho que dá pra pagar!



NA CLÍNICA

A secretária estava na recepção lendo uma revista de esportes quando soou a campainha, anunciando a entrada de alguém. Apareceu uma mulher ruiva, trajando um vestido floral de alcinhas, brincos de argolas, anéis caros e pulseiras. Foi logo dizendo:

- Quero uma consulta com o oftalmologista agora!

- Está agendada, senhora?

- Estou! Veja!  

A mulher abriu a bolsa e retirou um maço de dólares que manteve discretamente escondido sob a mão, de maneira que somente as duas pudessem ver.

Meio indecisa, a moça disse:

- Vou ver o que posso fazer. Pode esperar o paciente sair?

Com voz excessivamente amável, a mulher tranqüilizou-a:

- Claro, querida!  O tempo que você quiser!



NA ÓPTICA

O balconista estava atendendo um cliente quando uma mulher ruiva, elegantemente vestida de preto, brincos de argolas, anéis caros e pulseiras, entrou na ótica. Ele sorriu e pediu para que ela aguardasse um instante. A elegante senhora sentou-se, cruzou as pernas e mirou-se no espelho, olhando satisfeita para a cor dos cabelos tingidos no Salão da Jô.

Finalizado o atendimento, o balconista se prontificou:

- Pois não, madame!

A ruiva levantou-se. Ajeitou o vestido. Rebolando, deu quatro passos e ficou frente a frente com o rapaz. Com um simpático sorriso, entregou a ele a receita oftalmológica, o qual, brincando, comentou:

- Agora é moda! Todas querem olhos verdes, azuis. Ainda bem que lentes de contatos podem fazer isso!

A ruiva sentiu vontade de estraçalhar o rapaz, mas limitou-se a sorrir, querendo confirmação: 

- Você acha que combina com a cor dos meus cabelos? Quero parecer uma outra mulher!

- Certamente! Esses olhos castanho-mel com o tom do azul da lente..  nossa, vai ficar incrível!

A mulher sorriu, continuou conversando com o rapaz, experimentou as lentes, olhou-se no espelho. Aprovou o que viu. O balconista tinha razão. Os cabelos avermelhados, caídos nos ombros, em contraste com os olhos azuis deram à Júlia a beleza digna de se passar por uma outra pessoa.

E era exatamente o que ela queria, depois do acidente no Galeria, em que um ataque fulminante acabou com a carreira de detetive do alemão.



F I N A L

(atenção: se você não leu a 1ª parte, não vai entender  o final)



NO SALAO DA JÔ

O rapaz de colares até a cintura e voz naturalmente afetada estava escornado na cadeira, ameaçando desmaiar. Jô abanava-o com uma capa de revista.

- Serginho... menina, calma! Calma! Já disse, vamos parar com isso! 

- Jô, não consigo, aquela caloteira...

- Serginho... menina... pela última vez! - Jô colocou as mãos na cintura imitando-o. - Você queria que o bairro inteiro ouvisse o escândalo, o choreiro? A coitada berrando, envergonhada?

  • - Não, Jô, mas levamos um calote! Detesto mulher, quer dizer, detesto pobre!
- Você mesma viu a bolsa, Serginho, cortada de gilete! Levaram todo o dinheiro dela. A coitado foi assaltada! Como a gente ia cobrar?

- Mas Jô... - o rapaz revirava os olhos, abanando-se com um leque japonês, enquanto Jô abria novamente as portas do salão.

- Acabou! "Agora a Inês é morta!" Não vamos ficar mais pobres por causa de um pouco de tinta... Nessa altura, a coitada deve estar cansada de tanto andar, arrastando a sandália arrebentada. Não tinha dinheiro nem pra pegar o ônibus!



Engano seu, Jô! Após se olhar no espelho e ver o resultado da tintura, o que a deixou bastante satisfeita, Júlia botou em ação o seu plano de vítima de assalto, aquela velha história do marginal cortar a bolsa e levar todo o dinheiro...



NA CLÍNICA

O oftalmologista, ansioso, quis saber: 

- E aí?

- E aí? Veja!

A secretária exibiu pra ele uma nota de um dólar, xingando: 

- Aquela bandida! Depois que saiu daí de dentro com a receita, abriu a bolsa, pegou o maço de dólares e me disse:

"- Querida, essa nota é pra você. Dizem que andar com um dólar na bolsa dá sorte. Não acredito nisso! Prefiro andar com muitos, como você mesma pode ver. Fique com esta! Infelizmente só tenho uma. Se eu voltar aqui, dou um jeito de trazer uma outra para o doutor, afinal, ele mereceu!"

A raiva do oftalmologista tornou-se visível. A secretária continuou contando:

- A doida me entregou esse dólar, levantou e saiu. Ao chegar na porta, apontou pra mim e deu uma gargalhada. Uma mãe ia entrando com uma criança nos braços. O menino levou um susto e abriu a boca num berreiro...

O oftalmologista espumava de raiva. A secretária finalizou, parecendo agora meio assustada:

- Sei não, doutor, mas acho até que vi uma arma na bolsa dela!



NA ÓPTICA

(alguns dias depois)



O balconista, morrendo de medo da bronca, chegou à porta de uma pequena sala que servia de escritório e disse ao patrão:

- O banco recusou as notas de 100 reais que fui depositar! Todas falsas! Levamos um calote!

- Você levou! - disse o patrão. - Será descontado no seu salário!

O rapaz arregalou os olhos. Depois constatou:

- A única pessoa que me pagou com notas de 100, foi aquela mulher que comprou as lentes verdes....

- Sei! Uma mulher elegante, educada... Quem poderia imaginar. Parecia uma ricaça!

- Uma golpista, isto sim! Deve estar por aí, rindo de mim!  Ah! se eu pego ela...



EPISODIO 22



OS DIÁLOGOS A SEGUIR ACONTECERAM NO DOMINGO, DOIS DIAS DEPOIS DO SEQÜESTRO.



PENHA  - a cozinheira do Ministro

- Você tem que me emprestar R$ 2.000,00!

- Tina, onde vou arranjar esse dinheiro? - pergunta Penha.

- Fiz um negócio e me dei mal. Mamãe tá me apertando. Tem que comprar passagem pra ir ao casamento do advogado Fausto.

- Como entro na história? Mas peraí, porque cortou aquele cabelo tão bonito  menina?

- Esquece meu cabelo! Papai viajou, não deixou dinheiro. E ainda por cima, levou o cartão de mamãe por engano. Esqueceu o dele. Minha mesada acabou.

  • - Devia ter pensado nisso quando fez o negócio!
Tina se enfurece.

- Você é muito arrogante! Sabe que eu poderia dispensá-la?

- É? E quem vai fazer sanduíches pra você?

- Me viro! Empregada é que não falta!

- Tina, você gosta de humilhar os outros!

- Tô humilhando? Preciso de dois mil e você não quer me emprestar.

- Menina, onde uma empregada, como eu, com filhos, vai ter dois mil reais?

Tina vê no jardim duas crianças brincando com o seu irmão João Pedro. São os filhos da cozinheira, que estão sempre pela casa. 

- Então você não tem o dinheiro!

- Quer saber, dá licença. Tenho que "cozinhar!"

- Você me paga! Vou arranjar outra melhor que você.

- Pago pra ver!

- Paga? Você não tem nem onde cair morta!

Penha vira-lhe as costas. Percebe-se que a colher-de-pau que ela mexe a panela treme em sua mão. Tina vai à geladeira pegar suco e vê lágrimas escorrendo pela sua face.

- Vai chorar agora? Eu é que devia chorar!

- Me deixa em paz! - pede e cai em prantos.

Tina por um momento deixa a arrogância de lado.

- Tá chorando mesmo! Que foi que eu fiz, meu Deus?

- Nada. Eu é que sou errada! - fala Penha entre soluços. - Sou errada porque nasci pobre, sou cozinheira, não tenho dinheiro pra te emprestar. Oh Deus! - e chora mais ainda.

Tina conhece Penha desde pequena. Nunca a tinha visto chorar. De repente ela abraça a cozinheira.

-  Desculpe, Penha!

- Eu é que sou errada porque tenho que tratar de dois filhos. Trabalho aqui pra recolher as migalhas que caem da sua mesa e receber um mísero salário. Sabe aquela crosta de pizza que vocês não comem? Levo pros meus filhos. Sabe os talos das verduras? Levo pra fazer sopa pros meus filhos. A casca de abóbora, a casca de ovo, o suco que sua mãe manda jogar fora, levo pros meus filhos. Os farelos de biscoitos que ficam na vasilha? Levo pros meus filhos. E graças a Deus, meu marido também trabalha. A vida não é fácil, menina! Nem todo mundo é rico!

Tina, ouvindo a aquilo, começa a chorar também.

- Penha, entrei numa roubada. Você sabe como são meus pais. Se mamãe descobrir... do jeito que ela é escandalosa...

- Que foi que você fez, menina? - pergunta, enxugando as lágrimas.

- Não posso dizer! - e soluça baixinho.

Nesse momento, entram na cozinha, junto com Pedro Henrique, duas crianças robustas e coradas, de quatro e cinco anos. Os filhos de Penha. Quando vêem Tina, correm para abraçá-la.

- Tina!!!

Apertam-na com força e percebem que ela está chorando.

- Mamãe, Tina tá chorando...

A mãe, disfarçando para que eles não vejam as suas lágrimas também, vira o rosto, mantendo firme a voz.

- Não liga não, crianças! Tina é igual a um bebê. Quando está com fome, chora.! Não viram que ela está aqui procurando o que comer?

- Verdade, Tina?

- É...

Tina mal conseguiu falar. Deixa as crianças e sobe correndo as escadas. Quando já está entrando no quarto, ouve uma voz gritando lá de baixo:

- Tina foi tosquiada!!! 

Pedro, Henrique, o irmãozinho ainda não esqueceu do que viu no dia seguinte do seqüestro.

EPISODIO 23



AINDA NO DOMINGO EM QUE TINA QUERIA QUE PENHA EMPRESTASSE A ELA R$ 2.000,00...



FELÍCIO GALVÃO - a surpresa

O interfone soou na cozinha. Felício Galvão atendeu e o porteiro anunciou.

- Professor, tem uma senhora alta, falando um português com um ligeiro sotaque, querendo falar com o senhor!

- Deixe-a subir!

Logo o professor abriu a porta do apartamento e apareceu na soleira uma mulher de olhos azuis infinitos, corpo escultural, apoiada numa bengala. Felício Galvão não conteve a alegria e correu para abraçá-la.

- Minha madrinha, a condessa Flora di Garmingnon, aqui, no Brasil? Meu Deus, não acredito que veio me visitar!

A mulher soltou uma máscula gargalha e abraçou o afilhado. E gesticulando muito e andando e mancando, entrou no apartamento falando em italiano.

- Felício, quanto tempo, querido! Deixe-me vê-lo... cortou o cabelo, mais jovem, mais bonito, já sei... está apaixonado! Eu sinto! Quem é ela?

- Madrinha, prometa guardar segredo. - disse em alemão. - O nome dela é Andie von der Ghlantèe!

O nome soou na sala como o efeito de uma explosão. A condessa largou abruptamente a bengala e perdeu o equilíbrio. Felício Galvão teve que correr para ampará-la.



DULCINEIA E DONA MARIA PORÉM

- Onde você pensa que vai de minissaia e essa blusa mostrando o corpo?

- Ao shopping com Sabrina.

- Você vai é à igreja comigo. Coloque uma roupa mais decente. Estamos atrasadas!

- A senhora está atrasada, mamãe!

- Não discuta, Dulcinéia! Faça o que estou mandando!

- Mamãe...

- Rápido senão perdemos a abertura do culto. Esqueceu de como você chegou aqui na sexta-feira?  Em lágrimas?

Dulcinéia recordou o episódio em que o Professor Galvão pediu a ela para sair mais cedo e assim ela acabou perdendo o ônibus do Caio, o motorista por quem está apaixonada.

- Não vou, mamãe!

- Dulcinéia, não é porque você tem 25 anos que vai me desobedecer!

- 23!

- Vale a certidão! O tonto do seu pai errou a data do seu nascimento ao registrar você!

- Tonto mesmo! De cachaça. Encheu a cara no dia. Agora estou uma velha de 25 anos.

- Velha? - dona Maria Porém cai na gargalha. - Vamos logo!

- Tá bom, mamãe!

Ela sai pisando alto e resmungando.

