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As crônicas de Lucian e Sophia

 Em uma terra qualquer, cercada por belíssimas florestas e montanhas cobertas por neve, governada por homens e infestada de terríveis criaturas, havia um condado, não muito diferente dos outros... Pessoas andando pelas ruas, fazendo o que precisam fazer, tabernas e bolerias abertas, vendedores ambulantes gritando, vendendo, tentando conseguir algumas moedas de prata para sobreviver, os guerreiros estavam treinando. Nunca se sabe quando poderia aparecer uma horda de orcs no condado, destruindo casas e famílias. Aquele seria um dia como outro qualquer.

O solo estava se pondo, a paisagem tomara uma cor avermelhada, assim como todos os dias, os guerreiros se retiravam do campo de treinamento, alguns iam para casa, cuidar de suas famílias, outros se dirigiam para a taberna, beber hidromel e se divertir, outros, apenas se despediam e sumiam. Os portões do condado, em meio ao fantástico pôr do sol, estavam fechados, as ruas já não estavam tão cheias, da taberna mais movimentada do condado, pessoas entravam e saíam, na maioria das vezes, rindo. Tudo parecia perfeito, a paz, após muito tempo, começara a reinar naquele local, que, há muito, havia sido esquecido pelo resto do mundo.

Do posto de observação, acima dos portões do condado, via-se a figura de um viajante, que em pouco tempo, já batia no portão para pedir passagem. O vigia desceu de seu posto e foi conversar com o viajante. Perguntou-lhe de onde vinha, porque estava ali, porque carregava uma espada e o porquê de tamanha bolsa que carregava. E o viajante respondia pacientemente todas as perguntas, disse que vinha de outro condado distante, lá não precisavam mais de seus serviços, estava ali porque a sorte o guiara, carregava uma espada para defesa pessoal, afinal, estava viajando sozinho, não tinha com quem contar a não ser consigo mesmo. Sua bolsa realmente estava pesada, pôs no chão e começou a tirar seu conteúdo. Ervas, instrumentos pequenos que eram usados na fabricação de unguentos, um cantil vazio e algumas frutas. Claramente, aquele viajante tinha algum conhecimento sobre ervas e espadas, no condado havia algumas pessoas que precisavam de tratamento, mas não havia ninguém que conhecesse de ervas ali, seria uma boa ideia manter aquele viajante no condado. Pediu-lhe que tirasse a capa, mostrasse seu rosto. O viajante obedeceu sem pestanejar, em poucos segundos revelara-se uma moça de cabelos negros, tão negros quanto seus olhos e quanto seria aquela noite, sem nenhuma estrela. Era baixa, suas roupas estavam visivelmente sujas e pelo seu rosto, o cansaço tornava-se evidente. Combinou com ela que, enquanto estivesse cuidando das pessoas no condado, poderia ficar, caso quisesse aprender algo sobre combate, teria que conversar com algum guerreiro, avisou que mulheres guerreiras não eram bem-vistas pelas mulheres do condado. A moça interrompeu-o, dizendo que apenas se defendia e que não era uma guerreira. Ambos de acordo, a viajante atravessou os grandes portões do condado.

A incrível paisagem que havia durante o dia, dera espaço a um local sombrio e gélido. Havia movimentação apenas na taberna, andando pela rua, seus passos se faziam ouvir, o vento ensurdecia-lhe... O burburinho dos guerreiros embriagados ficava mais alto, o tilintar de copos era um som que agora martelava seu cérebro, ao longe, o som de uma harpa. Fora guiada até a taberna, estava com frio, fome, uma imensa vontade de beber hidromel, e sono.

A taberna estava lotada de homens barulhentos e felizes, em um canto, homens cantando hinos ao som da harpa que ouvira há poucos minutos atrás; em outro, homens brindando à todos os deuses e à companheiros de batalha perdidos no espaço de Valhala, agradeciam pelos deuses serem bons e por terem afastado os orcs dali; o divino cheiro de hidromel subiu-lhe à cabeça, sentiu-se tonta e nesse instante, todos perceberam sua presença. O barulho cessou, todos fitavam o forasteiro com olhos curiosos, segundos depois começaram os burburinhos de indagação. Quem seria aquele que carrega uma espada e era tão baixo? O dono da taberna, Rigardo, foi em direção ao forasteiro, pedindo gentilmente que tirasse a capa, se fosse alguém com más intenções, o vigia teria eliminado-o. Obedeceu, seguido de olhares mais fixos ainda, risos e mais indagações. “Uma mulher empunhando uma espada? Que piada!” Isso foi o que percorreu a taberna. Ela se dirigiu ao balcão. No caminho, algo lhe chamara a atenção, um homem no canto mais escuro da taberna, seus olhos ainda estavam fixos nela, eram olhos pequenos e profundos, tão profundos que pareciam enxergar sua alma. Desviou o olhar e continuara em direção ao balcão.

