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A MOLÉSTIA AZUL

PERSONAGENS:

YUKIO

PEDRO

KIMITAKE

VELHA

GUEIXA

QUATRO CRIANÇAS


ÉPOCA: Atual

CENÁRIO: Um ciclorama ao fundo do palco que possibilite muitos efeitos de luz. O cenário será dividido em três planos: primeiro, segundo e terceiro plano. O primeiro plano se passa no proscênio com um banco de praça no centro, um jardim e um lago; o segundo plano se encontra em toda a parte central do palco. Neste plano está um tatami, que deverá ser cerca de vinte centímetros mais alto que o palco. Um jardim e um lago à direita central do palco e à esquerda central uma mesa de refeições com dois almofadões bordados. No centro está uma rampa que leva as personagens para o terceiro plano. O terceiro plano é constituído por uma plataforma de mais ou menos um metro e meio de altura. No lado direito desta plataforma está a sala de brinquedos de Yukio contendo livros, bichinhos de corda e muitos jogos. Do lado esquerdo o quarto do mesmo. Na parte traseira desta plataforma duas tapadeiras, uma à direita e outra à esquerda, feitas de madeira, ou outro material qualquer. O centro não deverá ser fechado, pois leva as personagens para os outros aposentos do Palácio. A ação está localizada no Brasil, especificamente no bairro da Liberdade, em São Paulo. As personagens são imigrantes japoneses.

PRÓLOGO

(LUZ SOBE EM RESISTÊNCIA ATÉ A MEIA-LUZ, COM O PALCO NA PENUMBRA. APENAS UMA CONTRA-LUZ AZUL ILUMINA O AMBIENTE. ENTRA UM MENINO DE DOZE ANOS. SEU CORPO MAGRO É COBERTO POR UM QUIMONO BRANCO COM FLORES BRANCAS E NEGRAS. SEUS PASSOS SÃO MIÚDOS. CAMINHA ATÉ A SALA DE BRINQUEDOS. OLHA PARA O AMBIENTE E PEGA ALGUM DE SEUS BRINQUEDOS E FICA OLHANDO PARA O MESMO. DEIXA-O ALGUNS SEGUNDOS DEPOIS. SAI DA SALA DE BRINQUEDOS E CAMINHA PARA O LAGO. PEGA UM PEDAÇO DE PÃO DO BOLSO DO QUIMONO E JOGA O MIOLO NA ÁGUA PARA ALIMENTAR AS CARPAS QUE EXISTEM ALI. TERMINADA ESTA TAREFA, CAMINHA ATÉ UM BALANÇO. NOTA-SE UMA ENORME TRISTEZA EM SEU OLHAR. SENTA-SE NELE E FICA OLHANDO PARA O VAZIO. A COISA MAIS FASCINANTE NO GAROTO É O SEU ROSTO BRANCO, PÁLIDAMENTE LUMINOSO. OS LÁBIOS TAMBÉM QUASE SEM COR; SEUS OLHOS BRILHAVAM COMO UMA LUZ FEBRIL. SUA PELE ERA TÃO ALVA, QUE, ONDE QUER QUE OLHASSE, PARECIA DE PORCELANA A SE AZULAR. SUAS MÃOS TAMBÉM ACOMPANHAVAM AQUELA FRAGILIDADE DE SEU ROSTO. LENTAMENTE COMEÇA A BALANÇAR-SE. POUCO A POUCO VAI AUMENTANDO A VELOCIDADE DO BALANÇO E POUCO DEPOIS, DIMINUI SUA VELOCIDADE E ESPERA O BALANÇO PARAR. O MENINO CONTINUA ALI, FITANDO O HORIZONTE COM UM OLHAR MELANCÓLICO. BLACK-OUT)


CENA 1

(LUZ SOBE EM RESISTÊNCIA NO PRIMEIRO PLANO. SENTADO NUM BANCO ESTÁ PEDRO. OBSERVA AS CRIANÇAS QUE ESTÃO BRINCANDO ALI. UM LEVE SORRISO ESTÁ EM SEU ROSTO AMARGURADO. O HOMEM SENTE A PRESENÇA DE ALGUÉM. OLHA PARA O LADO E VÊ, SENTADA DO SEU LADO UMA VELHA JAPONESA, QUE SORRI PARA ELE. ELA EXPRESSA EM SUA FACE UMA PAZ ENORME. PEDRO CORRESPONDE AO SORRISO E VOLTA A OBSERVAR AS CRIANÇAS)

VELHA - (DEPOIS DE UMA PAUSA) O senhor gosta muito de vir aqui, não?

PEDRO - Sempre que o tempo está bonito eu venho. Numa cidade como São Paulo, existem poucos lugares tão lindos como essa praça.

VELHA - Todos os dias eu o vejo contemplando os pombos... Depois se debruça sobre as águas do lago para olhar as carpas vermelhas... Depois procura este canto, para melhor observar as crianças.

PEDRO - (ADMIRADO) Como descobriu tudo isso?

VELHA - Também venho aqui quando o dia está bonito.

(PEDRO OLHA BEM PARA A VELHA E PERCEBE QUE SEUS OLHOS ESTÃO MAIS MONGÓIS AGORA)

VELHA - O senhor gosta muito de criança?

