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SOMBRAS DO PASSADO

PERSONAGENS:

LUCAS

VIVIANE

RODRIGO

GUSTAVO

ALICE

ADELAIDE

CAROL

RENATA

ÉPOCA: Atual

CENÁRIO: Dois ambientes: o casarão de Lucas e a casa de Rodrigo. Ao fundo do palco, um plano mais elevado. No casarão é o quarto de Lucas. Na casa de Rodrigo, o quarto de seus pais. Neste plano está uma cama de casal que permanecerá fixa até o final do espetáculo. Uma escada central conduz para esse plano. No casarão, os móveis são bem rústicos. Fica à critério da direção a divisão da sala e cozinha. Um box ao fundo do palco, do lado direito, no plano superior. Na casa de Rodrigo, um sofá, uma mesinha e uma escrivaninha à direita central. Esse cenário deverá ser luxuoso para contrastar com o casarão de Lucas. Nas mudanças de cenários, que ocorrem em duas cenas, os próprios atores podem tirar e pôr os mesmos com coreografias de "street-dance". Em último caso, um grupo de bailarinos deverão compor o elenco do espetáculo. Mas isso, fica a cargo da direção.

CENA 1

(TREVAS. OUVIMOS NO ÁUDIO RUIDOS DE TROVÕES. LUZ SOBE EM RESISTÊNCIA REVELANDO UM ESPAÇO CÊNICO LIMPO. O FORTE CLARÃO DO RAIO INESPERADAMENTE RASGA O CÉU. É NOITE. A CHUVA COMEÇA A CAIR FORTEMENTE. ENTRA EM CENA UMA GAROTA. PROCURA UM ABRIGO PARA SE ESCONDER. PASSA UM ÔNIBUS. ELA ACENA, MAS O ÔNIBUS SEGUE SEU DESTINO. ELA XINGA. A CHUVA AUMENTA E CHICOTEIA O SEU ROSTO. UM CARRO EM ALTA VELOCIDADE PASSA NUMA POÇA D'ÁGUA E ENCHARCA A GAROTA. ELA FICA FURIOSA. LOGO EM SEGUIDA, CAMINHA MAIS UM POUCO ATÉ ENCONTRAR UM VELHO CASARÃO. AO CHEGAR LÁ, PERCEBE QUE A PORTA ESTÁ ABERTA. ENTRA. LUZ SOBE EM RESISTÊNCIA REVELANDO UM AMBIENTE BAGUNÇADO: ROUPAS PENDURADAS EM UM VARAL IMPROVISADO, PAPÉIS ESPALHADOS POR TODO O CANTO, ETC. A GAROTA SENTA-SE NUMA CADEIRA, TIRA O TÊNIS E TORCE SUA CAMISETA. ELA FICA OLHANDO PARA VER SE APARECE ALGUÉM E SE ASSUSTA QUANDO VÊ UM RAPAZ SAINDO DE UM DOS CÔMODOS.)

VIVIANE - Eu tava me escondendo da chuva e só entrei porque encontrei a porta aberta...

LUCAS - Não costumo fechar a porta.

VIVIANE - Desculpa pela invasão. Foi mal, vou nessa! (FAZ MENÇÃO DE SAIR)

LUCAS - Que é isso?! Pode ficar aí o tempo que quiser. Seja bem-vinda ao meu bunker.

VIVIANE - Obrigada. (ESPIRRA) LUCAS - Vou descolar uma roupa seca pra você.

VIVIANE - Não precisa se preocupar.

LUCAS - Claro que precisa. Você pode ficar doente... (PEGA NO VARAL UM BERMUDÃO E UMA CAMISETA) Tá na mão. (ENTREGA-LHE A ROUPA E FICA OLHANDO PARA A MENINA. VIVIANE FICA UM POUCO CONSTRANGIDA POR TROCAR DE ROUPA NA FRENTE DELE. LUCAS SE TOCA) Ah, o banheiro fica ali. (APONTA)

(VIVIANE ENTRA NO BANHEIRO. LUCAS CAMINHA ATÉ A COZINHA E PEGA UMA CHALEIRA QUE ESTÁ SOBRE UM FOGÃOZINHO DE DUAS BOCAS. LEVA-A ATÉ A MESA E DESPEJA O CHA EM UMA XÍCARA. VIVIANE SAI DO BANHEIRO. A ROUPA QUE USA É MUITO MAIOR DO QUE ELA. LUCAS RI)

VIVIANE - O que foi?

LUCAS - Você fica engraçada com essa roupa.

VIVIANE - (RI TAMBÉM) É. Eu sei.

LUCAS - (OFERECE-LHE O CHÁ) Toma o chá. Acabei de fazer.

VIVIANE - (SENTA-SE NA MESA E PEGA A XÍCARA) Valeu. (BEBE. PAUSA) Então aqui é o seu refúgio?

LUCAS - Pois é.

VIVIANE - Bacana. E você mora aonde?

LUCAS - Aqui.

VIVIANE - Sozinho?

LUCAS - Hum hum...

VIVIANE - Caraca. Pensei que fosse só um esconderijo mesmo. E não é ruim?

LUCAS - Tudo é questão de hábito.

VIVIANE - Mas e sua mãe, seu pai...

LUCAS - Minha mãe não tá mais aqui...

VIVIANE - Viajou?

LUCAS - Não. Morreu...

VIVIANE - Que foda... E seu pai?

LUCAS - Não conheci meu pai. Minha mãe era mãe solteira.

VIVIANE - (IRRITADA CONSIGO MESMA) Hoje só tô dando bola fora...

LUCAS - (AO PERCEBER QUE A GAROTA ESTÁ CHATEADA) Não fica assim... Adorei você ter tomado de assalto o meu bunker. Faz mó cara que eu não converso com ninguém, mó cota que não recebo uma visita...

VIVIANE - Você não tem amigos?

LUCAS - Já tive. Hoje, não tenho mais. Sou um outsider, saca?

VIVIANE - Por quê?

LUCAS - Por opção. Desde a morte da minha mãe, eu me fechei contra tudo e contra todos... Não acredito em mais nada!

VIVIANE - Mas a gente deve acreditar em alguma coisa...

LUCAS - Acreditar? Em quem? Em Deus? Nas pessoas? No mundo? Como posso acreditar nessas coisas, se não acredito nem em mim mesmo? Me diga?

VIVIANE - (REFLEXIVA) Isso é triste! Muito triste! (PAUSA) Estamos aqui conversando e nem me apresentei. Meu nome é Viviane. (ESTENDE AS MÃOS)

LUCAS - (APERTA CARINHOSAMENTE A MÃO DA GAROTA) Lucas...