- Não é à-toa que o nome da senhora é Maria Porém.  É sempre do contra!



NA IGREJA

Dulcinéia entrou no templo de cara amarrada. Fazia tempos que não aparecia por ali e achou tudo diferente. Não cumprimentou ninguém e procurou passar despercebida. Sentou-se emburrada, mas acabou fechando os olhos e sua mente começou a divagar pelo tempo em que era assídua aos cultos. 

De repente os primeiros acordes do piano começaram a encher a nave. Ela permaneceu de olhos fechados. Automaticamente se ajoelhou e uma emoção indefinida foi invadindo o seu íntimo, trazendo-lhe uma paz que não imaginava encontrar. Sentiu vontade de cantar, mas se conteve porque toda a congregação permanecia em silêncio.

O som do piano foi aos poucos diminuindo até se tornar quase inaudível. Mesmo assim ela não abriu os olhos, quando, ainda de joelhos, ouviu uma voz com um leve sotaque, anunciar:


- Eu saúdo a igreja com a paz do Nosso Senhor Jesus Cristo!

Surpresa ao ouvir a voz, ela abriu os olhos. No púlpito, estava Caio, o motorista, com a Bíblia aberta. Ele fitava a congregação com um sorriso luminoso na face.

Dulcinéia, atônita, sentou-se apressadamente e escondeu o rosto no ombro da mãe. Começou a tremer. Dona Maria Porém sentiu lágrimas quentes pingando em seu braço. Cutucou levemente a filha e sussurrou: 

- Tá chorando? Que foi?

- Mamãe, posso ir lá fora um pouquinho? 

- Está sentindo alguma coisa?

- Não, mamãe!

- Vai! Não demore!



Era de praxe os fiéis não se levantaram dos bancos antes que o pastor atravessasse toda a igreja e se posicionasse à porta, à espera dos cumprimentos. Nesse dia não foi diferente. Ao encerrar o culto, Caio se dirigiu lentamente para a saída, com aquele mesmo sorriso nos lábios. Assim que ele parou na entrada, as pessoas começaram a se levantar. Dulcinéia não teve coragem de deixar o banco.

- Mamãe, vamos ficar aqui mais um pouquinho!

- Você é engraçada! Não queria vir. Agora não quer sair!

- Só mais um pouquinho, mamãe!

- Que aconteceu? Você está tremendo, menina!

Ela não respondeu. Limitou-se a fechar os olhos. A voz da mãe despertou-a.

- Todo mundo já saiu!

Dulcinéia não teve escolha. Levantou-se e saiu atrás da mãe, segurando o vestido dela, como se fosse uma criança procurando proteção. Caio ainda permanecia à porta, esperando-as. Quando as duas se aproximaram, ele sorriu mais. A felicidade era visível em seu rosto. Dulcinéia esbarrou num banco ao ouvir o som de sua voz. 

- Dona Maria, trouxe uma visitante! Que Deus a abençoe! Que bom que veio, Dulcinéia!

Disse, apertando-lhe a mão com vigor.

- Igualm... - não conseguiu completar a palavra e trêmula, apoiou-se no banco.

Caio se dirigiu à dona Maria Porém.

- Gostaria de falar com a senhora a sós, posso?

- Pois não, pastor! Minha filha, espere só um minutinho!



OS FATOS AQUI NARRADOS ACONTECERAM NA SEGUNDA-FEIRA, NO COLÉGIO, UM DIA APÓS À IDA DE DULCINÉIA À IGREJA.



SABRINA E WENDERSON - que situação!

Sorte de Dulcinéia não ter ido ao shopping naquele dia. A colega estava uma arara com ela. Dulcinéia acabou envolvendo Sabrina numa situação embaraçosa com o porteiro namorador.

Bem, vou contar como as coisas aconteceram.

Certo dia, ao chegar no colégio, Sabrina foi saudada pelo porteiro:

-  Hi, baby!

- Hi! How are you?

Ela perguntou, feliz por encontrar alguém com quem pudesse praticar o inglês.

O porteiro gaguejou e não disse mais nada. Limitou-se a olhar Sabrina meio sem graça.

Ela continuou o caminho. Mas nos dias seguintes percebeu que o rapaz procurava chamar a sua atenção, tentando se aproximar, puxando conversa. 

Intrigada, ela resolveu esclarecer as coisas.  

- Tudo bem, Wenderson?

- Só... - respondeu, mascando chiclete.

- Como?  .

- Beleza, gata! E aí? Que tá rolando?

- Você está fazendo inglês também? Tem bolsa?

Perguntou, referindo-se ao curso de inglês que o colégio oferecia aos funcionários.

- Qual é, gata! Minha praia é outra. Odeio americano. Dobrar a língua... nem!

Sabrina percebeu que seria impossível conversar com o rapaz e foi direto ao assunto.

- Você falou comigo em inglês!

- O lance é o seguinte: eu estava querendo chegar junto, sacou?

- Chegar junto?

- A Dulce não te deu um toque?

- Toque?

- Xi! Seguinte bro: fiquei afinzão de você e a Dulce prometeu dar uma força!

- O quê?

- Um dia ela me pediu para impedir a lourinha, a Andie, de entrar no colégio. Disse a ela que não podia fazer isto.

  • - Ela é amiga de Tina, a filha do homem, falei. Tô fora!
  • - Já saquei que você está a fim da Sabrina! Posso dar uma força! Ela não é muito exigente.
  • - Tá me tirando, gata? - perguntei.
  • - Foi vacilo! Eu quis dizer que posso dar um toque nela?
O rapaz falava imitando a voz de Dulcinéia e gesticulando mais que garoto de propaganda de casa de móveis.

Sabrina não quis ouvir mais nada. Saiu furiosa dali, louca pra encontrar a colega, ela já havia ido embora. Então Sabrina telefonou convidando-a para irem ao Galeria no domingo. Ela não sabia o que a esperava. 



AINDA NA SEGUNDA-FEIRA...

NO VESTIÁRIO

Dulcineia entrou no vestiário do colégio toda saltitante, alegre e feliz. E remexendo os cabelos negros, foi anunciando.

- Sabrina, tô namorando. Ontem fui à igreja com mamãe. Você nem vai acreditar! O pastor... sabe quem é o pastor? Caio, o motorista!

Falou desgovernadamente, sem parar.

- Sabrina, eu nem pude acreditar quando o vi ali no altar, não consegui me controlar. Tremia. No final, sabe o que aconteceu? Ele pediu mamãe permissão pra namorar comigo. Pediu permissão, como antigamente! Depois nós dois conversamos. Você sabe, a gente já se conhecia do ônibus. Já te contei que estava apaixonada por ele... Ah, Sabrina, como estou feliz!

- Está, é? E vai se casar logo?

- Sei lá! Tomara que sim! Quero um casamento igual ao das novelas! - disse, segurando as pontas da saia e girando.

- Espero que seja nos próximos dez minutos!

- Como? - perguntou, abraçando a amiga.

- É o que você ouviu. Daqui a 10 minutos você vai estar é morta, sua mentirosa!

Dulcinéia arregalou os olhos.

- O quê? Não entendi!

Sabrina partiu pra cima dela, que foi apanhada de surpresa, mas reagiu. As duas se atracaram, gritando, esperneando, puxando os cabelos, dando coices, derrubando coisas. A outra copeira apertava a garganta de Dulcinéia, que começou a tossir. A colega assustou e soltou-a. Dulcinéia, em vantagem, deu uma chave-de-braço em Sabrina até ela berrar de dor, mas subitamente parou de gritar e ficou imóvel, petrificada mesmo, olhando fixamente para a porta. Dulcinéia se apavorou.


- Meu Deus, matei Sabrina! Agora vou ter que fugir pro resto da vida!

Faz menção de correr, quando viu à porta uma mulher luxuosamente vestida, coberta de jóias, observando-as.

- Que divertido! Que gracinha...   

A mulher começou a bater palmas freneticamente. E as pulseiras de ouro brilhavam contra a claridade do sol da manhã. Era Clarice, a diretora. 


- Pena que não trouxe a minha digital. A gente poderia filmar a cena e exibir no painel eletrônico do colégio. Que tal o título: As Gladiadoras?

As copeiras baixaram os olhos, envergonhadas.

- Na minha sala agora! As duas! - determinou Clarice.

Virou-lhe as costas e saiu elegantemente pelo corredor. O vestido de seda tremulando com a cadência dos passos. Quando se viu distante do vestiário, uma risada escapou de seus lábios.

- Era só esta que faltava!

Ainda estava rindo quando encontrou o renomado professor.

- Que felicidade é esta, Clarice?   

- Felício, você precisava ver. Dulcinéia e Sabrina brigando, rolando no chão. Pareciam duas bêbadas.

O renomado professor caiu na risada também. Depois concluiu:

- A coisa não pode ficar assim. Vamos ter uma conversa com elas!



No vestiário as duas se recompunham, evitando se olharem. Sabrina reclamou. 

- Pensei que você fosse minha amiga. Fazer aquele bobalhão do Wenderson achar que eu... você sabe que sou casada.

- Desculpe, Sabrina! Vacilei! Eu só queria que o bobão me ajudasse a me vingar daquela branquela, a tal da Andie.

- E agora vamos ser demitidas! Você não pensa no que faz!

- Meu Deus, logo agora que eu e o Caio...

Interrompeu o que ia dizendo ao ver uma funcionária entrar no vestiário. 

- O professor Galvão quer falar com vocês! Agora!



EPISODIO 24



TOSQUIADA 

- Tina foi tosquiada!!!

- Eu te mato, pirralho. Vem aqui, vem!

- Vamos parar com essa briga ai! - grita a mãe lá de cima da escada.

- Mamãe, Pedro Henrique não sai do meu pé desde que cortei o cabelo. Ele mesmo viu meu cabeleireiro aqui!

- Tina foi tosquiada!!!

- Chega, Pedro Henrique! Vai pra piscina, vai! Seu professor de natação chegou! - recomenda a mãe, envolvida com a RH de uma badaladíssima grife e quatro lindas modelos, que foram levar um estoque de vestido pra ela.

- Mamãe, ela foi assaltada e o bandido cortou o cabelo dela.

Tina corre atrás do irmãozinho, que foge para o jardim. Tina fica olhando-o e pensa:

- Até parece que ele sabe a verdade!

Lembra do sufoco que passou com os dois bandidos ameaçando-a, de ter que se virar pra voltar pra casa, do pacto com o motorista pra deixar tudo em segredo e treme só em pensar: 

- Se soubesse mesmo aí e que eu nunca mais teria sossego!



O SUSTO

Júlia ouve baterem à porta.

- Entre!

Xavier, o mordomo, entra. Quando dá de cara com uma modelo trajando somente a parte de baixo da roupa íntima, começa a tremer. Os utensílios chocam-se uns contra os outros na bandeja.

Júlia, sorrindo, tranqüiliza-o:

- Mordomo, não ligue! As modelos são assim mesmo!

A top model não gostou da ironia na sua voz e quer saber:

- Assim como, madame?

  • - Liberais, querida, liberais! Afinal, a nudez é tão natural!


 A SURPRESA

Passados alguns minutos, Pedro Henrique sobe correndo as escadas.

- Mamãe, tem outra modelo chegando. Nossa... um carrão... linda, loura, alta, com uma tatuagem aqui ... - e mostra a barriga. 

Tina dá uma bronca no irmão.

- Com seis anos, esse pirralho já tá dando em cima das top model?

E desce para receber a modelo e dá de cara com a amiga.

- Andie! Você aqui!? Tava sumida!

- Viajei! Tive que resolver uns negócios. Cortou o cabelo, Tina?

- Vem cá, vou te contar...

E as duas saem em direção da cozinha.



A ENCOMENDA

Minutos depois, entra pela porta dos fundos da mansão um homem com uniforme de açougueiro, carregando uma grande caixa de isopor e vai direto para a despensa com a encomenda.

Tina e Andie já o esperavam. O homem se dirige a elas de maneira  extremamente formal.

- Boa tarde, senhoritas. A encomenda!

- Abra logo! Ninguém pode ver você aqui!

O açougueiro abre a caixa de isopor e diversos tipos de carnes, cuidadosamente embaladas, aparecem dentro do recipiente. Em seguida, com um canivete, ele abre rapidamente um falsa tampa que havia sob a primeira tampa. Pedras preciosas de todos os tipos reluzem diante dos olhos das meninas, que atônitas, só conseguem murmurar:

- Uau!!!



