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Mestres do Poder - Prólogo

Por centenas de anos, os demônios de magma mantiveram-se escondidos dos humanos, mantendo seu covil muito bem protegido dentro do vulcão Msur,no deserto de Maarus.Maarus possuía um espesso solo vulcânico com a superfície decorada por um misto de lava e rochas manchadas com o sangue de vários inimigos derrotados aos seus pés.  Os destroços e carcaças ali existentes eram constantemente renovados pelos aventureiros que se dispunham a visitá-lo sem qualquer aviso. Rochas flamejantes eram frequentemente lançadas de seu interior, demonstrando que Msur  ainda se encontrava em plena atividade. Enormes fendas abrem-se continuamente naquele já tão devastado terreno,  convidando a  quem se atrever a visitá-las a conhecer o  verdadeiro inferno.  No ar paira o fúnebre cheiro da deliciosa mistura entre enxofre e sangue deixado pelos últimos mortais que lhe tocaram o solo.

Próximo dali encontra-se Hamirt,um pequeno vilarejo com pouco mais de algumas dezenas de habitantes, que sobrevive das poucas visitas de comerciantes e peregrinos que raramente abastecem o centro comercial de Tarmyc ou mesmo motivados pelo conhecido torneio de lutas na taberna local.

Como era desejado por Nacrak,o cruel demônio-rei de Msur, os humanos jamais suspeitaram de sua presença, o que garantia que eles pudessem fazer seus rituais para trazer Hurmac de volta de sua prisão astral sem interrupções. E, claro, a segurança deles mesmos.Haviam também demônios desordeiros que, mesmo advertidos pelo próprio Rei, se atreviam a ir até o local e se divertiam possuindo os corpos humanos, forçando-os a cometerem atrocidades. Horas, ou até mesmo dias depois, abandonavam seu brinquedinho desgastado em algum canto qualquer, se achando satisfeitos. Outros, ainda mais ousados, dilaceravam um ou outro moribundo, apenas para manter sua sede de sangue sempre saciada. Não se preocupavam sequer em esconder suas vítimas ou encobrir suas pistas, por puro prazer de desobedecer às ordens do rei. Ou talvez fosse apenas pelo fato de que o sumiço de pessoas estava se tornando algo um tanto comum nos últimos meses...   Assim, muitas pessoas do vilarejo eram dadas como mortas por algum animal que estivesse vagando pela noite do deserto, levadas como prisioneiros de guerra em alguma batalha nas proximidades para defender o vilarejo ou ainda morriam na própria taberna da vila, por envolverem-se em brigas e acertos de contas, causados pelo uso abusivo da famosa cerveja do local.  Alguns chegavam a dizer que o taberneiro colocava algo na bebida dos lutadores para viciá-los e manter sua freqüência, de modo que a casa estivesse sempre cheia. Mas ninguém pode dizer como certo. E ainda havia os que simplesmente abandonavam o vilarejo atrás do sonho de alguma riqueza fácil, ludibriados por algum canastrão.

Corpos desconhecidos eram saqueados e abandonados. Ou serviam como comida para os habitantes de Maarus.

Tallgat,primogênito de Nacrak, costumava disfarçar-se de humano para ir ate Hamirt  algumas noites para lutar nos rústicos torneios que eram proporcionados diariamente na taberna local. Isso  permitia aos guerreiros aprimorar seu combate corpo-a-corpo, além de manter seu  vício por adrenalina.

Para que pudesse participar,Tallgat deveria aparentar uma forma humana não muito chamativa, porém forte o suficiente para poder encobrir seu corpo demoníaco, impossibilitando que os humanos suspeitassem de quem realmente era. Isso tornou achar a forma adequada um tanto trabalhoso.

Foram necessários alguns anos se passarem até que finalmente Tallgat  encontrasse um rapaz grande e moreno, de cabelos longos e estrutura corpolenta, que havia sido morto em uma emboscada à um grupo de vendedores de armas que seguia para Hamark.Este após ter seu corpo curado em seus rituaís de magia, lhe serviu perfeitamente.

Enfim sua busca por uma forma humana conveniente terminara, e ele pode se misturar e divertir-se nos combates desde então. 

