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LÁ NA TERRA DO CONTRÁRIO

PERSONAGENS:

 

FELIPE

NATÁLIA

CORNÉLIO

CHIFRONÉSIA

AMANDA

LEDESMA

BABY

PADRE

COROINHA

RAPAZ DO CLUBE

MOÇAS E RAPAZES

ÉPOCA: Atual

CENÁRIO: Vários prédios no fundo do palco representando uma cidade grande. Nos prédios estão acesas algumas luzes de alguns apartamentos. Esse é a única parte fixa do cenário. O resto do cenário é móvel. Para a danceteria duas mesas e quatro cadeiras de bar, um globo e strobo. Para a praça dois bancos de madeira. Para a casa de Chifronésia um sofá de dois lugares. Para o clube uma cadeira dessas que ficam à beira da piscina, com guarda-sol e toalhas de banho. Para o ponto de ônibus, um caibro pintado de verde e escrito "ponto de ônibus" em preto.

PRÓLOGO

(DANCETERIA. UMA MÚSICA ALEGRE VIBRANTE É OUVIDA NUM VOLUME QUASE QUE ENSURDECEDOR. AS LUZES PISCAM DE UMA FORMA QUE NÃO DÁ PARA IDENTIFICAR DIREITO QUEM ESTÁ LÁ. UM GRUPO DE JOVENS ENTRA PELO LADO DIREITO E UM OUTRO GRUPO PELO LADO ESQUERDO DO PALCO SE ENCONTRANDO NO CENTRO E SE ENCARANDO. A PRIMEIRA IMPRESSÃO QUE SE TEM, É QUE SE TRATA DE UMA BRIGA DE "GANGUES". MAS É UM TREMENDO ENGANO. OS JOVENS QUEBRAM O CLIMA E COMEÇAM A DANÇAR, OCUPANDO TODOS OS ESPAÇOS DISPONÍVEIS. NADA PARECE PERTURBAR A ALEGRIA DELES. FELIPE ESTÁ SENTADO NUMA MESINHA, SOZINHO E MEIO ISOLADO. BEBE E FUMA. ESTÁ NUMA FOSSA TREMENDA. DE REPENTE, OLHA PARA A PISTA E OBSERVA NATÁLIA, QUE ESTÁ DANÇANDO NO CENTRO, ANIMADÍSSIMA, COM SUA AMIGA AMANDA. ELA PERCEBE QUE O RAPAZ ESTÁ OLHANDO PARA ELA E OLHA TAMBÉM. ELE SORRI MALICIOSAMENTE E DEPOIS PISCA UM OLHO PARA ELA. ELA FINGE QUE NÃO VIU E COCHICHA COM AMANDA. FELIPE PEGA UM GUARDANAPO E ESCREVE UM BILHETE. PEDE PARA UM AMIGO ENTREGAR ESSE BILHETE PARA A MENINA. NATÁLIA RECEBE O BILHETE E LÊ. MOSTRA UMA CERTA SATISFAÇÃO E EXIBE O PAPEL PARA AMANDA. FELIPE, IMPACIENTE, ESPERA UMA RESPOSTA. NATÁLIA OLHA PARA ELE E ACENA AFIRMATIVAMENTE COM A CABEÇA. O RAPAZ DÁ UM PULO DE ALEGRIA E SAI, FELIZ. NATÁLIA, QUANDO PERCEBE A SAÍDA DO RAPAZ, CORRE ATRÁS DELE, MAS NÃO O ALCANÇA. VOLTA DESOLADA E CAMINHA PARA O LADO ESQUERDO DO PALCO. TODOS SAEM E A MÚSICA CESSA)

CENA 1

(QUARTO DE FELIPE E QUARTO DE NATÁLIA. OS QUARTOS DE AMBOS FICAM NO PROSCÊNIO. NÃO HÁ MÓVEL ALGUM. O DE NATÁLIA FICA À ESQUERDA E O DE FELIPE À DIREITA DO PALCO. CADA UM TEM O SEU FOCO DE LUZ. FOCO SOBRE NATÁLIA)

NATÁLIA - (DÁ SEU DEPOIMENTO PARA O PÚBLICO) Tudo começou no domingo passado numa danceteria. Eu não costumo frequentar danceterias porque não sei dançar direito, mas estava de saco cheio de não fazer nada e só fui porque a Amanda insistiu muito... Graças a Deus que ela insistiu. Se não tivesse ido, não iria conhecer aquele "pedaço de mal-caminho". Pena que ele age como todos os outros meninos. Fica olhando pra gente com uma cara de bobo e depois dá uma piscadinha. Que cantada mais furada! E ainda me escreveu um bilhete marcando um encontro numa pracinha perto do colégio. Ainda estou indecisa. Não sei se vou ou não vou. Não sei se vai valer a pena. Mas que esse carinha mexeu comigo, isso mexeu. Ele marcou o encontro pra hoje às nove horas da noite. Vou precisar matar aula... Mas o maior problema é que eu não fiquei com nenhum menino antes. Pra vocês terem uma idéia, eu nunca beijei nenhum garoto na boca Ai, tremo só de pensar como vai ser... Ah, se pelo menos eu fosse homem. Talvez as coisas seriam diferentes...