PEDRO - É a coisa mais linda da vida.

VELHA - Mas gosta mesmo? Jura que gosta mesmo?

PEDRO - Não preciso jurar, porque dentro do meu coração está a verdade. (PAUSA) Antigamente, pintar e desenhar crianças era o que eu mais gostava de fazer.

VELHA - E agora?

PEDRO - Agora não sei. Nada do que faço dá certo e pouca vontade tenho de fazer.

VELHA - Não acredita mais na sua arte?

PEDRO - No momento, não.

VELHA - Por quê?

PEDRO - O desânimo. O desinteresse. O tempo que passa... O peso das mãos sem vontade de nada realizar. Às vezes passo semanas inteiras sem fechar os dedos contra um pincel ou um lápis.

VELHA - Não acredita nos motivos? Na inspiração?

PEDRO - A verdade é que não acredito em mim mesmo. Parece que não desejo mais nada, que cheguei ao meu ponto máximo sem nada realizar, a não ser...

VELHA - O quê?

PEDRO - O limite da mediocridade alcançada. Só.

(TEVE VONTADE DE FUMAR E APALPOU OS BOLSOS VAZIOS. A VELHA SORRIU E RETIROU DO BOLSO DO QUIMONO UM MISTERIOSO MAÇO DE CIGARROS)

VELHA - Quer provar um desses? (PEDRO ANALISOU O ESTRANHO CIGARRO QUE NUNCA TINHA VISTO ANTES) Pode fumar sem susto. Eu também fumarei um.

(ACENDEU O SEU E DEPOIS O CIGARRO DE PEDRO. O GOSTO DO FUMO ENTRAVA SUAVE NOS PULMÕES E POR UM MOMENTO SENTIU UMA PAZ ENORME NO SEU CORAÇÃO. FECHOU OS OLHOS E QUANDO OS ABRIU, PARECIA QUE O CÉU SE TORNARA MAIS AZUL).

PEDRO - São bons esses cigarros.

VELHA - Dão paz e calma. Traduzem um pouco da sabedoria milenar do Oriente. (PAUSA) Eu também adoro essa praça. Os seus pombos, suas árvores, suas crianças e, sobretudo, o Palácio Oriental.

PEDRO - (SEM ENTENDER) O que foi que a senhora disse?

VELHA - Isso mesmo o que acabou de ouvir.

PEDRO - A senhora está querendo se referir ao quiosque chinês?

VELHA - Não, meu filho. Não existe nada igual ao Palácio Oriental...

PEDRO - (CURIOSO) Mas onde?

VELHA - Vou te mostrar o caminho.

(AMBOS SE LEVANTAM. A VELHA E ELE OLHAM PARA O FUNDO DA PLATÉIA)

VELHA - Não lhe disse que é a coisa mais bonita do mundo?

PEDRO - (ENCANTADO) De fato. Tão lindo como um sonho. Infelizmente, ao acordar, toda essa beleza desaparecerá.

VELHA - Nunca mais. Enquanto houver um êxtase puro nas coisas belas, jamais estas coisas desaparecerão...

PEDRO - E agora?

VELHA - Agora nada... Preciso ir. O Palácio Oriental é seu.

PEDRO - (INSEGURO) Por que não vem comigo? Eu tenho um certo medo.

VELHA - Não há razão. (SORRINDO) Você sabe que esse Palácio agora é seu.

PEDRO - (COM RECEIO) Devo me aproximar?...

VELHA - Enquanto você se aproxima, eu digo o meu adeus...

PEDRO - (IMPLORA) Por favor...

VELHA - Minha missão foi cumprida. Você foi procurado no momento certo. Tudo na vida vem na hora em que está para vir.

PEDRO - E se... eu precisar voltar?!

VELHA - Saberá o caminho de ir e vir quantas vezes quiser. Aproveite, é tudo o que eu posso dizer. Cada momento que por aqui passar, ande como se caminhasse pisando em veludo, porque a ternura é doce demais.

(SEM SE VIRAR, ESCUTOU QUE OS PASSOS SE AFASTAVAM, E NO CORAÇÃO NUM LAPSO DE TRISTEZA, SENTIU MAIOR A CERTEZA DE QUE TALVEZ NUNCA MAIS VERIA A VELHA JAPONESA DE ROSTO TÃO SUAVE E BELO. BLACK-OUT).
CENA 2

(LUZ SOBE EM RESISTÊNCIA. PEDRO ENTRA NO PALÁCIO E FICA OBSERVANDO-O POR UM BOM TEMPO. OUVE-SE O GRITO DE UMA CRIANÇA. É YUKIO, O MENINO DO PRÓLOGO, QUE DESCE AS RAMPAS QUASE CORRENDO ENQUANTO UMA VOZ MASCULINA O CHAMAVA EM TOM BEM ALTO).

KIMITAKE - Yukio, Yukio... Cuidado, menino.

(MAS O MENINO NÃO OBEDECIA. CORRENDO QUASE OFEGANTE, CHEGOU-SE A PEDRO E SEGUROU FRACAMENTE EM SUAS MÃOS).

YUKIO - Você veio. Eu sabia que você vinha...