Passados os primeiros instantes de deleite, o homem se dirige a Tina.

- Gostaria de usar o banheiro. Posso?

- Tem que ser o banheirinho daqui. Você não pode ser visto pela casa.

- Sem problema, senhorita! Onde é?

- Aquela porta perto da geladeira.

O homem de uniforme branco se dirige para o banheiro, com as mãos enfiadas nos bolsos do jaleco manchado de sangue. Já chegando na porta, ouve soar uma campainha, semelhante ao toque de um telefone. Volta-se e diz calmamente.

- Nem pensar!

Tina e Andie fitam-no, embaraçadas.

Com um sorriso simpático, ele esclarece.

- As pedras estão protegidas por um dispositivo de alarme ligado a uma central. Não podem ser tocadas!

Esclarece, tirando do bolso do jaleco sujo, uma espécie de controle remoto. Digita rapidamente uma senha e o alarme silencia.

- Isso aí é como sorvetes num freezer de um supermercado. Você olha através do vidro, pensa, analisa... só abre a porta quando escolhe, senão pode estragar tudo!



TINA E ANDIE -  a armadilha

Em seguida o homem, indaga.

- Estão com o dinheiro aí?

- Na mão! - responde Andie abrindo a bolsa!

- Ok! Vão escolhendo! Quando decidirem, a gente fecha negócio!

O açougueiro volta ao banheiro e as duas, indecisas, continuam olhando as pedras. Passados minutos que pareceram demorar mais do que deveria, elas vêem a porta se abrir e surgir um homem vestido de branco, com um estetoscópio em volta do pescoço, óculos de aros finos, uma bag branca, cabelos cuidadosamente penteados. Ficam surpresas com a transformação do açougueiro e mais ainda quando ele se aproxima andando apressado e ordenando.

- Andie... finja que está passando mal! Tina, ampare-a! Andem naturalmente e entrem na Kombi.

Elas não se movem, procurando resistir ao pedido, quando vêem surgir na mão do falso médico uma arma.

- Vocês decidem! Se não fizerem como estou mandando, na caixa, debaixo das carnes, tem explosivos suficientes para provocar um estrago aqui. Vão obedecer?

Assustadas, as duas balançam a cabeça concordando. O homem volta a falar no mesmo tom que usara quando disfarçado de açougueiro:

- Tina, a loura encosta a cabeça no seu ombro. Sai amparando-a, como se ela estivesse passando mal. Com naturalidade! Sem fazer nenhuma gracinha, entendeu?

O homem sugere, mostrando a arma, agora guardada no cós da calça. Um segundo depois a sua expressão muda completamente. E falando entre dentes, ele ordena com rispidez:

- Rápido!

No mesmo instante Tina sente um cano frio comprimindo as suas costelas. Ela é tomada de pânico, mas mantém o domínio e sai andando como se nada tivesse acontecendo, amparando Andie, conforme ordenou o falso médico.



TINA E ANDIE - o seqüestro

Chegando no local onde estava estacionada a Kombi, o falso médico ordena:

- Andie dirige.  A outra fica no meio. Se tentar alguma gracinha, já sabem o que acontece, né?

As duas obedecem mais uma vez. Todos entram no veículo. Quando estão acomodados, Andie dá partida.

- Levante os vidros, lourinha! Passe pela segurança devagar!

Saem os três pelo portão da mansão e trafegam pelas ruas da cidade, sem provocar suspeitas. O bandido sempre apontando a arma para Tina. Como a Kombi possui vidros fumê, ninguém vê o que se passa no seu interior.

Num bairro da periferia, já se sentindo mais seguro, o falso médico faz Andie parar e amarrar Tina.  Logo a seguir, entram numa rodovia que leva para o Sul da cidade, na direção de outro estado. 



NA RODOVIA

Uma blitz. Um policial acena energicamente, parecendo irritado, dando ordens para que a Kombi avance sem parar. Um sorriso de alívio aparece no rosto do homem armado, ao mesmo tempo em que ele olha de viés para as meninas. Elas estão tomadas de pavor.  

A Kombi não rodou mais de vinte metros quando se ouve um estrondo e o veículo rodopia na pista, fazendo um barulhão de lataria que se choca no asfalto, mas imediatamente pára, obstruindo o trânsito. A sua traseira quase invadi a outra pista. As meninas gritam apavoradas, sem entender o que aconteceu.

Ao ouvirem o estrondo, os policiais deixam a blitz e avançaram correndo na direção da Kombi. Agora é a vez do homem armado ser tomado de pânico. E tentando uma última cartada, ele ameaça:

- Se alguém se mexer, abrir a boca, eu atiro!

Mal termina de falar e um policial já está ao seu lado.

- Que aconteceu? Alguém machucado? Vocês escaparam por pouco! Vejam o abismo lá embaixo! - aponta.

Outro policial olha debaixo do veículo. E sem se levantar de lá, chama.

- Sargento, venha ver!

O sargento deixa os passageiros e se abaixa para verificar o que o colega está mostrando.

- Um pneu estourou! Como isso pôde acontecer?

O falso açougueiro, concluindo que será o seu fim se algum militar desconfiar da sua intenção, resolve escapar e disfarçadamente entra no mato. 

Ao vê-lo tomando distância, Andie e Tina saem correndo e gritando: 

- Socorro! Ele está armado! Estava nos seqüestrando!

O policial vira-se e vê Tina de mãos amarradas. Saca da arma e corre para o mato, escorregando, gritando ordens. Há troca de tiros. Mais policiais se mobilizam, descendo apressadamente o barranco molhado de chuva. Por longo tempo, ouvem-se tiros, aqui e ali, no mato. Horas depois, a rodovia volta ao seu silêncio rotineiro, somente interrompido pelo barulho de carros que passam. E as meninas, abaixadas atrás da Kombi, vêem os policias subindo o barranco. A seguir, uma voz grave e determinada fala no rádio da viatura.

- Mande uma ambulância! Houve um tiroteio aqui!Tem um seqüestrador morto! 



NA MANSÃO

- Mamãe, chegou uma Kombi aqui. Saiu de dentro um açougueiro com uma caixa. Ficou muito tempo lá nos fundos com Andie e Tina. Depois, Andie saiu deitada no ombro de Tina e um médico junto delas. O médico parecia o açougueiro...

Júlia fica preocupada com a informação do filho.

- Quando foi isso, Pedro Henrique?

- Faz muito tempo!

- E por que você não avisou ninguém, menino?

- A senhora estava lá em cima com as modelos e a arrumadeira, Penha no supermercado, nem vi Xavier, meu professor de natação chegou. Fui nadar. 

- Isso tá muito estranho. O que mais você viu?

- Andie saiu dirigindo a Kombi do açougueiro que era um médico. Ele empurrou Tina pra entrar. Fecharam os vidros e saíram.

- Que horas isso aconteceu? - Júlia parece realmente preocupada.

- Ih, tem muito tempo! Umas três horas.

- Isso tá me cheirando coisa errada!

- Mamãe, eu sei a placa da Kombi. Era JPH - as iniciais do nome da senhora, do meu e...

- Menino, você puxou à mamãe. É muito inteligente, mas como vamos localizar a tal Kombi só com as letras?

- A senhora não espera eu terminar de falar... espera... era JPH e a data do meu aniversário, o dia e o mês. Igualzinho, mamãe!

- Pedro Henrique, você é demais! Se acontecer alguma coisa às meninas, temos como localizar o tal açougueiro, médico, sei lá...  - finalizou Júlia mais tranqüila. 



EPISODIO 25

"A mulher encapuzada, alta e magra, de corpo escultural, segurava na mão direita uma arma e na esquerda uma bengala, na qual se apoiava para andar... ...e apareceu na soleira uma mulher de olhos azuis infinitos, corpo escultural, apoiada numa bengala... 



FLORA DI GARMIGNON - a condessa

A denúncia do derramamento de pedras partiu da condessa Flora di Garmignon ao descobrir que as suas jóias verdadeiras estavam sendo substituídas por bijuterias numa joalheria da Rua Mariahilfestrasse, em Viena. Um joalheiro amigo seu, o qual ela não desconfiava que fosse da equipe de Pássaro - o maior ladrão de jóias de Budapest, estava fazendo réplicas de suas peças verdadeiras. Tudo era engendrado na Sperrgasse, um beco que fazia esquina com a Mariahilfestrasse. Até o dia da descoberta, o joalheiro era de plena confiança de Flora. 

A par do esquema, ao ver que não tinha uma jóia verdadeira sequer, Flora di Garmignon teve um ataque de nervos. Passou meia hora gritando e quebrando tudo o que via pela frente dentro de casa e se internou numa clínica em Gmunden, na Alemanha, mas como não era mulher de se abater, recuperou-se rapidamente, fez a denúncia e a polícia partiu para a ação, mesmo porque tudo culminou com a denúncia do roubo de uma joalheria em Budapest.

Flora decidiu recuperar as suas jóias, por bem ou por mal, e usou outra estratégia também. Organizou uma festa no campo para comemorar o início do verão vienense. Conversou com a amiga Yana Bahra, que filmava em Berlin e pediu à atriz para convidar o bandido Pássaro (alguém magoado com o chefão informou à Flora que possivelmente seria ele o ladrão). Ao oficializar o convite, a condessa usou a desculpa de que desejava vender parte de suas jóias e que ele era a pessoa certa para avaliá-las. Ela sabia que Pássaro era apaixonado por Yana Bahra, que lhe devia favores como empurrõezinhos na carreira de atriz e empurrões, socos, pontapés e ameaça de morte a um diplomata francês que teve uma filha com Yana - Andie - e não queria reconhecê-la. Assim, estabelecidas as relações de confiança após a festa na sua propriedade em Lanzendorf, Flora di Garmignon Infiltrou-se na quadrilha com o objetivo de recuperar as suas jóias. O Chefão aceitou-a como colaboradora, a pedido de Yana Bahra.

A condessa era uma mulher de 55 anos, refinada, inteligentíssima e esperta. Pássaro era um bilhão de vezes mais refinado, mais inteligente e muito mais esperto que ela. E a partir do instante em que recebeu o convite para a festa, ficou de olhos arregalados e preferiu mantê-la bem próxima. 

Foi mais ou menos assim que começou a história do roubo de jóias em Budapest. E na confusão, bandidos, policiais e suspeitos se misturavam uns aos outros num emaranhado difícil de entender.

Em tempo: além de personalidades do mundo artístico e empresarial, também estiveram presentes na festa, o Ministro e sua sofisticadíssima esposa Júlia.



EPISÓDIO 26

No mesmo instante uma camareira chega correndo e cobre a atriz com um lençol de seda. E sem que ninguém perceba, prega algo na capa. Sob aplausos, Yana Bahra deixa o local. Policiais fazem um cordão de isolamento. Ela entra num carro estacionado debaixo do palco. O motorista avança lentamente pela rua. E da janela do banco traseiro, a atriz, com a mão direita, acena se despedindo, enquanto a esquerda movimenta-se agilmente, retira o objeto pregado na capa e esconde no sapato de bico fino.  



YANA BAHRA - o recado

O objeto era um pedaço de papel com um telefone. Ao lê-lo, Yana começou a tremer de raiva. Era um telefone que ela conhecia bem, poucas palavras e a letra P como assinatura.

Eis o bilhete:

"Flora de Garmignon também está no Brasil. Dê um jeito de não encontrá-la. Desapareça do mapa." - P



EPISÓDIO 27



NESTE EPISÓDIO, UM APANHADO DE MUITOS FATOS QUE ACONTECERAM NA MINISSÉRIE ATÉ AGORA.



ACERTO DE CONTAS - na diretoria do colégio Magnata

Sabrina e Dulcinéia foram chamadas na direção do Colégio Magnata depois da briga no vestiário. Clarice, elegantíssima como sempre, conduzia as perguntas. E exigiu que as respostas fossem sim ou não:

- Dulcinéia, você se lembra do tumulto que provocou no colégio, confundindo Andie com alguma artista, arrastando os alunos atrás dela e por isso tivemos que suspender as aulas?  

- Sim!

No dia da distribuição de bolsas, você arrumou uma confusão com uma bolinha de ping-pong e dois alunos, KK e Tiago, para se aproximar de um rapaz, isto depois de chegar atrasada para o expediente. Verdade?

- Ai meu Deus! Foi Wenderson que contou? Naquele dia eu tinha visto o...