(APAGA O FOCO DE NATÁLIA. FOCO EM FELIPE)

FELIPE- Eu tava em casa, vendo TV, quando chegou um amigo meu e me convidou pra ir na danceteria. Eu tava um bagaço. Tinha trabalhado e estudado a semana inteira e queria ficar em casa descansando e vendo as baboseiras de todo domingo na TV. Mas ele acabou me convencendo e fomos pra lá. E valeu a pena porque acabei conhecendo aquela gatinha... Uh, fiquei louco!!! No bilhete que escrevi pra ela, marquei um encontro pra hoje à noite... Tenho medo que ela não apareça!.. Gozado, nunca senti por ninguém o que eu sinto por ela. Não dá pra dizer com palavras... Espero que ela não seja como essas meninas vulgares que a gente encontra toda a hora... Algo me diz que ela tem alguma coisa que as outras não têm e que tá me deixando louco... Mas se ela for como as outras, juro que nunca mais vou correr atrás de mulher. Nunca mais!

(APAGA O FOCO DE FELIPE)

CENA 2

(PRAÇA PÚBLICA. É NOITE. MOVIMENTAÇÃO HABITUAL. ENTRAM EM CENA COM CADERNOS E LIVROS NAS MÃOS NATÁLIA E AMANDA)

AMANDA- Ô Natália era só o que faltava, eu ficar aqui de vela no dia do seu primeiro encontro com aquele carinha...

NATÁLIA - É que eu preciso de segurança, Amanda. Só de pensar naquele gostosinho, começo a tremer. Olhe como minhas mãos estão suadas. (IMPACIENTE) Ah, não quero ficar aqui, não. Vamos embora, vai.

AMANDA - (FURIOSA) Essa não, Natália, por sua causa eu matei aula e você sabe que eu tô fodida em Matemática. E aquele viado do professor não vai com a minha cara e pode até me reprovar. Se você der mancada comigo e desistir , você vai ver...

NATÁLIA - Então volta lá. Vai assistir à aula de Matemática, vai.

AMANDA - Tudo bem, eu vou voltar. Mas nunca mais conte comigo, viu, sua grossa! (LEVANTA)

NATÁLIA - (PUXA AMANDA PELO BRAÇO, CONFIDENCIAL) Amanda, você tá menstruada!

AMANDA - (APAVORADA) O quê?

NATÁLIA - É, mas por que esse espanto? Vai dizer que você...

AMANDA - (SEM JEITO) Bem...

NATÁLIA - (ADMIRADA; FALA ALTO) Você nunca ficou menstruada????

(AS PESSOAS QUE ESTÃO NA PRAÇA OLHAM PARA AS MENINAS)

AMANDA - Natália, você não vai contar isso pra ninguém, né?

NATÁLIA - Pode ficar sossegada... Bem, vamos pra minha casa. Não tem ninguém lá, lhe explico tudo a respeito da menstruação e te empresto um modess. (NATÁLIA TIRA SUA JAQUETA E OFERECE PARA A AMIGA) Põe a jaqueta na cintura pra disfarçar e vamos embora, vai...

AMANDA - Mas e o carinha?

NATÁLIA - Fica pruma próxima. Quando acontecem esses imprevistos, é porque o relacionamento não ia dar certo...

(SAEM. DO LADO OPOSTO SURGE FELIPE. ELE OLHA PARA O RELÓGIO, VERIFICA SE NATÁLIA ESTÁ NA PRAÇA, ANDA DE UM LADO PARA O OUTRO, VOLTA A OLHAR NO RELÓGIO. SENTA-SE NO BANCO. ESTÁ IMPACIENTE. TIRA UM CIGARRO DO BOLSO. FUMA. DÁ TRÊS OU QUATRO TRAGADAS E O JOGA NO CHÃO, PISANDO EM CIMA. DEPOIS CAMINHA ATÉ O SEU FOCO, QUE O ISOLA)

FELIPE - Puta mancada! Eu estava tão ansioso pra ver ela de novo e ela dá esse furo?! Fiquei como um trouxa, um panaca esperando por ela... Queria nunca mais me apaixonar. Mas se eu encontrar com ela novamente, ela vai ter que me dar uma boa, mas uma boa desculpa mesmo.

(APAGA O FOCO DE FELIPE E DO OUTRO LADO ACENDE O FOCO DE NATÁLIA)

NATÁLIA - Eu não tive culpa. Como podia adivinhar que justo naquele dia a Amanda fosse ficar menstruada? Eu não podia deixar ela sozinha, não é? Foi mancada minha, eu sei. E agora, o que será que ele está pensando a meu respeito? Que sou uma furona, irresponsável, uma garota indecisa que não sabe o que quer?!... Não vejo a hora de me encontrar com ele e esclarecer tudo. Oh, mundo cruel...

(APAGA O FOCO)

CENA 3

(CASA DE CHIFRONÉSIA. ELA ESTÁ VARRENDO A CASA. ESTÁ MAL VESTIDA, COM CREME NO ROSTO, BOBS NO CABELO E CHEIA DE PREGADORES DE ROUPA NO AVENTAL. TOCA A CAMPAINHA. ELA VAI ATENDER. É O ENCONTRO DE BUFÕES. ENTRA CORNÉLIO, UM CAIPIRA. ELE É ALTO, MAGRO, CABELO VERMELHO, COM OS DENTES PODRES, PERNAS TORTAS E PEITO-E-POMBO. USA TAMBÉM UM ÓCULOS FUNDO DE GARRAFA. ELA SE ASSUSTA)

CHIFRONÉSIA - Quem é o senhor? (ELE PÁRA E FICA OLHANDO PARA ELA) O que é isso? Por que é que o senhor está me olhando dessa maneira?