(PEDRO VIU QUE OS OLHOS DA CRIANÇA SE ENCONTRAVAM CHEIOS D'ÁGUA E SUA VOZ SUPLICAVA-LHE AO MESMO TEMPO EM QUE RESPIRAVA ARFANTE E TENTAVA SEGURAR SUAS MÃOS COM MAIS FORÇA)

YUKIO - Por favor, fique. Não vá embora. Eu sei que você não vai embora, não é?

PEDRO - (SORRI PARA O ROSTO ANGUSTIADO DO PEQUENO MENINO) Não, meu filho. Não irei embora.

(PÔS-SE A REPARAR NA PELE DO MENINO. KIMITAKE, UM VELHO VESTIDO À MODA JAPONESA, SE APROXIMOU DOS DOIS. SORRIU FALSAMENTE PARA PEDRO).

KIMITAKE - (DÁ UMA BRONCA EM YUKIO) Yukio, você não pode correr assim. Você sabe que não deve.

YUKIO - Titio, não o deixe ir embora. Não o deixe. Prometa-me.

KIMITAKE - Se você também prometer que sai desse sol e vai se sentar no terraço, eu prometo. (CONTUDO O MENINO PARECIA NÃO QUERER SOLTAR AS MÃOS DE PEDRO) O sol assim forte lhe trará febre e cansaço.

YUKIO - (COM OS OLHOS LACRIMEJANDO) Você fica?

PEDRO - Se você obedecer ao titio, eu juro que fico.

YUKIO - E vem brincar comigo no palácio?

PEDRO - Vou sim.

(YUKIO DESVIROU-SE E CAMINHOU COM CALMA. SUBIU A RAMPA E QUANDO ESTAVA NA METADE DELA, PAROU PARA VER SE PEDRO NÃO DESAPARECERA. E FOI-SE PERDER NO INTERIOR DO PALÁCIO).

KIMITAKE - Como vai, Pedro? (PEDRO ACHA ESTRANHO. COMO ADIVINHARA SEU NOME?) Nós o esperávamos há muito tempo. Meu nome é Kimitake, o Mestre. (SAÚDA-O COM UM CUMPRIMENTO) Foi bom você ter vindo.

PEDRO - Por quê?

KIMITAKE - Com o tempo você saberá. Só lhe pergunto se não sente um agradável bem-estar no coração, sente?

PEDRO - Como há muito tempo não sentia.

(KIMITAKE OLHA PARA OS PÉS DE PEDRO, QUE ESTÁ PISANDO DE SAPATO NO TATAMI. PEDRO AO PERCEBER O FATO, SE LEMBRA DA TRADIÇÃO ORIENTAL E IMEDIATAMENTE DESAMARRA OS SAPATOS, COLOCANDO-OS NUM CANTO DA SALA. KIMITAKE O LEVA ATÉ O QUARTO DE YUKIO).

YUKIO - Pedro, você vai ficar comigo, não vai?

PEDRO - (TORNA A SE IMPRESSIONAR COM OS OLHOS FEBRIS DO MENINO) Um pouco.

YUKIO - Um pouco não. O dia todo. Sabe, nós poderemos de tarde passear no jardim. Se a minha febre não aumentar, assim que o sol se esconder, titio deixa que eu brinque no lago, passeie no jardim e acaricie as flores. Você gosta de flores, não gosta, Pedro?

PEDRO - Muito.

YUKIO - Então seremos grandes amigos.

PEDRO - Mas acho que já somos grandes amigos.

YUKIO - Se somos. (PARA KIMITAKE) Titio, o senhor deixa eu mostrar o palácio à ele?

KIMITAKE - Calma, Yukio. Você precisa descansar um pouco mais. Fez um esforço muito grande hoje. (TOMA O PULSO DO MENINO) Não falei?

(BATE PALMAS. ENTRA UMA GUEIXA TRAZENDO UM COMPRIMIDO E UM COPO D'ÁGUA NUMA SALVA DE PRATA. A GUEIXA PÕE O COMPRIMIDO NA BOCA DO MENINO E LHE ENTREGA O COPO D'ÁGUA)

KIMITAKE - Beba devagar. Agora recline a cabeça e feche os olhos. Não se mova durante os cinco minutos necessários.

(YUKIO SEGURA A MÃO DE PEDRO E OBEDECE MANSAMENTE ÀS ORDENS RECEBIDAS. PEDRO TORNOU A SORRIR)

PEDRO - Não tenha medo. Não vou fugir.

KIMITAKE - (DEPOIS DE UM TEMPO) Pronto, Yukio.

YUKIO - Puxa, titio, como demorou a passar.

KIMITAKE - Que modo de falar, menino. Você aprende o que não devia com muita rapidez.

YUKIO - Posso ir agora, titio. Por favor.

KIMITAKE - Está bem. Mas nada de andar depressa ou subir no segundo pavimento, porque se aparentar cansaço serei forçado a deitá-lo, o que será pior.

PEDRO - Não se preocupe. Tomarei conta dele.

(YUKIO E PEDRO CAMINHAM DE MÃOS DADAS ATÉ A SALA DE BRINQUEDOS)

YUKIO - Primeiro, Pedro, vou te mostrar a minha sala de brinquedos.

