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O ESPELHO DA VIDA

PERSONAGENS:

 

DORA

NANDO

GUTO

PALOMA

MÁRCIA

ANALU

GABRIELA

EDUARDO

ALEXANDRE

e

NANDO

GUTO

PALOMA

ANALU

EDUARDO

GABRIELA, quando crianças.

ÉPOCA: Atual

CENÁRIO: Uma plataforma ocupando toda a parte superior do palco com mais ou menos um metro e meio de altura. Na frente desta plataforma, dois praticáveis em diagonal, sendo um do lado direito e outro do lado esquerdo. O praticável situado à esquerda representa o quarto de Guto e Nando. O praticável do lado direito, o quarto de Paloma. Uma escada central conduz aos quartos. Uma mesinha com cadeiras do lado esquerdo central. O cenário a iluminação deverão possuir uma linha expressionista. Um ciclorama deve cobrir o cenário inteiramente nas cenas da floresta e da rua e deve desaparecer em outras cenas. Nesse ciclorama deve ser projetado com auxílio de máscaras de iluminação, uma mata. Na cena em que as personagens estão brincando na rua, várias casas espremidas entre os prédios de apartamentos.

PRÓLOGO

(BLACK-OUT. LUZ SOBE EM RESISTÊNCIA ATÉ MEIA-LUZ COM O PALCO NA PENUMBRA. UMA JOVEM ESTÁ NO CENTRO DO PALCO, DE COSTAS PARA O PÚBLICO. TRAJA UM VESTIDO DE GESTANTE E ESTÁ PRESTES A DAR À LUZ. ELA PROCURA UM LUGAR PARA PARIR A CRIANÇA. ESTÁ EM UMA MATA ESCURA E FRIA. ACARICIA A BARRIGA. SENTE FORTES CONTRAÇÕES. A BOLSA ESTOURA. ELA GEME. SUA RESPIRAÇÃO É MESCLADA COM A MÚSICA QUE DEVERÁ SUGERIR MISTÉRIO E POESIA. FICA DE CÓCORAS NO CENTRO, DE COSTAS E FAZ O SEU PRÓPRIO PARTO. O BEBÊ NASCE. UM CHORO FRÁGIL E AO MESMO TEMPO FORTE É OUVIDO NO ÁUDIO. A MULHER, EXAUSTA, ERGUE O BEBÊ PARA O ALTO, DEPOIS DE CORTAR O CORDÃO UMBILICAL, COMO SE ESTIVESSE APRESENTANDO-O PARA O MUNDO. ABRAÇA-O COM DEVOÇÃO, ENROLA-O NUMA MANTINHA, CARREGA-O NOS BRAÇOS E VIRA-SE DE FRENTE PARA O PÚBLICO. ABRAÇA-O COM TERNURA E OBSTINAÇÃO. TIRA O PEITO E OFERECE AO FILHO. QUER VIVER PARA ELE, VIVER POR ELE, SER O ESPELHO DA VIDA DELE. DEPOIS DE AMAMENTÁ-LO, BALANÇA O CORPO PARA FRENTE E PARA TRÁS, FAZENDO-O DORMIR. LUZ DESCE EM RESISTÊNCIA, DEIXANDO APENAS UM FOCO DESENHANDO MÃE E FILHO. BLACK-OUT)


CENA 1

(UMA RUA ONDE BRINCAM CRIANÇAS DE QUATRO A SEIS ANOS: GUTO, PALOMA, EDUARDO, GABRIELA, ANALU E NANDO. OS DOIS PRIMEIROS SÃO OS FILHOS MAIS VELHOS DE DORA, A JOVEM DO PRÓLOGO. NANDO É O BEBÊ DELA. O GAROTO ESTÁ COM QUATRO ANOS E SOFRE DE PARALISIA. O ÚNICO MEMBRO QUE O MENINO CONSEGUE MOVIMENTAR É SOMENTE O PÉ ESQUERDO. AS CRIANÇAS BRINCAM DE AMARELINHA, DE PULAR CORDA, UNHA-NA-MULA, BAFO, CARTEIRO-TEM-CARTA, BALANÇA CAIXÃO, ETC. SAEM DE CENA. MUDANÇA DE LUZ. VOLTAM ESSES MESMOS PERSONAGENS, SÓ QUE AGORA ESTÃO MAIS VELHOS. DEVERÃO USAR OS MESMOS FIGURINOS DE QUANDO ERAM PEQUENOS. COMEÇAM A APARECER OS CONFLITOS. EDUARDO E PALOMA TROCANDO OLHARES, ANALU E GABRIELA DESPREZANDO NANDO; E GUTO, SEMPRE REVOLTADO, NUM CANTO. BLACK-OUT).


CENA 2

(CASA DE DORA. PALOMA E GUTO ESTÃO ESTUDANDO NUMA MESINHA. NANDO ESTÁ ENCOSTADO NA PAREDE, PERTO DA ESCADA QUE LEVA AOS QUARTOS, OBSERVANDO OS IRMÃOS MAIS VELHOS ESTUDAREM. PALOMA TEM UMA DÚVIDA).

PALOMA - Guto, quanto é vinte e cinco por cento de um quarto?

GUTO - (PENSA) Vinte e cinco por cento de um quarto? (RI) Que pergunta idiota, Paloma. Vinte e cinco por cento já é um quarto. Não dá pra ter um quarto de um quarto.

PALOMA - Claro que dá. (PARA NANDO) Não dá, Nando?

GUTO - (IRÔNICO) Ora, Paloma, o que ele sabe?

(NANDO PEGA UM GIZ COM OS DEDOS DO PÉ ESQUERDO)

PALOMA - (ASSUSTADA. PARA DENTRO, CHAMANDO DORA) Mãe, corre aqui, o Nando pegou um giz!

(ENTRA DORA. EM SEU ROSTO JÁ APARECEM SINAIS DA VELHICE).