CORNÉLIO - É que eu tô que num güento mai de vontade de casá. A sinhora num qué sê minha marida?

CHIFRONÉSIA- Se o senhor repetir essa bobagem eu chamo a polícia. Fique quieto!

CORNÉLIO - Mai ficá quieto na frente da sinhora eu num güento... Se a sinhora pará num sinar de trânsito, ninguém mai vai passá...

CHIFRONÉSIA - Por quê?

CORNÉLIO - Ah, o sinar vai ficá vermeio pra tudo os lado, né?

CHIFRONÉSIA - (RI) O senhor é engraçado!

CORNÉLIO - Engraçado é ligá ventiladô em piquenique de baiano, né? Só farofa que avoa!... (CHARMOSO) Sabe que a sinhora é bunitona? Se fosse um porco dava pra fazê uns quinhentos metro de lingüiça... Ah, dona-muié, casa com eu. Tô tão doido de vontade de casá que inté tô ficano um bestaião.

CHIFRONÉSIA - Eu não. Vou casar com um moço que é uma jóia... Ele é contador...

CORNÉLIO - Ah, se qué marido pá contá pega eu, né, qui eu sei contá inté vinte!

CHIFRONÉSIA - Então fugiu da escola!

CORNÉLIO - Fugi coisa ninhuma. Só de jardim da infância fiz uns oito ano.

CHIFRONÉSIA - ...E o senhor não tem namorada?

CORNÉLIO - Quando eu tive a úrtima namorada o Corcovado inda era um montinho de areia...

CHIFRONÉSIA - Onde foi que o senhor aprendeu tanta bobagem?

CORNÉLIO - Lá na minha casa. A sinhora num qué conhecê minha casa pra vê se serve prá mora lá como minha marida?

CHIFRONÉSIA - Mas o senhor é horrível! Parece uma bananeira...

CORNÉLIO - A sinhora num qué virá macaco e me estraçaiá, dona?

CHIFRONÉSIA- Chiii, essa conversa tá engrossando! Acho melhor parar por aqui... E o senhor é um caipira!

CORNÉLIO - Frango tamém é caipira, né, mai ele dá suas bicada...

CHIFRONÉSIA- Chega. O senhor perdeu o seu tempo comigo... Vá embora daqui.

CORNÉLIO - (TRISTE) Num faiz mar, puxa vida, num faiz mar... Um dia eu acerto e caso cuma muié que nem que seja de prástico... Eu já tentei com uma. Mas na nossa primeira noite de amor, ela já me decepcionou. Deitei ela de bruço, agarrei e quando dei uma mordida na bunda dela, ela soltou um peido na minha cara e ainda saiu voando pela janela...

CHIFRONÉSIA - (PARA O PÚBLICO) Como é chato ser gostosa. (O CAIPIRA VAI SAINDO) Espera... (ELE PÁRA) eu aceito me casar com o senhor...

CORNÉLIO - (FELIZ) Iuhh! Num falei? Falam di mim, mai eu num nego fogo!

(PEGA CHIFRONÉSIA NOS BRAÇOS, LIMPA A BOCA COM A MÃO E LHE BEIJA, FAZENDO UM ENORME BARULHO. BLACK-OUT)

CENA 4

(FOCO SOBRE FELIPE. ELE ESTÁ DEITADO NO CHÃO, SEM CAMISA E COM UM MINÚSCULO SHORT. ESTÁ DORMINDO E TENDO UM SONHO ERÓTICO. SE MASTURBA. DO SEU LADO ESTÁ UMA MULHER. ELA ESTÁ DE CALCINHA E SUTIÃ E PROVOCA O RAPAZ. ELA DEVE ESTAR ILUMINADA POR UMA CONTRA-LUZ AZUL. OUVE-SE BATIDAS NA PORTA DO QUARTO DO RAPAZ)

MÃE DE FELIPE - (VOZ EM "OFF") Felipe, acorda!!!!!! Tá na hora de ir pro colégio...

FELIPE- (ACORDANDO ASSUSTADO. A MULHER DESAPARECE) Saco!!! Já vou mãe!... (PARA A PLATÉIA) Porra, essa garota não sai da minha cabeça. Fico virando na cama, de um lado para o outro, só pensando nela!!! Naquela pele macia, naqueles lábios, naquele olhar... Até quando vou ficar nessa agonia?

(APAGA O SEU FOCO E ACENDE O FOCO DE NATÁLIA QUE CONVERSA COM LEDESMA, UMA GAROTA QUE FOI PICADA PELA MOSCA TSÉ-TSÉ, A MOSCA DO SONO E VIVE SONÂMBULA)

NATÁLIA - ...Até quando, Ledesma?

LEDESMA - (BOCEJA, FALANDO MOLE) E eu sei lá!

NATÁLIA - Não consigo parar de pensar nele. Onde quer que eu olhe eu vejo ele: no meu caderno, no prato de comida, no vaso sanitário... Em tudo que é lugar!

LEDESMA - Quem mandou se apaixonar?

NATÁLIA - Eu não tive culpa, Ledesma. Rolou, não deu pra segurar...

