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CIDADE DOS URUBUS


PERSONAGENS:

KILL
MALU
ÁGUIA
DEAD

e outros personagens do submundo marginal
ÉPOCA: Atual
CENÁRIO: A ação passa-se num ferro velho no Centro de São Paulo, especificamente na Santa Cecília. Ao fundo do palco, um muro de concreto. Logo depois do muro, uma porta de madeira, toda pichada, que conduz para um cômodo. Diversos objetos como latões, cadeira, colchão e uma velha banheira, feita com material leve, além de outras sucatas que estarão espalhadas pelo palco ou empilhadas em cima da outra. Uma enorme lua cheia é projetada na rotunda ou ciclorama. As cenas descritas no proscênio ocorrem fora do ferro velho, sendo assim um espaço neutro - sugerindo as ruas de São Paulo, especificamente debaixo do Elevado Costa e Silva, o Minhocão; e a rua do casarão localizada nas proximidades de Higienópolis.
OBS.: O muro citado na cena 7 está no proscênio e é imaginário. Em hipótese alguma deverá utilizar o muro central, pois descaracterizaria a ambientação do ferro velho.


PRÓLOGO

(PENUMBRA. MÚSICA AMBIENTE DEVERÁ CRIAR UM CLIMA DE SUSPENSE. SOMENTE A LUA CHEIA ILUMINA A CENA VAZIA. A LUA DEVE ESTAR BRILHANDO DESDE O MOMENTO EM QUE AS PORTAS DO TEATRO FOREM ABERTAS PARA A PLATÉIA. APÓS O TOQUE DO TERCEIRO SINAL, AS LUZES DA PLATÉIA SE APAGAM. OUVE-SE NO ESCURO UM SOM ENSURDECEDOR DE UM "HEAVY-METAL". ENTRAM PELA PLATÉIA DIVERSAS FIGURAS DE PRETO. SÃO ELEMENTOS DE ALGUMA GANGUE, CHEIOS DE PIERCINGS E TATUAGENS E COM SPRAYS NAS MÃOS. SOBEM NO PALCO AO MESMO TEMPO EM QUE A LUZ SOBE EM RESISTÊNCIA E VÃO DIRETO PARA O MURO CINZA, FICANDO DE COSTAS PARA OS ESPECTADORES. NUMA COREOGRAFIA, OS JOVENS COMEÇAM A PICHAR O MURO. QUANDO TERMINAM A TAREFA, AFASTAM-SE UM POUCO E AINDA DE COSTAS, FICAM OBSERVANDO A PICHACAO. DE REPENTE, OUVE-SE UMA SIRENE DE POLÍCIA. OS JOVENS ESCONDEM OS SPRAYS E SAEM CORRENDO. A MÚSICA CESSA)

CENA 1

(FOCO EM KILL, UM GAROTO DE 18 ANOS. ESTÁ COM UMA GARRAFA DE VINHO NA MÃO E UM EMBRULHO. ANDA TROPEÇANDO NAS COISAS E RESMUNGANDO)
KILL - É isso aí, mano. Que belo aniversário você teve, hein, ô infeliz? Ninguém se lembrou de você. Nem mesmo sua família: seus pais, irmãos, tios, primos e o caralho... Ninguém para te dar um abraço, um beijo... Foda-se. (FURIOSO) Foda-se! Eu quero que vocês todos se danem! Vocês são todos uns grandessíssimos filhos da puta! Egoístas. Porcos nojentos... Não faz mal. Eu não preciso de vocês, ouviram? Não preciso. Eu posso muito bem comemorar o meu aniversário sozinho.
(DESEMBRULHA O PACOTE. É UM BOLO DE ANIVERSÁRIO, DESSES DE PADARIA. O RAPAZ PEGA DUAS VELINHAS E DEPOSITA NO SEU BOLO DE 18 ANOS. ACENDE A VELINHA E CANTA, BATENDO PALMAS)
KILL - "Parabéns pra você, nessa data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida..."
(DURANTE O CANTO, O RAPAZ FICA COM A VOZ EMBARGADA, POIS SEGURA O CHORO, MAS A EMOÇÃO É MAIS FORTE. QUANDO ASSOPRA AS VELINHAS, KILL CAI NUM CHORO PROFUNDO. FOCO SOBRE ELE DESCE EM RESISTÊNCIA. DO OUTRO LADO DO PALCO, FOCO SOBE EM RESISTÊNCIA SOBRE MALU QUE TRAZ UMA MALA NAS MÃOS)
MALU - (IRADA) Tô indo embora. Podem ficar sossegados porque vocês não vão me ver mais. Agora o que vocês querem que eu faça eu nunca vou fazer! Se o Michel não foi homem o suficiente para assumir a responsabilidade sobre a criança, eu assumo. (ACARICIA A BARRIGA E FALA COM O BEBÊ) A gente vai ser feliz. Muito feliz, longe de toda essa hipocrisia.. (CANTA) "Nana, neném, que a cuca vem pegar..."
(PÁRA DE CANTAR E FICA ACARICIANDO A BARRIGA. TEMPO. LENTAMENTE PEGA A MALA QUE HAVIA DEPOSITADO NO CHÃO E SAI DE CENA. FOCO SOBRE ELA DESCE EM RESISTÊNCIA, AO MESMO TEMPO QUE OUTRO FOCO SOBE EM RESISTÊNCIA, DO OUTRO LADO DO PALCO, SOBRE ÁGUIA, QUE TEM UM CANIVETE NAS MÃOS E TREJEITOS DE QUEM CHEIROU COCAÍNA)