Rigardo atendia-a com um belo sorriso, assim como esperado, ofereceu-lhe hospedagem barata e servia-lhe hidromel. Ahhh, doce sabor que lhe atravessava a garganta, os resquícios da bebida em sua boca perfurava-lhe o cérebro, sensação que há muito não sentia. Comeu e aceitou a hospedagem que Rigardo havia sugerido. Um belo banho, roupas limpas, uma boa noite de sono e já estaria nova para cuidar dos enfermos daquele condado. Fora dormir pensando no dono daqueles olhos ameaçadoramente adoráveis e enigmáticos.

A noite passara rápido, o sol raiava. O cenário voltara a ser lindo e não sombrio como havia visto. Os barulhos da rua acordaram a moça, já descansada. Levantou-se rápido, tomou banho e foi para a rua, precisava de roupas novas e ervas. Na noite anterior estava com as roupas parecidas com as de um guerreiro, nesta manhã, também usava roupas parecidas com as de um guerreiro, mas estas foram especialmente para ela, e já não tinha ervas o suficiente.

As pessoas a encaravam. “Quem é essa? O que está fazendo aqui? Por que ela carrega uma espada?”, as pessoas perguntavam entre si. Fingia que não os ouvia. Encontrara dois vestidos de cor açafrão, comprou-os por falta de opção. Ouviu uma voz familiar. O vigia. Começaram a andar e a conversar, ao longe, via-se o campo de treinamento, o reflexo do sol que batia nas espadas, aquele som de duas espadas se chocando era como uma melodia maravilhosa, inconscientemente, ambos se dirigiam para o campo. Um dos combatentes que estava esperando sua vez, gritou: “Olhem, a grande guerreira forasteira de ontem está aqui, Alderic a trouxe!”, em suas palavras, o tom de ironia era insuportável, aqueles olhares todos voltados para a pobre viajante era perturbador. Alderic, o vigia, de aparência cansada e olhos rasos, mas com um sorriso paternal, disse: “Esta senhorita, meus senhores, é a nova médica do condado. Engula sua língua, jovem senhor Samael, pois ela ainda poderá te salvar.” Os guerreiros se entreolharam e Samael continuou falando, ainda com um tom irônico: “Por que carregas uma espada senhorita médica, se seu trabalho é curar os enfermos e não matá-los?”, com toda a calma, a médica viajante respondeu a pergunta do jovem guerreiro: “Sou uma viajante senhor, quando vejo que não há mais nenhum enfermo, vou embora; carrego a espada como defesa pessoal, não tenho habilidades mas ainda estou viva não?”, dito isso, a viajante viu o guerreiro dos teus sonhos da noite passada, seus olhos eram inconfundíveis, ele estava ofegante, tinha acabado de lutar contra um amigo; o diálogo entre Samael, o guerreiro mais novo de todos, e a viajante perdurou... Ambos usavam a ironia e o sarcasmo. “Oras, pelas florestas e montanhas há orcs e homens malvados, quer mesmo que acreditemos que você sabe empunhar uma espada?”, Samael parecia satisfeito e orgulhoso, tentava humilhar a moça para parecer mais homem perante seus companheiros de arma. “Vamos senhorita médica, vamos ver se consegues derrubar alguém! Que nome deveríamos colocar em sua lápide?”. “Oras Samael, isso é lá maneira de se dirigir a uma senhorita? Tenha juízo garoto estúpido!”, uma voz grave surgiu do monte de guerreiros. Aquele era Lucian, o dono daqueles olhos fascinantes e de um rosto sério, que aparentava há muito, não ver a felicidade. “Não se preocupe senhor.”, disse a viajante, dirigindo tais palavras e um sorriso tímido para o guerreiro que roubara seus sonhos. “Aceitarei seu desafio, senhor Samael, mas peço que seja como um treino, não posso sair ferida, pois assim, não poderei cuidar dos enfermos. Meu nome é Sophia senhor, mas não precisará colocá-lo em minha lápide, possivelmente estarei longe daqui .”, seu nome fora revelado, aquele guerreiro defendera-a, aquilo poderia significar alguma coisa, ou não. “Pedido concedido, senhorita Sophia, isto será um treino e uma aposta, se caíres primeiro, terás que me conceder um pedido, se eu cair, concederei um seu. Feito?”, Samael sorria, pensava que era grande coisa desafiar uma mulher. “Senhorita Sophia, reconsidere... há enfermos que precisam de ti!”, Alderic estava aflito, o porquê, ele desconhecia, mas confiava na forasteira. “Ficarei bem, Alderic. É apenas um treino.”, seus olhos palpitavam de excitação. Finalmente um treino de verdade, depois de tanto tempo. “Feito senhor Samael.”, respondeu Sophia, com um olhar visivelmente satisfeito.