LEDESMA - Você acha que ele te esqueceu? (VAI DEITANDO NO CHÃO)

NATÁLIA- Não sei. O que sei é que não sei quando vou ver ele de novo... Ai, o amor é um sentimento tão filho da puta. A gente ama e não é correspondida. Fica dias, semanas, meses, anos esperando pela pessoa amada, e ela nem sabe que você existe! Mas o meu caso foi diferente. Fui eu que furei. (FURIOSA) Droga, justo naquele dia tinha que chover na horta da Amanda?? (LEDESMA ESTÁ DORMINDO E RONCANDO) Ô, mosca-morta... Ih, o casamento do Cornélio com a Chifronésia é hoje!!!

(FOCO DESCE EM RESISTÊNCIA ATÉ O BLACK-OUT)

CENA 5

(MÚSICA DE CASAMENTO: "CARRUAGENS DE FOGO". LUZ SOBE EM RESISTÊNCIA REVELANDO UMA IGREJA. O PADRE ESTÁ NO CENTRO DO PALCO COM UMA BÍBLIA NA MÃO. DO SEU LADO ESTÁ O COROINHA OUVINDO JOGO DE FUTEBOL NUM RADINHO DE PILHA. O PADRE, VEZ OU OUTRA PEDE PARA ESCUTAR PARA SABER O RESULTADO DO JOGO. LEDESMA ESTÁ COM AMANDA E NATÁLIA E DORME NO OMBRO DE NATÁLIA. CHIFRONÉSIA ESTÁ À ESPERA DO NOIVO NO ALTAR, TRAJANDO TERNO E GRAVATA, UM BERMUDÃO DO HAWAI E UM SAPATO DE BOIADEIRO. ELA ESTÁ BRINCANDO COM UM "MINI-GAME". LUZ NA PLATÉIA. CORNÉLIO APARECE NO FUNDO TRAJANDO UM VESTIDO DE NOIVA E SEGURA UM ESPANADOR DE PÓ NO LUGAR DO BUQUÊ DE FLORES. SEUS PASSOS SE ASSEMELHAM AOS DOS ATLETAS NA CORRIDA DE SÃO-SILVESTRE, SÓ QUE ELE REALIZA ESSES MOVIMENTOS EM CÂMERA LENTA. ATRAVESSA A PLATÉIA E SOBE AO PALCO. CHIFRONÉSIA ENTREGA O MINI-GAME A NATÁLIA, QUE CONTINUA O JOGO. O PADRE REALIZA A CERIMÔNIA, FAZ TODAS AS PERGUNTAS NECESSÁRIAS E APÓS DECLARAR O TRADICIONAL "EU VOS DECLARO MARIDO E MULHER", FICA ATENTO AO RADINHO E GRITA: "GOOOOOOOOOOLLLLLLL". TODOS SE ASSUSTAM. CORNÉLIO JOGA O ESPANADOR E DUAS MOÇAS DISPUTAM A POSSE DO MESMO. NA SAÍDA, OS CONVIDADOS JOGAM FEIJÃO NOS NOIVOS, QUE SAEM. UMA MÚSICA BREGA É TOCADA E TODOS DANÇAM, FAZENDO COREOGRAFIAS DE ACORDO COM A MÚSICA, ATÉ DESAPARECEREM. NATÁLIA COMEÇA A RIR SEM CONTROLE E LEDESMA, QUE TINHA DESABADO NO CHÃO, ACORDA E VAI ATÉ A AMIGA)

LEDESMA - Do que você tá rindo, Natália?

NATÁLIA - (RINDO SEM CONTROLE) É muito engraçado, Ledesma. Eu queria ser uma mosca só pra saber como vai ser a noite de núpcias deles. Deve ser a maior comédia...

CENA 6

(TOCA A MÚSICA "DOCINHO, DOCINHO" NA VITROLA. CORNÉLIO E CHIFRONÉSIA ADENTRAM NO PALCO, UM PELO LADO ESQUERDO E OUTRO PELO DIREITO. CHIFRONÉSIA ESTÁ COM UMA CAMISOLA HORROROSA E CORNÉLIO AINDA ESTÁ VESTIDO DE NOIVA. COMEÇAM A DANÇAR E VÃO SE DESPINDO FICANDO APENAS COM A ROUPA DE BAIXO. CORNÉLIO FICA SÓ DE CEROULA E PERCEBE-SE UM ENORME CORAÇÃO NA PARTE TRASEIRA DESTA COM UMA FLECHA ATRAVESSANDO-O. CORNÉLIO CORRE ATRÁS DA MULHER QUE, MEIO QUE FOGE. A SITUAÇÃO SE INVERTE E AGORA É ELA QUE CORRE ATRÁS DELE. QUANDO CONSEGUE AGARRÁ-LO, JOGA-O NO CHÃO E PULA EM CIMA DELE. BLACK-OUT)

CENA 7

(LUZ SOBE EM RESISTÊNCIA. NATÁLIA ESTÁ NO CENTRO DO PALCO E CONTINUA RINDO)

NATÁLIA- Deve ser muito engraçado, Ledesma.

FELIPE - (DIRIGINDO-SE A LEDESMA) Ô garota, você não viu o... (A GAROTA DESABA NO CHÃO. O RAPAZ FICA SURPRESO AO VER NATÁLIA) Você?

NATÁLIA- Sim, sou eu... (REPETE COMO FELIPE) Você?

FELIPE - Sim, sou eu. Pensei que nunca mais fosse te encontrar.