(HAVIA UM MUNDO DE JOGOS, LIVROS E SOBRETUDO BICHINHOS DE CORDAS, MACACO TOCANDO BUMBOS. PEDRO PENSOU NAS MILHARES DE CRIANÇAS QUE NUNCA TINHAM VISTO AQUELA MARAVILHA. ENTRETANTO YUKIO SENTOU-SE POR UM MOMENTO E OLHOU-O COM MUITA TRISTEZA)

YUKIO - Contudo, Pedro, nunca me deixaram brincar com uma bola. Eu trocaria tudo isso, e ainda a bola, se a tivesse, para poder nadar no lago, brincar com as carpas...

PEDRO - (DEPOIS DE UMA PAUSA) Você viajou muito?

YUKIO - Quase o mundo todo. Enquanto havia esperança, viajávamos muito.

PEDRO - Esperança, Yukio? Esperança de quê?

YUKIO - (CONFORMADO) Sim, esperança de que me curasse. Visitamos todos os especialistas do mundo. É assim mesmo. Os livros das Ciências Eternas me classificam como um dos milhares de meninos escolhidos para um fim que não poderei explicar a você tão já. Um dia saberá...

PEDRO - Que idade você tem, Yukio? A sua sabedoria me confunde.

YUKIO - Doze anos, apesar da minha fragilidade aparentar menos, não é? Mas não me importo.

PEDRO - E você não quer mais viajar?

YUKIO - Não se trata de querer. Não posso. Minha missão termina aqui. Escolhi o Brasil e essa praça, porque você, Pedro, faz parte da minha missão.

PEDRO - Por que o Brasil?

YUKIO - Por ser diferente. Totalmente diferente do nosso país. E por você. (MOSTRA SINAIS DE CANSAÇO) Pedro, você se zangaria se eu mostrasse o resto amanhã? Estou cansado.

(PEDRO PEGA O MENINO NO COLO E O LEVA ATÉ O SEU QUARTO)

KIMITAKE - (APARECENDO) Fez esforço demais...

YUKIO - Não é isso, titio. Eu só estava um pouco cansado.

KIMITAKE - Vamos tomar essa pílula, descansar quinze minutos e depois pensar em almoçar.

YUKIO - Você não vai embora, não é, Pedro? Você prometeu que ficaria para passearmos quando o sol estiver mais fraco.

PEDRO - Se você dormir bem quietinho, ficarei com você até o entardecer.

YUKIO - Pedro, chegue perto de mim. (PEDRO RECOSTA A CABEÇA NO ROSTO DO MENINO) Era só isso!

PEDRO - Durma em paz, meu lindo príncipe.

(POR UM MOMENTO, PEDRO SENTIU UM ABALO NA CROSTA DO SEU ABANDONO. POR POUCO NÃO DEIXOU A EMOÇÃO TRANSPARECER EM LÁGRIMAS).

CENA 3

(KIMITAKE LEVA PEDRO ATÉ A MESA DE REFEIÇÕES NA SALA. AMBOS FICAM SENTADOS EM ALMOFADÕES. UM LEVE CONSTRANGIMENTO POR PARTE DOS DOIS. KIMITAKE BATE PALMAS QUEBRANDO O GELO. A GUEIXA APARECE E TRAZ NAS MÃOS UMA BANDEJA, QUE DE OFERECE AO PATRÃO. KIMITAKE CAMINHA ATÉ O CENTRO DO PALCO, NO TATAMI E REALIZA A CERIMÔNIA DO CHÁ. ESSE RITUAL DEVERÁ SER FEITO EXATAMENTE COMO OS JAPONESES FAZEM NA SUA ÍNTEGRA. É UMA CENA LENTA E OS ATORES NÃO DEVEM SE PREOCUPAR COM A IMPACIÊNCIA DO PÚBLICO. APÓS A CERIMÔNIA KIMITAKE EXPERIMENTA O CHÁ E OFERECE A PEDRO).

KIMITAKE - Esse chá é uma verdadeira dádiva dos deuses. Experimente, garanto que não irá se arrepender.

(PEDRO PEGA A TIGELA SEM SABER MANUSEÁ-LA. KIMITAKE O CORRIGE, ENSINANDO-O COMO SE FAZ. PEDRO SE INTIMIDA E BEBE O CHÁ)

KIMITAKE - Sou-lhe muito grato por ter vindo.

PEDRO - Na verdade, nem sei porque vim.

KIMITAKE - O destino se encarregará das respostas.

PEDRO - A verdade também é que estou contente por ter vindo.

KIMITAKE - O senhor precisa e deve me ajudar. Há muito tempo que o menino-príncipe não se interessa por coisa alguma ou por qualquer pessoa. O senhor poderia vir todos os dias, ou o maior número de vezes que pudesse? (ENGOLE A EMOÇÃO) Precisamos dar a ele o máximo de ternura. Ainda mais para ele que tem os seus dias contados. (PAUSA) Ele sofre de uma doença denominada cianose, uma espécie de moléstia azul que o poderá levá-lo de um momento para o outro. Não existe idade quando ela precisa vir. (PAUSA) O senhor virá?