AGUIA - Meu apelido é Águia. Nunca tive nada nesta vida. Já nasci fodido. Matei minha mãe no parto, não sei do meu pai e fui parar num orfanato, mas nunca ninguém quis me adotar. Cresci, fugi de lá e fui buscar meu sustento. Fui pra rua vender o corpo. Sou puto mesmo e adoro esse trabalho. Adoro dar prazer para as pessoas. Traço tudo: mulher, viado, traveco, não ligo, não. Só não dou o rabo... Mas o que eu mais gosto de fazer é roubar. Porra, como é "punk" roubar. A adrenalina vai à mil. O mais engraçado é ver a cara assustada de alguém quando coloco o canivete nas suas costas. (LAMBE A LÂMINA DO CANIVETE E FALA COM O OBJETO) Ao trabalho, maninho. Vamos apavorar os mané.
(SAI)

CENA 2

(KILL ESTÁ NA MESMA MARCAÇÃO DA PRIMEIRA CENA. LUZ GERAL SOBE EM RESISTÊNCIA REVELANDO O FERRO VELHO. O GAROTO PEGA UMA FACA E CORTA O BOLO. LENTAMENTE COMEÇA A COMÊ-LO. ENTRA EM CENA MALU, ASSUSTADA. ESTÁ OFEGANTE E TÊM-SE A IMPRESSÃO DE QUE CORREU MUITO. PÁRA, SEM PERCEBER A PRESENÇA DE KILL. SENTA-SE NUM TAMBOR. TIRA OS SAPATOS E MASSAGEIA OS PÉS. KILL OLHA PARA ELA, ESBOÇANDO UM SORRISO)
KILL - Ei...
(MALU SE VIRA NUM SUSTO)
MALU - (EM PÂNICO) Olha cara, eu entrei aqui porque um infeliz estava me seguindo. Achei que não tinha ninguém aqui. Foi mal. (APRESENTA-SE) Eu me chamo Malu.

KILL - De Maria Lucia, ou Maria Luiza?

MALU - Nada!!!! Malu de Maluca mesmo... (RIEM) Acho que cheguei num momento impróprio, não é?

KILL - (CORTA MAIS UM PEDAÇO DO BOLO) Toma. Pra você.

MALU - Pra mim???

KILL - (ENXUGA RAPIDAMENTE AS LÁGRIMAS DO SEU ROSTO) É. Pega aí. É o meu bolo de aniversário. Hoje fiz dezoito anos.

MALU - (FAMINTA, PEGA O BOLO DA MAO DE KILL E O DEVORA) Bem-vindo à maioridade... Espero que todos os seus sonhos de liberdade se realizem.

KILL - (RINDO, IMITANDO A GAROTA) "Espero que todos os seus sonhos de liberdade se realizem." Bah! Que coisa mais estúpida!!! Não tem nada mais original pra me dizer não, em vez de ficar ditando frases feitas, porra? Tá me achando com cara de otário? Tá tirando uma da minha cara, pirralha? Vá embora, vá... Some da minha frente. Prefiro ficar sozinho do que estar com alguém que não é capaz de expressar os próprios sentimentos.. (MALU FICA PARADA PERPLEXA, OLHANDO PARA KILL) Não ouviu, não? Cai fora....

MALU - (PEGA O BOLO QUE ESTÁ EM SUA MÃO E JOGA NA CARA DE KILL) Toma. Enfia no cu essa porcaria... Não é à toa que está passando o aniversário sozinho. Com certeza ninguém deve suportar um cara escroto, idiota e mal-educado como você. (VAI SAINDO)

KILL - (LEVANTA-SE E SEGURA A GAROTA) Olha aqui, você não sabe com quem você se meteu. Sabe como é meu apelido? Kill... (SABOREIA A PALAVRA) Kill... Você sabe o que essa palavra quer dizer? (TIRA UMA FACA DA CINTURA E APONTA PARA O ROSTO DA GAROTA) Matar, exterminar... Eu adoro ver sangue escorrendo garota. Sinto um tesão enorme. Apesar da minha pouca idade, eu já retalhei muita gente na faca, sacou?, e sem dó. Quem brinca comigo, quem me sacaneia, se fode. Acaba com a boca cheia de formiga e vira ceia de urubu.

MALU - (SEM MEDO ALGUM, ENFRENTA O RAPAZ) Vai, acaba logo comigo. Vamos, o que está esperando? Você não é o matador, o exterminador, bonitão?... É nada. Você não passa de um moleque mimado que ainda mija nas fraldas por fazer coisa errada com medo de apanhar da mamãe... Vai, me mata, Kill. Eu não tenho mais nada a perder mesmo. Tô mais fodida que você, seu desgraçado. E o pior é que dentro de algum tempo o meu bebê vai nascer e aí eu tô fodida de vez mesmo. Anda logo, seu porco.
(QUANDO KILL OUVE MALU DIZER QUE ESTÁ GRÁVIDA, LENTAMENTE VAI ABAIXANDO A FACA ATÉ DERRUBÁ-LA NO CHÃO. FICA IMPOTENTE. POR UM LONGO TEMPO OLHA PARA MALU)
MALU - (COM FAÍSCAS DE ÓDIO NOS OLHOS, GRITANDO) Vamos logo, Kill, me mata, porra!

KILL - (COBRE O ROSTO COM AS MÃOS, CHORANDO) Eu não consigo. Não consigo.

MALU - Você é fraco. O que você sabe sobre a vida, Kill? Por quais sofrimentos já passou pra se sentir assim tão vivido? O que te faz tão seguro de si? (PAUSA) Ah, você não sabe o que é ser abandonada por um homem que te deixa um filho na barriga. Eu amei muito o Michel. No entanto ele só quis se aproveitar de mim: comeu, chupou, gozou, e depois feito laranja, jogou fora o bagaço. É assim que eu me sinto, Kill: um bagaço... Por isso achei melhor sumir do mapa. Estamos na mesma situação, só que existe uma diferença. Você é homem e pode refazer sua vida. Eu não.. Que homem vai querer uma mulher que espera um filho de outro cara?