DORA - Vamos lá, Nando. Escreva o que quiser.

(NANDO COMEÇA A FAZER RISCOS NO CHÃO. DORA E PALOMA TENTAM ADIVINHAR).

PALOMA - É um Y?

DORA - É um X?

GUTO- (OLHA COM DESPREZO) Que nada. É só um rabisco!

DORA - Não, não. Ele tá querendo dizer alguma coisa! Eu sei...

GUTO - Não coloque idéias na sua cabeça, mãe. O Nando é um débil-mental. E ninguém vai conseguir ensinar nada à ele, ouviu? Ninguém... Não se ensinam retardados.

DORA - (BRAVA) Não fale isso do seu irmão, Guto!

GUTO - (REVOLTADO) Irmão... Isso aí é um desastre da natureza... Um monte de carne deformada que teve a infelicidade de vir ao mundo.

DORA - (ATINGE O ROSTO DO FILHO COM UMA VIOLENTA BOFETADA. ESTÁ ENFURECIDA. PARECE UM ANIMAL ENSANDECIDO) Nunca mais fale isso, ouviu? Nunca mais. Se você repetir mais uma vez o que disse agora, eu juro por tudo que é mais sagrado neste mundo que arrebento todos os dentes da sua boca. Agora sobe pro seu quarto e não saia de lá até amanhã. Não quero mais olhar pra sua cara, hoje! Some daqui!

(GUTO OLHA PARA O IRMÃO SOLTANDO FAÍSCAS DE ÓDIO. SOBE PARA O QUARTO. PALOMA O SEGUE. NANDO FAZ UM BEICINHO DE CHORO. DORA O ABRAÇA)

DORA - Ô Nando, meu filho. Não liga pro seu irmão, viu? Ele é assim mesmo. Mas no fundo, no fundo, ele te ama muito. Ele só está com... medo.

CENA 3

(GUTO E PALOMA NO QUARTO. ESTÃO INICIANDO UMA CONVERSA BASTANTE TENSA).

GUTO -...Medo, eu?

PALOMA - É... Medo, Guto. Medo!

GUTO - Medo de quê?

PALOMA - De aceitar a verdade.

GUTO - Qual verdade?

PALOMA - O seu irmão. Tem medo de aceitar o Nando como ele é. Medo de dar carinho, de dar um beijo, um abraço nele.

GUTO - Não é medo, não, Paloma. É raiva... Eu quero que ele morra. Ele não presta pra nada mesmo. Só serve pra foder a vida da gente. Desde pequeno, só o Nando teve o que quis. O Nando, Nando, Nando, Nando, sempre o Nando... E a gente acabou na lata do lixo. Por culpa dele, nós sempre tomamos no rabo, sempre se fodendo por culpa de um bostinha que não presta nem pra limpar a bunda. Eu odeio o Nando. ODEIO!!! (DÁ MURROS NA PAREDE)

PALOMA - Você não está sendo justo, Guto! Esfrie primeiro sua cabeça. Você não faz idéia do que a mamãe passou pra criar sozinha nós três! Depois do chute que o pai deu nela, ela ralou e muito pra sustentar a gente. Pensa que ela não sofreu? Hein?... Me diga...Olhe pra você, um rapaz bonito, saudável, inteligente. Agora faça uma comparação entre você e o Nando, faça!

GUTO - Não dá nem pra comparar, né!

PALOMA - É claro que não. Você sempre soube que o Nando não é como você e os outros meninos. Mas ele tem sentimentos. Quando você disse que ele era um débil-mental precisava ver como ele ficou. Ele pode até parecer um débil. Mas não é. Ele é inteligentíssimo. Ele só sofre dessa paralisia. E mesmo assim, ele é capaz de aprender mais rápido do que qualquer ser humano considerado "normal".

GUTO - (COM A CABEÇA MAIS FRIA) Sabe o que é? É que não gosto de ouvir em rodinhas, comentários a respeito dele. Quando saio com ele, percebo que as pessoas ficam tirando uma dele e da situação fodida da gente.

PALOMA - E você vai se importar com que os outros falam ou deixam de falar? Eles que se danem. Que vão cuidar de suas vidas.

GUTO - Você tem toda a razão.

PALOMA - (SORRINDO) Não falei que quando você esfriasse a cabeça, iria pensar diferente?

(AMBOS SE ABRAÇAM E SAEM DE CENA)
CENA 4

(TOCA A CAMPAINHA. DORA QUE ESTAVA COM NANDO NA SALA, LEVANTA-SE E CAMINHA EM DIREÇÃO DA PORTA. ENTRA MÁRCIA, SUA AMIGA)

DORA - Márcia, graças a Deus que você chegou... Você pode tomar conta do Nando um minutinho, pra eu ir fazer umas comprinhas?

MÁRCIA - Claro, Dora, com o maior prazer. Pode ir sossegada. Vou cuidar muito bem do Nando. Muito bem mesmo.

DORA - Eu não vou demorar.

MÁRCIA - Não precisa se preocupar. O Nando estará em boas mãos.

DORA - (JÁ DE SAÍDA) Ah, poderia dar a papinha dele?

MÁRCIA - Claro.

(DORA SAI. MÁRCIA CAMINHA ATÉ A COZINHA E VOLTA COM UM PRATO DE COMIDA. A COMIDA DE NANDO É TODA BATIDA NO LIQUIDIFICADOR. A MULHER OLHA COM ASCO PARA A COMIDA. NANDO, QUE ESTAVA DORMINDO, É ACORDADO VIOLENTAMENTE POR ELA)

MÁRCIA - Você está com fome, Nandinho? (O MENINO BALANÇA A CABEÇA AFIRMATIVAMENTE) Então vem pegar! (MÁRCIA SENTA DO OUTRO LADO, DE PROPÓSITO. NANDO VAI SE RASTEJANDO ATÉ ELA) Olha só, parece um verme!