  • - Responda sim ou não.
Dulcinéia, amuada, respondeu sim entre dentes:

- Você faltou ao expediente para participar da gravação de um vídeo com a atriz Yana Bahra?

- Professora, faço teatro. Era a minha chance de...

Desta vez foi Felício Galvão quem a interrompeu.


- Dulcinéia, você não está colaborando!

A copeira olhou-o com raiva e praguejou em pensamento. - Tomara que a branquela da Andie nunca fique com ele. Professor mais chato esse!


- Sim, faltei!

Novamente a diretora se dirigiu a ela:

- Houve uma briga entre você e uma aluna por causa de um celular?

- A creTina, quer dizer, a Tina vive me provocando... sim, sim!

- Naquele dia do roubo numa joalheria do Shopping Galeria, é verdade que você falou: "Deve ser a diretora. Ela vive cheia de jóias."

- Professora, tem mentiroso demais nesse colégio. Eu apenas comentei: "ouvi a notícia na sala da diretora Clarice". Sim! Quero dizer, não!!!

A diretora olhou para Felício e pareceu cansada.

- Felício, desisto. Agora é com você!

- Eu, Clarice?

- Você mesmo! É a sua protegida. Faça você as perguntas!

- Minha protegida? Como assim?

- Foi você que a colocou aqui!

- Clarice, espera aí...

Os dois começaram a discutir baixinho, Dulcinéia ficou calada. Sabrina até o momento não tinha sido interrogada e permanecia sentada num canto, com as vistas baixas, parecendo envergonhada.

Subitamente, o professor parou de falar e olhou para a quadra de tênis. As três mulheres acompanharam o seu olhar. A lourinha Andie ia ao encontro de Tina. Ao perceber que estava sendo observado, Felício corou gaguejando:



2ª parte

- Sabrina...  - ele hesitou. Não tinha perguntas a fazer. A outra copeira nunca deu alteração no colégio. - Acho que devemos encerrar esse assunto!

Dulcinéia virou bicho. Levantou da cadeira, bateu a mão espalmada na mesa, a ponto de a diretora Clarice arregalar os olhos.  

- Quer dizer que sou o Lobo Mau aqui e a Sabrina o Chapeuzinho Vermelho? Nem vem que não tem! Exijo que façam perguntas a ela também.

Clarice retomou o controle da situação. 

- Você não exige nada! Aponte uma alteração de Sabrina na escola que aplicamos uma pena nela.

Dulcinéia se acalmou. Não lembrou de nada que pudesse comprometer a colega. Olhou Sabrina e viu que ela permanecia de vistas baixas. Sentiu-se culpada. 

- Desculpem! Realmente Sabrina é uma excelente pessoa. Nunca vi nada errado com ela.

- E você a envolveu com o porteiro, daí a briga entre as duas.

  • - Sim.
Felício Galvão se dirigiu a outra copeira.

- Sabrina, quer dizer alguma coisa?

- Não professor! Eu só lamento que tudo isso tenha acontecido. De fato, eu e Dulcinéia somos vizinhas e amigas. Não sei porque ela tramou aquilo com o Wenderson.

- Eu sei! - disse Clarice olhando Dulcinéia nos olhos.  - Os atos desastrosos dela são como uma bomba. Explodem sem medir a dimensão do estrago.

 Dulcinéia ia protestar. O prof. Galvão ignorou-a, dirigindo-se a Clarice:

- Podemos encerrar a reunião? O grupo de chineses está me esperando. Tenho muita coisa pra resolver!

- Concordo. Mas a coisa não pode ficar assim. Sugiro uma penalidade pra Dulcinéia. Uma semana de suspensão do serviço!

A copeira ficou meio confusa. E na dúvida procurou esclarecer.


- Vou ficar uma semana em casa?

- Sim. - respondeu Clarice.

- E vou receber o meu salário normalmente?

- Estou te dando suspensão, não férias. A semana será descontada no seu salário.

O prof. Galvão levantou junto com Dulcinéia, que já ia protestar.

- Está feito, Dulcinéia. Daqui a uma semana você volta ao trabalho.   Sabrina, pode sair, por favor!

- Suspensa também, professor?

- Por enquanto não!

Sabrina não achou justo só a colega ser punida e resolveu protestar.  Dulcinéia começou dizer alguma coisa. Clarice também falava. A coisa estava virando bagunça. Felício Galvão alterou a voz.



FINAL

- Reunião encerra! Como disse, o grupo de chineses me espera. Podem sair!

As duas saíram. Dulcinéia chorando baixinho. Sabrina constrangida.

- Oh Dulce! E agora?

- Deixa pra lá, Sabrina!

- Que posso fazer por você?

- Nada! Daqui a uma semana eu volto. Tchau!

Foi ao vestiário. Trocou de roupa. Pegou a bolsa. Quando ia chegando na portaria, avistou Andie e Tina, agora conversando à beira da piscina olímpica. Pareciam confidenciar algo, pelo modo como falavam. Dulcinéia cogitou:

- Se a creTina não soubesse nadar, eu jogava ela na piscina. Queria ver a branquela da Andie correndo doidinha, gritando por socorro! Ela não deve saber nadar!

Ainda rindo desse pensamento, ouviu a voz do prof. Galvão.

- Dulcinéia, espere!

- Lá vem esse chato atrás de mim!  - resmungou, balançou a cabeça e continuou andando. Ele a alcançou:

- Dulcinéia, não se preocupe. A semana que for descontada de você, depois te dou o dinheiro, ok? Mas é segredo, beleza?  - falou, olhando na direção das meninas, que agora estavam paradas na borda da piscina. 

- Beleza? Olha aí, o homem tá apaixonado mesmo! Falando gíria, cortou o cabelo, parece mais jovem... pena que aquela branquela não merece...

Felício Galvão sorriu. E Dulcinéia se aproveitou.

- Professor, quantos anos o senhor tem?

- 32, mas não sei porque estou te dando papo. - ele ria muito, sem tirar os olhos de Andie. - Tchau, Dulcinéia! Não se esqueça, vou te dar o dinheiro que for descontado! Segredo nosso, ok?

  • - Professor, o senhor é um amor! Te adoro!
Jogou beijinhos e saiu andando apressada.

Pela primeira vez na vida, Felício Galvão saiu correndo pelo corredor. Sem se dar conta, ia na direção da piscina. Quando caiu em si, fez meia volta e saiu andando normalmente e assoviando.

Dulcinéia ainda pulava de alegria quando passou por Wenderson.

- Porteiro vacilão. Faz tudo errado! Nem sabe se dar bem com as mulheres!

O rapaz olhou-a sem entender. Em seguida cerrou levemente os olhos e ficou movendo os lábios, como se a estivesse beijando e murmurou:

- Em você todinha!

Dulcinéia pensou em voltar e dá um tapa em Wenderson, mas lembrou que a situação poderia piorar porque estava suspensa do serviço. Assim resolveu continuar seu caminho, remexendo os cabelos negros. Contrariando o conceito da sua professora de Ética e Postura, rebolava sensualmente. Mais adiante se virou. E vendo que Wenderson ainda olhava-a com cara de gato querendo comer o peixe, aconselhou:

- Pode tirar o olho! Tenho compromisso! Meu namorado é motorista de ônibus, pastor, chileno... um cara lindo lindo! Você, senhor Wenderson, pelo jeito, vai morrer sozinho. Sem namorada!

EPISÓDIO Nº 28

A VISITA 

Júlia grita do topo da escada.

- Amanhã vou receber uma pessoa de linhagem nobre! Quero essa casa limpíssima! Não quero ver uma poeirinha!

Xavier, o mordomo, fica na dúvida.

- Linhagem? 

- Vou receber uma condessa austríaca, mordomo! Vê se instrui!

- Eu não sei falar alemão. Só inglês e olhe lá!

- Você não deve falar nada. Só servir! - adverte Júlia, já chegando na sala. - E contrate aquela firma de Conservação e Limpeza, afinal, vocês não são os meus escravos. Não vou esfolar o couro dos meus amados empregados - finaliza dando uma sonora gargalha e entra na sozinha.

Xavier e os outros acabam rindo também. A arrumadeira ironiza.

- Viram como ela é boazinha? Não vai arrancar o nosso couro! Santinha!



Pára um carrão na rua, em frente à mansão. Ao vê-lo estacionado, Júlia dá ordem para que o portão seja aberto. O carro vem entrando lentamente pelo jardim. Ao chegar na entrada da mansão, a anfitriã, com o seu melhor sorriso, já está esperando a visita. Desce uma mulher alta e loura, trajando um terninho branco de linho, apoiada numa bengala. Júlia sussurra para os empregados.

- A condessa!

Os empregados tomam rumos. O motorista fecha a porta que abrira para a condessa e manobra o carro para o estacionamento. Júlia vai ao seu encontro, rebolando, de braços abertos.

- Condessa Flora di Garmignon, que honra! Venha, querida, entremos!

A condessa é recebida no luxuoso salão da mansão. Ela e Júlia passam horas e horas conversando, sem perceberem o tempo passar, quando a porta se abre e aparece Tina com a mochila jogada nas costas, usando short e camisa do time de basquete. Parece meio displicente com os cabelos cortados muito curtos.

Júlia vai ao seu encontro toda orgulhosa.

- Tina, quero te apresentar uma pessoa que conheci na Europa durante...


A condessa se levanta. Então Tina percebe que mulher se apóia numa bengala. A menina arregala os olhos quando vê aquele corpo escultural e se aproxima da convidada. E quando fita os olhos azuis da condessa, quase desmaia de surpresa. Flora di Garmingnon também compartilha do susto. E desconsertada, estica a mão para Tina. Propositadamente, a menina aperta-a com mais força do que deveria e diz entre dentes:

- Poxa! A condessa é uma mulher lindíssima. Engraçado, condessas é meio raro por aqui. Principalmente inglesas.

- Austríaca, querida! - corrige a mulher com voz trêmula.

- Desculpe. Não é muito comum ver austríacos por aqui. A Áustria fica perto de Budapest, não? Condessa, a senhora não vai acreditar! Acho que estou confundindo-a com uma pessoa que conheci uma noite dessas. A senhora me parece tão familiar! Até no perfume!

Flora di Garmingnon aperta com força a bengala. E tentando parecer natural, esclarece:

- Venho muito ao Brasil, Tina! E em Santa Catarina...

- A senhora deve conhecer bem o Brasil mesmo. Fala o português até sem sotaque!

- Convivi com brasileiros a vida toda!

- Sei... A senhora deve conhecer muitos lugares aqui. Tem problema na perna, Condessa?

- Torci o tornozelo, o médico recomendou...

Júlia interrompe a conversa.

  • - Tina, querida! Não seja indiscreta. Está aborrecendo a condessa.
E voltando-se para a convidada, diz, tentando mudar o rumo da conversa.

- Condessa, essa menina tinha um cabelo lindo. De uma hora pra outra, resolveu cortar...  - E andando pela sala, procura saber. - Tina, não vai trocar de roupa?  

- Já vou, mamãe. Cadê o Pedro Henrique?

- Lendo na biblioteca!

- Com licença, Condessa! Mamãe, no nosso viveiro temos jandaia e periquito?

Agora tendo mesmo certeza de que a menina  está reconhecendo-a, Flora di Garmignon sente o chão faltar sob os  pés, mas procurando dar um tom natural à voz diz:

- Você também, Júlia, mudou o visual. Cabelos ruivos, olhos verdes...

Desta vez é Júlia quem fica embaraçada.



PEDRO HENRIQUE - a grana

- Pirralho, preciso de você!

- Ih, se me xingar, nada feito!

- E essa grana aqui? - Tina mostra a ele uma nota.

- Ok, pode xingar à vontade. Passa a grana. Que devo fazer? 

- Nada demais! Espera aqui, vou falar com a lavadeira!

Em seguida volta com um tubo de tinta vermelha na mão. Despeja num copo com água e interroga o irmão.

- O que tá parecendo?

- Suco!

- Tem uma tal de condessa aí na sala. Já sabe o que fazer?

- Derramar esse troço nela.

- Garoto inteligente... suja ela toda, entendeu?

- Falou!

Tina sai por uma outra porta e sobe uma escadinha em forma de caracol fora da casa e entra por uma janela no andar superior. Fica escondida no topo da escada que dá acesso aos quartos. Logo o menino entra na sala com o copo. A mãe, toda efusiva, apresenta-o:

- Condessa, este é meu filho caçula, Pedro Henrique!