KILL - E sabe o que é acordar todo o dia ouvindo que eu era um estorvo na vida dos meus pais, que nasci porque a camisinha furou? Eu cresci com a consciência de que não era bem-vindo... Por que eu tenho que pagar pelos erros deles? Eles sabiam o que estavam fazendo. (MAIS CALMO) É tudo mentira. Não passei ninguém na faca, não. Você tem razão, eu não passo de um bebê recém-nascido, uma pessoa que não sabe nada sobre a vida...
(MALU ESTÁ SENTADA NO CHÃO. KILL DEPOSITA A CABEÇA NO COLO DA MENINA)
KILL - Por favor, fica aqui comigo. Eu preciso de alguém do meu lado. Estou tão perdido, tão confuso...

MALU - Tudo bem, eu fico. Eu não tenho mesmo pra onde ir. Eu só preciso de um tempo pra decidir que rumo dar à minha vida.

KILL - (COMEÇA A OBSERVAR A LUA E FICA REFLETINDO) Olhe a lua, que linda! É uma pena que essa cidade perdeu bastante a sua beleza, se transformando num antro poluído e fedorento. A desesperança está no ar e muitas vezes faz a gente esquecer de que estamos vivos...

MALU - Isso vai passar, Kill, é só uma fase.
(OS DOIS SE ABRAÇAM E FICAM OLHANDO PARA A LUA NO CÉU)

CENA 3

(UM CORREDOR DE LUZ AZUL E VERMELHA SOBE EM RESISTÊNCIA NO PROSCÊNIO REVELANDO PESSOAS QUE SE ALOJARAM DEBAIXO DO ELEVADO COSTA E SILVA, O MINHOCÃO. PERSONAGENS COMO ANDARILHOS PROCURANDO COMIDA NO LIXO; PROSTITUTAS FAZENDO PONTO; MENORES INFRATORES CHEIRANDO COLA; DROGADOS FUMANDO MACONHA, CHEIRANDO COCAÍNA OU FUMANDO CRACK; CATADORES DE PAPEL OU DE LATINHAS JUNTANDO-OS NO CARRINHO OU NUM SACO PLÁSTICO; BÊBADOS COM GARRAFAS DE PINGA, DEITADOS OU VOMITANDO... ENFIM, PERSONAGENS DO SUBMUNDO MARGINAL DE UMA CIDADE COMO SÃO PAULO, SE LOCOMOVENDO PELO ESPAÇO CÊNICO. NO OLHAR E NO CORPO ESTÁ EVIDENTE A DESESPERANÇA DESSAS PESSOAS. CABE AO DIRETOR DESENVOLVER UMA CENA DEIXANDO BEM CLARO A FUNÇÃO DE CADA PERSONAGEM E O QUE FAZ ALI. NO ÁUDIO OUVE-SE A MÚSICA-TEMA DO ESPETÁCULO: "CIDADE DOS URUBUS", COMPOSTA POR CARLOS RIBEIRO, QUE ILUSTRARÁ A CENA)

MÚSICA:

A cidade não é feia, debaixo de lua cheia

Todos os morcegos cegos, insetos, inseticidas

E os corpos dos suicidas, tão nadando pelo ar


A cidade não é feia, a cidade é uma teia

A cidade é uma aranha pronta pra te pegar

Ou largar ou pegar, ou pegar ou largar


A cidade é uma ferida, uma infecção de vida

A cidade é uma teta, prostituta que te pariu

A cidade não é feia, mas também não é bonita

A cidade é uma ceia posta para os urubus

(DURANTE A MÚSICA, AS PERSONAGENS VÃO INTERAGINDO ENTRE SI. NO FINAL DA MÚSICA APARECE ÁGUIA. ENCOSTA NUM DOS PILARES DE SUSTENTAÇÃO DO MINHOCÃO, ESPERANDO PARA ASSALTAR ALGUÉM. ENTRA UM VELHINHO. O RAPAZ SEGURA-O E ROUBA-LHE A CARTEIRA. O VELHINHO ASSUSTADO GRITA: "PEGA LADRÃO". TODOS OS OUTROS PERSONAGENS SAEM CORRENDO. ÁGUIA, REVOLTADO, DÁ UM SOCO INGLÊS NO VELHO, QUE SAI CAMBALEANDO, OLHA PARA OS LADOS E SAI CORRENDO)

CENA 4

(AMANHECE. MALU ESTÁ DEITADA NUM COLCHÃO, SOZINHA. ENTRA KILL COM UM EMBRULHO E UMA GARRAFA TÉRMICA. PREPARA UMA MESA IMPROVISADA COM SUCATA PARA O CAFÉ DA MANHÃ. LENTAMENTE SE APROXIMA DE MALU)


KILL - Ei, acorda, preguiçosa...

MALU - (RESMUNGANDO) Que horas são?

KILL - Oito e meia. (KILL FICA OLHANDO PARA ELA)

MALU - (INTIMIDADA) Não faz assim, Kill. Não fica me olhando que eu tô parecendo um monstro...
(KILL SORRI)
KILL - O cara aí da esquina descolou pra gente esses mistos frios e essa garrafa de chocolate quente pro nosso "breakfast".

MALU - (SENTANDO-SE NA MESA) Tô com uma fome do cacete... (COME) Ainda mais agora que eu tenho que me alimentar por dois.

KILL - (DEPOIS DE UMA PAUSA) Posso te fazer uma pergunta?

MALU - Não sendo escatológica nem filosófica, pode sim.

KILL - O que você pretende fazer da sua vida?

MALU - Não tenho a mínima idéia. Estou mais perdida que cego em tiroteio na Paim, na hora do rush.... O que sei é que "não sei" o que vai ser. (LONGA PAUSA) E você, o que vai fazer?

KILL - Também não sei... Malu, eu preciso muito de você. (TERMINA DE COMER O SANDUÍCHE E FICA QUIETO NUM CANTO)

MALU - O que foi?

KILL - (EMBARAÇADO) Eu não quero que você vá embora. Se eu perder você, aí a minha vida virar uma merda completa.