VIVIANE - Você pode acreditar em mim, tá?

LUCAS - Que garantias você me dá?

VIVIANE - Como assim? Não entendi!

LUCAS - É que por confiar demais em algumas pessoas, eu sempre levei a pior... Você se entrega, faz tudo para quem confia, e quando você percebe, esta pessoa crava um punhal nas suas costas... Sacou? (ELA ACENA AFIRMATIVAMENTE COM A CABEÇA) Um pouco antes de você chegar, eu estava aqui na janela vendo a chuva cair na vidraça. Aí eu me lembrei da minha mãe... Quando ela morreu, o dia estava assim, cinzento... e chovia, como hoje... Ela estava em estado terminal... câncer. Já tinha dado metástase e não havia mais salvação... sessões intermináveis de quimioterapia e radioterapia para aliviar o seu sofrimento. Ela sabia que iria morrer. E eu não acreditava. Aliás eu nem tinha noção da gravidade da doença. A gente acha que nunca isso vai acontecer com a gente, né? Achava que ela iria sair daquela cama e voltar a viver. Foi um sofrimento do caralho! È foda ver a pessoa que você ama, minguando, gritando de dor e você não podendo fazer porra nenhuma. A vontade que eu tinha era de enfiar a mão dentro dela e arrancar o tumor com as unhas... Um pouco antes de morrer, ela me falou sobre meu pai; disse que depois de muitas juras de amor, deixou ela grávida de mim e não iria assumir a paternidade. Ai ela fugiu dele. E se ela escondeu a verdade durante esse tempo todo foi pra me proteger. E se ele não tinha sido homem o suficiente para assumir a responsabilidade, ela assumiria. Eu nasci, ela me criou e viemos morar neste casarão, que um conhecido dela alugou por um preço bastante acessível pra gente. Pouco depois ela morreu e não deixou nenhuma pista sobre o paradeiro dele. Fiquei pensando nisso o dia todo. (PAUSA) E por esse motivo deixei de acreditar nas pessoas... Entendeu agora?

VIVIANE - Eu vou te ajudar a sair dessa. (TIRA DO DEDO UM ANEL E ENTREGA-O A LUCAS) Fique com esse sol... A lua está no meu dedo. Quando olhar pro sol, pense que existe uma lua que irá aparecer no céu, e no dia seguinte, o sol voltará a brilhar... A chuva já passou, preciso ir agora. (TIRA UM CARTÃO DO BOLSO) Aqui está o meu telefone. Mas você não vai ficar livre de mim, não. Amanhã eu volto aqui pra devolver sua roupa e pra gente conversar mais. Gostei muito de te conhecer.

LUCAS - (SORRI) Eu também.

VIVIANE - Agora só espero conquistar tua confiança.

LUCAS - Se fizer por merecer, por que não?

VIVIANE - Até!

LUCAS - Até!

(VIVIANE E LUCAS SE ABRAÇAM AFETUOSAMENTE. VIVIANE BEIJA O ROSTO DO RAPAZ A GAROTA SAI. LUCAS ABRE UM SORRISO DE ORELHA A ORELHA. ENTRA NO BOX, TIRA A ROUPA, LIGA O CHUVEIRO E SE ENSABOA. ESSA CENA DEVERÁ TER UM RITMO BASTANTE ÁGIL. DESLIGA O CHUVEIRO E COMEÇA A SE VESTIR. ENQUANTO ISSO, NO PLANO BAIXO, ENTRA UM RAPAZ, AFLITO. PÁRA PARA TOMAR FÔLEGO, E AO VER A PORTA DO CASARÃO ABERTA, ENTRA DESESPERADO. FICA OLHANDO POR UMA FRESTA DA JANELA E SUSPIRA, ALIVIADO. LUCAS, VEM DO QUARTO)

LUCAS - Aconteceu alguma coisa, véi? O que que tá pegando?

RODRIGO - (VIRA-SE, NUM SUSTO) Uns malucos tavam me seguindo. Comecei a correr e eles correram também. Na certa era um assalto... Quando dobrei a esquina, vi a porta aberta e entrei pra me esconder. (TRÊMULO) Acho que consegui despistar os caras... Vou vazar...

LUCAS - Não é legal sair nesse estado... Você tá tremendo, truta.

RODRIGO - Foi o susto. Logo passa...

LUCAS - Dá um tempo aqui. Depois você dá área. Tu mora aqui na Santa Cecília?

RODRIGO - Não, na Vila Mariana... Eu vim fazer uns trabalhos na casa de um colega. Meu pai não pôde me buscar e eu tava indo pro metrô.

LUCAS - Pois agora que você não vai embora mesmo. Já é mais de meia-noite e o metrô já parou de funcionar... Fica aí, véi, de boa...

RODRIGO - Sei lá. Não queria te incomodar.

LUCAS - Que mané incomodar!!! Mas acho bom você telefonar para os seus pais avisando que vai dormir fora pra eles não ficarem preocupados...

RODRIGO - Você tem razão... Só não queria dar trabalho...

LUCAS - Ah, fica sussa... E não precisa ficar com medo, ouviu? Não sou nenhum psicopata assassino.

RODRIGO - Tá na cara que não...

LUCAS - Esse estilo aqui é mais uma fachada. Eu ando de preto pra me proteger, não pra atacar. (ESTENDE AS MÃOS) Prazer. Meu nome é Lucas.

RODRIGO - (ESTENDE A MÃO TAMBÉM E SE CUMPRIMENTAM) Rodrigo...

LUCAS - (DEPOIS DE UM TEMPO) Sabe que eu tenho a impressão de ter trombado contigo em algum lugar?

RODRIGO - (RI) Gozado, eu também!!! É, pode ser...

(BLACK-OUT)

CENA 2

(LUZ SOBE EM RESISTÊNCIA. O SOL COMEÇA A APARECER NO HORIZONTE. LUCAS E RODRIGO SAÍRAM E EM CENA ESTÃO VIVIANE, CAROL, SUA IRMÃ E RENATA, SUA AMIGA. ESTÃO COM CADERNOS E APOSTILAS DE CURSINHO)

RENATA - Ele mora sozinho, Viviane?

VIVIANE - Mora.

CAROL - (PEGA UMA CUECA DE LUCAS, QUE ESTÁ JOGADA NO CHÃO) É, da pra sacar mesmo. Essa casa está precisando de um toque feminino. Homem é foda, né? Relaxado pra caramba! Por isso eu prefiro ficar sozinha.

RENATA - (IRÔNICA) Quem diria, não? Contando, ninguém acredita. A Viviane, apaixonada.

VIVIANE - (IMPACIENTE) Não enche o saco, Renata!