(NANDO CHEGA ATÉ ELA. A MULHER COMEÇA A DAR COMIDA PARA ELE. NANDO DERRUBA A MAIOR PARTE DA COMIDA, POIS A MULHER ENFIA NA BOCA DO MENINO UMA COLHERADA ATRÁS DA OUTRA)

MÁRCIA - Que coisa feia, Nando! Nem cachorro come desse jeito... Coitada da Dora, você é a cruz mais pesada que ela carrega. Pobre diabinho! (NANDO VIRA O ROSTO DE LADO E NÃO QUER MAIS COMER. ELA INSISTE, EM VÃO) Com o resto que você deixa, daria para alimentar um exército.

(VOLTA PARA A COZINHA. VOLTA. CHEGA PERTO DO MENINO E O OLHA COM DESPREZO. FICAM ASSIM POR UM BOM TEMPO. MÁRCIA PEGA UMA REVISTA E COMEÇA A FOLHEÁ-LA. DEPOIS ACHA UMA CARTILHA. TEM UMA IDÉIA)

MÁRCIA - Venha aqui, Nando. Vou te ensinar a ler. Você não vai mesmo conseguir aprender, mas pelo menos estarei fazendo algo útil (O MENINO VAI ATÉ ELA. MÁRCIA PÕE O LIVRO NA FRENTE DO MENINO E FOLHEIA A CARTILHA) ‘A' de ‘abóbora'; ‘B' de ‘batata'; ‘C' de ‘cenoura'; e ‘D'... ‘D' de ‘débil-mental'. (DESTACA BEM AS SÍLABAS) ‘Dé-bil-men-tal'. É o que você é.

(NANDO COMEÇA A RESMUNGAR PALAVRAS DESCONEXAS. GRITA MUITO E BATE O PÉ NO CHÃO. OLHA FURIOSO PARA A MULHER. DORA ENTRA CORRENDO. ESTÁ CARREGADA DE EMBRULHOS).

DORA - (PREOCUPADA) O que aconteceu com o Nando, Márcia?

MÁRCIA - (SONSA) Não sei, Dora. Eu fui dar a papinha dele. Ele não comeu quase nada. Depois peguei uma cartilha e pra mostrar o alfabeto pra ele e de repente ele olhou feio pra mim e começou a berrar e bater o pé no chão.

(NANDO APONTA MÁRCIA COM O PÉ, E JOGA INTENÇÃO NO ROSTO, COM A MAIOR DIFICULDADE).

DORA - A Márcia? (NANDO BALANÇA A CABEÇA AFIRMATIVAMENTE) O que ela te fez? (À MÁRCIA) Você maltratou o Nando?

MÁRCIA - (FALSA) Eu, Dora? Eu jamais iria maltratar o Nando. Eu adoro esse menino. E você sabe bem disso.

DORA - (MEIO SEM JEITO) Ai, Márcia, me desculpe...

MÁRCIA - Desse jeito você me ofende...

DORA - Estou nervosa. Como é difícil entender o Nando...

MÁRCIA - (OLHA PARA O RELÓGIO) Bem, amiga, preciso ir andando. (PARA NANDO. CAMINHA ATÉ ELE E LHE APERTA A BOCHECHA "CARINHOSAMENTE") Tchau, Nandinho... Amanhã eu venho te visitar...

(O MENINO OLHA PARA ELA DESEJANDO-LHE A SUA MORTE. DORA ACOMPANHA A ‘AMIGA' ATÉ A PORTA DA RUA E SAI COM ELA). CENA 5

(GUTO E PALOMA ENTRAM CORRENDO NA DIREÇÃO DE NANDO. GUTO TRAZ NAS MÃOS UMA CARROCINHA DE MADEIRA).

PALOMA - (EMPOLGADA) Nando, Nando, veja o que o Guto fez pra você?

GUTO - (BRANDINDO) Uma carrocinha, Nando. Agora você pode conviver com os outros meninos até a nossa mãe completar o dinheiro pra comprar sua cadeira-de-rodas. Não é o máximo, cara? (NANDO FICA INDIFERENTE. GUTO SE CHATEIA) O que foi, Nando? Não gostou?

PALOMA - O Guto perdeu a tarde inteira pra construir essa carrocinha pra você e você trata ele assim, Nando?

GUTO - Deixa, Paloma. Já sei porque ele está me tratando assim... (PARA NANDO, DOCEMENTE) Ô Nando, me perdoa, mano. Eu estava nervoso e descontei em você. Você não tem culpa, cara. Eu é que sou um bosta e que não presta pra nada. (PAUSA) Bom, se você não quiser a carrocinha, tudo bem, eu vou entender. Você tem todo o direito de recusar esse presente. Tem todas as razões do mundo pra não aceitar nada que venha de mim. Mas gostaria que você soubesse de duas coisas: a primeira é que eu construí isso de coração e a segunda é que eu te amo muito... Muito mesmo.

(BEIJA O ROSTO DO IRMÃO, PEGA A CARROCINHA TRISTEMENTE, E VAI SAINDO. NANDO OLHA PARA ELE E BALBUCIA PEDINDO PARA ELE FICAR. GUTO CORRE PARA O IRMÃO E O ABRAÇA FORTEMENTE)

GUTO - Eu sabia que você iria me perdoar. Eu te admiro muito, viu?... Agora vamos estrear o seu "carro"?

(GUTO PÕE O IRMÃO NA CARROCINHA AUXILIADO POR PALOMA. GUTO "PILOTA". PALOMA ENTRA NA FRENTE E GUTO VAI NA DIREÇÃO DELA, QUERENDO ATROPELÁ-LA. ELA DESVIA. OS TRÊS BRINCAM POR TODO O ESPAÇO CÊNICO, FAZENDO MANOBRAS CADA VEZ MAIS RADICAIS. OS TRÊS GRITAM, FELIZES E SAEM COM ESSE MESMO PIQUE)

CENA 6

(TOCA A CAMPAINHA. DORA VAI ATÉ A PORTA. AO ABRIR, LEVA UM SUSTO. NA SUA FRENTE ESTÁ ALEXANDRE, SEU EX-MARIDO)

DORA - (BALBUCIA) Você???