Desta vez a condessa não se levanta e Pedro Henrique nem dá tempo de nada. Vai logo perguntando, andando na direção dela.

- A senhora é condessa, como nos livros?

- Sim, meu pequeno príncipe!  - e Flora solta aquela máscula gargalhada, que faz Tina estremecer de raiva lá no seu esconderijo.

- Ih, me chamou de livro! - brinca o garoto.

- Ah, então conhece os livros, gosta de ler?

- Penha lê pra mim e os filhos dela. Mamãe escolhe os livros.

Ele chega bem pertinho da condessa com o copo na mão. Tina estremece só de pensar no prazer de vê-la toda lambuzada de tinta vermelha, mas contrariando o combinado, Pedro Henrique se afasta e deposita o copo numa mesinha, debaixo da escada, e chama a mãe. Júlia pede licença à convidada.

- Mamãe, Tina me deu esse dinheiro pra eu derramar tinta na condessa!

- Cretina! Eu mato a sua irmã!

- A senhora é que sabe! Se me der mais, não derramo nada!

Júlia abre uma gaveta e pega uma nota maior.

- Tome! E desapareça daqui com esse copo!

Assim faz o menino. Tina desce correndo pela escadinha em forma de caracol e encontra-o lá fora.

- Ladrãozinho, te mato!

- Ladrãozinho não, negociante! Mamãe me deu mais! - esclarece, fugindo.

- Vem aqui pirralho! Quanto ela te deu?

- Veja!

- Te dou mais! Vou pegar na minha mochila. Tá valendo?

- Se você me der o dobro!

Tina sente vontade de bater no irmão, mas se cala porque precisa dele.

- Vou buscar. Fique aqui!

Sai correndo. Sobe novamente. Quando desce, não vê mais o menino. Fica danada e resolve entrar pela porta da frente da casa. Quando a condessa a vê, estremece outra vez. E tentando disfarçar a voz, pergunta.

- Tina, quantas línguas você fala?

- Inglês e francês. Fluente! E estou aprendendo alemão e espanhol no colégio Magnata!

A condessa estremece mais ainda ao ouvir o nome do colégio. E tentando dar naturalidade à voz, conclui.

- Estudar línguas é muito importante. Aprendi o português com um adolescente, quando morava na Suíça e ele estudava lá, ao mesmo tempo em que ensinava alemão e italiano pra ele. Era muito amiga da família que o criou.

- Sei... - diz Tina desinteressadamente e chama o irmão que a olha desconfiado, escondendo o copo.

- Vem cá, Pedro Henrique!

O menino acompanha-a até o jardim. Quando vê as duas notas na mão da irmã, vai logo dizendo.

- Me dá, Tina! Vai ser agora!

Tina entrega as notas. Pedro Henrique sai correndo e dá a volta pela cozinha. Então Tina, no seu esconderijo novamente, vê a condessa se levantar. 

- Júlia, querida! Tenho que ir. Preciso tratar de alguns assuntos antes de voltar para Viena!

  • - Já? Mas ainda nem...




A REVIRAVOLTA

No mesmo instante, ouve-se o barulho de um tombo e gritos vindo do interior da mansão. Pedro Henrique corre para o jardim. No luxuoso salão, faz-se um silêncio embaraçoso, acompanhado de surpresas nas fisionomias.

Júlia pede licença à Flora di Garmignon. Vai até à área de serviços e depara com a lavadeira suja de tinta vermelha. 

- Eu me abaixei pra pegar uma peça que caiu. Esse menino veio correndo, esbarrou em mim e me derramou tinta.

Júlia sente vontade de rir. A moça chora baixinho, caminhando para a ala dos empregados. Felizmente, da sala, a condessa não pode ouvir nada.

Tina, por sua vez, no topo da escada, entende tudo e sente vontade de voar de lá e esganar a mulher, mas nada pode fazer porque sua mãe descobriria os seqüestros.  

Flora di Garmignon, sem entender o que se passa, limita-se a sorrir quando Júlia retornou à sala. Levanta-se e se despede. E andando apressada e mancando, entra no carro e sai aliviada dali. 



O carro da condessa cruza com um outro que começa a entrar na mansão. Ela não reconhece o motorista por causa dos vidros fumê fechados. Nem dá importância.  Só quer mesmo sair dali o quanto antes. O carro avança pela alameda em sentido contrário ao da condessa, indo direto para o estacionamento. O vidro vai descendo devagar e surge na janela a lourinha.

Pedro Henrique corre ao seu encontro.

- Andie, você precisa me defender! Mamãe tá no maior veneno!

- Que você aprontou, garoto?

- Culpa da Tina!

- Cadê ela!

- Lá dentro. Vem!

Dá a mão a Andie e os dois seguem para a porta dos fundos da mansão.

EPISODIO 29

Tzeck - o cigano tcheco

Andie estava arrumando o quarto de pensão onde morava com o namorado, num bairro residencial de Budapest, quando o telefone tocou.

- Andie, fuja! Desapareça logo daqui! Vai para o Brasil enquanto é tempo!

O rapaz mal conseguia falar. Sua voz saía embolada, como se estivesse engasgado.

- Tzeck, o que aconteceu? Meu Deus! Onde está você?

- Embaixo da ponte do Danúbio, do lado da Eslováquia. Escondido!

- Tá chovendo muito... que aconteceu?

- Estão atrás de nós, Andie?

- Quem?

- A gang de Pássaro e a polícia húngara. Não tenho certeza... Me pegaram! Estão procurando você também! A polícia acha que sou da quadrilha porque fiz os brincos. Pássaro pensa que informei à mulher que dentro dos brincos havia diamantes. Como? Se nem eu sabia que ele ia distribuir as pedras por toda Europa dentro das bijuterias?

- Meu Deus! E agora?

- Foge pra Závod. Pra casa de Branok. De lá você pega um trem pra Suíça. Desce na estação dentro do aeroporto de Zurique, pega um avião pro Rio! Não fale com ninguém em língua nenhuma, muito menos em alemão. Finja de turista que não fala inglês. Quando chegar, procure o colégio Magnata. Dê um jeito de infiltrar nesse colégio! Existe uma facção do Pássaro lá dentro. Descubra os bandidos... É o único jeito de livrar nossa cara!

- Mas... e você?

- Depois te encontro no Brasil. Fuja, Andie, enquanto é tempo!

Tzeck falava com dificuldade. Estava deitado às margens do rio, num lamaçal, todo encharcado de uma chuva fina que não cessava.

- Andie, vou desligar.  Estou quebrando! Meu corpo todo dói!

Andie quis dizer mais alguma coisa, mas ouviu um estalido, interrompendo a ligação. Em seguida, Tzeck tentou se levantar. O corpo do cigano estava moído. Ainda assim, apoiado no braço direito, conseguiu se erguer, mas escorregou na lama. Seu corpo desceu rapidamente para a margem. Ele não tinha forças suficientes para mover um dedo sequer. Não conseguiu se segurar. As águas barrentas do Danúbio acolheram o seu corpo. E não se passou mais de alguns segundos para que a consciência lhe fugisse. Inerte, ele foi tragado pela selvagem correnteza que arrastava tudo.



EPISÓDIO 30

ANDIE -  o embarque   

Dois dias depois de estar escondida na casa do amigo Branok e inconsolável com a morte de Tzeck, Andie embarcou para a Suíça. Ao atravessar a fronteira austro-húngara, a polícia invadiu o trem, revistando todo mundo à procura dos brincos e do contrabando de diamantes. Foi nesse momento que a agente ruiva e um policial negro a abordaram, falando até em latim. Andie fingiu de desentendida e agiu de acordo com as orientações do namorado Tzeck (Episódio 1). E no momento em que foi conduzida para uma sala escura e o homem de fisionomia coreana falou em português, ela respondeu com poucas palavras, fingindo-se de desentendida.

Da mesma forma, os bandidos, usando uniformes de policiais, também invadiram o trem à procura da mulher que Pássaro usara para atravessar a fronteira com o contrabando. A tal mulher, uma brasileira, embarcou no trem, mas desceu não se sabe onde com a encomenda que deveria ser entregue em Freiburg. Segundo fontes, ela ficou com medo de ser pega, ao mesmo tempo, tentada a roubar a fortuna que conduzia. Por isso saiu distribuindo as pedras entre amigos de sua confiança para despistar as autoridades. Tal atitude foi o seu grande erro. Aí é que tudo se perdeu!

Segundo informantes de Pássaro, a mulher desembarcou numa cidadezinha da Áustria e ninguém sabe onde está agora. Outros dizem que ela nem chegou a sair de Budapest.

EPISÓDIO 31



APÓS A GRAVAÇÃO DO VÍDEO DE YANA BAHRA, FELÍCIO GALVÃO DÁ UMA CARONA PARA ANDIE.



Felício Galvão faz a manobra. Andie não entra na lanchonete. Espera que ele saia. Felício não se decide. Sem saber porque, fica ali parado, olhando distraído as pessoas à sua volta. Outra vez a voz da menina despertou-o.

-Obrigado, professor! Pode ir!

- Tchau, Andie!

Ir não era o desejo dele. Queria ficar mais. Sentir o contato dela, o perfume discreto, o sorriso. Contra a vontade, vai acelerando a moto e se arrancando devagar. Vira-se rapidamente e vê a menina acenando. Por fim, contorna a esquina. Mal desaparece, a garota olha para todos os lados, como se procurasse alguém. Espera alguns minutos. Em seguida atravessa a rua e toma outra direção. 



ANDIE -  a triste decisão

 - Pois não senhorita!

- Tenho hora marcada!

- Nome?

- Andie von der Ghlantèe!

- Espere só um momento!

A atendente entrou no consultório. Passados alguns segundos saiu anunciando.

- Pode entrar. O dr. está esperando-a!

Apressadamente Andie se levantou e empurrou a porta, onde um médico grisalho a recebeu com um sorriso.

- Andie! Bom dia, minha filha! Ouça, você tem certeza do que vai fazer? Não vai se arrepender depois?

- Claro que não. Já tomei a decisão!

- E o pai...

- O pai? - Andie não conteve as lágrimas que inundaram os olhos. - Deve estar no fundo do Danúbio!

- Como?

- O pai está morto, doutor, não pode fazer nada!

- Sinto muito!

- Tudo bem, doutor! O que devo fazer?

- Seguiu os procedimentos que recomendei? Está em jejum?

- Sim!

- Entre naquela salinha, vista essa roupa. A enfermeira já vem te preparar. Lembre-se, Andie, depois que sair daqui, repouso absoluto!



Ao sair da clínica num táxi, Andie não sabia se via tudo embaçado pelas lágrimas ou se pelo efeito da anestesia. De uma coisa tinha certeza. O seu coração estava em pedaços. Se aquela tragédia toda não tivesse acontecido com Tzeck, certamente eles poderiam ter o tão sonhado bebê.

EPISÓDIO 32



O CASAMENTO 

 -  Felício, não se esqueça que temos um casamento no sábado.

- O nosso, Clarice? - brinca o professor.
- Vira essa boca pra lá!

- De quem então?

- Do nosso advogado Fausto, esqueceu?

- É verdade! Ih! Temos que viajar... engraçado, o advogado do colégio mora em outra cidade.

- Ele é o melhor que existe. O homem é famoso no país inteiro. Você compra as passagens aéreas?

- Agora mesmo! Veja.

O renomado professor acessa o laptop, mexendo por alguns minutos. Depois diz a Clarice.

- Pronto! Transferi o dinheiro para a conta da empresa aérea. Vou imprimir as passagens.

- Ótimo. Hoje vou sair mais cedo pra comprar roupas?

- Clarice, mais roupa? Não é só escolher no guarda-roupas?

- Felício, você não entende as mulheres - sorri Clarice. - Acha que vou para um casamento luxuosíssimo, de um ricaço daqueles, com os vestidos que uso na escola?

Felício sorri, brincando.

- Pois eu vou com a roupa que tenho!

- Homem é diferente... peraí, vamos juntos ! Quero você impecável!

- O.k., não vou te envergonhar! Tá falando como uma esposa - brinca, tocando ligeiramente a mão da diretora.

Clarice olha-o longamente, calada. Ela está diante do homem que gostaria de ser a esposa. Embaraçada, não diz nada. Retira a mão e pede licença ao professor. Ao vê-lo saindo, caminha até a janela e vê um casal de adolescentes se beijando. Sua tristeza aumenta ainda mais.