MALU - (PISANDO EM OVOS) Kill, eu sei o quanto você está sofrendo, mas vamos ser realistas, vai. Não vai dar certo. Põe a mão aqui... (KILL PÕE A MÃO EM SUA BARRIGA) Aqui tem um bebê, Kill, de um homem que me jurou amor eterno e quando conseguiu o que queria saltou fora. Desculpa, mas eu acho que você está misturando as coisas...

KILL - (SURPRESO, COM UM SORRISO) Mexeu, Malu. Mexeu. Mexeu... (GARGALHANDO) Ele gosta de mim... Eu sei, sinto... Não me importa que esse bebê seja filho de outro homem, mas eu quero ser o pai dele. Nunca senti uma emoção tão grande em toda a minha vida. (BEIJA A BARRIGA DE MALU E FALA COM O BEBÊ) Ei moleque, você não tá sozinho, não. Eu vou cuidar de você. (RECOSTA A CABEÇA NA BARRIGA DA GAROTA) Estou ouvindo o bater do coraçãozinho dele...

MALU - Não se iluda, Kill, que pode ser pior... Como você pode assumir uma criança, sendo que nem você nem eu temos onde cair mortos? Vamos viver do quê? Roubando, matando?

KILL - Eu encaro qualquer trampo, gata, mas essa criança não vai ficar desamparada.

MALU - Como a gente vai amparar alguém se não temos nenhuma estrutura pra isso?... Cai na real. (PAUSA) Eu tive pensando: quem vai dar emprego para uma mulher grávida? E daqui pra frente a tendência é piorar. Sem emprego, sem casa, sem comida... Se for pra viver assim, o melhor que eu teria a fazer era não deixar que esse bebê viesse ao mundo.

KILL - (IRADO) Cala a boca. Que você nunca mais repita essa asneira, caralho. (MAIS CALMO) Me dá uma chance: uma só.

MALU - É tão difícil pra mim. Você não acha que seria loucura assumir uma criança de uma mulher que você acabou de conhecer? E eu também mal te conheço. E eu não acredito mais em amor. (EMBARAÇADA) Olha, obrigada por tudo, mas eu vou embora. É o único jeito que encontrei de não te sujar e de sair limpa dessa história. Vou tentar reconstruir minha vida. Faça o mesmo, Kill.... Cada vez que olhar para a lua no céu, vou me lembrar de você. (BEIJA O RAPAZ NO ROSTO. KILL ESTÁ INERTE) A gente se tromba...
(PEGA A MALA E SAI. KILL SE SENTE A PIOR DAS CRIATURAS. CHUTA UM TAMBOR E CHORA)

CENA 5

(ENTRA EM CENA ÁGUIA. ESTÁ COM UM MAÇO DE DINHEIRO NAS MÃOS)
ÁGUIA - E aí, Kill? (PERCEBE QUE O RAPAZ ESTÁ MELANCÓLICO) Qualé, bicho, curtindo uma deprê? Sai dessa, maluco... O que aconteceu, sangue bom?

KILL - Dá um tempo, cara. É problema meu.

ÁGUIA - Olha só o que eu descolei pra gente... (JOGA O DINHEIRO PARA KILL) Uma graninha que eu roubei de um velhinho pra gente passar a semana.

KILL - Pô, foi roubar justo um velhinho, cara?

ÁGUIA - Ihh, tá dando uma de bom samaritano? Logo você?

KILL- É que eu não acho legal roubar um velho.

ÁGUIA- Tô te estranhando. Por que tá bancando o bonzinho agora?

KILL - Deixa pra lá. O que manda?

ÁGUIA - Antes de mais nada queria te desejar um feliz aniversário atrasado.

KILL - Vá se foder.

ÁGUIA - Opa, é nóis. Peguei uma mina agora, tão apertada, mas tão apertada, que deixou meu pau todo esfolado.

KILL - (RI. DEPOIS DE UMA PAUSA) Tem farinha aí?

ÁGUIA - Tá na mão.
(TIRA UM PAPELOTE COM COCAÍNA. KILL PEGA O PÓ, FAZ UMAS CARREIRINHAS E CHEIRA)
KILL - Isso é pra esquecer...

ÁGUIA - O quê?

KILL - A vida filha da puta que eu levo e também uma mina que conheci...

ÁGUIA - E aí, fodeu?

KILL - Que nada! Séria pra caralho.

ÁGUIA - Não existe mulher séria, cara. Todas são putas de primeira. E aí?

KILL - Só trocamos uma idéia, e quando estava caidaço por ela, ela foi embora. Por que as mulheres são assim, hein?...

ÁGUIA - Porque são todas falsas, cara. Vêm com aquele papinho sedutor, faz a gente gamar e depois tira o cu da reta. Elas têm o hábito de dizer "eu te amo" como quem diz "bom dia". Atiram pra todo o lado, são verdadeiras metralhadoras giratórias e só sossegam quando acertam o alvo. Vagabas de primeira. São oportunistas e vivem atrás um babaca pra se encostar e ficar dependendo dele o resto da vida. Mas e aí?

KILL - Ela tinha saído de casa porque o desgraçado do namorado dela tinha posto um filho na sua barriga e depois não queria assumir o que fez...

ÁGUIA - Tá vendo? Interesseiras. É isso o que elas são... E você ia assumir o filho de outro cara?

KILL - O que é que tem?

ÁGUIA - Tu é muito idiota mesmo. Mano, cai na real.

KILL - Você não tem idéia da sensação maravilhosa que é sentir o bebê se mexendo... Meu, foi a maior emoção do mundo pra mim. E outra, eu tava disposto a criar o bebê e a menina. Você não sabe o que é ...

ÁGUIA - Uma buceta? Claro que sei. Já comi muitas. E pelas minhas contas devo ter um montão de filhos espalhados por aí.

KILL - E não assumiu a responsa?