ALEXANDRE - Por que esse espanto todo, Dora? Vim aqui pra gente conversar. Numa boa!

DORA - Sei. Mas não estou com a mínima vontade de conversar com você.

ALEXANDRE - Eu queria que você entendesse...

DORA - Não precisa ficar rodeando... Vai direto ao assunto...

ALEXANDRE - (EMBARAÇADO) É sobre o nosso filho, o Nando...

DORA - Nosso filho??? Ele é meu filho. Só MEU. De mais ninguém.

ALEXANDRE - Não complica as coisas. Vim aqui em missão de paz. Vim oferecer ajuda, caso o Nando precise.

DORA - No momento em que ele mais precisou de ajuda, você me deu um chute, me jogou pra escanteio. Você não faz idéia do que eu passei pro Nando nascer. Ninguém quis me ajudar. Ninguém. Todos viraram as costas pra mim. Fui dar à luz no meio do mato. Sozinha. Sem ajuda de ninguém... E depois do parto comecei a cuidar daquela criança tão pequena, tão indefesa e com um futuro incerto. Me dediquei à ele de corpo e alma. Sacrifiquei meus dois outros filhos, mas não deixei faltar nada pro Nando. E depois de tudo isso, você tem coragem de vir bater na minha porta, com essa cara deslavada e tem a ousadia de me oferecer ajuda? Você é muito cínico. Eu quero que você pegue todo seu dinheiro e enfie no seu...

ALEXANDRE - (CORTA ABRUPTAMENTE) Eu queria pelo menos ver os meus filhos. Afinal, já faz quinze anos que não vejo eles.

DORA - Você não vai nem chegar perto deles. Qual é o seu interesse nisso, hein? Sim, porque para um homem abandonar sua mulher com dois filhos pequenos, por saber que o terceiro nasceria deficiente, depois de quinze anos desaparecido, vem procurar esse mesmo filho que rejeitou? O que você pretende, seu covarde? Veio ver o estado em que estou? Ver as rugas do meu rosto? Ver o quanto engordei? Foi isso?

ALEXANDRE - Dora, você está sendo cruel.

DORA - Cruel, eu? Você não tem espelho, não?

ALEXANDRE - Você está fazendo uma tempestade num copo d'água. Eu venho aqui, com a melhor das intenções, e...

DORA - De boas-intenções o inferno está cheio, meu querido. Não sei porque estou perdendo o meu tempo discutindo com você. Vá embora, vá. Um homem sem escrúpulos como você não deveria nem pisar na minha casa.

ALEXANDRE - Me deixe pelo menos ver o menino. Tenho direito. Sou o pai.

DORA - Pai??? Porra, que pai?! Você não é nada dele. Apenas um estranho.

ALEXANDRE - Queria pelo menos saber do Guto e da Paloma.

DORA - Eles estão muito bem.

ALEXANDRE - Por que você proíbe eles de me visitarem?

DORA - Não proíbo. Nunca proibi. É que eles sentiram na carne todo o mal que você nos causou.

ALEXANDRE - Você fez a cabeça deles contra mim?

DORA - Eu não fiz a cabeça de ninguém. Eles souberam da verdade, e a partir dela acharam o que deveriam achar. Se eles nunca te procuraram, acredito que tiveram razões de sobra...

ALEXANDRE - (ARREPENDIDO) Gostaria de poder estar junto deles. Acompanhando o crescimento, o amadurecimento. Queria poder jogar futebol com o Guto, levar a Paloma andar de bicicleta. Tinha tantos planos pra eles...

DORA - Até que surge um filho deficiente que estraga tudo... Só vou te alertar de uma coisa. O Guto e a Paloma quando quiserem te encontrar, tudo bem. Não vou proibir. A cabeça é deles. Eles já são grandes o bastante pra saber o que é bom e o que é ruim. (AMEAÇADORA) Mas se você ousar pisar nesta casa novamente, ou chegar perto do Nando, ai de você... Garanto que vai se arrepender profundamente de ter nascido.(VAI ATÉ A PORTA DA RUA E A ABRE) Adeus, Alexandre!

(ALEXANDRE CAMINHA DE CABEÇA BAIXA ATÉ A PORTA DA RUA E SAI. DORA ENCARA O EX-MARIDO COM UM OLHAR FULMINANTE, COM DESPREZO E INDIFERENÇA. APÓS A SAÍDA DO HOMEM, DESMONTA E CAI NUM CHORO DESESPERADO. BLACK-OUT).
CENA 7

(LUZ SOBE EM RESISTÊNCIA. NO CENTRO DO PALCO ESTÃO SENTADOS GUTO, PALOMA, GABRIELA, ANALU E NANDO EM SUA CARROCINHA. A BRINCADEIRA É O JOGO DA VERDADE).

ANALU - (COCHICHANDO COM GABRIELA) Se o compasso cair no Guto, vou perguntar se ele tá a fim de mim.

GABRIELA - E se cair no Nando ou no Eduardo?

ANALU - Ah, o Nando nem tá no jogo. E se cair no Eduardo, eu pergunto qualquer coisa sobre a Paloma...

GUTO - (ABRE O COMPASSO E O COLOCA NO CENTRO DA RODINHA) Comece, Analu.

(ANALU GIRA O COMPASSO E O MESMO PÁRA JUSTAMENTE NA DIREÇÃO DE NANDO)

ANALU - (REAGE FRUSTRADA; SONSA) Ninguém!!!

PALOMA - Como, ninguém?! Caiu no Nando.

ANALU - Mas o Nando não tá no jogo...

GUTO - (IRÔNICO) É claro que tá. O compasso está apontando pra ele...