CAROL - E por acaso, a gente tá falando alguma mentira, maninha? Não entra na minha cabeça, ainda. Não sei como você pode estar gamada por um cara assim... Ainda se fosse rico, tudo bem... Mas um pobretão que não tem nem onde cair morto?!... Fica na ilusão, queridinha... Sabe o que ele quer de você, Viviane? Uma trepada! Só isso... Os homens, minha filha, são todos iguais. Fingem estar apaixonados, a garota se ilude, depois vai pra cama com ele, vem uma trepadinha aqui, outra ali, e depois... tchau! Você já viveu essa experiência com o Renato, lembra?

VIVIANE - (DEFENDENDO LUCAS) Não compare o Lucas com o Renato. O Lucas é diferente...

CAROL - (VENENOSA) As pessoas nem sempre são como a gente pensa, Viviane... Você, por exemplo. Quem iria imaginar que você, com essa carinha tão angelical, tivesse um passado tão negro?

VIVIANE - Não começa!!!!

CAROL - Ele sabe que você engravidou e que depois de tomar um chute do Renato, você abortou?

VIVIANE - Pára! Não quero falar mais disso...

CAROL - Ficou traumatizada, né? Eu lembro da sua reação quando viu o feto no vaso sanitário.

VIVIANE - Chega!

RENATA - Ah, como o amor é um sentimento medíocre. Deixa as pessoas cegas!

VIVIANE - Saiam daqui...

CAROL - Tô te estranhando, bonequinha!

RENATA - (DEBOCHA) É o amor!!! (AS DUAS CAEM NA GARGALHADA)

CAROL - Nem parece a Viviane que eu conheci...

VIVIANE - Essa não existe mais...

CAROL - Quanto clichê!

VIVIANE - Se vocês não saírem...

RENATA - Por quê? Tá com medo que o babaca apareça e descubra a sua verdadeira identidade?

CAROL - A gente pode contar tudo...

RENATA - Nos mínimos detalhes...

VIVIANE - (GRITANDO) Saiam...

CAROL - Ok, você venceu! Mas fica esperta. A verdade poderá vir à tona a qualquer momento e aí... você já sabe... era uma vez um conto de fadas...

RENATA - Ou seria um conto de fodas?... (RI) Fica aí esperando o babaca, fica.

CAROL - (ZOMBANDO) Era uma vez uma linda princesa chamada Viviane, que depois de tomar um chute do seu príncipe encantado que a deixou com um filho na barriga, entrou em desespero e com uma seringa de lavagem fez um aborto... A princesa Viviane, desejando regenerar-se, encontra-se com um sapo chamado Lucas, ambos se apaixonam, se casam e vivem felizes para sempre... (RI) Que história batida, maninha... Bye, bye!!!

(SAEM. VIVIANE PERMANECE IMÓVEL POR ALGUM TEMPO. UMA LÁGRIMA ESCORRE PELO SEU ROSTO. LENTAMENTE CAMINHA EM DIREÇÃO DA PORTA E SAI)

CENA 3

(ENTRAM LUCAS E RODRIGO COM EMBRULHO DE PÃO, FRIOS E LEITE. SENTAM-SE NA MESA E COMEÇAM A DESEMBRULHAR OS PACOTES. FAZEM O LANCHE. DURANTE A REFEIÇÃO, RODRIGO ENCONTRA NO CHÃO UM ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS. PEGA-O E FICA OLHANDO PARA AS FOTOS)

RODRIGO - Nossa, Lucas, sua mãe era uma gata, hein?

LUCAS - Era. E apaixonada pela vida... Agora, nada mais restou. Só lembranças...

RODRIGO - Não fica assim, cara.

LUCAS - Falar é fácil, falar é fácil... Eu me sinto tão sozinho... Me dá uma angústia terrível. Meu coração fica tão pequeno dentro do peito e sobe uma tristeza tão grande que só passa depois que eu choro...

RODRIGO - Sim, chorar faz bem, alivia.

LUCAS - Mas não choro só por ela, não... Choro pelo meu pai... eu sinto tanto a falta dele, cara... Como eu ficava triste quando via os pais dos meus amigos jogando bola com eles... E o meu não tava lá pra jogar comigo.

RODRIGO - É foda. (PAUSA) Agora vê se anima um pouco, vai. Melhora essa cara.

LUCAS - (OLHA PARA O ANEL) Viviane!!!

RODRIGO - Quem?

LUCAS - Uma garota que eu conheci... Ela entrou aí pra fugir da chuva, a gente começou a conversar, papo vai, papo vem, a gente se olhando, e quando fui ver, (MENTE) tava beijando a garota... Tô gamadaço, véi.

RODRIGO - É isso aí, vai fundo, garoto. Só tome cuidado pra não quebrar a cara. (OLHANDO PARA O RELÓGIO) Bem, preciso passar em casa e depois ir pro colégio. Obrigado por tudo, mano... Se pá, mais tarde eu dou um pulo aqui.

LUCAS - Venha mesmo, truta... Falou...

(RODRIGO SAI. LUCAS FICA PENSATIVO)

LUCAS - Oh, Rodrigo, como eu queria ser você por um dia só pra saber qual é a sensação de ter um pai... Seu pai deve ser gente fina pra caralho, né?! Eu acho o meu não deveria ser assim como minha mãe dizia. Ah, sei lá... talvez fosse orgulho ferido, quem sabe? O que sei é que não vou sossegar enquanto não te encontrar, pai. Nem que eu leve a minha vida inteira pra isso! (CHORA)

VIVIANE - (ENTRANDO) Lucas, você tá aí?

LUCAS - (SE ASSUSTA E ENXUGA AS LÁGRIMAS RAPIDAMENTE) Tô aqui no quarto, Viviane...

VIVIANE - (VAI ATÉ ELE) Vim devolver sua roupa... (OLHA BEM PARA ELE) O que é isso? Tá chorando? O que aconteceu?

LUCAS - (TENTA DISFARÇAR) Não foi nada.

VIVIANE - O que você está me escondendo, Lucas?

LUCAS- Nada!

VIVIANE - Sei que tá escondendo alguma coisa... Tá fazendo isso por quê?

LUCAS - (PERTURBADO) Não leva a mal, não. Mas me deixa um pouco sozinho... Eu preciso ficar sozinho. Volte outra hora!

VIVIANE - Eu só saio daqui depois que você se abrir comigo e contar o que tá acontecendo.

LUCAS - Me deixa em paz... Vá embora!

VIVIANE - Já disse que só saio depois que você se abrir comigo.

LUCAS - (EXPLODE) Sai daqui Viviane, que eu não quero perder a cabeça... Eu não quero ser grosso com você, porra!