NATÁLIA - Pois é. (O DIÁLOGO DOS DOIS DEVE SER MONÓTONO, POIS PROCURAM ASSUNTO PARA CONVERSAR)

FELIPE - Você não foi na praça, né?

NATÁLIA- Pois é. Eu fui, mas uma amiga tava junto comigo e o chico dela chegou...

FELIPE - Chico?

NATÁLIA - (À PARTE) Ih, falei bobagem. (TENTA CONSERTAR) O chico é o... é o... ah, meu Deus... é o... ah! é o namorado da minha amiga... Pois é.

FELIPE - O dia está quente, né?

NATÁLIA - Eu acho que vai chover.

FELIPE - Mas não tem nenhuma nuvem carregada no céu...

NATÁLIA - Nunca se sabe...(SILÊNCIO) Você se chama Felipe, não chama?

FELIPE - E você Natália, não é?

NATÁLIA - Hum, hum... (SILENCIO MORTAL)

FELIPE - Natália (APONTA O CÉU) o que é aquilo?

(NATÁLIA OLHA PARA CIMA E FELIPE DÁ UM BEIJO NA SUA BOCA. A GAROTA SE ASSUSTA E QUANDO ELE AFASTA SEUS LÁBIOS DOS LÁBIOS DELA, ELA O AGARRA E LHE BEIJA APAIXONADAMENTE. O RAPAZ CHEGA A FICAR ROXO, VAI PERDENDO O FÔLEGO E SOLTA UM PEIDO BARULHENTO. SE SOLTA DA GAROTA, INCOMODADO)

NATÁLIA - O que foi, Felipe?

FELIPE - Natália... peido pesa?

NATÁLIA - (PENSA) Hum... pelas leis da Física... deixa eu ver... O peido é constituído de gases. Uns fedem e outros não, uns são barulhentos e outros silenciosos, uns são peidos secos e os outros peidos molhados... Acho que só os peidos molhados pesam... Por quê?

FELIPE - Então eu acho que fiz besteira. Tchau, Natália.

NATÁLIA - Pega o meu telefone!

FELIPE - Não, hoje não. Me encontre amanhã no Clube de Campo, na piscina lá pelas três horas da tarde...

NATÁLIA - Eu te espero.

(FELIPE SAI CORRENDO. NATÁLIA CORRE PARA O SEU FOCO PULANDO DE ALEGRIA)

NATÁLIA - Eu beijei, beijei. Dei o meu primeiro beijo. Foi o maior beijaço!!!! Coitado do Felipe, até cagou na calça... (PARA A PLATÉIA) Sentiram o poder da gostosa aqui?! (SUSPIRA) Pelo menos agora eu sei o que é beijar. Não vou precisar ficar mentindo para as minhas amigas... Eu sei que elas também nunca beijaram. Que sensação estranha! O beijo até que era bom, quentinho e molhadinho. O que mais me incomodou foi aquela língua assanhada, que quase me deixou engasgada.

(APAGA O SEU FOCO. ACENDE O FOCO DE FELIPE)

FELIPE - (ANGUSTIADO) Tem uma coisa que está pesando na minha consciência... Há alguns meses eu... Bem, é difícil conversar com alguém sobre esse assunto. É um assunto muito delicado. Um assunto que não tive coragem de falar pra ninguém. Nem com os meus pais. Acho que se eles soubessem disso, me colocavam pra fora de casa. O problema é relacionado a minha... identidade sexual. A Natália nunca vai me perdoar. Vai levar um choque quando souber que eu sou... bicha! Pô, é difícil explicar. Nunca consegui sentir atração por menina nenhuma, mas quando via um menino, subia pelas paredes de tanto tesão. Até o dia em que um amigo meu tirou aquele pau duro da cueca e pediu pra que eu o masturbasse. Fiquei com medo, mas realizei meu desejo. A gente se via frequentemente e transamos uma vez, depois uma segunda, uma terceira, uma quarta, uma quinta, uma sexta, um sábado, um domingo... Eu procurei sair com meninas, mas na hora H o "bicho" não se animava e eu passava a maior vergonha... Até pensei que me transformaria num homem, pois me amarrei na Natália. Eu tava conseguindo, quando de repente aparecem os fantasmas do passado. É foda você ficar com uma menina e estar pensando num cara... A Natália é uma garota especial e preciso me abrir com ela e ver se ela me entende. Seria bem pior se eu contasse pra ela depois de estarmos namorando sério. Aí... aí eu não iria me perdoar nunca. Não dá pra tapar o sol com a peneira. Amanhã vai ser um dia infernal pra mim...

(CHORA. FOCO DESCE EM RESISTÊNCIA)

CENA 8

(ENTRA CORNÉLIO COM UMA ENORME BARRIGA. ELE ESTÁ SENDO AUXILIADO POR CHIFRONÉSIA, POIS A BARRIGA PARECE ESTAR PESADÍSSIMA. ESTÁ COM UM VESTIDO DE GESTANTE E FAZ A RESPIRAÇÃO DE CACHORRINHO. A CABEÇA DA CRIANÇA JÁ APARECE. CHIFRONÉSIA PÕE O MARIDO DEITADO NO CENTRO)

CORNÉLIO - Ai, Chifrô, chama arguém pá me ajudá. A borsa estorô e o bacuri já vai nascê.

CHIFRONÉSIA- Calma, meu amor, vou ver se chamo alguém...