ANALU - (LEVANTA E VAI NA DIREÇÃO DE NANDO E BEIJA-LHE O ROSTO) Você, apesar de tudo, é o único que presta nesse grupo. E tem os olhos lindos...

(ZOEIRA GERAL. GUTO OLHA PARA ANALU E SORRI MALICIOSAMENTE. ELA VAI SAINDO, FRUSTRADA E GABRIELA A SEGUE).

GABRIELA - (PARA GUTO) Tchau, Guto.

GUTO - (NÃO RESPONDE PARA GABRIELA E PROVOCA ANALU, QUE PASSA DO SEU LADO) Tchau, Analu.

ANALU - (OLHA FURIOSA PARA ELE; ESTÚPIDA) Tchau, Guto. Durma bem... (SAEM)

(GUTO PEGA O COMPASSO E TERMINA A BRINCADEIRA. BOCEJA).

GUTO - Vou pra cama! Boa noite!

EDUARDO - Boa noite!

(GUTO PEGA NANDO DO CARRINHO E SOBE COM ELE PARA O QUARTO, DEIXANDO EDUARDO E PALOMA SOZINHOS. UM CLIMA INVADE O AMBIENTE. EDUARDO VERIFICA SE GUTO JÁ SUBIU. APROXIMA-SE DE PALOMA E LHE DÁ UM BEIJO NA BOCA. DEITA EM CIMA DA GAROTA. ACARICIAM-SE E FAZEM AMOR. BLACK-OUT).

CENA 8

(NO DIA SEGUINTE. LUZ SOBE EM RESISTÊNCIA. EM CENA ESTÃO EDUARDO, GABRIELA E ANALU. OS TRÊS ESTÃO IMPACIENTES).

GABRIELA - (GRITANDO PARA PALOMA, QUE SE ARRUMA NO QUARTO) Ô Paloma, anda logo que a gente vai perder a prova da primeira aula...

EDUARDO - (PARA A PORTA DO BANHEIRO) Ô Guto, que tanto faz nesse banheiro... Se for o que eu estou pensando vou me mandar!

GUTO - (SAI DO BANHEIRO E PÕE UMA REVISTA DE MULHER PELADA ENTRE OS CADERNOS) Que inferno!

(GUTO VAI SAINDO E DEIXA CAIR UMA FOLHA DE PAPEL DO SEU CADERNO. EDUARDO E GUTO SAEM. GABRIELA E ANALU ESPERAM AMBOS SAÍREM. ANALU PEGA A FOLHA DO CHÃO).

ANALU - (LÊ O PAPEL; MARAVILHADA) Veja, Gabi, olha só o que o Guto fez pra mim... Que desenho maravilhoso. Leia aqui embaixo: "Seus lindos olhos são piscinas profundas e azuis onde eu mergulho. Te amo, Analu!" Não é lindo? Eu sabia, eu sempre soube que o Guto era gamadão em mim. Só ele não queria admitir...

GABRIELA - (PEGA O DESENHO DAS MÃOS DE ANALU) Deixa eu ver...Esse desenho com essa frase não foi feito pelo Guto, não.

ANALU - (ESTRANHA) Como não, se caiu do caderno dele?

GABRIELA - Veja a assinatura: Nando. (TIRA SARRO DA AMIGA) O aleijadinho é apaixonado por você. (NANDO DESCE AS ESCADAS, SE RASTEJANDO) Falando no doente, aí vem ele. Por que não tira isso a limpo?

ANALU - É o que vou fazer. (PARA NANDO) Foi você que desenhou isso, Nando? (NANDO CONFIRMA) Pode pegar de volta. Eu sei que o que você escreveu é verdade, mas não vai ser um aleijadinho de merda que vai me conquistar... Se isso tivesse sido feito pelo gostoso do seu irmão, eu teria aceitado com o maior prazer. Mas como foi você quem fez... (RASGA O DESENHO E JOGA NA CARA DO MENINO) Toma! Fique com essa porcaria. (PARA O QUARTO DE PALOMA) Ô Paloma, vai logo.

PALOMA - (DESCE AS ESCADAS) Estou indo. (PARA NANDO) Toma conta da casa, Nando. (BEIJA-LHE A FACE E SAI COM ANALU)

GABRIELA - (SOZINHA COM NANDO) E diga pro Guto, que... Ah, você não fala... Que diferença... Você e o Guto são irmãos mesmo? Como vocês podem ser tão diferentes? Você deve ser adotado... (CÍNICA) Bye, bye, seu vegetal!

(SAI. NANDO COMEÇA A CHORAR. GROSSAS LÁGRIMAS ESCORREM PELOS SEUS OLHOS E UM SOLUÇO QUE VEM DO FUNDO DE SUA ALMA TOMA CONTA DE TODO O SEU SER. BLACK-OUT RÁPIDO)

CENA 9

(MUDA LUZ. ENTRA GUTO, GRITANDO).

GUTO - Nando, comprei um presente pra você...

DORA - (ENTRA, CURIOSA) Presente? Que presente?

GUTO - O que a senhora sempre quis comprar para o Nando, mas nunca pôde?

DORA - (INCRÉDULA) Não me diga que...

GUTO - Isso mesmo...

DORA - (ABRAÇA O FILHO, FELIZ) Guto, meu filho, você não sabe o quanto estou feliz!

GUTO - (SAI E VOLTA COM UMA CADEIRA-DE-RODAS) Está aqui o seu presente, mano. A sua cadeira-de-rodas. Não é uma grande coisa, mas dá pra quebrar o galho... (NANDO AGRADECE O IRMÃO DIZENDO PALAVRAS DESCONEXAS) Não precisa me agradecer, mano. Você merece muito mais do que essa simples cadeira. Agora vamos dar um passeio.