ÁGUIA - Não sou tonto. Não quero estragar a minha vida. E como vou ter certeza que o filho é meu? Como vou saber se a mina não dá pra outros caras? Eu, não. Quero curtir minha vida, comendo todas as menininhas, e não ter ficar agüentando choro a noite inteira e tendo que me foder pra sustentar a infeliz da criança. Já não basta a quantidade de criança que vive pior do que a gente? Andando pelados no meio do fogo cruzado, sujando o pé na rede de esgoto e morrendo de fome? Pra mim deviam era castrar esse povo todo para parar de nascer tanto delinqüente.

KILL - O primeiro a ser castrado deveria ser você.

ÁGUIA - Por que eu? Não tenho culpa se as mulheres abrem as pernas pra mim. E elas é que são culpadas se não tomam pílulas.

KILL - E você por não usar camisinha.

ÁGUIA - Chupar bala com papel?! (PAUSA) Ih, o cara, meu. Cheio de moral. Esse papo tá pior que teatrinho de igreja: temos que passar uma mensagem para esse povo, temos que dar lição de moral. Isso tudo é folclore. Ninguém pode dar lição de moral em ninguém porque ninguém presta. São todos uns pobres fodidos e mais sujos do que pau de galinheiro. Essa é a nossa vida, irmão... (PAUSA) Mas vamos mudar de assunto. Eu tenho uma proposta pra ti.

KILL - Que proposta?

ÁGUIA - Mas acho que você não vai aceitar, porque você está seguindo o caminho do bom cristão.

KILL - Não torra, porra. Fala logo.

ÁGUIA - Sabe aquele casarão aqui em cima, em Higienópolis? (KILL ACENA A CABEÇA) Pois então. Os donos saíram de viagem e a casa tá sozinha... Hoje à noite a gente entra na casa e faz uma limpeza lá. Topa?

KILL - Deve tá cheio de alarme lá e deve ter algum vigia. Ricos, como são não vão deixar um casarão daquele sem vigia.

ÁGUIA- Pára de agourar, porra... Então?

KILL - Eu não sei.

ÁGUIA- O mundo é dos espertos. E se a gente não agir como tal, vamos parar na lata do lixo como muita gente.

KILL - (PAUSA SEGUIDA DE UM SUSPIRO) Beleza. Eu topo. Já estamos podres mesmo. O que a gente tem a perder?
(AMBOS REALIZAM UM CUMPRIMENTO. ÁGUIA ESCONDE O DINHEIRO NUMA LATINHA E SAEM)

CENA 6

(MALU ENTRA COM A MALA)
MALU - (CHAMANDO) Kill. Kill... Eu voltei. Pensei melhor e quero ficar com você. Não adianta a gente ficar lutando contra o coração. Você também é muito importante pra mim e eu quero que o Michel se dane. (PERCEBE QUE KILL NÃO RESPONDE) Kill, você tá aí? Kill... Deve ter saído. Mas não faz mal. Eu vou te esperar o tempo que for necessário.
(NESSE MOMENTO APARECE UM RAPAZ VESTIDO DE PRETO. ESTÁ COM UM COLETE ABERTO, E UMA CALÇA ESFARRAPADA. ATENDE POR DEAD. TEM UMA LATINHA DE THINNER NA MAO. MALU SE ASSUSTA)
MALU - Quem é você?

DEAD - Dead.

MALU - O que você quer?

DEAD - (APERTA O PÊNIS) Isso responde a sua pergunta?

MALU - Você acha que eu sou o quê, hein?

DEAD - Uma putinha muito da gostosa que vai dar pra mim.

MALU - Cai fora, cara. (DEAD SE APROXIMA) Não se aproxime. Não chegue perto.

DEAD - Sabia que essa sua voz aumenta ainda mais o meu tesão?

MALU - Vou chamar meu namorado. (GRITA COMO SE KILL TIVESSE ALI) Kill... Kill...

DEAD - Não tem ninguém aqui. Eu vi seu macho saindo com um cara e vi você entrar em seguida. (SEGURA A GAROTA)

MALU - Tire suas mãos nojentas de cima de mim.

DEAD - Que pele macia, cheirosa, gostosa... Não adianta fingir. Eu sinto que você treme todinha quando lhe encosto a mão.

MALU - Se eu tremo é de nojo, de raiva.

DEAD - De desejo, isso sim, de tesão.

MALU - (COMEÇA A GRITAR) Socorro! (SE ESPERNEIA)

DEAD - (SEGURANDO FORTEMENTE A GAROTA) Cala a boca, cadelinha. Será que eu vou precisar te amordaçar? (DEITA EM CIMA DA GAROTA) Seria uma pena porque aí eu não poderia ouvir os seus mugidos, enquanto eu estiver te fodendo, sua vaca!

MALU - Meu namorado vai te matar!

DEAD - Mas antes eu vou te foder.

MALU - Me solta, eu tô grávida!

DEAD - Não tem problema. Eu como o seu cu.
(MALU CONSEGUE SE DESVENCILIAR, MAS DEAD, POR SER MAIS ÁGIL E MAIS FORTE CONSEGUE PRENDÊ-LA NOVAMENTE. HÁ UMA LUTA. MALU ARRANCA O BRINCO DE DEAD. GRITANDO DE DOR, O RAPAZ ESBOFETEIA A GAROTA E COMEÇA A SE DESPIR COM UMA MÃO E COM A OUTRA SEGURA A GAROTA. EM SEGUIDA, DESPE MALU. A GAROTA, DESESPERADA, CHORA, GRITA, IMPLORA. DEAD, CADA VEZ MAIS SÁDICO TENTA PENETRÁ-LA, SEM ÊXITO. MALU ENCONTRA UMA BARRA DE FERRO, E SEM PENSAR DUAS VEZES, ACERTA NA CABEÇA DO CARA, QUE SE CONTORCE DE DOR. A GAROTA COM MUITA RAIVA ACERTA MAIS UMA VEZ. O RAPAZ SANGRA E CAI DESMAIADO)
MALU - (ESPANTADA) O que foi que eu fiz? Merda...
(CHEGA PERTO DELE. QUANDO VAI TOCÁ-LO, DEAD RECUPERA OS SENTIDOS E VEM PRA CIMA DE MALU, SE ESVAINDO EM SANGUE. MALU AINDA MAIS DESESPERADA, DESFERE UM NOVO GOLPE, BEM MAIS FORTE NA NUCA DO RAPAZ QUE DESTA VEZ, CAI MORTO)
MALU - (CHEGA PERTO DE DEAD E CONSTATA A SUA MORTE) Eu matei o cara... (CAI EM SI) Eu matei o cara, porra!!! E agora, o que faço?
(MALU, DESESPERADA, PEGA UMA BANHEIRA VELHA E COM UM ESFORÇO ENORME COLOCA EM CIMA DO RAPAZ, ESCONDENDO-O JUNTO COM A BARRA DE FERRO. TEM UMA CRISE DE CHORO E SAI CORRENDO)
CENA 7