VIVIANE - Então é assim? Eu venho aqui com a melhor das intenções e você me recebe dessa maneira?

LUCAS - Pro inferno você e suas melhores intenções...

VIVIANE - Você não é especial como achei que fosse porcaria nenhuma. Fica aí, recluso neste casarão mal-assombrado, conversando com seus fantasmas. É a sua cara. Tchau, Lucas... Esqueça que eu existo... (SAINDO) Grosseirão!

LUCAS - (SEGURA A GAROTA, ARREPENDIDO) Desculpa, eu não queria ter falado assim com você.

VIVIANE - É. Mas falou.

LUCAS - (BUSCA PALAVRAS) Eu tô perdido, tô confuso... eu nunca senti isso antes... Viviane, eu tô apaixonado por você...

VIVIANE - Apaixonado... essa é boa! Paixão e tesão são coisas muito diferentes. É melhor terminar aquilo que nem começou.

LUCAS - Já perdi muita coisa nesta vida. Você eu não quero perder... me dá uma chance. Uma só...

VIVIANE - (DEPOIS DE UM TEMPO, ACABA CEDENDO) Dou, sim... Vamos começar do zero, nós dois. Vamos apagar o passado e viver o presente. Passado e futuro não existem... Até hoje, você foi o único homem que fez minha vida virar ao avesso...

(O FOGO CONSOME A AMBOS. SE ENTREGAM NUM LONGO E APAIXONADO BEIJO)

CENA 4

(MUDANÇA DE CENÁRIO. OS ATORES E/OU BAILARINOS TIRAM TODOS OS CAIXOTES DO CASARÃO DE LUCAS, COLOCANDO UM NOVO CENÁRIO: O DA CASA DE RODRIGO. ESSA CENA DEVERÁ SER FEITA USANDO COREOGRAFIAS DE "STREET DANCE". MUDA LUZ. GUSTAVO, PAI DE RODRIGO, ESTÁ SENTADO NO SOFÁ. O SEU ROSTO É MARCADO PELO SOFRIMENTO. OLHA PARA UMA FOTO. QUASE CHORA. ENTRA ALICE, SUA MULHER, QUE O OBSERVA POR UM BOM TEMPO. EM SEGUIDA, CAMINHA ATÉ O MARIDO E TIRA A FOTO DA SUA MÃO)

ALICE - Relembrando o passado, Gustavo? (REAÇÃO DE GUSTAVO) Imagino como você se sentiu depois que "ela" te abandonou. Mas ficar aí, remoendo essas lembranças? Por quê?

GUSTAVO - (COM UM FIO DE VOZ) Porque ela estava grávida.

ALICE - Grávida?

GUSTAVO - É. Grávida.

ALICE - Por que você nunca me contou isso, Gustavo?

GUSTAVO - E que importância tinha? Se você não me questionasse, não ficaria sabendo. Se eu abri o jogo com você agora é porque sei que o nosso relacionamento está alicerçado em bases sólidas... que esta foto faz parte do meu passado e que nada neste mundo é capaz de separar a gente.

ALICE - Será que não? Como você pode ter tanta certeza?

GUSTAVO - Eu sei... sinto...

ALICE - E o que você fez pra que ela agisse dessa maneira?

GUSTAVO - Uma vez ela me perguntou se eu queria ter um filho... E eu respondi que naquele momento eu não queria, porque estava prestes a subir de cargo na empresa e que para ter um filho eu precisava estar bem economicamente... Naquele tempo eu não tinha nada, era um moleque recém-formado e entrando no mercado de trabalho. Depois, quando fui procurá-la, ela havia se mudado do apartamento sem me dizer nada... Mais tarde, ela me escreveu uma carta explicando que tinha me abandonado porque estava grávida e não queria que eu rejeitasse a criança. Mas eu juro pra você, Alice, que se ela tivesse aberto o jogo comigo, eu não iria rejeitar meu filho. Nós éramos muito jovens, mas eu assumiria a paternidade... Depois disso, nunca mais recebi nenhuma notícia dela. E hoje, 19 anos depois, não sei se ela está viva ou morta, não sei sobre o paradeiro da criança... Não sei de absolutamente nada...

ALICE - Gustavo, me responda com toda a sinceridade. Você me ama?

GUSTAVO - Muito. Eu sou muito grato à você por ter me tirado da depressão. E mais grato ainda porque você me deu um filho lindo que está entre as coisas que mais amo nesse mundo

ALICE - Você tá confundindo amor com gratidão... Não é isso que eu quero saber... Eu quero saber se você me ama ou se eu fui apenas um objeto para fazê-lo esquecer dessa mulher... (PAUSA TENSA) Responde, Gustavo.

(GUSTAVO PERMANECE EM SILÊNCIO)

ALICE - Não precisa dizer mais nada.

(ENTRA RODRIGO, CANSADO. GUSTAVO QUEBRA O GELO)

GUSTAVO - E aí, filhão? Como foi a aula?

RODRIGO - Um porre. Não vejo a hora de me formar.

GUSTAVO - Falta pouco, garotão.

RODRIGO - Ainda bem... Não agüento mais...

ALICE - Vou falar pra Adelaide servir seu almoço.

RODRIGO - Não precisa, mãe. Eu já comi no colégio. Não tô com muita fome agora...

ALICE - Você quem sabe.

GUSTAVO - Bem, o dever me chama...

RODRIGO - Pai, cê me dá uma carona até Santa Cecília?

GUSTAVO - Claro...

ALICE - Estou com um pouco de dor-de-cabeça. Vou pro quarto descansar um pouco. Bom trabalho, Gustavo. E você, Rodrigo, tome cuidado, viu?...

RODRIGO - Podexá, mãe. O Lucas é do bem...

ALICE - Vê lá com quem se envolve, hein?

RODRIGO - Fica fria, velha!!! (PAUSA) Mãe...

ALICE - O que foi?

RODRIGO - Eu amo você.

ALICE - (COM UM SORRISO MELANCÓLICO) Eu também amo você.

GUSTAVO - Vamos?

(ALICE, DISCRETAMENTE, ENTREGA A FOTO PARA GUSTAVO, QUE ESCONDE RAPÍDAMENTE. GUSTAVO SE APROXIMA COM A INTENÇÃO DE BEIJAR ALICE NA BOCA, MAS ESTA, VIRA O ROSTO E O MARIDO BEIJA-LHE A FACE. GUSTAVO FICA CHATEADO. ALICE ABRAÇA RODRIGO CARINHOSAMENTE. OLHA-O POR UM BOM TEMPO. DEPOIS O BEIJA. EM SEGUIDA SOBE PARA O QUARTO)

GUSTAVO - (CHAMA) Adelaide.