(PÕE O IRMÃO NA CADEIRA E SAI COM ELE)

CENA 10

(ALGUNS DIAS DEPOIS, DORA ESTÁ NA SALA QUANDO É DESPERTADA POR UM SOLUÇO. A MULHER CAMINHA EM DIREÇÃO DO QUARTO DE PALOMA E VÊ A FILHA SE CHORANDO).

DORA - Paloma, o que aconteceu, minha filha?

PALOMA - (ABRAÇA A MÃE; CHORANDO MAIS) Mãe, me perdoa!

DORA - Perdoar o quê?

PALOMA - Juro que não queria, mãe, mas estávamos sozinhos na sala, o perfume dele tomando conta de tudo... ele me tocando...Não deu pra segurar... (COM UM FIO DE VOZ) Aconteceu...

DORA - Você... Você transou com o Edu, filha?

PALOMA - (ENVERGONHADA) Eu tentei evitar, mas foi mais forte que eu...

DORA - Filha, eu também já tive sua idade e sei como são essas coisas. Seu pai e eu fomos pra cama bem antes de ficarmos noivos. Eu entendo a sua situação... Eu só espero que vocês tenham se prevenido... (ENXUGA AS LÁGRIMAS QUE ESCORREM PELOS OLHOS DA FILHA) Agora enxuga essas lágrimas, vai...

PALOMA - (EMBARAÇADA) A coisa é mais séria!

DORA - Não me diga que você... (DESMONTA)

PALOMA - Eu estou esperando um filho! Minha menstruação estava atrasada, comecei a sentir enjôos freqüentes, desconfiei logo e fui imediatamente comprar aquele teste de gravidez na farmácia. Fiz exame e deu positivo.

DORA - Minha filha, uma gravidez, agora?

PALOMA - Eu e o Edu já conversamos e acertamos tudo. A gente quer e precisa se casar o mais depressa possível.

DORA - Você não faz idéia de como vai mudar sua vida daqui pra frente. Eu conversei tanto com você sobre sexo... Um filho. O que você irá pegar no colo daqui há nove meses vai ser um ser humano e não essas bonecas que enfeitam seu quarto... Mas tudo bem, eu não estou aqui pra jogar pedras em você. Eu, no papel de mãe, só quero o melhor pra você. Já que aconteceu, é necessário assumir a responsabilidade... À noite a gente conversa com o Guto... Ele vai entender!

PALOMA - (ABRAÇA A MÃE) Ô mãe, eu amo você!

(BLACK-OUT)

CENA 11

(MÁRCIA ENTRA. NANDO ESTÁ SENTADO NA SUA CADEIRA-DE-RODAS. PARECE ESTAR EM OUTRO MUNDO).

MÁRCIA - Dora! (PARA NANDO) Ô moleque, sua mãe está aí? (TENTA FAZER COM QUE O GAROTO PRESTE ATENÇÃO NELA) Ô garoto, tô falando com você... (DÁ UM FORTE TAPA NA CABEÇA DO MENINO) Ah, esqueci que você não fala... (DORA ENTRA E FICA ESPIANDO, ESCONDIDA) Olha só: o retardadinho ganhou uma cadeira-de-rodas. Agora não vai mais andar naquela carroça imunda. Pelo menos agora não vai ficar se rastejando no chão como um verme nojento.

DORA - (FURIOSA, AGARRA MÁRCIA) Verme nojento é a puta que te pariu... (ESBOFETEIA MÁRCIA)

MÁRCIA - (ASSUSTADA) Dora!

DORA - Que amiga fui arranjar: cínica, mentirosa e traiçoeira. Uma cobra peçonhenta dentro da minha própria casa e fingindo ser minha amiga. Agora entendi o porquê que o Nando estava agitado aquele dia. Ele queria me alertar a seu respeito, sua cadela ordinária! (DERRUBA A MULHER NO CHÃO E PRENSA SUA CABEÇA NO ASSOALHO) Sabe o que eu deveria fazer com você? Esmagar sua cabeça como que se esmaga uma cabeça de cobra! Agora você vai sentir na carne tudo o que o Nando sentiu quando estava sendo humilhado por você. (LEVANTA A MULHER DO CHÃO. PARA NANDO) Veja, Nando. (DÁ UMA FORTE BOFETADA NA CARA DELA) Esse é por mim. (DÁ MAIS DUAS BOFETADAS) E esses dois são por você. (DORA ADQUIRE FORÇAS DE HOMEM) Agora desapareça da minha casa. (ABRE A PORTA E EMPURRA A MULHER ESCADA ABAIXO. ELA GRITA. PARA NANDO) Nando... eu juro que essa ordinária nunca mais vai chegar perto de você, meu filho.

GUTO - (DESCE DO SEU QUARTO) Que barulho foi esse, mãe?

DORA - Nada, não, filho. Foi a Márcia, aquela ordinária, que maltratava o Nando... Mas já tratei disso, e ela nunca mais vai entrar aqui em casa. (PAUSA TENSA. MUDA DE ASSUNTO) Guto, preciso lhe dizer uma coisa...

GUTO - Diga, mãe.

(PALOMA ENTRA EM CENA, TRÊMULA).

DORA - Guto, a Paloma vai se casar com o Edu.

GUTO - (FELIZ) Mas que maravilha! Quando?

DORA - Daqui um mês, no máximo!

GUTO - Mas, por que a pressa?

DORA - (EMBARAÇADA. PALOMA ENGOLE EM SECO) Porque... Ela está grávida!

GUTO - (IRÔNICO E IRADO) Que notícia ótima!!! Quem é o pai? Se é que você sabe quem é o pai, não é, sua vagabunda?

PALOMA - Não foi culpa minha!

GUTO - E de quem foi, então? Minha? (SUAS EXPRESSÕES VÃO SE TORNANDO CADA VEZ MAIS MONSTRUOSAS) Mas que maravilha, enquanto a mãe não tem dinheiro nem para comprar uma roupa decente, a filha não consegue ficar com calcinha? (NANDO DEMONSTRA NO ROSTO SINAIS DE RAIVA) Vem aqui, Paloma, que vou lhe ensinar a fechar as pernas, sua vagabunda. Vou te quebrar inteira!