PEDRO - Farei o possível...

KIMITAKE - Pagaremos o que quiser para que o senhor venha.

PEDRO - Viria sem cobrar nada. Cobrar o quê? Pelo pouco de ternura que poderei dar e receber?...

KIMITAKE - Ao mesmo tempo receio que o senhor se apegue ao menino. Não quero que, ao partir, Yukio deixe um vazio maior na sua solidão... Quem sabe, se aqui não reencontraria motivos para a sua inspiração? Olhe que o palácio oferece maravilhas dificilmente igualadas. Poderia trazer os seus pincéis, suas tintas, suas telas, enfim, o que quisesse. (PAUSA; DUPLA INTENÇÃO) Mas não será obrigado a vir.

PEDRO - Mas virei. O senhor sabe que estou tremendamente apegado ao menino-príncipe.

YUKIO - (APARECENDO) Já podemos, não podemos, titio?

KIMITAKE - Espere um pouco mais.

YUKIO - Isso é terrível, titio. Quando o sol desaparecer eu logo terei que entrar, porque o frio da tarde vai aparecer.

KIMITAKE - Deixe de reclamar, menino. Você hoje foi formidável. Comeu bem, descansou bastante e recebeu um grande amigo.

(KIMITAKE PEGA UM PEQUENO CHAPÉU DE PALHA E COLOCA NA CABEÇA DA CRIANÇA)

YUKIO - Não gosto de abafar minha cabeça.

KIMITAKE - Não é gostoso mesmo. Mas é necessário. Depois você fica com um rosto tão lindo quando põe esse chapéu. O senhor não acha?

PEDRO - Fica tão lindo que um dia eu pintarei o seu retrato com esse chapeuzinho.

YUKIO - Promete que faz mesmo?

PEDRO - Juro.

YUKIO - Vamos...

KIMITAKE - Vá com calma, não corra, ouviu? (SAI)

(YUKIO PUXA PEDRO PELAS MÃOS E O LEVA ATÉ O LAGO)

YUKIO - (OLHANDO AS CARPAS) Vamos alimentar as carpas, Pedro. Eu trouxe miolo de pão escondido no bolso do quimono. Sempre faço assim. Titio não sabe que enfio a mão na água. (OLHA PARA PEDRO, SORRINDO) Você não vai contar, vai?

PEDRO - Não, não contarei. Mas não permitirei que você fique muito tempo fazendo algo que o prejudique.

(YUKIO ENFIA AS MÃOS NA ÁGUA E JOGA O MIOLO DO PÃO PARA AS CARPAS. TROCA DE MÃO FAZENDO O MESMO. DE REPENTE O MENINO PÁRA E FITA DESESPERADO O ROSTO DE PEDRO)

YUKIO - (GEMENDO BAIXINHO) Pedro, minhas mãos estão geladas. A água está muito fria. Pedro, minhas mãos estão doendo muito.

PEDRO - Vem cá. (AJOELHA-SE E PÕE-SE A MASSAGEAR AS MÃOS DO MENINO) Está melhorando? Você não devia ficar muito tempo com as mãos dentro d'água...

YUKIO - Hoje eu abusei um pouco. Nas outras tardes eu apenas jogo o pão. (PEDRO PRENDE AS MÃOS DA CRIANÇA CONTRA AS SUAS) Que mãos quentes você tem, Pedro!

(YUKIO, TOMADO DE SÚBITA TERNURA, TRAZ AS MÃOS DE PEDRO ATÉ O SEU ROSTO E ALISA-SE NELAS. DEPOIS VIRA A BOCA E BEIJA AS MÃOS DO HOMEM).

PEDRO - Não faça assim, meu príncipe.

YUKIO - Por quê?

PEDRO - Você é um príncipe. Eu é que deveria beijar as suas mãos.

YUKIO - Pedro, você não entende. Eu não estou beijando as suas mãos. Eu beijo as mãos da vida. É tão difícil para mim viver e você está me concedendo a vida. Tão fácil certas coisas para os outros, mas para mim, especialmente para mim, a coisa mais difícil do que se chama vida, é viver...

(CALA-SE EMOCIONADO E SOLTA AS MÃOS DE PEDRO)

PEDRO - Suas mãos estão quentes até demais.

YUKIO - É assim mesmo. (PAUSA) Pedro, você seria capaz de me responder uma pergunta com toda a sinceridade?

PEDRO - Não é do meu feitio mentir.

YUKIO - Eu sou um menino horrível, não sou?

PEDRO - Não é verdade. Você é o menino mais lindo e mais terno que conheci até hoje.

YUKIO - Obrigado, amigo.

(YUKIO PEGA DUAS FLORES)

PEDRO - Que lindas flores, Yukio.

YUKIO - De que flores você fala?

PEDRO - De todas.

YUKIO - Para mim existem duas flores importantes, Pedro. E elas estão aqui. (ABRE A MÃO DIREITA) Essa é a flor branca da vida. (DERRUBA A FLOR NO CHÀO E ABRE A MÃO ESQUERDA) E essa é a mais linda das flores. A mais escura, a mais calma; a flor da ternura e da morte.