(ADELAIDE É A EMPREGADA. É UM BUFÃO. USA ÓCULOS FUNDO DE GARRAFA, É CORCUNDA, TEM PEITO DE POMBO, MANCA DE UMA PERNA, SOFRE DE MAL DE PARKNSON E TRAJA UM UNIFORME DE EMPREGADA, TÍPICO CLICHÊ. APESAR DE TODAS ESSAS DEFICIÊNCIAS, É BASTANTE ÁGIL)

ADELAIDE - Às ordens, senhor.

GUSTAVO - Traga o meu paletó

ADELAIDE - Está certo, senhor. (SAI E VOLTA COM O PALETÓ) Pronto, senhor. (SAI)

GUSTAVO - Adelaide.

ADELAIDE - Às ordens, senhor.

GUSTAVO - Traga os meus sapatos pretos.

ADELAIDE - Está certo, senhor. (SAI E VOLTA COM OS SAPATOS) Pronto, senhor. (SAI)

GUSTAVO - (COM O PAR DE SAPATOS NA MÃO) Adelaide.

ADELAIDE - Às ordens, senhor.

GUSTAVO - (ENTREGA PARA ELA O PAR DE SAPATOS) Calce os meus sapatos.

ADELAIDE - Está certo, senhor. (CALÇA OS SAPATOS NELE) Pronto, senhor. (SAI)

GUSTAVO - Estou bem assim, filho?

RODRIGO - Está ótimo.

GUSTAVO - Adelaide.

ADELAIDE - Às ordens, senhor.

GUSTAVO - Pegue a chave do carro.

ADELAIDE - Está certo, senhor. (SAI E VOLTA COM AS CHAVES DO CARRO) Pronto, senhor! (SAI)

GUSTAVO - (PARA O FILHO) Vamos?

RODRIGO - Vamos. (SAEM)

GUSTAVO - (GRITA EM OFF) Adelaide, o carro enguiçou. Venha empurrar...

ADELAIDE - (ATRAVESSA A CENA CORRENDO, GRITANDO) Está certo, senhor.

(OUVE-SE O RUÍDO DO CARRO. O MOTOR MORRE A TODA A HORA. FINALMENTE, DEPOIS DE DEZENAS DE TENTATIVAS, O MOTOR FUNCIONA E O CARRO SAI EM DISPARADA. FOCO EM ALICE, QUE DO SEU QUARTO, OBSERVA TODA A CENA, COM ENORME TRISTEZA. ACENA COM A MÃO, SE DESPEDINDO DOS DOIS. ABRE O GUARDA-ROUPA, PEGA UMA MALA E COMEÇA A ESVAZIÁ-LO, COLOCANDO SUAS ROUPAS NA MALA. PEGA A MALA E DESCE LENTAMENTE. CAMINHA ATÉ A ESCRIVANINHA, PEGA PAPEL, CANETA E COMEÇA A ESCREVER UMA CARTA. TUDO ISSO DEVE SER FEITO DE UMA FORMA BEM LENTA. DEPOIS DE ESCREVER A CARTA, DEPOSITA-A NUM ENVELOPE E COLOCA SOBRE A MESA. PEGA UM PORTA-RETRATO, ONDE ESTÁ A FOTO DOS TRÊS. BEIJA A FOTOGRAFIA E COLOCA O PORTA-RETRATO NO LUGAR E A CARTA NA FRENTE DELE. OLHA O AMBIENTE POR UM BOM TEMPO. ENTRA ADELAIDE)

ALICE - (PARA ELA) Não precisa me perguntar, nem responder nada... Eu vou embora desta casa... E cuide bem deles, Adelaide.

(ADELAIDE FICA COM CARA DE TACHO E ALICE SAI LENTAMENTE. ADELAIDE, TEM UMA CRISE DE CHORO E SAI CORRENDO PARA OUTROS CÔMODOS DA CASA, LIMPANDO AS LÁGRIMAS NO AVENTAL. FOCO SOBRE O PORTA-RETRATO E A CARTA. FOCO DESCE EM RESISTÊNCIA ATÉ O BLACK-OUT)

CENA 5

(NOVA MUDANÇA DE CENÁRIO. DA MESMA FORMA EM QUE TIRARAM O CENÁRIO DO CASARÃO DE LUCAS PARA PÔR O CENÁRIO DA CASA DE RODRIGO. O CENÁRIO DO CASARÃO VOLTA À CENA. LUCAS E VIVIANE ESTÃO NA CAMA, ABRAÇADOS. ACABARAM DE FAZER AMOR. UM LENÇOL BRANCO OS ENVOLVE. VIVIANE COME UMA MAÇA E LUCAS BEIJA-A)

VIVIANE - Sabia que eu era capaz de ficar assim, abraçada com você pra sempre? Me sinto protegida, livre de qualquer perigo... Você foi a melhor coisa que me aconteceu na vida...

LUCAS - Você também. (SEM JEITO) Me perdoa, vai. Eu não queria falar com você daquele jeito. É que a vida da gente parece, sei lá, um labirinto: cheios de caminhos para escolher. E eu tenho medo de escolher o caminho errado e quebrar a cara...

VIVIANE - Mas pode continuar caminhando sem medo de encontrar uma barreira no seu caminho. E se isso acontecer, pode ter certeza que eu vou ficar do seu lado. E nada nesta vida vai nos desunir. Nem que tenhamos que brigar com o mundo todo. Nós juntos somos bastante fortes pra enfrentar o mundo: sem obedecer regras ou leis. Apenas a vontade de realizar o que queremos. Dois contra o mundo... (FICA PENSATIVA)

LUCAS - Em que planeta você está?

VIVIANE - Ai Lucas, tem tanta coisa a meu respeito que você ainda não sabe...

LUCAS - Então começa a contar... Tô curioso!

VIVIANE - Se eu te contasse que já fui loucamente apaixonada por um cara; que me entreguei à ele; que engravidei; que peguei uma seringa de lavagem e fiz um aborto quando ele me abandonou; que vim aqui com a minha irmã e com a minha amiga numa manhã que você não estava; que cedi às chantagens delas com medo que você soubesse por elas e não por mim; que te poupei até agora porque tive muito medo de te perder; que te poupei porque queria que você confiasse em mim... (PAUSA) Agora que você já sabe de tudo, você vai querer continuar comigo?

LUCAS - (LONGA PAUSA) Não...

VIVIANE - (COM LÁGRIMAS NOS OLHOS) Foi o que eu imaginei.