Mas os torneios eram fáceis demais, com oponentes débeis e fracos que mais se importavam em se embebedar do que em lutar.Tallgat nunca fora vencido.  Conquistava sempre as poucas moedas de ouro dadas como prêmio ao vencedor, e tinha como regalia, comida e bebida à vontade por conta da casa. Em algumas noites usava seu prêmio para se deliciar com as jovens donzelas e seus corpos exuberantes no prostíbulo local, pois adorava o toque suave das mulheres humanas e seu perfume adocicado.

Certa noite, desmotivado pela extrema facilidade com que vencia seus adversários,Tallgat permitiu-se mais do que deveria no vinho e nas canecas de cerveja grátis, extrapolando em muito o teor de álcool que seu corpo humano poderia agüentar. Ainda assim, estava decidido a continuar lutando e prolongando as lutas o máximo que conseguia, para que talvez algum humano desse um pouco mais de trabalho para ser vencido. Mas claro, não esperava nenhum adversário à altura.

Kalthar, um guerreiro humano recém-chegado ao vilarejo, observava atentamente as lutas da noite. Trajava uma armadura de couro simples, adequada para relaxar um pouco. Pensava consigo mesmo que nenhum daqueles vermes moribundos da taberna nunca sequer teriam imaginado o que seria uma luta de verdade... Não tinham técnica, força ou qualquer agilidade para desviar de golpes bem colocados. Seriam simplesmente destroçados em uma luta pra valer. Quando Kalthar viu que o último adversário fora derrotado e não havia mais interessados em desafiar Tallgat, viu-se entusiasmado e decidiu que seria interessante participar do torneio daquela noite. Achou que seria uma boa forma de preencher o vazio de horas até o amanhecer, e que não faria mal algum praticar um pouco de luta.  Acabara de concluir uma missão que há muito lhe fora incumbida e poderia se divertir  um pouco finalmente. Como bom guerreiro que era, praticar um pouco de luta desarmado seria um ótimo passatempo. Mesmo porque viajar a noite pelo deserto de Maarus não era nada recomendável.  Seria um caminho longo demais até Tarmyc, o próximo vilarejo da região, e nesse percurso poderia haver muitos problemas que evitaria se permanecesse ali.

Tallgat ficou extasiado em poder duelar com um novo oponente. Fitou Kalthar durante vários minutos durante a noite, mas não esperava que um forasteiro tivesse audácia suficiente para desafiar o campeão de um torneio conhecido nas redondezas.

Kalthar Subiu então até o local reservado para a luta, afastando o último oponente vencido para um canto, de modo que não os atrapalhasse. Começaram entao a se estudar por alguns minutos, sem pressa.Kalthar lançava olhares atentos emTallgat, mas não conseguia uma mínima pista de algum ponto fraco. Tudo que precisavam era lutar.

Kalthar decidiu iniciar a luta com um soco rápido de direita, que foi parado por Tallgat sem dificuldade, e prontamente contra-atacou com duros golpes em sequência em seu torso.Tallgat tinha excelente esquiva e era muito rápido.Kalthar era forte, mas lento comparado ao adversário. Ambos desferiam bons golpes um ao outro,  e se lançavam sobre tudo ao redor,  destruindo inclusive algumas mesas e um bom pedaço do bar. A Luta seguiu por vários minutos, até que Kalthar conseguiu aproveitar um breve momento de distração de Tallgat e aplicou uma seqüência de golpes muito bem colocados em seu corpulento e embriagado adversário, causando-lhe uma tontura momentânea,  mas suficiente para derrubá-lo com um bom pontapé em seu peito.

Pelas Regras do bar, se qualquer um dos oponentes tocasse o chão, seria considerado derrotado.Kalthar ficou muito animado com a vitória sobre Tallgat que era invicto naquele torneio desde a primeira noite que começou a participar.  Não pelo prêmio, mas pela sensação incrível de vencer um oponente tão formidável, e de tamanha fama por todos os vilarejos próximos.

Isso era por si só, um grande prêmio.