NANDO - (SUA RAIVA VAI AUMENTANDO CADA VEZ MAIS) Eu mato o Guto. (COMEÇA A SOLTAR URROS)

(DORA TENTA ACALMAR GUTO DEFENDENDO PALOMA E NANDO. NANDO BERRA E GUTO TENTA AVANÇAR, ATÉ SAIR DE CENA, FURIOSO. PALOMA TENTA ACALMAR NANDO).

PALOMA - Calma, Nando, calma... Eu vou embora daqui... Vou morar com o Edu. Cuide bem da mamãe pra mim, viu? E diga pro Guto, que apesar de tudo, eu o amo muito.

(OS TRÊS SE ABRAÇAM COMO SE FOSSE A ÚLTIMA VEZ QUE FICARIAM JUNTOS. CONGELAM EM POSIÇÃO DE FOTO. BLACK-OUT)

CENA 12

(LUZ SOBE EM RESISTÊNCIA. ESTAMOS NA MESMA MATA EM QUE DORA DEU À LUZ A NANDO. ENTRA PALOMA, COM UMA EXPRESSÃO DE PROFUNDO SOFRIMENTO. SEUS PASSOS SÃO MILIMÉTRICOS. CARREGA UMA MALA. SUA RESPIRAÇÃO ESTÁ OFEGANTE. PARECE QUE CORREU MUITO. ELA CAMINHA PELO PROSCÊNIO E PÁRA NO CENTRO. ABRE A MALA E DE DENTRO DELA TIRA UMA CARTA. LÊ E CHORA. NESSA CARTA, EDUARDO DIZIA QUE ERA PARA ELA ESQUECÊ-LO, QUE ELE NÃO IRIA ASSUMIR O FILHO, POIS ESSE FILHO SÓ ATRAPALHARIA OS SEUS PLANOS. PALOMA TERIA ENTÃO, QUE ASSUMIR O FILHO SOZINHA. TUDO FOI POR ÁGUA ABAIXO: A FAMÍLIA, O CASAMENTO... SÓ RESTARIA MESMO, O FILHO.

TODOS OS SONHOS, AMORES, CONQUISTAS, FELICIDADES, SE TRANSFORMARAM EM DESILUSÕES, PERDAS, DILACERAMENTO E MUITA DOR. NÃO LHE RESTA MAIS NADA. TUDO SE PERDEU.

CHORA DESESPERADAMENTE AO LER AQUELA CARTA. PENSA NOS MOMENTOS FELIZES EM QUE VIVEU AO LADO DE EDUARDO. TUDO VEM EM SUA CABEÇA COMO UMA AVALANCHE DE IMAGENS. AS CENAS SOBREPÕEM-SE UMA DAS OUTRAS DE MANEIRA NÃO LINEAR, FRAGMENTADAS, DA MESMA FORMA COMO OS PENSAMENTOS SURGEM NAS NOSSAS CABEÇAS: DESORDENADOS, MAS CHEIOS DE SIGNIFICADOS. OLHA PARA A BARRIGA. PENSA NA CRIANÇA. NOS SEUS OLHOS, O DESEJO DE ASSASSINAR AQUELA CRIANÇA QUE SÓ TROUXE DESGRAÇA EM SUA VIDA. COMEÇA A BATER VIOLENTAMENTE NA BARRIGA. ELA TENTA A TODO CUSTO, EXPULSAR A CRIANÇA DO SEU ÚTERO. NUM PLANO ACIMA, ESTÁ O "FETO" DE PALOMA. A IDÉIA É PASSAR O SOFRIMENTO DO BEBÊ NO VENTRE MATERNO. O ATOR QUE INTERPRETAR O BEBÊ DEVERÁ ESTAR NU, ENVOLVIDO POR UM PLÁSTICO, DOS PÉS A CABEÇA, EM POSIÇÃO DE FETAL. ELE SE MEXE CONFORME PALOMA BATE EM SUA BARRIGA. A CENA É TENSA E DRAMÁTICA. A JOVEM NÃO ENCONTRA FORÇAS E ESTRESSADA CAI NO CHÃO.FICA ASSIM POR ALGUM TEMPO. OLHA PARA O LADO E VÊ A MALA ABERTA. LEVANTA-SE E REVIRA TODA A ROUPA DA MALA. POR FIM ENCONTRA UMA AGULHA DE TRICÔ. PEGA-A E OLHA-A, RINDO, PENSANDO TER ENCONTRADO UMA SOLUÇÃO PARA O SEU PROBLEMA. DEITA-SE NOVAMENTE E PENSA NUM JEITO DE INTERROMPER AQUELA GRAVIDEZ INDESEJADA. OLHA PARA A AGULHA. SEUS OLHOS ESTÃO FIXOS NAQUELE OBJETO COMO NUM RITUAL MACABRO. VAI ENFIAR A AGULHA NA VAGINA, MAS PERDE A CORAGEM. SEGUNDA TENTATIVA: TENTATIVA FRUSTRADA. TERCEIRA TENTATIVA: OLHA PARA A AGULHA E ACHA QUE MAIS NADA VALE A PENA. VIOLENTAMENTE DÁ UMA ESTOCADA COM A AGULHA EM SUA VAGINA E PÕE UM PONTO FINAL NESSA HISTÓRIA TODA. OS GRITOS DE HORROR E DOR DE PALOMA E DO BEBÊ É MESCLADO COM O FORTE BATER DE UM TAMBOR. BLACK-OUT)

EPÍLOGO

(LUZ SOBE EM RESISTÊNCIA. NOVAMENTE ESTAMOS NA CASA DE DORA. OS TRÊS, DORA, GUTO E NANDO ESTÃO NO CENTRO DA SALA. VESTEM LUTO POR PALOMA. A JOVEM MORREU APÓS PRATICAR O ABORTO. DORA ESTÁ SEM OBJETIVOS, SEM EXPECTATIVA DE ESPÉCIE ALGUMA. QUER MORRER JUNTO COM A FILHA. GUTO SE SENTE CULPADO PELA MORTE DA IRMÃ)


GUTO - (CHORA. QUEBRA O GELO) Eu estava nervoso, mãe. Ela não podia ter ido embora. Ela sabe como eu sou, sempre soube. Como me sinto culpado pela morte dela.