LUCAS - (ABRE UM SORRISO GENEROSO NO ROSTO) Tô brincando, sua boba. Claro que eu quero continuar com você... A gente não combinou que o passado e o futuro não existem? E eu vou gritar pra todo mundo ouvir: EU TE AMO, VIVIANE!!!!!

(DERRUBA VIVIANE NA CAMA ENTRE RISOS, CARÍCIAS, BEIJOS, ABRAÇOS E PALAVRAS AO PÉ DO OUVIDO. NO OUTRO PLANO, RODRIGO ENTRA COM GUSTAVO)

RODRIGO - (CHAMANDO) Lucas...

(LUCAS E VIVIANE SE ASSUSTAM)

LUCAS - (COCHICHA) Ih! Sujou...

(VESTEM-SE RAPIDAMENTE, ABAFANDO O RISO. DEPOIS DE VESTIDOS, DESCEM PARA A SALA)

LUCAS - E aí, moleque? (CUMPRIMENTAM-SE)

RODRIGO - (APRESENTA O PAI) Esse aqui é o meu pai, Lucas... Gustavo.

GUSTAVO - Prazer, Lucas... Vim te agradecer pelo que você fez pelo meu filho... Não é qualquer um que dá abrigo e proteção para um desconhecido...

LUCAS - Eu só fiz o que tinha de fazer. Ele quase foi assaltado. Não ia deixar que ele ficasse na rua. Ainda mais sabendo que o senhor não podia vir buscá-lo. (APRESENTANDO VIVIANE) Essa aqui é a Viviane, minha namorada...

RODRIGO - (PARA LUCAS, CONFIDENCIAL) Rabudo, hein?

LUCAS - (IDEM) Sentiu o poder do "papai" aqui?

VIVIANE - O que vocês estão cochichando, hein?

AMBOS - Nada.

VIVIANE - Aposto que é sobre mim... Podem falar.

LUCAS - Assuntos de homens, gatucha.

VIVIANE - Hum... Machistas!

(RIEM)

GUSTAVO - (FASCINADO PELO CASARÃO) Gostei muito desse casarão... Esse espaço aqui já foi tombado pelo patrimônio histórico, Lucas?

LUCAS - Acho que sim, seu Gustavo. Não sei direito.

GUSTAVO - Vamos deixar as formalidades de lado. Pode me chamar só de Gustavo.

LUCAS - Ok... Gustavo.

GUSTAVO - Melhorou... Então você mora neste lugar maravilhoso e não sabe se foi tombado? (SEM QUERER, ESBARRA NUM QUADRO E O DERRUBA NO CHÃO) Desculpa, Lucas. Quebrou o vidro. Eu mando arrumar...

(PEGA O QUADRO E LEVA UM TREMENDO SUSTO AO VER A FOTOGRAFIA)

RODRIGO - O que aconteceu, pai?

GUSTAVO - É que essa moça da fotografia é muito parecida uma pessoa que... (PERTURBADO) Acho que é paranóia. É muita coincidência...

RODRIGO - Que paranóia, pai?

GUSTAVO - Quem é ela, Lucas?

LUCAS - Minha mãe...

GUSTAVO - (CORTA A FALA DE LUCAS, BALBUCIANDO) Como?

LUCAS - Você conhecia ela?

(GUSTAVO FICA UM LONGO TEMPO SEM DIZER NADA. O CLIMA É TENSO)

LUCAS - Conhecia a minha mãe?

GUSTAVO - Não é possível...

RODRIGO - O que, pai?

LUCAS - Então você conhecia a minha mãe? Esse mundo é muito pequeno.

GUSTAVO - É. Esse mundo é muito pequeno, Lucas... Ana... Por que você fez isso comigo? Por que me privou de ter meu filho em meus braços? Por quê? Por quê?

LUCAS - (JUNTANDO AS PEÇAS DO QUEBRA-CABEÇAS) Então... Você é... é...

(LUCAS NÃO CONSEGUE COMPLETAR A FRASE. GUSTAVO ACENA A CABEÇA AFIRMATIVAMENTE E ABRAÇA LUCAS. FICAM ABRAÇADOS POR UM LONGO TEMPO, CHORANDO)

VIVIANE - Vocês querem me explicar o que está acontecendo? Não tô entendendo nada!

RODRIGO - Querem ser mais claros, por favor? Vocês estão me deixando nervoso.

GUSTAVO - (SOLTA-SE POR UM MOMENTO DE LUCAS) Rodrigo... esse grande amigo que você tem, que, por uma ironia do destino, sei lá, te livrou do assalto...

RODRIGO - Não enrola, pai.

GUSTAVO - (SORRIDENTE) ...é seu irmão...

RODRIGO - (CHOCADO, MAS FELIZ) Como é que é?

VIVIANE - Eu não acredito!

GUSTAVO - O Lucas é meu filho...

RODRIGO - (INCRÉDULO) Filho?!!!!

GUSTAVO - Sim... filho.

(GUSTAVO NUM IMPULSO, ABRAÇA E BEIJA LUCAS)

GUSTAVO - Como eu esperei por esse momento... Estou sem palavras, nem sei o que dizer...

LUCAS - Não precisa dizer nada!!!

(LUCAS FICA OLHANDO PARA GUSTAVO IMAGINANDO-SE MAIS VELHO. GUSTAVO, IDEM)

LUCAS - (PARA RODRIGO, QUE ESTÁ PETRIFICADO) Cara, você é meu irmão...

RODRIGO - É isso aí, mano véio...

(OS QUATRO SE ABRAÇAM)

GUSTAVO - E onde está sua mãe, Lucas? Não vejo a hora de reencontrá-la...

LUCAS - Ela... morreu.

GUSTAVO - Eu nunca pude dizer à ela o quanto eu a amava e que daria minha vida pela dela... Se ela não tivesse me abandonado as coisas seriam diferentes...

LUCAS - Sim, seriam, disso eu tenho certeza.

GUSTAVO - Onde ela está enterrada?

LUCAS - No Araçá.

GUSTAVO - Você me leva até o túmulo dela?

LUCAS - Quando quiser...

(VIVIANE COLOCA A CHALEIRA SOBRE A MESA)

VIVIANE - Gente, vamos tomar um chá pra acalmar. É muita emoção para um dia só. Nós todos estamos tremendo...

(TODOS SENTAM-SE À MESA. VIVIANE SERVE O CHÁ PARA O TRIO)

GUSTAVO - Posso te pedir uma coisa?

LUCAS - Pode.

GUSTAVO - Eu não queria que você guardasse nenhuma mágoa de mim.

LUCAS - Eu nunca guardei.

GUSTAVO - Nem mágoa da sua mãe. Ela só quis o seu bem. Só que se precipitou.