Dirigiram-se a um local plano, Sophia deixara sua sacola no chão e desembainhara a espada. Samael era muito novo e afoito, tinha os pés rápidos, mas agia sem pensar, queria apenas derrubá-la de uma vez e se fazer provar um bom guerreiro diante de seus companheiros. Sophia desviava de todas as investidas de Samael, que aparentemente, estava ficando nervoso; Samael continuava investindo e Sophia desviando e ao mesmo tempo pensando: “Ele está com aqueles belíssimos olhos voltados para mim! Ahhh, que sorte eu ter me encontrado com Alderic na rua e termos vindo para cá!”. Depois de tanto se esquivar de investidas inúteis, Sophia deu uma estocada bem leve em um dos joelhos de Samael, que, de pronto, foi ao chão. Ganhara aquele desafio e ainda ganhara a atenção daquele guerreiro desconhecido que tanto lhe chamara a atenção.

Com Samael ao chão e os guerreiros gritando e rindo, Sophia correu até sua bolsa e pegou um unguento que sempre carregava pronto para emergências, voltou e aplicou no joelho do garoto. Alderic sorriu e falou: “Ele está bem, só está com frescura.”, e os combatentes riram mais ainda.

Terminada a aplicação, Sophia sentiu uma presença atrás dela: “Sou Lucian, será um imenso prazer ajudá-la a aperfeiçoar suas técnicas de combate, senhorita Sophia. Ao fim da tarde, gostaria de beber conosco na taberna de Rigardo?”, disse o dono daqueles olhos magníficos, do rosto sério e agora com um sorriso tímido, com uma das mãos estendidas para ajudar Sophia a levantar. O clima de zombaria sobre Samael havia sido exterminado, dando espaço a um clima completamente diferente. Sophia apoiou-se na mão estendida de Lucian, ele tinha mãos macias, embora fosse um guerreiro, era um pouco corpulento, mas se movimentava bem em combate, sinal disso era não aparentar nenhuma cicatriz; era alto e tinha ombros largos, como seria ganhar um abraço daquele homem? Condenou-se por tal pensamento. “Quem é esse homem? Por que ele mexeu tanto com minha mente?”, balançou a cabeça tentando afastais tais pensamentos... Levantou-se com a ajuda dele e balbuciou: “ Agradeço, senhor Lucian, por se oferecer a me ajudar a treinar, aceito de bom grado, mas lamento recusar seu convite à taberna, me dedicarei aos enfermos do condado e agora ao meu treinamento com o senhor.”, sem mais respostas, Sophia pegou as sacolas e sua bolsa do chão, fez uma reverência à todos e saiu. Ao longe, ouvia a voz de Samael dizendo que tinha uma dívida a pagar com ela.

O sol estava a pino, era hora do almoço, Sophia parou na feira para comprar mais algumas ervas, seu ultimo unguento fora usado para tratar do impaciente Samael. Mais comentários à sua volta. Não fazia questão de ouvi-los. Sophia sabia que era diferente de todas as mulheres daquele condado, e se orgulhava disso. Foi em direção à taberna para comer algo e voltar para a hospedagem, se organizar para começar o que viera fazer. Cuidar dos enfermos.

Enquanto isso, os guerreiros reunidos debaixo de uma grande árvore, comendo e conversando, alguns estavam deitados, descansando na grama. O sol estava escaldante, mas corria um vento fresco por ali. Aquele era o ponto mais alto do condado, tinha-se a vista de todo ele e de parte da floresta, do lado de fora dos portões. Alderic ainda estava lá. Samael estava encostado no tronco daquela grande árvore, com a perna esticada e a bandana com o unguento feito por Sophia. Lucian estava perdido em seus pensamentos: “Foi por impulso tê-la convidado para ir à taberna. Por que, desde que a vi ontem, penso nela? Sophia, ahhh que belo nome! Ela é diferente das outras mulheres. O que me chamou a atenção nela?”, não via respostas para suas perguntas. Desviou sua atenção por um instante para a floresta. Estava com um olhar confuso e um sorriso bobo. “Olha, vejam só. Nosso maior guerreiro se apaixonou por uma médica viajante!”, disse uma voz alegre, para não dizer irritante, com um tom insolente, Samael. Lucian ignorou-o e Samael continuou: “Vamos senhor Lucian, todos notaram seu interesse pela moça. Ela sabe empunhar uma espada tão bem quanto qualquer guerreiro, conhece de ervas e é bonit...” suas palavras foram cortadas por Lucian: “Fim do descanso meus amigos. Levante-se Samael, vamos treinar para que eu possa perfurar seu outro joelho, já que sua língua não posso arrancar.” Risos ecoaram. As feições de Samael haviam mudado, seu rosto expressava apenas duas palavras: Ficarei quieto.