(FOCO SOBRE O PROSCÊNIO. É NOITE. ENTRAM KILL E ÁGUIA FUMANDO. OLHAM PARA TODOS OS LADOS. URINAM NA PAREDE E PARAM NA PORTA DO CASARÃO)
ÁGUIA- Tá limpo!

KILL - Tá. Vai fundo que eu fico aqui vigiando e pulo logo em seguida.
(KILL FAZ ESCADINHA PARA ÁGUIA, QUE PULA O MURO. EM SEGUIDA, KILL TAMBÉM PULA. TEMPO. OUVE-SE LATIDOS DE UM CACHORRO ENFURECIDO, SEGUIDO DE UM ALARME. OUVE-SE EM "OFF" A VOZ DE KILL E ÁGUIA)
KILL - Tamo fodido. Sujou, cara. Vamos embora.

ÁGUIA - Não me empurra, caralho. Eu sei o que eu faço.

KILL - O alarme. Daqui a pouco vai estar toda a polícia atrás da gente. Vamos embora, maluco...

ÁGUIA- Não...

KILL - Você disse que não tinha ninguém aqui. O vigia tá seguindo a gente armado.
(OUVE-SE UM TIRO. KILL PULA O MURO)
KILL - (GRITANDO) Corre, Águia...
(QUANDO ÁGUIA ESTÁ EM CIMA DO MURO DO CASARÃO, OUVE-SE OUTRO TIRO. ÁGUIA SE CONTORCE DE DOR E PULA O MURO. A BALA ACERTOU A SUA PERNA)
KILL - Corre, cara.

ÁGUIA - Não consigo. O desgraçado acertou a minha perna. AAAAAAiiiiiiiiiii.....
(KILL PEGA ÁGUIA NO COLO)
KILL - Vamos pro hospital.

ÁGUIA- Nem fodendo. Pra dar entrada lá tem que fazer o BO. A essas horas todos os gambés já tão sabendo da tentativa de assalto...

KILL - Vamos pra onde, então?

ÁGUIA- Pro ferro velho. Lá a gente se vira. AAAAAAiiiiii....
(KILL DÁ UMA VOLTA PELO PALCO E ENTRA NO CENÁRIO DO FERRO VELHO. PÕE ÁGUIA NUM COLCHÃO E PEGA UMA CAMISETA BRANCA. RASGA-A E FAZ DELA UMA ATADURA, QUE PÕE SOBRE O FERIMENTO)
KILL - Você perdeu muito sangue. Vamos ver se isso consegue estancar essa porra...

ÁGUIA - Eu tô chapado, cara. Parece que eu fumei um mescladão...

KILL - Fica calmo. Eu vou pegar a caixinha de primeiros socorros...

ÁGUIA - Eu vou morrer, Kill.

KILL - O cacete. A bala só pegou de raspão. .
(KILL ESTÁ AJOELHADO, COM A CABEÇA DE ÁGUIA NO COLO)
ÁGUIA - Kill, você é o irmão que eu nunca tive. Eu nunca disse isso pra você, mas eu te curto muito, mano. Eu é que fui um filho da puta com você, fazendo você brigar e romper com sua família. É muito estranho eu dizer isso, mas é verdade...

KILL - Não é hora de fazer dramalhão mexicano...

ÁGUIA- Ainda bem que o tiro pegou em mim. Se pegasse em você eu nunca iria me perdoar.

KILL - (ABRAÇA O AMIGO) Agora descanse um pouco e deixe de fazer dramalhão. O que tiver que acontecer, acontece. E depois da cagada feita, a bosta não volta pro cu.
(SAI. LOGO EM SEGUIDA, O RAPAZ VOLTA COM UMA CAIXINHA DE PRIMEIROS SOCORROS. FAZ UM CURATIVO NO RAPAZ.)
KILL - Pronto... Tá melhor?

ÁGUIA - Tô... Valeu, irmãozão.

KILL - (PEGA ÁGUIA NOS BRAÇOS) Vou te levar pro quarto. Lá você pode ficar mais tranqüilo.
(LEVA O AMIGO PARA O QUARTO, QUE FICA NO FUNDO DA CENA, NOS BASTIDORES. VOLTA. SENTA-SE E ACENDE UM CIGARRO. OLHA PARA UM CANTO E VÊ A MALA DE MALU E ACHA ESTRANHO)
KILL- A mala da Malu, aqui??? Eu devo estar mal da idéia!!!
(SUSPIRA PROFUNDAMENTE. RECOSTA A CABEÇA NO ENCOSTO DE UMA CADEIRA, FICANDO PENSATIVO)