(DERRUBA A FLOR. O MENINO PARECE QUE VAI DESMAIAR)

PEDRO - O que foi, meu príncipe?

YUKIO - Pedro, estou me sentindo mal. Estou com frio. Com muito frio. Me leve daqui.

(DESMAIA NOS BRAÇOS DO HOMEM. PEDRO NOTA QUE O MENINO ARDE EM FEBRE E FICA DESESPERADO. BLACK-OUT).
CENA 4

(INTERIOR DO PALÁCIO. PEDRO ESTÁ NO ANDAR DE BAIXO, ANDANDO DE UM LADO PARA O OUTRO. CAMINHA SEM PARAR ESTICANDO AS HORAS DA ANGÚSTIA. ESPERA QUE VENHA UMA BOA NOVA OU QUE O CHAMASSEM PARA VER O MENINO. NO ANDAR DE CIMA, A GUEIXA FAZ COMPRESSAS NO MENINO, QUE DELIRA MUITO. KIMITAKE SAI DO QUARTO DE YUKIO E CAMINHA ATÉ PEDRO).

KIMITAKE - Pedro, você está pálido. Desaparecendo de magro! Precisa comer melhor. (BATE PALMAS. A GUEIXA APARECE) Traga para Pedro uma tigela de arroz bem branquinho...

(A GUEIXA SAI)

PEDRO - Não tenho fome.

KIMITAKE - Mas vai comer... Há três dias e três noites que não põe nada no estômago...

(A GUEIXA APARECE COM UMA TIGELA DE ARROZ BRANQUINHO E FUMEGANTE. PEDRO CAMINHA ATÉ A MESA E SENTA-SE NOS ALMOFADÕES BORDADOS. OLHA DESANIMADO PARA A COMIDA. NUNCA EXPERIMENTARA E NÃO IRIA NUNCA ACERTAR COMER COM OHASHI. KIMITAKE ORDENA À GUEIXA)

KIMITAKE - Traga talheres para o senhor. (PAUSA) Eu comerei sushi. É mais digestivo, acho eu. Se o senhor quiser um pouquinho de sakê é só pedir. O senhor precisa se alimentar bem. Está bastante magro...

(A GUEIXA VOLTA COM OS TALHERES. ENTREGA-OS PARA PEDRO E SOBE PARA O QUARTO DO MENINO. PEDRO COLOCA UM, DOIS, TRÊS BOCADOS DE ARROZ NA BOCA E DESISTE)

PEDRO - Não consigo comer.

KIMITAKE - O senhor precisa comer alguma coisa.

PEDRO - Não, não comerei nada. Ficarei sem comer enquanto o meu menino-príncipe estiver mal.

(A GUEIXA DESCE PARA O ANDAR DE BAIXO E COCHICHA PARA KIMITAKE)

KIMITAKE - Pedro, o menino quer te ver.

(PEDRO, MUITO FRACO, CAMINHA ATÉ O QUARTO DO MENINO. O QUARTO VESTIA-SE DE PENUMBRA. O HOMEM RECEBE ORDENS PARA NÀO DEMORAR MUITO. AO CHEGAR PERTO DO MENINO, FOI PRECISO QUE RECOSTASSE O OUVIDO JUNTO À BOCA DELE PARA PODER OUVIR O QUE ELE DIZ)

YUKIO - Pedro, meu amigo... Eu queria tanto levar você! Queria que fosse comigo visitar o Palácio de Ouro do meu pai.

PEDRO - Um dia eu irei com você. Você me prometeu que me levaria, lembra? Eu esperarei.

YUKIO - Eu vou dormir, Pedro. Preciso dormir muito. Estou muito cansado. (FRACO)

PEDRO - (CHORANDO) Feche os olhos e durma em paz, meu lindo príncipe japonês.

YUKIO - (COM A VOZ SUMIDA) Virei te buscar, meu amigo...

(PEDRO PASSA AS MÃOS DE LEVE SOBRE OS SEUS CABELOS E SENTIU, ALÉM DA FEBRE, O FRAQUEJAR DE SUA PEQUENA RESPIRAÇÃO. AS MÃOS DE KIMITAKE O PUXARAM PARA FORA DO QUARTO)

KIMITAKE - Só os parentes podem assistir ao "adormecer" de um príncipe... (LEVA PEDRO ATÉ A SALA) Agora volte para casa e procure descansar um pouco. Tudo o que poderia fazer em matéria de ternura, o senhor fez.

(PEDRO CAMINHA E SAI DO PALÁCIO. KIMITAKE O OLHA COM DESPREZO. O PINTOR CAMINHA ATÉ A PRAÇA E É ISOLADO POR UM FOCO DE LUZ. KIMITAKE, NO TATAMI, PEGA UM REVÓLVER, O ENGATILHA E APONTA PARA O SEU CORAÇÃO).

PEDRO - (GEMENDO BAIXINHO) Ah, meu príncipe. Meu belo príncipe.

YUKIO - (AGONIZANDO) Pedro, meu amigo, meu grande amigo, eu volto para te levar comigo. Meu amigo, amigo, amigo... (MORRE)

(KIMITAKE, AO MESMO TEMPO, DISPARA A ARMA E CAI MORTO).

