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O Grito Além da Ruas

O Grito além das ruas ---Entrevista à revista Clube eu Gosto, número XI -Out/Nov/Dez 2013

 

 

“A sociedade brasileira está vivendo profundas mudanças desde o início da redemocratização, em 1985.Meus alunos nasceram no finaldo século XX, tudo para eles era história, apenas nos livros. Agora eles se tornaram os protagonistas desse momento.”Claudio Terezo

 

 

Elas começaram no mês de julho e sacudiramo país. A onda de manifestações que tomou conta do Brasil exigindo maior atenção para questões como saúde, educação, transporte, segurança pública e moralidade napolítica também chegou à sala de aula. Escolas e professores tentam explicar aos alunos esse importante período da históriado Brasil e que, provavelmente, será tema de redações dos diversos exames classificatórios desse ano. Para o professor, fica aí uma grande chance de trabalhar conceitos como democracia, participação popular, a função da Polícia Militar na sociedade, consciências políticas, termos até então vistos somentede forma teórica em aula. Muitos professores receberam essa demanda diretamente dos alunos, que participaram e foram para as ruas, curiosos para entendere tomar posição sobreos assuntos. O docente tem papel fundamental nessa construção da consciência política e dos direitos do cidadão. Para a professora de redaçãoda Escola Tarsila do Amaral, Arlete Fonseca, não há como ignorar as manifestaçõese não trabalhar o tema em classe. “É dever doeducador fazer com que o aluno reflita sobre a situação,estimulando seu senso crítico, sem tomar partido para nenhum dos lados”, explica. “Durante as aulas de redação, fiz com que os alunos lessem jornais, revistas e textos da internet para que entendessem como cada veículo tratava do tema. Depois trabalhei alguns gêneros textuais e o resultado foiótimo”, relata a professora. Arlete acredita que omodo como as pessoas e principalmente os jovensse comunicaram para promovera mobilização também é um importante tema para ser trabalhado. “Os manifestos foram marcados pelas redes sociais; isso significa que um novo meio de comunicação de massa está totalmente disponívelpara servir seus usuários. Trabalhei aulas inteiras sobrea responsabilidade daspostagens e do compartilhamentodos vídeos envolvendoa PM”, diz.

O professor de Geografia,Claudio Terezo, também abordou o tema com sua turma do nono ano do ensino fundamental. Ele dá aulas na Escola Estadual São Paulo da Cruz, em Osasco na grande São Paulo, e acha que esse processo vai contribuirmuito para a formação de um cidadão mais crítico.“A sociedade brasileira está vivendo profundas mudanças desde o início da redemocratização,em 1985. Meus alunos nasceram no final do século XX; tudo paraeles era história, apenas nos livros. Agora eles setornaram os protagonistas desse momento”, explica.

Os exercícios propostos em sala pelo professor também foram bem interessantes. Começaram com uma redação envolvendo conceitos como manifestação,revolução, protesto, cidadaniae sociedade. Depois, a classe foi dividida em dois grupos: um representava a classe política brasileira, defendendo posições; outro , a sociedade, os manifestantes.“Depois das ideias colocadas no papel, analisamosas informações veiculada spela mídia e tudo foi discutido em sala de aula”, diz oprofessor.“Alguns alunos que participaram das manifestações relataram cenas que não apareceram nos telejornais e isso enriqueceua aula. Conseguimos trazer o ambiente das ruas para dentro da sala”, conta ele.“Um aluno até nos relatou aagressão sofrida por seu tio, atingido por uma bala de borracha”, finalizaTerezo.

Tudo indica que essa ondade protestos no Brasil deve mesmo alavancar o assunto nas provas desse ano. Segundo alguns professores ouvidos pela reportagem,as redações podem não só abordar a questão, mas relacioná-las com eventos similares como as “Diretas Já”,“Revolução Francesa”, a manifestação na “Praça da PazCelestial” e a recente “PrimaveraÁrabe”. Os educadores acham que a ação das ruas ainda não tem um desfecho, o que pode dificultar as análises; por isso, perguntas diretas podem não aparecer nos principais vestibulares. Mas talvez, algumas consequências concretas já podem ser citadas, como arevogação do aumento das tarifas do transporte público em algumas capitais e a derrubadada PEC 37, que tentavalimitar o poder de investigaçãodo Ministério Público,bem como a lei que transformou corrupção em crime hediondo. Aos professores ficamos bons exemplos de docentes preocupados não só em fixar os fatos históricos mas sobretudo, empenhados em formar um cidadão mais crítico, exigente quanto aosserviços públicos prestados eengajado em causas sociais. O efeito das manifestações nas redes sociais e da internet. Desde o início dos protestos, os murais das redes sociais mudaram de figura. As fofocas e curiosidades da vida alheia, comuns entres os participantes, deram lugar a discussões sobre a política e o futuro do país. Os temas que ganharam espaço nas redes sociais foram parar nas ruas. “A partir de uma página na rede social conseguimos movimentar o país inteiro criando um evento”,diz o estudante Lucas Maia,que participou das manifestações.“É bacana ver que de um meio de comunicação como o Facebook, por exemplo, o povo consegue se reunir, ir até as ruas e protestarpor valores e novas ideias”, completa.Para a educadora MárciaHipólide, ser instigado pelos alunos é fundamental paraque o professor trabalhe o tema em sala. Segundo ela, as manifestações foram organizadas a partir das redes sociais, espaços totalmente ocupados pelos alunos, portanto,há uma identidade absolutadeles com o assunto. É papel do docente estudar eentrar em contato sistemático com todas as análises que estão sendo feitas pordiversas mídias e mergulhar nesse espaço dominado por eles”, diz. Outro cuidado queo professor deve ter, segundo ela, é o de não fechar aquestão, não introduzir conclusões, mas estimular o debate oferecendo diferentes pontos de vista.

E para quem acha que otema é exclusivo para professores de história, geografia ou redação trabalharem em sala, veja o que feza professora de inglês, Livia Mandarino. No seu blog, Ateacher´s impressions, ela colocou um post chamado Como trabalhar as manifestaçõesem sala de aula, no qual opina sobre como lidar com o tema em sala, sugerindo reflexões importantes:o que esses protestos acarretam?; Eu tambémdevo protestar?  Qual aminha opinião sobre isso;e Por que os governantes reduziram as tarifas? Pensando diretamente nas aulas de inglês, ela sugeriu que os professores aproveitassem o vocabulário vasto sobre o assunto paramotivar debates e artigosde opinião. “Em atividades assim, o aluno trabalha a argumentação, a escrita e aumenta seu conhecimento em palavras novas e atuais”, diz a professoraem seu blog. Ela sugere atéalgumas dessas palavras,como Crowds, public transport,government, people,protest, mayor, corruption,entre outras. Por fim, Lívia propõe que sejam lidos os jornais e sites estrangeiroscomo o The New York Times, Newsweek online e o portalda BBC.FOTO S: Gustavo de GaspariEstudantes preparam cartazes antes da manifestação em São PauloEstudantes nas ruasMarginal Pinheiros é tomada por manifestantes.

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Atualizado em: Seg 3 Mar 2014

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