LUCAS - Eu sei. Sem ressentimentos.

GUSTAVO - Que bom. Fico feliz ao ouvir isso. (MUDA O TOM) Hoje mesmo vamos ao cartório. Eu vou te reconhecer como filho... e depois, vamos lá pra casa.

LUCAS - (SEM JEITO) Não leva a mal, não, pai.. mas eu prefiro continuar aqui. Você me entende, né? Mas vamos nos encontrar todos os dias. Temos muito o que conversar.

GUSTAVO - Claro... Bom, você já sabe o que te convém e o que te prejudica. Faça como quiser e da forma que quiser que receberá o meu apoio. Ou melhor, o nosso apoio. A Alice, minha esposa, também vai adorar você...

LUCAS - Será que ela vai entender?

GUSTAVO - Claro. Ela já sabe de tudo. Fica tranqüilo!!!

RODRIGO - Pai, o que o Lucas precisa de imediato é uma empregada. Manda a Adelaide fazer uma faxina aqui... Olha, Lucas, é a melhor empregada que eu conheço. É só chamar que ela aparece. Quer ver só? (VAI ATÉ A JANELA E CHAMA ALTO) Adelaide!

(OUVE-SE O ECO DA VOZ DE RODRIGO. ADELAIDE ENTRA CORRENDO, ESBAFORIDA. OUVE-SE NO ÁUDIO O JINGLE DO "PAPA-LÉGUAS")

ADELAIDE - Às ordens, senhor.

RODRIGO - Não falei?

GUSTAVO - Ela é eficientíssima. E só abre a boca pra dizer: "As ordens, senhor", "Está certo, senhor", "Pronto, senhor". (CHAMANDO) Adelaide

ADELAIDE - Às ordens, senhor.

GUSTAVO - A partir de hoje você virá aqui neste casarão de dois em dois dias fazer uma faxina, está certo?

ADELAIDE - Está certo, senhor...

GUSTAVO - Muito bem, pode começar...

(ADELAIDE VAI INICIAR A FAXINA. LEMBRA-SE DE ALGO. PEGA A CARTA DE ALICE E DIRIGE-SE PARA GUSTAVO COM A CARTA EM PUNHO)

ADELAIDE - Senhor...

GUSTAVO - Uma carta? Passe pra cá.

ADELAIDE - (ENTREGA-LHE A CARTA) Pronto, senhor...

GUSTAVO - Agora vá cuidar dos seus afazeres... Que estranho! Uma carta da Alice!!!

(ADELAIDE SOBE PARA O QUARTO E FICA CONGELADA. GUSTAVO ABRE A CARTA. A VOZ DE ALICE É OUVIDA NO ÁUDIO. RODRIGO LÊ A CARTA JUNTO COM O PAI)

ALICE - (OFF) "Gustavo, até quando vai ficar chorando pelo leite derramado? As coisas já aconteceram. Cada um escolheu o seu caminho: ela seguiu o dela com o seu filho e você, o seu. Agora só resta pagar pelos nossos atos e espero que o preço que tenhamos que pagar não seja tão alto quanto o dela. Você sempre gostou de mim, sempre foi carinhoso comigo, sempre me respeitou, mas nunca me amou. Eu não agüento mais viver assim... achando, ou melhor, sabendo que você não me amava, mas com a esperança de que um dia me amasse. E é por isso que vou embora. Vá atrás desta mulher e do seu filho. Dê o seu nome pra ele e tente aproximá-lo do Rodrigo. O caminho está livre... Vou fazer uma viagem para esfriar a cabeça e na volta a gente conversa sobre o divórcio... Ah, cuide bem do nosso menino. Ele pode parecer um adulto, mas ainda é uma criança... Te amo muito, filho. Rodrigo, eu só não te levei comigo porque seu pai precisa muito de você. Voltarei em breve, Gustavo... Alice."

(RODRIGO NÃO QUER ACREDITAR.)

RODRIGO - (CHORANDO) Pai... Ela vai voltar, não vai?

GUSTAVO - Claro que vai, filho. Claro que vai...

(ABRAÇAM-SE. BLACK-OUT. VOLTA A LUZ. ADELAIDE, SOZINHA, PEGA UM MP3 E O COLOCA NO OUVIDO. OUVE-SE "CONGA,CONGA", DA GRETCHEN. ADELAIDE PEGA UMA VASSOURA E COMEÇA A LIMPAR O CASARÃO, DANÇANDO DE ACORDO COM A MÚSICA. DEIXA O CASARÃO BRILHANDO. TAREFA FEITA, SAI DE CENA)
 
CENA 6

(UMA CARTA É JOGADA EM CENA. LUCAS, RODRIGO E VIVIANE VOLTAM)

RODRIGO - Por que tinha que ser assim, hein?

LUCAS - Ela tava infeliz. Foi melhor assim. Acredite em mim.

RODRIGO - Tenho medo que ela não volte.

LUCAS - Ela volta. Ela só precisa de um tempo pra esfriar a cabeça... O que ela passou não foi brincadeira.

(VIVIANE ENCONTRA A CARTA)

VIVIANE - Lucas, uma carta pra você...

LUCAS - Pode abrir, Viviane.

(VIVIANE ABRE A CARTA, LÊ E FICA AFLITA)

LUCAS - (PERCEBE A AFLIÇÃO DA NAMORADA) Que cara é essa? O que está escrito aí?

VIVIANE - (ENTREGA A CARTA A LUCAS) Leia você mesmo.

LUCAS - (LENDO, SEM ACREDITAR) Como é que é?

VIVIANE - Você tem trinta dias pra desocupar o casarão...

LUCAS - Não pode ser. Estou em dia com os aluguéis...

VIVIANE - Acho melhor você procurar o proprietário e esclarecer tudo. Onde ele mora?

LUCAS - Nesse prédio vizinho...

VIVIANE - Ele não pode fazer isso com você... Não é justo. Ah, meu Deus, por que tudo o que é ruim está acontecendo com a gente, hein? Parece uma bola de neve numa avalanche.

LUCAS - Vou até lá tirar isso a limpo! (SAI)

RODRIGO -Deve ser algum engano. Se o Lucas pagou os aluguéis em dia, não tem como haver despejo. É só apresentar os recibos.

VIVIANE - O proprietário não pode tirar o Lucas daqui assim. E agora, pra onde a gente vai?

RODRIGO - Se não tiver jeito, vocês vão morar lá em casa. Vai ser até melhor pro papai, pra mim. Vamos esperar o Lucas chegar e a gente esclarece isso de uma vez por todas...