CORNÉLIO - Rápido que tá nasceno. Ai, num guento mai

(ENTRAM AMANDA E LEDESMA)

CHIFRONÉSIA - Ledesma, ajuda que o meu filho tá nascendo.

LEDESMA - Mas o que vou fazer. Eu não sou parteira.

CORNÉLIO - Ai, vai nascê.

AMANDA - (ESTRANHA) Ei, Chifronésia não era pra você ter a criança?

CHIFRONÉSIA- Era, né. Mas não sei o que aconteceu que ele é quem acabou engravidando.

(LEDESMA DORME NUM CANTO)

AMANDA - Só gostaria de saber por onde a criança vai nascer... (VAI XERETANDO, AO VER QUE A CRIANÇA ESTÁ SAINDO PELO ÂNUS DE CORNÉLIO) Ah, meu Deus.

CORNÉLIO - Ai, tá nasceno.

CHIFRONÉSIA - Pega a criança, Ledesma. (A MULHER VÊ LEDESMA DORMINDO E FICA BRAVA)

AMANDA - Deixa eu pego a criança.

(CORNÉLIO GRITA E A CRIANÇA NASCE. NO ÁUDIO O SOM DE UM PEIDO ENSURDECEDOR. A CRIANÇA SAI DE DENTRO DELE COMO UMA ROLHA DE GARRAFA DE CHAMPANHE QUANDO É ABERTA. COMO UMA BOLINHA DE BORRACHA, BATE NA PAREDE QUICANDO DE UM LADO PARA O OUTRO E CAI NO COLO DE LESDEMA, QUE ACORDA. TODOS TAPAM O NARIZ DEVIDO AO ODOR. O BEBÊ É VERDE, TEM OS DENTES PODRES, BARBICHAS E DUAS ANTENINHAS DE MARCIANO)

AMANDA - (CAI DURA) Minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, o que é isso? Deus que me perdoe, mas isto não é uma criança, é um ET!

BABY - (ENGATINHA PARA CHIFRONÉSIA) Eu quero chupar uma teta.

CHIFRONÉSIA - (TRAZ BABY PARA O OUTRO LADO DO PALCO) Meu filhinho querido do coração da mamãe, ai que gutegute.

AMANDA - Não faz isso, Chifronésia que não foi cortado o cordão.. (O CORDÃO UMBILICAL ESTÁ ESTICADO E TEM MAIS OU MENOS TRÊS METROS DE COMPRIMENTO. AMANDA VAI FALANDO E PONDO A MÃO NELE) ...um-bi-li-cal! (DESMAIA)

CORNÉLIO - Corta o "imbigo", Chifrô... (CHIFRONÉSIA PEGA DA MALA UMA TESOURA DE JARDINEIRO E O CORTA) Ô porquera do pai...

BABY - Baby que tetê...

CORNÉLIO - (TIRA SEU SUTIÃ. UM ENORME PEITO FLÁCIDO CAI NA BOCA DO FILHO) O pai tem bastante leite.

(O MENINO MAMA BASTANTE. APÓS A REFEIÇÃO SOLTA UM ENORME ARROTO. BLACK-OUT)

CENA 9

(CLUBE DE CAMPO; À BEIRA DA PISCINA. NATÁLIA ESTÁ SENTADA NUMA CADEIRA, DE BIQUINI E COM UM RAIBAN PRENDENDO O CABELO. LÊ UMA REVISTA. ESTÁ ESPERANDO FELIPE CHEGAR. SEU OLHAR POSSUI UM BRILHO ENORME. SEM QUE ELA PERCEBA, FELIPE APARECE TRAJANDO UMA SUNGA, E FICA OBSERVANDO-A, ATÉ TOMAR CORAGEM E SE POR NA FRENTE DELA)

NATÁLIA - (ABRAÇANDO-O, SORRIDENTE) Felipe, meu amor...

FELIPE - (SE SOLTA DELA; FRIO) Não me abrace, Natália.

NATÁLIA - (ESTRANHANDO) Por quê?

FELIPE - Eu preciso te dizer uma coisa muito importante...

NATÁLIA - Fala.

FELIPE - (MEIO EMBARAÇADO) Eu quero terminar com você.

NATÁLIA - Mas a gente nem começou direito... E por quê?

FELIPE - (PROCURA UMA RESPOSTA) Porque... porque... porque eu não sinto mais nada por você. Estou apaixonado por outra menina...

NATÁLIA - Bem, se você quer assim... (MENTE) Ainda mais agora que eu tava saindo com o... (NÃO ENCONTRA O NOME) Com o... com o... com o...

FELIPE - Com o...?

NATÁLIA - Ninguém. Eu tô saindo com o NINGUÉM.

FELIPE - Tenta me entender, Natália. Você é bonita, legal, inteligente, mas não serve pra mim...

NATÁLIA- Tudo bem, Felipe... E fique sabendo que tem mais de mil homens querendo me namorar. Pena que eu ainda não os encontrei! (CHORA E ABRAÇA FELIPE) Por que você fez isso comigo, hein?

FELIPE- Não chora, Natália. Não chora senão eu choro também... (ASSOA O NARIZ NO OMBRO DELA)

NATÁLIA- Não consigo compreender. A gente tava tão bem! Lembra quando a gente se beijou pela primeira vez? A emoção que você sentiu foi tanta que até cagou na calça, lembra?

FELIPE - Natália... Eu... eu... jogo água fora da bacia...

NATÁLIA - O quê?