O dia foi passando, como todos os outros dias. O que diferenciava aquele dia dos dias anteriores Foi a falta de concentração do mais notável guerreiro do condado, o pivô dessa situação o encontro com a forasteira que tanto observara na noite passada, na taberna de Rigardo. Os treinos, a partir daquele dia, acabariam mais cedo, os guerreiros voltariam felizes para suas casas enquanto ele treinaria com a bela moça.

Um belo pôr do sol tomava conta do cenário magnífico; aves ainda cantando, crianças correndo pelas ruas, brincando, os guerreiros voltando para suas casas, algumas crianças avistando seus pais, correndo em direção a eles, de braços abertos; como se aqueles homens fossem escolhidos pelos deuses, como se eles fossem heróis. E eram.

Sophia continuava em seu quarto, concentrada, preparando seus unguentos, dando o seu melhor no que fazia. Sabia que no dia seguinte poderia encontrar todo o tipo de enfermidade. Ao pensar nisso, lembrou-se de Samael, seu ferimento poderia inflamar, mas sua mente foi invadida pelos olhos de Lucian, seu rosto, sua voz; ele parecia Odin. “Ahhhh, como poderia existir guerreiro tão formidável quanto Lucian? Que raios de sorte foram esses que me trouxeram justamente a este lugar?”, pensava inquieta. Levantou-se e foi até a janela, o sol já se punha, dando espaço à belíssima noite, o céu, ao contrário da noite passada, estava estrelado. Entre as estrelas, os olhos e o sorriso de Lucian. “Isso seria amor? Será que sou correspondida? Ahh que infortúnio! Como a encarnação de Odin, como aquele homem se apaixonaria por uma mera mortal viajante? Oh, que Hynin role bons dados para mim.”, parou de pensar e foi tomar banho, tinha fome, terminaria o banho e iria à taberna comer alguma coisa, voltaria cedo e dormiria, o dia seguinte seria longo e muito proveitoso.

Fim do banho. Na porta da hospedaria estava Samael, com um largo sorriso, e agora, com os dois joelhos machucados. Esperava-a para irem à taberna. Samael era novo e não havia saído em batalha, não conhecia o lado de fora do condado. Ouvia atentamente tudo o que Sophia dizia, ria e fazia caras de espanto ao Sophia contar que já matara muitos homens que a atacavam em suas viagens. “Então, ela sabe lutar...”, pensava o garoto. As ruas estavam quase desertas, as conversas e risos de ambos ecoavam, ao longe, no escuro, entre o vão de duas casinhas , um jovem casalsinho se “atracando”, o motivo de mais alguns risos.

Na entrada da taberna, o mesmo de sempre, o odor maravilhoso de hidromel, vinho, cerveja amanteigada. Homens bebendo, cantando, rindo. Agiam como se não houvesse perigo no mundo. O que, em breve, mudaria.

Todos os guerreiros que presenciaram a cena pela manhã estavam lá. Sophia, na porta, percorreu seus olhos pela taberna, procurando os olhos de Lucian, fora interrompida por um guerreiro, já, bêbado, gritando: “ Senhor Lucian, sua senhorita chegou. Com todo o respeito, ela está linda, com as roupas de uma senhorita. Rigardo, mais uma rodada de Hidromel para todos!”. Todos se viraram de imediato para Sophia, sentiu-se corar. Todos aqueles olhares voltados para ela e o único olhar que desejava, ainda não havia encontrado. Samael convidou-a para sentar em uma mesa, Sophia aceitou, cumprimentou todos formalmente e sentou-se. Sentiu uma mão macia pousando em seu ombro nu, conhecia aquela mão; ouviu aquela voz grave que tomara conta de sua mente por quase o dia inteiro. “Boa noite, senhorita Sophia, gostaria de discutir os detalhes sobre nossos treinos. Posso?”, pedia para sentar-se à mesa com ela. Ele tocara-lhe um dos ombros. Agora sim, tinha certeza que aquilo não era um mero sonho, ele era de carne e osso, um mortal como qualquer outro, mas com a perfeição de qualquer deus. Disse que sim. Lucian sentou ao seu lado e seus companheiros bêbados riam e cantavam mais energicamente. Samael havia desaparecido. Ele fizera sua parte, levar a senhorita à taberna.