VIVIANE - (REVIRANDO ALGUNS PAPÉIS) Preciso saber onde o Lucas guardou esses recibos.

RODRIGO - Eu ajudo você...

VIVIANE - Se o Lucas não fosse tão bagunceiro, era mais fácil de achar. (PROCURA EM OUTRA GAVETA) Nada.

RODRIGO - Será que ele não jogou os recibos no lixo?

VIVIANE - Era só o que me faltava...

RODRIGO - Ele pode ter feito isso, vai saber.

VIVIANE - A gente tem que achar. Senão não tem como o Lucas provar que os pagamentos foram efetuados.

LUCAS - (ENTRANDO) Esquece, Viviane. Não esquenta com isso. Nós temos mesmo trinta dias para desocupar o imóvel.

VIVIANE - Mas como, se os aluguéis estão em dia?

LUCAS - Sim, estão. Só que o contrato vence no mês que vem e o proprietário não quer renovar. Nunca parei pra ver essas coisas. Era minha mãe que fazia isso. Lembro que dias antes de morrer, ela tinha renovado o contrato. Isso já faz dois anos, portanto ele vence agora. Por isso veio a carta, com o comunicado.

VIVIANE - Mas, por que ele não quer renovar? Pra que ele vai querer o casarão?

LUCAS - Pra demolir isso aqui e fazer um estacionamento.

VIVIANE - O quê? Mas que absurdo!

RODRIGO - Lucas, se o casarão é tombado pelo patrimônio histórico ele não pode ser demolido.

LUCAS - (CONFORMADO) Acontece que esse casarão não foi tombado... Portanto, pode ser demolido, sim.

VIVIANE - (DESESPERADA AO VER LUCAS NAQUELE ESTADO) Lucas, não fique assim. Grite, proteste, xingue, quebre tudo o que você encontrar pela frente, mas não fique calado, pelo amor de Deus.

RODRIGO - É isso mesmo, mano.

LUCAS - Agora não adianta mais nada, mano. Acabou... Tudo o que começa, acaba um dia... É assim... É assim.

(OS TRÊS SE ABRAÇAM E CHORAM, INCONFORMADOS)

EPÍLOGO

(PALCO NA PENUMBRA. O CAMINHÃO DE MUDANÇA ESTÁ PARADO NA PORTA DO CASARÃO E OS ATORES E/OU BAILARINOS RETIRAM TODOS OS MÓVEIS DA CASA. LUCAS ESTÁ BASTANTE ABATIDO E OBSERVA CADA CANTO DO CASARÃO. TODA A SUA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA LHE VÊM À MENTE. SE POSSÍVEL, DEVERÁ SER PROJETADO NUM TELÃO, IMAGENS DA MORTE DA MÃE DE LUCAS, O ENCONTRO COM VIVIANE, COM RODRIGO, O ENCONTRO COM O PAI, ENFIM, UM FLASHBACK DE TODOS OS MOMENTOS EM QUE O RAPAZ PASSOU ALI. LUCAS SENTA-SE NA ESCADA. FIM DAS IMAGENS. VIVIANE E RODRIGO, OLHAM PARA ELE)

RODRIGO - (QUEBRA O GELO) O caminhão já vai sair, Lucas...

VIVIANE - Você não está sozinho, meu amor... Nossa vida tá começando agora.

RODRIGO - É isso aí, mano.

LUCAS - Como eu gostaria de ser otimista como vocês...

RODRIGO - (DÁ UMA BRONCA NO IRMÃO) O que é isso, rapaz? Ergue a cabeça, porra! Logo você que nunca se deixou abater por nada, agir dessa maneira? Como é que é? Isso não é nada perto dos problemas que você passou, cacete. Como é? Será que eu vou ter que te tirar daqui na porrada?

LUCAS - (RECUPERA O ÂNIMO) E. Não vai ser isso que vai me derrubar. Vida nova...

RODRIGO - É isso aí... Assim que eu gosto... Vamos levantar um brinde. (CHAMANDO) Adelaide.

ADELAIDE - Às ordens, senhor.

RODRIGO - Traga quatro taças e uma champanhe!

ADELAIDE - Está certo, senhor. (SAI E VOLTA COM A CHAMPANHE E AS TAÇAS) Pronto, senhor.

RODRIGO - Adelaide

ADELAIDE - Às ordens, senhor.

RODRIGO - Sirva-nos e brinde com a gente!

ADELAIDE - Está certo, senhor. (ENCHE A TAÇA DE TODOS E A SUA PRÓPRIA TAÇA)

RODRIGO - Um brinde ao nosso futuro.

TODOS - Ao nosso futuro! (BRINDAM E BEBEM. ADELAIDE VIRA A TAÇA BEBENDO A CHAMPANHE NUM SÓ GOLE)

RODRIGO - Adelaide!

ADELAIDE - (BÊBADA) As ordens, senhor.

RODRIGO - Ligue para o papai e diga que nós já estamos saindo daqui.

ADELAIDE - Está certo, senhor.

(ADELAIDE RETIRA DO AVENTAL UM CELULAR, DISCA UM NÚMERO E FALA COM GUSTAVO, SEM QUE O PÚBLICO OUÇA A SUA VOZ E SAI DE CENA, JÁ TOCADA PELO EFEITO DO ÁLCOOL)

RODRIGO - Lucas, qualquer mudança brusca na nossa vida, por pior que seja, tem o seu lado bom. Eu achava que não conseguiria viver sem a minha mãe. Hoje, trinta dias depois, muita coisa mudou. Ela tá feliz. E o nosso pai também. É isso que importa. Tem gente que opta pela infelicidade. E isso é muito pior, você não acha?

LUCAS - Não sei o que seria de mim, se vocês não existissem.

RODRIGO - Deixa de bobagem, seu trouxa...

LUCAS - Não é bobagem, não. Eu sei muito bem do que estou falando. Obrigado por você aparecer por essa porta e pedir para que eu o protegesse. Na verdade, foi você quem me protegeu, Rodrigo. Através de você eu pude encontrar o meu pai. E você, Viviane, por me fazer o homem mais feliz do mundo... Chega de escuridão, chega de isolamento, chega de angústia... Agora é olhar pra frente, pra linha do horizonte e viver intensamente todos os minutos de nossa vida, porque a vida é curta e temos que aproveita-la ao máximo... TOCA AQUI!!!

(LUCAS ESTENDE UMA MÃO. VIVIANE E RODRIGO COLOCAM SUAS MÃOS SOBRE A MÃO DE LUCAS. E COM UM GRITO LEVANTAM AS MÃOS PARA CIMA. BLACK-OUT)

FIM

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Atualizado em: Sáb 15 Mar 2008

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