CENA 8

(LUZ SOBRE O PROSCÊNIO. ENTRA MALU. ELA ESTÁ PERDIDA, INDO PARA LUGAR NENHUM. JÁ NÃO CONSEGUE RACIOCINAR. PÁRA NO CENTRO DO PROSCÊNIO E SE ESPARRAMA NO CHÃO. SEUS OLHOS ESTÃO CHEIOS DE LÁGRIMAS. FICA UM TEMPO COM A CABEÇA BAIXA. NESSE MOMENTO OUVE-SE NO ÁUDIO A SUA PRÓPRIA VOZ, DIZENDO: "ASSASSINA". COMEÇA NUM SUSSURO E BEM LENTO. ESSA PEQUENA FRASE É REPETIDA INÚMERAS VEZES, NUM CRESCENDO E COM UM RITMO MAIS ACELERADO. A PARTIR DO MOMENTO EM QUE AS FRASES VÃO TENDO UM ANDAMENTO MAIS ACELERADO, SUA VOZ É MESCLADA COM AS VOZES DE OUTRAS PESSOAS, ENTRE CRIANÇAS, HOMENS E MULHERES ATÉ FICAR NUMA ALTURA INFERNAL. A IDÉIA DESSA CENA É MOSTRAR COMO ESTÁ A CONSCIÊNCIA DA GAROTA. POUCO A POUCO AS VOZES VÃO SE JUNTANDO, FICANDO DESCONEXAS, ONDE NÃO SE ENTENDE MAIS NADA. APENAS UMA POLUIÇÃO SONORA, QUE SE TORNA INSUPORTÁVEL. MALU, NO SEU LIMITE, GRITA COM TODAS AS FORÇAS, FAZENDO CESSAR AS VOZES)
MALU- NNNNNNNNãããããããããããoooooooooo!!!
(QUASE SEM FORÇAS, MALU SE LEVANTA E SAI DE CENA)

EPÍLOGO

(MALU ENTRA CORRENDO NO FERRO VELHO. KILL AO VÊ-LA, SE LEVANTA. A GAROTA ABRAÇA KILL)
MALU - Que bom que eu te encontrei! Kill, você me perdoa?

KILL - Perdoar o quê?

MALU - A minha atitude. Eu não devia te deixar. Agora eu tenho certeza que é você quem eu quero... Foda-se o Michel. Por favor, me abrace forte.
(KILL ABRAÇA MALU. LENTAMENTE OS DOIS SE ENTREGAM NUM LONGO E APAIXONADO BEIJO. KILL PÕE A MÃO NA BARRIGA DE MALU)

KILL - Está vendo? Ele gostou da idéia... (PERCEBE QUE MALU ESTÁ NERVOSA) O que foi? Por que você tá tremendo?

MALU - Eu tô fodida...

KILL - (AFLITO) Fala logo, você tá me deixando preocupado..

MALU - Eu pensei muito sobre a gente hoje, e cheguei à conclusão de que quero começar de novo tendo você ao meu lado. Quando cheguei aqui, você tinha saído e aí... (NÃO CONSEGUE MAIS FALAR)

KILL - E aí?

MALU - Entrou um cara aí e... (VAI SE DESESPERANDO A MEDIDA QUE FALA) disse que iria trepar comigo... Eu falei de você, disse que estava grávida e ele nem aí. Me senti uma imunda quando o porco deitou em cima de mim e começou a arrancar a minha roupa e esfregando aquele pau seboso em mim. Parece que, não sei, parece que o diabo entrou no meu corpo e fez com que eu pegasse uma barra de ferro e quebrasse a cabeça do filho da puta...

KILL - E o que você fez com o corpo do infeliz?

MALU - Está aqui no ferro velho.

KILL - Onde?

MALU - (APONTA A BANHEIRA) Debaixo daquela banheira.
(KILL LEVANTA A BANHEIRA E VÊ O CORPO DE DEAD)
MALU - Você conhecia ele?

KILL - Era um nóia que vivia naquela viela. (FALA COM O CADÁVER) Viu só, nóia? Virou rango pros urubus...

MALU - E onde vamos enterrar o desgraçado?

KILL - Enterrar dá muito trabalho. Vamos colocar ele no porta-malas do meu carro e jogar no Tietê. Pronto!

MALU- E a família dele? Podem dar queixa na polícia!!!

KILL - E um cara como ele tem família? Ele era um vagabundo miserável que vivia de pau duro correndo atrás das garotinhas, viciado em thinner e que puxava um ronco debaixo da caixa d'água. Me ajuda aqui.
(MALU E KILL PEGAM O CADÁVER E O COLOCAM NO CARRO QUE ESTÁ FORA DE CENA. VOLTAM E LAVAM AS MÃOS)
KILL - Pronto. Agora é só jogar o desgraçado no rio.

MALU - (CRISE DE CHORO) Ai. Não sei se vou suportar viver com esse peso a vida inteira.

KILL - (DOCEMENTE SEGURA O ROSTO DA GAROTA) Escuta, Malu, você matou esse pau no cu pra se defender de um crime que ele iria cometer com você. Agiu em legítima defesa, porra! (BEIJA A GAROTA) Melhorou?

MALU - Acho que sim. (PAUSA.OLHA PARA A LUA NO CÉU, QUE ESTÁ PRATICAMENTE COBERTA PELAS NUVENS) Que bosta! Olhe como a lua tá feia hoje. Deixa esse clima sombrio como se anunciasse uma nova desgraça!

KILL - Vira essa boca pra lá, porra! (PAUSA) Depois que você foi embora eu fiquei louco, não tinha a mínima idéia do que fazer. Até que apareceu o Águia e me chamou pra assaltar um casarão aqui em cima. Quando a gente entrou na casa, o alarme disparou e o vigia saiu correndo atrás da gente com um berro na mão. Eu pulei o muro primeiro, mas o Águia ficou atrás e acabou atingido com um tiro na perna... Foi foda,

MALU - Mas e o seu amigo que levou tiro na perna?

KILL - Tá lá dentro. (CHAMA ÁGUIA) Ò Águia, vem cá, mano. Quero te apresentar a minha mina, brou...
(MALU ESTÁ DE FRENTE PARA O PÚBLICO E DE COSTAS PARA ÁGUIA. O RAPAZ ENTRA E KILL APRESENTA MALU)
KILL - Esta é a Malu, Águia. Minha mina!!!!
(MALU VIRA-SE E AMBOS, ÁGUIA E ELA TOMAM UM GRANDE SUSTO)
AGUIA- (INCRÉDULO) Eu devo estar tendo um pesadelo!