Entre um copo e outro de hidromel, a conversa fluía, para Lucian, aquela mulher era fantástica, nunca vira nenhuma outra igual ou, que, pelo menos chegasse aos seus pés... Era uma médica, aparentemente conhecia algo sobre combates, gostava de desafios, isto estava escrito em seus olhos e cravados em suas palavras, era linda, independente, não era como as outras senhoritas descompromissadas do condado, que passavam o dia falando da vida alheia e escolhendo vestidos. Sabia que Sophia seria a mulher de sua vida. Para Sophia, aquele homem era a encarnação de Odin, seus olhos que tanto lhe chamaram a atenção, com um ar de mistério, seu sorriso tímido, seu corpo, o toque de suas mãos... Lembrou-se do momento em que ele tocara seu ombro; um arrepio percorreu-lhe a espinha. Não parara de pensar nele desde que o vira a primeira vez. Sua voz era realmente grave, inconfundível, ele lhe passava tranquilidade. Por aquele tempo que estavam sentados juntos, realmente, parecia que o mundo era perfeito. Que não havia guerras, que não havia orcs, nem seca, nem fome e nem a peste. Um completava o outro. Eram perfeitos um para o outro e perfeitos um com o outro. Marcaram o horário para o treino. Todos os dias, pouco antes do por do sol, para a alegria de ambos.

Estava tarde. Aquele encontro não tão inesperado estava fora de seus planos. Sophia explicou que teria que ir... Trabalharia no dia seguinte, levantou-se bruscamente, foi ao balcão e pagou sua conta, voltou à mesa e despediu-se do seu amor, que, até aquele momento, platônico. Despediu-se dos outros guerreiros fazendo uma reverencia e saiu. Poucos minutos depois, Lucian estava correndo atrás dela, ofegante, dizendo que a acompanharia até a hospedaria; alegava que estava tarde e que era perigoso para uma senhorita, caminhar à luz do luar sozinha.

A rua, mais silenciosa que o normal, o céu estava divino, estrelado, maravilhoso. Era possível ouvir a respiração ofegante de Lucian e os batimentos cardíacos acelarados de Sophia. No mesmo vão das casas, o mesmo casal se beijando loucamente; não parecia romântico e sim, excitante... Sophia imaginava: “Provavelmente uma união não concedida pelos familiares deste jovem casal.”, desviara sua atenção, olhara para o lado e vira aquele homem magnífico ao seu lado. Na frente da hospedaria, Lucian toma as mãos de Sophia, olha em seus olhos com ternura e beija-lhe as mãos, seguidos de um “boa noite e até amanhã no treino.” Sophia fez uma profunda reverencia e entrou.

Lucian, agora, se encontrava sozinho na escuridão, imerso em seus pensamentos, foi para casa. O dia seguinte seria um grande dia.

Uma manhã nublada; dali a pouco seria hora do treino com os guerreiros; o treino de Sophia teria inicio ao meio da tarde. “Que Hynin role bons dados para mim!”, pensou, sorridente. Tomou banho e saiu. Andando por uma ruazinha pouco movimentada, Lucian avistou seu destino, uma velha loja, com a placa quase que, completamente destruída por fogo, lembrança da ultima visitinha dos orcs ao condado. A lojinha, por fora, parecia não ter sido restaurada, as marcas do fogo estavam ali, as de sangue também (o que dava um ar mais sombrio àquela rua). Lucian entrou. Armaduras brilhantes e de vários tamanhos em uma parede. Espadas na outra. Todas as vezes que Lucian entrava naquela loja, seus olhos brilhavam de excitação, comparável à crianças inocentes e felizes brincando de guerreiros na rua; comparável à donzelas apaixonadas que recebiam cestas com flores e doces no solstício de verão; seus olhos brilhavam como nunca. Dirigiu-se à uma armadura de tamanho pequeno, pensou em Sophia, imaginou aquela armadura reluzente em seu corpo; fora interrompido por Baltazar, um amigo de Lucian, dono da lojinha, dizendo: “Há rumores de uma jovem médica no condado que sabe manejar uma espada. Essa armadura ficaria bem nela, não?”

Baltazar era baixo, parecia um anão, tinha o rosto sério, com uma barba mal-feita, não sorria, mas seus olhos transmitiam um código que apenas um grande amigo como Lucian poderia decifrar. “Ela é o motivo de minha visita. Ofereci-me para ajudá-la a treinar.”, disse Lucian, com a voz tímida e um pouco envergonhado.

Enquanto isso, na hospedagem, Sophia se preparava para um ótimo dia. Colocara os unguentos na bolsa e partira. Já estava na hora do turno de Alderic acabar. Ele prometera ajudar, levando-a em algumas casas, onde havia enfermos.