  

EPISODIO 33



SONHO DOURADO  

O casamento do famoso advogado Fausto, com a mulher por quem ele se apaixonou à primeira vista, foi realizado no luxuoso apartamento triplex, com vistas para o mar. Fausto quis que a cerimônia testemunha do início de sua felicidade ficasse escondida dos olhos da imprensa. Ao longo de sua carreira, ele acumulara agravos devido a casos polêmicos que defendia. E assim, uma interminável lista de inimigos ia se formando.

Felício e Clarice também estiveram lá. E porque Clarice foi acometida de uma súbita dor de cabeça, ficaram os dois um pouco afastados dos convidados, ocupando uma mesinha de onde se avistava toda a movimentação da festa. 

Verão. A música de piano, selecionada para a ocasião, envolve os convidados. O ambiente está imerso numa luz cósmica, provinda de um céu estrelado e um luar que se tornam cúmplices.

Neste momento, duas convidadas, andando pelo jardim da cobertura, comentam.

- Flora, Selma conseguiu mesmo! Acho que esse ricaço não sabe...

- Júlia, homem, quando se apaixona, não importa com nada.

Elas silenciam ao ver noiva se aproximar. O luxo e a beleza do vestido branco proporcionam à Selma uma visão de sonhos.  A música, irreal e acariciante, completa a ilusão.

Após falar com as amigas, Selma vê debruçado na sacada um rapaz. Furiosa, ela corre em sua direção.

- Carlo, desapareça daqui! 

- Selma, por que casou com esse ricaço? 

- Porque ele tem propriedades, ações. Até dinheiro em paraísos fiscais, o homem tem.

- Você me enganou.

- Logo peço o divórcio e vivemos da pensão!

O noivo chega, o que põe fim à conversa. Afastando-se dali, Carlo vai ao encontro de Flora di Garmingnon e Júlia. 

- E agora, Carlo? Selma, nos braços daquela fortuna.

- Júlia, nós já havíamos terminado?               

- Mentira, você é louco por ela. - completa Júlia. 

- Você tem razão. Nunca vou me conformar! - diz irritado. - Querem saber o que vou fazer? 

- Estou morta de curiosidade. - antecipa-se a condessa.

- Reparem o jeito dele. Reparem!

Elas olham. Fausto conversa com um rapaz, gesticulando desordenadamente as mãos.  

- Parece um passarinho depenado. - comenta Carlo.

Julia sugere:

- Conte os seus planos.  Vamos animar esta festa!

Carlo cochicha. Elas riem descontroladamente.    

- Engraçado, foi o que acabei de pensar.  - diz a condessa.

Júlia chama Cacilda e Marta, outras convidadas, e conta tudo. Elas também caem na risada.

Um pouco distante dali, os noivos conversam, alheios a tudo. 

Carlo se aproxima: 

- Fausto, posso dançar com a noiva?

Ele sai, sorrindo timidamente para as pessoas. 

- Selma, achamos que seu marido ficaria...

Termina a frase quase num sussurro. Selma ri. Depois reflete:

- Carlo! Não devemos contrariá-lo. Ele é riquíssimo.



2ª parte

O pianista toca "Até Quando Você Voltar", uma romântica música. Completamente envolvidos, os convidados são transportados para uma atmosfera de nostalgia.

Clarice olha disfarçadamente para Felício e sente um aperto no coração. Gostaria de estar nos seus braços, dançando aquela música Entretanto, o encantamento da musica é interrompido por gritos alucinados. Todos correm na direção dos gritos.         

- O que foi? Quê aconteceu?  

- Uma barata... - balbucia Marta.

Todos correm para socorrê-la quando ela começa a desmaiar.

Aproveitando a oportunidade de estar sozinho com Selma, Carlo pressiona-a.

 - Preciso de grana pra colocar uns acessórios no meu carro.

- Está pensando que sou dona do BB. Que já tenho a senha? 

- Se vire! Ou conto que nós dois...   

- Mude de assunto. Fausto vem vindo.



Minutos depois, Flora di Garmingnon e Carlo vão ao encontro da noiva.

- Selma, onde está o Fausto? Traga-o aqui.

Ela avista o noivo, observando um barco que vai cruzando o mar.

- Fausto! 

- Que foi, meu bem?

Os convidados se aproximam do casal.

- Nossos amigos querem... - somente ele ouve o que Selma termina de dizer.   

Fausto fica embaraçado e gagueja.    

- O... quê? Pra quê?

- Não foi idéia minha, querido, mas você concorda? 

Relutante, Fausto diz que sim. Então Selma começa a se despir. Ele é conduzido para um canto do jardim. Selma vai ao seu encontro. Começam a maquiá-lo. Ele põe o vestido. O mordomo traz uma peruca. Num segundo, está completamente transformado.

Felício Galvão deixa Clarice sozinha e se aproxima do grupo. 

Carlo sugere:

- Acho que o garçom pode fazer par com o noivo. 

Júlia, batendo frenéticas palminhas, grita, sacudindo os cabelos, agora novamente excessivamente negros de tintura :

- Garçom!

O rapaz se aproxima. Júlia determina.

- Você fará o noivo.

- Que devo fazer?

- Dar o braço à "noiva". Vamos fazer uns joguinhos com vocês.

O garçom, em silêncio, vai se sentar ao lado de Fausto.  

A brincadeira ganha o auge. As vozes se confundem com as músicas executadas pelo pianista.

Venta. Toda a cobertura é invadida pela brisa marítima e pelo perfume das rosas do jardim. O pianista executa músicas ciganas, fitando de vez em quando os convidados.

Fausto, bastante à vontade, rebola freneticamente, fazendo reluzir as pedrinhas de diamante do vestido. A timidez deu lugar à alegria.

Naquele instante, surge no jardim uma elegantíssima senhora, que apressadamente, esclarece:



FINAL

- Me atrasei. O avião fez um pouso de emergência nas Ilhas Canárias. Ameaça de bomba.  Mas cheguei a tempo de participar do casamento do meu filho. Onde está o noivo?

- Aqui. - a condessa aponta para o garçom.

A elegante senhora retruca com polidez.

- Desculpe, este não é o meu filho. Não é aqui que mora o advogado Fausto?

Fausto ouve a voz quase junto de si. Instintivamente se volta e vê a mãe. Ao reconhecê-lo, ela recua, lívida de surpresa.

- Meu Deus! Não! Não foi este o filho que criei. Não!

A mãe sai cambaleando. Fausto corre atrás dela, arrastando o vestido. A mãe estremece. Leva as mãos ao peito. Fica imóvel. Sem que haja tempo de ampará-la, desliza para o chão.

A surpresa invade as fisionomias.

Ela permanece estirada no chão. Ninguém sabe como agir. De repente uma voz pausada rompe todo aquele silêncio embaraçador.

- Eu sou médico! Vou examinar esta senhora!

A admiração invade as fisionomias. Há incredulidade na pergunta. 

- Você?

- Um médico, trabalhando como garçom?

- Os tempos estão difíceis. Os convênios pagam pouco.

Diz isto examinando o pulso da mãe de Fausto. Depois se curva e ausculta o coração. Fica algum tempo assim. Instantes depois, levanta e anuncia quase que indiferente.

- Nada mais pode ser feito. Esta senhora está morta!

A agitação toma conta dos convidados, que começam a falar desordenadamente. Selma recua. Carlo foge. Clarice aperta com forca o braço de Felício e permanecem no mesmo lugar, atônitos.

Flora di Garmingnon e Júlia murmuram:

- Que tragédia!

E discretamente, deixam o local. Em poucos instantes só restam Clarice e Felício na cobertura do advogado Fausto, que permanece imóvel, sem ação, sem fazer nada. Entretanto, segundos depois, ele se atira ao chão, gritando: 

- Mamãe!... mamãe!...   

Instantaneamente clarões iluminam toda a cobertura, como se fossem relâmpagos. Fotógrafos e repórteres rompem por todo o jardim: máquinas em punhos, disparando flashes, atropelando uns aos outros, falando alto, falando em outras línguas, correndo. Todos querendo captar o melhor ângulo.      



EM BUDAPEST

Alguém atende ao telefone e sonoras gargalhadas se espalham por todo o apartamento. Depois, esse alguém corre para o computador. E vê em tempo real, as fotos de Fausto vestido de noiva e a mãe morta ao lado. Em seguida, sem desviar os olhos da tela, fala calmamente. Sua voz soa carregada de ódio:

- Viu no que no que dá mexer com o poderoso Pássaro, seu advogadozinho?

EPISÓDIO Nº 34



OUÇAM ESSA HISTORIA BOMBÁSTICA QUE DONA MARIA PORÉM CONTOU PRA DULCINÉIA... 



EM FAMÍLIA

Uma das bonitas coisas que existia naquela casa era a intimidade das duas. A filha adorava ouvir as histórias da mãe, mesmo com a televisão ligada para ver as novelas. E nesse dia, com a cabeça de Dulcinéia no colo e alisando os seus cabelos negros, dona Maria Porém contava:

- ... éramos muito amigas. Eu trabalhava na casa de dona Guilhermina Prates e Mirtes era uma alemoa filha dos Lutz. A gente saía toda domingo pra matinê. Um dia conheci um rapaz. Foi assim: a gente estava no cinema, quando eu o vi pedindo licença. Pensei que ele queria sentar perto de Mirtes, mas o danado veio pro meu lado e sentou, encostando o braço no meu. Eu o empurrava, ele insistia...

Dulcinéia começou a rir.

- A senhora, hein...?

- Naquele tempo não tinha essa senvergonheira de hoje. Por isso é que eu empurrava o braço dele. 

- E ele?

- Pensei que fosse um aproveitador, mas depois ele ficou quieto e assistiu ao filme. Não insistiu mais. Na saída, conversamos muito. Ele comprou algodão doce pra nós, ficamos dando voltas na praça...

- Como era diferente naquele tempo, né, mamãe?

- Bastante! Mirtes tinha um namorado. Um caixeiro-viajante. 

- Que é isso, mamãe?


- Hoje a gente chama de representante comercial. O namorado de Mirtes não parava na cidade. Ela era bem branquinha e ele negro. Brincando, a gente chamava ele de Carvão. Quando saíamos os três, o pessoal pensava que eu era a namorada...

- Só porque a senhora é morena?

- Sim... Mirtes se casou com ele. Coitada!

- Por que coitada, mamãe?

Dona Maria Porém não respondeu. Calou-se pensativa, enquanto os dedos continuavam passeando pelos cabelos da filha. Incomodada com o silêncio, Dulcinéia se ergueu, encarando-a:

 - Coitada por que, mamãe?

- O namorado de Mirtes, o Galvao, sofreu um acidente na estrada! Ela ficou viúva pouco tempo depois de casada. Estava grávida. Quando deu à luz, veio pra casa e batizou a criança. Eu fui a madrinha...  ... teve uma infecção por causa do parto. Foi internada às pressas e morreu. Coitada, queria tanto ter filhos! Estava tão feliz! Já tinha escolhido até o nome da criança... Felício...  antes mesmo de ele nascer... A família era contra o casamento. Depois que ela morreu, sumiram com o menino. Não pude fazer nada. Aliás, eles nem gostavam de mim. Me chamavam de "a negrinha, empregada da velha Guilhermina Prates". Até hoje ninguém sabe do menino... Dizem que foi levado pra Itália... Menino? Já é um homem! É bem mais velho que você! 



FINAL

- Ai mamãe, que história triste! Pára! Conta mais... depois do matinê,  vocês ficaram dando voltinhas na praça com o rapaz que queria encostar na senhora. E aí? -  Dulcinéia ri.

Maria Porém deu um beliscão na filha e caiu na risada também.

- Não tem mais nada! Ficamos dando voltas na praça, ele comprou algodão doce pra nós. Sentamos. Ficamos olhando a fonte luminosa. Depois tomamos groselha geladinha, que era o refrigerante da época. Ficamos ouvindo as músicas do alto-falante. Ele passou música pra mim. Uma música assim:

- Sonhar contigo / por toda vida / sonhar contigo / Meu amor / minha querida /

Viver pensando / em ti somente / viver te amando / ser só teu eternamente /

 - acho que era assim a música... e me pediu em namoro.  Naquele momento...  Naquele momento, eu já estava gostando dele!

- Nossa, mamãe?

- Sim! Foi o único homem da minha vida. O meu primeiro e único amor!  Pena que era viciado em jogo e bebida. Descobri depois que casamos. Quando ele desapareceu e me deixou com filhos pequenos... você com um ano... disse a mim mesma que jamais outro homem tocaria o meu corpo.