FELIPE - Jogo em outro time.

NATÁLIA - Não sabia que você jogava num time... Que interessante. É time do quê? Futebol, vôlei, basquete?...

FELIPE - Não é nada disso, porra...

NATÁLIA - Então o que é?

FELIPE - (RÁPIDO) Eu sou bicha... É isso, pronto, falei! (MAIS DEVAGAR) Eu sou bi-cha! Sou mona! Gosto de dar ré no quiabo, sentar no pepino...

NATÁLIA- (CHOCADA, AGE COMO QUEM RECEBEU UMA PAULADA NA CABEÇA) O quê?

FELIPE - É isso mesmo, Natália. Você não faz idéia do que estou passando agora. Você seria a última pessoa do mundo que eu queria magoar. Eu pensei que fosse sentir mais tesão por você, mas não consegui... Queria que me perdoasse!

NATÁLIA - Perdoar! Eu não tenho nada que te perdoar.A escolha é sua, bicha...

FELIPE - Então vai um convite... À noite eu trabalho numa boate gay, e meu nome artístico é Odete Furacão.. (SOLTA A FRANGA) Menina, tem cada bofe lá. Cruzes!!!! Fico doidinha ao ver o tamanho das necas. (VOLTA A SI) Desculpa por não ser o macho que você gostaria que eu fosse. Eu te iludi! Desculpa. (ESTENDE A MÃO) Amigas, então?

NATÁLIA - (ABRAÇA-O) Amigas! Você é sensacional!

FELIPE - Você também.

(AMBOS CHORAM. FELIPE VAI SAINDO LENTAMENTE E ELA FICA SENTADA, CHORANDO EM SILÊNCIO. ENTRAM LEDESMA E AMANDA CONDUZINDO BABY, QUE TEM NO PESCOÇO O CORDÃO UMBILICAL FEITO COLEIRA DE CACHORRO)

LEDESMA - (AO VER NATÁLIA) Olha a Natália ali, Amanda.

AMANDA- É mesmo... Nossa, ela tá com uma cara tão esquisita. O que será que aconteceu?

LEDESMA - (BOCEJANDO) Acho que brigou com o namorado.

(BABY ENGATINHA ATÉ NATÁLIA, QUE NÃO O VÊ)

AMANDA - Ué, cadê o Baby? (PROCURA) Baby, Baby. Onde esse menino se meteu, meu Deus?!

(BABY CUTUCA NATÁLIA E ELA AO VÊ-LO, GRITA ASSUSTADA. O MENINO COMEÇA A CHORAR)

AMANDA - (ENCONTRANDO-O) Ô Baby, você está aqui... (PARA NATÁLIA) Oi, Natália, não se assuste. Esse aqui é o Baby, o filho do Cornélio com a Chifronésia. (PARA BABY, QUE SOLUÇA) Calma, calma. Ai, meu Deus, e a Chifronésia que não aparece? E você, Natália, o que está fazendo sozinha aqui?

NATÁLIA- Vim me encontrar com o Felipe, mas... a gente terminou.

AMANDA - Mas, por quê? Vocês estavam tão bem!

NATÁLIA- Ele não curte mulher...

AMANDA - (TENTANDO ENTENDER) Peraí, você tá querendo me dizer que aquele deus grego, todo musculoso... que aquele gostoso... é gay?

NATÁLIA- Pois é.

AMANDA - (SUSPIRA) Ai, que desperdício! Como é que pode, hein? Tem tão pouco homem no mundo e os que ainda restam são florzinhas... Imagine, Natália, dois homens se beijando, os pêlos das coxas se enroscando e aquela coisa dura entrando no... (COM ÂNSIA) Ainda bem, Natália que ele foi sincero. Imagina se quando vocês fossem para cama, em vez de cumprir seu papel, ele virasse o rabinho e pedisse para você enfiar o dedinho? ... (VOLTA A SI) Desculpe... Mas me diga, como isso é possível?

NATÁLIA - Nem eu mesma sei. Mas não quero conversar sobre isso. Pretendo esquecer tudo... Ledesma, você passa o bronzeador em mim?

(LEDESMA QUE ESTAVA DORMINDO, ACORDA E COMEÇA A PASSAR O BRONZEADOR NA MENINA. APARECE UM RAPAZ ALTO E ATLÉTICO E FICA OBSERVANDO NATÁLIA. AMANDA CAMINHA ATÉ ELE E COCHICHA ALGO EM SEU OUVIDO. ELE SORRI, MALICIOSO.AMANDA TIRA O BRONZEADOR DAS MÃOS DE LEDESMA E ENTREGA ESTE AO RAPAZ, QUE IMEDIATAMENTE FAZ A TAREFA QUE LEDESMA ESTAVA FAZENDO, E COLOCA LEDESMA PERTO DE UMA CADEIRA. A GAROTA IMEDIATAMENTE "CAPOTA" POR CIMA DA CADEIRA E DORME)

AMANDA - Natália, você me desculpa, mas eu preciso ir embora. Tenho que levar o Baby pra mamar. O Cornélio já deve ter chegado.

NATÁLIA- Mas não é a Chifronésia a mãe dele?

AMANDA - É, mas quem amamenta é o Cornélio. Tchau, amiga. A Ledesma vai ficar aí te fazendo companhia...