PEDRO - (PRESSENTE A DUPLA TRAGÉDIA E GRITA COM TODAS AS SUAS FORÇAS) NNNNNNNNããããããããããããooooooooo!!!

(DESABA NO CHÃO, IMPOTENTE. BLACK-OUT).


CENA 5

(TUDO SE REVESTIA DE PRETO, BRANCO E VERMELHO. VINHAM HOMENS COM MÁSCARAS DO TEATRO NÔ JAPONÊS. EXIBIAM LANTERNAS E ESTAS ILUMINAVAM AS MÁSCARAS. UM QUADRO PINTADO POR PEDRO MOSTRA YUKIO COM O CHAPÉUZINHO. ESTE QUADRO DESCE DO URDIMENTO E DEVERÁ PERMANECER ATÉ O FIM DA PEÇA. UM MENINO TRAJANDO UM QUIMONO BRANCO E COM UMA MÁSCARA DE NÔ NO ROSTO ESTENDE OS BRAÇOS. ESTÁ NO PLANO ALTO. OS HOMENS, NUM RITUAL, AJOELHAM JUNTOS, FICANDO DE COSTAS PARA O PÚBLICO E DE FRENTE PARA O GAROTO. A IDÉIA É PASSAR PARA O ESPECTADOR O ENTERRO DE YUKIO ATRAVÉS DE UMA CENA DE TEATRO NÔ. OS HOMENS SE LEVANTAM E VÃO SAINDO DE CENA. O OLHO DA MULTIDÃO ATRÁS DA MÁSCARA POSSUÍA UMA IMPRESSÃO: A PIEDADE. E POR TRÁS DE TODOS OS OLHOS, O AZUL DO CÉU DOMINAVA, COMO SEMPRE, UM MUNDO DE MISTÉRIO).

EPÍLOGO

(PEDRO ESTÁ SENTADO NO SEU BANCO PREDILETO DA PRAÇA. FECHA OS OLHOS. NÃO QUERIA PELO MENOS NESTE DIA, OLHAR OS POMBOS, NEM OS PEIXES, NEM AS CRIANÇAS QUE BRINCAVAM ALI. NUNCA A CIDADE LHE PARECEU MAIS VAZIA E AS RUAS TÃO SEM RUÍDOS, E A VIDA SEM QUALQUER MÚSICA. SURGE A VELHA JAPONESA E FICA OBSERVANDO-O POR UM BOM TEMPO).

VELHA - (QUEBRA O SILÊNCIO) Por que tanta tristeza? Não gosto de te ver assim. Faz dois dias e duas noites que se encontra aqui neste banco. Sai, volta, volta, sai. Às vezes o vejo ficar até altas horas da noite perdido nos seus pensamentos. E isso faz mal. O senhor está muito doente, muito abatido. (PAUSA) As tardes e noites de julho aparecem ainda mais frias. E essa friagem forte só poderá te fazer mal.

PEDRO - (SEM ABRIR OS OLHOS) Nada mais poderá fazer mal ao meu corpo. Eu já morri.

VELHA - (TIRA UM CIGARRO DO QUIMONO) Quer um cigarro?

PEDRO - Não posso. Se fumar eu passo mal... Ficarei recostado à noite inteira tentando enfiar o ar dentro do pulmão. (ABRE OS OLHOS, SORRI AMISTOSAMENTE E CONTINUA A CONFISSÃO) Sabe, eu não tenho o coração muito bom. O médico me proibiu de fumar e beber.

VELHA - Sendo assim é melhor que não fume... Vou lhe dizer uma coisa. Você deveria se cuidar. Está tão pálido que sua pele está adquirindo um tom de fraqueza azulado.

PEDRO - (OLHA O BRAÇO) É, eu sei.

VELHA - Eu gostava mais quando o senhor aparecia com alegria no rosto e no olhar. Quando vinha aqui, se sentava nesse mesmo banco e se punha a desenhar meninos, peixes, flores, tudo... E ainda o Palácio Oriental.

PEDRO - E a senhora via os meus desenhos?

VELHA - Sempre. O senhor ficava tão distraído que nem notava minha presença. Só uma vez lhe ofereci cigarro e aceitou...

PEDRO - Aqueles desenhos eu os transformava em grandes quadros e pinturas. Eram apenas esboços.

VELHA - E onde estão?

PEDRO - Devem estar no meu atelier. Levei madrugadas trabalhando neles... Agora vou-me embora. A senhora tem razão. Faz bastante frio e não estou muito agasalhado.

VELHA - Posso lhe dizer uma coisa?

PEDRO - Claro que pode.

VELHA - Cuide-se bem, meu rapaz. A vida é uma só. Não gosto de te ver assim. Estou lhe dizendo isso, porque você poderia ser o filho que nunca tive. Mas a verdade é que não gosto de te ver assim, com esse jeito de príncipe doentinho... Tome muito cuidado com... a moléstia azul.

(SORRIU E CAMINHOU. PARA PEDRO, A IMPORTÂNCIA DO VALOR NÃO TINHA MAIS VALOR PARA ELE. QUANDO ADOLESCENTE, FEZ UMA POESIA. SORRIU DA SUA INOCÊNCIA. QUAL ADOLESCENTE QUE NUNCA FEZ UMA POESIA?)