- Oh mamãe...

- Minha filha, têm coisas que acontecem uma vez só. Comigo foi assim!

Dulcinéia pensou: - talvez o meu namoro com o Caio seja assim também - mas não disse nada. Limitou-se a perguntar:

- Como era o nome dele, mamãe?

- Daniel! Seu pai, menina!

Ao ouvir isso, Dulcinéia ergueu-se do colo da mãe e encarou-a. Em seguida sua voz soou profundamente sentida.

- Oh mamãe, como a senhora deve ter sofrido!

- Sofri, minha filha, mas Deus é poderoso! Me deu forças pra suportar o fardo! Daniel era o meu fardo, mas Deus não é homem para nos abandonar. E Nele encontrei forças para criar os meus filhos sozinha!



 - Mamãe, uma coisa me chamou a atenção. A senhora disse que o marido de sua amiga se chamava Galvão e que o filho era Felício?  

  • - Ela dizia que Felício lembrava felicidade.
  • - Galvão era sobrenome do marido dela?
  • - Era!
  • - Mamãe, a senhora acaba de me revelar uma coisa que eu nunca iria imaginar. Acho que sei onde está o filho de Mirtes!
- Ah Dulcinéia, lá vem você... Já te disse pra parar de ver novelas!

- Mamãe, é sério. É difícil de acreditar, mas esse Felício é o professor do colégio onde trabalho. Tenho certeza!

EPISÓDIO 35

... teve uma infecção por causa do parto. Foi internada às pressas e morreu. Coitada, queria tanto ter filhos! Estava tão feliz! Já tinha escolhido até o nome da criança... Felício... muito antes de ele nascer... A família  era contra o casamento. Depois que ela morreu, sumiram com o menino. Não pude fazer nada... 



M I R T E S

Maria Porém recorda o dia em que Mirtes foi internada às pressas. Logo que ficou sabendo da notícia, ela correu para o hospital. Ao vê-la, Mirtes sorriu debilmente. E já quase sem voz, chamou-a, acenando.

- Mariinha, coloca a minha cabeça no seu colo!

Assim Maria o fez. A amiga gostava de deitar no colo dela. Mirtes era uma alemã de cabelos longos e negros, nariz fino e olhos escuros que expressam claramente os sentimentos. E naquela momento, havia muita tristeza neles. 

- Mirtes, você vai ficar boa! Ainda vamos tomar muita groselha geladinha...

- Não, Mariinha... sei que é o fim... sinto!

- Não fale, Mirtes. Descanse!

E Maria Porém começou a pentear os longos cabelos negros dela. Quando terminou de um lado, Mirtes virou a cabeça, de maneira que ficou de frente para um crucifixo preso na parede. Silenciosamente, a amiga continuou penteando os seus cabelos, quando a voz de Mirtes soou como se viesse de muito distante.

- Mariinha, como foi bom naquele dia em que você conheceu o Daniel, hein?. Você estava tão feliz! Ele gostou logo de você.

Houve um momento de descontração entre as duas. E Maria confessou.

- Branco daquele jeito, quando o vi entrando, pensei que era pra te namorar. Mas você já tinha o Carvão!

Mirtes riu debilmente e começou a tossir. Maria parou de pentear os seus cabelos e olhou o seu rosto. Estava muito pálido.

- Tá sentindo dores Mirtes, quer alguma coisa?

Mirtes demorou a responder. Depois de olhar ligeiramente para cima, para o rosto da amiga, voltou a olhar para o crucifixo, dizendo com voz débil.

-  Mariinha.... o meu filho.... quero que você salve o meu filho!

Quis dizer mais alguma coisa. Não conseguiu. Maria Porém percebeu que ela olhava fixamente para o crucifixo. Percebeu também que os seus olhos se tornavam sem brilho e o corpo enrijecendo. Lentamente, a vida abandonava aquele corpo.

Cuidadosamente, ela retirou a cabeça de Mirtes do colo e deitou-a no travesseiro. Lágrimas silenciosas inundavam o seu rosto.

EPISODIO 36

Maria Porém saiu do hospital e foi direto para a fazenda dos Lutz. Não sabia como, mas iria realizar o último desejo da amiga, criar o seu filho. Anna Lutz era o obstáculo.



A TENTATIVA

- Buscar o menino? Que menino, sua negrinha? Na casa da velha Guilhermina Prates não tem serviço não, pra você estar aqui a esta hora da tarde? Mirtes foi embora quando casou com o negro. Nunca mais a vi!

- Mirtes morreu agora no hospital, no meu colo! Me pediu pra criar o menino! Não saio daqui sem levar ele!

Por um momento Anna Lutz sucumbiu. Seu lábio inferior tremeu e ela abaixou a arma. Depois, erguendo-a outra vez, voltou a encarar Maria Porém com ódio.

- Não sei do que você está falando. Some daqui agora, senão atiro!

E mirou a arma. Max desceu correndo da varanda e entrou entre as duas. Agarrou a mãe, implorando:

- Mãe, abaixe essa arma! Vai embora, Mariinha, pelo amor de Deus!

Foi a última vez que Mariinha pisou naquelas terras. E como chegou à conclusão de que não poderia realizar o desejo de Mirtes, sentia no seu coração que falhara com a amiga no seu último instante de vida.

EPISÓDIO 37



EIS A VERDADEIRA HISTÓRIA DA ADOÇÃO DE FELÍCIO GALVÃO PELO CASAL DE ITALIANOS



O PEQUENO FELÍCIO

Anna Lutz, a mãe de Mirtes, uma alemã viúva, racista ao extremo, não se conformava com o casamento da filha com um negro. O fato a desgostou tão profundamente que ela resolveu tomar medidas drásticas, como expulsar de casa a filha e deserdá-la, passando todos os bens para Max, o outro filho. Mirtes não deu importância a isso. Não queria fazendas. Queria o amor do seu caixeiro-viajante negro. E assim casou-se e foi viver com ele num bairro afastado, bem longe da mãe.

Viviam felizes, os dois, muito apaixonados, mas a felicidade durou pouco. Galvão foi acidentado e morreu na estrada, quando voltava de uma viagem. Mirtes já estava grávida, embora tivesse apenas três meses de casada.



Depois da morte de Galvão, Anna Lutz convidou-a para voltar para casa. Na realidade, ela já havia elaborado um plano para se livrar da criança.  Quando o bebê nasceu, dois dias após ter recebido alta do hospital, Mirtes teve que ser internada às pressas. Estava com uma infecção. E o inevitável aconteceu. Ela veio a falecer em conseqüência disso. No dia do enterro, Anna entrou em contato com um casal de amigos na Itália - Pietra e Antonioni, os quais queriam adotar uma criança porque não conseguiam ter filhos.



Ela já havia combinado também com um diretor de maternidade, mediante pagamento de uma boa quantia, para que ele aceitasse a criança como se fosse rejeitada pela mãe. O diretor, tentado pela fortuna que recebera e mais ainda pelo que viria do casal italiano, aceitou de imediato a proposta. Logo após o enterro de Mirtes, Anna Lutz entregou o bebê ao diretor.



Como de costume, Antonioni e Pietra vinham ao Brasil uma vez por ano para visitar Anna. Esperançosos, sempre iam às maternidades, mas nunca decidiam. Desta vez, foram ao local certo. Viram o menino, uma criança linda, morena, cabelos cheios, olhos negros. Ficaram encantados com ele. Estavam cientes de que por trás de tudo havia a sujeira de uma pessoa cruel, que não aceitou a felicidade da filha. Mesmo assim, o casal decidiu levar o pequeno. Entretanto, um problema: Mirtes já o havia registrado. O que fazer então? O próprio diretor da maternidade ajeitou tudo para que embarcassem com o bebê sem problemas com as autoridades. E assim o levaram na clandestinidade para a Itália.

EPISÓDIO 38

MAX - o irmão de Mirtes



Após a morte de Mirtes, uma tagédia se abateu sobre aquela família. Ana Lutz era uma mulher dinâmica, decidida, que gostava de resolver tudo sozinha. Passou a viver apenas com o filho na fazenda. Tinha como hobbye a pescaria. Um belo dia, pegou a sua canoa e saiu remando pelo canal, para praticar o seu esporte favorito. Foi a última vez que alguém deu notícias dela. Dizem que foi tragada por uma forte correnteza. Outros dizem que ela foi comida por uma sucuri, um "castigo" recebido por ser uma pessoa tão má. Não se sabe ao certo como foi a sua morte. Max acionou os Bombeiros, que passaram três dias vasculhando o canal e não encontraram nem mesmo a canoa.



Max, por sua vez, como único herdeiro, abusou da fortuna que não conquistara com o suor do rosto, mas tudo virou de pernas pra cima de uma hora para outra. Isto ele descobriu quando já era tarde demais. Perdeu tudo com mulheres, jogos e bebidas, a ponto até de mendigar pelas ruas. Houve uma transformação tão grande em sua vida que ninguém era capaz de reconhecer aquele rapaz robusto, de cabelos negros, musculoso, e que era obrigado a pegar firme no serviço da lavoura na época da mãe viva. (Sob as ordens de Anna, trabalhava igual a qualquer um dos empregados). A primeira besteira que fez foi lotear todas as fazendas e vendas lotes a preço de banana. Inclusive, é o responsável por uma das maiores favelas da cidade - a Favela da Luz, por ter feito o loteamento irregularmente, sem qualquer planejamento urbano, o que acabou sendo um aglomerado de becos sem saídas e sem infraestrutura.

Dizem que a bebida o transtornou a tal ponto, que ele distribuía lotes de terras até mesmo em troca de tragos pelos bares das redondezas. E aí entravam os aproveitadores. Max, sempre bêbado, era uma presa fácil. E o que saía do seu bolso era irresistivelmente atrativo.

Morreu desvalido, como se diz, sem nem um centavo. O caixão foi comprado pelo serviço social da prefeitura. 

EPISÓDIO  39

O ACIDENTE

Felício Galvão estava concentrado num trabalho exaustivo quando a porta foi empurrada lentamente e pareceu Dulcinéia. 

- Cafezinho, professor?

- É até bom! Vou fazer uma pausa aqui. Esse trabalho está me matando!

- Também o senhor quer fazer tudo sozinho!

- Quero esse pessoal falando português em 4 meses.

- Como?

- Os chineses. Imagina você que daquele grupo de 40 pessoas, só um deles fala português? Aquele que sempre usa blazer creme e camisa azul.

- Sei... um homem cabeludo, engraçado!

- Engraçado? - Felício ri.  - Ele mesmo! É sino-brasileiro!

- Que isso, professor, tá me xingando?

Felício Galvão dá outra risada.

- Dulcinéia, só mesmo você pra me fazer rir agora. Sino-brasileiro... ele tem a nacionalidade chinesa e brasileira. E o pior é que não vai poder ficar com o grupo o tempo todo. É da Polícia Federal!

- Mas o que eles querem aqui?

- Dulcinéia, você precisa ler mais sobre economia. Os chineses estão invadindo o Brasil. Não vê produtos da China por todo lado? Vão montar uma mega-empresa aqui, incorporar diversas indústrias brasileiras com a chinesa.

- É bom que gera mais emprego.

- Visto por esse lado sim. Eu tenho que supervisionar esse curso diretamente. A multa por qualquer infração é altíssima. Eles terão aulas aqui a manhã toda e à tarde, passeios culturais pela cidade. Isto significa monitoramento 12h por dia.

- Professor, mudando de assunto... não sei se devo contar...

- Diga, Dulcinéia!

- Tô meio sem-graça...

- Diga logo! 

-  A pesTina, quer dizer, a aluna Tina, anda espalhando pelo colégio que o senhor está...

Felício Galvão aproveitou relutância da copeira e vira-lhe as costas, confirmando:

- Você sabe que ela está dizendo a verdade, Dulcinéia!

Diante da declaração, ela se encoraja.

- Professor, mas ela vai fazer o senhor sofrer! Eu sinto! Aquela lourinha...

Felício Galvão, sem encará-la, pede calmamente. 

- Dulcinéia, por favor, me deixe sozinho!

Sem dizer mais nada, a copeira saiu de cabeça baixa. O professor Galvão pegou o controle remoto e ligou a TV. A notícia teria passado despercebida se o repórter não a tivesse dado com tanto sensacionalismo. Felício Galvão passou a prestar atenção. 