Já estava acostumada com a agitação da rua. Estava gostando daquele condado como nenhum outro, embora as pessoas ainda olhassem para ela com desprezo, estava gostando dali. Encontrara-se com Alderic no portão e esperaram um pouco pelo vigia diurno. Pronto. O vigia chegara. Saíram conversando, deixando para trás, outro senhor.

Ao longe, os guerreiros já estavam treinando, de longe, ouvia-se a voz de Samael: “Mas está doendo!”. Alderic e Sophia riram.

Chegaram a uma pequena casinha onde moravam cinco pessoas. Bateram à porta. Foram atendidos por um garotinho que aparentava ter uns 10 anos de idade. Quando ultrapassavam a porta, o vigia diurno chegou, ofegante. Queria falar com Alderic. Sophia sentiu uma pontada no peito, pediu ao garoto que esperasse um pouco, ela apenas entraria se Alderic fosse com ela. A conversa particular entre o vigia e Alderic tinha acabado de ter início, mas a feição de Alderic havia mudado completamente, dera espaço a um rosto aflito. O vigia saiu correndo, em direção à colina, onde os guerreiros treinavam. Alderic foi tentar explicar a situação para Sophia: “Ouça-me senhorita, fomos informados que há muitos orcs em nossa direção. Não se preocupe, ficarás a salvo aqui no condado.”. Alderic terminou e saiu correndo para a colina também. Sophia entrou na casa, tratou do enfermo com alguns unguentos, já que não era nada grave e correu também para a colina. Queria ajudar. Queria lutar. Não ficaria de braços cruzados no condado. Não era do seu feitio, esperar ser salva por alguém.

Na colina, todos os homens aptos a lutar estavam presentes. Lucian estava repassando a estratégia de batalha. “Eu quero lutar!”, surge Sophia. “Hahaha, a senhorita pode ter ganho de Samael, mas isso é real e não um treino.”, disse Sulphur, um guerreiro arrogante, magro e louro. “Poderia algum cavalheiro me emprestar uma espada?”, perguntou Sophia. Estava decidida a ir com eles. Queria ficar perto de seu grande amor também. Samael entregou sua espada. “Vamos cavalheiro, tente me arranhar ao menos. Posso garantir-lhes que serei útil. Eu quero lutar.”, Sulphur a atacava, seu vestido que comprara a dois dias atrás fora rasgado pela lâmina de Sulphur. Sophia revidava, não apenas desviava como fez com Samael, desviava e atacava. Não parou até ver um filete de sangue no ar. Era o sangue de Sulphur, um corte preciso em seu antebraço, marcava sua derrota.

Lucian, Alderic, Samael e todos os outros guerreiros estavam boquiabertos. “Sophia até que leva jeito.”, pensavam os três. Ela iria. Todos foram se organizar para partir. A estratégia de Lucian seria deixar no condado, cerca de 50 homens, caso fosse uma armadilha... 20 homens e 1 mulher iriam de encontro aos orcs para impedí-los de chegarem ao condado... caso não houvesse homens suficientes para combatê-los, Sophia viria correndo para o condado avisar, levar reforços, ou algo do tipo. Queria Sophia perto dele, Não desistiria dela por nada, Cuidaria dela no campo de batalha...

Tudo organizado, Lucian foi à hospedagem falar com Sophia antes de saírem do condado. Ela arrumava sua bolsa cheia de unguentos. Sua espada estava em cima da cama. Ele entregara-lhe uma armadura reluzente, dizia que era um presente. Sophia, relutante, aceitou. Após entregar a armadura, Lucian confessou: “A senhorita é a mulher mais incrível que já conheci. Quero tê-la por toda a eternidade. Quero protegê-la em cada vão momento.”, ele estava pálido, sua mãos suavam. Sophia aproximou-se e beijou-o. Estavam juntos. Nada que acontecesse separaria aquele casal, unidos pela sorte e com o consentimento dos deuses. Nada os separaria, a não ser, a morte.

Saíram do condado. Samael estava empolgadíssimo, Sulphur estava com a cara mais fechada que antes, ao lado do portão, algumas pessoas e Alderic desejando-lhes sorte.