PEDRO - "Sou um bagaço, moído, esfiapado, esmigalhado

Que a gente pisa no chão...

Se algum dia tu fores num caminho

e sentires sob os teus pés

Um bagaço, moído, esfiapado, esmigalhado...

Pisa de leve, sim?

Pode ser o meu coração..."

(POESIAS, POESIAS, POESIAS... E DE QUE VALIA TUDO AQUILO? NADA. SEM ECO, SEM SOM, SEM VIDA. SÓ O VÁCUO DA SOLIDÃO RITMANDO AS HORAS COM AS TRISTEZAS E ESSAS SIM PISANDO O PEITO SEM SOCORRO. FORA-SE A FOME, O SONO E O CANSAÇO. FICAVA ALI, IMPLORANDO MEIGAMENTE).

PEDRO - Yukio, alma de minha ternura, onde anda você? Que saudade eu tenho de você e de suas carpas...

(E RECORDAVA DAS LÁGRIMAS DO MENINO, IMPLORANDO, BEIJANDO AS SUAS MÃOS, PEDINDO PARA VIVER. E O QUE ERA VIVER?... O LUGAR ONDE ELE ESTAVA PARECIA SE AZULAR. UM VULTO, PEQUENO E LIGEIRO, CAMINHAVA PARA ELE. FOI PRECISO PASSAR AS MÃOS NOS OLHOS PARA ACREDITAR NO QUE ESTAVA VENDO... TODO VESTIDO COM UMA ROUPA COR-DE-MEL COM FLORES BRANCAS E NEGRAS. YUKIO CORRIA PARA ELE. DE LONGE JÁ TRAZIA OS BRAÇOS ABERTOS PARA ABRAÇA-LO)

YUKIO - Pedro. Não é sonho, Pedro. Sou eu mesmo. Olhe-me bem...

(O SEU ROSTO TINHA PERDIDO AQUELA TONALIDADE AZUL E DOENTIA DE PORCELANA TRANSPARENTE; SUAS MÀOS ESTAVAM SAZONADAS DE SOL E SUA PELE APRESENTAVA UM AFOGUEAMENTO ROSADO E SADIO)

YUKIO - Eu prometi e quero cumprir.

(TOMA O ROSTO DE PEDRO CONTRA O SEU, ESTREITANDO COM A MAIOR CARÍCIA QUE PODERIA EXISTIR)

YUKIO - Vim buscar você. Iremos para o Palácio de Ouro do meu pai e seremos sempre felizes. Para sempre felizes. Vamos brincar muito e não estaremos mais presos a qualquer condição de dor.

(ABAIXOU-SE E PÔS AS MÃOS NA ÁGUA DO LAGO. O REALISMO DO CENÁRIO DEIXA DE EXISTIR)

YUKIO - Viu, Pedro? Posso quando quiser brincar com a água que não ficarei congelado e não sentirei qualquer dor.

(COM AS MÃOS AINDA ÚMIDAS SEGUROU O ROSTO DE PEDRO E PODE OLHAR ATÉ O FUNDO DE SUA ALMA)

YUKIO - Você se lembra que eu fazia questão de perguntar, de insistir em perguntar, se gostava muito de mim?

PEDRO - Nunca pude esquecer.

YUKIO - Eu sou lindo, Pedro?

PEDRO - Você está cada vez mais lindo, meu amado príncipe.

YUKIO - Você se lembra quando eu perguntava se eu era um menino horrível?

PEDRO - Lembro.

YUKIO - Não queria que em momento algum você me achasse feio...

PEDRO - Eu nunca o achei.

YUKIO - (PEGA AS FLORES DO CHÃO) O que tenho na mão direita?

PEDRO - A flor branca da vida.

YUKIO - (JOGA A FLOR BRANCA NO CHÃO) E nessa outra?

(PEDRO NÃO PODIA RESPONDER DE TÃO FASCINADO QUE ESTAVA)

YUKIO - A flor escura da ternura, Pedro. Essa nós a conservaremos sempre.

(ABRAÇA-SE LONGAMENTE AS PERNAS DE PEDRO. PEDRO SENTIU-SE AJOELHAR PARA RECEBER O ROSTO DE SEU PRÍNCIPE AMADO CONTRA O SEU)

YUKIO - Pedro, eu sou essa flor.

PEDRO - Pois bem. Quando os homens nos entenderem, a nossa missão não poderia ser mais bela. (ESTENDE-LHE AS MÃOS) Vamos?

YUKIO - (SEGURA NA MÃO DE PEDRO. A FLOR NEGRA DEVERÁ ESTAR ENTRE AS MÃOS DELES) Vamos...

(VIRAM-SE DE COSTAS PARA O PÚBLICO E CAMINHAM PARA O FUNDO DO PALCO, NO CENTRO. QUANDO CHEGAM NO TERCEIRO PLANO, A IMAGEM DOS DOIS FICA CONGELADA. UMA FORTE NEBLINA FAZ DESAPARECER AS DUAS FIGURAS. BLACK-OUT).

FIM

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Atualizado em: Sex 14 Mar 2008

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