DORA - (INCONFORMADA) Não se sinta culpado, Guto. (TIRA UMA CARTA AMASSADA DO BOLSO) Veja, esta carta foi encontrada junto do corpo de Paloma. Aqui, o Edu dizia que não queria mais se casar e principalmente assumir a criança. Ela se sentiu culpada, perdida, e fez tudo isso.

GUTO - Eu não queria falar daquele jeito com ela. É que eu levei um choque quando soube... Merda de vida. Nem que eu viva cem anos, vou conseguir esquecer o que fiz pra ela.

DORA - (SE FAZ DE FORTE) Filho, não fique assim... aconteceu. Ninguém pode prever o futuro. Não é a gente que traça o nosso destino. Não consigo explicar o que sinto. Não dá prá dizer com palavras o que uma mãe sente quando vê o seu próprio filho morto. Preferia mil vezes morrer do que ver um filho meu num caixão. (SOLTA UM GEMIDO GROSSO) Filho, me dê forças pra continuar vivendo, por favor. Me ajude a criar o Nando. A vida dele depende da minha. Eu preciso compreender... Promete que vai ficar pra sempre do meu lado, Guto, promete?

GUTO - Prometo, mãe. Juro por tudo que é mais sagrado que você nunca vai ficar desamparada.

DORA - Eu pensei que estava tendo um pesadelo quando vi o caixão da Paloma entrar no túmulo. Os coveiros enterrando a minha menina com a maior frieza... O Edu chegando ao cemitério e depois de ter certeza que era ela, sair correndo sem dizer uma palavra. Mas aí fui ver que não era pesadelo, não. Era realidade. A mais pura realidade...

GUTO - Ela era tão jovem... Cheia de sonhos! Tinha toda a vida pela frente. Ai, como dói. Como queria que o tempo voltasse atrás. Como queria estar do lado da Paloma neste momento.

(NESSE INSTANTE, NO PLANO ALTO, SURGE O ESPECTRO DE PALOMA. A GAROTA ESTÁ VESTIDA DE NOIVA E TEM UM VÉU COBRINDO SEU ROSTO).

GUTO - Como queria que ela me perdoasse, mãe.

PALOMA - (COM A VOZ SUAVE) Eu já te perdoei, meu irmão querido.

GUTO - (SENTE UM CALAFRIO) Mãe, a Paloma...

DORA - O quê?

GUTO - (MÍSTICO) Sinta, mãe. Parece que a Paloma está aqui, com a gente.

DORA - Eu não sinto isso, filho. Por quê? Eu queria pelo menos um sinal...

(NANDO BALBUCIA)

GUTO - (COM CARINHO, PARA O IRMÃO) O que, Nando?

NANDO - (COM DIFICULDADE) Pegue essa carta...

GUTO - Carta? Que carta?

NANDO - Aqui, no meu pé.

(GUTO PEGA UMA FOLHA DE PAPEL ABERTA DO PÉ DE NANDO)

GUTO - (LÊ; ANTES PERGUNTA) O que é isso? "Para a mamãe". (LÊ EM VOZ BAIXA E SE EMOCIONA) Foi você que escreveu isso, Nando? (NANDO AFIRMA) É lindo demais, mano!

DORA - (ANSIOSA) Fala logo, Guto, o que o Nando diz na carta?

GUTO - (LÊ PARA A MÃE. NO ÁUDIO OUVIMOS A VOZ DE NANDO, BEM ARTICULADA) "Mãe, é necessário encontrar forças, mesmo depois de ter passado pelo que você passou. A gente tem que encarar a morte sem medo. Não se pode ir contra as leis do destino. Não sei como descrever o que eu sinto por você. Mesmo sabendo da minha deficiência, enfrentou tudo e todos para me deixar nascer. Você foi à única pessoa que nunca se envergonhou de mim. Obrigado por me deixar nascer. Obrigado por me aceitar assim.

(GUTO PEGA UMA FLOR VERMELHA QUE ESTÁ NO BOLSO DA CAMISA DE NANDO E A COLOCA NO PÉ ESQUERDO DO MENINO, QUE OFERECE PARA A MÃE)

GUTO - Aceite essa flor como prova do meu agradecimento por tudo que você me fez. Te amo! Nando".

(DORA, COM OS OLHOS CHEIOS DE LÁGRIMAS PEGA A FLOR DO PÉ ESQUERDO DO FILHO E O ABRAÇA, EMOCIONADA. GUTO, TAMBÉM EMOCIONADO, ABRAÇA OS DOIS. PALOMA, DO PLANO ALTO, ESTENDE AS MÃOS EM DIREÇÃO DELES, ABENÇOANDO SUA FAMÍLIA. BLACK-OUT FINAL)

FIM

NOTA - Esse texto foi baseado no filme "Meu Pé Esquerdo" escrito por Christie Brown, dirigido por Jim Sheridan e tendo como protagonista, o ator Daniel Day-Lewis. Não me mantive fiel à história do filme e do romance. Apenas aproveitei o tema do preconceito em relação aos portadores de necessidades especiais, e transportei esse tema para o meu texto, além, é claro, de criar novas tramas e personagens que não existiam no romance e nem no filme. Procurei também deixar a história bem "brasileira", com situações do nosso cotidiano.

 

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Atualizado em: Sex 14 Mar 2008

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