MALU - Você??????????????

KILL - (SEM ENTENDER) Peraí, vocês já se conhecem?

MALU - Infelizmente.

KILL - De onde?

ÁGUIA- Da cama...

MALU -...onde ele tirou minha virgindade, me engravidou e depois me deu um pé na bunda.

KILL - Então você é...?

MALU - É ele mesmo, Kill. O Michel, esse filho da puta!

ÁGUIA - Com que moral você fala assim de mim, sua cadela!

KILL - Cadela é a puta da sua mãe, (COM ASCO) Michel, que teve a infelicidade de te colocar no mundo... Como é que eu ia saber que era você, não é mesmo? Eu te conheci pelo apelido, sempre Águia, sempre Águia. Como você teve coragem de fazer isso, seu filho da puta? Belíssimo discurso aquele seu sobre o que você fazia com as mulheres, né? E eu aqui, sem saber que você estava falando da Malu... O meu melhor amigo. "Amigo". Vai tomar no cu, seu filho da puta. Crie vergonha nessa cara imunda.
(COM MUITA FÚRIA, KILL ACERTA UM SOCO NA CARA DE ÁGUIA, QUE CAI NO MEIO DE UNS LATÕES. MALU TENTA ACALMAR KILL)
MALU - Calma, Kill.

KILL - Não se mete, Malu. Agora o problema é entre eu e esse merda... Levanta, seu bosta, levanta. Eu devia te deixar aí, sangrando feito um porco e não ficar me preocupando com você, correndo pra cuidar desse rombo da sua perna. Queria que desse uma gangrena e que você precisasse amputar essa porra... E que gangrenasse seu pau para que ele caísse e você não pudesse foder mulher alguma... Levanta, vem lutar comigo. Vem, me enche de porrada, vai...

MALU - Deixa quieto, Kill. Ele tá ferido...

KILL - E você? E eu? Como é que a gente tá, Malu?
(QUANDO KILL FALA COM MALU, ÁGUIA PEGA UMA FACA AFIADA E VAI EM DIREÇÃO DE KILL)
MALU - Cuidado, Kill...

ÁGUIA - (GRITANDO) Eu odeio vocês...
(HÁ UMA LUTA VIOLENTA ENTRE KILL E ÁGUIA. KILL SEGURA A MÃO DE ÁGUIA E ESTE FAZ DE TUDO PARA ESFAQUEAR O OUTRO. NUM MOMENTO DE DISTRAÇÃO DE KILL, ÁGUIA DESFERE UM GOLPE NO BRAÇO DELE, ABRINDO UM TALHO GIGANTE. JORRA SANGUE. KILL CAI NO CHÃO, MEIO GROGUE. ÁGUIA VAI NA DIREÇÃO DE MALU, QUE ESTÁ ATERRORIZADA. APONTA A FACA PARA A GAROTA E CAMINHA LENTAMENTE EM SUA DIREÇÃO)
KILL - (BERRA) Corre, Malu...
(ÁGUIA JOGA A FACA NO CHÃO)
ÁGUIA - Não, Malu. Eu não vou te matar. Quero te ver bem viva... Se você morresse, como eu iria tirar um barato da sua cara, vagabunda? Como eu iria sentir esse seu cheiro de cadelinha no cio, implorando minha rola? Como eu iria sentir essa sua boquinha de veludo, me chupando? Eu vou te deixar viver, piranha. Mas sem essa criança...

KILL - Não mexa com meu filho.

ÁGUIA- Esse filho é meu. Infelizmente essa porra que tá aí dentro saiu do meu saco. E você vai tirar, Malu.

MALU - Nunca!

ÁGUIA - Vai, sim. Eu não vou querer que um filho meu saia de você e que seja criado por esse aí. Você vai tirar por bem ou por mal.

MALU - Nunca...
(HÁ UMA PEQUENA PAUSA. ÁGUIA FICA OLHANDO PARA MALU E LENTAMENTE VAI FECHANDO OS PUNHOS)
AGUIA - Se não é por bem, vai ser por mal.

MALU - (SUSSURA) Não, Michel

KILL - (GRITA) Cuidado...
(ÁGUIA DÁ UM SOCO VIOLENTO NA BARRIGA DE MALU, QUE SE CONTORCE DE DOR E CAI. ÁGUIA SAI CORRENDO,PEGA O CARRO DE KILL, SEM SABER QUE O CORPO DE DEAD ESTÁ LÁ, E SAI EM DISPARADA. OUVE-SE UMA DERRAPADA BRUSCA. MALU COMEÇA A SANGRAR. KILL SE LEVANTA, CAMINHA ATÉ A PORTA E GRITA COM TODAS AS SUAS FORÇAS)
KILL - Desgraçado!!!
(KILL SE VOLTA PARA MALU, QUE ESTÁ GEMENDO)

MALU - Eu tô perdendo o bebê, Kill.

KILL - Não tá. (COMEÇA A CHORAR)

MALU - Tô. Sei, sinto. (SE CONTORCE) Ai, que dor... (BERRA) Que uma praga caia sobre você, Michel!!!!!!!!!!

KILL - Fica calma, eu vou te levar pro Hospital...

MALU - Não precisa, Kill. Não precisa... O nosso bebê está morto! Eu tô abortando...
(KILL ABRAÇA MALU E AMBOS CHORAM BUSCANDO AMPARO UM NO OUTRO. LUZ E CONTRA-LUZ DESCEM EM RESISTÊNCIA FICANDO APENAS UM FOCO SOBRE AS DUAS FIGURAS. FOCO LENTAMENTE DESCE EM RESISTÊNCIA E O QUE SE VÊ É A UMA LUA CHEIA DO COMEÇO DO ESPETÁCULO, SÓ QUE AGORA, ESTÁ ENCOBERTA POR NUVENS NEGRAS)

FIM


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Atualizado em: Sex 14 Mar 2008

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