Caminharam pela floresta escura, atravessaram o riacho, caminharam mais, encontraram uma caverna, na qual decidiram passar a noite. Era um bom local, tinha uma boa vista ao redor. Ficaram ali na porta. Não se deram ao trabalho de explorá-la. Parecia segura. Acenderam a fogueira e ficaram ali. Alguns homens ouviram barulhos estranhos ao fundo da caverna e foram lá investigar, à beira da fogueira restaram seis homens que eram desconhecidos para Sophia, Samael, Lucian e ela. Nove ao total. 11 foram investigar os ruídos. Em poucos minutos, gritos, grunhidos. Samael, que estava sentado, bebendo água, deu um pulo com o susto. Todos levantaram e correram. Ao que dava para contar, três dezenas de orcs estavam ali. O cenário era de completo caos. As tochas que os guerreiros levaram estavam no chão. O cheiro de sangue predominava. Tanto homens quanto orcs estavam caídos. Samael entrou em pânico, foi quando perceberam a presença do pequeno grupo e começaram a atacar. Os guerreiros se defendiam, defendiam seus companheiros, já haviam perdido 11 amigos, não poderiam perder mais, mas mesmo assim, homens iam para o chão. Lucian se preocupava com Sophia, assim como Sophia se preocupava com Lucian, mas um confiava no outro. Ambos sabiam que o outro não morreria.

Restavam 3 orcs, 2 guerreiros desconhecidos, Lucian e Sophia. Um dos guerreiros desconhecidos desmaiou. Era hora de matar as três ultimas criaturas. Um para cada um. O trio matou aqueles orcs em poucos minutos. Lucian e o guerreiro foram ver se havia algum sobrevivente, Sophia fora pegar sua bolsa com unguentos; precisava de algum com cheiro bem forte para acordar o guerreiro desmaiado. Voltou, rasgou uma bandana que havia em sua bolsa e molhou-a com unguento, pôs próxima ao nariz dele. Em instantes, o guerreiro havia recobrado a consciência.

Lucian a gritou. Desesperada, Sophia correu até seu amado, mas antes que o alcançasse, entendeu o motivo do chamado. Samael estava em seus braços, seu corpo já estava frio. “Essa foi sua primeira e ultima batalha Samael. Um dia nos encontraremos novamente, e em Valhala, você cumprirá nossa aposta.”, disse Sophia, com lágrimas escorrendo em seu rosto. Desmaiou. Lucian tomou-a em seus braços, beijou-a e deitara-a no chão, longe daquele cheiro de fogo, de sangue, de orcs e de morte. Saiu. Foi apanhar os corpos de seus companheiros com a ajuda dos dois últimos sobreviventes, além de sua amada, para enterrá-los. Eles precisavam de paz para irem para Valhala.

O sol já apontava. Ainda não tinham terminado de enterrar os corpos. Sophia acordou, estava sem a armadura, em um local limpo, lembrou-se do que havia acontecido. Os orcs, os guerreiros, Samael, um desmaio. Saiu da caverna e viu os três homens enterrarem e rezarem pelo ultimo guerreiro, Sulphur.

Recolheram o necessário e partiram daquele palco sangrento. Caminharam até o anoitecer e resolveram parar para descansar em uma floresta.

Parte Final

 Após um dia de batalha, quatro guerreiros acendem uma fogueira no meio de uma floresta, as árvores impediam a vista das estrelas, o ar daquele lugar estava marcado com sangue e morte de seus companheiros de arma, tudo estava quieto demais para parecer que teriam ao menos uma noite de descanso.

Dois Guerreiros de um lado da fogueira, tentando limpar seus graves ferimentos da batalha anterior, preocupados com o que viria a seguir, preocupados com a questão de quando seriam atacados novamente, quando poderiam ir para casa ficar com a família, enquanto isso, do outro lado da fogueira, o guerreiro mais fantástico, bravo e incrível, ainda com a armadura manchada de sangue, estava deitado no chão, com a cabeça no colo de sua amada, a 4ª combatente do grupo. O bravo guerreiro recebia carinhos em seu rosto e beijos, os outros guerreiros, olhavam, sorriam, comentavam entre si: “Imagine o quão extraordinário é o amor desses dois! Eles não parecem se importar com o que virá, a única com que se importam é estarem juntos. Em momentos assim, ninguém lembra que há orcs por toda parte.”. E assim procedeu a noite, até escutarem galhos se quebrando, grunhidos e sentirem um odor fétido, característicos das criaturas mais odiáveis do mundo.