 - "Foi o maior acidente aéreo dos últimos tempos. O avião, com destino a Florianópolis, assim que iniciou o pouso... parece que o piloto perdeu o controle e a aeronave chocou-se na pisca. Houve uma explosão...

- Que tragédia! - pensou Felício.

2ª parte

A TV exibia imagens dramáticas do acidente. Uma nuvem negra de fumaça subia para o alto, acima das labaredas. O aeroporto foi interditado. As pessoas que transitavam pelo terraço panorâmico e que podiam ver a cena, estavam chocadas. Carros do Corpo de Bombeiros em vão tentavam controlas as chamas. Dezenas de ambulâncias chegavam ao local e iam estacionando. A nuvem de fumaça galgava cada vez mais as alturas.

" - nenhum sobrevivente...!

Felício fechou os olhos e pensou nos pais - Pietra e Antonioni, morto num acidente de carro. Sentiu um aperto no coração.

Novamente a voz do repórter soou, despertando-o:

- "Atenção! Vamos fornecer os nomes dos passageiros que embarcaram em... 

Hesitou um pouco, baixou as vistas como se estivesse lendo um papel e depois ergueu-as novamente, meio constrangido, pedindo desculpas.

"- Eis a lista de passageiros."

Tornou a baixar as vistas. Parecia que tinha dificuldade em falar os nome. Em seguida...

" - Atenção para a lista de passageiros.. Andie... - hesitou novamente. - Desculpem. É um nome estrangeiro. Desculpem: Andie von der Ghlantèe... "

FINAL

Felício Galvão sentiu como se uma descarga elétrica tivesse subido por todo o seu corpo e foi sacudido por uma convulsão que quase o atirou fora da cadeira. A consciência fugiu e a TV a sua frente pareceu um vulto negro. Não saberia dizer por quanto tempo ficou ali, apagado, mas a voz do repórter trouxe-o de volta à realidade.

"- repetindo a lista de passageiros: Andie von der Ghlantèe, Berenice....

Felício gritou, pulando da cadeira:

- Não!!! Andie, não!!! Andie???!!! Meu Deus!!!

Avançou pela porta e saiu correndo pelo corredor. Dulcinéia ia saindo de uma outra sala e presenciou tudo. Ficou assustada, sem entender. E quando viu-o arrancando o jaleco branco, jogando no corredor e entrando no carro apressadamente, pensou:

- Meu Jesus! O que aconteceu?

Felício Galvão saiu cantando pneus, lágrimas escorrendo pela face. Não via nada pela frente. Nem ouvia a própria voz que gritava:

- Andie!!! Andie!!! Que vou fazer sem você! Oh! Meu Deus, também quero morrer! Oh! Senhor!

E chorava descontroladamente.

Depois de dirigir por longo tempo, sem saber o que fazia, parou o carro numa rodovia movimentada, à beira de um precipício, de onde se via uma cadeia de montanhas cobertas por uma ligeira camada de neblina. Ainda sem conseguir parar de chorar, desceu, dando murros no carro.

E através das lágrimas, vislumbrou a mãe, gorda e grisalha, usando um xale preto. Com a cabeça dele no colo, Pietra alisava os seus cabelos negros, quando algo o afligia, recomendando:  

- Calma, figlio mio! Tutto passa! Tutto si risolve! Calma!

De pé, o pai. Imóvel. Como se estivesse numa moldura, observando-os, sem dizer absolutamente nada. No rosto, apenas um ar de consolo para o filho em desespero.

Felício Galvão sentiu algo oprimindo o seu peito a ponto de tirar-lhe a respiração, mesmo assim gritou alto, com todas as suas forças. O grito ecoou  infinito pelo precipício:

- Andie!!! Andie!!! Que vou fazer sem você! Por que, meu Deus? Por quê?



EPISÓDIO 40

A NOTÍCIA

Depois de desligar a TV, da varanda de seu quarto,Tina avistou a mãe à beira da piscina. Desceu e foi ao encontro dela.

- Mamãe, uma notícia chocante. Um acidente aéreo...  Andie estava no vôo. Ela morreu!

- Minha filha, os princípios da vida são os seguintes: nascer, viver e morrer.

- Como a senhora é fútil, mamãe! Andie era a minha melhor amiga!

- Sutil? Eu?

- Sutil é que a sra não é mesmo!

- Guria atrevida, vou te mandar pra fonoaudióloga. Esse aparelho está atrapalhando a sua dicção.

Chateada, Tina se encaminhou para dentro, anunciando:

- Mamãe, vou sair de casa!

- Agora?

- Mamãe, eu disse que vou me mudar daqui!

- Tina, espera seu pai chegar do Amazonas.

Tina percebeu que é impossível conversar com Júlia. Sai dali, aborrecida. No jardim, encontra com os filhos de Penha, que correm para ela.

- Tina! - e abraçam suas pernas. Depois, olhando pra cima, perguntam.

- Você tá com fome, Tina? 

- Fome?

- Mamãe disse que você é igual neném! Chora quando tá com fome!

Tina deixa as crianças e sai em direção da cozinha. Quando vê a cozinheira, quase nem consegue falar.

- Penha, Andie morreu num acidente aéreo!

- Meu Deus! Aquela lourinha?

- Sim! - e começa a chorar novamente. 

- Senta aqui, Tina!  Vou preparar um chá. Vai se sentir melhor! 



EPISÓDIO 41                 

TUDO SE RESOLVE

 - Dulcinéia, quero falar com você. Vamos à minha sala!

- Ai, professora Clarice, não fiz nada!

- Dulcinéia, como você consegue andar?

- Eu fiz curso de postura. Agora estou fazendo teatro. - responde envaidecida e dá um passo à frente, girando o corpo. Faz um gesto com o braço direito e sorri adoravelmente. A diretora argumenta:

- Não estou interessada na sua performance. Falo da sua consciência pesada. Você sempre acha que fez alguma coisa errada.

A copeira sente vontade de esganar Clarice. Mesmo assim, encolhe as garras.

Depois de conversar longamente com Dulcinéia, Clarice consegue convencê-la a ir ao hotel onde mora o professor Galvão. Faz mais de dois dias que ele não aparece na escola.

NA RECEPÇÃO DO HOTEL

- Pela entrada de serviços, senhoras, por favor!

- Nós não estamos a serviço, seu mal-educado! Vê se te enxerga!

Dona Maria Porém dá um beliscão no braço da filha.

- Cala a boca, menina!

Elas sobem pelo elevador panorâmico, de onde tem uma belíssima vista da cidade. Quando descem no corredor e chegam na porta do apartamento, ficam indecisas, sem saber como entrar, mas arriscam girar a maçaneta e para surpresa, a porta está aberta.

O MILAGRE

Dulcinéia nunca esteve ali. Fica admirada com a bagunça do apartamento, o cheiro vindo do interior do ambiente fechado, cheiro de coisas sujas e mofo. Mesmo assim avança na penumbra e chega no quarto. Tamanha é a surpresa quando vê inerte na cama, como se estivesse morto, o professor mais popular e mais querido do colégio. Ela sente vontade de chorar, mas vira-se e vê a mãe atrás de si com os olhos arregalados, tremendo, apoiando-se num móvel.

Dulcinéia se alarma:

- Mamãe, tá passando mal?

A voz da filha faz dona Maria Porém cair em si. Ela dá alguns passos na direção do leito, sem despregar os olhos do professor barbudo, pálido, cabelos despenteados, imóvel, como se estivesse morto. Ela se aproxima e não consegue conter a exclamação que foge da boca:


- Mirtes!!!

Dulcinéia abraça-a

- Mamãe!!!

Maria Porém avança mais. E trêmula, ergue as mãos sobre o professor. Todo o seu corpo é sacudido por uma convulsão.

- Meu Deus!!! Mirtes! Meu Deus... não! Estou sonhando!

Em sua mente passa em flasch a última coisa que a amiga disse no leito de morte  "... Mariinha, salve o meu filho..." 

Mais uma vez a voz de Dulcinéia desperta-a

- Mamãe. Que aconteceu!

- É ele, minha filha, o filho de Mirtes. Eu sinto! Oh, meu Senhor!

- Mamãe, tem certeza?

- Os olhos, os cabelos.... é ele! Oh! Senhor, glórias Te rendo, glórias Te dou. Oh meu Senhor, toque nessa alma que sofre! Resgate-a para Sua honra, para que o Seu nome seja glorificado! Em nome de Jesus, toque essa alma, Senhor!

Dulcinéia, emocionada, acaba falando coisas que a mãe jamais gostaria de ouvir.

- Mamãe, encontrou a sua amiga. Vamos orar por ela...

- Minha filha, não fale bobagens! Mirtes está morta! Pelos mortos não podemos fazer nada. Por ele sim... Vamos orar por ele!

Diz isso erguendo as mãos sobre o corpo do professor e se ajoelhando. Dulcinéia faz o mesmo. Ficam as duas por longo tempo assim, imóveis. Em seguida, dona Maria Porém começa a orar em voz alta, dando glórias, aleluias, invocando a cura em nome de Jesus. Sente todo o corpo revestido de um poder sobrenatural. E uma imediata resposta às suas orações chega... Inesperadamente, Felício Galvão se mexe na cama. Um gemido sai de seus lábios.

- Que foi...

- Oh Glórias, Senhor!!! Louvado seja o Teu nome! - profere Maria Porém.

O professor vira-se na cama, abre os olhos e reconhece a copeira. 

- Dulcinéia...

- Professor, meus Deus! Levanta dessa cama, professor!

- Que aconteceu?

- Professor, estamos aqui, eu e minha mãe. Levanta dessa cama!

- O acidente...

- Esqueça, professor. Estamos aqui. Eu e minha mãe. A diretora Clarice quer falar com o senhor. Levanta, tome um banho. A vida continua.

Dona Maria Porém não diz mais nada. Permanece calada. Lágrimas de agradecimento banham o seu rosto. Ela sabe que o Senhor é poderoso o bastante e já operou o milagre naquela vida.

ENFRENTANDO A VIDA

Felício Galvão se levanta cambaleando, apoiando-se nos móveis, chega até a janela do quarto. Afasta as cortinas. Seus olhos se perdem na paisagem de concreto. Depois se volta e procura o celular. Encontra-o caído ao lado do criado. Começa acionar o teclado. A figura da lourinha, aquela que Wenderson fez quando ela alçou o véu sobre a cabeça, fugindo do grupo de chineses na portaria do colégio, aparece. O dedo polegar do professor pressiona uma tecla. Passados alguns instante uma voz se soa na sala.  


- Alô!

A surpresa invade as fisionomias. A voz continua repetindo alô. Felício Galvão arregala os olhos. Dulcinéia recua. Sua mãe não entende o que está acontecendo.  A voz, vendo que ninguém responde, silencia.

Há incredulidade por todo o quarto. Dulcinéia rompe o silencio, pedindo.


- Dê aqui o celular, professor!

Ele obedece. A copeira aciona novamente o número e mais uma vez se ouve no quarto.

- Alô!

Dulcinéia recua, apavorada. Depois tentando se controlar, fala, atropelando as palavras.

- Quem está falando?


- Andie! Quem e?


- A copeira do colégio Magnata!

- Dulcinéia...

- É Andie mesmo? Menina, você não está morta?

- Como morta, se estou falando com você!

- O acidente...

- Foi um engano, Dulcinéia. Foi sorte! Estava no aeroporto esperando um outro vôo, quando uma amiga chegou e me convidou para ir a Bertioga.  Estou aqui...


- Inconseqüente!


- Vai começar a me xingar agora? Não entendo sua implicância...

- Fique sabendo que por sua causa, alguém quase morreu!

- Quem?

- O professor Galvão. Estamos no apartamento dele... O professor está doente há quatro dias por sua causa!


- Desculpe, eu não sabia...

- Vê se pode reparar o seu mal feito. Fale com ele!

- Dulcinéia, nessa altura...

- Nessa altura, todo mundo pensa que você morreu num acidente aéreo. Até sua amiga, a creTina, quer dizer, Tina.

- Meu Deus...

- Fale com o professor, Andie!



Pela primeira vez, Dulcinéia não sente raiva da lourinha.  Entrega o celular ao professor, que o segura com mão trêmula. Mãe e filha deixam o apartamento silenciosamente, no exato momento em Felício Galvão começa a falar, inexplicavelmente agora revestido de uma jovialidade que preenche todo o ambiente.          
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Atualizado em: Ter 3 Mar 2009

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