(AMANDA SAI PUXANDO BABY PELO CORDÃO UMBILICAL. O RAPAZ CONTINUA PASSANDO O BRONZEADOR NAS COSTAS DE NATÁLIA)

NATÁLIA - (PENSA QUE QUEM ESTÁ LÁ É LEDESMA) Ledesma, como sua mão é grande e calejada. Nossa, que pegada gostosa, Ledesma. Ai, que delícia... (OLHA PARA A PERNA DO RAPAZ, SE ASSUSTA) Nossa, Ledesma que perna grossa e... peluda. Quanto tempo você não se depila? (O RAPAZ SEGURA A RISADA) Se você quiser, vamos lá em casa e eu faço uma depilação pra você com cera quente! (FICA ARREPIADA) Ai, Ledesma, que mão pesada... tô toda arrepiada... Desse jeito eu vou virar sapatão... (TEM UMA CRISE SUCESSIVA DE ARREPIOS. RELAXA) Por que você tá quieta, Ledesma? (AO VER O RAPAZ, SE ESPANTA) Que gato!!!

(DESMAIA NOS BRAÇOS DELE. O RAPAZ SAI DE CENA CARREGANDO A GAROTA COM UM SORRISO MAROTO. BLACK-OUT)

EPÍLOGO

(LUZ SOBE EM RESISTÊNCIA. VEMOS FELIPE NO PONTO DE ÔNIBUS VESTIDO COMO ODETE FURACÃO. VESTIDO CURTO, MEIA-CALÇA, SALTO ALTO E UMA PERUCA LOIRA. LIXA AS UNHAS. ENTRA CORNÉLIO E AO VER AQUELE "PEIXÃO", FICA BOQUIABERTO. O CAIPIRA CAMINHA ATÉ FELIPE E BELISCA SUA BUNDA)

FELIPE - (FALA COMO ODETE) Ai ,atrevido! (AO VER CORNÉLIO) Que horror! Meu senhor, há quanto tempo o senhor não escova os dentes, hein? O seu bafo está pior do que o bafo de dinossauro! Sai de perto de mim, sai.

CORNÉLIO - Mai nunca. Isso aí é muié de esvaziá o Pacaembú em dia de jogo de São Paulo e Corinthians, né?

FELIPE- Se o senhor continuar me enchendo o saco eu chamo o meu bofe e ele vai te quebrar a cara, ouviu, seu trash? Não tô podendo, ouviu?

CORNÉLIO - Ouvi, mai num me importo. Pra ficá cocê largo inté a Chifronésia e o Baby que acabou de nascê.

FELIPE- E quem disse que a mona aqui vai ser louca o suficiente pra casar com o senhor. Se me casar com você terão que me internar no Hospital dos psiquiátricos, porque aí vou estar pinel de vez. Desaqüenda, vai... Se não tem aqüé, desaquenda...

CORNÉLIO - (AGARRA O RAPAZ) Ocê vai casá cumigo custe o que custá, muierão bão...

FELIPE - Me solta, seu caipira fedorento. Me solta, seu rascunho do demônio. Socorro... Polícia. Pára de me assuntar, seu ocó trash.

CORNÉLIO - Vou te levá pra casa!

FELIPE - (CONSEGUE SE SOLTAR) Mas antes preciso lhe esclarecer algumas coisas... Primeiro: meus cabelos não são da cor natural.

CORNÉLIO - Num faiz mar.

FELIPE- (PROCURA SEMPRE UMA DESCULPA PARA SE SAFAR) Eu fumo, fumo o tempo todo. Pareço uma maria-fumaça: Piuí... tchuc, tchuc, tchuc, tchuc... (IMITA UMA MARIA-FUMAÇA) Piuí....

CORNÉLIO - Num me importo.

FELIPE - Eu tenho um bofe. Vivo há três anos com um guitarrista de punk-rock.

(FAZ OS GESTOS DE QUEM TOCA GUITARRA E TIRA SONS DESCONEXOS DA BOCA)

CORNÉLIO - Num sô ciumento...

FELIPE - (FAZ UM DRAMALHÃO MEXICANO) Nunca poderei ter filhos...

CORNÉLIO - A gente adota uns par deles.

FELIPE- (PERDE A PACIÊNCIA) Ô anta, você não entende... (TIRA A PERUCA E ENGROSSA A VOZ) Eu sou homem...

CORNÉLIO - (PEGA FELIPE NO COLO E DIZ COM A MAIOR NATURALIDADE) Mai ninguém é perfeito...

FELIPE - (OLHA PARA A MÃO) Ai...

CORNÉLIO - O que foi, muié?

FELIPE - Quebrei minha unha!!!!

(CORNÉLIO SAI COM FELIPE NOS BRAÇOS, QUE ESPERNEIA. TODOS OS JOVENS INVADEM O PALCO E FAZEM A MESMA COREOGRAFIA DA CENA DA DANCETERIA NO PRÓLOGO. ATÉ CHIFRONÉSIA E BABY ENTRAM NA DANÇA. ESTÃO FELIZES, À EXCEÇÃO DE FELIPE, QUE FOI OBRIGADO A VIVER COM CORNÉLIO ETERNAMENTE) FIM

OBS.: Esse texto é um besteirol que trata de uma forma "light' alguns assuntos considerados tabus como a homossexualidade, por exemplo. O espetáculo a ser montado não deve ser preconceituoso. O texto deve vir de uma forma natural sem cair em piadas gratuitas.

 

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Atualizado em: Sex 14 Mar 2008

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