Não havia muito tempo, os dois, ainda tentando limpar suas feridas, jogaram tudo para o alto e começaram a vestir suas armaduras, o casal já estava pronto para o combate (a sensação de um novo combate incendiava os olhos do casal aventureiro). Todos prontos. Dois gravemente feridos e o casal, ileso. Não demorou muito para que estivessem cercados por orcs, o cheiro de sangue e morte fora completamente dizimado, dando espaço ao odor natural daquelas criaturas imundas. Um longo combate fora travado, o ruído das espadas batendo em ossos, cortando braços, pernas e cabeças, os urros dos orcs, o baque que podia ser ouvido ao cair do corpo daquelas grotescas criaturas, o ultima grito de dor de um dos guerreiros, o crepitar da fogueira. O combate não podia parar; perderam um companheiro, mas restavam poucos orcs, o trio lutava com ira, acabaram de perder um companheiro importante, alguém que apenas queria voltar para casa, ter sua vida, ver seus filhos crescerem, queriam se vingar por isso . Não demorou muito e outro grito de dor ecoou pela floresta, outro guerreiro que estava gravemente ferido estava morto, já amanhecera, os raios de sol penetravam as árvores, o casal ainda estava de pé, das dezenas de orcs, restaram apenas 4, aquele combate havia acabado, em questão de minutos, os 4 orcs estavam inertes.

Enterraram os corpos de seus companheiros de arma, nesse momento, eles estariam em Valhala, se foram lutando, morreram com honra, poderiam olhar por seus familiares de onde estivessem.

Embora estivessem exaustos, o casal caminhou, saíram da floresta, encontraram um riacho, descansaram um pouco, o sol estava a pino, não tiraram as armaduras (talvez houvesse um porquê), apenas as limparam rapidamente, se livraram daquele cheiro de morte... Continuaram a caminhada.

Durante a caminhada, o casal trocava olhares, beijos, palavras de afeto, não seria possível encontrar um casal mais apaixonado do que esse em todo o mundo. Eles estavam juntos, e isso seria para sempre!

Ao longe, uma árvore. Caminharam até ela e finalmente se sentaram para descansar.

Ambos sentados à sombra da árvore, vendo alem do campo, belas montanhas e no seu topo neve, viam a maravilha do que lhes cercavam, e ao longe orcs fedorentos, correndo em suas direções, um bravo guerreiro falar para sua linda companheira de arma, uma majestosa combatente: “Hoje será mais um dia de batalha! Não vemos a calmaria há dias...” e ela respondeu da forma mais suave possível: “Fétidos oponentes não derramarão nosso sangue.”. Mas eles sabiam, estavam cansados, há pouco haviam lutado, havia alguns ferimentos embaixo das armaduras reluzentes, sabiam que se não demonstrassem dor um ao outro, não veria o seu amado e sua amada preocupado/a, então apenas lutavam, e ao final de cada batalha se amavam, talvez hoje fosse diferente, não sabiam, e foi. Levantaram e se postaram em guarda, um olhando para o outro e em seguida olhavam para aqueles bichos grotescos correndo em sua direção, Eles se amavam, e nada importaria se ambos estivessem juntos, e estavam! Foram cercados pelas dezenas, então lutaram, lutaram um de costa para o outro, eles queriam se amar, mais não podiam, então apenas lutavam... Matavam vários, mais nunca acabavam... Tiveram a certeza que aquela poderia ser a ultima luta, mas estavam juntos e morrer com honra é o que todos aventureiros como eles queriam, mas fizeram de tudo para ter um o amor do outro, uma ultima vez, era impossível, eles só tinham as espadas em mãos e nem se quer podiam se olhar. Gritaram com todo o fôlego e avançaram em estocada nos últimos vermes vivos, Ela parecia uma bailaria com sua espada, girava, cortava cabeças, decepava braços, atravessa estômagos, Ele só pensava em acabar logo pra tê-la nos braços... Ele ouviu um grito, era um urro de seu amor, era Ela de joelhos cercada por 3 orcs, num grito de fúria ele decepou 2 dos últimos que o cercava, e correu até ela, ele viu tudo, viu como se o tempo parasse, era terrível, ele só queria chegar até ela, via enquanto corria aqueles 3, desferiam golpes sobre ela, ... Mataram-na, escorria lagrimas de seus olhos, no meio da corrida largara sua espada pra chegar mais rápido, mas nada ele podia, ela estava morta... Ele chegou, e não precisara de espada para destruir aqueles três, seus punhos nem doíam, Ele apenas batia, batia como se toda a ira dos deuses estivesse com ele, e estava.. Matou todos eles, e fora direto para segurar tua amada já morta, ele chorava, chorava, pois via teu amor sem vida, Ele não conseguiria viver sem ela, jamais viveria. Morreu, matou-se, queria estar com ela no reino dos deuses, e esteve! 
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Atualizado em: Seg 11 Mar 2013

Comentários  

#4 PauloJose 19-10-2013 13:14
crônica muito linda .
parabéns.
#3 PauloJose 27-04-2013 07:08
muito bom parabéns!
abraços.
+1 #2 PauloJose 13-03-2013 23:05
parabéns estrelei
abraços.
+1 #1 PauloJose 12-03-2013 19:35
nossa bem elaborado!
um amor infinito.
abraços.

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