Por um breve momento,Tallgat se viu estirado no chão de madeira sem conseguir entender o que tinha acontecido, ou o que o levara a queda. Com os olhos ainda um pouco embaçados, deparou-se com a visão de Kalthar em comemoração, e se lembrou. O rosto iluminado de felicidade do guerreiro enfureceu-o de tal forma, que Tallgat perdeu totalmente o controle de seu disfarce, retornando à sua forma original diante dos olhos de todos que ali se encontravam.

Em seu corpo começaram a surgir escamas negras, de formas e tamanhos variados, em tom vermelho-amarelado que lembravam o solo vulcânico de seu lar. Grossos canais emergiam por todo o corpo, como se a própria lava vulcânica pulsasse em suas veias. As mãos se retorceram em garras alongadas e  negras. Seus dentes tornaram-se pontiagos e afiados como navalhas amareladas. Seu pequeno rosto humano pareceu ser sugado para dentro de um crânio gigantesco com dois enormes chifres pontiagudos retorcidos para trás.  Seu tórax aumentou duas vezes de tamanho,  e o seu corpo  inchava com tamanha força e velocidade, que as vestes humanas rasgavam-se como papel. Atrás de si, surgiu uma cauda, de um metro e meio, com a ponta amassada, completando a metamorfose.

Espantado diante de tal aberração,Kalthar encontrou-se paralisado por alguns segundos, observando tudo atentamente. Ciente que não conseguiria vencer seu adversário sem o equipamento e armadura adequados, achou que o melhor a fazer seria partir em busca dos seus companheiros e avisá-los do acontecido. Hamyrt não era mais um local seguro e eles ainda tinham uma entrega a fazer. Deveriam seguir logo seu caminho. 

Dois guardas do vilarejo, que estavam fazendo a ronda da noite, viram toda a cena pela janela, e rapidamente lançaram-se contra Tallgat de espadas em punho.

Porém, com sua forma original, voltavam também seus poderes, e com um simples manejo de suas garras e um balbuciar mágico,Tallgat fez com que a Taberna explodisse em chamas.  O momento da explosão lançou os dois guardas para fora da Taberna, sem que conseguissem ao menos chegar perto do monstro, causando grande impacto nas estruturas do local. Algumas partes do teto e das paredes caíram sobre as pessoas do lugar, esmagando-as e espalhando seu sangue por todo o local que se incendiava.

Com mais alguns manejos e dizeres de Tallgat, corpos foram lançados pela Taberna totalmente destroçados; e outros, arremetidos contra mesas, janelas e bases de madeira que firmavam o teto. Pedaços de mesas e cadeiras fincavam-se nos corpos desprovidos de qualquer proteção de seus hospedeiros. Um cheiro de carne queimada pairava na então enfumaçada taberna, sufocando rapidamente os pulmões dos que estavam em seu interior. 

Logo havia vários corpos espalhados pelo chão e por toda taberna que já os consumia em suas chamas. Os  sobreviventes da explosão lutavam desesperadamente contra aquele ser monstruoso, mas eram facilmente dilacerados por suas garras poderosas ou tinham suas gargantas esburacadas ferozmente por suas mandíbulas afiadas. 

Aproveitando a confusão,Howard, o taberneiro, tocou o alarme alertando aos outros guardas do vilarejo que havia algo de errado...Tallgat sabia que quando estes chegassem, não conseguiria resistir por muito tempo preso ali dentro.

Fora da taberna, todas as casas do vilarejo procuravam conhecer o significado do alarme que nunca fora usado antes. Defrontaram-se então com as chamas que se elevavam da taberna e contemplaram suas labaredas rasgando a noite até onde conseguiam queimar.

Minutos depois,Tallgat sairia arrebentando a porta principal da taberna com sua fúria devastadora.

Foi então que todos os habitantes de Hamirt o conheceram. 

Tallgat  fora surpreendido por um grupo de guardas que vieram atender ao chamado do alarme, mas que ainda eram muito despreparados para conseguir formar um ataque preciso à besta. Isso  permitiu com que com um bom manejo de sua forte cauda, Tallgat conseguisse derrubá-los e sair em disparada na escuridão da noite de volta  à Msur.

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Atualizado em: Qui 22 Jan 2015

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